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segunda-feira, janeiro 23, 2012

Guimarães cidade quê?

Não existe documentação que demonstre a residência de Afonso Henriques em Guimarães. Pela documentação que nos chega até hoje o nascimento do nosso primeiro rei ocorreu muito provavelmente em Viseu ou nas suas imediações ("D. Afonso Henriques" de José Mattoso, Temas & Debates, pag. 25-27). Dona Teresa datou e assinou em Viseu vários documento antes e depois do nascimento de Afonso I. É pouco credível que uma mulher grávida na Idade Média se deslocasse 150 km a partir de Viseu para dar à luz em Guimarães e regressasse imediatamente a Viseu. A sede do poder do Condado de Portucalense foi transferida para Coimbra já durante a época do Conde D. Henrique, o pai do primeiro rei. Todos os actos de Afonso Henriques que estão na origem da transformação do Condado em Reino ocorrem tendo o Fundador já residência indubitável em Coimbra. Ler "D. Afonso Henriques" de José Mattoso, cap. VI pag. 105-111, sobre a importância histórica (palavras de José Mattoso) da localização da corte de Afonso I em Coimbra.

Perante factos e dúvidas, irrita as certezas que continuam a ser propagadas de que Guimarães é a "cidade berço". Certezas que não só contrariam a documentação analisada, como cada vez mais são difíceis de casar com os territórios de dúvida da biografia de Afonso Henriques. Este fim-de-semana por ocasião das comemorações de Guimarães Capital da Cultura, mais uma vez foi dado um péssimo exemplo a nível institucional ao continuar a alimentar-se a lenda da Guimarães Cidade Berço. É lamentável numa sociedade baseada no conhecimento que se continue a substituir o trabalho resultante da investigação cuidada da nossa história por lendas sentimentais.

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Pesados cortes na ciência


Esta semana foram anunciados cortes de 39% no orçamento para 2012 da Fundação para a Ciência e a Tecnologia - instituição que tem a seu cargo a atribuição de bolsas individuais e de projetos científicos. Ao contrário do que foi anunciado estamos claramente perante um orçamento desadequado à continuidade de uma investigação de qualidade e em quantidade para responder às exigências das nossas empresas e da indústria nacional. Um orçamento tão reduzido limitar-se-á a financiar algumas ilhas que perderão a ligação aos restantes grupos de investigação perdendo-se massa crítica para concorrer a projetos internacionais e para manter a participação em instituições internacionais como o ESO, o CERN, a ESA ou o Acelerador Europeu de Sincrotrão. Desta forma, as consequências deste corte contrariam o apelo do governo a concorrer a projetos europeus para compensar a escassez de financiamento.

Os projetos europeus têm taxas de aprovação inferiores a 10%, onde primam centros de investigação dos países europeus de maior dimensão onde existem autênticas agências apenas dedicadas à redação dos extensos e herméticos formulários europeus de candidatura. Se esta é a via escolhida, então no mínimo o ministério deveria promover a criação de gabinetes dedicados à redação de projetos europeus. Com o amadorismo que reina na máquina burocrática da maior parte das nossas instituições muita investigação de qualidade ficará logo pelo caminho na altura do preenchimento do formulário.

O mais perturbador é a absoluta falta de estratégia do ministério num momento de profunda crise, momento em que a ciência poderia ser um dos principais motores para sair da crise. Enuncia-se como estratégia ministerial a promoção da excelência. Promover a excelência não é estratégia nenhuma em si, qualquer ministério da ciência sério procurará promover a excelência. Para onde vai a ciência nacional? Como a investigação realizada nas universidades poderá ser mais eficaz na sua ligação à sociedade e ao tecido empresarial? Qual a importância a dar à investigação fundamental e à inovação? Como promover a investigação nas empresas privadas? São questões que ficam sem resposta. Há uma abstração total do potencial científico do país, fica-se com a sensação que a investigação é um fardo para este governo e só não se desiste por completo de financiar a ciência porque isso teria repercussões internacionais sérias, inclusivamente no seio da comissão tripartida que nos está a emprestar dinheiro.
A governação do país vai numa direção e no meio científico cada um segue para seu lado, em passeio aleatório.

