domingo, março 02, 2008

Cartões de crédito só para maus pagadores

O Egg e o Goldfish são alguns dos bancos britânicos acusados de anular ou limitar o uso de cartões de crédito aos bons clientes, aos que pagam a sua conta a tempo e horas. Os clientes que pagam tarde, pagam juros, e mais juros pagam quanto mais tarde pagarem, são esses os clientes que dão mais lucro à banca nos serviços de cartão de crédito.
Esta notícia da BBC é um exemplo perfeito da ilusão da crença na bondade da mão invisível de Adam Smith, a crença de que o mercado é que sabe o que é melhor para o cidadão.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

No Vale de Elah



Entre os realizadores de Hollywood, o canadiano Paul Haggis é provavelmente o melhor realizador em exercício. As personagens dos filmes de Haggis têm densidade, têm nuance, não são estereotipadas, nem categóricas, nem infantis como é tão habitual no cinema de Hollywood. "No Vale de Elah" é apenas o segundo filme de Paul Haggis realizado para cinema. Depois desta obra e do premiado "Colisão", Haggis ainda não desiludiu e deixou a fasquia muito alta para o seu próximo filme.
Tommy Lee Jones interpreta, Hank Deerfield, o pai de um soldado americano que foi assassinado após o seu regresso do Iraque. Deerfield é um veterano de guerra, familiar com o meio militar, que ajudado pela detective Emily Sanders (Charlize Theron) vai reconstruir parte do percurso do seu filho no Iraque e nas suas desventuras nos EUA, já depois do seu regresso. Esta obra mostra o lado chocante da fase de ocupação do Iraque, mostra jovens que largaram as consolas e os jogos de computador há pouco tempo e se encontram num terreno hostil com as mesmas armas, os mesmos veículos, os mesmos objectos, só que desta vez são reais, ferem, matam e mutilam. O cenário dos jogos mistura-se com o real, os telemóveis registam imagens cruéis que depois vistas à posteriori, já arrancadas do seu contexto real, passam a ser banais. A alienação e uma certa infantilidade dos soldados é muito bem caracterizada por Haggis e contrastam com a formação militar de Deerfield. Fica a sensação que esta guerra é feita, mais do que em outras ocasiões, por rapazitos imaturos, contudo mais arrogantes e em posse de armas muito mais eficazes.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Estrelas de Klepcinema

As estrelas Klepcinema de 2007:

No Vale de Elah (Paul Haggis) ****
O Escafandro e a Borboleta (Julian Schnabel) ****
A Guide to Recognizing Your Saints (Dito Montiel) ****
99 Francos (Jan Kounen) ****
4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (Cristian Mungiu) ****
Conversas com o meu Jardineiro (Jean Becker) ****
Romance de Gare (Claude Lelouch) ****
Our Daily Bread (Nikolaus Geyrhalter) ****
Angel (François Ozon) ****
Michael Clayton (Tony Gilroy) ***
Le Serpent (Eric Barbier) ***
Jesus Camp (Heidi Ewing e Rachel Grady) ***
Izgnanie (Andrei Zvyagintsev) ***
Os Fantasmas de Goya (Milos Forman) ***
La Sconosciuta (Giuseppe Tornatore) ***
We Feed the World (Erwin Wagenhofer) ***
O Lado Selvagem (Sean Penn) ***
Não Digas a Ninguém (Guillaume Canet) ***
Inland Empire (David Lynch)***
Leões e Cordeiros (Robert Redford) ***
Este País não é para Velhos (Ethan e Joel Cohen) **
Zodiac (David Fincher) **
Promessas Perigosas (David Cronenberg) *
A Invasão (Oliver Hirschbiegel) *

Este ano não há cinco estrelas.
Como é habitual vão ser atribuidas as Klepsýdras de Ouro referentes a 2007. Lá para o final da semana o júri tornará pública a sua decisão.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Sobre o Carneirismo Atlantista

Assim que saiu no Expresso já tinha tentado sem sucesso encontrar uma ligação para este excelente texto da Ana Gomes, agora publicado na Aba da Causa. É um texto muito pertinente sobre esse atlantismo acrítico, um carneirismo que tudo aceita, que fecha os olhos Guantanamo, que reage com um encolher de ombros às provas falsas de armas de destruição em massa no Iraque. É por causa desse carneirismo atlantista, dessa forma acrítica de gerir a nossa política de alianças que sou a favor (provavelmente como a esmagadora maioria dos europeus) da nossa saída da NATO.

A Vigarice das Entradas

"O último hábito, o de impingir entradas nos restaurantes, é particularmente significativo. Só quem já foi ao restaurante com estrangeiros em Portugal (eu já fui muitas vezes) sabe como isto é confrangedor. Não se sabe se se lhes há-de explicar (e não os deixar à vontade) ou não dizer nada (e explicar no fim, quando vem a conta). A explicação para esta pequena vigarice ser tão generalizada é que ela traduz-se num lucro certo para o restaurante. Se o cliente for estrangeiro não sabe e é enganado (e dificilmente reclama num país estrangeiro onde nada funciona)."
Filipe Moura no Cinco Dias

Também eu Filipe, já passei por essas vergonhas na presença de estrangeiros. E quando eles me contam que foram a restaurante X e que foi caro não sabem porquê, eu a imaginar a parcela das entradas...
Só uma pequeno reparo Filipe, não confundas liberais com ultra-conservadores. ;)

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Um Cohen fraco e um Bardem pobre

Sou um fã dos irmãos Cohen (grande Barton Fink) e de Javier Bardem (excelente em Em Carne Viva, Às Segundas ao Sol e em Mar Adentro), por isso não perdi "Este país não é para velhos". A decepção foi grande. O filme de facto apresenta grandes momentos de verdadeiro cinema, excelentes enquadramentos, deliciosos diálogos cheios de ironia, acção e violência implícita que resulta bem melhor do que a explicita (poupa-nos a cena de tiroteio no deserto). Mas este filme, que chega a ter momentos empolgantes, mergulha em lado nenhum numa retórica de "moral da história" em estilo de velho cowboy, em diálogos que oscilam entre a resignação e o irritante categórico tão típico do mau cinema da hollywood e que culmina numa cena arrancada a ferros, de um aleatório exagerado, só para justificar a "moral da história".
Moral da história: 2 estrelas em 5.
A personagem de Bardem poderia ter sido interpretada por Schwarzenegger que não se perdia nada. Bardem, volta para Espanha por favor!

sábado, fevereiro 23, 2008

Ferrero Garden



Só para fazer inveja à malta em Portugal, aproveito a oportunidade para apresentar os novíssimos Ferro-Roché à venda em Itália, chamados Ferrero Garden. Nham, nham!

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Produtividade Baixa, Salários Altos e Pasmaceira

Um país que tem uma das taxas de produtividade mais baixas da UE, cujos os empresários apresentam as qualificações mais baixas e cujos salários são acima dos salários de empresários de países ricos, altamente qualificados, com taxas de produtividade das mais elevadas do mundo, este país, é um país pouco sério. Mas o pior, o que é mais deprimente, é uma parte da oposição, da oposição crítica, não dar importância ao facto, é ouvirmos uma Quadratura do Círculo onde são condenadas as palavras de Cavaco quando este advertiu que os rendimentos de altos dirigentes de empresas são "injustificados e desproporcionados, face aos salários médios dos seus trabalhadores". Que raio de país é este, que raio de oposição crítica é esta, que raio de sentido crítico é este?!

Vivemos centrados na oposição ao superficial, às gravatas e ao fato de Sócrates, aos cartazes da West Coast, à banalidade sobre o primeiro-ministro nos media e esquecemos questões importantíssimas, esquecemos os roubos gigantescos que passam através de paraísos fiscais, esquecemos o abandono escolar, esquecemos o baixíssimo nível educacional e pior que tudo, tapamos os olhos às disfuncões terríveis das nossas empresas, aos "rendimentos" desproporcionados. Esses "rendimentos" que não são pequenas percentagens, que não são limitados a um ou a outro empresário, que se estendem a uma boa fatia de quadros das empresas cotadas em bolsa, que são "rendimentos" vestidos de acções, de títulos, de bónus, de viagens e de contas bancárias e investimentos semi-informais.

Este estado de pasmaceira crítica em que vivemos teve o seu ponto alto nesta entrevista realizada pelo Expresso a António Barreto e a Pacheco Pereira (lá iremos). Aquela que deveria ser A análise crítica do ano, é um momento político deprimente em que os intervenientes se perdem nas inevitáveis banalidades sobre Sócrates. Dá vontade de sair do país, de deixar isto entregue à bicharada. Se esta oposição é representativa de uma parte da oposição crítica que temos, isto mete medo!

Bolonha dos sabores

Tortellini, tortelloni,
alla ricotta o al ragù,
Tortellini, tortelloni,
con zucca e senza zucca,
Tortellini, tortelloni,
a nadar de costas, crawl e bruços no prato.

Uma piscina, duas piscinas, três piscinas, no Mercatto delle Erbe,
cores, cheiros, mais cores e intensos cheiros,
beringela, rúcula, san giovese, pasta fresca,
tomate que sabe a tomate, azeite em garrafa escura e parmesão de 24 meses.
Os olhos já transmitiram o estímulo ao estômago...
Um Campari-laranja e buon appetito da Bologna!

