quarta-feira, janeiro 31, 2007

Aquecimento Global hoje

Textos a não perder sobre o aquecimento global:
- Do David Luz na Linha dos Nodos: "A França face ao ambientalismo global" sobre o grande assunto de actualidade da campanha eleitoral francesa, o Pacto Ecológico de Nicolas Hulot.
- Do Nuno Ferreira na Aba de Heisenberg:"A mão humana no aquecimento global" e "O ártico sem gelo, brevemente, rapidamente..."

terça-feira, janeiro 30, 2007

Directamente de Grenoble

Durante uma semana a Klepsýdra será alimentada a partir do Acelerador Europeu de Sincrotrão, da cidade sobre a qual um dia Stendhal escreveu: "au bout de chaque rue, une montagne..."

Espero ter um bocadinho de tempo para divulgar os mistérios científicos que por aqui tentaremos desvendar.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Desnuclearização do Médio Oriente

O recente livro de Miguel Portas sobre o Líbano, "No Labirinto", que aqui comentei, lança uma ideia que defendo há muito e que pode dar um contributo importante para pacificar o Médio Oriente. Na página 196 o Miguel refere que as potências nucleares poderiam fazer uma "proposta que seguramente seduziria Teerão: a desnuclearização do Médio e do Próximo Oriente." Como é sabido Israel, a Índia e o Paquistão são os três países da região que possuem armas nucleares. No passado, dois países (a Ucrânia e a África do Sul) desmantelaram com sucesso a totalidade dos seus arsenais nucleares, logo não seria nada de extraordinário desmantelar os arsenais nucleares dos três países referidos. Dado o carácter simbólico que a acção representaria - um passo atrás do ponto de vista militar - a desnuclearização poderia aliviar um pouco a tensão política do Médio Oriente e retirar a vontade do Irão a prosseguir os seus avanços no desenvolvimento de tecnologia nuclear, sem recorrer a ameaças que só têm tido o efeito contrário ao desejado.

Grandes Momentos da 7ª Arte

A seguir no Mar Salgado grandes momentos da 7ª arte escolhidos pelo Nuno Mota Pinto.

sábado, janeiro 27, 2007

Dicas para o Não sobre julgamentos de mulheres

Registo que os defensores do Não andam muito preocupados com a vertente económica do aborto. Como já aqui tinha escrito em Março de 2005, presume-se que o João Miranda, entre outros, estão dispostos a pagar os julgamentos de mulheres acusadas de aborto. Eu acho que isso é chato. Para evitar este incómodo financeiro, basta ir ao baú das velhas e boas práticas da Igreja:

"[O Papa] Inocêncio desancadeou um movimento de acusação, tortura e execução sistemáticas de inúmeras "bruxas" em toda a Europa (...) [segundo Thomas Ady em "A Candle in the Dark"] se uma mulher for acusada de bruxaria, é uma bruxa. A tortura é um meio infalível de demonstrar a validade da acusação. A ré não tem quaisquer direitos. Não há oportunidade de um confronto com os acusadores. Dá-se pouca atenção à possibilidade de as acusações poderem ser feitas com objectivos ímpios - por ciúme, por exemplo, ou por vingança, ou pela cupidez dos inquisidores, que costumavam fiscar em seu proveito os bens da acusada. (...) [a tortura] inclui métodos de sevícias concebidos para libertar os demónios do corpo da vítima antes desta ser mortas (...) Isto tornou-se rapidamente um sistema de fraude financeira. Todos os custos da investigação, julgamento e execução ficavam a cargo da acusada e seus familiares - incluindo as diárias pagas aos investigadores privados contratados para espiar a ré, vinho para os guardas, banquetes para os juízes, as despesas de viagem de um mensageiro enviado para ir buscar um torturador mais experiente a outra cidade, bem como lenha para a fogueira, o alcatrão e a corda para o enforcamento. E havia ainda um bónus para os membros do tribunal por cada bruxa queimada. O remanescente dos bens da bruxa condenada, se ainda houvesse algum, era dividido entre a Igreja e o estado."

