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quinta-feira, maio 03, 2012

sexta-feira, março 02, 2012

A Figueira no Mapa

A minha coluna no jornal As Beiras de 23 de Fevereiro de 2012 :

Na capa do magnífico Atlas Maior de Joan Blaeu de 1665 da Taschen (2010) identificamos uma secção da Costa de Prata. Em destaque o Cabo Mondego, ao lado do qual identificamos localidades como Buarcos, Santa Catarina, Figueira, Tavarede ou Lavos. O interessantíssimo jogo de computador Napoleão da Sega (2010), na sua extensão dedicada à Campanha Peninsular tem como principal porto a Figueira da Foz, onde se podem construir estaleiros e uma frota naval.
Ironicamente, o desejo de Santana Lopes em “colocar a Figueira no Mapa” não se concretizou graças a palmeiras e a revistas cor-de-rosa. Tanto o Atlas como o jogo Napoleão têm uma distribuição planetária graças à erudição de terceiros, de quem não subestimou a nossa geografia, cultura, arquitetura e história.

quarta-feira, janeiro 18, 2012

Beigbeder um escritor quase não traduzido

Na sua edição de Dezembro a revista Ler dedica uma secção a escritores não traduzidos para português, na sequência de mais um Nobel da Literatura atribuído a um escritor praticamente desprezado pelas nossas editoras. Preparava-me para acrescentar Beigbeder a essa lista, quando descubro que há 10 anos atrás a Editorial Presença publicou o original 99 Francs com o título "14,99€ - A Outra Face da Moeda". O seu estilo auto-ficcional, libertino e intelectual é lido e traduzido nos países balticos, Rússia e na conservadora Turquia. A sua obra já deu origem a dois filmes, o novíssimo "L'amour dure trois ans" e o espirituoso "99 Francs" com Jean Dujardin. Mas Frédéric Beigbeder apresenta alguns inconvenientes para os nossos editores: não é marialvista, não escreve sobre sopas de peixe com leite de mamas, não se leva a sério e goza a fundo consigo mesmo (esta o macho luso não perdoa). É pena, passa-nos ao lado a prosa de um escritor que descreve intencionalmente o seu tempo, que vive a fundo o seu tempo, que gosta do seu tempo, que descreve o mundanismo dos nossos dias, uma espécie de Balzac do século XXI, enfim um escritor que daqui a 200 anos será apreciado por transmitir um retrato fiel das vivências da nossa geração.

segunda-feira, novembro 21, 2011

A História do Ciganinho Chico

"A História do Ciganinho Chico", livro para crianças da autoria do amigo Bruno Gonçalves, foi tema das minhas crónicas do programa "Pontos de Vista" da Rádio Clube Foz do Mondego. As ilustrações são de Tiago Moleano Gomes e a edição do Centro de Estudos Ciganos.

quinta-feira, novembro 17, 2011

Leitura recomendada ao primeiro-ministro

Recomendo ao primeiro-ministro, em honrosa campanha de estende-mão em Angola, a leitura desta obra de Rafael Marques. Chama-se "Diamantes de Sangue" (Tinta da China, 2011) e a sinopse narra o seguinte:

"[Rafael Marques] é um dos principais responsáveis por denunciar e divulgar os esquemas de corrupção que envolvem as mais altas esferas do poder em Angola, bem como as empresas e entidades estrangeiras que com ele negoceiam. Na região do Cuango, a situação é trágica. Para benefício dos que exploram os diamantes, as populações são mantidas em condições de quase escravatura, sendo torturadas, assassinadas, roubadas e impedidas de manter quaisquer actividades de auto-subsistência. As autoridades e o governo ignoram os crimes, as forças armadas e policiais são não só coniventes como também protagonistas desses crimes."

Há cerca de 10 anos Bernard-Henri Lévy em "Réflexions dur la Guerre" denunciava a exploração de diamantes nas mesmas regiões, a mesma violência e a mesma tortura, mas curiosamente perpetrada em estreita colaboração entre os homens da UNITA e MPLA, que dividiam irmanmente as margens dos rios ricos em diamantes, embebedavam-se juntos e frequentavam os mesmos bordéis. Entretanto o dinheiro conseguido com a venda desses diamantes era usado para comprar armas distribuídas no resto do país para se matarem uns aos outros.