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Eclipse Total da Lua



Aqui o horário em CET para ver o eclipse da próxima madrugada. Acima o mapa de visibilidade para os caríssimos leitores que estão espalhados pelo mundo.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Debate: Cultura e Coimbra



Um apelo a todos os conimbricenses que puderem comparecer a este debate sobre a cultura na nossa cidade. Uma cidade que alberga a melhor Universidade do país e que possui um tecido intelectual invejável na nossa pobre Lusitânia não pode contentar-se com uma vida cultural digna de uma aldeola alemã ou francesa. A Câmara Municipal tem culpa no impasse que vive a cidade, efectivamente a filosofia da cultura exclusivamente financiada por ricos, apresenta resultados miseráveis, praticamente nulos, e continua a excluir a periferia e a baixinha da cidade. Mas a massa intelectual de Coimbra tem que se consciencializar definitivamente que deverá ter mais iniciativa, iniciativa não só para denunciar a inacção do executivo de Carlos Encarnação, mas iniciativa para debatermos mais, com mais regularidade, para debatermos livros, filmes, política, ciência, arte, debatermos a cidade, o rio, os arredores e a região. Contem comigo para o que for possível.

A Nacionalização do Northern Rock

A nacionalização do Northern Rock é um acontecimento extraordinário, mais extraordinário ainda por ocorrer no país que alberga a maior praça financeira do mundo, num dos mais sagrados templos do ultraliberalismo. O que está a acontecer é uma heresia tão grande como vender coca-colas na sede do partido comunista da Coreia do Norte.
Esta crise económica até pode ser cíclica, mas está a revelar bizarrias que há muito não se viam e quando são públicas coisas bizarras e humilhantes na alta finança é porque o que se esconde provavelmente deve ser bem pior. É neste capítulo que a UE deveria intervir de uma forma importante para se determinar até onde é que o o casco do barco está podre, usando de todo o seu poder e influência, no Banco Mundial e na OMC, deixando de lado por uma vez o carneirismo atlantista.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

50 Anos de Conquista do Espaço

A Science&Vie lançou um número especial dedicado aos 50 história de exploração espacial, desde o Sputnik até aos dias de hoje. Esta edição apresenta um formato de grande revista que permite apreciar em todo o seu esplendor fotografias em grande formato, são 150 fotos, entre as quais variadíssimas fotografias do Universo tiradas pelo Hubble, as fotos dos primeiros cosmonautas russos, de Cabo Canaveral ou dos primeiros homens na Lua. Para os aficionados destas coisas é uma edição a não perder.

O Terrorismo Islâmico na Bósnia e no Kosovo

Vale a pena passar os olhos por esta obra de Jürgen Elsässer, numa semana em que a Administração Bush através do seu apoio cínico à independência do Kosovo conseguiu com sucesso fomentar mais uma dose de confusão na Europa. A obra de Elsässer descreve com rigor como a CIA esteve envolvida no recrutamento e no treino de grupos islâmicos que lutaram na Bósnia e no Kosovo e mostra a extensão da hipocrisia, da realpolitik de Washington, mostra como para os EUA há terroristas bons e há terroristas maus (tens toda a razão Daniel).
Mas... a grande ironia da investigação de Elsässer é a revelação que alguns dos operacionais que foram generosamente treinados pela CIA na Bósnia estiveram activamente envolvidos na preparação do 11 de Setembro. Será isto um gigantesco boomerang assente bem no meio da cabeça ou não, caro Pacheco Pereira?

domingo, fevereiro 17, 2008

Não há Pacheco Pereirismo Moderado

Assim que ouvi a notícia do pedido de perdão do governo australiano aos arborígenes, esperava a indignação de Pacheco Pereira, esperava um daqueles artigos amargos e esperava, obviamente, um texto cheio de referências obsessivas ao "politicamente correcto". O texto surgiu, não me enganei. Qualitativamente resume-se em três pontos:

1) Muito bem documentado sobre a história recente da Austrália;
2) Fraco e diria até escorregadio na sua conclusão política, na teoria do boomerang;
3) Radical na sua linha política.


Sobre o ponto 2), na conclusão do texto podemos ler:
"Há certas ideias que funcionam como o boomerang, a gente atira-as convencidos das nossas melhores intenções e elas voltam para nos bater na cabeça."

Sobre este caso não há um único indício no texto que fundamente que esteja eminente qualquer efeito boomerang na Austrália. Pior ainda, alguns de nós ainda se recordam certamente dos distúrbios racistas ocorridos em Cronulla em 2005. É certo que não ocorreram contra australianos arborígenes, mas ocorreram contra outros australianos, australianos "estrangeiros", quase arborígenes, quiçá entre eles alguns luso-descendentes. No entanto, em Cronulla o boomerang bateu mesmo. E em que cabeça bateu? Será que bateu ou não em todas as cabeças que defendem os pilares fundamentais da democracia?

Sobre o ponto 3) esta passagem do texto é bem ilustrativa:
"se tomarmos à letra o significado profundo destes pedidos de perdão pela História, ainda acabamos por dar razão à Al-Qaeda, que nos considera como "cruzados", logo um alvo a abater pelo novo Saladino"

Estamos no mesmo registo do "não há Islão moderado", bem denunciado pelo FNV do Mar Salgado. Estamos no registo de um mundo muito simples, de um mundo onde os maus e os bons são marcados a tinta fluorescente de cor diferente, onde não há Islão moderado, que no fundo é o mesmo tipo de mundo dos que consideram que todos os Israelitas são ortodoxos e gananciosos, todos os Mexicanos são malandros e que todos os negros são pouco inteligentes. É um mundo sem gente moderada, ou são bons ou são maus. E se por acaso alguns de nós, dos bons, brancos, católicos, ocidentais, tal como o Primeiro-Ministro australiano, adoptarmos um gesto de respeito (aqui trata-se apenas e só de respeito, ler "Sul Politically Correct", em "A Passo de Caranguejo" de Umberto Ecco) em favor de um dos que está marcado com tinta fluorescente de uma cor diferente da nossa, automaticamente "acabamos por dar razão à Al-Qaeda". Grande conclusão, uma conclusão moderada, sem dúvida moderada...

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

A Nacionalização da Alta Finança

Ainda em 2007 o FMI publicou um relatório em que os fundos soberanos eram estimados em cerca de 10 % dos activos controlados pelos investidores ou seja cerca de 53 biliões de dólares. A taxa de crescimento destes fundos no mercado internacional é estimada a cerca entre 800 e 900 mil milhões de dólares por ano. Em jeito de provocação, pode-se concluir que a sobrevivência do ultraliberalismo está a depender cada vez mais da sua nacionalização.
Ler artigo de Alexandre Kokcharov, Expert

Moeda de reserva Euro vs Dólar
Em 1997, mais de 80% das reservas de divisas do planeta eram em dólares. Em 2006 eram apenas 66,5% eram em dólares e no terceiro trimestre de 2007 cerca de 63,8%. No mesmo período o euro cresceu de 24,4% para 26,4% da proporção de reservas (ler mesmo artigo).

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Os Fundos Soberanos em Números

Ironia das ironias, os monstros sagrados do ultraliberalismo, a banca e as grandes instituições financeiras, estão a recorrer em massa aos fundos de investimento dos Estados (fundos soberanos) para salvar as pratas e as porcelanas. E os Estados a que recorrem não são Estados quaisquer, é cada um melhor que o outro, vejamos alguns exemplos:

Citigroup: 7,5 mil milhões de dólares (5,2 mil milhões de euros) da Abu Dhabi Investment + 6,8 mil milhões de dólares de Singapura;

Morgan Stanley: 5 mil milhões de dólares da China Investment Corporation (CIC);

Merrill Lynch: 5 mil milhões de dólares de Singapura + 6,5 mil milhões de dólares do Kuwait + 2 mil milhões de dólares do Korean Investment Corporation;

Bear Stearns: Mil milhões de dólares da CIC;

UBS: 10 mil milhões de dólares de Singapura.


Acho espantosa a relativa indiferença com que os nossos media têm tratado este assunto. A crise financeira internacional que atravessamos é gravíssima, também toca o nosso sistema financeiro, há gente a roubar à grande, ou a tentar esconder à pressa o que andou a roubar à grande durante anos e os nossos media continua focados em banalidades sobre a ASAE, banalidades sobre Sócrates, banalidades sobre se se pode fumar numa cabine telefónica ou no cu de Judas e, como sempre, focada sobre o pequeno delito, o roubo de bairro, a habitual histeria em frente ao microfone.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Hirsi Ali pede nacionalidade francesa

Hirsi Ali, que realizou com Theo Van Gogh o filme Submission, pediu a nacionalidade francesa após uma campanha de apoio em seu favor lançada por Carolin e Fourest e Bernard-Henri Lévy depois da sua expulsão da Holanda. A miserável vida de Hirsi Ali, em fuga constante das ameaças do islamismo radical, deveria envorgonhar a Europa, a Europa das liberdades. É em ocasiões como esta que um hipotético estatuto de cidadania europeia seria muito bem-vindo, poderia contribuir para resolver situações de profunda injustiça e de atentado às liberdades que notoriamente os estados individualmente são incapazes de resolver.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Acertar contas com Bush e os neocons

Excelente a crónica deste sábado do Nicolau Santos sobre as prestações dos presidentes Bush-pai, Bush-filho e Bill Clinton. Destaco as seguintes passagens que desmontam muitos dos mitos políticos que são criados por lá e engolidos inteirinhos por cá, sobre politica social e económica:

"Bill Clinton foi, de muito longe, melhor presidente que os Bush pai e filho. O crescimento nos oito anos em que viveu na Casa Branca foi, em média, de 3,7375% contra 2,275% de Bush filho durante um período idêntico e de 2,075% nos quatro anos que o pai Bush passou em Washington."

