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quarta-feira, maio 12, 2010

A beatificação da cumplicidade com o nazismo

(Publicado no Esquerda Republicana)
A beatificação de Pio XII por insistência do Papa Bento XVI constituirá a celebração de um silêncio mortal, a celebração do oportunismo e a celebração da cumplicidade com o pior da história do século XX. Aliás, o silêncio e a inacção da igreja perante os casos de pedofilia já são uma grande demonstração de coerência com a herança de Pio XII. Mas sobretudo, ao beatificar Pio XII, este Papa envia um sinal bem forte a todos os crentes de que mais vale estar calado, mais vale colaborar e mais vale aproveitar as pequenas oportunidades quando confrontados com as piores arbitrariedades cometidas nos seus locais de trabalho, nas suas famílias e nas suas comunidades.

Apesar do Vaticano precisar que a beatificação de Pio XII considera apenas "as suas virtudes enquanto cristão, pondo de parte qualquer apreciação da importância histórica de todas as suas decisões operacionais", com o mesmo critério poderíamos beatificar operacionais das SS, kapos dos campos de concentração e talvez inclusivamente alguns dos autores da solução final. Tenho a certeza que entre estes indivíduos havia gente perfeitamente honesta, louvável e integra antes de participar activamente na barbárie nazi. Mas é na adversidade que se testa a verdadeira integridade das pessoas ou, por outras palavras, o seu potencial de beatificação. Nesse particular Pio XII fez parte desse pelotão do silêncio, desse pelotão da cobardia perante a barbárie que foi um pelotão tão ou mais terrível que os próprios pelotões SS.

quarta-feira, maio 05, 2010

Mulheres bonitas causam terramotos

Depois de termos visto a semana passada que comer frango causa pedofilia, esta semana chamo a atenção para as declarações de Hojatoleslam Kazem Sedighi, um líder religioso iraniano:

"Muitas mulheres que não se vestem de forma modesta, desviam os jovens do caminho justo e espalham o adultério na sociedade, o que faz aumentar os terramotos"

O João César das Neves é sumidade para concordar com esta brilhante dedução científica.

sexta-feira, abril 30, 2010

Mulheres da luta II

(publicado no Esquerda Republicana)
Taslima Nasreen e Caroline Fourest publicaram "Libres de Dire". Caroline Fourest é uma incansável activista francesa que se tem batido contra os abusos religiosos e espirituais contras as mulheres. Taslima Nasreen, é uma refugiada política bengali a viver em França sob a ameaça de morte de grupos fundamentalistas islâmicos. Nesta obra ambas reflectem sobre o papel da religião na condição feminina, sobre as respostas da esquerda política à ameaça fundamentalista, sobre a laicidade e o humanismo numa época em que o comunitarismo espiritual e religioso começa a ganhar terreno na Europa.
Sugestão de leitura para o próximo dia 13 de Maio.

terça-feira, abril 27, 2010

fare il portoghese

(publicado no Esquerda Republicana)
Em Itália a expressão "fare il portoghese" (passar por português) é empregada quando se usufrui de um serviço e não se paga, por exemplo quando se viaja de comboio sem bilhete. Esta expressão decorre de uma historieta do século XVIII em que o embaixador de Portugal em Roma autorizou a entrada num teatro a todos os portugueses a viver em Roma. Nessa noite entraram de borla no teatro muitos romanos que se passaram por portugueses (fare il portoghese).

