domingo, outubro 22, 2006

99 cervejas + 1

O "99 cervejas+1" do Francisco José Viegas apesar de ser uma publicação sem grandes pretensões sistemáticas é um delicioso guia para se ir experimentando novas cervejas e serve também de pretexto para longas cavaqueiras sobre cerveja com os amigos.
Muito antes de sermos um país de vinho, nós lusitanos, éramos um povo de cerveja onde entrava a bolota e a castanha (corrijam-me se estiver errado) segundo o testemunho de Estrabão, como o Francisco o refere. No entanto, considero que actualmente em Portugal não se sabe fazer cerveja. A maior parte da nossa produção de cerveja é imitação, sem nada de novo no panorama internacional, tirando uma ou duas excepções. Uma das piores experiências que tive na minha vida foi quando bebi uma Super Bock Abadia, depois de voltar da Bélgica onde tinha bebido uma Leffe no aeroporto. Para um apreciador de cervejas de abadia foi um choque equivalente àquela experiência que já todos tivemos quando bebemos uma golada de leite estragado! Finos é coisa que não bebo nem que me paguem. Alguns amigos oferecem-me finos e eu à socapa chego ao ponto de os despejar noutros copos ou de os deixar propositadamente esquecidos num canto do bar.
Ao percorrer as páginas do 99 cervejas achei que o Francisco foi demasiado benevolente com as cervejas nacionais. Quanto ao resto a minha avaliação não difere muito do Francisco.

Aqui ficam as minhas estrelinhas e as do Francisco entre parêntesis:

Budweiser Budvar (Budejovice) - **** (***)
Bush - *** (*****)
Chimay - ***** (****)
Gordon Scotch Ale - *** (**)
Erdinger - *** (****)
Girardin Geuze - *** (****)
Grimbergen - ***** (****)
Grolsch - *** (***)
Guinness - **** (***)
Leffe - ***** (****)
Murphy's (red) - **** (***)
Negra Modelo - *** (***)
Orval - *** (*****)
Pilsener Urquell - **** (*****)
Sagres - * (***)
Sagres Bohemia - ** (****)
Spaten - *** (****)
Staropramen - **** (****)
Stella Artois - **** (***)
Super Bock - *** (***)
Super Bock Abadia - . (***) -> Imitação péssima das abadias belgas
Super Bock Stout - ** (****) -> garrafa muito lindinha, mas o conteúdo...
Tagus - ** (****)
Warsteiner - **** (****)
Westmalle - **** (***)

Outras cervejas que não constam no 99 cervejas:

Onix preta (P) - ****
Krusovice (CZ) - *****
Zlaty Bazant (SK) - ****
Kelt (SK) - ****
Löwenbrau (D) - ***
Franziskaner (D) - ****
Gambrinus (CZ) - ****
Corona (MEX) - **** -> Só no Verão
Carlsberg (DK) - ****
Deus (B) - ****

sexta-feira, outubro 20, 2006

La Subjectivité à Venir de Slavoj Žižek

"La subjectivité à venir" de Slavoj Žižek (Flammarion, 2006) é uma interessantíssima recolha de reflexões sobre a cultura popular e o seu impacto social, sob o prisma da psicanálise. Dada a raridade de análises sociais com este cariz e dada a grande importância da psicanálise para compreensão das sociedades em que vivemos, esta obra de Žižek constitui uma riquíssima fonte de descoberta sobre o que se esconde atrás do papel de parede que reveste o nosso quotidiano. Filmes populares como Matrix ou Fight Club, filmes e séries de culto como a Pianista ou Colombo, algumas óperas de Wagner e Rossini e a obra fotográfica de Leni Riefenstahl são alguns dos interessantes objectos de análise de Žižek. Žižek dedica também uma excelente reflexão da sua obra à dificuldade de popularização da ciência dada a complexidade do seu conteúdo e ao fantasma fascista sempre presente que visa limitar o alcance dessa mesma ciência.

No melhor pano cai a nódoa marxista
Apesar de todo o brilhantismo da obra e do seu indubitável interesse, Žižek intercala a leitura deliciosa das suas análises com marteladas marxistas por vezes completamente a despropósito. O leitor é confrontado com tentativas de atribuir a máximas marxistas bastante simples (para não dizer primárias) o mesmo nível de sofisticação das reflexões de Žižek baseadas na psicanálise. Curiosamente, a análise de Žižek sobre os maus da fita do popularucho filme Matrix encaixa muito mais facilmente no esquema sombrio da ex-URSS do que propriamente na teia do Grande Capital, como Žižek se esforça em demonstrar. Depois, o livro contém partes realmente fracas, como o ataque ao físico de Joschka Fisher. Encontramos também algumas contradições, como um certo radicalismo a condenar a religião seguida de alguma complacência acompanhada de uma errada análise à religião muçulmana. E digo errada, pois Žižek refere que a violência e a intolerância são traços sempre presentes na religião muçulmana (pag. 160). Ora, há 30 ou há 40 anos por exemplo, as mulheres muçulmanas das grandes cidades do Magrebe ou das comunidades emigrantes europeias praticamente não usavam véu ou lenço, o fundamentalismo como o conhecemos hoje é um fenómeno novo e excepcional. Žižek não se poupa em atacar a esquerda multicultural e de criticar uma época em que tudo é permitido. Embora o tom irónico da época em que tudo é permitido comporte uma crítica acertada, visto que muitas vezes essa permissividade é apenas ilusória (como já sabíamos), a verdade é que também transmite um certo conservadorismo. Leio-lhe um marxismo próprio de quem não está para grandes brincadeiras. Se ele tivesse votado em Janeiro passado aposto que tinha votado Jerónimo.

Se Žižek não fosse marxista seria muito mais interessante, mas nestas idades mais de 90% das pessoas não mudam, só pioram. No entanto, tirando as passagens marxistas, o resto do livro é muito estimulante e recomendo-o vivamente. Encarem as passagens marxistas como uns copos de vinho a martelo que intercalam com um grande champanhe ou um vindimas tardias.

quinta-feira, outubro 19, 2006

A evidente influência do CO2 no aquecimento global


(Sítio UNEP)

Estive a ler os comentários nos vários blogues ao gráfico aqui apresentado que mostra a evolução da temperatura global e da concentração de CO2 ao longo dos últimos 400 mil anos e noto que há alguma confusão na interpretação dos dados, que são bem simples, principalmente da parte do autor da confusão: o João Miranda.

Após dezenas de entradas sobre o aquecimento global dou-me conta que o João Miranda não percebeu o que é um gás a efeito de estufa, como o CO2. Um gás como o CO2 não "aquece", o CO2 não é radiação, mas é um gás que uma vez fortemente concentrado na atmosfera impede uma quantidade importante de radiação de se escapar da Terra para o espaço. Por isso, o CO2 - usando as palavras do João quando acertou enquanto se enganava - funciona como amplificador do aquecimento global. Pois é, tal como uma estufa. Uma estufa não precisa de aquecedor, basta que não deixe sair uma determinada quantidade de radiação para que a sua temperatura interior aumente. Se não existissem gases de efeito de estufa e a atmosfera fosse completamente transparente à radiação infravermelha emitida pela Terra, a temperatura à superfície seria de -18°C. À semelhança do que acontece nos planetas desprovidos ou de ténue de atmosfera. Por isso e ao contrário do que refere o João Miranda, é importantíssimo conhecer a relação entre a concentração de CO2 e o aquecimento global, pois são os gases a efeito de estufa (e não a radiação) a causa determinante para que a temperatura média na Terra seja cerca de 15°C em vez de -18°C.

O comentário que acompanha o gráfico do UNEP é claríssimo:
"The information presented on this graph indicates a strong correlation between carbon dioxide content in the atmosphere and temperature". Os comentários de Caillon para os quais João Miranda remete ainda o reforçam mais: "Some (currently unknown) process causes Antarctica and the surrounding ocean to warm. This process also causes CO2 to start rising, about 800 years later. Then CO2 further warms the whole planet, because of its heat-trapping properties. This leads to even further CO2 release. So CO2 during ice ages should be thought of as a "feedback", much like the feedback that results from putting a microphone too near to a loudspeaker."
O João Miranda confundiu o papel do CO2 com o da radiação, esqueceu-se que o CO2 é a estufa e não a radiação que fica aprisionada na estufa aquecendo o seu interior... Acontece!

Por todas as razões apontadas acima é que o gráfico dos gelos de Vostok é uma espécie de xeque-mate às teorias negacionistas do aquecimento global, sobretudo quando cruzado com os gráficos abaixo apresentados que mostram a subida vertiginosa da concentração do dióxido de carbono nos últimos anos provocada pela actividade humana, acompanhada do respectivo aumento de temperatura. Comentário do UNEP: "A possible scenario: anthropogenic emissions of GHGs could bring the climate to a state where it reverts to the highly unstable climate of the pre-ice age period. Rather than a linear evolution, the climate follows a non-linear path with sudden and dramatic surprises when GHG levels reach an as-yet unknown trigger point."


928 artigos a zero

Oportunamente, o Bruno refere um estudo que andava há algum tempo para aqui citar sobre as publicações cientíticas referindo o aquecimento global. Percebe-se que as fontes de informação dos negacionistas do aquecimento global vêm de todos os lados, menos daquela de onde deveriam de vir: da ciência. Sobre estas "fontes" acrescentarei algo proximamente.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Ainda Manhattan

O Nuno Mota Pinto inseriu no Mar Salgado a deliciosa cena de abertura de Manhattan.

Rapidinhas para o João Miranda

1- O João Miranda finalmente descobriu a pólvora: "CO2 pode funcionar como amplificador do aquecimento causado pelos ciclos de Milankovitch", responsável por cerca de 5/6 da duração de um ciclo, como refere o artigo para o qual ele remete. No entanto, numa tentativa de salvar a face refere: "o que está em causa no debate (...) não é saber se existe uma relação entre a concentração de CO2 e aquecimento global.". Convido-o a dar mais atenção ao segundo gráfico que apresentei na minha entrada anterior que mostra a evolução da concentração de dióxido de carbono dos últimos 130 anos. O resto é matemática do secundário.

