terça-feira, dezembro 27, 2005

Os meus filmes preferidos de Ficção Científica

Aproveitando a onda do Ano Internacional da Física fui divulgando na minha rubrica semanal Klepcinema alguns dos filmes de ficção científica que me parecem mais interessantes. O interesse que atribuo a alguns desses filmes não se resume apenas à temática científica em si. O carácter visionário de alguns filmes, a forma como um enredo científico encaixa noutros estilos cinematográficos, o talento do realizador e dos actores e a relação qualidade/custo do filme são aspectos que também foram considerados. Aqui vai a minha lista mais ou menos por ordem de preferência:

Contacto (1997) Robert Zemeckis
Abre os Olhos (1997) Alejandro Amenábar
2001: Odisseia no Espaço (1968) Stanley Kubrick
Planeta dos Macacos (1968) Franklin J. Schaffner
Metrópolis (1927) Fritz Lang
Até ao Fim do Mundo (1991) Wim Wenders
eXistenZ (1999) David Cronenberg
A Ilha (2005) Michael Bay
Sinais (2002) M. Night Shyamalan
Invasion of the Body Snatchers (1978) Philip Kaufman
Marte Ataca (1996) Tim Burton
Minority Report (2002) Steven Spielberg
Alien, o Oitavo Passageiro (1979) Ridley Scott
Encontros Imediatos do 3º Grau (1977) Steven Spielberg
Blade Runner (1982) Ridley Scott

Devo referir que não vi o filme "Solyaris", o original russo de 1972, eu sei que é uma lacuna grave, mas tenho andado a tentar caçá-lo nos clubes vídeo e nas salas de cinema que frequento.

sexta-feira, dezembro 23, 2005

As novas moedas de Euro da Eslováquia

Saiu o resultado do concurso do motivo para as moedas de Euro da Eslováquia que entrarão em circulação em 2008:



A cruz da evangelização da Eslováquia do tempo de Cirilo e Metódio (2 e 1€). O castelo de Bratislava (10, 20 e 50 cêntimos de euro). E o pico de Kriván dos baixos Tatras (1, 2 e 5 cêntimos de euro).

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Obesidade infantil na TSF

Esta reportagem que tem passado na TSF sobre a obesidade infantil é simultaneamente notável e assustadora. É assustadora a irresponsabilidade de pais e avós. Quem paga as favas da falta de cultura e de educação de um povo são os putos, putos diabéticos aos 7, 8 anos de idade...

terça-feira, dezembro 20, 2005

M. Portas sobre JPP sobre Louçã

Este artigo do Miguel Portas sobre a análise de Pacheco Pereira (Publico 15/12/2005) ao desempenho de Louçã nos debates das presidenciais é muito interessante e muito certeiro sobre vários aspectos. De facto, a reconstrução da identidade política dos "jovens dos idos da revolução que percorreram a estrada que os levou da esquerda para o centro e/ou a direita" não é um processo fácil. Por exemplo, os sucessivos equívocos do Abrupto sobre a ETA e Louçã (ler 15:33 e 16:19, 11/3/2004, Abrupto) aquando dos atentados de Madrid ilustram na perfeição a análise de Miguel Portas sobre o carácter da crítica de JPP a Louçã, nomeadamente quando Portas refere os comentários introduzidos a martelo sobre a Venezuela e a Líbia na crítica a Louçã.

O mesmo tipo de análise é aplicável mas com mais pertinência a outros cronistas, talvez José Manuel Fernandes seja o caso de maior visibilidade e cujo o moralismo é o mais radical sempre que confrontado com antigos companheiros de estrada que fizeram outras escolhas perante as mesmas bifurcações políticas.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Planeta dos Macacos

"O Planeta dos Macacos" não é um filme de ficção científica qualquer. Trata-se do primeiro filme importante que confronta o homem com a sua extinção cultural consumada simultaneamente com o seu domínio por outra espécie, os macacos. Apesar de ser explicado ao longo das quatro sequelas do filme as razões do declínio da espécie humana, Taylor (Charlton Heston) nunca saberá como a espécie humana chegou àquele ponto. Os humanos tornaram-se uma sombra do que eram, não há nada a fazer, é irreversível e pior que tudo Taylor não sabe nem como nem porquê. O seu ajoelhar na praia na cena final reflecte tudo isso. Pior que perder, é não saber porque se perde.

A componente científica do filme, nomeadamente a viagem no tempo, não compromete o desenrolar da história, o que nem sempre acontece na ficção científica. Obviamente, o mais recente "Planeta dos Macacos" de Tim Burton é muito mais sofisticado na caracterização do modo de vida dos macacos porque os efeitos especiais modernos o permitem, nomeadamente a arquitectura urbana vertical própria de uma espécie arborícola. Mas Burton peca no excesso de espectacularidade, na sofisticação das armas e nas explosões. O confronto à base de carabinas numa das cenas finais do filme original tem muito mais charme do que as monumentais explosões apresentadas por Burton.

França: após o caos, a mobilização

A primeira reacção importante aos motins das cités é esta campanha de apelo à mobilização para a inscrição nos cadernos eleitorais de todos os jovens em idade de votar. Para que estes jovens possam votar nas próximas presidenciais francesas é necessária a inscrição até ao final de Dezembro. A iniciativa que é apadrinhada por uma série de figuras mediáticas (como Jamel Debbouze, Jean-Pierre Bacri, Lilian Thuram, etc.) está a lançar um debate mais profundo sobre as causas dos motins e sobre as possíveis soluções.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Sobre a avaliação dos manuais escolares

Como investigador sou avaliado a pente fino de três em três anos. Os meus artigos e os meus projectos são avaliados por um júri científico. O meu laboratório é avaliado por uma comissão internacional de três em três anos. A minha Universidade é avaliada. Porque é que os manuais escolares do secundário, que são um instrumento essencial para o acesso ao ensino superior, não hão-de ser avaliados?
Todos nos lembramos dos casos recentes em que publicidade a astrólogos e a programas de televisão-realidade foi indecentemente incluída nos manuais do secundário.

terça-feira, dezembro 13, 2005

Ainda sobre "Caché"

Para os que forem ver "Caché" de Haneke chamo a atenção para a cena em que Georges (Daniel Auteil) apresenta um programa televisivo sobre literatura. Entre os participantes encontra-se Mazarine, a filha escondida de François Miterrand.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

L'enfer: mais uma obra-prima de Danis Tanovic

Em 2002, o bósnio Danis Tanovic ganhou o Óscar do Melhor Filme Estrangeiro com o excelente "No Man's Land", uma obra-prima, sobretudo considerando os parcos meios com que realizou o filme. Nesse ano, no cinema Odyssée em Estrasburgo tive o prazer de ouvir Tanovic contar como percorreu as ruas de Paris à procura de uma produtora, com uma resma de folhas debaixo do braço que continham o argumento do seu futuro filme. Tanovic bateu a muitas portas e levou muitas negas, até alguém ler o seu argumento e o achar extraordinário. Na altura percebi que Tanovic não era um realizador qualquer e que o seu próximo filme seria pelo menos um bom filme. "L'enfer" é um excelente filme! Não vou escrever uma palavra sobre a história, limito-me a aconselhar que vão ver o filme. Para além do mais somos brindados com uma breve mas importante interpretação do excelente Miki Manojlovic (Marko de Underground).

Quando não há nada a dizer...

Diz-se isto:
"Quioto não tem impacto significativo no clima e há uma data de gente a fingir que tem. Quioto não tem viabilidade política após 2012 e há muito gente com ilusões de que tem." João Miranda (Blasfémias)

É uma questão de fé. É um conjunto de frases que não tem qualquer base científica, nem se baseia em nenhuma das posições das mais importantes instituições científicas internacionais.

PS- A gralha sobre a Índia e China foi corrigida. Não muda nada ao sentido do texto (Estado actual do Protocolo de Quioto)

domingo, dezembro 11, 2005

Conclusões da Climate Change Conference

The United Nations Climate Change Conference closed with the adoption of more than forty decisions that will strengthen global efforts to fight climate change. Reflecting on the success of Montreal 2005, the Conference President, Canadian Environment Minister Stéphane Dion said: "Key decisions have been made in several areas. The Kyoto Protocol has been switched on, a dialogue about the future action has begun, parties have moved forward work on adaptation and advanced the implementation of the regular work programme of the Convention and of the Protocol." (Declaração final da Climate Change Conference)

Mais artigos relacionados
U.N. climate talks agree to push Kyoto forward

U.N. talks set road map for Kyoto beyond 2012
(...) Ministers also agreed to launch new, open-ended world talks on ways to fight climate change that will include Kyoto outsiders such as the United States and developing nations. Washington had long resisted taking part in the talks.

Comparem o que acabam de ler com mais esta bazófia do blogue Mitos Climáticos citando outra bazófia do Blasfémias a ler notícias do avesso. Sobre a referida entrada do Mitos Climáticos acrescento apenas que os EUA foram os maiores defendores da criação de um mercado de compra e venda de emissões poluentes (coisa que já tinham experimentado a nível nacional) aquando do COP3 ao contrário do que Rui Moura sugere. Além disso, a notícia da LUSA é exacta sobre uma das justificações de Bush sobre a não ratificação do Protocolo tal como se pode ler aqui: "As you know, I oppose the Kyoto Protocol because it exempts 80 percent of the world, including major population centers such as China and India, from compliance, and would cause serious harm to the U.S. economy." George W. Bush, 6 de Março de 2001.

sábado, dezembro 10, 2005

Aquecimento Global, Ártico e Más Intenções

Finally, it is important to re-emphasize that climate and UV radiation changes in the Arctic are likely to affect every aspect of human life in the region and the lives of many living outside the region. While more studies and a better understanding of the expected changes are important, action must begin to be taken to address current and anticipated changes before the scale of changes and impacts further reduces the options available for prevention, mitigation, and adaptation.

Arctic Climate Impact Assessment Scientific Report, 18.6. Conclusions, pag. 1020, Novembro, 2004.

Às vezes é preciso uma paciência de chinês para ler tanta barbaridade sobre os problemas climáticos. Quase tudo o que se pode ler no blogue Mitos Climáticos - que segundo o próprio autor serve para desmontar mitos climáticos - é contra a conclusão que destaquei a negrito do relatório da Arctic Council and the International Arctic Science Committee cujos membros são: Canadá, Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega, Rússia, Suécia e EUA. Como se pode ler ao longo das várias entradas, Rui Moura o autor deste blogue, frequentemente classifica todos aqueles que fazem avisos do mesmo teor que o texto a negrito deste relatório como ambientalistas fundamentalistas, profetas do abismo, manipuladores, alarmistas, etc. Também podemos perceber que Rui Moura passa uma boa parte do seu tempo a tentar descredibilizar o IPCC, a União Europeia, a ONU (e por tabela a Scientific American e a Nature que servem de referência a estas instituições) e quase todas as instituições internacionais que trabalham sobre problemas ambientais, excepto a Administração Bush...