"Um Mundo Infestado de Demónios", Carl Sagan, Gradiva, 2002, pp. 127-129.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Bola preta para os críticos de cinema

A propósito do filme "Babel", três entradas em blogues diferentes (Almareios, Arrastão e A Natureza do Mal) coincidem na crítica aos próprios críticos de cinema nacionais. Junto-me a essas crítica. A minha crítica começa logo pela falta de exigência dos jornais na escolha dos críticos de cinema. Quem escreve sobre cinema em jornais com dezenas ou centenas de milhares de leitores e é pago por isso tem que oferecer ao leitor algo mais do que uma conversa de café ou algo mais do que se escreve nos blogues. O que se verifica é que a maior parte dos críticos de cinema não vê muito cinema. Vêm aquele cinemazeco de algibeira de Hollywood, as lamechices da Disney e pouco mais. Provavelmente, menos de 25% dos críticos saem deste perfil e vão um bocadinho mais longe, já vêm uns David Lynchs, uns Tim Burtons ou uns Cronenbergs, mas muitos ficam-se por aqui. São muito poucos os que vêm todo o tipo de cinema, que vão à Cinemateca, que frequentam cine-clubes, que alugam filmes antigos, que vêm filmes em canais de TV que passam bom cinema (o canal ARTE por exemplo). Obviamente, depois a qualidade da crítica reflecte muito a qualidade e amplitude do cinema que se vê.

Lembro-me de ler críticas sucintas de um ou dois parágrafos que espremidos se resumiam a: "este filme é maniqueísta" ou "este filme é politicamente correcto", sem fundamentação da opinião expressa. Frequentemente, as críticas não enquadram o filme no contexto da obra dos autores, não se pesquisa sobre o local e sobre o contexto histórico da acção, não se citam os filmes que estiveram na origem de remakes, mas escreve-se demais sobre os milhões que custou filme A, B ou C, sobre a receita de bilheteira e fazem-se primeiras páginas muito generosas e simpáticas de filmes fraquíssimos produzidos por grandes companhias (serão essas primeiras páginas de borla?). Para completar o ramalhete de misérias, acho ridícula a mania dos ódios de estimação. Parece que para se ser crítico de cinema é preciso ter ódios de estimação. Um odeia o cinema francês, outro odeia o Michael Moore, outro o Woody Allen, outro a Barbra Streisand (os que têm falta de imaginação), e julgam-se muito engraçadinhos porque cortam rente cada vez que aparece um filme ligado ao seu ódio de estimação.

As consequências do baixo nível dos críticos é que muito cinema de qualidade nem sequer passa nas salas portuguesas ("Karakter" por exemplo) ou então passa, mas passa despercebido, como foi o caso caricato da primeira ronda de exibições do filme "Crash" de Paul Haggis, que só depois de vencer o Oscar é que foi exibido nas salas principais do país.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Babel

Durante as primeiras cenas de "Babel" em que interagem personagens de diferentes culturas pensei para comigo: "já vi isto, já me aconteceram cenas destas". O filme seguia e ía revendo mais pormenores das minhas viagens, alguns nos mesmos locais, EUA, Tijuana e México, outros ocorreram em locais diferentes mas onde as reacções das pessoas foram muito parecidas às reacções das personagens de "Babel" de Alejandro Iñárritu. O mérito de Iñárritu é o de nos mostrar os habitantes deste mundo sem filtro. Todas as personagens receiam o encontro com o outro, o fosso entre códigos de comunicação e de códigos de vida é tão profundo, que se equipara ao que separa Yasujiro , uma surda-muda japonesa, do mundo "exterior". A coca-cola light sem gelo, a náusea dos turistas na aldeia marroquina ou a matança da galinha na festa mexicana, rimam com o mundo, o mundo das encruzilhadas dos povos.
Em "Babel", o medo faz a acção, faz descarrilar uma personagem para as armadilhas lançadas pelos fantasmas de outra personagem de uma cultura diversa. Mas "Babel" mostra também como as relações de dominação continuam bem presentes, apesar da abolição da escravatura e das cartas dos direitos humanos. Essa dominação está bem patente na forma como Richard nega a autorização para que a empregada mexicana compareça no casamento do seu filho ou como a polícia marroquina lida com os pastores.
"Babel" representa um mundo frágil, como o mundo da parábola da borboleta que bate as asas no pacífico e desencadeia uma tempestade noutra parte do mundo. Em "Babel", não é bem uma borboleta que desencadeia a tempestade, é uma carabina japonesa levada para Marrocos.