A tolerância de ponto e as mordomias para comitivas e devotos fiéis durante a próxima visita do Papa será um raro momento em que Portugal em peso farà il portoghese. Este momento de puro esbanjamento económico em período de crise a troco de uma massagem espiritual colectiva realizada por um clero que pouco fez para combater a pedofilia entre os seus, é um momento patético e desajustado à realidade de um regime democrático e laico. Compreende-se ainda menos esta atitude vinda de um governo socialista. Compreende-se ainda menos quando existe um debate na Europa (França e Bélgica, por exemplo) sobre a necessidade de salvaguardar laicidade da sociedade, a laicidade da escola e a laicidade dos espaços públicos. Por enquanto, ainda não conhecemos por cá fenómenos comunitaristas que impõem indumentária e práticas abusivas às mulheres e às adolescentes. Seria pois o momento ideal para blindar a nossa legislação a tentativas futuras de abusos espirituais. Mas não, preferimos piscar o olho ao velho Portugal dos três éfes.
Deixo aqui a ligação de uma intervenção exemplar (aos 22min e 40s) de uma voz que está longe de ser uma voz jacobina, a voz de um católico que defende a laicidade: Pedro Mexia. Oiçam bem as suas palavras sobre o papel do estado, dos feriados religiosos, etc.

segunda-feira, abril 26, 2010

Logo comer frango causa pedofilia...

O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone afirmou recentemente que há uma relação entre homossexualidade e pedofilia.

Evo Morales, o presidente da Bolívia, revelou que a homossexualidade é causada pela ingestão de frangos com hormonas femininas.

Logo comer frango causa pedofilia...


quarta-feira, novembro 04, 2009

A religião fora da escola

Este relato da Isabel Moreira no Jugular sobre a sua passagem pela escola que ficou este ano no topo do ranking de escolas, revela um assédio doentio que o clero exerce sobre as adolescentes que é inaceitável. As instituições religiosas são livres de criar estabelecimentos de ensino, mas o conteúdo religioso deveria ser opcional e dado fora do horário escolar.

Além disso fica bem patente que as escolas privadas que ficam no topo dos rankings só recebem filhos de famílias endinheiradas, são na prática guetos de miúdos ricos, e por isso têm pouco trabalho para conseguir bons resultados. Gostava de ver instituições de ensino privado a ter bons resultados em zonas menos favorecidas, onde o trabalho dos professores é muito mais do que ser professor, é ser pai, mãe, amigo, irmão, polícia, assistente social, nutricionista, etc.

segunda-feira, outubro 26, 2009

Vaticano presta homenagem a Galileu

(publicado no portal Esquerda.net)

No âmbito do Ano Internacional da Astronomia, o Vaticano em colaboração com o Instituto Nacional de Astrofísica italiano inaugurou nos Museus do Vaticano uma exposição intitulada "Astronomia e Instrumentos, a herança histórica italiana 400 anos depois de Galileu". A exposição celebra os 400 anos de observações astronómicas desde as primeiras observações realizadas por Galileu Galilei em 1609. Na exposição foi reservado um espaço dedicado apenas aos instrumentos utilizados por Galileu, entre os quais se encontra o telescópio rudimentar através do qual Galileu realizou as suas primeiras observações do céu. Nesse espaço é exposto também o manuscrito original de "Sidereus Nuncius", o documento onde Galileu registou as suas primeiras descobertas astronómicas.

Esta iniciativa do Vaticano tem um significado muito espacial, dado que a Igreja rejeitou a verificação do modelo heliocêntrico realizada por Galileu, julgando-o num processo conduzido pela Inquisição. Como resultado desse processo Galileu foi forçado a renunciar às suas extraordinárias descobertas no dia 22 de Junho de 1633. Nesse dia, de joelhos, Galileu proferiu as seguintes palavras perante o tribunal:

"Eu, Galileu, filho do falecido Vincenzio Galilei, (...) depois de me ter sido legalmente feita por este Santo Ofício uma injunção no sentido de que deveria abandonar por completo a falsa opinião de que o Sol é o centro do Mundo e imóvel, e de que a Terra não é o centro do Mundo e se move (...) juro que de futuro nunca mais voltarei a dizer ou a afirmar verbalmente ou por escrito alguma coisa capaz de causar similar suspeita contra mim."