Na minha rua neva, logo não há fusão de gelo no Árctico
É particularmente infeliz uma entrada em que o autor se congratula com a "excelente saúde" da Gronelândia para tentar concluir que nada está a acontecer no Árctico. Leiam agora o mesmo relatório, página 992, cap. 18.2, onde se pode ler: "Although some regions have cooled slightly the overall trend for the Arctic is a substantial warming over the last few decades." Entre as tais regiões que arrefeceram ligeiramente está a Gronelândia. Esta conclusão do Rui Moura faz-me lembrar a opinião dum famoso filósofo figueirense, o Petinga. Numa ocasião discutia-se entre amigos a explosão demográfica, o Petinga que ouvia a conversa com um ar céptico, retorquiu: "Explosão demográfica? Qual explosão demográfica?... Ainda este sábado fui ao Solário e não estava lá ninguém!" (nota: Solário era uma famosa discoteca que ficava ali para os lados de Buarcos).

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Facínoras globais: um na jaula outro à solta

Ante Gotovina (foto EFE, El Mundo), um ex-general croata responsável por crimes hediondos contra os sérvios da Croácia, foi finalmente preso. Coincidência ou não, esta prisão de Gotovina acontece pouco tempo depois de a União Europeia, durante as negociações de adesão da Croácia, ter demonstrado algum desagrado pela fuga de Gotovina. Agora está à sua espera uma cadeira no Tribunal Penal Internacional de Haia. É assim que se resolvem as coisas em democracia, estamos longe de Guantanamo e das novas definições de tortura sumariamente bem classificadas pelo F.J.V. na Origem das Espécies .

O outro facínora da semana - mas este infelizmente anda à solta - é o presidente do Irão, Mahmoud Ahmadnejad (foto Al-Jazeera). As suas mais recentes declarações sobre Israel falam por si. Este nível de ódio não acontece ao acaso. A merda que outros andam a fazer pelo mundo faz com que facínoras como este sejam ouvidos e admirados no mundo islâmico. Assim não vamos lá.

Sítio da FIFA em Português

A pedido de várias famílias (entre as quais a do vosso escriba) eis o sítio da FIFA em Português. Parecemos os franceses a quebrar a hegemonia do inglês na internet. Não me espantava nada de vir agora aí alguém dizer que isto era anti-americanismo.

terça-feira, dezembro 06, 2005

Ainda sobre a Al-Jazeera

A questão já aqui referida do relatório britânico onde consta a intenção dos EUA de bombardear a Al-Jazeera - que está a ser abafada com sucesso no Reino Unido - é particularmente preocupante pois a Al-Jazeera é a estação de televisão em língua árabe de grande difusão com maior liberdade de opinião e com uma visão mais internacionalista. Significa isto que atacar a Al-Jazeera é sinónimo de dar um tiro num dos embriões de democracia de maior sucesso do mundo árabe. A Al-Jazeera apresenta muitos radicais em antena, passa muitas reportagens tendenciosas, passa até as mensagens de grupos terroristas sendo tudo isto obviamente questionável do ponto de vista jornalístico, mas a Al-Jazeera está muito longe da palhaçada propagandística emitida pelas televisões sauditas, paquistanesas, sírias ou até pelas televisões nacionais do país onde está instalada: o Qatar. Para quem se arroga de espalhar a democracia no mundo como George Bush já é um acto muito grave sugerir o bombardeamento uma estação de televisão. Mas, perante o que representa a Al-Jazeera para a democratização do mundo árabe e conhecendo as amizades da família Bush com o regime mais violento do mundo, o saudita, todas as declarações mais sentidas da Administração Bush sobre democracia soam a treta da mais pura.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

A ciência ao serviço do Prazer

Apesar do nome, a Cantina Vini Perduti é um projecto científico italiano de parcerias entre instituições científicas, empresas privadas e órgãos regionais, cujo objectivo é o de recuperar antiquíssimos vinhos italianos que tinham praticamente desaparecido. O resultado é notável e pode ser admirado neste sítio. Foram recuperados tipos de vinho que começaram a ser produzidos há vários séculos, desde o tempo do Império Romano até à Renascença. Por exemplo, podemos encontrar uma surpreendente Albana Negra (Albana é um vinho branco típico da região da Emília-Romagna) ou um Cristallo Malvasia, um vinho originário do século XIII da Sereníssima República de Veneza. Este é um excelente exemplo de como a ciência pode ajudar a desenvolver produtos regionais de qualidade, criando novos nichos de mercado. Depois os italianos não choram tanto como nós por causa da invasão de produtos chineses ou da junk-alimentação dos EUA.

domingo, dezembro 04, 2005

eXistenZ



O filme "eXistenZ" de David Cronenberg está entre os meus filmes eleitos de ficção científica. O que me atrai no filme é o desenvolvimento da ideia de que a fronteira entre o mundo virtual e o mundo real seja cada vez mais difusa à medida que a tecnologia se vai aperfeiçoando, ao ponto de num futuro próximo ser quase impossível saber onde está exactamente essa fronteira. Uma das características do mundo virtual que conhecemos é que este interage de uma forma limitada com o homem, geralmente apenas através da visão e da audição. Cronenberg propõe-nos o jogo eXistenZ, onde o Metaflesh Game Pod permite um nível de interactividade que vai muito mais longe do que uma simples interacção visual ou auditiva. Num jogo imaginário em que o corpo de cada um dos intervenientes é ligado a uma consola através do umbigo em rede com os adversários, as consequências físicas resultantes do game over deixam de ser irrelevantes. No jogo eXistenZ, o corpo é que paga.

Heneke vence European Film Awards

O filme "Caché" de Michael Haneke foi o grande vencedor dos European Film Academy Awards deste ano. Trata-se de um filme que combina de uma forma interessante o que não se vê, o imaginário e memórias difusas. No entanto já vi Haneke fazer melhor, estou-me a lembrar concretamente de "A Pianista" e de "Funny Games".

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Quioto avança e Portugal marca passo

"The Kyoto Protocol is now fully operational. This is an historic step." Estas foram anteontem as palavras de Stéphane Dion, o Presidente em representação de 157 países da United Nations Climate Change Conference que está a decorrer em Montreal. Concretamente o Presidente congratulava-se com a adopção do chamado "rule book" do Protocolo de Quioto.

Lembram-se desta entrada do Blasfémias? (entre outras, cada uma melhor que a outra):
"... até os proponentes do Protocolo de Quioto reconhecem que ele tem um efeito mínimo no clima e de qualquer das formas, muitos dos países que o assinaram, não o estão a cumprir. Este comentário do ministro alemão, para além de demonstrar o habitual anti-americanismo de muitos europeus, demonstra também a falta de seriedade dos proponentes do protocolo de Quioto" (João Miranda).
Logo os 157 países que participam na Conferência de Montreal não são sérios. Sérios são os governos dos EUA, da Índia e da China que fazem tábua rasa dos avisos dos seus cientistas, sobretudo os EUA que ainda não ratificaram o Protocolo de Quioto.


Entretanto em Portugal...
Enquanto a União Europeia no seu conjunto vai no bom caminho para cumprir as metas do Protocolo de Quioto até 2012, Portugal diverge dessas metas e, pior do que isso, tudo indica que Portugal será o país com pior taxa de emissão de gases de efeito de estufa na referida data.

quarta-feira, novembro 30, 2005

Exportações têxteis (caixa de comentários)

O que desejamos comprar: um produto de qualidade, com design moderno e actual e com imaginação, ou um produto de qualidade, com design atrasado e sem imaginação?
A diferença, entre Portugal e Itália reside aqui e não na qualidade do pano que se fabrica; mas há mais de quinze anos que se sabia que o modelo de produção que usávamos no têxtil estava ultrapassado e a confecção não foi suficientemente apoiada para vingar rapidamente; há dezassete anos que os espanhóis promovem, apoiam, incentivam os seus criadores, entre outras coisas nasceu a Zara, nós continuamos com o têxtil a feição para cliente estrangeiro, e só agora começam a surgir alguns criadores de moda. O que se passou para estarmos nesta situação? O que se passou, se sabíamos há mais de dez anos quais as consequências da entrada dos têxteis chineses no mercado mundial?
Continuamos a elaborar os diagnósticos e a esperar que as soluções cheguem de avião....por alguém...


Adriano Volframista

terça-feira, novembro 29, 2005

Irreversible

"Irreversible" de Gaspar Noé é um filme de enredo em espiral, uma espiral que se desenrola ao contrário para percebermos como a espiral, a da vida, se desenrola por vezes com uma tal vertigem que nos impede de perceber a absurdidade crescente dos nossos actos. Marcus (Vincent Cassel) é espelho da absurdidade fora de controlo. Nas suas acções existe muito do que se designa em França por la haine, que é mais do que simples ódio, é o ódio do próximo, um ódio de punho cerrado. Quem viveu numa grande cidade francesa, quem quotidianamente andou pelos seus transportes públicos, pelos seus lugares de la France d'en bas conhece esse ódio, essa tensão de punho cerrado. A absurdidade de Marcus acaba no Rectum, onde começa o filme. E mais não digo, convido-vos a desenrolar o resto até à Monica Bellucci...

A minha teoria sobre a Monica Bellucci
Eu tinha uma teoria sobre a Monica Belluci, mas foi por água abaixo quando percebi que a Monica tem 41 anos de idade. Alguns amigos acham que a Monica Bellucci é a mais bela actriz de cinema, mas eu sempre contrariei essa teoria. Achava que a Monica tinha que ganhar uns anitos. Dava-lhe entre os 25 e os 30 anos de idade, por isso costumava afirmar que quando a Monica chegasse aos 35 e começasse a ganhar umas rugas ou umas expressões faciais mais características e mais interessantes, aí sim, seria a brincar a mais bonita de todas as actrizes. Afinal já lá vão os anos do primeiro amadurecimento e nem uma marca se vislumbra sobre o rosto da Monica. A minha teoria ficou assim quase reduzida a cinzas. Resta alguma esperança ainda entre os 41 e os 50. Como forma de protesto contra o excesso de cosméticos e de tratamentos de pele, continuo a proclamar a Fanny Ardente como a grande diva da sétima arte.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Os cientistas não engoliram a treta do Iraque

Há dias em que me orgulho de ser cientista, foi o que aconteceu quando descobri esta sondagem realizada nos EUA pelo Pew Research Center e que foi publicada entre nós no Courrier International desta semana. O resultado da sondagem que dá os cientistas e os engenheiros americanos como o grupo mais céptico em relação à decisão e às consequências para o terrorismo da invasão do Iraque (88% e 84% de avaliações negativas), não constitui grande novidade para mim. De facto, todos investigadores americanos com quem tive oportunidade de trocar umas ideias sobre política tratam George W. Bush de asno para baixo. Se fossem europeus eram logo considerados anti-americanos primários, claro está. Todos eles se queixam do caos que se está a gerar no planeta com a intervenção americana no Iraque e de outras burrices de Bush ainda mais perigosas, como o desprezo pelo aquecimento global. Apesar de conhecer apenas este tipo de opiniões julgava não serem amostras representativas. Afinal esta sondagem confirma que aqueles americanos que no seu dia a dia fazem uso frequente do cepticismo, da precaução, da demonstração, da prova e da humildade perante o risco, não engolem a treta trapalhona servida pelos fanáticos que rodeiam Bush. Afinal ainda há esperança do outro lado do Atlântico.

