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segunda-feira, abril 12, 2010

Historieta de Estaline sobre o massacre de Katyn

A delegação polaca que desapareceu no acidente aéreo de Smolensk ia assistir uma cerimónia em honra dos cerca de 20 mil polacos assassinados sob a ordem de Estaline durante a II Guerra Mundial. Para além do que de terrível encerra o assassinato de 20 mil pessoas, Estaline conseguiu tornar esta história ainda mais nauseabunda do que já era.

Entre os polacos assassinados - capturados quando a URSS invadiu e partilhou a Polónia com a Alemanha Nazi - contavam-se: um almirante, dois generais, dezenas de coronéis e de tenentes, centenas de majores e capitães, milhares de soldados, um príncipe, refugiados, professores universitários, médicos, engenheiros, advogados, jornalistas e escritores. Algum tempo depois deste episódio, o governo polaco no exílio reuniu-se com Estaline para assinar o pacto Sikorski-Mayski cujo objectivo era formar um exército polaco em território soviético para combater a Alemanha. Nessa ocasião o primeiro-ministro polaco Władysław Anders, que desconhecia o paradeiro dos oficiais polacos assassinados em Katyn, forneceu a Estaline uma lista destes militares na esperança que o exército russo os pudesse encontrar ou libertar das garras dos nazis. Estaline recebeu a lista num misto de surpresa e de embaraço. Acenou com a cabeça que sim, que iria fazer um esforço para os encontrar. Mais tarde, garantiu a Władysław Anders que estes homens tinham sido libertados, mas que lhes tinham perdido rasto.

Perguntem ao PCP o que acha deste episódio...

segunda-feira, junho 18, 2007

Lucros da Monsanto e o crime do Agente Laranja



São sobejamente conhecidas uma série de histórias macabras sobre a empresa Monsanto, sobre a forma implacável como processam nos tribunais os agricultores americanos que involuntariamente vêem os seus campos infestados por plantas geneticamente modificadas patenteadas pela empresa. Porém, o processo desencadeado hoje por veteranos de guerra americanos e por vítimas vietnamitas contra a Monsanto revela uma história ainda mais macabra. Ler tudo aqui.
Sabemos de antemão que no fim deste processo o lucro do crime compensa largamente a penalização da multa. No fundo, no fundo, é apenas a mão invisível no seu esplendor, é o sacrosanto mercado a velar por nós...

segunda-feira, janeiro 22, 2007

80 mortos em Bagdade não são para comentar?

O atentado ocorrido esta manhã em Bagdade matou cerca de 80 pessoas e feriu cerca de 160. Será que aqueles que fugosamente comentaram o recente atentado no aeroporto de Madrid e que condenaram duramente a política de Zapatero, não têm nada a dizer sobre o atentado de hoje? Seria interessante ler umas linhazitas sobre o atentado de hoje e já agora sobre os atentados ocorridos na passada semana no Iraque que fizeram dezenas de mortos. E seria ainda mais interessante que fossem coerentes na análise e que usassem a mesma bitola que usaram para avaliar Zapatero.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

No Labirinto: o Líbano entre guerras, política e religião

Aquando da sua apresentação em Coimbra, Vital Moreira disse deste livro que revelava o melhor Miguel Portas, o Miguel Portas das Viagens. Subscrevo inteiramente. É o Miguel conta com entusiasmo as suas viagens pelo Líbano e regiões vizinhas, descreve com paixão lugares, ruínas, pedras e mezzés. É o Miguel que lê nos olhos e nos gestos das gentes e nos transmite sem rodeios as suas impressões sobre aquelas micro-sociedades, a importância dos clãs familiares, a ostentação que convive com a miséria e a pobreza, a religião que separa, mas que é praticamente a única instituição solidária num país deslumbrado pela banca e pela bolsa.

A Parte I do livro intitulada "O nascimento de uma nação" é de leitura obrigatória para todos aqueles que se interessam pela política do Médio e Próximo Oriente. Muito bem documentada, esta Parte I faz-nos um resumo da história recente do Líbano e da região - o Líbano como país só existe desde 1941 - ligando as divisões étnicas, religiosas e políticas à efervescência e ao trânsito de povos que houve naquela região desde há mais de dois mil anos. "Nunca um país tão pequeno acolheu tanta diferença" (pag. 29) é a frase de Miguel Portas que melhor ilustra a equação libanesa. É esta concentração de povos e religiões numa região onde se disputam intensamente territórios há dezenas de séculos que torna tudo tão complexo de se realizar no Líbano, mesmo quando a tarefa em si parece simples. Ao lermos esta Parte I damo-nos conta da imensa quantidade de asneiras que foram escritas por comentadores e cronistas políticos durante o ataque ao Líbano no passado Verão, nomeadamente o apoio aos pedidos irrealistas de Israel para que o governo libanês eliminasse o Hezbollah. Era o mesmo que pedir a alguém para fumar num paiol de armas.

A segunda parte descreve os 33 dias em que o Líbano foi atacado por Israel, a envolvente política que deu origem ao conflito e a situação resultante do pós-guerra. A presença do Miguel no Líbano durante o conflito oferece-nos uma visão muito mais rica e precisa das reacções políticas e sociais que acompanharam o conflito, nomeadamente o estatuto e a popularidade que o Hezbollah ganhou à custa das bombas israelitas. Pessoalmente, considero os capítulos "Hezbollah" e "Islamismo" demasiado optimistas e o citado messianismo socialista da autoria de Françoies Thual (pag. 150) parece-me uma longínqua miragem política. Enquanto Israel ameaça, o Hezbollah ganha simpatias, aderentes e muitos votos, mas em tempo de paz, por muito que o Hezbollah tenha evoluído, os resquícios de políticas de extrema-direita religiosa não desaparecem de um dia para o outro. O meu pessimismo é reforçado pelas opiniões das minhas amizades libanesas do sul do país.

A total desorientação e o isolamento da diplomacia americana durante as negociações são muito bem resumidas pelo Miguel e são um exemplo flagrante da falta de estudo e de tacto para lidar com a referida complexidade da equação libanesa. É a mesma complexidade, que o Miguel conhece como poucos no nosso país, que faz do seu apoio ao reforço da FINUL subordinada à autoridade libanesa uma rara opinião credível e sólida sobre o assunto. Contrasta com a reacção pavloviana (parafraseando um amigo bloquista) que classificou a "intervenção da FINUL" (já lá estava antes da guerra) de novo imperialismo. Como refere bem o Miguel, o retirar dessa força funcionaria como um convite para o segundo round de Israel, sem testemunhas, com pontes e estradas por construir a facilitar o assalto.

Apesar de Israel ter mostrado mais uma vez uma superioridade militar brutal, a imagem do país emergiu do conflito enxovalhada como nunca. O Miguel termina bem concluindo que apesar da pesistência e da complexidade dos problemas, o resultado deste conflito mostrou que vale a pena exercer a política contra o primado da guerra.