2- Este estudo publicado recentemente na revista Nature mostra que o Sol não tem influência no aquecimento global. O que não espanta nada. O ciclos solares mais importantes são os ciclos de 11 anos, período que pouco tem a ver com as alterações principais que se têm verificado no clima. Mas como esta é uma matéria ainda um bocado "verde", nada impede que possam surgir outros estudos diferentes, mas este é o melhor até agora realizado.

3- A radiação cósmica é um dos elementos que entra nos meus estudos, conheço-lhe bem os fluxos, os tipos de partículas, as energias, etc. Com fluxos de radiação daquela ordem não se fazem milagres. Além do mais são fluxos de radiação a longo termo estatisticamente bastante constantes, portanto não vale a pena imaginar cenários de grandes flutuações, a não ser que nos expluda uma supernova no "quintal". Mas nesse caso, as consequências podem ser bem piores que o aquecimento global. Para além disso existem muitos modelos climáticos que já incluem a radiação cósmica, não é uma grande novidade, como os estudos realizados na Universidade de Louvain, por exemplo.

4- Tudo o que é aqui discutido, tal como nos artigos referidos pelo João Miranda trata-se de trabalho que obedece ao rigor do método científico. No método científico não cabem tretas como o criacionismo. O João Miranda não pode andar as segundas, quartas e sextas a falar de ciência, e com a mesma propriedade, às terças, quintas e sábados a falar de tretas como o criacionismo que não passam o crivo de qualquer método científico. Perde-se a credibilidade.

terça-feira, outubro 17, 2006

Insurgente: ignorância científica e aquecimento global



Como a questão ideológica de usar o aquecimento global como arma de arremesso política foi definitivamente perdida no plano científico - o gráfico acima publicado na Nature foi o xeque-mate à fraude científico-política que visava negar a relação entre aquecimento global e a concentração de gases de efeito de estufa - resta a fuga para a frente a retalho, para tentar pequenas vitórias que salvem a face da argolada política. Este texto do Insurgente é um exemplo dessas pequenas fugas para a frente que revelam bastante ignorância e uma teimosia no erro confrangedora. O texto revela bastante ignorância porque insinua que os "consensos científicos flutuam" baseado num artigo da revista Times de 1974 em que se alertava para uma nova idade do gelo relativamente ao facto do aquecimento global ser hoje um dado adquirido entre os climatologistas. Ora, não só a revista Times não é uma revista científica, como em 1974 não existia consenso científico sobre o clima no futuro. E não existia consenso porque era impossível haver consenso dado o número reduzido de trabalhos científicos efectuados até à altura. A produção científica na área da climatologia desde 1974 até aos dias de hoje foi multiplicada por mil, os orçamentos dedicados à investigação idem. Mesmo que tivesse existido um consenso científico em 1974, não se poderia falar em consenso flutuantes, porque a disparidade da significância estatística dos resultados é abismal, não se podem colocar ao mesmo nível de discussão resultados sobre a mesma coisa um com uma barra de erro de 100 e outro com uma barra de erro de 0,01. É aqui que o texto do Insurgente revela ignorância, é o mesmo que eu dizer que existe uma flutuação de consensos sobre a forma da Terra. Há três milénios atrás havia um consenso de que a Terra era plana (apesar dos cépticos apologistas da Terra em forma de carapaça da tartaruga) e hoje sabemos que é aproximadamente esférica. No século XV havia um consenso de que a Terra estava no centro do sistema solar e hoje o consenso é de que somos apenas o terceiro planeta a contar do Sol. O facto de em certas épocas em que o conhecimento era muito mais limitado do que hoje se tivessem optado por teorias erradas isso não quer dizer que existirão eternamente flutuações de consenso sobre os mesmos assuntos. Não voltarão a existir consensos que darão a Terra como plana, nem consensos que colocarão a Terra no centro do sistema solar, tal como não existirão consensos de um cenário de pequena idade do gelo numa época de alta concentração de dióxido de carbono.

Depois o texto insiste no erro, continua a referir o trabalho de Bjørn Lomborg (o ecologista céptico), que apesar de ser um trabalho sério incorreu em vários erros de palmatória prontamente denunciados nas revistas científicas internacionais mais relevantes. Lomborg não é climatologista, nunca publicou numa revista científica da especialidade, o que contribuiu para que nunca tenha admitido alguns dos erros do seu trabalho. O estudo de Lomborg de 2004 foi baseado nalguns dos seus erros, por isso não espanta que o resultado do seu trabalho estivesse também errado. Aos economistas citados cabia apenas fazer um estudo baseado nos dados de Lomborg, independentemente de estarem certos ou errados. Se se baseassem em dados sugeridos pela generalidade dos cientistas que ganharam prémios Nobel (os Nobel da NASA ou o europeu Georges Charpak por exemplo) o estudo seria completamente diferente e os resultados mais de acordo com a realidade. E a realidade científica o que diz é que cada dia que passa sem se tomarem iniciativas para travar o aquecimento global, implica um aumento de custos que não é proporcional no tempo, mas sim exponencial. Ou seja, cada dia sem fazer nada é uma derrota nessa batalha. Outra coisa básica que nos diz a ciência é que apesar de os custos associados a catástrofes ecológicas (inundações, fogos, períodos de seca, etc.) serem extremamente difíceis de prever quer em termos de perdas humanas quer em perdas económicas, sabemos que estes serão bem mais elevados comparativamente a qualquer custo actual de medidas de combate ao aquecimento global.

segunda-feira, outubro 16, 2006

Manhattan

O início de "Manhattan" de Woody Allen, é o meu início de filme preferido. As deliciosas divagações de Isaac Davis (Woody Allen) casam perfeitamente com a música de George Gershwin e com o conjunto de imagens que vão desfilando de uma Manhattan romântica do final dos anos 70. Um dos grandes trunfos do filme é ter conseguido transmitir esse ambiente romântico que um dia a cidade viveu, onde não eram apenas os arranha-céus que eram sublimes e grandiosos, as pessoas, a cultura nova-iorquina era também ela sublime, marcada por um fervilhar de descobertas e de inovações.

Descobri a cidade em 2002. Apreciei esses mesmos arranha-céus dos anos 20, os museus, a cultura, os transportes públicos e um modo de vida que de certa forma faz lembrar mais a Europa do que a generalidade das cidades americanas, balofas, onde os mega-parques de estacionamento e os giga-centros comerciais desertificam a paisagem urbana. No entanto, notei que havia uma certa las-veguização das animações culturais no centro da cidade, acompanhada de muito kitsch, muito franchising barato, muita loja dos trezentos, muito comércio manhoso que vive de uma caça ao dólar sem concessões. O ambiente romântico de "Manhattan" pareceu-me distante de tudo aquilo. Se calhar nunca existiu e nesse caso o filme seria uma visão edílica da cidade. No entanto, aqui ficam as deliciosas divagações de Isaac Davis, para ler em fundo de George Gershwin:

"Chapter One. He adored New York City. He idolized it all out of proportion - er, no, make that: he - he romanticized it all out of proportion. - Yes. - To him, no matter what the season was, this was still a town that existed in black and white and pulsated to the great tunes of George Gershwin. - Er, tsch, no, missed out something.

Chapter One. He was too romantic about Manhattan, as he was about everything else. He thrived on the hustle bustle of the crowds and the traffic. To him, New York meant beautiful women and street-smart guys who seemed to know all the ankles. - No, no, corny, too corny for a man of my taste. Can we ... can we try and make it more profound? -

Chapter One. He adored New York City. To him, it was a metaphor for the decay of contemporary culture. The same lack of individual integrity that caused so many people to take the easy way out was rapidly turning the town of his dreams in ... - no, that's a little bit too preachy. I mean, you know, let's face it, I want to sell some books here.

Chapter One. He adored New York City, although to him it was a metaphor for the decay of contemporary culture. How hard it was to exist in a society desensitized by drugs, loud music, television, crime, garbage ... - Too angry. I don't want to be angry.

Chapter One. He was as tough and romantic as the city he loved. Behind his black-rimmed glasses was the coiled sexual power of a jungle cat. - I love this. - New York was his town, and it always would be ...
"

sexta-feira, outubro 13, 2006

L'Univers a-t-il besoin de Dieu?

Já está à venda (em Portugal poderá demorar mais uns dias) este precioso número especial da Ciel et Espace que faz uma revisão de questões científicas que abalam uma série de crenças religiosas.

quarta-feira, outubro 11, 2006

Orçamento finlandês ok, mas...

O anúncio de José Sócrates de cortes orçamentais em todos os ministérios, excepto no Ministério da Ciência cujo o orçamento aumenta mais de 60%, segue um modelo decalcado da estratégia seguida com sucesso pela Finlândia que fez emergir o país da maior recessão registada na Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Há cerca de um ano, nesta entrada, sugeri que se analisasse e se apostasse em políticas semelhantes ao exemplo finlandês. No entanto, há algumas salvaguardas que é preciso ter em conta para que este tipo de orientação política tenha sucesso no caso particular que é Portugal:

1- Portugal é o país da Europa com o nível educacional mais baixo, e de longe mais baixo. Esta é uma grande diferença em relação à Finlândia. Temos os trabalhadores e os empresários com qualificações mais baixas, por isso é imperativo combater o abandono escolar e apostar na reciclagem e formação de trabalhadores e empresários. A Universidade (sem propinas) deveria ter um papel importante neste trabalho de reciclagem e de formação.

2- O modelo aplicado na Finlândia foi conduzido por uma instituição semelhante à Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), mas com poderes mais amplos de coordenação e de monitorização que foram essenciais para o sucesso do modelo. A FCT está longe desse nível de versatilidade e de poder.

3- Se a investigação não interagir com a sociedade de pouco servirá aumentar o orçamento do ministério da ciência. As universidades e os centros de investigação deverão trabalhar em rede com empresas, instituições públicas (câmaras, hospitais, forças armadas, etc.) e empresas. Neste particular ainda temos muito trabalho a fazer.

4- A investigação fundamental deve ser protegida, visto ser uma área cujos frutos surgem em geral a longo prazo, muito para além do tempo de vida das empresas, incompatível com a generalidade dos objectivos empresariais, mais centrados sobre o curto e o médio prazo. Logo este é um domínio de investigação que deve ser financiado e regulado preferencialmente pelo estado.