domingo, novembro 27, 2005

10,4 % de baixa nas exportações têxteis

Assim que voltei de Bolonha comprei o Expresso e a sua tonelada de desperdício publicitário (que deveria ser proibido ou fortemente taxado) onde leio um artigo assinado por Margarida Cardoso sobre os efeitos da concorrência chinesa no sector têxtil nacional. Um gráfico mostra um decréscimo de exportações nacionais de 10,4% durante o primeiro semestre do ano. Em igual período as exportações italianas cresceram 6,2%. Voltado de fresco de Itália os números não me espantam absolutamente nada. Em Itália desde a produção até à apresentação do produto existe um nível de cuidado e de preocupação que nada tem a ver com o sector têxtil português. Em Portugal começa logo pela região de produção têxtil que é uma autêntica javardice. Conheço ali uma série de empresas de confecções entre a Maia e Vila do Conde que, exceptuando algumas boas surpresas, é o exemplo da ganância associada à ignorância e da ideologia do Estado Mínimo. Ali vale tudo. Pode-se poluir, construir onde haja um palmo de terreno e explorar tudo e todos. Onde se cria tanta riqueza há décadas vê-se uma pobreza chocante nas caóticas ruas de aldeolas de casas de alumínio e de muretes tortos de tijolo e de cimento feito à pressa. Trabalho qualificado ou salários dignos são coisa interdita em muitas daquelas empresas. Depois deste filme de terror, quando se aterra em Itália tudo parece bonito. As regiões industriais são bonitas e visitáveis. Qualquer empresa que se preze dá uma grande importância à qualificação da sua mão-de-obra, seja a técnica, sejam os designers. Depois o resultado vê-se nas lojas, nas vendas e nas exportações. Apesar da ofensiva chinesa o mercado têxtil italiano resiste aos preços baixos, através da qualidade, da variedade e da originalidade. O excelente catálogo à italiana da Intimissimi que aqui vos deixo é apenas um exemplo de tudo isto que aqui referi. Para além destas grandes cadeias de franchising, o têxtil italiano de qualidade vende-se igualmente nas pequenas lojas locais de comércio tradicional, trazendo para a vida urbana o prazer de fazer compras que se perde nas grandes superfícies, o doce passeio pelas ruas da cidade, a montra que se vê depois de um café numa esplanada, enfim uma outra filosofia que em grande medida nos é alheia.

quinta-feira, novembro 24, 2005

Al-Jazeera e a Bomba Esperta

A intenção de atacar a Al-Jazeera já teve outros episódios menos claros. Leiam esta de uma "bomba inteligente" que acertou nas instalações da Al-Jazeera de Cabul.

Bombardear a Al-Jazeera pela liberdade e pelos valores ocidentais...

Ler esta notícia da CNN. Resposta da Casa Branca: "We are not going to dignify something so outlandish with a response".
Como podem reparar a notícia não foi formalmente desmentida. Para quem conhece a metodologia da Casa Branca sabe que esta resposta significa que a notícia é verdadeira.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Mitos culinários: Spaghetti Bolognese

O Spaghetti Bolognese é supostamente um prato italiano, mas que os Italianos só descobrem quando saem do país porque em Itália ninguém designa como Spaghetti Bolognese um prato de esparguete com um refogado de carne de vaca. Os italianos designam-no exactamente desta maneira: massa (esparguete se for o caso) com refogado de carne ou pasta (spaghetti) al ragu di carne (ragu di manzo, di agnello, di vitello, etc.). Curiosamente o que é típico aqui em Bolonha é o refogado de carne acompanhar as massas tagliatelle (lê-se talhiatele) e não o esparguete.

terça-feira, novembro 22, 2005

O Outubro mais quente de sempre

Eu sei que estas entradas já começam a ser repetitivas, mas é só para informar que o mês de Outubro de 2005, tal como aconteceu com Setembro de 2005, foi o Outubro mais quente registado desde que se mede a temperatura da Terra, desde 1880.
Como o aquecimento global não se resolve nem à bastonada nem com bombardeamentos heróicos, continuamos hirtos e firmes a caminhar para um cada vez mais provável suicídio global como se nada se passasse.

Fica também aqui a dica de tema para os candidatos às presidenciais, para os que tiverem interesse em falar de temas importantes e interessantes.

segunda-feira, novembro 21, 2005

Fury (caixa de comentários)

"Esse filme funciona como um símbolo de uma certa postura civilizacional perante a barbárie de uma multidão sedenta de vingança.
No caso de não ter ainda visto o M (provavelmente até já o viu) do mesmo realizador aconselho-o vivamente. Na famosa sequência final, Lang consegue levar o espectador a sentir que mesmo um assassino de crianças tem direitos, não podendo portanto ser sujeito a um julgamento popular, onde estes não estão obviamente salvaguardados.
"

Bruno (Projector Lunar)

Via Aemilia

A Via Aemilia desfila em frente à minha janela, a janela de um pequeno albergo por onde passou Il Duce.

A Klepsýdra recupera o caudal após alguns dias de trabalho e de reuniões onde a internet sem fios não funcionou.

segunda-feira, novembro 14, 2005

Fury

"Fury" é o primeiro filme realizado por Fritz Lang nos EUA depois de ter abandonado a sua Alemanha natal. O que é notável em "Fury" é o vanguardismo do tema tendo em conta a mentalidade vigente na época em que foi realizado. Através de "Fury", Fritz Lang denuncia a ameaça que constituem as milícias e os linchamentos populares para o estado de direito. Isto em 1936 é notável. Mas Lang não se fica por aqui. Na segunda parte do filme Lang confronta-nos com a vingança e o ódio. Vítima de um equívoco judicial e da população em fúria, Joe Wilson consegue provar a sua inocência e a partir daqui desenvolve-se um processo de vingança pessoal alimentado pelo ódio e pelo rancor contra a população. Embora essa vingança seja executada por processos judiciais legítimos, as pessoas que estão mais perto de Joe já não o reconhecem, nomeadamente a sua querida Katherine Grant.

Apesar de ter sido realizado em 1936, infelizmente "Fury" é um filme muito actual, tanto nos próprios EUA, onde as milícias populares armadas são legais em alguns estados, como em Portugal. Quando vejo os noticiários da TVI que retratam casos judiciais bicudos que mostram grupos de pessoas em fúria a gritar insultos e ameaças às portas dos tribunais contra os acusados, lembro-me de logo de "Fury". Passaram 30 anos desde que somos uma democracia mas ainda não interiorizámos certos conceitos básicos de um estado de direito.

sábado, novembro 12, 2005

Sábado em Coimbra XXV: Baía no Municipal

Hoje às 21:15, Baía vai estar no Estádio Municipal. A selecção do ódio e da exclusão de Scolari é que vai aparecer na TV, mas o relvado, a bola, os Croatas e este vosso conimbricense vão ignorá-la e imaginar que Vítor Baía está ali, onde deve estar, na baliza da verdadeira selecção.

Sábado em Coimbra XXIV

PS- Registei e agradeço a participação entusiasta dos estimados leitores no último "Sábado em Coimbra". Na verdade, eu já calculava que a questão do Tropical era uma questão fundamental e decisiva para vida da cidade. ;)

sexta-feira, novembro 11, 2005

O gueto visto do interior

Rachid Djaidani é um jovem francês das cités, filho de pai marroquino e mãe egípcia (salvo o erro, li o livro há 4 anos), que decidiu descarregar a sua energia para a caneta e para o papel, e posso garantir-vos que o fez com maestria. O seu livro "Boumkoeur" é um romance meio autobiográfico, em que nunca se percebe muito bem onde acaba o romance e onde começam os factos da vida de Rachid Djaidani. Rachid descreve-nos o quotidiano das cités visto por dentro, pelos jovens: a mentalidade vigente, a hierarquia do bairro, o território dos bandos, a merda que fazem diariamente, a relação com os moradores, com a família, com a polícia, com a escola e com os "estrangeiros" ao bairro. Apesar de ser um daqueles jovens qui traine dans les cités, Rachid não tem papas na língua e aponta o dedo aos gremlins, que é como são conhecidos os mais jovens, os putos até aos 14 anos, a quem chamei tiranetes. Rachid é um pouco mais velho e por isso teme-os. Os gremlins toleram-no, mas são xenófobos. Rachid não é nenhum anjo, no entanto descreve-nos como sofre com a vida da cité. Gostava de ser escritor, mas nas cités isso é sinónimo de maricas.
Este romance autobiográfico é muito bom, com um desenrolar muito pouco previsível e espantoso. Só percebi a forma como foi aclamado nos programas de televisão franceses dedicados à leitura (onde se sentia pouco à vontade), quando li o livro. Até aí pensava que estavam apenas a dar uma oportunidade efémera a um jovem de um bairro.
Como sempre em Portugal, estes bons livros que não são escritos na língua de Walt Disney não se traduzem, nem se vendem. É a ditadura cultural anglo-saxónica que temos. Para quem quiser desenferrujar o francês, mas sobretudo para quem quiser perceber o que se passa nas cités francesas, aqui fica a ligação para a Amazon. A escrita tem muito jargão, mas é acessível. Também há o dialecto dos gremlins (uma espécie de françárabe de segunda apanha), mas Rachid fez-nos o favor de traduzir.

quarta-feira, novembro 09, 2005

Venus Express


...3, 2, 1 ...

