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sexta-feira, dezembro 14, 2007

A direita do texto do Tiago Mendes

Tentam abafar a coisa, mas o que é certo é que texto "Dizer Basta" do Tiago Mendes mete o dedo na ferida da direita portuguesa. Não é um simples texto dirigido a uma pessoa. A carapuça serviu a muita gente e isso notou-se bem na forma como alguns tentaram minimizar o texto do Tiago. É "chato", mas de uma forma destemida o Tiago lança meia dúzia de questões muito certeiras que ainda fazem da direita portuguesa umas das mais conservadoras e ortodoxas de toda a Europa. Há mais domínios (ambiente, cultura, ciência, etc.) que caracterizam negativamente a nossa direita no panorama das direitas europeias, mas as questões que o Tiago aborda já são suficientemente representativas do problema:

- O catolicismo à portuguesa, centrado na nossa senhora de Fátima, piscando o olho ao desenho inteligente e a todo o tipo de pseudo-catolicismo;
- O cocktail Opus Dei-ultraliberalismo onde a "dimensão social e humana, uma molécula que seja de amor, de compreensão ou de compaixão de inspiração cristã [sic]" estão ausentes;
- A condescendência com o Salazarismo;
- Um racismo velado e muito pobrezinho: é só ler o chorrilho de asneiras e os textos ignorantes que se escreveram sobre as declarações de Watson (cuja reacção foi correcta, pedindo desculpas e sublinhando que as suas declarações não tinham qualquer base científica);
- A perseguição ao "lobby gay". Sobre este assunto há matéria abundante muito mal intencionada. Percebe-se que anda por aí perdido muito tique da Santa Inquisição.

Por mim, estou grato que exista uma direita como a do Tiago Mendes, do Carlos Amorim, do Gabriel Silva do Pedro Lomba, do Vasco Rato, do blogue Mar Salgado, entre outros. Poupa-nos a seca (ser seca é bem pior que ser chato) de discutir sempre o mesmo assunto, assuntos mais do que resolvidos e as mesmas obsessões conservadoras de há mais de 50 anos atrás.

segunda-feira, outubro 08, 2007

A condescendência da direita com o salazarismo II

A excitação da extrema-direita que teve como resultado o ataque ao cimitério judeu e as ameaças à magistrada Cândida Vilar, foi fortemente catalizada pelas declarações recentes de Maria José Nogueira Pinto sobre Salazar e pela defesa trapalhona de Pacheco Pereira do hooligan Mário Machado. É no que dá brincar com o fogo...

quarta-feira, outubro 03, 2007

A condescendência da direita com o tele-lixo

Exceptuando os canais estatais, a televisão portuguesa é de direita, reflecte um modelo e uma filosofia de direita que mesmo os próprios canais estatais têm uma forte tendência a copiar (sublinho a palavra copiar). Esse modelo de televisão segue a lógica do mercado, tudo é uma mercadoria e as regras aplicam-se por igual a toda a mercadoria, quer a mercadoria seja a Maria João Pires quer seja a Ronalda ou o Zé Cabra. Está ausente qualquer noção de serviço público, a noção é mais de servicinho, de servicinho aos patrocinadores claro! Já todos ouvimos a máxima da boca de Rangel, de Balsemão & companhia de que a televisão serve para "dar às pessoas o que elas querem ver". O problema é que na prática não é bem isso que se passa, na prática a televisão "dá às pessoas o que os patrocinadores querem que elas vejam".

O resultado desta filosofia é uma degradação completa do panorama televisivo dos canais que transmitem em sinal aberto. A SIC e a TVI já não estão com meias medidas, a dose servida é telenovela e futebol em contínuo em horário nobre. Os telejornais duram mais de uma hora para oferecer um pobre conteúdo informativo e um excesso de sensacionalismo. Treinos de futebol, histórias de faca e alguidar, todo o tipo de dramas que envolve criancinhas, jantaradas de clubes, de partidos e inúmeros directos inúteis onde entram reformados meio mirones meio testemunhas de não-sei-o-quê, que viram, viram não, ouviram ou disseram-lhes não-sei-o-quê, são o grosso do conteúdo informativo. Os telejornais sérios dos nossos parceiros europeus duram meia hora onde a informação do país e do mundo é mais desenvolvida, os directos são raríssmos, e os fait-divers e o desporto resumem-se aos 5 minutos finais. A excepção ao futebol e às telenovelas são os programas de variedades da vida real, em que jovens mais ou menos famosos coçam as virilhas durante horas a fio enquanto ganham rios de massa. São sem dúvida programas exemplares para os jovens do país com o pior nível educacional da Europa. Em horário nobre não há mais nada para oferecer para além disto...

Este é um modelo de televisão sem diversidade, de uma aridez cultural absoluta. Em todos os países da Europa há tele-lixo, mas em nenhum país os canais a emitir em sinal aberto oferecem tele-lixo na proporção em que nos é servida em Portugal. Na França, no Reino Unido, na Alemanha, os canais estatais e privados gratuitos transmitem reportagens, documentários, debates e divulgação científica em horário nobre, os cidadãos desses países estão minimamente informados sobre a política, a economia, a justiça, a ciência, o país e o mundo. No nosso país, os tele-dependentes sem hábitos de leitura e com um nível educacional sofrível já perderam o fio à meada nestas matérias, só com futebol e telenovelas não se vai lá, têm muita dificuldade em perceber os novos tempos.