Filme Klepsýdra ***** (5 estrelas)

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Lisboa-Dakar em plena cidade

Gosto de rallies e acho que os rallies são muito importantes (numa futura entrada explicarei porquê), mas a proliferação de veículos todo-o-terreno (TT) com que me deparo no trânsito das nossas cidades, tanto em Portugal como no resto da Europa, é absolutamente escandalosa, por vezes parece que estamos no meio do pelotão do Lisboa-Dakar. Os TT em geral são bonitos, também gosto de TT, gosto de conduzi-los, mas conduzir TT's em cidade é um desperdício, não só porque todo o prazer de conduzir um TT é castrado em ambiente urbano mas acima de tudo porque os consumos dos TT atingem níveis absurdos para as tarefas que desempenham nas cidades.

Alguns países europeus já começaram a alterar a fiscalidade para penalizar a circulação dos TT nas cidades, em Portugal o debate nem sequer começou. Aqui ligação para o 4x4 Info, um sítio activista belga sobre a proliferação de TT com informação técnica relevante sobre o assunto.

Memória curta: Madrid, 11 de Março

Serve esta entrada só para relembrar que o pior atentado ocorrido em Espanha desde o fim da Guerra Civil, foi o atentado de 11 de Março e foi consequência directa da política anti-terrorista de Aznar.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

80 mortos em Bagdade não são para comentar?

O atentado ocorrido esta manhã em Bagdade matou cerca de 80 pessoas e feriu cerca de 160. Será que aqueles que fugosamente comentaram o recente atentado no aeroporto de Madrid e que condenaram duramente a política de Zapatero, não têm nada a dizer sobre o atentado de hoje? Seria interessante ler umas linhazitas sobre o atentado de hoje e já agora sobre os atentados ocorridos na passada semana no Iraque que fizeram dezenas de mortos. E seria ainda mais interessante que fossem coerentes na análise e que usassem a mesma bitola que usaram para avaliar Zapatero.

domingo, janeiro 21, 2007

Ver rostos em todo lado

"... o pai ou a mãe sorri à criança, esta devolve o sorriso e cria-se ou reforça-seum laço. Mal a criança vê, reconhece rostos e agora sabemos que esta aptidão está impressa no nosso cérebro. As crianças que há um milhão de anos eram incapazes de reconhecer um rosto devolviam menos sorrisos, era menos provável que cativassem os pais e que medrassem. Hoje em dia, quase todas as crianças identificam rapidamente um rosto humano e respondem com um esboço de sorriso.

Como efeito secundário inesperado, o maquinismo de reconhecimento de padrões do nosso cérebro é tão eficaz em isolar um rosto de um amontoado de outros pormenores que por vezes vemos rostos onde estes não existem.
"

"Um Mundo Infestado de Demónios", Carl Sagan, Gradiva, 2002, pag. 58
(Imagem do "rosto de Marte" visto pela sonda Viking 1 em 1976)

sábado, janeiro 20, 2007

Deus existe!

Nunca pensei escrever um dia um post com este título, mas a cerveja Deus, esse divino líquido belga, é a prova indiscutível da existência do altíssimo. A cerveja Deus é numa primeira fase fermentada por processos tradicionais em solo Bélgica, sendo de seguida transportada em camiões até à região de Champanhe, em França. Em Champanhe, a cerveja Deus é engarrafada e maturada em caves como se se tratasse de um comum champanhe, sendo adicionada a mesma levedura responsável pela estrutura do famoso vinho gaseificado francês. O resultado é uma cerveja com uma estrutura de champanhe. É indescritível, é incomparável, pudera estamos na presença de Deus!