Agora a Venus Express deverá chegar ao planeta Vénus em Abril de 2006. Fica aqui a ligação para o sítio que descreve as várias etapas da fase de descolgem do foguetão Soyuz-Fregat que transporta a sonda da ESA.

terça-feira, novembro 08, 2005

segunda-feira, novembro 07, 2005

Ler do avesso os acontecimentos em França

"According to the latest statistics from the U.S. Department of Justice, more than two million men and women are now behind bars in the United States."
Human Rights Watch

No país da OCDE com a maior taxa de criminalidade estão nas prisões quase 1% dos cidadãos (mais de dois milhões). Agora por favor leiam o que escreve o Abrupto sobre os tumultos em França:

"(...) o enorme contraste entre o modo europeu de “receber” e integrar os emigrantes envolvendo-os em subsídios e apoios, centrado no estado e no orçamento, hoje naturalmente em crise; e o modo americano que vive acima de tudo do dinamismo da sociedade que lhes dá oportunidades de emprego e ascensão social"

Conclusões desta leitura do Abrupto:
1) A França é a Europa (os restantes 24 países da UE não contam);
2) Um país com cerca de 1% da população na cadeia, é um país de oportunidade e ascensão social. Tal e qual...

sábado, novembro 05, 2005

França: integração em cinzas

Passei quatro anos da minha vida em França, em Estrasburgo, no bairro de Cronenburg, o bairro que dá nome à famosa cerveja Kronenburg com "K". No bairro de Cronenburg havia uma zona relativamente calma, onde eu morava e onde "apenas" vi arder um carro durante esses quatro anos. Foi na minha rua, podia ser o meu carro, que comprei a custo com os tostões que poupei da minha bolsa. Depois Cronenburg tinha um sector mais pesado, o sector dos guetos de habitação social construídos nos anos 60 com a melhor das intenções, mas que só serviram para juntar pessoas com os mesmos problemas, tendo contribuído para amplificar aquilo que de pior existe na sociedade, e em particular entre os grupos imigrantes. Nesse sector chamado ironicamente de Cité Nucleaire, onde se situava o CNRS, o meu local de trabalho, havia diariamente ocorrências violentas, que poderiam ser muito violentas de quando em vez. Lembro-me de um velhinho barbaramente atropelado por um BMW descapotável conduzido por jovens violentos, lembro-me de um colega que foi espancado quase até à morte por ter saído do seu carro para afastar um caixote de lixo em chamas que lhe barrava a estrada e lembro-me do carro que foi lançado em chamas contra a loja de atendimento da assistência social. No Natal e na Passagem de Ano era certo que se queimavam por ali para cima de 20 carros de pessoas humildes que juntavam as suas economias de anos para comprar uma bagnole em segunda mão. Durante o resto do ano ardiam regularmente uns 5 a 10 carros por mês. Poderia encher o blogue até lá baixo, até ao último post, de historiazinhas de violência da cité e das minhas experiências pessoais de violência verbal e física em que me vi envolvido. No meu caso, os motivos dessas cenas de violência foram causas tão importantes como o comprimento dos meus cabelos, uma rapariga cuspida e agredida em plena Universidade e o meu casaco de Inverno. Neste último caso tive muita sorte, mais sorte que os que me tentaram agredir e muita sorte de não ir para o hospital espancado.

Estes são os motivos típicos da violência das cités em França, não é violência para sacar dinheiro para sobreviver ou para alimentar o vício, é uma busca de confronto bastante reaccionário e intolerante que não tem nada de revolucionário. Quem vê nisto algo de revolucionário aconselho a leitura do livro "La gauche contre le peuple" do jornalista de esquerda Hervé Algalarrondo. Na verdade, as cités são o espaço mais fascista, intolerante, machista e xenófobo que conheci, sendo governadas por pequenos tiranetes entre os 12 e os 17 anos.

Obviamente, não me espanta o que está a acontecer em França, tal como não me espantou o resultado de Le Pen nas últimas presidenciais francesas. Aliás este surto de violência não é novidade nenhuma, já aconteceu em 1992, pouco depois dos acontecimentos de Los Angeles. Os guetos de habitação social povoados de imigrantes continuam lá. As referências culturais de origem paterna continuam a ser fantasiadas pela nova geração da pior maneira e deturpada por algumas organizações religiosas fanáticas instaladas em França. A origem e a especificidade dos povos imigrantes continuam a não ser tomadas em conta na política de imigração. E sobretudo as acções políticas tanto da esquerda (mais social) e da direita (mais policial) são executadas com muita distância, são muito poucos os que se dão ao trabalho de ir às cités. E digo-o com conhecimento de causa. Fiz parte de uma coligação de esquerda para as municipais francesas com ecologistas e ATTAC e na hora de ir às cités para participar em conselhos de política de proximidade, não aparecia lá ninguém. Só os funcionários da câmara que eram obrigados a isso e os moradores que ainda não se tinham cansado do autismo. Por outro lado, quando a direita conquistou a câmara de Estrasburgo, aumentou o policiamento e em apenas 6 meses a violência aumentou mais de 200%...

A solução não é nada simples, mas para transformar os tiranetes em putos normais, com as pancadas e os delírios próprios da idade, se calhar a solução anda entre algo como: acabar com as cités e misturar as populações; envolver as populações nas decisões políticas e orçamentais dos bairros; apostar na polícia de proximidade para impedir a criação de zonas de democracia zero controladas por tiranetes de bairro.

O Blasfémias entre a ingenuidade e a xenofobia



O mapa representado nesta entrada infeliz do João Miranda circula em muitas sítios de extrema-direita da mais fanática. No entanto, aquele mapa não passa de uma pobre ficção, ao contrário do mapa colonial de 1914 que aqui represento. Em 1914, os Europeus estavam mesmo instalados em África e na Ásia com os seus representantes dos reinos e dos imperiozinhos. Em 2015 a Federação Albanesa nunca existirá na península itálica, nem a Nova Turquia, nem os Emiratos Ibéricos do mapa do João Miranda, mas em 1914 nós, os Portugueses, estávamos de facto em Angola e em Moçambique e fazíamos mais estragos e mais mortes que toda a violência urbana junta da população imigrante na Europa de hoje. Obviamente, que o João Miranda não considera os ex-Impérios uma ameaça. Agora os imigrantes, cuidado com eles, vão-nos invadir. Buh!

O suicídio demográfico que teme João Miranda não é novidade em Portugal. No início do sec. XVI também se temeu o "suicídio demográfico" causado pelos judeus. A solução da época foi expulsar, perseguir, converter à força e condenar à fogueira milhares de judeus que viviam no nosso país. Ganharam com isso Holandeses, Suíços, Franceses, etc.; ganharam artesãos, artistas e cientistas de qualidade.

O mapa de João Miranda é particularmente infeliz sabendo que Portugal tem cerca de 5 milhões de emigrantes. Como é que é? Em 2015 no Luxemburgo e no Liechtenstein, onde a população portuguesa ronda os 10%, vamos ter uma espécie de Principado Luso Católico-Apostólico-Romano?

Creio que este infeliz post do João Miranda seja fruto de alguma ingenuidade, não o tenho como xenófobo (escrevo-o sinceramente). Mas considero muito triste encontrar posts deste nível num blogue de referência português. Julgo que de certa forma funciona como um insulto aos 5 milhões de portugueses que estão espalhados pelo mundo, particularmente os nossos colegas bloguistas no estrangeiro que não lhe devem achar piada nenhuma.

O Abrupto...

Apesar das discordâncias políticas, gosto de ler o Abrupto. Mas é insuportável lê-lo quando há um acontecimento internacional importante. A culpa é sempre dos jornalistas... O trabalho dos jornalistas portugueses é diariamente o mesmo, muito americanizado, muitas vezes um copiar-colar dos noticiários de outras estações, principalmente da CNN, mas perante grandes acontecimentos o Abrupto vê sempre ali uma conspiração de esquerda ou anti-americana, o que é particularmente ridículo quando notícias da CNN são integralmente copiadas. É uma forma de pressão legítima, no entanto é facilmente desmontável.

sexta-feira, novembro 04, 2005

Slovenské mamičky

Slovenské mamičky, pekných synov máte,
vychovali ste ich, na vojnu ich dáte, ich dáte.

Vychovali ste ich, ako to vtáčatko
za nimi zaplače, nejedno dievčatko.

Nejedno dievčatko rúčky zalamuje,
škoda ťa, preškoda, na tej krvi vojne bude.

škoda ťa, preškoda, na tej krvi červenej,
ktotá sa vyleje na lučke zelenej.

Na lučke zelenej v zelenom hájičku,
škoda ťa, preškoda, švárny šuhajičku.

terça-feira, novembro 01, 2005

Setembro de 2005, o mais quente de sempre

Desde que é medida a temperatura da superfície da Terra, o que acontece desde 1880, nunca houve um Setembro tão quente como o deste ano.
Aqui fica o aviso para um provável início de 2006 de seca e de falta de água, o terreno propício para os fogos. O melhor é ir prevenindo já.

segunda-feira, outubro 31, 2005

Memória curta: terramoto de Lisboa de 1996

Desculpem, mas não passaram 250 anos desde o último terramoto de Lisboa. Passaram sim 9 anos. Foi a 18 de Setembro de 1996 com epicentro no Estádio da Luz. Os autores da desgraça: Artur, Edmilson, Jorge Costa, Wetl e Drulovic.

sábado, outubro 29, 2005

Mundo de Aventuras XXXII


Floresta de Pedra, Yunan, China, Janeiro de 2005

O primeiro carácter significa floresta. Este carácter é composto por dois caracteres que individualmente representados significam árvore, como quem diz: duas árvores fazem uma floresta. O segundo carácter significa pedra. Floresta de Pedra. Foi esculpida pelas correntes marítimas do fundo do oceano numa outra era do nosso planeta. Esta Floresta de Pedra encontra-se a cerca de 2000 metros de altitude...

Mundo de Aventuras XXXI

sexta-feira, outubro 28, 2005

O "Modelo" Social Americano II

Tempo de trabalho (média de horas/ano)
EUA- 1824
UE - 1554 (zona Euro)

Férias
EUA- 13,8 dias por ano (após 5 anos de trabalho em médias e grandes empresas)
UE- 4 semanas (mínimo). Entre 20 (Bélgica e Irlanda) e 32 (Holanda) dias úteis.

quinta-feira, outubro 27, 2005

O "Modelo" Social Americano

Hoje pela manhã em Hampton Court no Reino Unido, um dos assuntos de debate do Conselho Europeu Informal vai ser o Modelo Social Europeu. Entre os participantes há quem esteja muito interessado em implementar o "Modelo" Social Americano na Europa. Para podermos ter uma ideia do que este "Modelo" oferece, vale a pena olhar para estes números da OCDE:

Mortalidade infantil, 2002 (mortes/1000 nascimentos)
EUA - 6,0;
Reino Unido - 5,3; Canadá - 5,2; Irlanda - 5,1; Portugal - 5,0;
Alemanha - 4,3; República Checa - 4,2; França - 4,1;
Noruega - 3,9;
Suécia - 2,8;


Desigualdade (escala de Gini)
EUA - 34,4; Irlanda - 32,4; Reino Unido - 32,4;
Canadá - 28,5; Alemanha - 28,2; França - 27,8;
Suécia - 23,0 Finlândia - 22,8; Dinamarca - 21,7

quarta-feira, outubro 26, 2005

Desmontar o fanatismo neoliberal

É o que faz Vital Moreira nesta entrada. Agora a moda entre os mais fanáticos dos neoliberais é fazer comparações ridículas e mal informadas entre a União Europeia e a URSS ou o regime Nazi.

