sábado, março 31, 2007

Sábado em Coimbra XXXIV: Requiem pela Rua Direita

Rua Direita, Rua Direita, essa rua torta,
que vai do Terreiro da Erva à Igreja de Sta. Cruz
onde se confessa a via romana da ex-Aeminium,
os pecados por ali sempre se pagaram, mas nunca se apagaram.

...eis que chegam os bulldozers,
essas borrachas rotring da santíssima trindade.
Em nome da Câmara, da Académica e do Grupo Amorim, Ámen!

Sábado em Coimbra XXXIII

quinta-feira, março 29, 2007

A esquerda e a Europa

Ler extractos da entrevista de Mário Soares ao Público sobre a Europa, via O Avesso do Avesso. Destaco:

"Eu costumo dizer que não há ninguém de esquerda que não seja também europeu. Se a esquerda não é europeia não é nada."

Desconfio que Mário Soares está carregadinho de razão. O que é certo, é que a esquerda anti-europeísta existe. Existe e é de uma tristeza política confrangedora. É triste esquerda rimar com populismo, com desconfianças nacionalistas, com masturbações patrioteiras, com saudosismos pseudo-revolucionários, com negacionismos históricos, etc. Refiro-me a quem? Ao PCP, PCF, PCdI, Links Partei, PC Checo e ao PS de Fabius.

terça-feira, março 27, 2007

Excelente documentário de António Barreto

Já aqui malhei forte e feio em António Barreto, e não me arrependo, porque acho que Barreto errou, e errou muito, sobre o que escreveu sobre a educação, o ensino superior e a investigação científica. Mas, depois de ter assistido ao primeiro episódio da série "Portugal - um retrato social", não posso deixar de aplaudir com muita satisfação o excelente trabalho por ele realizado na produção desta série. Uma coisa é vociferar e entrar em histeria inconsequente contra o Salazarismo, outra é mostrar, quase sem grandes comentários, o país de merda que era Portugal antes do 25 de Abril.

50 anos depois (caixa de comentários)

Recortes da caixa decomentários da entrada "50 anos depois":

"É um projecto que terá as suas dificuldades próprias, mas se a Europa se pacificou e se desenvolveu, foi graças à superação de paradigmas passados. É uma aventura que vale a pena. Muitos dos problemas que apontou resolvem-se com mais e melhor Europa. Não posso, aliás, deixar de recordar o contributo das teses federalistas para a Europa. Kant é uma boa leitura para estes dias. Tomara, nos quatro anos de invasão do Iraque, que fosse um pouco mais considerado." Sérgio

"Juntar 25 países com culturas e hábitos diferentes, criar uma moeda única, um parlamento e regras únicas é um feito de saudar." Papalagui

"Não creio que a UE seja subserviente face aos EUA. Enquanto o RU é fortemente atlantista, a França é muito céptica face à América. Repara que se algum dos países for atacado, a NATO, como aliança é obrigada a intervir. É ela, portanto, e não a UE, que tem garantido a paz na Europa." David Luz (Linha dos Nodos)

segunda-feira, março 26, 2007

sábado, março 24, 2007

50 anos depois

A Europa ainda tem muita coisa a melhorar, mas é preciso não esquecer que em nenhuma outra região do mundo se foi tão longe na ecologia, na redução do horário de trabalho, no tempo de férias, na cobertura social, na aposta da diplomacia internacional, na luta contra a exclusão, na sexualidade, na paridade, na laicidade, na integração de países vizinhos mais pobres (da Irlanda à Bulgária) por países mais ricos, na qualidade de vida e no desenvolvimento sustentável. Tudo isto aconteceu num quadro de diversidade impressionante de tendências e de pensamento político (do Parlamento Europeu aos parlamentos nacionais), diversidade cultural, linguística e espiritual. É um património assinalável que não se deve desbaratar em nome de tácticas políticas efémeras.