À atenção do Francisco: 100 + 1 é a conta que DEUS fez ;)

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Malena, uma mulher ameaçadora



Sei que para muitos é uma heresia escrever isto, mas na minha opinião "Malena" é o melhor filme de Giuseppe Tornatore. Se tiver paciência um dia escreverei aqui o que acho de "Cinema Paraíso". Em "Malena", Tornatore mostra como é fácil e como é apetecível para uma comunidade condenar a mulher com alguma qualidade que não se submete aos códigos tradicionais. Pode ser o caso de uma mulher muito bonita que desperta desconfianças femininas ou que provoca mau estar entre os homens incapazes de ganhar a sua intimidade. Pode ser também o caso de uma mulher muito inteligente que ameaça o território intelectual masculino, em domínios habitualmente interditos a mulheres. Se uma mulher reunir estas duas qualidades o caso torna-se muito mais bicudo. A relação entre a comunidade e Malena (Monica Bellucci) faz-se em função da ameaça que esta representa ou não aos códigos estabelecidos. A cena de vingança popular sobre Malena por esta ter sido uma das prostitutas do bordel nazi aí instalado, é apenas um pretexto para castigar Malena, castigá-la por ser muito bonita, castigá-la pelo efeito que provoca entre os maridos, castigá-la porque não foi suficientemente amável para alguns homens e castigá-la por não se render à penitência moralista que a comunidade inflige a si mesma.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Sério Alarme dos Físicos Nucleares



Clicar na imagem para ler a mais recente comunicação dos investigadores em tecnologia atómica e nuclear responsáveis pela publicação do Bulletin of the Atomic Scientist. Este boletim foi fundado pelos investigadores envolvidos no Manhattan Project preocupados com a utilização da tecnologia nuclear para fins militares depois do lançamento das bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki. Desde 1945, a revista teve ilustres colaboradores como Albert Einstein, Hans Bethe, Max Born, Oppenheimer, Bertrand Russell, Leo Szilarde ou Paul Weiss.


PS- No blogue Mitos Climáticos continua o habitual Tsunami de asneiras

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Grandes Portugueses + IVA



Adoro a estética kitsch do nosso país, principalmente a das televisões.
Quando acedi à página da RTP e deparei com o banner daquele que seria o meu escolhido se votasse (não gosto de "votar + IVA") não fiquei indiferente à composição. A imagem do Infante com um ar angelical ao lado de um número de telefone e do preço da chamada + IVA, com pormenor das mãos em posição de oração ali pelo meio, é uma obra-prima da RTP. Só falta um rodapé com um sms romântico da Sónia Vanessa dirigido ao Bernardo da linha.

Porquê o Infante? (um momento de incontenção verbal)
Na minha opinião um grande qualquer-coisa (Português, Espanhol, Basco, Chinês, Zulu, etc.) tem que obedecer a três critérios básicos: 1) A contribuição para a sua tribo deve comportar um esforço (intelectual e/ou físico) construtivo considerável; 2) Deve existir um antes e um depois do grande personagem; 3) Inovação. (Isto parece um formulário da FCT)

O extenso e exigente trabalho multidisciplinar (científico, tecnológico, humano, etc.) de planificação das descobertas bem sucedidas na costa de África dirigido pelo Infante merece toda a minha vénia. Acresce o mérito de as descobertas terem sido envolvidas em grande secretismo e em alguma competição com países bem mais apetrechados e bem mais poderosos do que Portugal.

Sem querer minimizar a brilhante obra de Camões, não escolheria o poeta por uma razão que é frequentemente desprezada quando se dá Camões na escola secundária. A principal obra de Camões, Os Lusíadas, segue uma receita que foi utilizada com frequência na Europa, que é a receita da Odisseia (o pormenor dos deuses que manipulam Vasco da Gama vai mais longe que outras obras na colagem à Odisseia), e nesse aspecto não é uma obra tão inovadora como possa parecer. O que nos enche de orgulho e que atribui uma dimensão simbólica muito poderosa aos Lusíadas é que o nosso Ulisses (Vasco da Gama) era real, existiu mesmo e foi lá ao fim do mundo e voltou!

10 anos mais quentes e previsão para 2007

1998
2005
2003
2002
2004
2006
2001
1997
1995
1999

Repare-se que os 10 anos mais quentes desde que há registo ocorreram nos últimos 12 anos...
O British Meteorological Office estima com uma probabilidade de 60% que o ano de 2007 pode ser o ano mais quente de sempre.