A luz ao fundo do telescópio

No mundo da investigação científica há momentos (raros) em que sentimos que os nossos esforços servem para alguma coisa. Após várias reuniões e um congresso (que referi aqui no passado mês), um consórcio de vários laboratórios e institutos em que participo conseguiu finalmente o reconhecimento da ESA para a construção de um novo telescópio de raios gama com lentes (os que existem são todos míopes). Reconhecimento não significa que o projecto se vai mesmo concretizar. Digamos que a ESA por enquanto apenas achou piada ao projecto, tanta piada que até se deram ao trabalho de fazer esta página. Agora depende da data de abertura e do resultado dos concursos da ESA para o programa Cosmic Vision - missões que deverão estar operacionais entre 2015 e 2025 - para que um dia este projecto possa tomar forma.

Por enquanto podemos apenas sonhar contemplando as concepções artísticas da missão. A ideia é elegante, trata-se de um telescópio constituído por dois elementos: as lentes e a câmara de raios gama. Para os mais interessados existem umas ligações para uns documentos pdf mais detalhados. A minha humilde contribuição vem na parte referente à polarimetria (4.2.4 Polarisation detectors, sou um dos et al. do artigo 11) do GRL Final Report.

terça-feira, outubro 25, 2005

domingo, outubro 23, 2005

Crash: nada é simples, tudo é complexo

"Crash" (Colisão) é um grande filme. Atenção não confundir com um antigo mau filme do excelente David Cronenberg. "Crash" é um filme do canadiano Paul Haggis, um dos argumentistas de "Million Dollar Baby" (que é um argumento menor comparado com este Crash), vencedor do Festival de Cinema Americano de Deauville, em França. Leram bem: Festival de Cinema Americano em França. É a excepção cultural francesa a funcionar como abono de família do cinema americano moderno e independente.

Não tenciono escrever muito sobre "Crash". O importante é ir vê-lo. Direi apenas que quando saí do cinema me ocorreu uma transposição da Lei de Lavoisier ("nada se cria, tudo se transforma") para este "Crash": "nada é simples, tudo é complexo" nas relações humanas. Nada daquelas tretas que dividem o mundo entre o bem e o mal. Convém acrescentar que "Crash" é um filme universal, aplicável em todo o lado onde há mistura de culturas, povos, costumes, etc. Não é um simples filme sobre o racismo e a sociedade americana, exceptuando os pormenores relacionados com as armas que dificilmente ocorreriam noutros países do mundo. Mas sobre isso já Michael Moore disse tudo.

Filme Klepsýdra ***** (5 estrelas)


Ler outra opinião na Linha dos Nodos

O velho e manhoso Partido Comunista

O Partido Comunista no seu pior é isto. O BE teve a iniciativa de organizar a petição que permitiu relançar o processo de organização de um novo referendo. Só porque foi o BE a tomar a iniciativa o PC não quis participar na petição. O PS participou. O PC guardou a amargura de ficar de fora voluntariamente de algo que gostariam de ter organizado, para momentos como este, para despejar o seu velho veneno de artimanhas doentias. Na Checoslováquia foi assim, na Hungria assim foi, na URSS o sangue que escorreu à custa de artimanhas deste tipo não foi brincadeira nenhuma.

sábado, outubro 22, 2005

Sábado em Coimbra XXIV: não gosto do Tropical!

Não gosto do Tropical.
O problema é que alguns dos meus melhores amigos adoram ir ao Tropical. Mas, como valorizo mais a companhia dos meus amigos do que o "território" onde tenho o privilégio de com eles conviver, acabo também por ir ao Tropical... Aquele urinol-café...
O Tropical para os que não conhecem é um café normal, tão normal que se enjoa três microsegundos após se ter lá metido os pés. E digo normal no mau sentido. É o típico café portuga que é uma tasca, mas tem a mania que é café. Atenção, eu adoro tascas, mas gosto de tascas assumidas, as que cheiram a vinho ou aquelas em que as paredes nos contam histórias. O tropical é daqueles cafés que tem peças de mobiliário de cada "nação": mesas da superbock na rua e mesas de imitação de mármore no interior, um balcão tipo fuselagem das carruagens da CP, um frigorífico expositor colossal bastante manhoso e umas prateleiras espelhadas onde desfila uma selecção criteriosamente aleatória de garrafas de bebidas que ninguém bebe. No Tropical bebe-se sobretudo cerveja, só que a melhor cerveja que se pode beber no Tropical, desde que deixaram de vender a Onyx, é a Superbock de garrafa normal. A partir daqui é de mijo para baixo! Aliás, assim que entro no Tropical e contemplo aquelas mesas completamente encharcadas cheias de garrafas, fico com a sensação que houve ali um concurso de pontaria de mijadelas aos gargalos das garrafas. Os rótulos onde se pode ler "Sagres" só pioram o cenário, sendo esta a marca nacional por excelência de urina sintética.
Só que a clientela do Tropical conhece-se, o local serve como ponto de encontro e convida à preguicite, aquilo tem uma certa aura para certos sectores dos noctívagos de Coimbra e a coisa acaba por funcionar também por um certo comodismo e falta de exigência do comum Portuga. E eu lá tenho que gramar aquilo de vez em quando, com muito pouca paciência para um certo snobismo velado e muita presunção que infesta aquele local.

Sábado em Coimbra XXIII

quarta-feira, outubro 19, 2005

E=mc2

No Museu da Ciência e da Técnica em Coimbra está a decorrer uma exposição intitulada E=mc2 cujo objectivo é o de experimentar o cruzamento entre a ciência e as artes. A ciência sempre foi um grande catalizador para produzir inovação artística, pelo que é sempre interessante de espreitar a arte que é produzida na "crista da onda". Entre os participantes o nome do António Olaio é para mim um chamariz irrecusável para dar uma saltada ao Museu da Ciência.

terça-feira, outubro 18, 2005

O Festim de Babette

"O Festim de Babette" de Gabriel Axel é um belo filme baseado no romance de Isak Dinesen que nos conta a deliciosa destabilização gerada numa pequena aldeia protestante dinamarquesa pela chegada de Babette, uma cozinheira francesa. A aldeia é dominada por protestantismo pesado e castrador, onde a rotina é valorizada e os desvios a um quotidiano que se quer imutável são vistos como obras do Demo. Escusado será falar dos efeitos que a cozinha parisiense e erótica de Babette provocam na pequena comunidade protestante até ao dia em que Babette decide organizar um grande banquete...

Numa altura em que se tem valorizado tanto a cultura protestante por motivos ideológicos, convém não esquecer a outra face da moeda, é o que "O Festim de Babette" nos mostra.
O recente filme "Chocolat" com Juliette Binoche e Johnny Depp, baseado num livro de Joanne Harris, leva-me a pensar que Joanne Harris deveria ter pago direitos de autor a alguém tal é a semelhança com "O festim de Babette" de Isak Dinesen.

domingo, outubro 16, 2005

Noite Einstein no Canal ARTE

Para quem tem o excelente canal ARTE, a não perder a soirée Thema sobre Albert Einstein (a partir das 19.40). Está disponível um pequeno filme-anúncio que deixa antever a qualidade dos programas da Noite Einstein.

sexta-feira, outubro 14, 2005

É o petróleo, estúpido!

Este é um excelente artigo (aqui apenas extrato) de Jeremy Rifkin publicado ontem no Le Soir, intitulado "Survivre à la crise énergétique", que vale bem o custo de aquisição via net. Trata-se de uma boa reflexão sobre o problema energético do planeta, onde o autor não coíbe de deixar uma pequena provocação à política energética levada a cabo nos últimos anos pelo seu país:

"Un jour, le président Clinton avait forgé une expression: "C'est l'économie, idiot!". Ce que nous commençons à comprendre maintenant, c'est que l'économie est largement dérivée du pétrole. En d'autres termes: "C'est le pétrole, idiot!""

quinta-feira, outubro 13, 2005

Feiticeiros e Cientistas

Georges Charpak (prémio Nobel da Física em 1992) e Henri Broch (director do Laboratório de Zetética, Nice) são os autores deste interessantíssimo livro "Feiticeiros e Cientistas" que aborda do avesso o tema da charlatanice científica. Em geral, o tema é abordado partindo de uma base científica, seguindo-se o desmontar, um por um, dos argumentos do charlatão. No entanto, Charpack e Broch colocam-nos primeiro na pele do charlatão, ensinam-nos as bases de qualquer aprendiz de feiticeiro, percebendo como agem, como actuam para obter o efeito desejado e depois de nos terem atribuído o "diploma" de feiticeiro podemos perceber como a ciência pode ser utilizada para as piores causas, o que melhora a percepção das artimanhas.
Este é um livro que considero essencial para todos os tipos de leitores, é um livro que nos ajuda a apurar o cepticismo. Muitos das ideias e artimanhas analisadas fazem parte do nosso quotidiano quando desempenhamos o papel de consumidores, de alunos, de eleitores, de espectadores, de ouvintes, de leitores, de cidadãos, etc.

Os sonhos premonitórios
Ao longo do "curso de feiticeiro" de Charpak e Broch assimilamos uma série de truques recorrentemente utilizados pelos que mais praticam a charlatanice nos dias que correm (astrólogos, numerologistas, gurus de seitas exóticas, alguns políticos, alguns meios de comunicação, etc.). Um dos truques mais importantes é a excessiva valorização de acontecimentos positivos (ou o desprezo excessivo pelos acontecimentos negativos). Um exemplo muito comum é o dos sonhos premonitórios. Já toda a gente conheceu alguém que acha que tem um dom especial só porque previu um ou outro acontecimento importante durante um sonho. Ora acontece que sonhamos sempre que dormirmos bem. Se contarmos todas as noites dormidas desde os 6 anos de idade (altura em que já nos lembramos do que fizemos) até aos 70 anos de idade (idade perto da esperança média de vida) obtemos 23360 noites. Mesmo que não tenhamos dormido bem muitas noites, uma pessoa de 70 anos deve ter tido cerca de 20 mil sonhos e uma de 35 anos cerca de metade (~10 mil sonhos). Ora, o que é de facto improvável ao fim de cerca de 10 mil sonhos de um trintão é que nenhum desses sonhos tenha sido premonitório. Sonhamos tantas vezes sobre factos importantes do nosso quotidiano que é muito pouco provável que por uma vez o conteúdo do sonho não coincidir com um ou outro detalhe da nossa vida. Ou seja, é mais provável ter um ou vários sonhos premonitórios na vida que ter zero sonhos premonitórios. O problema é que o nosso narcisismo é mais forte do que nós e valorizamos mais um sonho em 10 mil em que acertámos numa previsão do que os outros 9 999 em que não acertámos em nada.
Eu próprio já tive sonhos que coincidiram com acontecimentos posteriores (o leitor muito provavelmente também) e não é por isso que considero os meus sonhos premonitórios. Até já me aconteceu algo mais engraçado. Quando era estudante, após uma noite a resolver problemas, deitei-me cansado deixando um problema a meio. Durante o sonho voltei ao problema e ocorreu-me um detalhe que ajudava a chegar à solução. Assim que acordei, resolvi o problema... Até hoje ainda não comprei um chapéu à Merlin!