Sendo Portugal um dos países onde mais se vê televisão considero lamentável a calma com que a direita deixou as coisas chegarem a este ponto. No entanto, a passada semana, todos concordaram com a atitude de Santana Lopes na SIC Notícias, mas quem é que tem compactuado com o problema por ele apontado? E não vale a pena dizer que o problema é das televisões e não da direita, porque Balsemão e ex-directores da TVI estiveram ou continuam muito ligados às altas esferas do PSD e do PP. Para cúmulo a grande cruzada televisiva da direita dos últimos tempos foi a censura do programa "Acontece" do canal 2. Conseguidos os objectivos, o tele-lixo foi ganhando espaço sem que a reacção da direita fosse proporcional à cruzada contra o "Acontece". Leiam o que os principais cronistas de direita escreveram contra o "Acontece" e comparem com o que se tem escrito sobre o tele-lixo, muitos deles chegam ao ponto de desculpabilizar e justificar esse tipo de programação. Um exemplo deste tipo de discurso é este texto de Pacheco Pereira que critica países onde a difusão cultural funciona muito bem e onde a cultura e o nível educacional dos cidadãos é elevadíssimo. No texto, o autor defende uma filmografia de entretenimento contra a filmografia de matriz mais cultural a que é dada prioridade na Europa. Dá o exemplo da Guerra das Estrelas, mas poderia ser o Harry Poter, ou um Walt Disney, que são no fundo os filmes que fazem parte do universo das escolhas dos consumidores de tele-lixo.

quarta-feira, setembro 19, 2007

A condescendência da direita com o Salazarismo

Não dei muita importância ao facto de os resquícios da extrema-direita em Portugal terem gasto rios de dinheiro a comprar cartões de telemóvel e a ligar de tudo o que era aparelho telefónico para eleger Salazar a grande português. Se isto é o melhor que conseguem fazer em democracia, estamos nós muito bem. Também não dei muita importância ao facto de os antigos bufos (eram mais de 100 mil), ultras, militantes da União Nacional e todos os que comiam do tacho e viviam dos privilégios do Estado Novo terem acompanhado a iniciativa. Tal como já esperava que votassem no ditador todos os que ainda acham que Angola deveria ser nossa, muitos saudosistas, muita gente inadaptada à sociedade aberta em que vivemos hoje.

O que não acho irrelevante é Maria José Nogueira Pinto (MJNP) ter votado em Salazar. MJNP teve um acesso privilegiado à educação, cresceu em berço de ouro, não tem propriamente o perfil intelectual de um bufo reformado do regime ou de um hooligan de extrema-direita. No entanto, considero que perante aquele concurso, e apesar de ser apenas um concurso, o voto de MJNP é do ponto de vista intelectual, um acto de hooliganismo histórico. Perante um leque de ilustres figuras da nossa história, de Camões ao Infante D. Henrique, MJNP preferiu uma personagem senil que contribuiu fortemente para que em 1974 fossemos o país com a maior taxa de analfabetismo, com a pior escola, a pior universidade e uma das taxas de mortalidade infantil mais elevadas da Europa. É um acto de hooliganismo histórico tão potente do ponto de vista simbólico como queimar "Os Lusíadas" ou colocar uma bomba na Torre de Belém. Para além disso é um acto revela alguma ignorância, pois Salazar sempre venerou algumas das figuras do concurso que MJNP desprezou. Um dos ex-libris do Estado Novo, o Padrão dos Descobrimento, dá todo o destaque ao Infante D. Henrique e não ao próprio Salazar. E não é por modéstia de Salazar, é porque Salazar sabia que não chegava aos calcanhares do Infante. Só um salazarista trapalhão (que é a maior parte dos que restam) é que envereda pelo contra-senso de votar em Salazar contra as figuras que o próprio sempre glorificou como exemplares para a pátria.

A dificuldade que a direita tem em sublimar a pesada herança do passado salazarista explica muitas fugas para a frente no debate político, uma das mais representativas é a deste texto de Pacheco Pereira, muito bem desmontada pelo Rui Tavares. O atraso do nosso país deve-se sobretudo ao falhanço de uma ideologia de direita e isso é incómodo mesmo para os políticos de direita mais críticos do Estado Novo, como é o caso de Pacheco Pereira. Ora, o resultado das referidas fugas para frente, mais não fazem do que transmitir uma mensagem de condescendência em relação ao salazarismo, colocam no mesmo plano, valores que não estão no mesmo plano: a tolerância e a xenofobia, o autoritarismo e a democracia, o provincianismo e o multiculturalismo, etc. Ao colocar tudo no mesmo plano, tal como se pode ler no referido artigo de Pacheco Pereira, cria-se uma falsa ideia de que todos partem da mesma base para fazer política, sem que a difícil relação com o passado salazarista se resolva definitivamente. É por isso que MJNP não tem problemas em votar em Salazar, para ela é tudo igual, ou quase igual: autoritarismo e democracia.

PS- Este simpático texto de Pacheco Pereira sobre o hooligan Mário Machado (chamar-lhe skinhead é simpático, dá-lhe o estatuto cultural que ele não tem) é mais uma acha para a mesma fogueira.