5- É absolutamente necessário divulgar o trabalho de investigação. A divulgação científica serve não apenas para informar os cidadãos sobre o destino dos seus impostos, mas também para aumentar a sua qualidade de vida, informando os mesmos sobre o que consomem, sobre fraudes pseudo-científicas, sobre o alcance da tecnologia e sobre as portas que se vão abrindo à exploração de novas áreas do conhecimento.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Em nome do proletariado! Caaabuuuuum!!!!

Eis o registo do "singelo" sismo de 4,2 na escala de Richter após o ensaio nuclear realizado esta manhã pelo regime da Coreia do Norte. Porque é que se realiza uma experiência burguesa num país onde se morre à fome? Será em nome do proletariado, dos camponeses, dos operários ou da revolução? Ou será para excitar Kim Jong-Il nos seus momentos mais íntimos? Fica a dúvida. O que é certo é que as réplicas deste sismo artificial estenderam-se até às Filipinas!
Este foi o primeiro teste de armas nucleares realizado no mundo desde 1996, depois da série de testes efectuados pela França no Pacífico, após a eleição de Chirac.


34 dados na próxima viagem aos EUA

O diário El Pais publicou a nova lista de 34 dados que todos os cidadãos da UE deverão transmitir aos EUA sempre que se desloquem àquele país de avião:

- Código de identificación de la Relación de Nombres de Pasajeros (PNR)
- Fecha de reserva
- Fecha(s) prevista(s) del viaje
- Nombre del pasajero
- Otros nombres que figuran en la PNR
- Dirección
- Modalidades de pago*
- Dirección de facturación
- Teléfonos de contacto
- Itinerario completo del viaje
- Información sobre viajeros frecuentes (número de millas recorridas y dirección o direcciones)
- Agencia de viajes
- Agente de viajes
- Información sobre los códigos utilizados
- Información sobre la PNR escindida o dividida
- Dirección electrónica
- Información sobre la emisión de billetes
- Observaciones generales
- Número de billete
- Número de asiento
- Fecha de emisión del billete- Pasajero del que no se dispone de información
- Números de etiquetado de las maletas
- Pasajero de último momento sin reserva
- Información sobre la fuente
- Historial de los cambios aportados a la PNR
- Número de viajeros en la PNR
- Información sobre el asiento
- Billete de ida y vuelta o de ida sólo


*Se possuirem um cartão de crédito VISA poderão facilitar ainda mais a vida às autoridades americanas. O cartão American Express é o mais eficiente, é uma espécie de ligação directa a "Deus".

sábado, outubro 07, 2006

Courrier International especial aquecimento global

A não perder esta edição especial da Courrier International sobre o aquecimento global, provavelmente apenas disponível em francês.

Esta edição está bem estruturada em secções que cobrem todas as vertentes do problema:

- Alertas: degelos do Árctico, Antárctico, Gronelândia, Islândia, etc.
- Cenários: decomposição da tundra, refugiados climáticos, deserto Sara verde, etc.
- Controvérsias: corrente do Golfo, mentiras da Exxon, furacões tropicais, etc.
- Antes e Depois: fotografias impressionantes que mostram a degradação dos glaciares
- Soluções: energia eólica, nuclear, combustíveis alternativos, teoria dos triângulos, etc.
- Políticas
- Personalidades
- Bibliografia

sexta-feira, outubro 06, 2006

Chulice no registo automóvel

Fui alterar a morada do livrete - que agora passa ao mais prático Documento Único Automóvel - ao Gabinete de Registo Automóvel, quando sou informado que devo pagar a módica quantia de 38 €!!! Para cúmulo estes 38 € pagam um serviço que comporta um mês de espera para receber o documento!
Obviamente que vou reclamar desta verdadeira chulice, mesmo que não dê em nada, só para chatear os burocratas responsáveis por estes delírios. É assim que se premeia a mobilidade e o dinamismo? Estes 38 €, somados a outras tantas burocracias imbecis que pesam sobre as pessoas mais dinâmicas deste país, só servem para premiar o imobilismo social e a carreira linear de alguns burocratas autistas.

Obrigado Senador Jorge Costa!



Mais conhecido por Bicho ou Capitão, para mim ele é e será sempre o Senador do FC Porto. Apesar de a palavra senador ter sido utilizada depreciativamente em relação a Jorge Costa por Del Neri, é na minha opinião a mais adequada para definir a grandeza do Jorge. Arrumou as botas. Um grande obrigado pelos momentos mágicos que proporcionaste a este fiel adepto.

quinta-feira, outubro 05, 2006

Rentrée literária francesa na TV5


Hoje às 22.22 na TV5, a não perder o programa "Esprits Libres" onde continuará a apresentação das principais obras da rentré literária francesa.

Animação da aterragem da sonda Huygens

O filme da descida da sonda Huygens até à superfície de Titã pode ser descarregado aqui. O mesmo filme em cd-rom é oferecido na edição deste mês da revista Ciel et Espace.

terça-feira, outubro 03, 2006

Nobel da Física

John C. Mather e George F. Smoot eram os investigadores responsáveis dos instrumentos do satélite COBE que permitiram importantíssimas descobertas no campo da cosmologia:

"This year the Physics Prize is awarded for work that looks back into the infancy of the Universe and attempts to gain some understanding of the origin of galaxies and stars. It is based on measurements made with the help of the COBE satellite launched by NASA in 1989.
The COBE results provided increased support for the Big Bang scenario for the origin of the Universe, as this is the only scenario that predicts the kind of cosmic microwave background radiation measured by COBE.
".
Ler mais aqui.

Ler "O Neo-liberalismo" no Esquerda Republicana

Em Portugal existe uma confusão infernal sobre o que são liberais, o liberalismo e o neo-liberalismo, isto tanto à esquerda como à direita. A confusão é tanta que parte da esquerda acabou a defender o Não ao Tratado Constitucional, invocando o não a um "neo-liberalismo" europeu, lado a lado com os maiores "neo-liberais" da nossa praça...

Esta excelente entrada do Filipe Castro no Esquerda Republicana ajuda a esclarecer o assunto.

domingo, outubro 01, 2006

Armas de destruição em massa: Big King XXL

866 kcal
13% do peso em gordura
3 % do peso em açúcar

Menu Monster:
Big King XXL +
Coca-cola XXL +
Batatas fritas XXL
= 1648 kcal

Necessidades diárias:
homem - 2200 kcal
mulher - 1800 kcal

Armas de destruição em massa: Fanta

sexta-feira, setembro 29, 2006

American Vertigo: Fukuyama contra guerra do Iraque

Em American Vertigo, Bernard-Henri Lévy (BHL) interpela Francis Fukuyama sobre a intervenção americana no Iraque - questão sobre a qual o Fukuyama se pronunciou negativamente - obtendo o seguinte comentário:

"Ces gens sont curieux, m'explique-t-il en substance. Ils ont passé leur existence à plaider contre le fait de donner des pouvoirs exorbitants à'Etat. Ils nous ont mis en garde contre la naïveté des spécialistes du social engineering prétendant éradiquer, d'un coup de baguette politique, la misère américaine. Et voilà qu'ils perdent toute mesure dès lors qu'il est question d'aller extirper cette misère, ainsi que les racines du despotisme, à six mille kilomètres de chez eux.
(...) Le problème des néoconservateurs ce n'est pas comment croient les Européens, leur immoralisme et leur cynisme. C'est l'excès, au contraire, de la morale. C'est la victoire de la mystique sur la politique.
"

"American Vertigo", Bernard-Henry Lévy, Grasset, 2006, pag. 323-325.


Da leitura de "American Vertigo", da opinião de diversos intelectuais da direita americana e da comparação com a realidade nacional, fica-se com a certeza que Portugal existem algumas das opiniões mais radicais e mais fanáticas na defesa da Administração Bush. Pelo prisma nacional até um direitista duro com Fukuyama passaria por perigoso anti-americano. Perante o espectro da direita abordada por BHL, as opiniões da direita portuguesa andam muito mais próximas de radicais como Huntington. A entrevista de BHL a Huntington será aqui abordada proximamente.

Selecção? Desliguei

Já não há pachorra para isto. A minha opinião é que um macaco a treinar a selecção portuguesa teria uma grande probabilidade de ter o mesmo sucesso que Scolari. A partir de agora desliguei.
Conselho para Quaresma: naturaliza-te espanhol, romeno ou qualquer coisa, eu apoio-te!

ESA para professores

Para professores de áreas científicas a ESA oferece uma série de serviços úteis para o início do ano lectivo: software, materiais, formação, viagens aois centros ESA, etc. Clicar aqui.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Porque gosto de Colombo

Moja laska, já te tinha tentado explicar (sem sucesso) porque gosto da série Colombo. Para além da gabardina encardida e do Peugeot, uma das razões é explicada por um elemento da tua tribo:

"Le succès de Colombo témoigne ainsi du fait que le véritable motif d'intérêt d'une oeuvre policière tient au processus de déchiffrement lui-même et non à sa résolution (la révélation finale triomphante: "Et l'assassin est..." est complètement absente ici puisque nous le savons dès le début)."

Slavoj Žižek
, "La subjectivité à venir", Flammarion, 2006, pag. 24


Resulta do prazer da exploração e da descoberta que nos acompanha desde dos tempos em que éramos macacos (mas macacos com charme, claro) e saltámos da floresta para a savana. Nesses tempos éramos mais ou menos da mesma tribo.

segunda-feira, setembro 25, 2006

"Bubble" ou retratos do trabalho nos EUA



Bastam 73 minutos de filme para dar um retrato exacto do mundo laboral dos EUA no seu nível médio e médio baixo. É esse o grande mérito de "Bubble" do americano Steven Soderbergh. Está lá tudo: o mundo do duplo emprego; a ausência de vida familiar; a precariedade social; a organização da vida íntima e afectiva em função do trabalho e não o contrário; a obsessão de produtividade de produtos banais, rascas e foleiros, bem mais supérfluos que champanhe ou uma pulseira de tornozelo; as roulottes como dormitório de conveniência; a fast-food e a TV como recompensas maiores após uma jornada de trabalho; a ausência de cultura e de horizontes intelectuais; o exercício intelectual reduzido ao cálculo das economias para comprar o próximo electrodoméstico ou o próximo carro em segunda mão.