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Sahida


No que se define hoje como território nacional já se falou celta, latim, galego-português e apenas no reinado de Afonso II se escreveu o primeiro documento oficial em português. Em 1882, no ano em que foi colocada esta placa junto ao Elevador do Bom Jesus de Braga era assim que se escrevia saída: sahida. O primeiro acordo ortográfico entre a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras entrou em vigor em 1911, tendo eliminado o h em posição medial do verbo sair, no seu capítulo III:

III - [letra h em posição medial]
É eliminada a letra h do interior de todos os vocábulos portugueses, com execpção do seu emprêgo, como sinal diacrítico, nas combinações ch, lh, nh, com os valores que as seguintes palavras exemplificam, e únicamente para êles: chave, malha, manha. Portanto, escrever-se hão, sem o h, inibir, exortar, etc., e, semelhantemente, sair, coerente, aí, proìbir, etc.


O novo acordo começou a ser trabalhado em 1985, há mais de 25 anos. Neste acordo mudam de grafia 2 703 palavras. No Brasil mudam 1254 (~ 1% do total das palavras) e perde-se um acento: o trema. Nos restantes países de expressão portuguesa mudam 2 264 palavras (cerca de 1,75% do total).
A partir de agora escrever-se-á por aqui segundo as regras do novo acordo ortográfico. Ouvi e li especialistas, uns contra outros a favor. A favor ouvi argumentação muito bem fundamentada e contra o acordo ouvi sobretudo muita descarga de fígado contra o multiculturalismo, o "dantes é que era bom" e histórias de sofisticada intriga internacional. Pessoalmente preferia que a nossa língua adotasse regras semelhantes ao castelhano, italiano, alemão e línguas eslavas, em que não há ambiguidades entre a escrita e a fonética. Demos um passo nessa direção mas ainda estamos longe. Do ponto de vista estético tenho mais reservas, faz-me confusão escrever ótimo em vez de óptimo, apesar de já ter interiorizado quando escrevo em língua italiana - a herdeira direta da nossa língua mãe, o latim - a escrita de ottimo e de Egitto. Dou razão a um amigo italiano especialista em latinas, quando me relembra que o português e o romeno são as línguas latinas mais conservadoras.

terça-feira, novembro 22, 2011

Dia de Portugal e das Lendas Portuguesas

Nesta discussão dos feriados o Tiago Mendes propõe-nos o Dia da Fundação, acrescenta o Tiago "Este novo feriado - que poderia também ser o "Dia de Portugal" - seria comemorado a 5 de Outubro, celebrando a assinatura do Tratado de Zamora (1143 - a bandeira supra é a então vigente)". Quando li "Tratado de Zamora" e apreciei a bandeira "vigente", percebi logo o cuidado com que tinha sido elaborada a proposta. Foi à velocidade de um clique que o Tiago copiou a bandeira na entrada da wikipedia sobre o "Tratado de Zamora", onde se fala inclusivamente da lendária Batalha de Ourique como se esta tivesse realmente ocorrido.

Não existe qualquer registo de um Tratado de Zamora em 1143, bem como a independência de Portugal não tem data marcada. Fomo-nos tornando independentes entre 1128 (Batalha de São Mamede) e 1173 (Bula Manifestis Probatum). Tal como se lê nesta clarificadora entrada do João Cardoso, existiam documentos anteriores ao Acordo de Zamora em que Afonso Henriques era designado como Rei de Portugal (1132, 1135 e 1139). Também a sua mãe é designada rainha em vários documentos descrevendo a sua época. A bandeira da entrada da wikipedia não é a vigente na época, nem sequer é certo se havia UMA bandeira.

O que mais irrita neste tipo de propostas não é a forma velada com que se tenta apagar o 25 de Abril. O que irrita é a propagação de lendas que até 1974 constavam dos textos escolares como verdades sagradas, a Batalha de Ourique, Guimarães cidade berço, o Tratado de Zamora, o entalanço do Martim Moniz, etc., numa época em que os meios de comunicação são sofisticadíssimos e existe abundante literatura actualizada sobre a história de Portugal ("Dicionário de História de Portugal" de Joel Serrão, "D. Afonso Henriques" de José Mattoso e "O essencial sobre a Formação da Nacionalidade" de José Mattoso).

sexta-feira, outubro 07, 2011

domingo, junho 19, 2011

Manifesto pela Ciência

(publicado no portal Esquerda.net)

O Movimento Ciência Portugal – movimento de cientistas e empreendedores que consideram que a investigação científica é um motor de desenvolvimento económico e social do país – lançou um manifesto cujo o objectivo é fazer da ciência e da tecnologia uma prioridade do debate político sobre o desenvolvimento do país.