"...enquanto Clinton introduziu maior justiça na sociedade americana, criando os programas de saúde Medicare e Medicaid, Bush vai sair com um orçamento onde propõe cortes significativos nestes programas e um aumento das despesas familiares em 7,5%."

"...os neoconservadores que apoiaram George W. Bush estão confrontados com a sua herança: um país à beira da recessão, perdendo peso no contexto internacional para as novas potências emergentes, com um aumento substancial do fosso entre a minoria dos mais ricos e todos os outros, com uma enorme crise no sistema financeiro, como resultado do processo de desregulamentação que defenderam, com grandes bancos americanos a ter de aceitar a humilhante entrada de fundos soberanos de países asiáticos no seu capital para evitar a falência e com o dólar a perder posição, enquanto moeda da pagamento internacional, para o euro."

A Primeira Noite



"A Primeira Noite", realizado em 1967 Mike Nichols é um dos filmes que melhor representam o ambiente de contestação do flower power, da condenação da guerra do Vietname nos EUA e que culminou com o Maio de 68 em França. Todos os elementos fundamentais dessa que foi a revolução mais genuína e mais bem conseguida do século XX estão representados nesta obra de Nichols. A cisão com o autoritarismo, com a sociedade consumista de sorriso colgate e com o moralismo religioso é aqui representada através do percurso e das peripécias amorosas de Benjamin Braddock (Dustin Hoffman), um recém licenciado, após o encontro com Mrs. Robinson (essa mesmo, a do tema de Simon e Garfunkel). A mesma Mrs. Robinson que representa a hipocrisia moralista da época, lança Benjamin numa espiral de questões sobre o seu futuro, sobre a superficialidade da sociedade que o rodeia e que o enche de tédio. Apesar da forte componente política, "A Primeira Noite" é um filme romântico, no melhor do que o flower power teve para oferecer.
Dustin Hoffman tem nesta obra uma das suas mais interessantes interpretações, naquele que foi apenas o segundo filme da sua carreira.
É fortemente aconselhado o aluguer deste filme no vosso video-clube.

Mrs. Robinson

We'd like to know a little bit about you
for our files we'd like to help you to learn to
help yourself
look around you all
you see are sympathetic eyes stroll around the
grounds
untill you feel at home

and here's to you Mrs. Robinson
Jesus loves you more than you will know
god bless you please Mrs. Robinson
heaven holds a place for those who pray

hide it in a hideing place where no one ever goes
put it in your pantry with with your cupcakes
It's a little secret just the Robinsons' affair
most of all you got to hide it from the kids
and coo coo cachoo

Mrs. Robinson
Jesus loves you more than you will know
god bless you please Mrs. Robinson
heaven holds a place for those who pray

sitting on a sofa on a Sunday
afternoon going to the canidtaes debate laugh
about it shout about it when you got to choose
every way you look at it you loose
where have you gone Joe DiMaggio
a nation turns It's lonely eyes to you whats that
you say

Mrs. Robinson Joltin' Joe has left and gone away

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

O início da destruição da Costa Alentejana

Há anos que a destruição da Costa Alentejana estava anunciada, esta notícia do Público dá-nos a data do seu início.

O Bruno Sena sobre Sócrates

Abstraindo-me de polémicas frescas, concordo completamente com a análise a José Sócrates feita pelo Bruno, sobretudo com as seguintes passagens: "Para uma agenda ideológica em fundo falta-lhe ideologia" e "A presidência da União Europeia deixou perceber alguns sinais de deslumbramento infantil".

PS- Ainda gosto mais do texto do Bruno quando penso na abundante banalidade que se escreve sobre Sócrates. A mais engraçada é a acusação de que Sócrates controla os jornalistas, da parte de quem tem inúmeras tribunas nos jornais, na TV e está presente mais vezes nos media do que o próprio Primeiro Ministro.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Daily Motion, o you tube francês

Criado por uma empresa francesa, Daily Motion é um serviço muito similar ao You Tube. A grande diferença é a qualidade do seu conteúdo, tem menos palhaçada e mais assuntos sérios. Por exemplo, quem gosta de debates pode encontrar com facilidade alguns dos grandes clássicos do debate político francês, algo quase inexistente no You Tube.

sábado, fevereiro 02, 2008

Sábado em Coimbra XXXVIII: O Emanuel

O Emanuel é um ciganito romeno, talvez dos seus 10 anos,
O Emanuel costuma cravar-me na esplanada do Santa Cruz,
ele já sabe a resposta: "oh Emanuel tens que ir para a escola",
se fosse um dos outros miúdos ali da Baixa, mandava-me logo para o caralho.
Mas o Emanuel não, faz um ar triste, os pais destinaram-lhe a rua.

Diariamente, Carlos Encarnação, o Presidente da Câmara, passa por ali a pé,
não é cego, vê o Emanuel e outras crianças por ali a pedir.
Observo a sua cara de preocupado.
Para o Emanuel, a escola bem pode esperar...

Sábado em Coimbra XXXVII

quarta-feira, janeiro 30, 2008

O Fanatismo na Campanha Americana

O sítio internet Hucks Army concebido por apoiantes do candidato republicano Mike Huckabee ilustra bem o nível de fanatismo que envolve estas presidenciais americanas. Não foi apenas no Médio Oriente que a política externa da Administração Bush contribuiu para o aumento do fanatismo. Nos últimos anos, a Guerra no Iraque excitou as seitas e as mentes mais fanáticas dos Estados Unidos. Vários intelectuais e cientistas americanos têm-se manifestado em vão contra este clima de histeria de guerra santa, contra a propagação do criacionismo, a negação do Big Bang e do aquecimento global. A verdade é que uma boa parte da América ruma por estes caminhos de retrocesso civilizacional e infelizmente não é apenas Huckabee o seu arauto.

terça-feira, janeiro 29, 2008

Casino Générale

À medida que se vão conhecendo mais detalhes, aumentam as suspeitas de que a fraude de 5 mil milhões de euros ocorrida na Société Générale (o meu banco quando vivi em França...), não se trata de uma simples fraude.

O que fez o departamento de controlo de aplicações financeiras da Société Générale enquanto cerca de milhares de milhões euros eram movimentados pelo funcionário Jérôme Kerviel? Quantias destas não aparecem e desaparecem de qualquer maneira.

Em tudo, esta história faz lembrar o fechar de olhos do departamento de controlo da ENRON às operações financeiras de alguns funcionários encarregados de movimentar dinheiro em esquema circulares ou pouco legais que serviam para mascarar os resultados da empresa. Se estas operações corressem bem, os funcionários retiravam grandes margens de lucro, se corressem mal, tal como final da cassete da Missão Impossível, a empresa não sabe e não teve conhecimento do que se passou.
Será este um caso isolado ou será uma prática generalizada do mercado?

Em Portugal deveríamos estar muito mais atentos a estas questões em vez de andarmos entretidos com discussões infantis sobre cigarros e bolas de Berlim. Estes crimes estão entre os que mais atingem as pessoas, provocam desemprego e o desvio de quantias consideráveis para actividades não produtivas.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Several million "green jobs"

Ler "A Different Recession" de Harold Meyerson no The Washington Post (registo gratuito). Extracto do texto:

"As in Roosevelt's time, we need a policy that boosts incomes and finds new solutions for our energy needs. FDR's long-term income remedies included Social Security, the Wagner Act (which made it possible for many workers to join unions) and public works projects -- including a massive electrification of rural America. A comparable set of solutions today would include the passage of the Employee Free Choice Act, which would enable workers in nonexportable service-sector jobs to unionize without fear of being fired. It would include a massive, federally financed program to retrofit America, creating several million "green jobs" in the process."

domingo, janeiro 27, 2008

4 meses, 3 semanas e 2 dias



"4 meses, 3 semanas e 2 dias" do romeno Cristian Mungiu é um filme sobre duas mulheres, uma desenrascada e outra desastrada, que tentam resolver uma situação de aborto na sociedade machista da Roménia de Nicolae Ceauşescu. A crítica ao machismo das sociedades latinas é frio e cortante. O género masculino é representado em rota de colisão com a emancipação feminina. Não há um homem que se aproveite no filme, os que estão presentes, os que estão ausentes e os omnipotentes (Nicolae e camaradas).

Um ponto muito positivo do filme é ausência de crítica explícita ao regime. O divórcio dos cidadãos com o regime é apresentado como ele era vivido no dia-a-dia, em silêncio, através de pequenos actos subversivos, transaccionando no mercado negro e sobretudo através do olhar. O olhar das personagens é o reflexo do clima depressivo da Roménia de Ceauşescu.

Cristian Mungiu é um nome a reter, é um realizador muito bom.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Saudades de D. Carlos e de Salazar (act.)

No blogue Atlântico manifestam-se saudades pelo Rei D. Carlos: "poderia dar lugar a outro Portugal, provavelmente mais liberal" caso tivesse sobrevivido ao atentado de que foi vítima (comparar com a Itália, Hungria ou Roménia onde as monarquias se mantiveram até 1944). Por ali também já se manifestaram saudades por Salazar (frontalmente criticadas pelo Tiago Mendes).
As minhas saudades dos regimes que representavam um e o outro são estas:


Ano em que se atingiu a alfabetizacao de metade da populacao nas diferentes regioes da Europa, "A sociedade da confianca", Instituto Piaget.