"Bubble" apresenta tudo isto e muito mais, economizando em diálogos. "Bubble" é filme em que o silêncio tem a língua solta. A narrativa, simples mas complexa nos detalhes chave, funciona como elegante espinha dorsal deste filmo-erectus da Dogme 95, sem dúvida num estado evolutivo superior ao do típico Hollywoodopitecus.


Os retratos do trabalho no Abrupto



Os retratos do trabalho exibidos até hoje no Abrupto, e que com certeza JPP continuará a publicar no seu blogue, são de certa forma o lado cor-de-rosa dos retratos de Soderbergh. Chamo-lhes retratos cor-de-rosa porque apelam ao imaginário do trabalhador-modelo visto pelo prisma liberal dos neo-conservadores. Através desses retratos, desses instantes, que apesar de representarem gestos repetitivos, não deixam de ser instantes, podemos contemplar um trabalhador em poses simples mas dignas, em poses humildes mas dignas, um trabalhador sujo mas digno, um trabalhador suado mas digno, ali não há lugar para palhaçadas sindicalistas ou artistas plásticos (que não são considerados trabalhadores nesse imaginário), nada de cow parades que um verdadeiro trabalhador é um homem sério e só se diverte em dia de casamento dos filhos ou dos netos. É curiosa a semelhança com o trabalhador-modelo soviético. Todos estes retratos do Abrupto servem para projectar a imagem de uma sociedade que só vive bem quando tolera a exploração e a precariedade. É esta mesma entrada do Abrupto que o denuncia, sobre aqueles coreanos do Starbucks que pelo menos ganham dinheiro "certamente pouco, mas algum", tal como os personagens de "Bubble", certamente pouco, mas algum. ..
No meio neo-conservador o fantasma do trabalhador-modelo explorado, mas digno e obviamente feliz, serve de consolo moral para que se possa beber tranquilamente um whisky de manhã e outro pela tarde no aconchego de um gabinete onde não cheira a suor e onde não entram botas cagadas de lama. Nalguns desses gabinetes até existem umas miniaturas de vacas das cow parades que um amigo trouxe de Londres ou de Varsóvia, mas ali não se corre perigo algum, ali está-se ao abrigo da ira do desempregado de Pevidém.

sábado, setembro 23, 2006

Autorização para matar

"Hoje já fiquei siderada numa escola dos filhotes: alguns pais estão a passar autorizações para os filhos sairem nos intervalos, para poderem ir comprar ao café da esquina aquilo que deixou de haver no bar da escola [fritos, refrigerantes açucarados e doces]"

Eva Lima
(na caixa de comentários de "Aplauso para o Ministério da Educação")

quinta-feira, setembro 21, 2006

American Vertigo e a negação do darwinismo

Sobre sinais que revelam a desregulação dos mecanismos de memória:

"Comment le même pays peut-il être à la fois le lieu d'un Mémorial de la Shoah aussi exceptionnel et celui, sur le bord d'une autoroute du Sud Dakota, d'une exposition permanente de fossiles censée révoquer en doute les hypothèses du darwinisme?"

"American Vertigo", Bernard-Henry Lévy, Grasset, 2006, pag. 387.

Aplauso para o Ministério da Educação

Pela medida que visa a proibição de venda de refrigerantes sem fruta, fritos e doces nas máquinas e nos bares das escolas.

Num país que ficou histérico por uma baliza de andebol ter caído numa ocasião sobre uma criança, parece-me no mínimo doentio a calma e a tranquilidade com que se tem encarado o crescimento assustador do número de crianças obesas ou com excesso de peso (actualmente cerca de 1/3). Estas crianças correm sérios riscos de contrair diabetes desde muito cedo e de morrer precocemente.

Para a medida ser perfeita faltaria apenas complementá-la com mais exercício físico nas escolas e uma cultura de informação para pais e educadores sobre nutricionismo e consumo.

quarta-feira, setembro 20, 2006

O mapa de Buracos Negros do Universo



Graças ao telescópio espacial de raios gama da ESA, o telescópio INTEGRAL, foi elaborado o primeiro mapa de buracos negros do Universo. A representação da Terra no mapa, serve para ilustrar o papel do nosso planeta na ocultação de fontes de radiação mais intensas capazes de ofuscar a observação da radiação emitida pelos buracos negros.

terça-feira, setembro 19, 2006

American Vertigo - o retrato de uma América doente

Bernard-Henri Lévy foi convidado pela revista cultural e literária Atlantic Monthly para percorrer e estudar a América seguindo os mesmos passos de Alexis de Tocqueville aquando da sua viagem pela jovem democracia americana em 1831. O propósito do périplo de Tocqueville pelos EUA foi o de estudar o sistema prisional americano, tendo publicado as conclusões da sua viagem na obra "Democracy in America".

"American Vertigo" de Bernard-Henri Lévy (BHL) é muito mais do que um estudo sobre o sistema prisional americano (aconselho-o vivamente ao caríssimo Zé Amaral), é um diagnóstico de um país que não é um país qualquer, quer o amemos quer o detestemos, trata-se do país mais influente do mundo.

O diagnóstico de BHL é claro, BHL encontra um país visivelmente doente, nas palavras do autor "une nation plus incertaine de ce qu'elle est, mal assurée de ce qu'elle devient, indéterminée quant à la valeur des valeurs, c'est-à-dire des mythes, qui l'ont fondée; c'est un trouble; c'est un malaise; c'est un vacillement des repères et des certitudes, un vertige" (pag.385). BHL justifica a sua tese de uma América doente recorrendo a quatro séries de sinais:

1) A desregulação dos mecanismos de memória. Exemplos de BHL: a negação do evolucionismo, a história fictícia do baseball contada no Hall of Fame de Cooperstown, os múltiplos museus onde o imaginário disney se substitui à história, a deturpação da nacionalidade dos piratas do ar do 11 de Setembro identificados como iraquianos nas sondagens, etc;

2) A obesidade económica, financeira e política: os giga-centros comerciais, as mega-igrejas, os ultra-parques de estacionamento (cliquem a apreciem o contraste), etc. Curiosamente BHL não dá importância à obesidade física dos Americanos;

3) As fracturas no espaço político e social. Basicamente, BHL anuncia o fim do melting pot e faz uma leitura de uma tribalização, de uma balcanização e de uma desintegração da sociedade;

4) A pobreza, a exclusão e as prisões. Para caracterizar estes sinais BHL chega a citar Pierre Bourdieu, embora não concordando totalmente com o autor: "[l'Amérique] a choisi d'opposer l'Etat pénal à l'Etat social, le modèle l'Etat-pénitence à celui de l'Etat providence, le filet des contrôles policiers puis carcéraux à celui du revenu minimal et des soins médicaux garantis" (pag. 396).

Sou suspeito para avaliar BHL, mas na minha opinião este é o livro do ano (não acredito em milagres até 31 de Dezembro de 2006) por razões que vão desde a forma ao conteúdo. "American Vertigo" é também o livro mais bem escrito entre todos os que li do autor. Continuarei a comentar "American Vertigo" em próximas entradas.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Blasfémias: o nosso Loose Change

Entradas como esta fazem com que a credibilidade do blogue Blasfémias seja a mesma de uma coluna de astrologia ou do filme Loose Change. Ignorância pimba e fuga para frente justificam tudo; tudo pode ser ciência, desde o Loose Change ao niilismo do Holocausto.

Colin Powell, esse anti-americano primário...

"The world is beginning to doubt the moral basis of our fight against terrorism" - frase de Collin Powell contida numa carta enviada ao senador John McCain.

Esta frase revela não apenas até que ponto já se percebeu nos EUA o descalabro a que chegou a política externa americana, como revela ainda, a nível nacional, o radicalismo - nalguns casos fanatismo - daqueles que continuam a defender todas as barbaridades cometidas a nível internacional pela Administração Bush.
Portugal já contava com alguns dos comunistas mais ortodoxos da Europa, mas agora conta também com alguns dos apoiantes de Bush mais fanáticos e mais radicais à face da Terra.

PS- Aqui a resposta de Bush a Powell. Aquele engasgar é revelador...

domingo, setembro 17, 2006

Começou a Rentrée Literária Francesa

A Rentrée Literária Francesa já mexe, em Portugal é possível assistir aos interessantes debates e entrevistas na TV5 ou na France 2 (depende do pacote de canais do serviço de TV cabo ou satélite). Aqui ficam as sugestões desta semana: o programa "Esprits libres" de Guillaume Durand e "On n'est pas couché" de Laurent Ruquier. Em "Esprits libres" a seguir a apresentação dos livros de Maurice G. Dantec e de Jean-François Kahn, o primeiro define-se como autor de direita cyber-punk e o segundo como autor de esquerda-centrista revolucionária... O programa de Laurent Ruquier começa em grande com a apresentação do novo livro de Christine Angot, "Rendez-vous".

sábado, setembro 16, 2006

Desmentir Loose Change 2

O segundo grande argumento (ver antepenúltima entrada) da teoria da conspiração lançada pelo filme "Loose Change" retoma as teorias de Meyssan sobre a derrocada das Torres Gémeas. Entre os múltiplos delírios de Meyssan sobre o 11 de Setembro de Nova Iorque (ex: Meyssan afirma que os aviões eram telecomandados...), no seu livro "L'Effroyable Imposture" é explicada a derrocada das torres gémeas pela colocação de bombas no interior do edifício, justificando Meyssan que duas torres modernas e bem equipadas não deveriam cair após um impacto com um avião. E exemplifica invocando um acidente em que um pequeno avião chocou contra o Empire State Building, sem que o edifício tivesse corrido risco de derrocada. Isto até parece lógico, mas o problema é que Meyssan ignorava que a estrutura que suporta as Torres Gémeas é completamente diferente da estrutura do Empire State Building (existem 300 mil reportagens de TV que explicam detalhadamente estas diferenças).

