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terça-feira, março 13, 2012

Ciência: Espanha e Portugal, o mesmo combate

Tal como em Portugal, em Espanha escolheu-se a irracionalidade da via dos cortes na ciência. Aquele que poderia ser um setor chave para ajudar a Península Ibérica a sair da crise, é tratado como um apêndice incómodo, ao contrário das recomendações da Comissão Europeia. Em Espanha os cortes são mais por razões ideológicas (o ministério que tutela a ciência intitula-se da Educación, Cultura y Deportes), por cá são mais fruto da falta de visão do primeiro-ministro, um espelho fiel da sua brilhantíssima passagem pela universidade.
Já com mais de 8 mil signatários está a circular a Carta Aberta pela Ciência em Espanha. O primeiro parágrafo é sugestivo:

"En las próximas semanas, y a pesar de la recomendación de la Comisión Europea de que los recortes para controlar el déficit público no afecten la inversión en investigación, desarrollo e innovación, el Gobierno y las Cortes Generales de España podrían aprobar unos Presupuestos Generales del Estado que dañarían a corto y largo plazo al ya muy debilitado sistema de investigación español y contribuirían a su colapso."

quinta-feira, dezembro 22, 2011

Premiar os culpados da crise

Depois de Mario Draghi, Mario Monti e Lucas Papadémos (ex-Goldman Sachs), mais um cargo político europeu importantíssimo atribuído a um quadro oriundo de uma das empresas financeiras responsáveis pela crise mundial: Luís de Guindos (ex-Lehman Brothers) é Ministro da Economia do governo Rajoy. Não há vergonha na cara.

segunda-feira, março 07, 2011

Racionalidade automóvel: o exemplo espanhol

A decisão do governo espanhol em limitar a velocidade a 110 km/h nas auto-estradas a partir de hoje é um exemplo de uma medida racional que implica um esforço muito menor do cidadão para combater a crise e que tem implicações positivas na segurança rodoviária e na qualidade de vida. Sabendo que o problema principal da crise nacional é a nossa elevadíssima dívida privada, uma parte dela resultante da importação do petróleo, faz todo o sentido tomar medidas que reduzam a dependência e o consumo do petróleo. Faço notar que a velocidade máxima nos países europeus que detêm reservas de petróleo é inferior à do nosso país: Reino Unido ~113km/h, Noruega 100 km/h e Rússia 110km/h. 110 km/h é uma velocidade mais do que suficiente para trajectos longos (já fiz muitos de cerca de 2000 km) e para a qual os motores funcionam perto da melhor parte do seu regime quando se considera a poluição, a fiabilidade e o consumo. Acrescento que gosto de automóveis e que adoro conduzir, por isso estou bem consciente das irracionalidades motorizadas que circulam nas nossas estradas. Por isso, seria muito mais racional para a crise da dívida privada proceder a alterações profundas na fiscalidade automóvel, tal como a taxação mais severa de veículos particulares com motores com mais de 2000 cm3 ou de veículos todo-terreno (autênticos luxos com rodas), em vez acentuar a pressão sobre os cortes de salários ou nos serviços públicos que pouco ou nada contribuíram para a crise.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Palomares radioactiva 45 anos depois

(publicado portal Esquerda.net)

Quarta bomba que caiu no Mar Mediterrâneo e foi recuperada dois meses mais tarde – Foto retirada do site brookings.edu

Há cerca de 45 anos, mais precisamente a 17 de Janeiro de 1966, durante uma operação de reabastecimento em voo, um bombardeiro B52 da Força Aérea dos EUA colidiu com um avião cisterna KC-135. Ambos os aparelhos foram destruídos. O B52 transportava quatro bombas termonucleares Mk 28. Três bombas caíram junto à aldeia piscatória de Palomares na Andaluzia, Espanha. A carga não-nuclear de duas bombas explodiu tendo espalhado plutónio radioactivo por uma área de cerca de dois quilómetros quadrados. A carga nuclear não explode por impacto como as bombas convencionais, mas através do correcto funcionamento do dispositivo detonador. A quarta bomba caiu no Mar Mediterrâneo, tendo sido recuperada dois meses mais tarde.