Só em 1992 o Vaticano viria a retratar-se sobre o seu erro, quando o Papa João Paulo II qualificou o processo de Galileu como um erro resultante de uma "trágica incompreensão mútua". Sobre esta exposição, o arcebispo Gianfranco Ravasi, responsável máximo do Vaticano pela cultura, declarou que esta é uma ocasião para mostrar a capacidade da Igreja em reconhecer os seus erros.

segunda-feira, maio 18, 2009

99 preservativos vermelhos

É absurda a ideia que distribuir preservativos nas escolas poderá gerar algum tipo de perversão entre os jovens. É bom que os jovens e os adolescentes das escolas secundárias possam ter preservativos à mão. Os primeiros servem para experimentar, para encher de água até rebentar, para insuflar de ar como balõezinhos, para impressionar os amigos e para pregar partidas aos colegas. A maioria dos adolescentes só irá utilizar realmente um preservativo muito depois de acabados os estudos secundários. Quando chegar esse momento já sabem que resistem, que são fiáveis e já não têm preconceitos em utilizá-los, ao contrário da geração dos pais. Essa geração que contrai SIDA aos 50 e aos 60 anos, uma tristeza terceiro-mundista.

Parece que já não basta as hordas de virgens tardias que produzem as nossas escolas urbanas hiper-assépticas, putos controlados 24 horas por dia, carregados de actividades, que mal têm tempo para se olhar ao espelho, quanto mais tocar um(a) jovem do sexo oposto. Longe vão os tempos dos nossos avós, dos casamentos aos 16 anos e das experiências sexuais precoces em que havia todo o tempo do mundo para descobrir a textura da pele do outro.

Só a mente pobrezinha de um padre ou o fanatismo cego dos amigos da Opus Dei pode imaginar que a posse de um preservativo possa dar direito automático à conquista de uma alma do sexo oposto e por inerência à consumação do acto sexual. É óbvio que estes indivíduos não têm experiência da vida, vivem alienados na sua esfera espiritual e mergulhados num moralismo doentio. A proibir alguma coisa nas escolas, proíba-se sim a religião!

terça-feira, maio 05, 2009

Ali se abriu um debate sobre o criacionismo

Havia uns espertos em Portugal que há cerca de um ano queriam abrir um debate sobre o criacionismo, mas tiveram azar e não encontraram interlocutores com paciência suficiente. Não percam a esperança, na Arábia Saudita e na Turquia o debate surgiu no bicentenário do aniversário de Darwin. Ler os artigo de desespero de Hamza Al-Mizaini (Arábia Saudita) e de Haluk Sahin (Turquia). Nós estamos solidários com os dois autores.

quinta-feira, novembro 13, 2008

É desesperante ser adorado por idiotas

"É desesperante ser adorado por idiotas" é a minha tradução do título do filme "C'est dur d'être aimé par des cons" de Daniel Leconte que ainda não estreou entre nós. Este filme conta o processo que envolveu o jornal francês Charlie Hebdo após a publicação de algumas das caricaturas de Maomé e de uma edição em que era representada na capa a figura de Maomé em desespero com os protestos dos integristas contra a publicação das mesmas caricaturas. O processo contra o Charlie Hebdo foi da iniciativa das elites religiosas muçulmanas, mais preocupadas em dar um peso muito maior a figurinhas de Maomé do que aos problemas sociais, sobretudo desemprego e guetização, que grassam nas diversas comunidades muçulmanas francesas.
"É desesperante ser adorado por idiotas" é uma expressão colocada na boca de Maomé, mas é na verdade uma expressão muito mais universal, poderia ser utilizada com o mesmo significado se substituíssemos Maomé por Cristo ou David quando pensamos nos cristãos evangélicos americanos, na Opus Dei ou nos judeus ortodoxos. Durante o processo, Philippe Val, o editor do jornal, não se cansou de fazer passar esta ideia e a presença de autoridades católicas ao lado das elites religiosas muçulmanas durante o processo só a veio reforçar.
Apesar da liberdade de expressão ter saído vitoriosa deste processo, este documentário mostra como este valor é frágil e está sujeito a ataques poderosos e violentos de grupos de pressão com pretensões muito próximas do totalitarismo.