No entanto, a imigração, as relações de comércio externo com os países em vias de desenvolvimento, a exploração da mão-de-obra nesses países, a fraca transposição da produção científica para a tecnologia ao serviço da sociedade e a subserviência à NATO/EUA, continuam como os pontos negros da UE. Cabe-nos a nós construir a Europa dos próximos decénios revolucionando o necessário da política para eliminar estes pontos negros. Isso não se faz a olhar para o umbigo de cada país, nem a olhar para os outros povos como corpos estranhos. A força da UE é fazer melhor em conjunto do que o resultado da soma das partes separadas. É nesta espírito que identifico com a Europa e me considero Europeísta, e não porque ache que a Europa é um continente especial ou que o continente tenha sido iluminado pelas pontas dos dedos do Altíssimo quando este criou os animaizinhos, as arvorezinhas e os homenzinhos.

quinta-feira, março 22, 2007

Como o planeta "respira" o CO2



Esta extraordinária animação construída com os dados do satélite Envisat da ESA, mostra a variação da concentração de dióxido carbono na atmosfera terrestre entre 2003 e 2005. É impressionante verificar como a sua quantidade diminui significativamente na Primavera e no Verão à medida que a vegetação do hemisfério norte vai crescendo - o hemisfério sul tem menos área continental e por isso menos vegetação - e o efeito inverso no Outono e no Inverno.
Abaixo a concentração de metano no mesmo período.

Críticos de cinema do Público (comentários)

"Era interessante procurar uma correlação estatística entre o número de estrelas dadas aos filmes e as distribuidoras, e depois procurar verificar se os jornais e as distribuidoras têm interesses comuns", David Luz.

Pois era...

"Realmente é espantosa a quantidade de filmes que só são vistos por um ou dois críticos. Conheço cinéfilos que vêem mais filmes que certos críticos!", David Luz.

Eu também.

quarta-feira, março 21, 2007

Críticos de cinema do Público vão juntos ao WC?

Ocorreu-me esta pergunta ao apreciar esta página de cinema do Público de nome sugestivo: topFilmz. Na página topFilmz encontramos as estrelinhas dadas pelos críticos de cinema do Público. Passem os olhos pela página, vale a pena... Reparem que o acaso faz que os quatro críticos do Público só atribuam 5 estrelas ao mesmo filme, a película "Cartas de Iwo Jima" de Clint Eastwood. Se passarem os olhos pelo resto, mais estrela menos estrela, os críticos do Público estão basicamente de acordo. O filme Babel é a prova dos nove sobre o que estes críticos odeiam em cinema (eu percebo-os, andar de autocarro sem ar condicionado em Marrocos no meio de terroristas perigosíssimos é chato). Fica a sensação que a crítica de cinema do Público é feita por um grupo de amigos. Mas não, é mais forte do que isso. Pensando bem, se juntarem os vossos três melhores amigos que gostam de cinema muito dificilmente conseguiriam uma tabela de estrelinhas tão bem comportada como esta. A comunhão de gostos dos críticos do Público é tal que só pode ser explicada, ou por uma formatação e uniformização cerebral colectiva resultado de anos e anos a ver o mesmo tipo de filmes, ou por "exigências maiores" da indústria de distribuição cinematográfica. Acredito mais na primeira hipótese.

Conclusão
O Público não precisa de pagar a 4 críticos de cinema. Poderia despedir três e pagar apenas a um crítico. Ao Jorge Mourinha, por exemplo, que é o único que se dá ao trabalho de levantar o traseiro para ir ao cinema. Este assinaria a atribuição de estrelas juntamente com três nomes fictícios diferentes, tirava uma estrela aqui, adicionava outra ali e o resultado para o leitor seria exactamente o mesmo.

terça-feira, março 20, 2007

Sobre o filme As Vidas dos Outros

Ler o comentário do Luís ao filme As Vidas dos Outros na Natureza do Mal. Destaco:

"Estranhamente, não chega conquistar um Óscar, um êxito razoável de bilheteira no Reino Unido para escapar a uma exibição discreta em salas secundárias da capital de um Império que também já foi. O fascismo nunca existiu, já se sabe. E aquele comunismo, camaradas, também não."