O que suporta o peso das Torres Gémeas é a estrutura externa em aço, visível na foto. No caso do Empire State Building (ESB) a mesma função é desempenhada por uma "gaiola" de colunas internas e externas de betão armado. A grande vantagem da estrutura externa das Torres é a de permitir maximizar a superfície dedicada aos gabinetes das empresas, dada a ausência de colunas interiores. Deste modo, cada andar das Torres Gémeas consistia de amplos espaços de gabinetes separados por placas de gesso com uma cavidade central para os elevadores, suportada por uma estrutura metálica mais ligeira. Apesar das Torres terem sido concebidas para aguentar um choque de um avião de linha a uma velocidade normal, a ausência de colunas internas (como as do ESB) e a velocidade bastante elevada a que os aviões (de tanques cheios) se projectaram contra as Torres, resultaram na destruição irreversível da estrutura interna - que não suportava o peso do edifício - e na fusão dos pisos directamente tocados. Progressivamente alguns dos pisos superiores começaram a cair fazendo cair por sua vez o piso logo abaixo até formar uma avalanche impossível de ser contida pela estrutura externa do edifício, provocando a derrocada das Torres. Obviamente que isto nunca poderia acontecer no ESB. No caso da Torre 2, o facto de o avião ter entrado junto a uma das arestas do edifício, fez com que esta Torre, apesar de ter sido atingida mais tarde, se tivesse desmoronado mais rapidamente, dada a distribuição assimétrica do peso dos pisos superiores sobre os pisos inferiores.

Analisando o atentado às Torres à distância de 5 anos percebe-se que acidentalmente a coisa correu demasiado bem para a malta da Al-Qaeda. Certamente ninguém deve ter analisado estas particularidades arquitectónicas que contribuiram para o sucesso da operação.

A teoria ucraniana sobre a ideia do 11 de Setembro
Uma teoria que eu considero mais provável sobre a ideia de lançar aviões de linha sobre as Torres Gémeas é lançada por Nima Zamar, ex-agente da Mossad, no seu livro "Je devais aussi tuer". Segundo a autora, tanto a URSS como os EUA durante a Guerra Fria possuíam planos para se atacar mutuamente caso as forças militares convencionais ficassem inoperacionais. Por exemplo, se os EUA lançassem um ataque de mísseis que destruísse por completo o arsenal militar da URSS, os agentes soviéticos infiltrados nos EUA estavam encarregues de organizar ataques com o que houvesse à "mão". Uma maneira de o fazerem, seria utilizando aviões de linha como cocktails molotov contra o Pentágono, a Casa Branca, o Capitólio, etc. Segundo Nima Zamar depois do fim da Guerra Fria alguns destes planos teriam sido vendidos por um ucraniano à Al-Qaeda. Nima reforça esta hipótese relembrando o avião de linha abatido por um míssil da marinha ucraniana pouco tempo depois do 11 de Setembro. Segundo Nima o lançamento do míssil não se tratou de um acidente, mas de um ajusto de contas com o ucraniano que vendeu os planos à Al-Qaeda. O acidente foi investigado pela Mossad, dado que se encontravam a bordo israelitas. O referido avião tinha partido de Israel com destino à Siberia.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Desmentir Loose Change 1

Para desmentir o ponto 1) (ver entrada anterior) bastariam as mais de duas mil testemunhas que observaram o avião a colidir contra o Pentágono (algumas dezenas passaram nos canais de TV franceses). Quem conhece Washington sabe que existe uma auto-estrada multi-vias que passa mesmo ao lado do Pentágono e que permite observar em perfeitas condições (do camarote) ao longo de cerca de 3 km o choque de um avião contra o referido edifício. Meyssan deve ter julgado certamente que o Pentágono ficava situado entre ruelas do tipo arrondissement de Paris... Como se isso não bastasse foi divulgado recentemente o vídeo do parque de estacionamento do Pentágono em que se pode observar a colisão do avião com o edifício.
No entanto, resta a questão dos destroços do avião. Fazia uma certa confusão a Meyssan o facto de não serem visíveis destroços de dimensões consideráveis nas imagens divulgadas e de o Pentágono apresentar apenas um "pequeno" buraco. Meyssan não é físico, mas se ele lançasse um cocktail molotov contra um muro de tijolo, Meyssan iria compreender tudo. Depois da gasolina da garrafa arder completamente, Meyssan não iria conseguir distinguir os destroços da garrafa que sobrassem, da mesma maneira o muro de tijolo provavelmente iria apresentar apenas um pequeno buraco. Os aviões foram projectados para transportar seres humanos, mas se lhes derem aquele tipo de utilização são autênticos cocktails molotov voadores, objectivamente: um frágil recipiente cheio de gasolina.

(falta escrever sobre o ponto 2)

Loose Change: um big mac de vaca louca

Na mesma linha da astrologia, do niilismo do aquecimento global, do "atentado" a Sá Carneiro, das aparições de Fátima e da negação do Darwinismo, o filme "Loose Change" parte de alguns factos reais e científicos para forjar uma charlatanice atractiva e popular, contribuindo para a estupidificação global.

Em 2002, estava em França, e assisti em directo à apresentação do livro de "Effroyable Imposture" de Thierry Meyssan no programa "Tout le Monde en Parle" que narra uma mirabolante teoria da conspiração segundo a qual teria sido a própria administração Bush a autora dos ataques do 11 de Setembro. Toda a sua teoria é apoiada em informações retiradas da internet, praticamente Meyssan não levantou o traseiro da sua cadeirinha de computador, para chegar àquelas impressionantes conclusões. No início do programa pensei para comigo: "bem, mais um cromo profissional em teorias da conspiração, ninguém vai ligar a isto". Mas logo a reacção dos convidados do programa deu a entender que aquela teoria era demasiado popular para a coisa ficar por ali. Um dia depois a TF1 e vários jornais franceses desmontavam os pontos basilares da teoria de Meyssan. No entanto, passadas duas semanas, o livro de Meyssan era o primeiro lugar do top de vendas em França. Passado muito pouco tempo Jean Guisnel e Guillaume Dasquié - duas das pessoas mais bem informadas deste planeta sobre serviços secretos e afins - desmontaram o delírio de Meyssan através do livro "L'imposture démontée". Desde então Thierry Meyssan passou à categoria de cromo público, com uma quota de credibilidade abaixo de zero, levando infelizmente por tabela o interessante Reseau Voltaire, ao qual ainda preside.

O que se faz em Loose Change é uma espécie de enlatado das teorias de Thierry Meyssan, um big mac feito a partir de um filet mignon de vaca louca, feito a pensar no americano médio. Os dois grandes argumentos de Loose Change retomam duas teorias de Thierry Meyssan sobre o 11 de Setembro:

1) Não foi um avião que chocou contra o Pentágono;
2) O colapso das Torres Gémeas não se deveu ao choque e explosão dos aviões.

quinta-feira, setembro 14, 2006

O que é o capitalismo selvagem?

É isto:

"It is ridiculous to call this an industry. This is not. This is rat eat rat, dog eat dog. I'll kill'em, and I'm going to kill'em before they kill me. You're talking about the American way - of survival of the fittest."

Ray Kroc proprietário e verdadeiro impulsionador da cadeia McDonalds entre 1961 e 1984.

quarta-feira, setembro 13, 2006

A coca é o ópio das FARC

Ivan Rios, um graduado das FARC, em entrevista a Bernard-Henri Lévy (em "Réflexions sur la Guerre, le Mal et la Fin de l´Histoire"):

"est-ce que c'est normal de voir des petits propiétaires qui, non contents de travailler comme des mules, se font racheter leurs lopins pour une bouchée de pain par les latifundiaires? Réponse: non; on ne va pas accepter, sans réagir, la progression, à la faveur de la coca, du grand capital dans la campagne colombienne. (...) On taxe. On prélève un impôt sur les latifundiaires. Et, accesoirement, on empêche que les énormes flux de richesse générés par le commerce de la pâte à coca aillent finir dans les paradis fiscaux."

Taxas... Está-se mesmo a ver...
As FARC embriagadas pelos milhões da coca que servem para financiar o seu apetite insaciável por armas, com toda a lata do mundo, introduzem-se na cadeia da negociata da coca que vai desde o pequeno produtor até ao paraíso fiscal. As FARC são uma espécie de proxeneta do pequeno produtor e de dealer do grande capital, utilizando os métodos típicos de banais traficantes, queimando, violando e torturando, como o fizeram no campo de Los Pozos, ou recrutando crianças-soldado, ou ainda recorrendo aos raptos em massa.
Em linguagem marxista poderíamos de dizer que a coca é o ópio das FARC.

terça-feira, setembro 12, 2006

O impacto da SMART 1

Ao lado um mini-filme do impacto da SMART 1 com a superfície lunar (sítio ESA), a partir das observações realizadas pelo Canada-France-Hawaii Telescope.

Aqui a simulação do impacto da SMART 1 com a Lua realizada em laboratório na Universdade de Kent no Reino Unido.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Mais um atentado no Iraque...

Já se tornaram tão banais os atentados no Iraque, que foram raros os telejornais ocidentais que noticiaram hoje a morte de mais 13 iraquianos num atentado à bomba. Hoje, as vítimas foram novos recrutas do exército iraquiano que supostamente é aliado da coligação que ocupa o Iraque. Será que os aliados da coligação renderam também a estes 13 soldados a homenagem devida?

Estou fora do país e o Prós e Contras de hoje só é transmitido às quartas na RTPi. No entanto, duvido muito que o ilustre convidado do programa que vai tomar o partido da Administração Bush faça alguma referência à morte no dia de hoje destes 13 "aliados".

Esquerda conservadora? Não obrigado!

Caro Miguel Madeira,

A minha crítica à Ruptura pouco tem a ver com radicalismo. O radicalismo não tem cor política. Radical pode ser a extrema-direita, os No Name Boys ou os Super-Dragões, uma associação pró-vida, uma mensagem papal contra o preservativo ou os artigos do João César das Neves e do José Manuel Fernandes.

O que critico na Ruptura é sobretudo seu conservadorismo e, em parte, a pobreza e a simplicidade dos seus textos e das suas reflexões políticas. Este segundo ponto pode ser verificado através de uma rápida visita ao sítio internet da Ruptura.

O conservadorismo da Ruptura baseia-se numa visão hermética da esquerda e numa leitura dogmática do marxismo que culmina na cristalização ideológica do movimento. É um conservadorismo que recupera muito do imaginário e dos tiques autoritários que caracterizavam grande parte da esquerda do final do século XIX e do início do século XX. Nesses tempos em que o mundo era dominado pela direita e em que a democracia, os sindicatos e a cidadania eram uma miragem, o crescimento da esquerda usou das mesmas formas de violência que a direita (era normal naqueles tempos).