Um filme dentro do filme
Vi este filme em Bruxelas no dia da sua estreia, numa sala onde um grupo de quatro jovens muito bem vestidos, certamente vindos directamente de uma mesquita sofisticada, tentaram realizar um número muito mal ensaiado contra a projecção do filme. Após alguns berros dos espectadores presentes na sala, acabaram por sair, não dispensado um sonoro estrondo ao fechar a porta da sala. Vive la liberté!

segunda-feira, março 10, 2008

Uma Grande Vitória da Laicidade

No contexto de forte apelo ao voto contra o PSOE por parte de importantes figuras do clero espanhol, como foi o caso do bispo Antonio Maria Rouco, por parte da Opus Dei e de outras organizações órfãs da Santa Inquisição e por parte ainda de grupos pró-franquistas, a vitória de Zapatero é também uma grande vitória do conceito de laicidade num país profundamente católico. Os espanhóis perceberam bem a diferença entre a prática religiosa, que se quer privada, e a prática política, que deve ser universal, para todos, para crentes e não crentes.

A má imagem que parte do clero espanhol transmitiu ao resto da Europa, durante as semanas da campanha eleitoral, uma imagem retrógrada, preconceituosa e de intromissão em assuntos públicos, ficou registada e servirá de exemplo futuro de como o clero não se deve comportar em sociedades modernas e laicas.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

O Fanatismo na Campanha Americana

O sítio internet Hucks Army concebido por apoiantes do candidato republicano Mike Huckabee ilustra bem o nível de fanatismo que envolve estas presidenciais americanas. Não foi apenas no Médio Oriente que a política externa da Administração Bush contribuiu para o aumento do fanatismo. Nos últimos anos, a Guerra no Iraque excitou as seitas e as mentes mais fanáticas dos Estados Unidos. Vários intelectuais e cientistas americanos têm-se manifestado em vão contra este clima de histeria de guerra santa, contra a propagação do criacionismo, a negação do Big Bang e do aquecimento global. A verdade é que uma boa parte da América ruma por estes caminhos de retrocesso civilizacional e infelizmente não é apenas Huckabee o seu arauto.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

O ligeiro problema da Opus Dei

Nesta passagem de um grandioso post, o Tiago Mendes toca num ponto muito importante que caracteriza na perfeição as incoerências do catolicismo à portuguesa, em particular a Opus Dei:

"dão-se alvíssaras a quem encontrar, naquilo que o André Azevedo Alves escreve há anos sobre o que quer que tenha uma dimensão social e humana, uma molécula que seja de amor, de compreensão ou de compaixão de inspiração cristã. Há ali uma incoerência que não percebo"

De facto, quem ouve ou lê alguns dos representantes mais mediáticos da Opus Dei fica com a sensação que o exemplo de humildade e simplicidade da vida de Cristo é completamente adulterado. Falam constantemente de riqueza com a boca cheia, quem os ouve julga que Cristo era rico e filho de ricos e falava aos ricos, e em vez de distribuir gratuitamente peixe aos pobres, apelava à diminuição dos impostos dos ricos. O consumismo e as posses materiais são encorajados por cima de toda a folha. É um discurso carregado de desprezo pelos excluídos, rotulados frequentemente de preguiçosos, apedrejando as Marias Madalenas (e Madalenos) deste mundo. A sua atitude anda muito mais próxima das descrições fantásticas do Mafarrico de tridente em punho do que propriamente da aura misericordiosa do Altíssimo.

domingo, novembro 25, 2007

Futebol e Fátima

A entrevista do bispo Januário Torgal Ferreira sobre o catolicismo à portuguesa é muito boa. Sem papas na língua, o bispo denuncia os desvios da nossa igreja desde a cumplicidade com Salazar ao desprezo pelos direitos humanos.