O nível de contaminação do solo de Palomares só atingirá o nível de radioactividade natural dentro de alguns milhares de anos. Para minimizar os efeitos da radioactividade, logo após o acidente, equipas americanas removeram mais de 1300 metros cúbicos de solo contaminado que foi transportado e colocado num depósito de lixo nuclear em Savannah River na Carolina do Sul, EUA. No entanto, depois de um estudo realizado por técnicos espanhóis em 2004 estima-se que restam ainda cerca de 50 mil metros cúbicos de solo contaminado numa área interdita à população local. No mesmo ano os EUA concordaram em pagar a limpeza do restante terreno contaminado, cujo custo foi estimado em cerca de 31 milhões de euros, mas o compromisso de limpeza da área e os pagamentos acordados não têm sido cumpridos na íntegra pelos americanos. Recentemente, uma fuga da wikileaksrevelou a preocupação da Embaixada dos EUA em Madrid sobre o impacto negativo na opinião pública espanhola e nas relações bilaterais entre os dois países, se a Administração Obama não respeitasse os compromissos assumidos.

Apesar de os EUA terem enviado recentemente uma equipa de cientistas para avaliar o estado de contaminação dos solos, o governo espanhol endureceu a sua posição e enviou uma mensagem directamente a Obama para que se procedesse à remoção do plutónio o mais rapidamente possível. A passada semana, 45 anos depois do acidente, Espanha decretou a interdição de reabastecimento em voo sobre o território espanhol de aviões da Força Aérea Americana.

quarta-feira, junho 30, 2010

A minha selecção sobre a selecção

"...A nossa selecção de futebol é muito inferior à espanhola. A nossa selecção de jornais também. A de colunistas nem se fala, embora seja difícil imaginar com quem se pode comparar um imbecil ilustrado como VPV, um católico ultramontano como César das Neves ou um diletante como MST. Se nos compararmos, perdemos em quase tudo: na poesia, na novela, na viola de gamba, na saúde oral e no tamanho dos narizes. Ontem viu-se, quando as câmaras focavam a assistência: uma mulher guapíssima passando bâton pelos lábios, alternava com um broeiro lusitano, atarracado e hirsuto."
Luís Januário no blogue A Natureza do Mal

quinta-feira, abril 08, 2010

[REC]2



Com [REC]2 Paco Plaza e Jaume Balagueró têm o mérito de produzir um cinema fantástico que é simultaneamente inovador, interessante e popular. Com mais de 10 milhões de euros de lucro obtido com [REC], este [REC]2 é claramente assumido como um segundo episódio de uma série popular em que o final deixa antever já um [REC]3, algo que neste género só estava ao alcance da indústria americana de cinema. Apesar do encanto e do mistério do primeiro filme da série se perder nalgumas das revelações deste segundo [REC] estamos longe da infantilidade da narrativa e dos "cagaços" para adolescentes que caracterizam o género fantástico da indústria americana de cinema. A assinatura do cinema de autor mantém-se em [REC]2 embora a produção seja muito mais sofisticada.
Os próximos [REC] serão mais populares e interessarão ainda alguns dos que foram "picados" pelo primeiro [REC], como eu. Sei que irei ver pior e que o farei por vício, pero lo gravare todo!

quarta-feira, novembro 18, 2009

Vicky Cristina, Nova Iorque

Barcelona, finalmente Barcelona, após 5 mudanças de avião e de comboio sem nunca ter podido visitar a cidade.