A Ruptura não simpatiza com as "causas fracturantes" (inclusivamente o aborto), é contra a paridade e cada vez que se pronunciam sobre a sexualidade nota-se muito desconforto nas entre-linhas.

A Ruptura é contra instituições internacionais como a ONU e a UE, encontrando-se assim na prática mais próxima dos neo-conservadores quando estes defendem a primazia do belicismo internacional (guerrilha internacional na versão Ruptura), do que propriamente da esquerda que defende a primazia do direito internacional e que privilegia a razão ao som das botas a marchar.

A Ruptura não gosta do Maio de 68, não gosta da esquerda que questiona e que se questiona e não gosta do pós-modernismo.

Acontecimentos como o fim do regime soviético, a Primavera de Praga e a revolta húngara contra a invasão soviética são analisados telegraficamente nos textos da Ruptura.

A Ruptura enfeita o seu discurso com as palavras "revolução" e "trabalhador" como quem distribuiu bolinhas vermelhas numa árvore de Natal. As revoluções não se fazem com conteúdos conservadores, fazem-se com conteúdos inovadores e vanguardistas, algo inexistente no discurso da Ruptura. Os membros da Ruptura continuam a pronunciar as palavras "trabalhador", "operário", "camponês", etc., como se a composição actual das nossa sociedade fosse ainda dominada pelos sectores primário e secundário, tal como início do século XX.

Caro Miguel Madeira, quanto à questão das alas esquerda ou direita do BE, no que me toca a resposta está dada. Vejo o autoritarismo e o conservadorismo da Ruptura do lado do MRPP e do PCP, vejo-os a clonar a direita, como se fazia (erradamente) no início do século XX. Nesse cruzamento, eu guino à esquerda!

quinta-feira, setembro 07, 2006

Česky Sen (Sonho Checo) no canal Arte

"O Sonho Checo", um filme fortemente recomendado pela Klepsýdra no canal ARTE, é transmitido amanhã às 22.50 (hora de Portugal). Ler comentário Klepcinema sobre "O Sonho Checo".

quarta-feira, setembro 06, 2006

Para a esquerda do Não ao Tratado Constitucional

Depois da crise do Líbano e depois deste abuso dos aviões da CIA que acumula com abuso do programa de espionagem ECHELON, pergunto aos meus amigos de esquerda que defendem o Não ao Tratado Constitucional, se sinceramente acham que estamos melhor assim? Será esta a nossa Europa? Uma Europa com uma política internacional confusa, fraca, sujeita aos caprichos da Polónia (por sua vez condicionada pelos dólares de Fundações George Soros e afins) ou do Reino Unido; uma Europa cuja política externa está sujeita ao calendário das eleições francesas, italianas, alemãs ou britânicas; uma Europa vergada ao poder dos Conselhos de Ministros em que o Parlamento Europeu tem um papel de figurante. É isto que realmente queremos?

Entretanto, a Administração Bush e os que defendem o liberalismo económico mais selvagem (basta ler os nosso blogues) agradecem tanto o Não francês como o Não holandês...

terça-feira, setembro 05, 2006

Gata Preta*, Gato Branco



"Gato Preto Gato Branco" é uma comédia maravilhosa, uma pérola cinematográfica de Emir Kusturica. Todos os detalhes que nos são revelados pelo enquadramento da câmara de filmar são deliciosos, fazendo lembrar aquelas bandas desenhadas em que personagens minúsculas desenvolvem múltiplas histórias paralelas à história principal, nos cantos de cada quadradinho. "Gato Preto Gato Branco" também pode ser isso, uma banda desenhada de carne e osso, e nesse caso seria na minha opinião a melhor banda desenhada transposta para o cinema. "Gato Preto Gato Branco" também pode ser visto como um conto de fadas balcânico, um atestado de incompetência aos milhões da Disney, um conto fadas como deve de ser, com ciganos, meninos virgens (gatos brancos), meninas desinibidas (gatas pretas) e famílias assanhadas de navalha em riste. É o mundo encantado dos balcãs!

Como é habitual nos filmes de Kusturica, o elenco de actores é excelente. Srdjan Todorovic está absolutamente intratável neste filme no papel do mafioso Dadan. O grande Miki Manojlovic assume um papel secundário desta vez, mas para mim é sempre um prazer vê-lo no écran. Fico cada vez mais convencido que alguns dos melhores actores do planeta andam ali pelos balcãs, só é pena não chegarem até nós mais filmes daquela zona da Europa.

Tenho a doce memória de rir às gargalhadas vendo este filme acompanhado da minha avó paterna que é analfabeta (eu bem tentei formar uma brigada de alfabetização da minha avó, mas não tive sucesso). Constatei como "Gato Preto Gato Branco" tem o raro dom de recorrer a uma linguagem universal, compreensível mesmo para quem nem lê legendas, nem percebe sérvio.



* A Eva Lima chamou-me a atenção, e com razão, para o facto da tradução directa do título original "Crna macka, beli macor" ser "Gata Preta, Gato Branco", o que está mais de acordo com os "gatos" e as "gatas" do filme. Desconfio que o título português do filme deva ter sido traduzido do título inglês (cat é gata e gato...) ou do francês. Em francês chatte pode significar muito mais do que uma simples gata...

segunda-feira, setembro 04, 2006

Concordo II

Concordo em absoluto com o texto "Política imberbe" da Joana Amaral Dias sobre um certo tom de machismo de pacotilha que está a marcar os preparativos das presidenciais francesas. Aliás, recentemente escrevi aqui um texto (meio delirante, admito) que aborda o mesmo assunto pelo prisma dos temíveis segredos da casa de banho para cavalheiros.

Concordo I

Concordo inteiramente com o texto "Baby-boom, Papy-boom" do David Luz.

domingo, setembro 03, 2006

SMART 1: ciência kamikaze



Depois de uma missão marcada pelo sucesso da utilização de um motor iónico e pela análise detalhada da superfície lunar, a a sonda SMART-1 chegou ao fim da sua missão de uma forma espectacular, estatelando-se como previsto na superfície lunar! Os fragmentos do solo e do subsolo lunar projectados pela colisão foram prontamente analisados por instrumentos baseados na Terra e serviram para produzir ainda mais ciência.

As fotografias aqui apresentadas foram obtidas pelo Canada-France-Hawaii Telescope instalado no cimo do vulcão Mauna Kea, a 4200m de altitude.

sábado, setembro 02, 2006

Sábado em Coimbra XXX: cidades universitárias

Enquanto contemplava o Mondego, lá de cima da Couraça, dei por mim a pensar na minha cidade tipo. Gosto dessas cidadezinhas, nem muito grandes nem muito pequenas, que fervilham ao ritmo de uma universidade. Freiburg, Tübingen, Pádua, Ferrara, Bolonha, Olomouc, Salamanca, Leuven, Würsburg, Louvain-la-Neuve ou Leicester são tudo cidades que rimam com o meu modo de vida. Oxford, Santiago de Compostela e Heidelberg são cidades que já admiro antes mesmo de lá ter metido os pés (aceito convites). Também gosto de cidades grandes que parecem pequenas, como Bruxelas, ou cidades grandes que não parecem grandes, como Munique. Mas não gosto de cidades grandes como Lisboa, Londres, Hong Kong ou Los Angeles, não gosto do reino do tubo de escape, do alcatrão e do betão.
É a maldição de Coimbra... mas é uma boa maldição.

Sábado em Coimbra XXIX

Filhos de uma grande Helena!

Os filhos de Helena, esses mediterrânicos(as) peludos(as) a quem devemos a Odisseia, a filosofia, os primeiros rudimentos científicos (com Ptolomeu, Pitágoras e Arquimedes) e os jogos olímpicos, voltaram a fazer das deles. Já não bastava a estrondosa vitória contra a Troia de Heitor ou o surpreendente título no Euro 2004, desta vez foram só os EUA nas meias-finais do campeonato do mundo de basquete adecorrer no Japão. Sabemos que esta equipa dos EUA não é a verdadeira constelação, mesmo assim é obra.
Na final segue-se a Espanha. Estou com os filhos de Helena e tal qual um verdadeiro épico grego vou manipular Zeus e todo Olimpo, usar de todas as artimanhas próprias do Olimpo para dar a vitória à Grécia. ΣΛΛΑΔΑ!!

quinta-feira, agosto 31, 2006

Um amigo libanês e a popularidade do Hezbollah

Um amigo libanês com o qual almocei diariamente durante os quatro anos que passei em França, descrevia-nos com orgulho a vida da sua irmã a viver em Beirute, uma rapariga dinâmica nas palavras dele, que trabalhava numa rádio, se vestia bem e até escolhia os namorados. No entanto, quando o motivo de conversa era Israel, ele não escondia a sua simpatia pelo Hezbollah, justificando que era o único movimento que fazia frente a Israel, que na altura ainda ocupava o sul do Líbano. Perante a sua simpatia pelo Hezbollah, juntamente com um colega francês, fizemos-lhe notar que se o Hezbollah alguma vez fosse governo no Líbano a sua irmã seria obrigada a cobrir o cabelo, deixaria de trabalhar na rádio e passaria os dias em casa à mercê de um marido que muito provavelmente não iria escolher.
As nossas palavras não lhe foram indiferentes, sem o referir directamente, deu-nos a entender que só tolerava o lado fascista do Hezbollah enquanto Israel ocupasse ou ameaçasse o sul do Líbano.

Este amigo libanês não é um caso isolado, grande parte do apoio ao Hezbollah possui este cariz. No fundo é um apoio que não partilha da doutrina do movimento, mas que o considera fundamental no conflito permanente contra Israel. E é aqui que discordo (apenas parcialmente) do Luís.

Não são os ataques de Israel ao Hezbollah que me incomodaram - pelos quais não verti a menor lágrima - o que me incomodou foi ver o Líbano bombardeado a eito, o que me incomodou foi o ataque ao Líbano país e não ao Hezbollah no Líbano, foi ver pontes destruidas, o aeroporto esburacado, uma maré negra de dezenas de quilómetros e ver libaneses muçulmanos, judeus e cristãos com a casa às costas perdidos no seu próprio país. Isto vai ter o seu preço e será um preço alto: o reforço do Hezbollah em simpatizantes, militantes e activistas. A próxima geração de vingança e de ódio está já na forja. Não será surpresa nenhuma se o Hezbollah aderir à moda dos atentados suicida.