Broches a uma ideologia que é contra a ciência

O programa e os painéis do colóquio "Darwinismo versus Criacionismo - Onde começa e onde acaba uma teoria científica" (via Causa Nossa), organizado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, deixam entender que se vai explicar porque é que o Darwinismo é ciência e o Criacionismo (desenho inteligente incluído) não é ciência nenhuma. No entanto, há dois reparos importantes a fazer.

Primeiro, o título lança desnecessariamente alguma confusão sobre o assunto, pois o Darwinismo não pode ser comparado com o Criacionismo à luz da ciência. Compará-los tem tanto significado como comparar batatas com sereias. O Darwinismo é perfeitamente fundamentado pela ciência - há poucas teorias para as quais tenham sido reunidas tantas provas que as validem - enquanto o Criacionismo (e a sua última moda do desenho inteligente) não tem qualquer base científica, não existe qualquer trabalho científico válido que verifique as hipóteses de base criacionista.

O segundo reparo a fazer a este colóquio é que se trata de mais um broche à ideologia neoconservadora com origem nos EUA, que é a única ideologia hoje em dia que alimenta este tipo de pseudociência. Quem conhece um bocadinho os manobrismos que os neoconservadores ensaiam na Europa, sabe muito bem de onde surgem este delírios. Fundaçõezinhas e fundaçõezecas, do tipo da fundação do mafioso George Soros, multiplicam-se pelo continente europeu, principalmente na Europa de Leste com o objectivo de evangelizar os europeus aos maiores delírios do neoconsevadorismo americano. O menu neoconservador é composto por uma catequese espiritual e outra materialista. A catequese materialista baseia-se no ultraliberalismo do Estado Mínimo contra o Modelo Social Europeu. A catequese espiritual baseia-se no combate cerrado à ciência, através do negacionismo do Darwinismo, do Big Bang e do Aquecimento Global. Os recentes desenvolvimentos científicos sobre as alterações climáticas desferiram um rude golpe à ideologia neoconservadora, mas o dinheiro dos poços de petróleo continua a jorrar para alimentar os delírios pseudo-científicos. Infelizmente, este colóquio tem tudo para ser considerado mais um broche à ideologia neoconservadora do que propriamente uma oportunidade para esclarecer o grande público sobre a importância do método científico na complexidade das sociedades actuais.

segunda-feira, março 19, 2007

Depois digam que a culpa é da Europa...

É escandalosa a situação dos ex-trabalhadores da Companhia Portuguesa do Cobre que continuam com verbas avultadas para receber por o Estado ter aplicado só em 2000 a directiva comunitária dos anos 80 que obriga à criação do Fundo de Reserva de Garantia Salarial. A legislação vigente em 1996, na altura da falência, dava prioridade às dívidas aos bancos. Os bancos receberam, os trabalhadores também não...

domingo, março 18, 2007

Taxi Driver

"Taxi Driver" é o meu filme preferido de Martin Scorsese - não vi o premiado "Entre Inimigos", o remake de "Infernal Affairs" de Wai Keung Lau. Em "Taxi Driver", Scorsese explora até ao absurdo a diferença entre a justiça e o justiceiro da selva urbana. É de certo modo uma recriação do tema de "Fury" realizado em 1936 por Fritz Lang, adaptando o tema da justiça pelas próprias mãos aos anos 70, ao ambiente urbano de uma grande cidade e à desumanização das sociedades modernas. Em "Taxi Driver", Robert de Niro interpreta o excelente papel de Travis Bickle, um taxista solitário e desequilibrado que decide fazer justiça pelas suas próprias mãos para purificar a cidade, fazendo uso da força das armas e da moral de pacotilha. Jodie Foster (com apenas 14 anos) interpreta uma prostituta a quem Travis vai convencer a deixar a "má vida".