O artigo de Rui Reininho deste sábado no JN, "Ó = Ó", é uma delícia. Parece-me dedicado a um certo e determinado admirador de Pinochet.

domingo, novembro 18, 2007

Jesus Camp



"Jesus Camp" de Heidi Ewing and Rachel Grady é um documentário que questiona as práticas religiosas de uma seita protestante norte americana representativa da corrente espiritual com mais influência junto da actual Administração Bush. Toda a cartilha moralista da Casa Branca é expressa em "Jesus Camp" na sua forma mais radical, pelos mais puros entre os puros.

Na cena inicial, uma criancinha aprende por um livro escolar que o darwinismo não existe, foi tudo criado por Deus (obviamente), e que o aquecimento global se trata de uma conspiração inventada pelos cientistas (onde é que nós já ouvimos isto?). Aliás, são as crianças os actores principais deste filme, que nos mostra o dia-a-dia de um campo de férias organizado pela referida seita evangelista. A directora do campo de férias informa-nos que no Médio Oriente, "eles" ensinam as crianças desde tenra idade a manipular armas para combater o cristianismo e que "nós" deveríamos fazer melhor do que "eles". De Jesus, o verdadeiro, o da Bayer, o campo de férias não tem quase nada, o campo na verdade é um vulgar negócio onde as crianças são simultaneamente o trabalhador e o produto. Esse é verdadeiro segredo das escolas de lavagem ao cérebro que se vão tentando implantar um pouco por todo lado nos EUA. A não obrigatoriedade de sujeitar os alunos a exames nacionais com a mesma matéria e com um nível de dificuldade que exprima o rigor próprio do ano escolar que frequentam, abre portas a que surjam escolas de fanatismo religioso, onde os alunos pouco ou nada aprendem sobre ciência, cultura e literatura. A lavagem ao cérebro a que estão sujeitos serve unicamente para perpetuar um negócio perigoso que explora as fraquezas sentimentais dos cidadãos, em particular os das próprias crianças.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Do seminário vazio ao vazio do seminário

A não perder o texto "A igreja portuguesa e as ovelhas que fogem do redil" de João Miguel Tavares.
Pois é, o nosso clero foi a correr para o Vaticano para se queixar que a fé está em crise, que os seminários estão vazios, mas vieram de lá com o raspanete do vazio da prática religiosa à moda lusitana. Conclui muito bem o João: "por isso Fátima enche, enquanto as igrejas se esvaziam".

sexta-feira, outubro 19, 2007

A Desilusão de Deus

"A Desilusão de Deus" de Richard Dawkins não é apenas uma brilhante obra de divulgação científica, a obra de Dawkins é sobretudo uma obra oportuna do ponto de vista político. Numa época, em que o fundamentalismo religioso voltou a ganhar terreno, em particular através da progressão do islamismo no Médio Oriente e da ascensão ao poder nos EUA de uma das variantes mais fanáticas de protestantismo evangélico, Dawkins interpela-nos com toda a oportunidade sobre os perigos deste evidente retrocesso civilizacional.