O movimento sublinha os bons resultados decorrentes do investimento realizados nos últimos anos em recursos humanos e na investigação, em particular a criação de numerosas novas empresas e emprego de base científica e tecnológica. O movimento apela à continuidade do investimento enquadrado numa estratégia clara de longo prazo, relembrando a importância da ciência para ultrapassar a crise e o significativo impacto económico e social que tiveram medidas semelhantes implementadas em países de dimensão semelhante ao nosso. Neste sentido o movimento enumera uma série de ideias expressas num manifesto intitulado “Ciência - fonte de ideias para inovar Portugal”.

Esta é uma iniciativa louvável de investigadores e de empresários, numa altura de mudança governativa em que ainda não foi esquecida a incipiente política científica do último governo PSD-CDS. O primeiro sinal dado por este novo governo ao fundir os ministérios da ciência e da educação não indicia nada de bom. O populismo que pretende fazer poupanças cortando no número de ministérios, não está apenas a fazer cortes a que correspondem montantes insignificantes como também poderá comprometer o bom funcionamento das instituições que regulam a ciência, com consequências económicas negativas largamente superiores às pretensas poupanças.

É de lamentar a falta de importância que se dá à ciência, sobretudo quando se sabe que a aposta na ciência foi a receita para muitos países saírem de situações de crise profunda. Um dos casos de estudo é a Finlândia. O relatório que estabelece os objectivos científicos da União Europeia, "Towards 3%: attainment of the Barcelona target" publicado pela EASAC (European Academies, Science Advisory Council), descreve o sucesso das medidas adoptadas pela Finlândia para sair da crise em que o país mergulhou no início dos anos 90. Para responder à maior recessão registada num país da Europa ocidental desde a II Guerra Mundial, a uma taxa de desemprego de 20% e a uma dívida externa incomportável, o governo de união nacional teve a visão de não estender à ciência os cortes aplicados nos outros domínios. Pelo contrário, o investimento em ciência e tecnologia foi inclusivamente aumentado. O sucesso dessa política é conhecido, do qual a Nokia é o seu mais brilhante exemplo. Hoje, muitos de nós, transportamos no bolso o resultado de uma boa resposta a uma profunda crise.

quarta-feira, junho 15, 2011

É verdade, mas...

"Portugal virou, então, à direita (...) O que é duplamente irónico: porque foram as ideias liberais da direita e a sua crença num capitalismo sem regras que nos mergulharam a todos na crise; e porque são os mais pobres e mais desfavorecidos que mais vão sofrer"
Miguel Sousa Tavares do Expresso, 10 de Junho de 2011.

Sousa Tavares tem toda a razão, mas...
A banca e o sistema financeiro ficaram com a cabeça a prémio desde 2008, por isso mexeram-se e prepararam bem o terreno, enviaram cadeias de email "anónimas" acusando o estado de tudo, as televisões de direita deixaram de brincar em serviço, ofereceram ao povo as homilias do Medina Carreira, os jornais de economia (também de direita) ostracizaram todas as opiniões fora do pensamento ultraliberal, enfim um clássico da manipulação colectiva pelo sistema financeiro bem explicado no livro “The Best Way to Rob a Bank Is to Own One” de William Black, que descreve um ambiente semelhante durante a crise da banca ocorrida durante a era Reagan.
Pelo seu lado a esquerda ajudou bem. O PS continuou a dar crédito a um líder que no caso Freeport fez o suficiente (e só entro em conta com as decisões legais que tomou enquanto ministro do ambiente) para ser expulso de qualquer partido decente de esquerda. O BE estatelou-se ao tentar imitar o PCP. E o PCP (ou CDU se contarmos com a usurpação da sigla dos Verdes) continua na sua linha estóica de inutilidade política.

quarta-feira, maio 18, 2011

Rotos vs Esfarrapados em Terra de Falidos

O que pensará o europeu comum quando esta noite descobrir que a final da Liga Europa decorre na Irlanda com dois finalistas portugueses (só faltava o árbitro ser grego para completar o ramalhete)?
Se consultar as respectivas dívidas privadas (220% do PIB em Portugal e 350% na Irlanda) produzidas pelos sectores imobiliário e a banca de ambos os países, andará perto da revelação deste milagre.