Apesar de "Taxi Driver" levar ao absurdo a fúria justiceira, é um filme sempre actual, sobretudo porque as grandes cidades das democracias modernas, só são modernas até à profundidade da primeira camada de verniz. Daí para baixo, ainda não se percebeu como funcionam os mais básicos pilares da justiça, não se distingue entre justiça e vingança e aplaude-se com frequência os Travis deste mundo.

sexta-feira, março 16, 2007

Mares nunca antes navegados

A sonda Cassini da NASA descobriu a existência de mares no planeta Titã. Quem estiver a pensar ir lá mandar em mergulho pode tirar o cavalinho da chuva, são mares de etano ou de metano líquido.

quarta-feira, março 14, 2007

Verdades do Iraque como azeite em copo de água

Para quem tinha lido o livro "Disarming Iraq" de Hans Blix, as suas declarações de manipulação por parte dos governos britânico e americano do relatório sobre as armas de destruição em massa (ADM) não são grande novidade. Em "Disarming Iraq" já está lá tudo, num livro muito interessante nunca traduzido para português, vá-se lá saber porquê...

Aqui fica uma entrada de 11 de Outubro de 2004 em que comento as denúncias de Hans Blix em "Disarming Iraq" sobre o processo de inspecções de ADM.

segunda-feira, março 12, 2007

O negacionismo da teoria da evolução na ARTE

Hoje no canal ARTE, pela 21h20 de Portugal, é transmitido um documentário intitulado "La Science en Guerre" sobre o delírio negacionista da teoria da evolução de Darwin que grassa nos EUA.

O secundário mal feito de Helena Matos

Esta crónica do Rui Tavares publicada no Público sobre um texto de Helena Matos (suponho publicado no dia anterior no mesmo jornal) deixou-me com os cabelos em pé tal é o grau de ignorância científica (nível escola secundária) que Helena Matos evidencia. Não tenho o texto completo da Helena Matos, por isso corro algum risco de ser injusto, no entanto o parágrafo abaixo transcrito e as citações entre aspas são suficientes para perceber que a Helena Matos não domina nem de perto nem de longe uma das matérias essenciais do ensino secundário: o Método Científico. Eis o referido parágrafo:

Haverá alguma correspondência, como sugeriu ontem Helena Matos, entre os profetas religiosos que declaravam que as catástrofes naturais eram provocadas pelo pecado e aqueles que hoje identificam causas humanas nas alterações climáticas? Poderá considerar-se que a crença numa e na outra coisa é “uma atitude igualmente supersticiosa”? Será legítimo concluir que “onde uns colocavam a vontade de Deus coloca-se agora o equilíbrio da Terra”? Rui Tavares

Qualquer estudo científico moderno está sujeita aos critérios rigorosos e absolutamente cépticos do método científico. De uma forma simplificada podemos dividir o Método Científico em quatro passos:

1- Observação
2- Hipótese
3- Previsão
4- Experimentação

Só depois de um fenómeno ter sido estudado rigorosamente através deste método é que os cientistas produzem uma conclusão fundamentada, conclusão essa que tem sempre um determinado grau de certeza. No caso do aquecimento global, os 1000 melhores investigadores do mundo (de 130 países) em climatologia, depois de 6 anos de trabalho, determinaram um grau de certeza superior a 90% para a origem humana do fenómeno. Ora os profetas religiosos, a superstição, "a vontade de Deus" e o próprio raciocínio da Helena Matos não passam por este processo rigoroso de estudo e por isso mesmo não são ciência, são palpites muito pobrezinhos.