País: % de pessoas na escola em 1840,1850,1887,1928

EUA: 15, 18, 22, 24
Inglaterra: ?, 12, 16, 16
Holanda: 12, 13, 14, 19
Rússia/URSS: ?, 2, 3, 12
Alemanha: 17, 16, 18, 17
França: 7, 10, 15, 11
Hungria: ?, ?, 12, 16
Espanha: 4, ?, 11, 11
Grécia: ?, 5, 6, 12
Portugal: ?, 1, 5, 6

Aconselho ainda a leitura do texto "Atraso Português" do Prof. Carlos Fiolhais no seu livro "A coisa mais preciosa que temos", Gradiva, 2002. É um texto brilhante onde é feito o retrato do ensino em Portugal nos últimos 200 anos.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Subscrevo, obviamente

Respondendo ao repto conimbricense do Prof. Carlos Fiolhais no De Rerum Natura, subscrevo o texto "Pelo direito à cultura e pelo dever de cultura!". Subscrevo os motivos nele invocados, mas poderia acrescentar outros, como o alheamento por parte do executivo camarário da cultura enquanto história da cidade, enquanto património ou enquanto ligação entre o polo cultural da alta e as zonas periféricas da cidade ou as zonas pobres da Baixa.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

31% de energias renováveis

Acabaram de ser anunciadas pela Comissão as quotas por país para a redução de emissões e para as energias renováveis. A Portugal coube:

- 31% de consumo de energias renováveis em 2020. Em 2005 esse valor era 20%.
- A possibilidade de aumentar em 1% as emissões de gases de efeito de estufa, não incluídas no EU Emission Trading Scheme, até 2020. O grande desafio será travar o aumento descontrolado de emissões que se tem verificado nos últimos anos. Em breve ultrapassaremos em muito o 1% e seremos obrigados a fazer um esforço importante para reduzir e voltar a esse valor em 2020.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Sobre a proposta de reducção de emissões

1 - Conforme consta num relatório interno elaborado pelo Joint Resarch Centre, a Comissão Europeia deveria excluir das energias renováveis os biocombustíveis na proposta a apresentar amanhã.

2- A meta da Comissão para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa em 2020 a 20% dos níveis de 1990 fica aquém da meta de 30%, aquela que contribuiria efectivamente para que a temperatura do planeta não suba acima 2°C - temperatura a partir da qual as consequências poderão ser irreversíveis.

3- A Comissão deveria aceitar a proposta da França de aplicação de taxas de importação suplementares aos produtos oriundos dos países mais desenvolvidos que não estão a combater com seriedade o aquecimento global, de modo a combater o dumping ambiental.

Ambiente na Figueira

O blogue do amigo João Vaz sobre o estado do Ambiente na Figueira e não só.

"O gene egoista" interpretado pela ENRON...

"I was mortified to read in the Guardian ("Animal Instincts", 27 May 2006) that The Selfish Gene is the favourite book of Jeff Skilling, CEO of the infamous ENRON Corporation, and that he derived inspiration of a Social Darwinist character from it. The Guardian journalist Richard Conniff gives a good explanation of the misunderstanding. I have tried to forestall similar misunderstanding in my new preface to the thirtieth anniversary edition of The Selfish Gene, just brought out by Oxford University Press."
"The God Delusion", Richard Dawkins, Bantam Press, 2006, pag. 215.

Jeff Skilling e os seus seguidores não foram os únicos a ler fantasias ideológicas onde estas não existiam. Percebe-se que na blogosfera lusa também houve quem cometesse o mesmo erro de interpretação do texto de Dawkins (desconfio que só leram a capa do livro), os artistas do costume...

segunda-feira, janeiro 21, 2008

O Modelo Sicko Americano


A explicação da baixa diminuição do número de "mortes evitáveis" do gráfico publicado no Ladrões de Bicicletas, apesar da elevada verba gasta em cuidados de saúde nos EUA, é nos dada com muita clareza por Jeremy Rifkin:

"When it came to evaluating the fairness of the countries' health care, the US ranked 44th, or the last place among the OECD nations.
(...) the United States spends more per capita for health care than any other nation of the world, according to the OECD - $4,900 per person in 2001. Most of the increased cost is attributable to the high administrative costs and margins associated with running a for-profit health-care system. Moreover, because so many millions of Americans are ininsured, they cannot afford preventive care and do not attend to an illness at the outset. Waiting until the ilness has advanced to a crisis increases the medical cost significantly (...) this is a perfect example of the disconnect between the measure of pure economic activity, reflected in the GDP, and the quality of life a society enjoys."

"The European Dream: How Europe’s Vision of the Future is Quietly Eclipsing the American Dream", Jeremy Rifkin, ed. Polity, 2004, pag. 80

domingo, janeiro 20, 2008

Metas de redução de emissões de gases até 2020

O meu artigo de ontem no portal Esquerda.Net:
Na próxima quarta-feira, dia 23, a Comissão Europeia deverá anunciar a distribuição por país das metas de redução da emissão de gases de efeito de estufa até 2020.
Durante a Conferência sobre as Alterações do Clima que decorreu no passado mês em Bali, a União Europeia comprometeu-se a reduzir até 2020 o total das suas emissões de gases de efeito de estufa em 20%, em relação aos níveis de emissão de 1990. Contudo, comprometeu-se a levar mais longe o esforço de redução, até 30%, se os restantes países industrializados concordarem em atingir a mesma meta e se os países em vias de desenvolvimento adoptarem políticas mais determinadas no combate às alterações do clima.

Para atingir estas metas a UE deverá implementar novas medidas: o aumento da eficiência energética em mais de 20% até 2020, o aumento da fracção de energias renováveis a 20% até à mesma data e dotar as novas centrais de produção de energia com sistemas de captura de dióxido de carbono e com tecnologia de armazenamento de gases. Estas medidas estão a ser debatidas entre a Comissão e os estados membros numa perspectiva de implementação diferenciada em cada país - em função das realidades sócio-económicas de cada estado - que permita ao conjunto dos 27 países da União atingir metas estabelecidas. O tema de debate mais polémico prende-se com a tentativa liderada pela França, e seguida pela Rep. Checa, Eslováquia, Polónia e Lituânia, de atribuir à energia nuclear o mesmo estatuto das energias renováveis no quadro do objectivo de produção de 20% de energias "verdes" até 2020.

As referidas metas de redução de emissões estão associadas ao limite máximo de 2°C estabelecido para o aumento da temperatura do planeta. A partir deste limite da temperatura média global, as alterações do clima poderão desencadear mudanças irreversíveis e catastróficas em todo o planeta. Para que o limite de 2°C não seja ultrapassado, o total de emissões gases de efeito de estufa de todos os países do mundo deverá parar de aumentar até 2020 e deverá ser reduzido para metade dos níveis de 1990 até 2050. Estes valores são o resultado dos cálculos efectuados pelos melhores climatologistas do mundo, após comentários, correcções, aprovação pelos pares e publicação nas melhores revistas científicas da especialidade. Foi em função destes valores que a UE elaborou a sua proposta de Bali. A proposta apela aos países industrializados a redução antecipada até 2020 das suas emissões em 30% em relação a 1990, de modo a dar tempo aos países em vias de desenvolvimento para adoptarem medidas compatíveis com o limite máximo de 2°C da temperatura média global.

quinta-feira, janeiro 17, 2008

Roubar muito não é crime

O que espero de um país que fica histérico por causa de meia dúzia de irresponsáveis terem espezinhado um campo de milho ou por um assaltante de um banco andar a monte no meio das serras, é que esse mesmo país fique muito mais histérico quando se descobre que mais de 1/6 do investimento das empresas portuguesas nos últimos 10 anos foi para paraísos fiscais. Estamos a falar de cerca de 6155 milhões de euros! Sabemos que uma grande parte desta verba é utilizada em negócios ilegais e fuga ao fisco. Se metade for utilizada nestas operações são mais de 3 mil milhões de euros em 10 anos utilizados em operações criminosas! Isto é um roubo colossal aos contribuintes, com consequências que não são directamente visíveis, mas que indirectamente causam desemprego, falseiam as regras do mercado nacional e internacional e que favorecem o florescimento de actividades não produtivas e criminosas.

O que me espanta é que os cronistas e os políticos tão zelosos e tão vigilantes que ficaram escandalizados com os prejuízos causados numa pequena parcela de um milheiral façam vista grossa ao maior roubo ao país dos últimos 10 anos. Será que só é roubo ou só é prejuízo quando a quantia tem poucos zeros, quando tem muitos zeros, quando se rouba muito, mesmo muito, já não conta?

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Da ENRON ao BCP

Apesar dos responsáveis da investigação ao BCP receberem formações especializadas sobre fraudes envolvendo paraísos fiscais, estes deveriam ler "The Smartest Guys in the Room", o livro que descreve o escândalo ENRON. Da ENRON ao BCP vai uma grande distância, mas na obra de Bethany McLean e Peter Elkind está lá tudo, tudo o que se possa imaginar sobre esquemas circulares de auto-financiamento utilizando paraísos fiscais. Inclusivamente, as fábulas dos altos funcionários que elaboravam os referidos esquemas a "bem da empresa" (já ouvi esta em relação ao BCP). Na ENRON foram esses os que mais encheram os bolsos...