quarta-feira, outubro 12, 2005

A fiabilidade dos foguetões

A foto ao lado (sítio ESA) mostra o lançamento do Cryosat pelo foguetão Rockot. A queda do Rockot alguns momentos depois representou o primeiro falhanço deste tipo de lançador. Eis a fiabilidade dos foguetões:

Atlas 2 (EUA): 100%
Delta 2 (EUA): 98%
Ariane 4 (F): 97%
Soyouz-U (RUS): 97%
Rockot (RUS): 88%
Ariane 5 (F): 82%

terça-feira, outubro 11, 2005

As consequências da Mão Invisível no Lago Vitória

O filme (documentário) "Darwin's Nightmare" conta a história da exploração da perca do Nilo no Lago Vitória na Tanzânia. Na cidade retratada no filme onde se desenvolve a indústria de pesca da Perca do Nilo não existe socialismo, não existe rendimento mínimo garantido, não existe protecção social de qualquer tipo. Mas, existe criação de riqueza, economia de mercado totalmente livre, portanto o Estado Mínimo e o liberalismo mais radical no seu esplendor. Ironicamente, neste lugar onde circulam por dia centenas de toneladas de peixe, onde existe uma indústria próspera de produção de peixe, existe também a fome, a miséria, a SIDA, a prostituição, a toxicodependência, a corrupção e onde existe ainda, a mistura do antigo com o novo e do tradicional com o moderno feita da pior maneira possível e um desequilíbrio ecológico de proporções gigantescas nas águas do lago. O filme mostra ainda que os mesmos aviões que transportam o peixe para a Europa, para um supermercado perto de si, são os mesmos que transportam armas para o Lago Vitória e para outros destinos de passagem por ali. Ficamos a perceber que a Mão Invisível trouxe riqueza aos Indianos que exploram as fábricas de peixe, aos Russos que transportam a Perca nos seus aviões, aos Europeus que vendem a Perca do Nilo nos seus supermercados, mas para quem mora ali à beira do Lago Vitória não se passa da cepa torta. A única riqueza que fica por ali são os magros salários de alguns pescadores e dos empregados das fábricas de transformação de peixe e os dólares gastos nas prostitutas pelos pilotos dos aviões.

Este "Darwin's Nightmare" é apenas um exemplo dos efeitos nefastos da Mão Invisível, tal como afirma o seu realizador, o austríaco Hubert Sauper, "I could make the same kind of movie in Sierra Leone, only the fish would be diamonds, in Honduras, bananas, and in Libya, Nigeria or Angola, crude oil"

São Karol Wojtyla?
Para os admiradores de Karol Wojtyla, os que acham que ele deveria ter sido prémio Nobel da Paz ou Santo, recomendo especialmente a cena de "Darwin's Nightmare" em que um pastor católico que lida com as populações do Lago profere algumas palavras sobre a SIDA, o uso de preservativo e o pecado...

sábado, outubro 08, 2005

Palancas!!


(foto do sítio da FIFA)

Grandes Palancas Negras! O golo do Akwa, um ex-jogador aqui da nossa Académica, deve ter tido o efeito de uma bomba de alegria esfuziante. Eu imagino a festa de arromba em Angola...
Agora já tenho uma selecção para apoiar no Mundial, enquanto o Pinochet Scolari & sus muchachos (Ricardo e Quim) continuarem a resgatar aquilo que já foi a selecção nacional, ou seja o grupo de melhores jogadores nacionais.

quinta-feira, outubro 06, 2005

Amigos socialistas não votem em Vítor Batista

Tenho pena pelos meus amigos socialistas de Coimbra, mas o candidato que o PS lhes propôs para estas autárquicas é demasiado mau para ser verdade. O candidato Vítor Batista é daqueles homens que não deveria estar na política, deveria estar a fazer outra coisa qualquer, menos política! É confrangedor para o PS Coimbra que tem tantos académicos brilhantes, profissionais liberais, empresários e artistas de valor na cidade, apresentar um cromo como Vítor Batista. Um cromo, repito-o. Cromo é a melhor palavra que me ocorre para definir uma pessoa como Vítor Batista, porque os cromos quando são medíocres não se dão conta que são medíocres e até se julgam bons, é caso de Vítor Batista, o homem não se toca. O homem tem graves lacunas no português falado, na articulação de um discurso de ideias, tem uma fraca cultura geral, ignora muita, muita coisa, é mal educado e violento e o pior é que tudo isto acumula com muita arrogância e um péssimo sentido de humor. Ouvi-o num debate a gozar com um estudante que o interpelou sobre um assunto dizendo que ele deveria ter tido um "dezito na Específica". Eu tenho a certeza que se o Vítor Batista fizesse as específicas como elas são hoje não conseguiria 10 nem numa escala de 0 a 100.

Infelizmente, através de candidatura de Vítor Batista percebemos que este cocktail de mediocridade funciona na política interna dos partidos em Portugal. Os políticos mais violentos e mais mal educados, à custa de "empurrões" e do nojo que causam aos outros militantes do partido acabam por conseguir frequentemente lugar de destaque.

Amigos socialistas, lembram-se do exemplo recente dado por uma boa parte dos simpatizantes do PSD? Muitos deles conscientes de uma vitória do PS, preferiram não votar ou votar noutro partido que votar em Santana Lopes. Em Coimbra deveria passar-se a mesma coisa. À vossa esquerda têm aquela que é melhor candidata (apesar de não ter hipóteses de ganhar), a Marisa Matias do BE. Para os socialistas que se sentem mais próximos do PSD que do BE, porque não votar em Encarnação (votar CDU em Coimbra é basicamente o mesmo que votar PSD)? Um péssimo resultado de Vítor Batista seria uma boa forma de mostrar que Coimbra rejeita candidaturas de proto-caciques de muito baixo nível.

terça-feira, outubro 04, 2005

Comme beaucoup de messieurs

N: Quand je t'ai connu
V: Tu citais Boris Vian, Camus
V: Le nez dans tes songbooks
N: Et toi qui te prenais pour Zouc
N V: Ensuite on a vielli
V: Tu t'es durci
N: J'ai vu Alfie
N: Je sais c'est quelque peu brutal
N V: Mais la nature est animale...
N: Et pourtant
N V: Qui ne dit mot consent a la chair
N V: Comme ces couverts offerts dans les Stations Shell
N: Et plus je les caresse plus je me dis que
V: Tu es comme beaucoup de messieurs

V: Neil, t'en souvient-il?
V: Tu disais savoir faire la cour
V: Mais moi
N: Quoi toujours toi?
V: Tu m'enivrais de mots d'amour
N: Plus maintenant car j'ai cede
N: Au style de vie que je lassais
V: A d'autres hommes moins chic que toi
N: Ce genres de types qui suscitent chez les filles des emois
N: Et pourtant
N V: Qui ne dit mot consent a la chair
N V: Comme ces couverts offerts dans les Stations Shell
N: Et plus je les caresse plus je me dis que
N V: Je suis comme beaucoup de messieurs.


Divine Comedy
N- Neil Hannon, V- Valérie Lemercier

Tu cá tu lá com o Nobel da Física

Hoje, depois do anúncio do Nobel da Física, vive-se um ambiente especial aqui no laboratório. Um dos Nobel deste ano, o alemão Theodor Hänsch, colabora com o nosso grupo num projecto de estudo do hidrogénio muónico, tendo publicado 6 trabalhos com alguns dos colegas do laboratório (mas nenhum comigo, buuuáá!!!).

Aqui ficam as referências dos trabalhos para os mais curiosos:
"Powerful fast triggerable 6 mu m laser for the muonic hydrogen 2S-Lamb shift experiment", Optics Communications 253 (4-6): 362-374, 2005

"The muonic hydrogen Lamb-shift experiment" Canadian Journal of Physics 83 (4): 339-349, 2005

"Planar LAAPDs: temperature dependence, performance, and application in low-energy X-ray spectroscopy", Nuclear Instruments & Methods A, 540 (1): 169-179, 2005

"The muonic hydrogen Lamb shift experiment at PSI", Hyperfine Interactions 138 (1-4): 55-60 2001

"Experiment to measure the Lamb shift in muonic hydrogen", Hyperfine Interactions 127 (1-4): 161-166 2000

"Laser spectroscopy of the Lamb shift in muonic hydrogen", Hyperfine Interactions 119 (1-4): 311-315 1999

segunda-feira, outubro 03, 2005

Bragança ida e volta: fogos e catazes foleiros

Durante os mais de 700 km que fiz para ir e voltar de Bragança, para ver o eclipse, assisti sem exagero a 10 fogos, 3 dos quais me deixaram num estado de semi-intoxicação tal era a proximidade.

Quando não eram os fogos que me intoxicavam era a proliferação de cartazes foleiros em tudo o que é freguesia. As novas tecnologias permitem ao mais humilde candidato a descoberta da arte da fotomontagem, no entanto à medida que ía entrando pelas zonas mais inóspitas do país, entre Viseu e V.N. Foz Côa e entre Foz Côa e Bragança, a qualidade da fotomontagem era absolutamente patética (poses dos candidatos tipo equipa de futebol, tipo Três Duques, tipo Men in Black, tipo aparição em Fátima) onde as noções de perspectiva são uma autêntica vergonha comparadas com as obras dos nativos pré-históricos do Vale do Côa. A quantidade de cartazes à beira das estradas era absolutamente pornográfica, destruindo o pouco que restava da paisagem que ainda não tinha sido destruída pelo fogo.

domingo, outubro 02, 2005

Todos os caminhos vão dar a Bragança

Enquanto vou a Bragança e venho, aqui fica o sítio do NUCLIO que reúne informações sobre as actividades que se vão realizar por lá em torno do eclipse e que inclui ligações para sítios que cobrem o evento.

sexta-feira, setembro 30, 2005

Óculos para o eclipse

Desta vez as farmácias não vão distribuir nem vender óculos para o eclipse. Uma das oportunidades para adquirir óculos para o eclipse é comprar a Visão desta semana. Uma alternativa válida aos óculos são os vidros para óculos de soldador nº 14 que se vendem na maior parte das lojas de ferragens. Os negativos, as radiografias, o vidro fumado, etc. são perigosos.