O actual cenário do aquecimento global está gerar algum alarme entre a comunidade científica, a evolução climática do planeta começa a seguir as tendências das previsões mais pessimistas. É agora mais do que óbvio que é necessário começar a agir em larga escala e já, mas pelos vistos a classe política continua adormecida, inclusivamente a europeia, que tem sido mais activa no estudo e no combate do problema.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

No Labirinto: o Líbano entre guerras, política e religião

Aquando da sua apresentação em Coimbra, Vital Moreira disse deste livro que revelava o melhor Miguel Portas, o Miguel Portas das Viagens. Subscrevo inteiramente. É o Miguel conta com entusiasmo as suas viagens pelo Líbano e regiões vizinhas, descreve com paixão lugares, ruínas, pedras e mezzés. É o Miguel que lê nos olhos e nos gestos das gentes e nos transmite sem rodeios as suas impressões sobre aquelas micro-sociedades, a importância dos clãs familiares, a ostentação que convive com a miséria e a pobreza, a religião que separa, mas que é praticamente a única instituição solidária num país deslumbrado pela banca e pela bolsa.

A Parte I do livro intitulada "O nascimento de uma nação" é de leitura obrigatória para todos aqueles que se interessam pela política do Médio e Próximo Oriente. Muito bem documentada, esta Parte I faz-nos um resumo da história recente do Líbano e da região - o Líbano como país só existe desde 1941 - ligando as divisões étnicas, religiosas e políticas à efervescência e ao trânsito de povos que houve naquela região desde há mais de dois mil anos. "Nunca um país tão pequeno acolheu tanta diferença" (pag. 29) é a frase de Miguel Portas que melhor ilustra a equação libanesa. É esta concentração de povos e religiões numa região onde se disputam intensamente territórios há dezenas de séculos que torna tudo tão complexo de se realizar no Líbano, mesmo quando a tarefa em si parece simples. Ao lermos esta Parte I damo-nos conta da imensa quantidade de asneiras que foram escritas por comentadores e cronistas políticos durante o ataque ao Líbano no passado Verão, nomeadamente o apoio aos pedidos irrealistas de Israel para que o governo libanês eliminasse o Hezbollah. Era o mesmo que pedir a alguém para fumar num paiol de armas.

A segunda parte descreve os 33 dias em que o Líbano foi atacado por Israel, a envolvente política que deu origem ao conflito e a situação resultante do pós-guerra. A presença do Miguel no Líbano durante o conflito oferece-nos uma visão muito mais rica e precisa das reacções políticas e sociais que acompanharam o conflito, nomeadamente o estatuto e a popularidade que o Hezbollah ganhou à custa das bombas israelitas. Pessoalmente, considero os capítulos "Hezbollah" e "Islamismo" demasiado optimistas e o citado messianismo socialista da autoria de Françoies Thual (pag. 150) parece-me uma longínqua miragem política. Enquanto Israel ameaça, o Hezbollah ganha simpatias, aderentes e muitos votos, mas em tempo de paz, por muito que o Hezbollah tenha evoluído, os resquícios de políticas de extrema-direita religiosa não desaparecem de um dia para o outro. O meu pessimismo é reforçado pelas opiniões das minhas amizades libanesas do sul do país.

A total desorientação e o isolamento da diplomacia americana durante as negociações são muito bem resumidas pelo Miguel e são um exemplo flagrante da falta de estudo e de tacto para lidar com a referida complexidade da equação libanesa. É a mesma complexidade, que o Miguel conhece como poucos no nosso país, que faz do seu apoio ao reforço da FINUL subordinada à autoridade libanesa uma rara opinião credível e sólida sobre o assunto. Contrasta com a reacção pavloviana (parafraseando um amigo bloquista) que classificou a "intervenção da FINUL" (já lá estava antes da guerra) de novo imperialismo. Como refere bem o Miguel, o retirar dessa força funcionaria como um convite para o segundo round de Israel, sem testemunhas, com pontes e estradas por construir a facilitar o assalto.