A justificação do ataque ao Líbano país, às suas infrastruturas e às suas vias de comunicação, segundo a qual era necessário para impedir o fornecimento de armas ao Hezbollah é muito manhosa. E é manhosa por duas razões:

1 - Porque este ataque constituiu de facto um castigo (vingança diria o P. Varela Gomes) ao Estado Libanês, por não desarmar o Hezbollah. Para um país que viveu longos anos de guerra civil, desarmar o Hezbollah poderia significar o reacender dos velhos ódios e mergulhar de novo o país na guerra. As manifestações de apoio ao Hezbollah depois da saída das tropas Sírias são disso um indicador.

2 - Porque grande parte do circuito de fornecimento de armas ao Hezbollah passa por território de países "amigos" dos EUA. Actualmente, o Qatar é uma das maiores placas giratórias do tráfico de armas destinadas a grupos políticos como o Hezbollah. Diariamente, aterram e levantam voo Antonovs carregados de armas. A CIA sabe-o e até sabe mais ou menos para onde voam. Ora, será certamente mais eficaz para Israel - que já controla o espaço aéreo e marítimo do Líbano - pedir aos EUA para lhe dar uma ajuda no nó do tráfico de armas baseado no Qatar do que esburacar o aeroporto e escavacar os portos marítimos libaneses. Só que isso acarreta uma dificuldade. O negócio faraónico de armas em troca de petróleo entre os EUA e o Qatar poderia sofrer um abalo e a administração Bush não está disposta a isso. É mais fácil esburacar o aeroporto de Beirute...

Assim que o Líbano começou a ser bombardeado de alto a baixo enviei um email ao meu amigo libanês. Recebi resposta há poucos dias. Afinal ainda estava em França. Disse-me que a família no Líbano estava bem. O que me escreveu a seguir confirma os meus piores receios. O Hezbollah vai ter sem dúvida um vertiginoso acréscimo de popularidade e de simpatia. Infelizmente, é esta a verdadeira vitória do Hezbollah, é a vitória de um reforço político, do reforço de um fascismo alimentado pelo desejo de vingança e pelo ódio.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Armas de destruição em massa: Fanta

Cada garrafa de 1,5l contém:
- o equivalente a mais de 40 colheres-de-chá de açucar
- cerca de 700 kcal

Necessidades diárias:
homem - 2200 kcal
mulher - 1800 kcal

domingo, agosto 27, 2006

Charlie e a fábrica de chocolate: o original

Para os cinéfilos:
Hoje, no canal ARTE às 19.40 (uma boa hora para boicotar os telejornais kitsh das nossas televisões) será transmitido o filme original "Charlie e a fábrica de chocolate" realizado por Mel Stuart
35 anos antes da versão de Tim Burton.

Vasco Graça Moura invertendo a realidade

Na resposta de Vasco Graça Moura (edição de 3 de Agosto do DN) a um desinteressante comentário de um leitor podemos ler o seguinte:

"na verdade, a esquerda tem defendido o terrorismo ao longo das décadas: (...) fê-lo na defesa do Hamas, da Al-Qaeda, ou do Hezbollah..."

Esfreguem bem os olhos. Leram bem Al-Qaeda, não leram?
Ora, se Vasco Graça Moura se desse ao trabalho de ler as páginas 48 à 54 da obra "Against all enemies" de Richard Clarke - coordenador da Security Infrastructure Protection and Counterterrorism entre 1998 e 2003 - poderia poupar-nos de mais uma estrondosa bojarda. Ao longo dessas 7 páginas Richard Clarke explica detalhadamente como a CIA escolheu, formou e apoiou Ben Laden e os talibãs. Clarke descreve detalhadamente o apoio dado aos grupos armados constituídos por aqueles que viriam a ser os talibãs, nomeadamente através do fornecimento de mísseis Stinger, mísseis esses que foram essenciais para aniquilar os helicópteros soviéticos Hind-D. Podemos ler como o falcão Richard Perle teve a brilhante ideia de criar campos de treino para mujahedines no Paquistão (tão uteis que foram depois para Ben Laden). E podemos ainda ler o processo de recrutamento de Ben Laden seguindo a sugestão dos serviços secretos sauditas.

Esta forma de inverter a realidade, de dar cambalhotas à história, de transmutar o agredido em agressor e vice-versa tem sido uma arma frequentemente utilizada pelos mais radicais defensores da administração Bush. Não espanta pois o resultado da famosa sondagem em que os americanos designaram maioritariamente como sendo iraquiana a nacionalidade dos autores do 11 de Setembro e não a nacionalidade dominante: a Saudita.

quinta-feira, agosto 24, 2006

Plutão perdeu o estatuto planeta

A partir de agora é assim:



Depois do voto sobre a nova definição de planeta ocorrido na sessão de hoje da Assembleia Geral da União Astronómica Internacional em Praga, a nova catalogação dos corpos principais do sistema solar divide-se entre planeta e planeta-anão. Plutão passa a pertencer a esta última categoria. A frequência crescente a que estavam a ser descobertos corpos semelhantes a Plutão para lá da órbita deste ex-planeta foi a gota que fez transbordar o copo para que uma nova definição de planeta fosse estabelecida.

Hezbollah: vantagem simbólica do fascismo fashionable

Nos últimos tempos, poucos blogues me têm dado tanto prazer a ler como o Natureza do Mal. Apesar de não concordar com tudo o que o Luís tem escrito sobre o conflito entre Israel e o Hezbollah - mais tarde me explicarei sobre isso - gosto da forma autónoma como tem abordado o assunto, bem como a sua valiosa contribuição para o enriquecimento do debate à esquerda na blogosfera. Bem melhor e bem longe do habitual e seco ping-pong ideológico de duas partes que não cedem nem um passo que caracterizaram muitos debates anteriores da blogosfera.

Sobre a entrada do Luís "Hezbollah fashionable", independentemente de não subscrever tudo o que escreveu, destaco a passagem em que o Luís faz referência ao "grafismo poderoso do Hezbollah, uma mistura de orientalismo com fascismo fashionable". Ora esse mesmo fascismo fashionable, essa sedução, esse prestígio transmitido pelas diversas representações simbólicas do Hezbollah é abordado de uma forma interessante por Bernard-Henri Lévy nas suas respostas ao New York Times (registo gratuito):

"...the eternal rivalry between what in France we call the Girodins and the Montagnards, the moderates and the hardliners, the partisans of compromise and the apostles of violence or simply of radicality. We have known since 1789 that it is the latter who most often defeat the former. We know that there is a frightful prestige associated with the radical spirit. More precisely: we know that there is a terrible seductiveness, an ideologial and symbolic advantage, that goes with the Montagnard spirit. That, I think, is what is happening in the Muslim world today."

No passado esse deslumbramento pelo fascismo fashionable passou pelo barulho das botas dos desfiles da Juventude Hitleriana, do Exército Vermelho e da Mocidade Portuguesa, entre outros...

quarta-feira, agosto 23, 2006

A crise mundial de água potável

O relatório World Water Development de 2006 da ONU faz o ponto da situação sobre a crise mundial de água potável - ou água doce se quisermos ser mais abrangentes - e a conclusão deste relatório é que estamos bem pior do que se pensava. A penúria de água potável já afecta cerca de um terço da população mundial, cenário que se julgava ocorrer somente dentro de duas décadas. Os números sobre a utilização da água são muito preocupantes. Exemplos (ver resumo elaborado pela WWF):

- O consumo diário de água nas zonas urbanas da América do Norte é de 350 l/pessoa, 200 l/pessoa na Europa e 20 l/pessoa na África Subsariana;

- Para produzir um copo de leite são necessários cerca de 200 litros de água, um ovo cerca de 135 litros de água, um hambúrguer cerca de 2400 l, uma t-shirt cerca de 4100 l e um par de sapatos cerca de 8000 l.

- A Austrália é o continente mais seco e perdeu cerca de 15% da sua taxa de pluviosidade desde 1970. Convém referir que a Austrália é o maior emissor de gases de efeito de estufa per capita. Os EUA são o maior emissor em termos absolutos (cerca de 25% das emissões globais).

Na Semana Mundial da Água a decorrer em Estocolmo está a ser discutido o impacto planetário da actividade humana nos recursos naturais, as políticas a adoptar e o estudo dos complexos sistemas naturais.
Parece evidente que a forma como estão organizadas as nossas sociedades, sobretudo a "ocidental", vai ter que mudar muito. As nossas noções de produtividade, de consumo, de propriedade, etc., vão ter que mudar muito sob pena de pagarmos o preço forte causado por penúrias extremas de água potável em certas zonas do planeta (a península Ibérica é uma das de maior risco): migrações incontroláveis, conflitos, concentrações excessivas de populações, epidemias, mortes em massa, etc.



O folclore habitual destas coisas
Obviamente, já sabemos que os João Miranda e os engenheiros (atenção não se esqueçam que o homem é engenheiro) Rui Moura deste mundo vão ler nisto mais uma campanha contra a sacro-santa administração Bush e consequentemente contra toda a sua catequese de liberalismo selvagem num contexto neo-conservador. Mas até tem a sua piada, faz parte do folclore que rodeia a história da ciência, como a célebre história dos monges que gozaram com Galileu agarrando-se a colunas para não caírem quando este lhes anunciou que a Terra se movia.

terça-feira, agosto 22, 2006

Bernard-Henri Lévy sobre Israel

Mais um post atrasado:

Aqui, ensaio de Bernard-Henri Lévy (BHL) sobre Israel no New York Times (o registo é gratuito).

Questões a BHL sobre o mesmo ensaio.

No dia em que saiu o ensaio lembro-me de BHL ser capa de alguns jornais alemães à venda em Portugal. No mesmo dia, nos nossos jornais (DN e Público), nada encontrei sobre o ensaio de BHL. O Correio da Manhã, o jornal do Portugal kitsch, vendia-se às molhadas. Do ponto de vista intelectual foi um dia deprimente, mas foi também um excelente dia de férias, entre pinheiros mansos, dunas e generosas ondas do Oceano Atlântico.

segunda-feira, agosto 21, 2006

O Médio Oriente e a Europa

Tinha este post entalado há três semanas.
Recomendado também pelo Bruno do Avatares, um bom texto crítico de Tomothy Ash sobre as responsabilidades da Europa em Israel e no Médio Oriente.