segunda-feira, abril 11, 2011

Vertigem nos pólos de Vénus



Este trabalho do caríssimo David Luz, publicado na prestigiada revista Science, mostra o movimento de rotação da atmosfera no pólo sul de Vénus. A localização do pólo sul é dado pela cruz e o centro de rotação da atmosfera é dado pelo círculo branco, o seu desfasamento é de cerca de 300 km em relação ao pólo sul.
Viva a geração rasca!

quarta-feira, outubro 06, 2010

A má educação há 100 anos


Ano em que se atingiu a alfabetização de metade da população nas diferentes regiões da Europa, "A sociedade de confiança", Alain Peyrefitte, Instituto Piaget.

Há 100 anos, Portugal era já um dos países mais atrasados da Europa. Apenas Porto, Lisboa e Coimbra apresentavam taxas de alfabetização superiores a 50%. No resto da Europa esse patamar já tinha sido atingido cerca de 100 anos antes em quase todas regiões, excepto Itália e Espanha. Da fuga do Rei para o Brasil em 1807 até à proclamação da república em 1910, Portugal viveu um período de cerca de um século mergulhado na decrepitude da monarquia que se manifestou na sua plenitude quer nas relações diplomáticas de humilhação permanente face à Inglaterra, Espanha e França quer no imobilismo face à alfabetização e à generalização da escola. O Estado Novo só veio prolongar a doença do analfabetismo até aos anos 70, cultivando a mentalidade do povo ignorante mas devoto. Dessa doença ainda pagamos e pagaremos os juros mais uma ou duas gerações.

quarta-feira, abril 21, 2010

Terrorismo Financeiro

Os ataques de investidores financeiros à Grécia e a Portugal tentando ganhar muito dinheiro à custa da situação difícil dos dois países é inaceitável, é um ataque que produz pobreza e desemprego em troco do enriquecimento fácil de personagens cujas actividades não produzem nada de útil para a sociedade. Até quando teremos que aceitar este sistema absurdo? Este terrorismo financeiro é bem pior, é bem mais avassalador do que o terrorismo da ETA ou do IRA. É a soberania dos dois países que está a ser ameaçada. Somos tão ferozes com os terrorismos regionais, mas depois tão mansinhos com o terrorismo financeiro internacional.
O PSD e o CDS não podem fingir que isto não é nada com eles. O modelo de sociedade que defendem criaram este ambiente propício ao crime e ao terrorismo financeiro quase generalizado.

terça-feira, março 31, 2009

900° aniversário de Afonso Henriques em Viseu



Sabe-se hoje que Afonso Henriques nasceu em Viseu, ou algures próximo de Viseu. Os documentos assinados pela mãe Dona Teresa antes e depois da data estimada do seu nascimento são inequívocos no local da assinatura: Viseu. Naquela época, a hipótese de uma mulher grávida ir propositadamente de Viseu a Guimarães para ter um filho é simplesmente absurda. No entanto, Guimarães vai comemorar os 900 anos do seu nascimento com mais pompa que Viseu alimentando o erro, prolongando um mito criado no passado. Este mito de Guimarães estende-se à própria vida de Afonso Henriques, como se este tivesse reinado o país a partir desta cidade. Quando muito Afonso Henriques passou parte da sua juventude em Guimarães ou nas suas proximidades, mas não nasceu e muito menos reinou em Guimarães. Coimbra foi a primeira capital de Portugal, a cidade de onde D. Afonso Henriques reinou o país até ao fim dos seus dias e naturalmente a cidade onde se encontra o seu túmulo.

Pior do que atitude da câmara de Guimarães é a apatia das câmaras de Viseu e Coimbra perante o erro histórico. As comemorações em Viseu são tímidas e desculpabilizantes - leiam este texto da câmara, dá a sensação que temem levar uma sova de Guimarães - e a apatia de Coimbra perante a história do seu rei é gritante. Em frente à igreja de Santa Cruz em Coimbra não há sequer uma indicação para os turistas da existência do seu túmulo no interior e a facilidade com que se acede aos túmulos de Afonso Henriques e de D. Sancho I é chocante. O mínimo que se exigia era que as duas autarquias unissem esforços para mudar os livros de história impedindo a propagação do erro.