Isto fica bem ao "Obama de Massamá" e a um ministro dos negócios estrangeiros acabadinho de chegar da Venezuela. Para onde irá estender a mão a seguir? Arábia Saudita? Coreia do Norte? China?...

quinta-feira, outubro 06, 2011

A angústia do leitor de Bolaño após a página 300

Depois de ler "La carte et le territoire" de Houellebecq, ler "2666" de Bolaño foi como começar a ler as páginas amarelas. Percebi porque é que os editores não respeitaram a vontade póstuma de Bolaño em dividir a obra em pequenas edições espaçadas no tempo. Pessoalmente, se comprasse a primeira não compraria mais nenhuma. A primeira história de 2666, apesar de tudo, a mais interessante até à página 300 (só faltam 700) mergulha-nos numa caça ao tesouro estimulante em busca do escritor Benno von Archimboldi. Mas é a única coisa estimulante, as personagens são autênticas figuras geométricas bidimensionais, sem espessura, triângulos que interceptam os seus vértices e as suas arestas com quadrados e losangos. O vernáculo é despropositado, quiçá mal traduzido (joder e follar significam coisas distintas em castelhano). As passagens sobre sexo são uma merda, ao nível luso. Nesse aspecto, o Chile é farinha da mesma massa, os mesmos complexos, o mesmo marialvismo velado, etc.

Quando li a nota sobre o autor que referia a sua adesão a uma nova geração de autores sul-americanos anti-Garcia Marquez, fiquei entusiasmado. Mas agora não sei se vou aguentar mais 700 páginas de xaropada Roberto Bolaño. Se alguma alma caridosa que já leu 2666 pretender motivar-me para seguir até à última página, use a caixa de comentários.

terça-feira, setembro 27, 2011

The Third Industrial Revolution de Jeremy Rifkin

Jeremy Rifkin é um dos meus pensadores de eleição. Dirige a Foundation on Economic Trends, foi conselheiro de Prodi na Comissão Europeia e escreveu obras muito interessantes como "O Sonho Europeu" e "A Economia do Hidrogénio" que aqui serviram para variados textos.
Hoje Rifkin lançou um novo livro "The Third Industrial Revolution - How Lateral Power Is Transforming Energy, the Economy, and the World". A minha biblioteca já me dirigiu um ultimato para adquirir a nova obra do senhor Jeremy.

quinta-feira, setembro 22, 2011

A Figueira no Mapa



Na capa deste magnífico deste Atlas Maior de Joan Blaeu de 1665, reeditado pela Taschen, identificamos uma secção da nossa costa. Em destaque o Cabo Mondego. Ao lado desfilam localidades com nomes familiares: Buarcos, Santa Catarina, Figueira, Tavarede, Lavos, etc.

Publicações figueirenses



Os dois livros que sugiro na minha crónica "Pontos de Vista desta semana.
É com especial prazer que divulgo o trabalho do Nuno Camarneiro, um ex-autor aqui da casa.

segunda-feira, agosto 01, 2011

Houellebecq, Beigbeder e Angot

Michel Houellebecq, Frédéric Beigbeder e Christine Angot cruzam-se nos livros um dos outros em registos autoficcionais com estilos muito diversos. Raramente são simpáticos uns com os outros. Ao ler "La carte et le territoire", o prémio Goncourt de 2011 constatei que involuntariamente os três escritores formam uma cadeia literária viva que caracteriza uma certa Paris e uma certa França actuais. Os três escritores conseguem encaixar a aparente futilidade e banalidade dos gestos e dos hábitos quotidianos numa escrita inteligente, mas sem super-heróis. Beigbeder é um barómetro das discotecas e da vida mundana, Angot descreve-nos a suas idas ao quiosque e Houellebecq não hesita em partilhar os suas aventuras através de estradas bordejadas das distracções modernas.