Mississípi em Chamas



"Mississípi em Chamas" de Alan Parker é um bom filme realizado em 1988 que narra factos verídicos envolvendo o assassinato de três activistas dos direitos humanos ocorrido em Philadelphia, Mississípi, em 1964. Os activistas (um negro e dois judeus) participavam na acção "Freedom Summer" cujo objectivo era apelar ao registo das minorias nos cadernos eleitorais. O assassinato que foi executado por vários elemento do Ku Klux Klan local, atraiu os principais jornais e televisões para uma pequena cidade da américa profunda. A população local confrontou-se com a transmissão para o resto da américa das suas opiniões, preconceitos e angustias. O que se lia e o que se ouvia nas TVs não era bonito. Pior que racismo, só mesmo o racismo velado e cobarde dos que tentam justificar de uma forma trapalhona preconceitos primários.
É interessante ver "Mississípi em Chamas" 20 anos depois da sua estreia. É interessante constatar que muita da base da retórica hoje em voga que visa o ataque ao "politicamente correcto" já tinha sido debitada em 1964 pelo preconceito e pelo racismo velado dos que tentaram justificar as acções e a existência do Ku Klux Klan. Algumas passagens das declarações registadas na altura são iguaizinhas às de muitos actuais cronistas que se insurgem contra formas justas de discriminação positiva ou de implementação de simples direitos cívicos de minorias.
O Ku Klux Klan morreu, no que toca a liberdades e a direitos estamos melhor que em 1964, mas alguns tiques ficaram.

terça-feira, janeiro 15, 2008

20 000 000 000 $ em armas para Sauditas

Cerca de 20 mil milhões de dólares em vendas de armas ao regime mais criminoso do mundo é a verdadeira cartada "diplomática" do presidente Bush no Médio Oriente. O resto são fotografias para crentes e acólitos da Administração Bush. O grosso da fatia do negócio envolve mísseis Patriot e kits para bombas telecomandadas (Joint Direct Attack Munitions).
Os EUA andam a armar até aos dentes a Arábia Saudita - um dos 10 países do mundo que mais gasta em armas (foto AP/BBC). Resta saber a quem será destinado todo esse arsenal. Concordo com a opinião de uma parte do Congresso americano que considera mais provável os alvos poderem ser os próprios EUA e Israel...

segunda-feira, janeiro 14, 2008

O traçado do TGV não serve o país

O acesso via TGV previsto para o aeroporto de Alcochete não serve os utilizadores do aeroporto que vivem a norte de Lisboa e serve mal quem vive em Lisboa. Sobretudo para quem vive na Beira Interior o percurso será ridículo, obrigando a uma volta impressionante que compreende o atravessamento do Tejo pela a península de Setúbal para se poder chegar ao aeroporto sem utilizar o transporte individual. Será um trajecto penoso sobretudo para quem já tem a sina de se ver obrigado a mudar de comboio para chegar ao TGV.

Ou se encontra uma solução de acesso directo pelo norte (que envolverá mais custos) ou se muda o traçado do TGV. Lembro que o traçado previsto para a entrada do TGV em Portugal é já de si já um erro, como o demonstra a tese de doutoramento do Manuel Tão, doutorado em economia de transportes pela Universidade de Leeds.

Além do mais, o trajecto do TGV deveria permitir às companhias aéreas substituir a ligação aérea altamente poluente entre Lisboa-Porto - a Air France emite bilhetes combinados avião+TGV poupando nas viagens aéreas de curta distância - pela ligação ferroviária rápida entre Alcochete e o Porto. Com o traçado previsto do TGV essa opção ficará altamente comprometida.

domingo, janeiro 13, 2008

A polémica sobre o comboio há 150 anos

Muito bom e oportuno o artigo "O país discute a obra nasce" de Filipe Santos Costa na revista Única do Expresso, onde se resume o debate e a polémica sobre se deveria ou não ser implementado o caminho-de-ferro em Portugal há 150 anos atrás...

Politicamente Ferpeito

Sobre como a palavra fascista pode ser utilizada pelos mesmos autores para a vitimização e para o ataque desmesurado, ler o Rui Tavares.
No que me toca a mudança de ideias sobre os autores referidos, ainda antes de 2007 acabar, essa mudança ocorreu quando ouvi dizer que a diplomacia inglesa era baseada nas regras de um clube de golfe. Tudo ficou muito mais claro, Israel, a independência da Rep. da Irlanda, a Irlanda do Norte, o Domingo Sangrento, o Muro do Ulster, o Muro da Palestina, Gibraltar, etc.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

Tanto estudo para mais irresponsabilidade

Nunca andei aqui com bandeirinhas pela Ota ou por Alcochete, ambas as soluções me pareciam razoáveis do ponto vista geográfico: a norte ou à mesma latitude de Lisboa com bons acesso para o norte e o centro do país. Má seria a solução Portela+X (houve quem sugerisse +3!!)e ainda pior seria a solução de efectiva localização na margem sul, em plena península de Setúbal, praticamente inacessível para 2/3 do país.

No entanto, o anúncio de hoje da escolha de Alcochete foi mais um acto irresponsável do governo. Ainda está por fazer o estudo de impacto ambiental à localização de Alcochete e a decisão já está tomada. E se este estudo revelar resultados muito negativos? E se na sequência desses resultados a Autoridade Internacional de Aviação Civil não autorizar os voos para Alcochete, como o fez para a península de Setúbal? O governo vai voltar de novo à OTA?

Se o TGV não passar no novo aeroporto todo o projecto será um logro.

Seria interessante que fosse tornado público o contrato da Lusoponte com o governo e quanto esta empresa vai receber com esta decisão.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Provinciana ou não?

Respondendo ao FNV do Mar Salgado, concordo com Prof. Gomes Canotilho quando afirma que a Universidade de Coimbra é cada vez mais provinciana, tendo em conta que a fracção de inscrições de alunos da região tem aumentado. Para este facto tem contribuído ultimamente o aumento brutal das propinas. Hoje fica mais barato a um aluno pagar as propinas de uma universidade privada localizada na sua área de residência do que se deslocar para estudar na Universidade de Coimbra, onde deverá de pagar propinas+quarto.
Um dos efeitos secundários do aumento exagerado das propinas é a promoção do imobilismo. Os alunos dos grandes centros ficam nos grandes centros, os da província ficam na província. No caso de não existirem alunos na província em número suficiente as universidades e os politécnicos vão correr um sério risco de fechar cursos ou até mesmo de fechar as portas, é o que se verifica actualmente em Castelo Branco, Covilhã, Guarda e Trás-os-Montes.

A sorte da Universidade de Coimbra é ter um lastro de qualidade em muitas áreas diferentes que vem do passado e de não ser provinciana na actividade científica, o que lhe tem valido ser considerada a melhor universidade do país ano após ano. Mas se a tendência para o provincianismo continuar o futuro poderá ser menos risonho.

Sindicato dos gajos altos

Associo-me à indignação do Bruno Nogueira. Há que criar um sindicato dos gajos altos. Somos oprimidos, discriminados e torturados nos transportes públicos, nas mesas dos restaurantes com travessas abaixo no nível dos nossos joelhos, nas camas com menos de 1,90m equipadas de travessas de madeira (as travessas são um instrumento de tortura terrível!) nos urinóis que nos ficam pelos calcanhares e nas cabines telefónicas que nos dão pelo umbigo.
Jovem se tens mais de 1,90m sindicaliza-te e junta-te à luta por urinóis mais altos! (os sapatos agradecem)

terça-feira, janeiro 08, 2008

Les misérables

É sempre impressionante quando descobrimos que no universo da alta finança se recorre a artimanhas tão grosseiras como as que se praticam na economia paralela de um banal bairro degradado de Los Angeles ou de Marselha. Preços e condições especiais para primos e amigos. Se for preciso as notas passam pela lavandaria. E é giro registar o vocabulário alternativo com que se designa e se define essas artimanhas. Obviamente que roubar não é roubar e dívida não é dívida, para os muito ricos. Há sempre uma definição no dicionário de financês que tudo explica e tudo limpa, já se sabe que só os pobres é que roubam e têm dívidas.

Novo Canal e Serviço Público (comentários)

"As TVs privadas em sinal aberto, aquelas cuja mensagem chega a milhões de portugueses, têm uma programação miserável. Telenovelas, reality-shows, filmes e séries americanos e...telejornais tablóides. Debate ? Documentários ? Jornalismo de investigação ? Filmes europeus ou asiáticos ? Zero horas, zero atenção. Neste capítulo, apesar da fraca programação da RTP1 e RTP2 (demasiados concursos e shows, muita superficialidade) o Estado mostra-se muito mais capaz de administrar a coisa pública. Só quem não quer ver, é que não vê o falhanço da SIC e TVI na formação da identidade cívica e cultural dos portugueses, tal como a Lei da Televisão obriga."
J. Vaz

"Sem prejuízo daquilo que apontas, acho mais preocupante o projecto de televisão digital terrestre que está planeado em dois pacotes de canais: um gratuito e outro de assinatura. Além dos custos do receptor, mesmo para ter acesso ao pacote gratuito, está-se mesmo a ver que os canais de sinal aberto não vão ser melhores do que os actuais e vão ter muita publicidade. Quanto aos canais de assinatura, espero para ver, mas sem grandes expectativas."
David Luz (Linha dos Nodos)

sexta-feira, janeiro 04, 2008

Novo Canal e Serviço Público

Num dos países da Europa em que mais horas se passa em frente a um televisor e que acumula com o nível educacional mais baixo do continente (excluindo Malta), o novo canal de televisão só fará sentido se for um canal de serviço público.
A esquerda portuguesa e a nova elite de direita que valoriza a cultura e a educação, deveriam mobilizar-se para opor um projecto à televisão de baixíssima qualidade oferecida pela direita kitsch e mercantilista, representadas pela SIC generalista e a TVI. A outra solução é lutar para impor regras rigorosas de serviço público a todos os canais.

Se vier aí uma Tele-Cofina é certo e sabido que o nível ainda vai baixar mais (sim, ainda pode baixar mais). Para um povo que se educa em frente à televisão, mais um canal para transmitir lixo com o único intuito de vender empréstimos bancários, champôs e assinaturas telefónicas, só vai ajudar a enterrar ainda mais este país.

