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terça-feira, dezembro 30, 2008

2008, o ano em que o planeta se revelou finito

(publicado no dossier temas 2008 do portal Esquerda.net)
2008 será recordado como o ano em que o planeta se revelou finito, em que a actividade humana numa parte do mundo teve consequências reais e palpáveis noutra parte do planeta. Tal como a parábola da manta, que tapa de um lado destapando do outro, a crise dos cereais e do petróleo veio evidenciar da pior maneira os reais limites de alguns dos nossos principais recursos naturais.

O brusco aumento da procura de petróleo da parte de mercados emergentes, como a Índia e China, a especulação dos mercados financeiros e a progressiva escassez do petróleo e dos restantes combustíveis primários provocaram uma subida acentuada do preço do crude para preços record, seguida de uma descida brusca provocada pela crise financeira. Um processo semelhante ocorreu com os preços dos cereais e seus derivados, tendo-se agravado o problema neste caso com a quebra verificada no volume de colheitas agrícolas nos últimos dois anos e o aumento da percentagem relativa de solos dedicados à produção de biocombustíveis. Estas oscilações de preço tiveram consequências reais, provocando revoltas, falências, desemprego que resultaram em mortes directas e indirectas destes acontecimentos.

Desde os séculos XVII e XVIII, grande parte do pensamento económico foi orientado pelos escritos de John Locke, de Thomas Hobbes ou de Adam Smith, que simplificavam ou davam pouca importância à escassez ou ao limite dos principais recursos naturais. Na prática, os contemporâneos destes filósofos consideravam quase todos os principais recursos como sendo infinitos ou exploráveis indefinidamente. A explosão demográfica e a exploração intensiva dos principais recursos naturais que ocorreu durante século XX vieram revelar que alguns dos principais recursos naturais, como o petróleo, tinham os dias contados. Ainda assim os alertas lançados sortiram pouco efeito e foi preciso esperar por 2008 para que o cidadão comum percebesse finalmente que o modelo de sociedade dominante estava a pôr em perigo a sua própria segurança alimentar e energética. A emaranhada teia que liga as cadeias de exploração, produção, comercialização e consumo dos produtos de primeira necessidade está sujeita a processos estatísticos complexos de difícil compreensão para o produtor ou o consumidor individual que se encontra no seu canto do mundo e que tem uma perspectiva do problema limitada ao horizonte da sua região ou do seu país. Deste modo, um produtor ou um consumidor que esteja genuinamente convencido que a sua actividade não tem qualquer efeito nocivo poderá estar a contribuir sem saber para uma catástrofe humanitária noutro ponto do planeta. É aqui que falha, em particular a filosofia de John Locke. Segundo John Locke, a natureza não tem qualquer valor até ser transformada pelo trabalho humano para satisfazer as necessidades do homem. No entanto, Locke ressalvava que a exploração de recursos naturais poderia continuar indefinidamente desde que existissem em quantidade e qualidade para todos. Para além de sabermos hoje que a natureza não transformada pode ter um papel importantíssimo para a sobrevivência do homem (os pulmões da Amazónia ou das florestas do Canadá e da Sibéria, os gigantescos reservatórios de CO2 que são os nossos oceanos, etc.), sabemos também que nem sempre quem explora um recurso tem a percepção exacta de que pode estar a comprometer o acesso a esse recurso por parte de outros indivíduos noutra parte do mundo ou por parte das gerações seguintes.

As sociedades de produção e consumo massificado em que nos tornámos precisam de generalizar conceitos como o princípio da precaução da UE que protegem consumidores e produtores da incerteza resultante da massificação de novas actividades económicas e precisam sobretudo de se tornar em verdadeiras sociedades baseadas no conhecimento, em que o conhecimento científico seja devidamente considerado e respeitado pelo poder político e pelos diversos agentes económicos. O resultado desse trabalho científico mostra hoje que o modelo de vida das sociedades ditas ocidentais não é decalcável para o resto dos habitantes do planeta, nem para as gerações seguintes.

A encruzilhada entre o aumento do consumo energético do planeta, a progressiva escassez das reservas de combustíveis primários e o aquecimento global provocado pela emissão de gases de efeito de estufa deverá obrigar a uma séria reflexão sobre o nosso modo de vida, sobre a forma intensiva como produzimos e consumimos. A médio prazo será necessário encontrar novas formas de produção de energia em larga escala não dependentes de combustíveis primários com reservas finitas. Será por isso urgente apostar na investigação de novas tecnologias, como o projecto ITER de fusão nuclear, que poderá ser a futura energia de produção em larga escala, limpa e sustentável que substituirá definitivamente os combustíveis primários. Enquanto essas tecnologias não chegam será necessário massificar tanto quanto possível a produção de energia geotérmica, eólica, solar, das marés, das ondas, etc., transformando a habitação e o transporte para o seu consumo em larga escala (ler proposta de Jeremy Rifkin).