Durante o eclipse total de 11 de Agosto de 1999, Place Kléber, Estrasburgo, França

quinta-feira, setembro 29, 2005

Modelos Climáticos e Quioto (comentários)

"Os modelos climaticos tem como base equacoes fisicas e de dinamica de fluidos que tem um grau de certeza elevado. Assim, como o da maca a desprender-se da arvore cair na tola do Newton. Ha empirismos, porque ha problemas de escala: ha fenomenos com uma escala inferior a menor escala de resolucao do modelo. Mas isto e testado ate a exaustao (...) No IPCC as maiores incertezas nao sao os resultados dos modelos climaticos, mas as variaveis dependentes do homem: qual sera o aumento populacional? A que nivel de vida aspirarao? Que novos recursos energeticos serao utilizados? Que novos metodos de mitigacao (conseguiremos encapsular CO2 no subsolo? p. ex.) Que tipo de presidente estara a governar os paises mais poluidores?"
Gabriela

"O que eu acho muito engracado nesta discussao toda e quando se avanca com o argumento de que assinar Quioto e irrelevante porque o acordo e insuficiente para resolver o problema se esquecem dos motivos pelos quais o protocolo e tao timido.
Os EUA na altura liderados pelo Clinton tambem estavam nas negociacoes, bem como nacoes em desenvolvimento como China e India. A China e India exigiram defender o seu direito a poluir porque eram pobres e os Eua exigiram dilatar prazos de cumprimento E (muito importante) deixar de fora do tratado as emissoes resultantes do transporte aereo (12.5% do total mundial de emissoes humanas se nao estou em erro), isto foram exigencias para que os respectivos negociadores considerassem a assinatura do dito protocolo!
"
Lowlander

quarta-feira, setembro 28, 2005

Comunas ou fachos, eles andem aí!


A primeira vez que vi "Invasion of the Body Snatchers" devia ter uns 12 anos. Lembro-me que era uma noite de chuva e estava sozinho na sala, enroscado numa manta no sofá. Adorei aquele estilo de ficção científica com doses bem ponderadas de suspense (vulgo terror), que intimidam o espectador, sem os clichés dos entediantes filmes de "terror", na altura já não tinha pachorra para as moto-serras, os personagens góticos a escorrer sangue ou os dráculas de voz rouca a falar inglês. Fruto talvez desse clima excepcional em que assisti ao filme, "Invasion of the Body Snatchers" bateu que nem dose cavalar e é até hoje um dos meus filmes fetiche. Outro coisa que adoro no filme são aqueles efeitos especiais rudimentares dos anos 70, uma delícia.

Curiosamente este "Invasion of the Body Snatchers" de 1978 é uma versão mais recente de um outro "Invasion of the Body Snatchers" de 1956. Mas o que é ainda mais curioso é que apesar de ambos os filmes possuírem um enredo semelhante, a conotação política de cada um deles é perfeitamente antagónica. Se na película de 1956 os invasores são conotados com um invasor vermelho (portanto comunas) e a acção decorre à volta de Los Angeles, já na versão de 1978 a opressão dos invasores é associada ao fim das liberdades, a um estado para-militar e ao pensamento único, desenrolando-se a trama numa cidade bem simbólica: São Francisco.
É quase inacreditável como a mesma história sirva campos políticos tão opostos, mas os dois filmes são uma prova de como essa proeza é possível.

terça-feira, setembro 27, 2005

Aquecimento Global: seguimos para Bingo!

Em entrada anterior, em Agosto, já tinha referido que as temperaturas médias mensais do planeta deste 2005 indicam que provavelmente este ano entrará directamente para o top dos 4 anos mais quentes de sempre. Saiu agora o valor para o mês de Agosto de 2005: foi "só" o 3º Agosto mais quente desde que se mede a temperatura da superfície do planeta, desde 1880. Vamos bem...

segunda-feira, setembro 26, 2005

Dica de acção inteligente para Cavaco e Soares

Uma coisa inteligente que tanto Cavaco como Soares poderiam fazer pelo país - em vez da entediante campanha presidencial centrada no passado que se antevê (espero estar enganado) - seria uma ida a Felgueiras, a Gondomar, a Oeiras e a Amarante, para lançar apelos à lucidez política. É absolutamente chocante e desprestigiante para o nosso país a onda de populismo rasca que assola estas quatro concelhias. O pior é que perante o calibre de caciques bastante violentos como Fátima Felgueiras ou como Valentim Loureiro, os nossos políticos temem a confrontação política. Temem o atoleiro. É verdade, sabemos que há esse risco, mas se os combatermos só de cima, apenas confiando na nossa superioridade moral, corremos um risco ainda maior, o risco de lhes oferecer a vitória de mão beijada. Recordo que recentemente dois grandes populistas foram derrotados nas urnas: Santana Lopes e Vale e Azevedo (este num terreno muito mais propício ao populismo, o do futebol). E foram derrotados porque houve quem se expôs, quem não temeu o lamaçal do populismo. Santana Lopes foi duramente criticado pelos seus pares Pacheco Pereira e Leonor Beleza, e foram estes que tiveram o mérito de desencadear uma onda de descredibilização de Santana que a par do desastre governativo, apagaram para sempre a aura messiânica de Santana perante os eleitores. Vilarinho fez o mesmo perante um adversário muito mais feroz, como era Vale e Azevedo, e só a sua persistência trouxe Eusébio para o seu campo o que conduziu ao afastamento definitivo do mais populista dos presidentes do Benfica.

Soares e Cavaco poderiam prestar o mesmo serviço ao país, eles têm o poder de serem vozes de peso, sempre ouvidas pelos mais simples e pelos mais susceptíveis ao populismo. Esse seria um excelente serviço à nação que até poderia ser acompanhado pelos restantes partidos, criando um abrangente movimento democrático contra o populismo rasca.

Ler: "Santos da casa fazem milagres" da Joana Amaral Dias no DN

sexta-feira, setembro 23, 2005

O Vaticano...

O Vaticano continua em forma, as velhas artimanhas nunca se esquecem.

Ler: "Um papão que virou papinha" na Linha dos Nodos

Campeã!

Perante a indiferença quase generalizada dos nossos meios de comunicação, a Ticha (à esquerda da taça, sítio Monarchs) conquistou o título máximo a que pode aspirar uma basquetebolista portuguesa: campeã da WNBA. A sua equipa, os Monarchs, bateu na final os Sun por 62-59.
Fica um belo exemplo de trabalho sério e árduo da Ticha, do seu pai João Penicheiro (referido em entrada anterior) e de alguns anónimos treinadores portugueses que recolhem os frutos de sacrifícios de anos. Tenho a certeza que há muita gente na Figueira da Foz muito orgulhosa, principalmente o pessoal que jogava nas traseiras das Abadias, mas também gente do Ginásio Figueirense e da Naval.

Equações da minha vida: Bethe-Bloch (act.)



A equação de Bethe-Bloch é uma das equações da minha vida, pois foi graças a ela que me iniciei verdadeiramente na instrumentação nuclear. A minha primeira experiência a sério de física nuclear foi determinar o alcance das partículas alfa no ar. É uma experiência bastante simples. Basta colocar uma fonte radioactiva que emita partículas alfa à frente um detector (no meu caso foi um detector de silício) e ir registando a intensidade das partículas alfa que chegam ao detector à medida que o vamos afastando da fonte radioactiva, até o detector deixar de dar sinais e só dar ruído. A fórmula de Bethe-Bloch dá a taxa de energia perdida (E) pela partículas carregadas (alfa) em função da distância (x) que percorrem num determinado meio (neste caso o ar). Ao contrário da prática científica não vou aqui explicar todos os outros símbolos, mas deixo uma ligação para os interessados e corajosos.
Os autores da equação são o alsaciano Hans Bethe, Prémio Nobel da Física em 1967, e o suíço Felix Bloch, Prémio Nobel da Física em 1952.

quinta-feira, setembro 22, 2005

Eleições alemãs: uma equação para Einstein

É deliciosa esta capa do Die Tageszeitung (22 de Setembro de 2005). Face à crise alemã para formar governo, o jornal propõe o génio de Einstein para resolver a difícil equação que resultou das últimas eleições.

terça-feira, setembro 20, 2005

Prémio Nobel para o João Miranda!

Num documento assinado pelas principais academias das ciências do mundo (EUA, Rússia, Japão, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Brasil, Índia, China) aquando do último G8 podemos ler:

"There will always be uncertainty in understanding a system as complex as the world’s climate. However there is now strong evidence that significant global warming is occurring. (...) The scientific understanding of climate change is now sufficiently clear to justify nations taking prompt action."

No entanto, João Miranda do Blasfémias afirma:

"O que há neste momento são hipóteses e teorias, baseadas quer em relações estatísticas pouco significativas."

A distância que vai da "strong evidence" às relações "estatísticas pouco significativas por falta de eventos, quer em modelos computacionais pouco fiáveis por falta de validação" corresponde quase a um prémio Nobel.

Mas João Miranda insiste nesta entrada:

"a qualidade dos modelos [que descrevem o clima terrestre] não está garantida porque eles não se baseiam em princípios básicos da física consensuais mas em teorias simplificadas baseadas em dados empíricos"

Daqui podemos extrair duas conclusões: 1) As 11 academias erram quando declaram que "understanding of climate change is now sufficiently clear"; 2) As maçãs não caem das árvores porque não existe consenso sobre as ondas gravitacionais e algumas "teorias" sobre a gravitação são simplificadas e baseadas em dados empíricos.

Se o João Miranda tiver razão na sua Teoria Liberal do Aquecimento Global (quase tão brilhante como a Teoria Sociológica dos Electrões do Prof. Boaventura) merece o Prémio Nobel de caretas!

Já agora
Para ajudar o João Miranda a actualizar a sua biblioteca de gráficos, aqui vai o gráfico que serve de referência à NASA e ao IPPC que sugere uma variação da temperatura do planeta que vai de 1,4 a 5,8°C em 2100. O que mostra o "rigor" da curva do business-as-usual e da curva de Kyoto.

Respondendo ao João: quando Blair refere o seu "disagreement over Kyoto" com os EUA será que é porque considera que o Protocolo não serve para nada? Está-se mesmo a ver... Aliás muitos dos "proponentes" acham que se deveria ir mais longe do que Quioto, tanto que se fala já em Quioto II. O problema é que Bush prefere ficar pelo Quioto Zero.

segunda-feira, setembro 19, 2005

Continua a asneirada anti-Quioto

Os últimos tempos têm sido duros para os defensores das formas mais radicais de liberalismo económico (mas é liberalismo só na economia, na vida privada é mais o "liberalismo" da Opus Dei). Pois é, os podres que o Katrina deixou à vista são difíceis de justificar. Por exemplo, só alguma angústia explica a invocação do tetra-desmentido Bjørn Lomborg, mais conhecido por Ecologista Céptico, para justificar as asneiras da ideologia neo-liberal que andam a tornar o mundo mais perigoso. Lomborg que foi desacreditado e desmentido pela Danish Ecological Association, pela Scientific American e pelos maiores especialistas mundiais de climatologia numa série de artigos publicados nas revistas Nature e Science, continua a ser recomendado pelo João Miranda como se fosse alguém com alguma credibilidade para se pronunciar sobre o Protocolo de Quioto. A asneirada no Blasfémias (que é um bom blogue) continuou numa série de entradas onde se pode ler esta pérola de João Miranda:

"até os proponentes do Protocolo de Quioto reconhecem que ele tem um efeito mínimo no clima e de qualquer das formas, muitos dos países que o assinaram, não o estão a cumprir. Este comentário do ministro alemão, para além de demonstrar o habitual anti-americanismo de muitos europeus, demonstra também a falta de seriedade dos proponentes do protocolo de Quioto"

O Protocolo de Quioto é um documento que vincula Estados, e não "proponentes", a uma série de acções. Os Estados de países democráticos mudam regularmente de governo e por isso mudam os "proponentes", mas o Protocolo é sempre válido para os Estados. Quer se considere Estados ou "proponentes" é falso que os seus signatários considerem que o Protocolo de Quioto tem um efeito mínimo no clima. Basta ler os documentos que foram publicados durante o último G8 na Escócia, nomeadamente esta crítica bem ilustrativa de Blair (deve ser anti-americano...) aos EUA:

"We were never going to be able at this G8 to resolve the disagreement over Kyoto, nor to renegotiate a set of targets for countries in place of the Kyoto Protocol, that was never going to happen and I have to be very blunt with you about that. But I tell you my fear on climate change, which is why I put this on the G8 agenda. If it is impossible to bring America into the consensus on tackling the issue of climate change, we will never ensure that the huge emerging economies, particularly those of China and India, who are going to consume more energy than any other part of the world, we will never ensure that they are part of a dialogue, and if we cannot have America as part of the dialogue on climate change, and we can't have India and China as part of the dialogue, there is no possibility of us succeeding in resolving this issue."