Tal como refere o José Mário Silva numa das últimas edições da revista Ler, falta na literatura portuguesa quem se atreva a descrever as vivências do quotidiano, os cafés que frequentam, os jornais que lêem ou fazendo saltar para o meio das páginas personagens reais com quem se cruza no autocarro e na farmácia. Falta sobretudo um Beigbeder. Não é por isso de estranhar que este autor (tal como Angot) não tenham obra publicada em Portugal.

segunda-feira, junho 27, 2011

Фёдор Достоéвский

O que mais me impressionou nas minhas leituras de Dostoiévski é a maturidade da escrita. Há uma ingenuidade própria do ambiente da época, do século XIX, que se encontra inclusivamente na escrita de Emile Zola, Eça de Queirós ou Oscar Wilde. Mas em Dostoiévski, o olhar crítico sobre a sociedade e os indivíduos, o recuo com que é aplicado, é quase inacreditável para quem não atravessou o miolo do século XX.

Foram dias muito especiais em São Petersburgo, a estadia nas ruas onde se desenrolou Crime e Castigo, não é todos os dias que se pode ser vizinho de Raskólnikov e dormir a dois passos da casa onde Aliona e Lizaveta Ivanovna foram assassinadas, e da porta, daquela porta, atrás da qual Raskólnikov ainda se escondeu. Essa porta, tal como o apartamento, existiu e ainda existe, pode servir para esconder hipotéticos assassinos do século XXI.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Como se afundou a Islândia

Como se de um romance se tratasse, em "Meltdown Iceland", Roger Boyes (Bloomsbury, 2009) conta-nos a história da ascensão meteórica e queda da Islândia. Essa história está intimamente ligada à do primeiro-ministro que mais tempo esteve em funções (de 1991 a 2004): David Oddsson. Em 1984, aquando de um debate televisivo com a participação de Milton Friedman, Oddsson teve uma revelação divina: a modernidade passava pelas políticas de Reagan e Thatcher.

Nos anos 80, a Islândia era uma sociedade socialista que investia fortemente na saúde e na educação, a taxa de mortalidade infantil era das mais baixas do mundo, bem como o número de habitantes por médico, o nível educacional era dos mais elevados do planeta e o mercado de trabalho andava próximo do pleno emprego. Estavam criadas as condições para que uma nova geração mais ambiciosa desse início a uma festa rija ao som do trio: Friedman, Thatcher e Reagan. Assim que chega ao poder, Oddsson privatiza tudo o que pode. Quem tinha dinheiro e estava no sítio certo na hora certa, independentemente de ser incompetente ou charlatão, partia com um avanço esmagador e dominador num horizonte de décadas. Estávamos em 1991. Formam-se logo nessa altura as primeiras máfias económicas e os primeiros monopólios perversos, graças à ausência de critérios para as privatizações. Uma política de estado mínimo avessa a intervir no sector privado e a desregulação radical dos mercados transformou a Islândia da noite para o dia. Em pouco tempo, o objectivo principal de pescadores e agricultores era apostar nos mercados sobre o sucesso ou falhanço da sua própria produção. Os objectivos das actividades em si passaram para um plano secundário. A banca expandiu-se para lá da ilha, contraindo dívida atrás de dívida, compravam-se lojas de luxo em Londres, cadeias de supermercados na Dinamarca e instituições financeiras na Holanda. Os jovens licenciados em gestão tinham emprego imediato na banca, onde começavam a receber avultados bónus ao fim de pouco mais de um mês de trabalho.

A Islândia era uma ilha resplandecente banhada por um mar de rosas. A Islândia maravilhava Harvard, o país crescia cerca de 7% ao ano, a Moody's mantinha a notação do país sempre lá em cima, os banqueiros liam a Arte da Guerra de Sun Tzu tomando-se por guerreiros vikings dos tempos modernos e mais importante que tudo os reguladores dormiam com os banqueiros - Oddsson foi governador do Banco da Islândia a partir de 2004.

Os três principais bancos islandeses endividaram-se cerca de 8 vezes o PIB da Islândia, muito para lá da capacidade de resposta do Banco da Islândia. Quando os credores britânicos pediram o seu dinheiro de volta, orgulhosa e arrogantemente o governo islandês do partido de Oddsson respondeu que só garantia os depósitos dos islandeses. Ironicamente, o governo britânico accionou de imediato uma lei anti-terrorismo aprovada a pensar nos movimentos financeiros da Al-Qaeda, para congelar todos os bens da banca islandesa no Reino Unido. Abriu-se o alçapão e a Islândia mergulhou no vazio. A política anti-União Europeia, a aposta numa moeda nacional sem dimensão para jogar no mercado global (vários artigos especializados alertaram a Islândia para esse risco) deixou a Islândia isolada no meio do Atlântico, Reagan, Thatcher ou Friedman já tinham saído de cena, sem aliados, sem estruturas económicas a quem pedir auxílio, a Islândia bateu no fundo. Nas últimas páginas, Roger Boyes descreve um país em vésperas das eleições de 2009, em estado de choque, com uma dívida per capita de 400 milhões de dólares, ou seja cada família comportava uma dívida média de 1,6 mil milhões de dólares. Boyes descreve um zombie económico a viver de esmolas da Rússia, à mercê da caridade de banqueiros russos manhosos.