Resposta a JPP: Israel ganhou todas as guerras...

No Abrupto é colocada a seguinte questão:

QUEM “GANHOU” A GUERRA ENTRE ISRAEL E O HEZBOLLAH?

A minha resposta é: Israel ganhou todas as guerras em que participou até hoje, inclusive esta. E se nos lembrarmos bem, no passado Israel ganhou guerras de uma forma ainda mais categórica do que desta vez. E qual é o resultado dessas vitórias militares? Será que se traduziram sempre em vitórias políticas? Não, claro que não. A experiência mostra que ganhar guerras naquela região do mundo não basta e isso já muita gente neste planeta percebeu, inclusive em Israel. Os protestos em Israel contra a intervenção no Líbano não são tanto contra os ataques ao Hezbollah ou contra os danos colaterais, os protestos surgem porque aqueles israelitas, que conseguem manter o sangue frio para fazer uma leitura política moderada, sabem que mesmo ganhando ao Hezbollah, essa vitória não se traduz numa vitória política, sobretudo quando se bombardeia o Líbano a eito, como se o país de norte a sul fosse um feudo de terroristas. Esses Israelitas sabem bem que no rescaldo desta guerra o Hezbollah se reforçou em simpatizantes, militantes e activistas e mais cedo ou mais tarde tudo poderá recomeçar. Esta sim é a verdadeira vitória do Hezbollah. E este é um facto independente do sucesso ou insucesso da força internacional que será colocada no sul do Líbano. É isso que o texto de JPP deixa de fora, é de certa forma um erro semelhante ao que se está a pagar no Iraque.


Reparos à forma como JPP analisa o papel da França no conflito
JPP postula que a vitória de Israel vai depender "do modo como for aplicada a resolução da ONU, em particular do modo como for constituída a força internacional que controlará o sul do Líbano e o modo como esta actuará". Isto é quase sinónimo de afirmar que se tudo correr bem a vitória será mais da França do que Israel, se for a França o país responsável pela força da ONU. Eu sei que JPP não queria ir tão longe, mas é onde o seu raciocínio nos leva.

Depois vale a pena analisar este parágrafo:
"...pode ser uma rara oportunidade para a França (e por interposta França para a UE) assumir um papel positivo na região, onde só tem tido um papel muito negativo, em particular pelas ambiguidades da sua política face ao conflito iraquiano."

Os Franceses e todos os que estão minimamente atentos às manobras internacionais que pretendem fazer da União Europeia um cão de companhia dos EUA, sabem que o sul do Líbano poderá ser aproveitado para preparar uma armadilha à França. Não será difícil fazê-lo, o historial de terrorismo dos EUA no Líbano é reputado - no caso do Líbano o sentido da palavra é realmente adequado, os EUA organizaram atentados à bomba que mataram dezenas de civis nos anos 80. Por isso quando se refere "por interposta França para a UE" está-se a dizer duas coisas: 1) o fracasso de um país membro, é o fracasso de toda a UE. O que levanta uma pergunta: o fracasso do Reino Unido ou da Polónia no Iraque serão também um fracasso da UE? 2) a política externa francesa é igual à da UE. O que é falso, infelizmente. Não seria uma política perfeita mas seria bem melhor do que a actual política da UE.
Finalmente, quando JPP refere que a França "só tem tido um papel muito negativo" na região "pelas ambiguidades da sua política face ao conflito iraquiano", JPP está a falar para os devotos da religião USA, para a tribuna dos fanáticos, tenho a certeza que o próprio JPP não acredita no que escreveu. Se não seria muito estranho que os países da região sugerissem a França para formar a força da ONU. Porque é que os ingleses e os americanos não vão para lá? Não é por problemas logísticos, certamente. Sabemos o que aconteceria: Iraque II.

sexta-feira, agosto 18, 2006

"Não espiamos os Sauditas. São nossos amigos"

Quem assistiu ao documentário "CIA, guerres secrètes" emitido pelo canal ARTE (pode ser adquirido aqui em DVD ou aqui em VOD) e ouviu as declarações de dezenas de ex-agentes da CIA e do FBI percebeu claramente dois factos relevantes que condicionaram fortemente a política americana de combate ao terrorismo nos últimos anos:

1- A ligação entre a Administração Bush e a família real Saudita.
Ainda antes do 11 de Setembro, mas depois de elementos da CIA descobrirem que o atentado de 1993 na garagem do World Trade Center tinha sido financiado pela família real Saudita, bem como outras tentativas e planos de atentados nos EUA, a resposta da administração Bush foi: "Não espiamos os sauditas. São nossos amigos". Relembro que na altura os EUA espiavam fortemente os seus "amigos" europeus, por exemplo tentando benificiar os negócios em que a Boeing competia com a Airbus (aqui a lista de empresas europeias que foram objecto de espionagem, secção 10.7).
Obviamente, todos nos perguntamos porque é que a família real saudita não é considerada terrorista, tal como a Al-Qaeda, o Irão, a Síria, o Hamas, o Hezbollah e Saddam. O problema é que tal como explicaram estes ex-agentes a Administração Bush está enterrada até às orelhas em petróleo saudita: Bush pai, Bush filho, Cheney e muitas das outras figurinhas secundárias de extrema-direita desta Administração. Todos estiveram ou estão envolvidos em negociatas envolvendo empresas petrolíferas com ligações a financiamento de campanhas e negócios de armas. Podemos pois concluir que só são considerados terroristas aqueles que não fazem negócios com a Administração Bush.

2 - A degradação dramática da CIA após o fim da Guerra Fria.
Os ex-agentes da CIA e da FBI foram unânimes na forte degradação que sofreram as respectivas agências depois do fim da Guerra Fria. A informação não circulava entre as duas agências, Clinton não simpatizava muito com os serviços secretos e a velha rivalidade entre a CIA e o FBI ainda piorava as coisas. Não é de estranhar que o aviso de que o 11 de Setembro estava a ser preparado tenha vindo de fora, de outros serviços secretos: da Alemanha, da França, do Egipto e de Israel. Por exemplo o dossier de Zacarias Moussaoui que os serviços secretos franceses transmitiram à delegação do FBI em Paris no início de 2001 nunca chegou às mãos do FBI nos EUA.

Nota sobre Vasco Graça Moura
Quem viu este excelente documentário ficou suficientemente informado para perceber que este artigo de Vasco Graça Moura é um chorrilho de asneiras de uma ponta à outra, não se aproveita nada.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Relembrando as tretas de V. G. Moura

V.G. Moura escreveu dia 2 de Agosto:
"A Europa não está em condições de se defender eficazmente contra o terrorismo. (...) Quando muito, a Europa consegue prevenir algumas acções e lá vai identificando e capturando ex-post uns responsáveis pelos atentados de Madrid e de Londres"

Bastaram 10 dias para a realidade liquidar as tretas que V.G. Moura vai escrevendo cronicamente sobre este assunto. Como já tinha referido antes, foi na Europa, ainda em 2000, que o primeiro atentado da Al-Qaeda foi desmantelado pelas polícias alemã e francesa em Estrasburgo. A probabilidade de V.G. Moura sofrer com o atentado de Estrasburgo estava longe de ser nula, visto que na altura já era eurodeputado e frequentava a cidade regularmente...

segunda-feira, agosto 14, 2006

Bons (mas raros) programas na RTP

Estas últimas semanas registei alguma boa programação na RTP, nomeadamente as séries Dresden e Tempestade, ambas alemãs, bem como uma série documentário sobre a corrida para espaço entre Korolev e Von Braun e uma interessante série sobre a emigração portuguesa. Julgo até, que esta série em vez de ser transmitida na Dois tarde e a más horas, deveria passar em horário nobre na RTP1 dada a importância da emigração na nossa história recente. Alguns portugueses muito incomodados com a recente vaga imigrantes chegados Portugal (cerca de 300 mil) ficariam certamente melhor informados sobre a dimensão da nossa emigração (cerca de 5 milhões de portugueses), sobre os distúrbios e problemas que originou nos países de acolhimento e sobre a componente fortemente ilegal da nosso tipo de emigração, especialmente para a França, a Suiça e a Alemanha.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Alinhamento de leitura de jornais

Com todo o tempo do mundo para ler, durante as últimas semanas alinhei assim as minhas leituras de jornais:

Segunda: DN
Terça: Público
Quarta: Público
Quinta: Público
Sexta: Correio Internacional
Sábado: DN

Houve um dia em que troquei o Público pelo DN, irritou-me o aproveitamento do Público da morte de Jorge de Brito para fazer a primeira página.

quinta-feira, agosto 03, 2006

A polícia alemã salvou o coiro de V.G. Moura e ele não sabe

No final do ano 2000 a polícia alemã em conjunto com a polícia francesa desmantelaram uma célula da Al Qaeda que se preparava para fazer um atentado no mercado de natal e na sinagoga de Estrasburgo locais habituais de passagem de eurodeputados, tal como V.G. Moura, na altura a cumprirem mandato no PE. O agradecimento do referido eurodeputado às polícias referidas é este.

quarta-feira, agosto 02, 2006

A angústia de um bloguista longe da internet

Longe da internet resta-me imaginar posts que nunca escreverei. Todos os dias passo largos minutos a escrevê-los e até a corrigi-los na minha RAM cerebral. Escrevo sobre um estudo trapalhão publicado no DN sobre o nuclear, sobre Israel e o Líbano, sobre a Maria João Pires, sobre bons livros cronicamente não traduzidos para português, sobre o caos urbanístico do Algarve, sobre as aldeias do litoral alentejano, ainda relativamente intactas, mas viradas de costas para o mar, preferindo o porco ao fresquíssimo peixe do atlântico, preferindo o alcatrão da estrada nacional à excepcional natureza da região, enfim sobre esta democracia Kitsch que é Portugal.

PS- Um grande abraço a todos os que piscaram o olho aos 3 anos da Klepsýdra.