Apesar de Israel ter mostrado mais uma vez uma superioridade militar brutal, a imagem do país emergiu do conflito enxovalhada como nunca. O Miguel termina bem concluindo que apesar da pesistência e da complexidade dos problemas, o resultado deste conflito mostrou que vale a pena exercer a política contra o primado da guerra.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Revistas







Muito boa a última edição da Courrier International com textos de Umberto Eco e Timoty Ash, entre outros, sobre o recrudescimento de tabus com origem no fanatismo religioso.

A primeira Ciel et Espace do ano traz sempre aquele excelente e indispensável calendário dos eventos astronómicos do ano.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

As minhas actrizes preferidas

Ano novo... altura escolhida para actualizar a minha lista de actrizes preferidas. Entre parenteses o filme em que mais apreciei a actriz e o respectivo realizador. Por ordem:

Fanny Ardant (La femme d'à côté, François Truffaut)
Catherine Deneuve (Belle de Jour, Luis Buñuel)
Isabelle Huppert (A Pianista, Michael Haneke)
Charlotte Rampling (Swimming Pool, François Ozon)
Franka Potente (Corre Lola Corre, Tom Tykwer)
Paprika Steen (Festen, Thomas Vinterberg)
Fernanda Montenegro (Central do Brasil, Walter Salles)
Branka Katic (Gato Preto Gato Branco, Emir Kusturica)
Solveig Dommartin (Asas do Desejo, Wim Wenders)
Jodie Foster (Contacto, Robert Zemeckis)
Hanna Schygulla (Lili Marlene, Rainer Werner Fassbinder)
Ingrid Bergman (Casablanca, Michael Curtiz)
Isabella Rossellini (Blue Velvet, David Lynch)
Cécile de France (As Bonecas Russas, Cédric Klapisch)
Nicole Kidman (Eyes Wide Shut, Stanley Kubrick)
Martina Gedeck (Partículas Elementares, Oskar Roehler)
Maggie Cheung (Disponível para Amar, Kar Wai Wong)

sábado, janeiro 06, 2007

A fuga para a frente de JPP tropeça no Iraque

A isto chama-se fuga para a frente:

"[O atentado da ETA] mostrou a enorme irresponsabilidade do caminho negocial que iniciou com o terrorismo", J. Pacheco Pereira, "A ETA e Zapatero" no Abrupto.

Acho espantoso como é que uma pessoa inteligente que tomou as posições que tomou sobre o conflito iraquiano - onde estoiram bombas quase diariamente que fazem dezenas de vítimas - achar que o atentado do aeroporto de Madrid mostra a enorme irresponsabilidade do caminho negocial. Deveremos concluir que uma escolha responsável é a escolha do caminho bélico que se iniciou no Iraque?
Esta entrada do Abrupto é o exemplo típico da indiferença aos atentados diários no Iraque a que me referi na entrada anterior em contraste com a sobrevalorização excessiva a tudo o que se passa no Ocidente. Vivemos tempos em que uma mochila perdida no metro de Londres ou de Madrid provoca histerias colectivas enquanto uma bomba que explode junto a uma estação de serviço em Bagdade matando 20 pessoas e ferindo 30 provoca um enorme bocejo em frente ao televisor. O sangue branco e ocidental é hipervalorizado, vale muito mais do que o sangue mesopotâmico.

Esta entrada revela também um estilo de crónica grosseira que começa a ser demasiado habitual (V. Graça Moura usa e abusa deste estilo). Parte-se de pressupostos de deturpação grosseira da realidade para depois se atacar o adversário político através de um exercício de retórica inteligente e sofisticado, de interessante leitura, que embala alguns leitores em justificações desejadas, mas longe (ou fora) da realidade. Esta passagem é outro exemplo deste estilo:

"políticas de Aznar que serviam Espanha: (...) uma política de intransigência com o terrorismo basco..."

A política de intransigência com o terrorismo basco foi nada mais nada menos que igualar a ETA à Al Qaeda. Foi afirmar que um grupo terrorista com objectivos sobretudo nacionalistas e territoriais fosse comparado a uma organização de escala quase planetária cujo o objectivo é o de converter todo planeta a uma visão deturpada de uma religião, utilizando para isso os meios que forem necessários. O resultado é conhecido. Aznar atraiu para Espanha a Al Qaeda e foi surpreendido pelo maior atentado vivido em Espanha desde o fim da Guerra Civil. Aznar não poderia ter feito pior, porque era muito difícil fazer pior.