Lê-se no cartaz: David (Oddsson) Bin Laden.

terça-feira, novembro 16, 2010

Prémio Goncourt para Houellebecq

Michel Houellebecq é um escritor especialmente apreciado nesta casa, por isso o Prémio Goncourt de 2010 é aqui aplaudido sonoramente: Bravo! Bravo!
Em Michel Houellebecq gosto da sua escrita sobre uma temática em que os escritores portugueses são péssimos: a sexualidade. Houellebecq escreve bem sobre mulheres, amantes, taras, situações embaraçosas, no limite do aceitável, sem ser javardo nem marialvista.
Gosto também daquelas personagens principais que não se levam a sério. Gosto da sua melancolia. E acho piada ao seu positivismo atabalhoado, um positivismo à moda antiga. Gosto dos seus ensaios pelos carreiros da ficção científica, bem melhores do que a aborrecida ficção científica que se pratica nos dias que correm.

terça-feira, julho 20, 2010

Do Prémio Nobel ao Prémio Lopes

"O governo que peça dinheiro emprestado e que o aplique em projectos de investimento público - se possível com fins úteis, mas isto é uma consideração secundária - para assim, criar postos de trabalho que tornarão as pessoas mais dispostas ao consumo o que levará à criação de mais emprego, etc.
A Grande Depressão nos EUA foi finalmente vencida graças a um programa maciço de obras públicas financiado por um défice estatal, conhecido pelo nome de II Guerra Mundial."
Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia de 2008 em "O Regresso da Economia da Depressão e a Actual Crise", Ed. Presença, pag. 76.

"Cortar na despesa é inexorável (...) A cru. Sem explicar nada. Ou melhor, explicando que ou é assim ou não é. Não querem, então não se faz"
Ernâni Lopes nas jornadas parlamentares do PSD

sexta-feira, julho 16, 2010

Alma Mater

Foi inaugurada a Alma Mater, a Biblioteca Digital de Fundo Antigo da Universidade de Coimbra, uma excelente iniciativa coordenada pelo professor Carlos Fiolhais e um verdadeiro serviço prestado a todos nós.

quinta-feira, maio 20, 2010

Mordomias da Alta Finança II

"Dixon [proprietário da Vernon Savings] liked the beach, so he had Vernon Savings buy spectacular, multimillion-dollar homes on the beach in Southern California, and then spend tens of thousands of dollars keeping the homes in fresh flowers. One does not live a full life by the beach alone, so Dixon also had Vernon buy a chalet, near former President Ford, at one of the nation's top ski resorts in Colorado. Naturally, one wishes to be able to join such amenities without plebeian concerns such as baggage screening or possibly having to sit next to a screaming child. Thus was born Vernon's air force. Once one has a fleet of private jets, one discovers that they have little to do most of the time. The answer is to provide them, often (illegally) without charge, to politicians."
"The Best Way to Rob a Bank Is to Own One", William K. Black, University of Texas Press, 2005, pag. 108

Os cortes nos vossos salários, nas vossas pensões e no vosso nível de vida vão servir para pagar isto.

quinta-feira, abril 01, 2010

A origem do mal

"This book arose from my concerns that we had failed to learn the lessons of the savings and loan debacle and that the failure meant that we walked blind into the ongoing wave of control frauds. The defrauders use companies as both sword and shield. They have shown themselves capable of fooling the most sophisticated market participants and academic experts. They are financial superpredators who use accounting fraud as a weapon and a shield against prosecution"

William K. Black no prefácio de "The Best Way to Rob a Bank Is to Own One", University of Texas Press, 2005