"If You Tolerate This Your Children Will Be Next", Manic Street Preachers

quinta-feira, janeiro 03, 2008

sábado, dezembro 29, 2007

Prazeres de 2007: livros

A obra de Dawkins, pela oportunidade e pelo rigor com que actualiza a reflexão sobre a existência de Deus do ponto de vista científico, é um livro incontornável tanto para ateus como para crentes.
Aqui o comentário Klepsýdra sobre "A Desilusão de Deus de Richard Dawkins.

O "Pacto Ecológico" de Nicolas Hulot é uma obra obrigatória para todos os que se preocupam com os grandes desafios globais: as alterações do clima, a exploração intensiva de recursos naturais, a escassez de água potável, a penúria energética e a biodiversidade.
Aqui o comentário Klepsýdra sobre a obra de Hulot.

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Cinco Filmes

Respondendo simultaneamente ao repto do Carlos Araújo Alves e do Filpe Moura aqui vão os meus cinco filmes preferidos:

- As Asas do Desejo de Wim Wenders (1987)
- Underground de Emir Kusturica (1995)
- La Dolce Vita de Federico Fellini (1960)
- Dr. Strangelove de Stanley Kubrick (1964)
- Sol Enganador de Nikita Mikhalkov (1994)

Como é difícil deixá-los de fora, aqui vão as minhas preferências temáticas:
- Abre los Ojos de Alejandro Amenábar (1997): ficção científica
- Funny Games de Michael Haneke (1997): cinema fantástico (ou terror se quiserem)
- Gato Preto, Gato Branco de Emir Kusturica (1998): comédia

Dos filmes escolhidos pelo Filipe e pelo Carlos, Blowup de Antonioni, 1900 de Bertolucci, La Femme d’à Coté de Truffaut e Dancer in the Dark, de Lars von Trier estão entre os meus filmes preferidos.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

quarta-feira, dezembro 26, 2007

Prazeres de 2007: o filme

O filme "Conversas com o meu Jardineiro" de Jean Becker, baseado no romance homónimo de Henri Cueco é um grande filme com um pequeno orçamento que conta com as excelentes interpretações de Daniel Auteuil e de Jean-Pierre Darroussin. Ler aqui o comentário Klepcinema a "Conversas com o meu Jardineiro".

O filme de Becker é uma das obras que contribuiu para o melhor ano de sempre do cinema francês, o ano com mais entradas, cuja maior contribuição coube à "Marcha dos Pinguins". O cinema francês continua a financiar o melhor cinema de autor de vários continentes e países, em particular o cinema de autor americano (as obras de David Lynch, por exemplo) grandemente marginalizado pela ditadura mercantilista das produtoras e distribuidoras de Hollywood. Vive la France!

terça-feira, dezembro 25, 2007

Prazeres de 2007: o vinho

A Quinta de La Rosa é uma casa gerida por uma família inglesa instalada nas margens do Douro, talvez na zona mais bonita, junto ao Pinhão.
A Quinta de La Rosa produz vinho do Porto, vinhos brancos e tintos e azeite. O Quinta de La Rosa Tinta Roriz Reserva de 2001 foi o melhor vinho que este vosso escriba teve o prazer de descobrir este ano. O preço ronda os 10 € quando comprado na Quinta.

domingo, dezembro 23, 2007

Schengen: um belo grande passo

Em 2000 atravessei pela primeira a fronteira de Berg entre a Eslováquia e a Áustria, na altura uma fronteira entre o espaço Schengen e a Europa não comunitária. Estudava em França, o meu carro tinha matrícula francesa, a minha namorada era Checa e eu tinha passaporte português. Os guardas austríacos passaram-se com o cocktail de nacionalidades. Mandaram-me logo encostar. A bagageira do carro foi-me passada a pente fino pelo guarda equipado de luvinhas brancas, não fosse ele apanhar peçonha. À minha volta assistia a cenas de humilhação de revistas inteiras de autocarros eslovacos que iam trabalhar para a Áustria, como o faziam todos os dias.

Com a chegada de Schengen à Europa de Leste sinto que foi dado um desses grandes passos que a Europa tanto necessita, que eliminam inúmeras burocracias, gastos e humilhações inúteis nos dias que correm. A próxima vez que passar em Berg, farei um manguito imaginário àquele guarda austríaco de luvinhas brancas em homenagem à Europa da livre circulação.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

MobGas: emissões de CO2 no telemóvel

Ontem, ao assistir ao telejornal da RAI Uno tenho uma agradável surpresa. Um investigador português, Tiago Pedrosa, apresenta o programa MobGas que permite a um utilizador de telemóvel controlar a sua contribuição diária para as emissões de gases de efeito de estufa. O trabalho foi desenvolvido no Joint Research Centre de Ispra em Itália em parceria com empresas privadas, cuja implementação foi realizada por uma empresa portuguesa, a MobiComp, uma empresa baseada em Braga.
Um tipo fica cheio de orgulho quando descobre que há compatriotas bem sucedidos nesta áreas.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Acordar em Bolonha

Acordo.

Levanto os estores e contemplo o telhado renascentista do museu cívico medieval, em segundo plano as estátuas da igreja vizinha, projectadas no céu.

A estrada em frente é empedrada, os passos ecoam nas paredes e o barulho das motoretas trepa até ao telhado.

Saio e mergulho nas arcadas de Bolonha,
são 38 km de arcadas só no centro histórico. Aqui o chapéu de chuva é superfulo.

Caminho ao longo da Via Emilia, no sentido contrário ao da Torre Asinelli.
Recentemente, Bolonha foi devolvida às pessoas e aos transportes públicos, o alto da Torre vê-se agora na perfeição, sem smog pelo meio

Espero o autocarro.

Espero...

Chega atrasado,
estamos em Itália...

terça-feira, dezembro 18, 2007

A Administração Bush e o Aquecimento Global

Já não é a questão científica que está em causa. O relatório do IPCC, elaborado com base em publicações científicas com arbitragem pelos pares, atribui a origem do aquecimento global com mais de 90% de certeza à actividade humana. A Administração Bush já não o contesta.

As razões que motivaram o isolamento político dos EUA em Bali são basicamente duas:
1- O histórico da posição dos EUA.
Lembram-se como tudo começou? Segundo os falcões da Casa Branca, o Aquecimento Global era uma invenção dos europeus para a indústria europeia ultrapassar a indústria americana... Verificou-se que esta estratégia negacionista se estatelou ao comprido perante os resultados científicos. Hoje é muito difícil dar o braço a torcer, reconhecer que se errou.
2- A ideologia.
As medidas que serão necessárias implementar no futuro contrariam em larga medida a visão ultraliberal da economia da Administração Bush. O planeta não terá futuro se continuarmos a pensar como no tempo de Locke, Hobbes e Adam Smith. Hoje mais do que nunca sabemos que o planeta é finito e que é impossível a todos os seres humanos viver num nível de abundância, de excesso e de desperdício como se vive nos chamados países ocidentais.

Ana Gomes: Pacheco Pereira e o Iraque

A ler os quatro textos de Ana Gomes "Pacheco Pereira e o Iraque" no Causa Nossa. Muito oportuna a retrospectiva do que escreveu Pacheco Pereira e outros sonharam com um putativo 'admirável Médio Oriente novo' em 2003.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Melhor que um romance

Ler "The Smartest Guys in the Room", livro que descreve o escândalo ENRON, é melhor do que ler um romance. Já tinha visto o filme do mesmo nome, mas o livro é muito melhor. Esqueçam "A Firma" de John Grisham, isso é para pipis, a obra de Bethany McLean e Peter Elkind descreve negociatas a sério, realizadas por homens duros, veteranos de guerra no mundo dos negócios, a linguagem é guerreira: "temos que os matar" ou "aos advogados é dar um tiro na boca para não falhar". Negoceia-se o que se tem e sobretudo o que se não tem. Negoceia-se vazio, o que interessa é dar um nome a um pedaço de papel e depois é só colocá-lo na bolsa e os milhões começam a fluir. Personagens deslumbrados com eles próprios, egos que explodem, narcisismo compulsivo, a história da ENRON é fascinante. O pior é que aquilo tudo aconteceu de facto e continua a acontecer, talvez agora em menor escala, mas é uma parte da realidade do mundo da alta finança.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

A direita do texto do Tiago Mendes

Tentam abafar a coisa, mas o que é certo é que texto "Dizer Basta" do Tiago Mendes mete o dedo na ferida da direita portuguesa. Não é um simples texto dirigido a uma pessoa. A carapuça serviu a muita gente e isso notou-se bem na forma como alguns tentaram minimizar o texto do Tiago. É "chato", mas de uma forma destemida o Tiago lança meia dúzia de questões muito certeiras que ainda fazem da direita portuguesa umas das mais conservadoras e ortodoxas de toda a Europa. Há mais domínios (ambiente, cultura, ciência, etc.) que caracterizam negativamente a nossa direita no panorama das direitas europeias, mas as questões que o Tiago aborda já são suficientemente representativas do problema:

- O catolicismo à portuguesa, centrado na nossa senhora de Fátima, piscando o olho ao desenho inteligente e a todo o tipo de pseudo-catolicismo;
- O cocktail Opus Dei-ultraliberalismo onde a "dimensão social e humana, uma molécula que seja de amor, de compreensão ou de compaixão de inspiração cristã [sic]" estão ausentes;
- A condescendência com o Salazarismo;
- Um racismo velado e muito pobrezinho: é só ler o chorrilho de asneiras e os textos ignorantes que se escreveram sobre as declarações de Watson (cuja reacção foi correcta, pedindo desculpas e sublinhando que as suas declarações não tinham qualquer base científica);
- A perseguição ao "lobby gay". Sobre este assunto há matéria abundante muito mal intencionada. Percebe-se que anda por aí perdido muito tique da Santa Inquisição.