O problema é que a ignorância do que é o método científico tem sido recorrente entre os textos negacionistas do aquecimento global, não é só Helena Matos, são também as toneladas de textos do Blasfémias (todos sobre o criacionismo), do Insurgente, do Mitos Climáticos e do Luciano Amaral no DN a evidenciar o mesmo problema.
Não é por uma falha no programa das escolas secundárias que este flagelo intelectual grassa no país, lembro-me de ter dado o método científico em duas disciplinas: filosofia e física&química. A raiz do problema está na fraquíssima cultura científica do nosso país. Este défice científico da nossa sociedade impede que a maior parte dos cidadãos não perceba que saber o método científico é tão importante como saber a gramática ou história de Portugal.

sábado, março 10, 2007

20% de energias renováveis na UE até 2020

A decisão de ontem do Conselho Europeu em estabelecer uma meta de consumo de 20% de energias renováveis no horizonte de 2020 no espaço geográfico abrangido pela UE, é uma decisão histórica, que vai no sentido das boas políticas de combate ao aquecimento global, no entanto as respectivas negociações foram ensombradas por dois detalhes não desprezáveis. O primeiro foi a intransigência da França e de alguns países de leste onde o consumo de energia de origem nuclear é maioritário, em aceitar a meta de 20% como uma meta individual, para cada país. A decisão de 20% ficou assim estabelecida como uma média de consumo energético de toda a UE, quer isto dizer que alguns países vão fazer um esforço maior no sentido do consumo de energias renováveis para compensar a aposta nuclear da França e dos referidos países de leste. O segundo detalhe negativo, é a indiferença dos EUA em relação à decisão. Na minha opinião está na altura da UE interpelar seriamente os EUA sobre a essência da palavra aliado. Não se pode ter a pretensão de ser um aliado de armas e depois pela calada do fumos das chaminés contribuir para destruir o planeta, destruindo tudo a eito, aliados e inimigos, não faz sentido.

quinta-feira, março 08, 2007

Serviço público...

A RTP continua na sua senda de canal pimba, seguindo o estilo SIC/TVI. Hoje a soirée da RTP internacional é dedicada à Gala dos 103 anos do Benfica. No próximo dia 1 de Maio, espero que sejam coerentes e não se esqueçam de transmitir o Monumental Digestivo directamente do Café Nau que se segue à jantarada comemorativa dos 114 anos da Naval.
A RTP poderia até tornar-se um canal especializado em aniversários de clubes, ou mesmo em baptizados ou casamentos de dirigentes, de associados e de massagistas...

terça-feira, março 06, 2007

Melhores momentos das presidenciais francesas

Sem dúvida, os melhores momentos destas presidenciais francesas são dois grandes momentos de participação cidadã:

- O Pacto Ecológico proposto por Nicolas Hulot aos candidatos presidenciais. Um pacto que compromete o futuro presidente francês a uma série de medidas para a protecção do ambiente.

- O Contrato Social e de Cidadania apresentado pelo colectivo AC Le Feu, constituído por jovens das cités fartos de carros queimados e de políticos autistas.

sábado, março 03, 2007

Aquecimento Global Hoje

A ler o texto do David Luz na Linha dos Nodos sobre a importância do estudo dos polos no estudo do aquecimento global.

Ler este texto do Alexandre Andrade no Um Blog sobre Kleist relembrando a verdadeira natureza sobre o sítio Junk Science (já faltou menos para o Blasfémias promover a astrologia a ciência exacta), já aqui denunciado numa entrada anterior. E um grande parabéns para o Alexandre e para o seu excelente e delicioso blogue.

O Nuno Ferreira do Aba de Heisenberg tem esta entrada que ilustra com clareza o fundamento científico das opiniões dos negacionistas do aquecimento global.

Aniversários

O Avesso do Avesso foi uma grande aquisição para a blogosfera nacional, está de parabéns o Filipe Moura.