Ler a biografia de Afonso Henriques da autoria de José Mattoso.

quarta-feira, julho 02, 2008

A Má Educação

Ler a biografia de D. Afonso Henriques de José Mattoso é ter duas lições de história numa só. Por um lado aprendemos finalmente com rigor a história que é possível conhecer do nosso primeiro rei e por outro percebemos o quão o salazarismo conservou, cultivou e propagou por razões ideológicas uma versão da história da fundação de Portugal muito pouco precisa, em que a lenda frequentemente se mistura e se sobrepõe à verdadeira história de Afonso Henriques. "Guimarães a cidade berço", que de berço não tem quase nada, visto que D. Afonso nasceu muito provavelmente em Viseu e reinou a partir de Coimbra, a "Batalha de Ourique" ganha contra 5 reis mouros, que muito provavelmente não passou de um simples fossado longo e muito bem sucedido, a lenda do bispo negro e a lenda de Martim Moniz, são apenas alguns exemplos da má história de Portugal que foi dada durante décadas nas escolas portuguesas.
Será que os actuais livros de História de Portugal já foram todos corrigidos?

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Produtividade Baixa, Salários Altos e Pasmaceira

Um país que tem uma das taxas de produtividade mais baixas da UE, cujos os empresários apresentam as qualificações mais baixas e cujos salários são acima dos salários de empresários de países ricos, altamente qualificados, com taxas de produtividade das mais elevadas do mundo, este país, é um país pouco sério. Mas o pior, o que é mais deprimente, é uma parte da oposição, da oposição crítica, não dar importância ao facto, é ouvirmos uma Quadratura do Círculo onde são condenadas as palavras de Cavaco quando este advertiu que os rendimentos de altos dirigentes de empresas são "injustificados e desproporcionados, face aos salários médios dos seus trabalhadores". Que raio de país é este, que raio de oposição crítica é esta, que raio de sentido crítico é este?!

Vivemos centrados na oposição ao superficial, às gravatas e ao fato de Sócrates, aos cartazes da West Coast, à banalidade sobre o primeiro-ministro nos media e esquecemos questões importantíssimas, esquecemos os roubos gigantescos que passam através de paraísos fiscais, esquecemos o abandono escolar, esquecemos o baixíssimo nível educacional e pior que tudo, tapamos os olhos às disfuncões terríveis das nossas empresas, aos "rendimentos" desproporcionados. Esses "rendimentos" que não são pequenas percentagens, que não são limitados a um ou a outro empresário, que se estendem a uma boa fatia de quadros das empresas cotadas em bolsa, que são "rendimentos" vestidos de acções, de títulos, de bónus, de viagens e de contas bancárias e investimentos semi-informais.

Este estado de pasmaceira crítica em que vivemos teve o seu ponto alto nesta entrevista realizada pelo Expresso a António Barreto e a Pacheco Pereira (lá iremos). Aquela que deveria ser A análise crítica do ano, é um momento político deprimente em que os intervenientes se perdem nas inevitáveis banalidades sobre Sócrates. Dá vontade de sair do país, de deixar isto entregue à bicharada. Se esta oposição é representativa de uma parte da oposição crítica que temos, isto mete medo!

quarta-feira, maio 09, 2007

Quando o país se confronta com a dura realidade

A histeria nacional do momento, o caso da menina inglesa desaparecida no Algarve, tem tido a virtude de confrontar os portugueses com o que a imprensa viperina e o cidadão médio mal informado do norte da Europa, neste caso de Inglaterra, pensam realmente de Portugal e dos portugueses. Independentemente da nossa polícia estar a conduzir bem ou mal as investigações, por defeito para o inglês médio a polícia portuguesa só pode trabalhar mal. Um país cuja organização do território é uma lástima e que até há bem pouco tempo praticava julgamentos medievais de mulheres, só pode desencadear este tipo de reacção epidérmica, por muito bons que sejam o Cristiano Ronaldo ou o Mourinho em Inglaterra. Futebol é futebol, civismo é civismo. É provavelmente injusto para a polícia que está a trabalhar no duro no Algarve, mas a culpa dessa imagem negativa é de todos nós, somos nós que construímos esta imagem do país.

Babel à portuguesa
Esta é também uma ocasião para os que não gostaram de Babel por acharem o filme "politicamente correcto" compararem o que se está a passar com o episódio de Babel passado em Marrocos. Aí têm ao vivo e em directo do Algarve um filme "politicamente correcto"...