Além do mais não há memória de no tempo de Aznar o Batasuna fazer declarações em que se demarca do núcleo mais violento da ETA (se é que estes ainda se consideram da ETA). Contrariamente a tudo o que escreve JPP, o que este atentado de Madrid revelou foi que a sociedade espanhola passou a perceber muito bem com quem é que não pode negociar: com o núcleo violento que se isola cada vez mais dentro da ETA e com os obcecados do terrorismo do PP, próximos de Aznar.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

A indiferença aos atentados no Iraque

Entre o que mais me choca no conflito iraquiano é essa imperial indiferença aos atentados que abalam diariamente o Iraque. No seu novo livro, o Miguel Portas descreve muito bem essa indiferença:

"[A televisão] mostra-nos a dor que se esconde nos escombros, nos cemitérios ou nas valas comuns. Mas mostrar e sentir estão longe de ser sinónimos. Depois, as câmaras iludem. A morte, a destruição e a miséria são perversamente cenográficas. E ao fim de alguns dias, o que vemos perde significado, é mais uma notícia, a mesma de ontem e de anteontem e, quase certo, a de amanhã. (...) [No Iraque] há muito que já não se somam os dias e perdeu conta aos mortos. "Aquilo" é o dia-a-dia. Quando assim é, as câmaras podem entrar nas ruínas de famílias amputadas, estropiadas e destroçadas, mas são incapazes de nos transportar para dentro dessa realidade. Ficamos de lado, imunizados, aturdidos ou indiferentes."

"No Labirinto: o Líbano entre Guerras, Política e Religião", Miguel Portas, Almedina, 2006, pag. 99.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

quarta-feira, janeiro 03, 2007

2007: Ano Internacional da Física Solar

Este ano comemora-se o Ano Internacional da Física Solar. Consultar aqui a página dedicada aos eventos previstos e à divulgação dos processos físicos que governam a nossa estrela, a respectiva heliosfera e que influenciam a Terra.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Doomsday Code

Produzido pelo excelente Tony Robinson, este interessante documentário intitulado "Doomsday Code" (aqui documentário integral) investiga as implicações das manobras dos evangelistas americanos que acreditam ter descodificado o Livro da Revelação, onde se descreve o fim dos tempos e que segundo os mesmos acontecerá muito em breve. O problema é que entre este grupo de fanáticos estão conselheiros do presidente George W. Bush. Estes interpretam como sinais do fim do mundo, acontecimentos como o 11 de Setembro, a invasão do Kuwait, o derrube de Saddam ou a intifada na Palestina. Entre as declarações de Bush sobre estes eventos encontramos expressões como: "axis of evil", "war on terror" ou "the epic struggle of good and evil", expressões estas que vão de encontro às ideias da igreja evangélica de direita, tal como as suas opções políticas e militares.

Quanto tempo falta para o fim do mundo?
Esta página surrealista intitulada Rapture Index tenta dar uma resposta a essa pergunta. Rapture é o nome dado a um acontecimento que segundo os apologistas do fim dos tempos se manifestaria como a elevação aos céus de todos os seguidores de Cristo, e apenas estes, acontecimento esse que ocorreria pouco tempo antes do fim do mundo. Através da contabilidade de uma série de sinais que indicam a chegada da Rapture (coisas banais, como o número de anticristos, falsos Cristos ou o preço do petróleo...) é calculado um índice de probabilidade de este acontecimento ocorrer. Neste momento o índice é de 163. Para este valor os fiéis da seita aconselham-nos a apertar os cintos...

Quem se lixa é o mexilhão
Como não podia deixar de ser, entre as vítimas directas de seitas apocalípticas contam-se pessoas de meios mais modestos e miseráveis, como é o caso de África, nomeadamente do Uganda, onde esta seita tem uma boa implantação. A quantidade de suicídios e homicídios em massa no Uganda tem subido em flecha desde que a seita se começou a espalhar pelas várias regiões do país.