Portugal, de facto, é um dos países que não cumpre o Protocolo. As entradas do João Miranda são bem ilustrativas das razões que levam ao não cumprimento do Protocolo: em Portugal a ciência não é levada a sério. Isso percebe-se logo na mesma entrada onde lemos:

"Sempre existiram furacões como o Katrina, não está demonstrada nenhuma relação entre furacões e aquecimento global"

Não há rigor quando se afirma "nenhuma". Esta entrada do David Luz na Linha dos Nodos cita três artigos (um na Nature e dois no Journal of Climate) relativos a trabalhos científicos de peso que relacionam os furacões com o aquecimento global.

Ler também: "Blasfémias: Primeira e última" no Quinta do Sargaçal

domingo, setembro 18, 2005

Land of Plenty

O fascínio do realizador alemão Wim Wenders pela América é tal que este escolheu os EUA para viver e para trabalhar. Porém esse seu amor pela América não o impede de criticar o país onde escolheu viver. Wim Wenders tinha afirmado sobre as recentes obras de Michael Moore que este estava a realizar um bom trabalho ao denunciar a deriva do país para uma ideologia conservadora associada a um liberalismo económico radical. Mas Wenders não se ficou pelas palavras e à sua maneira juntou-se a Michael Moore na luta contra o apodrecimento social dos EUA, realizando "Land of Plenty".

"Land of Plenty" mostra de uma forma chocante como uma parte da América vive mergulhada numa paranóia securitária para protecção ilusória de uns quantos, esquecendo os mais de 40 milhões de americanos que não possuem qualquer protecção social ou acesso a saúde preventiva vivendo mais de metade destes numa completa exclusão social. Wenders conta-nos uma parábola sobre a América actual. A América dividida entre uma América multicultural, a América da aventureira Lana, que cultiva o prazer da descoberta da geografia terrestre, mas também da geografia interior, e uma outra América, a América esquizofrénica de Paul que deixa o medo dominar o quotidiano, essa América que olha para a cor da pele e para a origem do nome de família, utilizando a tecnologia, ironicamente uma das suas melhores contribuições para a humanidade.
O resultado do confronto entre estas duas américas será determinante para o futuro do planeta, daí a importância do filme. A importância de perceber até que ponto a América está doente e a capacidade que uma América mais fresca e mais aberta terá de impedir a deriva do país.

sábado, setembro 17, 2005

Iraque: a utilização propagandística da Ilíada II

"(...) Todavia não concordo nada quando afirmas que a "Ilíada, apesar do seu interesse é claramente uma obra menor comparada com a Odisseia." É que quase todos os críticos literários (por ex. o Frederico Lourenço) consideram que a Íliada tem um papel mais importante na formação das epistemologias ocidentais que a Odisseia"

Francisco Curate (Daedalus)

Iraque: a utilização propagandística da Ilíada I

sexta-feira, setembro 16, 2005

Klepsýdra por um canudo


Foi uma semana na Córsega, quase sem internet, a pôr equações em dia com os meus colegas italianos. Agora é preciso pôr a Klepsýdra em dia.

domingo, setembro 11, 2005

História de Massoud com amor

Passaram 4 anos desde o cobarde atentado que vitimou a 9 de Setembro de 2001 o Comandante Massoud da Aliança do Norte, a única força que se batia na altura contra o obscurantismo dos talibãs no Afeganistão. Em homenagem a este marcante combatente que admirava De Gaulle e que sonhava com um Afeganistão democrático - numa parte do mundo em que os radicalismos religiosos e ideológicos eram muito mais populares - foi lançado um livro que recolhe o testemunho da esposa de Massoud, Sediqa Massoud. O livro intitula-se "Pour l'amour de Massoud" e poderá fornecer mais pedacinhos de história interessantes sobre a Era Talibã no Afeganistão.

sexta-feira, setembro 09, 2005

Anti-americanismo: a desculpa do liberalismo radical

A ideologia do "Estado Mínimo" radical tem sempre uma desculpa na manga. Pelos vistos, todos os que têm criticado a administração Bush como Jeremy Rifkin, Richard Clarke, Bernard-Henri Levy, Wim Wenders, Hans Blix e até o born in the USA Bruce Springsteen são todos anti-americanos. O que dizer então dos "maniqueístas" e "panfletários" Michael Moore ou Morgan Spurlock?

Aqui fica então este interessante texto do "anti-americano" Jeremy Rifkin sobre o Katrina.

Tempo de astronomia: eclipse e Venus Express

Até ao final do mês de Outubro a astronomia e a exploração espacial vão viver tempos de grandes acontecimentos. Dia 3 de Outubro ocorrerá um eclipse anelar cuja linha central do seu percurso passa no norte Portugal. Dia 26 de Outubro será lançada a sonda Europeia Venus Express (na imagem, sítio ESA) que terá como objectivo o estudo do planeta Vénus.
Em cima do acontecimento o NUCLIO organiza uma série de actividades e palestras. Eu darei também o meu contributo, dia 23 estarei no Instítuto Geográfico do Exército em Lisboa, a falar sobre os telescópios espaciais que nos ajudam a ver o Universo que é invisível aos nossos olhos. O NUCLIO organiza também uma viagem a Bragança para a observação do eclipse acompanhada de especialistas.

quinta-feira, setembro 08, 2005

Iraque: a utilização propagandística da Ilíada

A Ilíada tem sido indirectamente utilizada (felizmente sem sucesso) como elemento justificativo da intervenção no Iraque. A carga histórica de um épico milenar que descreve a guerra entre Gregos e Troianos serve como aparente exemplo de sabedoria igualmente milenar que justifica o presente. E se na Ilíada se fazia a guerra por caprichos dos nobres, então hoje pode justificar-se a guerra pelo petróleo à pala da democracia. Para além do mais o autor tem a virtude de ser absolutamente imparcial relativamente aos tempos que correm. No entanto, os fracos hábitos de leitura e o desinteresse dos portugueses por este tipo de obras inviabilizaram o sucesso desta estratégia. Nem a recente edição de uma nova tradução, nem a estreia do filme Tróia (que muitos ignoram a relação com a Ilíada) mudaram o desinteresse pela obra. Consciente ou não do facto, apenas esta entrada do Blasfémias do José Pedro Lopes Nunes aborda em parte a Ilíada pelo mesmo ângulo. Podemos ler:

"A guerra, no tempo de Homero, parece ter sido algo de particularmente importante, na perspectiva do autor, que lhe consagrou, em larga medida, a obra em análise. Passados bastantes anos, o que podemos concluir é que a guerra se mantém tema actual, pela sua continuada importância."

O meu domínio são as ciências, por isso abstenho-me da interpretação literária. No entanto, lembro que a importância de Homero se deve sobretudo à Odisseia, basta lembrar as obras importantes inspiradas no carácter desta obra: Eneida, Divina Comédia, Lusíadas, etc. A Ilíada, apesar do seu interesse é claramente uma obra menor comparada com a Odisseia.
Os meus reparos a esta visão neo-bélica da Ilíada são sobretudo de carácter científico, fazendo uso da excelente obra de Desmond Morris, "O Macaco Nu":

- A guerra, no sentido da eliminação física do adversário, é uma situação excepcional dentro da espécie humana, não é normal. O que não é sinónimo de afirmar que o ser humano é pacifista. Os humanos, como quase todas as outras espécies que tiveram sucesso, não têm por hábito matar membros da mesma espécie. Nas palavras do zoólogo Desmond Morris em caso de conflito: "Qualquer animal quer a derrota, não o assassínio" (pag. 184, Europa-América, ed. 1997). Ora, a Ilíada é a descrição de uma guerra em que a derrota não basta e onde o assassínio é enaltecido como forma última da honra individual. A importância da guerra deve-se apenas ao seu carácter excepcional. A derrota é muito mais importante e para se obter uma derrota a guerra não é condição necessária, nem suficiente.

- No conflito mais básico e mais primário entre membros da mesma espécie existem mecanismos "diplomáticos" gestuais e vocais de reconhecimento rápido do vencedor e do vencido, sem que o vencedor tenha necessidade de matar o vencido (cap. V - "A agressão", idem). A guerra "aconteceu por causa da associação viciosa do ataque à distância (...) os indivíduos deixaram de ver o objectivo inicial. Actualmente, quase não há possibilidade de reagir perante o [mecanismo diplomático de] apaziguamento directo" (pag. 185, idem). A guerra que descreve a Ilíada nada tem a ver com a guerra dos tempos modernos, em que o contacto entre agressor e agredido em grande parte dos casos é nulo. O agressor não assiste ao sofrimento, nem ao sangue, nem à morte do adversário.

Por estas razões, é um exercício fraco e perigoso invocar a Ilíada para justificar parcialmente as guerras actuais, como temos lido em recentes artigos de conhecidos cronistas. Desmond Morris vai mais longe em relação à perigosidade da guerra: "Esta infeliz evolução pode acabar por ser a nossa ruína e conduzir à rápida extinção da nossa espécie" (pag. 185, idem).
Numa visão mais actual sobre os temas da perigosidade da guerra e da "extinção da espécie" chamo a atenção dos meus caros leitores para o artigo "Apocalypse Soon" pelo perito de armas nucleares Robert McNamara na revista Foreign Policy de Maio e Junho de 2005. McNamara explica preto no branco porque é que estamos actualmente a brincar com o fogo ao guardar um arsenal nuclear projectado para a Guerra Fria num tempo em que o mundo é mais complexo e em que houve uma redistribuição aliados e inimigos.