A produção de alimentos deverá cada vez mais aderir a métodos de produção sustentável que não esgotem os solos ou os recursos marinhos e deverá ser menos orientada para a exploração animal que requer a produção de grandes quantidades de cereais e um elevado consumo de água, requisitos que poderão ser fatais nas zonas menos férteis do mundo. A introdução de novas tecnologias e de novos produtos químicos na produção de alimentos deverá estar sujeita ao princípio da precaução para garantir a segurança de consumidores, de produtores e dos ecossistemas e responder a novos desafios como o sério declínio da taxa de natalidade nas sociedades mais desenvolvidas.

A nossa segurança alimentar e energética vai requerer uma transformação radical da sociedade, em particular a mudança de indicadores de desenvolvimento. Indicadores baseados essencialmente na produção, como o PIB, deverão ter um peso menor e indicadores dependentes da qualidade de vida, da sustentabilidade da actividade humana e da preservação do ambiente deverão ter um peso bem mais importante nas sociedades futuras. Produzir menos, para ganhar menos e viver melhor, poderá ser o mote das futuras gerações.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

99 F - O homem é um produto como outro qualquer



"99 Francos" de Jan Kounen, baseado no livro do mesmo nome de Frédéric Beigbeder, é um filme em registo de permanente delírio, fiel ao universo de Beigbeder, que caracteriza deliciosamente o cínico mundo da publicidade.

Em "99 Francos", Octave é um profissional da publicidade, perfeitamente integrado nas regras do jogo, onde cabe o cinismo, o desprezo e a manipulação do consumidor. No entanto, um belo dia Octave passa-se definitivamente dos carretos. Picado pela arrogância de um empresário imbecil que lhe encomenda um anúncio de iogurtes, Octave decide por um ponto final a uma vida de hierarquias empresariais vaidosas, à manipulação grosseira do consumidor, a racismos velados (vale a pena ver como funciona o racismo na publicidade) e a intolerâncias várias nos anúncios de televisão. O filme bombardeia-nos de chavões, de olhares e de gestos irónicos baseados na linguagem publicitária. "O homem é um produto como qualquer outro" ou "há dois mil anos que não existia um cretino irresponsável foi tão poderoso como eu" são os dois principais chavões de apresentação de Octave.

Apesar de uma aparente ligeireza, o filme mostra-nos com uma serenidade poderosa e perturbadora como alguns dos nossos mais exclusivos sonhos e fantasmas são também eles moldados pela publicidade, que até pode ser uma publicidade a um derivado do petróleo...



Relacionado: ler esta entrada do David na Linha dos Nodos

domingo, setembro 23, 2007

Aprende a manipular e não serás manipulado!

Esta semana foi lançado em França o filme "99 francos", baseado no romance do mesmo nome de Frédéric Beigbeder. Depois de anos a trabalhar na arte de manipular os hábitos de consumo dos franceses, Beigbeder deixou a profissão de publicitário para divulgar a filosofia empregada pelas grandes empresas na manipulação dos consumidores desde os corredores dos supermercado até aos écrãs de televisão.

Com um percurso profissional semelhante ao de Beigbeder, o espanhol Carlos Ballesteros Garcia criou o site "Consome até morrer", onde as mesmas técnicas empregadas no mundo da publicidade são aplicadas para combater o consumismo.

segunda-feira, julho 02, 2007

O pão nosso de cada dia



"Our daily bread" de Nikolaus Geyrhalter é uma sucessão de imagens sobre a produção agrícola e pecuária em massa praticada em vários países europeus que não deixa indiferente o espectador. Ao longo dos 80 minutos de filme somos interpelados sobre a nossa forma de produzir, de consumir e de trabalhar no sector primário na Europa. Depois de "Our daily bread", a ida a um supermercado é certamente encarada de outra forma. É impossível ficar indiferente a tomates e legumes produzidos em massa sem qualquer contacto com a natureza, criados em estufas de cimento, onde cada tomateiro é depositado sobre um extracto de fibra carbónica. Também não se fica indiferente ao nascimento, vida e morte de porcos e de frangos, em clausura absoluta em fábricas onde pintos são projectados de estrado para estrado rolante formando compactos jactos amarelos como se de milho se tratasse e onde são simulados dois dias e duas noites, durante as 24 horas de um dia, recorrendo à iluminação artificial.

Será que vale a pena este tipo de produção massificada, num continente com problemas de produção excedentária? A nossa qualidade de vida é ameaçada em que medida pelo desaparecimento do sabor genuíno dos alimentos, pela ausência de contacto com a natureza e pela utilização em massa de pesticidas? Será que devemos tratar os animais desta forma cínica e cruel, chegando ao ponto de lhes trocar as voltas dos dias e das noites para que cresçam rapidamente? Quais são as consequências sociais do trabalho praticado nestas explorações, um trabalho mal pago, deprimente, desumanizado e por vezes no limite da escravidão? Vale a pena esta alienação da produção para termos os supermercados cheios de produtos baratos, mas sem sabor e com qualidade nutritiva duvidosa, para depois queimarmos quantidades industriais de excedentes?