Dawkins actualiza a reflexão científica sobre a existência de Deus através dos capítulos "A Hipótese da Existência de Deus" e "Argumentos para a Existência de Deus". A tendência humana para acreditar em entidades superiores ou espirituais é analisada no capítulo "Raízes da Religião" de uma forma muito interessante, do ponto de vista evolutivo da nossa espécie, tal como já o tinha feito Desmond Morris, embora as explicações não sejam totalmente coincidentes entre os dois autores. Ao longo do capítulo "Raízes da Moral", Dawkins desmonta a ideia que a moral só pode existir associada à religião. Através de múltiplos exemplos Dawkins recorda-nos que há mais de dois mil anos que as maiores atrocidades da nossa história têm sido perpetradas em nome de uma miríade de deuses. Neste capítulo Dawkins analisa o papel dos regimes laicos na pacificação da sociedade, sem deixar de caracterizar devidamente o estalinismo e o nazismo. Estaline como produto de um seminário católico e a espiritualidade maniqueísta de Hitler e a sua cumplicidade com o Vaticano.
A intolerância natural da religião é analisada por Dawkins, referindo-se este em particular à hostilidade à homossexualidade, ao modo de vida das sociedades mais abertas, à ciência e às religiões minoritárias. Apesar de Dawkins ser um aberto crítico das facções mais ortodoxas do judaísmo (tal como é crítico da Opus Dei, do catolicismo evangélico fundamentalista e do islamismo radical), Dawkins relembra-nos a história milenar da perseguição ao povo judeu, "os assassinos de Deus", como eram caracterizados.

Na minha opinião o melhor capítulo da obra é o capítulo dedicado à dificuldade que o cidadão comum tem em compreender os problemas cuja escala nos ultrapassa do ponto de vista espacial e do ponto de vista temporal. O muito grande ou muito pequeno, o Universo ou um quark não são conceitos intuitivos tendo em conta as nossas dimensões naturais e o espaço que cabe no nosso campo de visão. Os fenómenos naturais que duram alguns nanosegundos ou os milhares de milhões anos da vida de uma estrela dificilmente são assimilados pela maior parte das pessoas. Por exemplo, parte da dificuldade em compreender o fenómeno do aquecimento global tem origem no conflito entre a escala temporal facilmente intuitiva associada às recentes medições e a menos intuitiva escala temporal do ciclos de glaciações terrestres. A incompreensão da base científica associada a fenómenos cuja escala nos transcende são uma fonte abundante de espiritualismo e de sentimentos religiosos.

Outras passagens interessantes são o desmontar da infantilidade do Desenho Inteligente em poucas páginas, a análise ao negacionismo militante contra o darwinismo, a ciência moderna e o aquecimento global, bem como variadíssimas passagens deliciosas da bíblia onde se relatam genocídios, homicídios e abuso de mulheres e crianças em nome de Deus. Dawkins descreve ainda os evangelhos mais folclóricos, os que foram deixados de lado pelos últimos compiladores das escrituras, que descrevem Jesus Cristo em criança abusando dos seus poderes divinos como se fosse um mágico, ora transformando os seus colegas em cabras ora ajudando o seu pai nos trabalhos de carpintaria aumentando miraculosamente as dimensões das peças de madeira.

Livro Klepsýdra ***** (5 estrelas)

Principais ligações ateístas (e não só) fornecidas por Dawkins:
American Atheists
Atheist Alliance
Freedom From Religion Foundation
James Randi Educational Foundation

segunda-feira, outubro 15, 2007

Os assassinos de Deus… lembram-se?

Os assassinos de Deus eram os judeus, segundo a Igreja Católica. E durante séculos foram assassinados muitos judeus (ex: massacre de 4 mil judeus em Lisboa em 1516) e muitos homens que nem judeus eram em nome desta acusação divina.
Leiam agora esta passagem do Insurgente:

"Um povo que foi também vítima de um século que quis, por momentos, matar Deus"

O Insurgente faz frequentemente uso deste léxico, mas com o cuidado de não derrapar para as velhas perseguições (a actual conjuntura não permite), usa-o para as novas perseguições, a matilha anda sedenta de sangue, por exemplo o lobby judeu é substituído pelo lobby gay, acusado e julgado sumariamente com a mesma convicção, o mesmo fanatismo e a mesma intolerância de outrora.

É paradoxal alguém ser acusado de matar algo que não existe, mais paradoxal é quando se mata os que são acusados de matar algo que não existe, é paradoxal mas foi um dos desportos preferidos da Igreja Católica durante séculos...