Sobre "Vicky Cristina Barcelona" queixa-se Woody Allen que nos EUA, em Nova Iorque, já não há glamour, sente-se obrigado a vir filmar para a Europa para captar cenários românticos, sensualidade e conversas inteligentes. A Nova Iorque de "Manhattan" já não existe, já não existem esses casais que saem à noite para frequentar salas de cinema e de teatro acessíveis, partilhando experiências, amores contraditórios e garrafas de vinho. Tenho a pretensão de concordar com o Woody Allen. A minha única semana em Nova Iorque revelou-me uma cidade pejada de lojas dos 300, de negócios manhosos num décor sumptuoso de arranha-céus dos anos 20. Arranha-céus onde se mistura a arte nova, o neo-gótico e o esplendor das novidades dos anos 70, do esplendor da guerra fria.

Sobre Barcelona, esperam-me efémeras horas de exploração onde o meu radar vai funcionar a fundo. Até já.

terça-feira, setembro 02, 2008

Provavelmente a melhor cerveja ibérica

Cansado da má cerveja espanhola, Cruz Campo, Mahou, San Miguel (a pior), etc., ali para os lados de Granada topei a cerveja regional Alhambra. Experimentei a Alhambra Reserva 1925 e nem acreditei no que estava a beber... Finalmente, uma boa cerveja ibérica! A Alhambra 1925 é loura e densa! Cerveja loura e densa na península ibérica foi coisa que desapareceu com os ursos e o lince! Densa e cristalina, cristalina e com aroma complexo, uma densa que casa com o calor da Andaluzia e a coloca como a primeiríssima das cervejas louras ibéricas de inverno.

Aconselho-a vivamente ao Francisco, se por acaso ainda não a tiver provado.

segunda-feira, março 10, 2008

Uma Grande Vitória da Laicidade

No contexto de forte apelo ao voto contra o PSOE por parte de importantes figuras do clero espanhol, como foi o caso do bispo Antonio Maria Rouco, por parte da Opus Dei e de outras organizações órfãs da Santa Inquisição e por parte ainda de grupos pró-franquistas, a vitória de Zapatero é também uma grande vitória do conceito de laicidade num país profundamente católico. Os espanhóis perceberam bem a diferença entre a prática religiosa, que se quer privada, e a prática política, que deve ser universal, para todos, para crentes e não crentes.

A má imagem que parte do clero espanhol transmitiu ao resto da Europa, durante as semanas da campanha eleitoral, uma imagem retrógrada, preconceituosa e de intromissão em assuntos públicos, ficou registada e servirá de exemplo futuro de como o clero não se deve comportar em sociedades modernas e laicas.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Os Fantasmas de Goya



"Os Fantasmas de Goya" de Milos Forman é uma das raras obras cinematográficas que aborda o tema da Inquisição Espanhola (não muito diferente da portuguesa). Começamos por assistir a um processo de denúncia de uma jovem oriunda de uma família judia que não é mais do que a vingança de uma frustração afectiva de um bufo. Sem entrar em momentos de sadismo fácil o filme mostra a profunda violência da Inquisição, mesmo quando a tortura se resume à utilização de uma corda. A narrativa atravessa o período da ocupação da Espanha pelas tropas napoleónicas e a interrupção da Inquisição, mostrando como é fácil para os mais fanáticos saltar do dogmatismo religioso para o dogmatismo ideológico. Infelizmente a história da esquerda tem muito disto, e em parte ainda se reconhece aqui e ali tendências de esquerda que herdaram o "salto-mortal" do dogmatismo religioso para o dogmatismo ideológico.

É uma pena o filme ser falado em inglês, perde-se muito em ambiente histórico e na substância dos diálogos. Pior, só Bardem a falar inglês. A forma como aquele que é na minha opinião um dos melhores actores da actualidade se exprime no filme, faz-me lembrar um bolseiro espanhol perdido num campus universitário britânico.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Memória curta: Madrid, 11 de Março

Serve esta entrada só para relembrar que o pior atentado ocorrido em Espanha desde o fim da Guerra Civil, foi o atentado de 11 de Março e foi consequência directa da política anti-terrorista de Aznar.