Por mim, estou grato que exista uma direita como a do Tiago Mendes, do Carlos Amorim, do Gabriel Silva do Pedro Lomba, do Vasco Rato, do blogue Mar Salgado, entre outros. Poupa-nos a seca (ser seca é bem pior que ser chato) de discutir sempre o mesmo assunto, assuntos mais do que resolvidos e as mesmas obsessões conservadoras de há mais de 50 anos atrás.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

99 F - O homem é um produto como outro qualquer



"99 Francos" de Jan Kounen, baseado no livro do mesmo nome de Frédéric Beigbeder, é um filme em registo de permanente delírio, fiel ao universo de Beigbeder, que caracteriza deliciosamente o cínico mundo da publicidade.

Em "99 Francos", Octave é um profissional da publicidade, perfeitamente integrado nas regras do jogo, onde cabe o cinismo, o desprezo e a manipulação do consumidor. No entanto, um belo dia Octave passa-se definitivamente dos carretos. Picado pela arrogância de um empresário imbecil que lhe encomenda um anúncio de iogurtes, Octave decide por um ponto final a uma vida de hierarquias empresariais vaidosas, à manipulação grosseira do consumidor, a racismos velados (vale a pena ver como funciona o racismo na publicidade) e a intolerâncias várias nos anúncios de televisão. O filme bombardeia-nos de chavões, de olhares e de gestos irónicos baseados na linguagem publicitária. "O homem é um produto como qualquer outro" ou "há dois mil anos que não existia um cretino irresponsável foi tão poderoso como eu" são os dois principais chavões de apresentação de Octave.

Apesar de uma aparente ligeireza, o filme mostra-nos com uma serenidade poderosa e perturbadora como alguns dos nossos mais exclusivos sonhos e fantasmas são também eles moldados pela publicidade, que até pode ser uma publicidade a um derivado do petróleo...



Relacionado: ler esta entrada do David na Linha dos Nodos

Europeísmo de circunstância

Infelizmente, a assinatura do Tratado Simplificado fica marcada pela infantilidade do governo português em querer à força que este Tratado se designe de Lisboa, obrigando todos os dirigentes europeus a uma viagem relâmpago a Lisboa para continuar, logo à tarde, o Conselho Europeu em Bruxelas.

A adopção deste Tratado passando por cima das promessas de referendo e dos NÂO francês e Holandês pode dar muito mau resultado. Um erro que a UE poderá pagar caro numa próxima ocasião em que precise de consultar os seus cidadãos.

Apesar de ser favorável à adopção deste Tratado Simplificado, temo por esta UE nas mãos de um conjunto europeístas de circunstância, muito mais motivados pelos ganhos internos à custa do Tratado do que com a substância e o progresso do projecto europeu. Que saudades da Europa de Delors! A UE necessita seriamente de dirigentes genuinamente europeístas, penso num Jean-Claude Juncker na direita europeia, num Cohn-Bendit na esquerda ou a um centrista comoFrançois Bayrou.

Aqui para ver a assinatura do Tratado em directo (11:30)

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Prós & Contras sobre a UE

A radicalidade do discurso anti-europeísta de Pacheco Pereira foi o facto dominante do Prós & Contras.
Na forma como abriu o debate, queixando-se de não haver debate sobre o Tratado. Mas afinal já tinha havido, mas o que não tinha havido era o contraditório. Claro, só há contraditório se o próprio estiver presente...
Na forma surrealista e insistente com que tentou branquear a incoerência diplomática de Gordon Brown. Foi preciso os dois intervenientes africanos lhe dirigirem algumas palavras mais terrenas para o trazer de volta da estratosfera.
Na forma como foi metralhando factos avulsos da história e da geografia da Europa, apelando ora a pequenos medos ora ao sentimento de culpa dos europeus, como se a Europa dos 15, por exemplo, não tivesse sido construída durante decénios paralelamente a questões delicadas como a opressão militar e sangrenta na Irlanda do Norte ou a disputa de Gibraltar entre espanhóis e britânicos.
Na forma idílica como fala da Europa imaginada por Jean Monnet e outros dos pioneiros da construção europeia. Será que leu sobre as ideias internacionalistas (eram mais do que europeístas) e futuristas de Monnet e Schumann? O mais certo seria considerar algumas dessas ideias ficção científica.
Na forma idílica e quase acrítica como se refere à NATO, à realpolitik anglo-saxónica e à Polónia dos irmãos Kachinsky. Do ponto de vista populista sabe criticar Chavez, mas está sempre disposto a uma elaborada defesa de cernelha dos populistas Kachinsky.
Na forma premeditada como repetiu a frase "os portugueses vão perder muito com este Tratado". É uma frase que resulta sempre quando se quer fazer anti-europeísmo, principalmente quando se coloca à frente do muito, palavras como peixe, pesca ou recursos marinhos (lembram-se dessa?). Desta vez pouca gente percebeu o que Portugal iria perder, mas o mais importante foi repetir a frase umas cinco vezes.

Se dúvidas restam, o alcance do radicalismo anti-europeu de Pacheco Pereira revela-se totalmente na comparação com o último discurso de Cavaco Silva em Estrasburgo. Entre Cavaco e Pacheco Pereira não existe um fosso, existe um oceano, o mesmo oceano que separa a Casa Branca do Palácio de Belém.

PS- Pareciam a pedido, os dois cordeirinhos do outro lado da mesa que a RTP escolheu para o contraditório a Pacheco. Nos debates ("que não existem") sobre a Europa, Pacheco Pereira nunca é confrontado com quem lhe possa dizer umas coisas a sério sobre o seu anti-europeísmo fortemente comprometido com um seguidismo cego à Casa Branca. Estou-me a lembrar de uma Ana Gomes ou até de uma Assunção Esteves. Mas essas, já se sabe, só participam em "falsos debates pornográficos", "sem contraditório"...

terça-feira, dezembro 11, 2007

Documento de Parceria Estratégica UE-África

Quando se lê o documento de Parceria Estratégica África-UE percebe-se que as manias do seguidismo em relação às práticas internacionais dos EUA resultam em pontos de ordem absolutamente lamentáveis. Já nem me refiro à táctica de abertura e desregulamentação completa dos mercados dentro do espírito Wolfowitz. Refiro-me à menção, por exemplo, à "luta contra o terrorismo". Se lermos a pag. 29 da Acção Prioritária 1 dedicada à paz e à segurança, tropeçamos num ponto de actividades dedicado apenas à sagrada "luta contra o terrorismo" (não podia faltar). Apesar de o dia de hoje ter sido marcado por um atentado em África, convém ter presente que as minas pessoais matam muito mais pessoas em África do que os atentados. Ora, no ponto seguinte do documento, a questão das minas aparece misturada com outras armas e compromete-se simplesmente a reforçar capacidades, à criação de redes, à cooperação e ao intercâmbio de informações. Quer isto dizer que vamos ter minas a estoirar em África por muitos e longos anos, vendidas pelos países da realpolitik, os que se recusam a assinar quase todos os tratados internacionais, em particular o tratado que visa banir as minas anti-pessoais. São muito genuínas as boas intenções da "luta contra o terrorismo"...

O Discurso Nobel de Rajendra Pachauri

O discurso de Rajendra Pachauri, que preside o IPCC, proferido ontem em Oslo durante a cerimónia de atribuição do Prémio Nobel da Paz pode ser visto aqui em formato vídeo. Destaco estes dois excertos:

Paz e Alterações do Clima
"Peace can be defined as security and the secure access to resources that are essential for living. A disruption in such access could prove disruptive of peace. In this regard, climate change will have several implications, as numerous adverse impacts are expected for some populations in terms of:

- access to clean water,
- access to sufficient food,
- stable health conditions,
- ecosystem resources,
- security of settlements."


A necessidade de agir já (short window of time)
"A stabilisation level of 445–590 ppm of CO2 equivalent, which corresponds to a global average temperature increase above pre-industrial at equilibrium of around 2.0–2.4 ºC would lead to a reduction in average annual GDP growth rate of less than 0.12% up to 2030 and beyond up to 2050. Essentially, the range of global GDP reduction with the least-cost trajectory assessed for this level of stabilisation would be less than 3% in 2030 and less than 5.5% in 2050. Some important characteristics of this stabilisation scenario need careful consideration:

- For a CO2-equivalent concentration at stabilization of 445–490 ppm, CO2 emissions would need to peak during the period 2000–15 and decline thereafter. We, therefore, have a short window of time to bring about a reduction in global emissions if we wish to limit temperature increase to around 2oC at equilibrium.

- Even with this ambitious level of stabilisation the global average sea level rise above pre-industrial at equilibrium from thermal expansion only would lie between 0.4–1.4 metres. This would have serious implications for several regions and locations in the world.

A rational approach to management of risk would require that human society evaluates the impacts of climate change inherent in a business-as-usual scenario and the quantifiable costs as well as unquantifiable damages associated with it, against the cost of action. With such an approach the overwhelming result would be in favour of major efforts at mitigation."