Apesar de traulitada que chove às vezes daqui para lá e de lá para cá, os meus parabéns à malta do Blasfémias, sobretudo ao desportivismo de alguns dos seus escribas.

sexta-feira, março 02, 2007

As Vidas dos Outros

"As Vidas dos Outros" é na minha opinião um dos melhores filmes de 2006. O grande interesse desta obra de Florian Henckel von Donnersmarck - Filme Europeu do Ano e Oscar para o Melhor Filme Estrangeiro - é o de mostrar até que ponto a polícia política da ex-RDA era capaz de corromper a alma dos cidadãos, mesmo dos que se esforçavam para não pactuar com o regime. O filme abre com um interrogatório a um preso político que evidencia dois aspectos tenebrosos. Primeiro, é difícil não associar o efeito produzido pela farda de Gerd Wiesler e o ambiente de interrogatório, às fardas e aos interrogatórios do período nazi. Para muitos Stasis o fim da Segunda Guerra Mundial constituiu apenas uma pequena mudança de adereço da farda, onde a suástica foi substituída pela foice e o martelo. Em segundo lugar, o interrogatório em si, acompanhado pela sua explicação académica apresentada numa sala de aula, mostra a verdadeira essência da perseguição política. Curiosamente, outro alemão, o padre jesuíta Friedrich von Spee já tinha escrito em 1631 a propósito da inquisição e da caça às bruxas, na obra Cautio Criminalis, algo que ilustra na perfeição a natureza destes interrogatórios:

"[A acusada de bruxaria] ou levou uma vida de pecado e indigna, ou levou uma vida boa e respeitável. No primeiro caso, deve ser considerada culpada. Por outro lado, se levou uma vida boa, também deverá ser condenada, pois as bruxas são dissimuladas e tentam parecer particularmente virtuosas"

Preso por ter cão e por não ter, assim foram as perseguições políticas tanto na comunista RDA como no Portugal fascista de Salazar e Caetano. Aliás o filme mostra isso mesmo, mostra que os métodos das ditaduras comunistas eram muito parecidos com os das ditaduras fascistas.



A narrativa de "As Vidas dos Outros" segue o trabalho do stasi Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) que tinha por missão escutar e investigar a vida privada de Dreyman, um intelectual objecto de suspeita do regime. Seguimos primeiro as suas certezas, depois as suas dúvidas, enquanto isso as vidas dos outros, de Dreyman e da sua companheira Christa-Maria (Martina Gedeck) vão-se degradando. O efeito corrosivo do regime é tal que atinge as mais sólidas relações amorosas.

Martina Gedeck tem neste filme mais uma das suas grandes interpretações do ano, depois de "Partículas Elementares". Aqui na Klepsýdra é já considerada uma das melhores actrizes deste nosso planeta azul.

quinta-feira, março 01, 2007

Leituras: Luísa Schmidt e Stephen Cohen

Muito bom o artigo "Alterações Cirúrgicas" de Luísa Schmidt publicado no Expresso desta semana na revista Única que denuncia as medidas de cosmética ambiental lançadas por Sócrates que muito pouco fazem por um real combate ao aquecimento global.
(voltei a pesar o Expresso e anotei um quilo e meio a menos que há 3 meses atrás)

Muito bom o artigo "A Nova Guerra Fria Americana" de Stephen Cohen no dossier da na Courrier International (CI) desta semana dedicado às relações Rússia-EUA (publicado no The Nation em Julho de 2006). Referindo-se às relações dos EUA com Rússia depois do fim da Guerra Fria, Stephen enuncia uma série de factos que parecem demonstrar que os EUA continuaram a avançar em direcção à Rússia mesmo depois da Guerra Fria ter findado.
Aqui fica a conclusão da versão curta publicada na CI:

"The extraordinarily anti-Russian nature of these policies casts serious doubt on two American official and media axioms: that the recent "chill" in US-Russian relations has been caused by Putin's behavior at home and abroad, and that the cold war ended fifteen years ago. The first axiom is false, the second only half true: The cold war ended in Moscow, but not in Washington, as is clear from a brief look back."