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Muito ruído irresponsável na Cimeira UE-África

África é um continente onde se vivem graves problemas, problemas de que já perdemos a memória na Europa. É por isso muito fácil apontar o dedo a este ou àquele líder africano, é tão fácil como fácil é para eles apontar o dedo a este ou àquele passado colonial. Foi lamentável o ruído irresponsável que se criou à volta da cimeira onde pontificaram os fait-divers, a tenda do Khadafi, a acusação fácil e uma mania da superioridade moral que enjoa.
O problema é que a África de hoje precisa de outro tipo de debate, precisa de um debate sério sobre a estabilidade política, o reforço democrático das instituições nacionais, a educação, o desenvolvimento científico e tecnológico, o combate às alterações do clima e a protecção do património natural (seres vivos, recursos naturais, etc.).

Fez-se alguma coisa na Cimeira, não foi muito famosa, mas foi melhor que nada, foi certamente melhor do que ficar em Londres a apertar a mão ao pior tirano do mundo. Para quem preferir ler o que de facto se passou na cimeira em vez do habitual ruído, escrito por quem gosta de mandar palpites sem ler documentos e relatórios, aqui ficam as ligações sobre as conclusões da Cimeira:

- Pareceria Estratégica África-UE
- Declaração de Lisboa

domingo, dezembro 09, 2007

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Quem cumpre e quem não cumpre Quioto

A propósito da Conferência sobre Alterações do Clima, a decorrer em Bali, cuja missão é preparar o pós-Quioto em 2012, convém relembrar quem cumpre e quem não cumpre o Protocolo de Quioto dentro da UE. Um relatório elaborado pela Comissão Europeia dá as seguintes projecções para 2010 (pag.12, fig.4):

- Todos os países de leste deverão cumprir os objectivos de Quioto mais Luxemburgo, Reino Unido, Suécia, Finlândia, Grécia, França e Alemanha.

- Os países que deverão ficar aquém dos objectivos são a Itália e a Bélgica (a menos de 1%), Portugal (a mais de 3%), Irlanda, Áustria, Dinamarca e Espanha.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

O Fim do Mistério de Roswell



A minha última crónica no Portal do Astrónomo:

Nesta crónica costumo descrever viagens fantásticas pelo Universo, que são unicamente fruto da minha imaginação. No entanto, a tentativa de fazer passar a imaginação humana por ciência é uma prática comum. A astrologia é um dos mais antigos exemplos e a ovnilogia dos mais recentes. Neste último domínio destaca-se o mistério de Roswell.

O famoso Mistério de Roswell baseia-se num incidente em que uma alegada nave alienígena se despenha em 1947 no deserto perto de Roswell, no Novo México, com extra-terrestres a bordo, tendo a nave sido de seguida removida e ocultada pelo exército americano. Apesar de alguma especulação nos jornais locais da época, o Mistério de Roswell só teve difusão mundial após um filme em que se exibia uma alegada autópsia a um extra-terrestre ter sido transmitido pela cadeia de televisão FOX em 1995. O filme da autópsia circulou posteriormente pelas televisões de todo o mundo, tendo sido vendido por quantias astronómicas. A RTP foi uma das televisões que adquiriu uma cópia do filme. Muitos de nós ainda recordamos o debate organizado na altura pela RTP, onde o Dr. José Pinto da Costa se insurgiu com insistência sobre a forma desastrada como a autópsia era realizada no filme. Desde então uma gigantesca campanha de marketing foi montada à volta do mistério de Roswell, foi construído um museu em Roswell dedicado ao incidente de 1947, foi comercializado merchandising diverso, foram produzidos inúmeros documentários e ainda séries televisivas e filmes que não escondem uma óbvia colagem ao clima de mistério gerado pelo filme da autópsia. A série “Ficheiros Secretos”, produzida pela mesma cadeia de televisão FOX e o filme “O Dia da Independência” são talvez as produções mais caras, mas que também geraram mais receitas, explorando o caso Roswell.

Recentemente, descobriu-se que o filme da autópsia é falso e que o seu produtor, Ray Santilli, recorreu ao escultor John Humphreys – também produtor de efeitos especiais que criou Max Headroom - para a realização do cenário do filme da autópsia. Recorrendo a um manequim desenhado para o efeito, a carne de galinha, a um cérebro e a uma perna de carneiro, Humphereys foi o artífice do extra-terrestre autopsiado. Os actores que participam na acção foram os próprios, sem qualquer experiência em autópsias, daí ser inteiramente legítima a célebre irritação do Dr. José Pinto da Costa. No documentário “Eamonn Investigates: The Alien Autopsy” (ver aqui) transmitido pela cadeia Sky, o assunto é dissecado quase na sua totalidade, tendo os autores da embuste enveredado por uma argumentação pouco convincente de que o filme da autópsia seria uma hipotética cópia de um filme original muito degradado que Santilli adquiriu nos EUA. O lucro gerado pelo filme da autópsia estima-se em 4 milhões de euros. Resta saber se o mistério de Roswell, refiro-me agora ao mistério comercial de Roswell, acaba na confissão Santilli, ou se tem ramificações a quem mais lucrou com a lenda: a cadeia de televisão Fox e a sua empresa irmã da sétima arte Twenty-Century Fox.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

O ligeiro problema da Opus Dei

Nesta passagem de um grandioso post, o Tiago Mendes toca num ponto muito importante que caracteriza na perfeição as incoerências do catolicismo à portuguesa, em particular a Opus Dei:

"dão-se alvíssaras a quem encontrar, naquilo que o André Azevedo Alves escreve há anos sobre o que quer que tenha uma dimensão social e humana, uma molécula que seja de amor, de compreensão ou de compaixão de inspiração cristã. Há ali uma incoerência que não percebo"

De facto, quem ouve ou lê alguns dos representantes mais mediáticos da Opus Dei fica com a sensação que o exemplo de humildade e simplicidade da vida de Cristo é completamente adulterado. Falam constantemente de riqueza com a boca cheia, quem os ouve julga que Cristo era rico e filho de ricos e falava aos ricos, e em vez de distribuir gratuitamente peixe aos pobres, apelava à diminuição dos impostos dos ricos. O consumismo e as posses materiais são encorajados por cima de toda a folha. É um discurso carregado de desprezo pelos excluídos, rotulados frequentemente de preguiçosos, apedrejando as Marias Madalenas (e Madalenos) deste mundo. A sua atitude anda muito mais próxima das descrições fantásticas do Mafarrico de tridente em punho do que propriamente da aura misericordiosa do Altíssimo.

O Paralelepípedo de Maio de 68

À atenção de qualquer soixante-huitard que se preze:

"Mai 68, le pavé" é um livro comemorativo do Maio de 68 em forma de paralelepípedo, composto por fotos e pelos slogans mais criativos.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Daniel Oliveira sobre Chavez

Concordo com quase tudo o que o Daniel Oliveira tem escrito sobre Chavez.
É isto que eu espero da esquerda, que use do seu espírito crítico em permanência, sem cair no sectarismo nem aderir à carneirada que se alinha atrás de qualquer panfleto vermelho mixuruca.

Austrália ratifica protocolo de Quioto

É oficial, a Austrália vai ratificar o Protocolo de Quioto. Depois deste anúncio, os EUA serão o único país entre as nações mais desenvolvidas a não ter ratificado o Protocolo. O isolamento da Administração Bush não é apenas externo, é também interno. Apesar de Bush já ter admitido que o aquecimento global é uma realidade, a comunidade científica americana - que em muito contribuiu para o trabalho do IPCC e para os avanços significativos no conhecimento das alterações do clima - tem-se manifestado abertamente contra a teimosia de Bush. A oposição interna à política ambiental de Bush chegou ao ponto de um significativo movimento de cidadãos do Estado do Vermont apelar à independência do Estado invocando, entre outros motivos, a não ratificação do protocolo de Quioto.

segunda-feira, dezembro 03, 2007

A Tábua de Chavação

Fico perplexo quando leio pessoas de esquerda que considero inteligentes e muito bem informadas defenderem de cernelha um populista de pacotilha como Chavez. Tenho a certeza que se hipoteticamente trocassem dois dedos de conversa com o personagem, algumas o rotulariam de atrasado para baixo. Ele certamente os rotularia de traidores para baixo. Mas como o vêem ao longe na TV ou nos jornais embrulhado em bandeirinhas, em balõezinhos e em estrelinhas vermelhas em pleno delírio contra os populistas de direita (que são quase iguais a ele), a nostalgia de outros tempos parece assumir o controlo da sua capacidade crítica.

A sensação que fica para quem os lê é que a esquerda hoje se resume a populistas como Chavez, como uma tábua de salvação que resta de um grande navio marxista que se afundou a pique. Fica a sensação que não há outras esquerdas na Venezuela, ou na América do Sul, ou no resto do mundo. Fica a sensação que o único projecto de esquerda foi o do socialismo real do século XX. E fica a certeza que na esquerda ainda há um importante trabalho de luto político a fazer. A esquerda só faz sentido se for crítica e capaz de se questionar (não é sinónimo de se fraccionar) em permanência.

Noctis Labyrinthus


Imagem Mars Express, ESA

domingo, dezembro 02, 2007

Filme europeu do ano: 4 meses, 3 semanas e 2 dias

O filme "4 meses, 3 semanas e 2 dias" voltou a obter uma importante distinção internacional. Após ter vencido o mais prestigiado galardão cinematográfico, a Palma de Ouro do Festival de Cannes, desta vez obteve o galardão de filme europeu de 2007, atribuído ontem em Berlim.

O nosso Mestre Manoel de Oliveira com apenas 98 anos, 11 meses, 2 semanas e 6 dias recebeu um galardão honorífico pela sua carreira cinematográfica.