quarta-feira, junho 29, 2011

terça-feira, junho 28, 2011

Trapalhada nos secretários de estado e aviões a pedais

O populismo do Estado Mínimo, a ilusão transmitida às pessoas de que se poupa dinheiro cortando no número de ministérios, nas viagens de avião do primeiro-ministro ou reduzindo o número de deputados já começa a gerar trapalhada. A escolha de um número populista e arbitrário de ministérios (10+1, tipo Futre, depois de uma partilha de pastas cheia de manhas) em vez da definição dos ministérios em função do trabalho efectivo dedicado a cada área, teve como resultado a nomeação de 33 secretários de estado. As trapalhadas burocráticas para que os secretários de estado possam ter o mesmo poder de acção nos ministérios extintos, o tempo que se vai perder a mudar legislação, regulamentos, reajustamentos logísticos e de pessoal vão ter custos adicionais para o contribuinte. Um dos ministérios que é uma salada de temas, aquele gerido por Cristas, é o exemplo da irracionalidade deste executivo. Neste ministério vão ser geridos cerca de 90% dos fundos europeus, só...

Mas o episódio mais caricato foi a revelação de que o primeiro-ministro não poupou viajando em classe económica. Seria interessante saber se esta decisão não terá saído mais cara ao contribuinte com eventuais custos adicionais na segurança, dada a vulnerabilidade ao viajar em económica. As mega-empresas do sector financeiro mal-intencionadas ou o crime organizado agradecem essa vulnerabilidade certamente. Enquanto isso na banca, onde se recebe uma boa parte do empréstimo destinado a Portugal, os jactos privados não pararam de voar, os bónus milionários continuam a ser distribuídos e os pára-quedas dourados estão sempre à disposição em caso de alguma coisa correr mal.

Para dar maior realismo às medidas austeridade, Passos Coelho poderia encomendar aviões a pedais à Ryanair para uso do governo, com o ritmo da pedalada a ser comandado a chicote por Ricardo Salgado, José de Mello e Fernando Ulrich.

segunda-feira, junho 27, 2011

Фёдор Достоéвский

O que mais me impressionou nas minhas leituras de Dostoiévski é a maturidade da escrita. Há uma ingenuidade própria do ambiente da época, do século XIX, que se encontra inclusivamente na escrita de Emile Zola, Eça de Queirós ou Oscar Wilde. Mas em Dostoiévski, o olhar crítico sobre a sociedade e os indivíduos, o recuo com que é aplicado, é quase inacreditável para quem não atravessou o miolo do século XX.

Foram dias muito especiais em São Petersburgo, a estadia nas ruas onde se desenrolou Crime e Castigo, não é todos os dias que se pode ser vizinho de Raskólnikov e dormir a dois passos da casa onde Aliona e Lizaveta Ivanovna foram assassinadas, e da porta, daquela porta, atrás da qual Raskólnikov ainda se escondeu. Essa porta, tal como o apartamento, existiu e ainda existe, pode servir para esconder hipotéticos assassinos do século XXI.

sexta-feira, junho 24, 2011

Сáнкт-Петербýрг II


São Petersburgo, cerca das duas e meia da manhã. Em frente fica o Pólo Norte e a claridade vai avançando no céu da cidade dos czares e da revolução de Outubro.

terça-feira, junho 21, 2011

Сáнкт-Петербýрг

Consta que os bolcheviques foram muito expeditos em transformar as principais possessões dos Romanov em museus, entre as quais o Hermitage. Por duas razões. Os bolcheviques davam muita importância a um património cultural ao alcance do povo. Mas os bolcheviques também queriam mostrar a esse mesmo povo a opulência de vida dos Romanov, queriam mostrar ao povo o quão tinham sido roubados e explorados pelos Romanov. E o saque não foi grande, foi colossal. Depois de ter visto Versalhes, o Escorial, a Cidade Proibida e os principais palácios de Itália, os palácios dos Romanov são difíceis de qualificar. Aquelas colecções de obras de arte e a sucessão de salas e jardins com recheios sem paralelo no resto da Europa só foram possíveis de erguer à custa de gastos de fortunas umas atrás da outras.
O resultado é uma cidade entre as mais belas do mundo, que rivaliza sem favor com Paris e Roma. Mas não posso deixar de pensar nos milhões de russos que morreram à fome e que foram duramente explorados às portas do século XX para enriquecer uma única família.

Эрмитаж



Hermitage, São Petersburgo, cerca da uma e meia da manhã de hoje. A noite teima em não cair. Do lado do Pólo Norte o céu é mais claro. A sul reina o escuro, o resto da Europa dorme.

domingo, junho 19, 2011

Manifesto pela Ciência

(publicado no portal Esquerda.net)

O Movimento Ciência Portugal – movimento de cientistas e empreendedores que consideram que a investigação científica é um motor de desenvolvimento económico e social do país – lançou um manifesto cujo o objectivo é fazer da ciência e da tecnologia uma prioridade do debate político sobre o desenvolvimento do país.

O movimento sublinha os bons resultados decorrentes do investimento realizados nos últimos anos em recursos humanos e na investigação, em particular a criação de numerosas novas empresas e emprego de base científica e tecnológica. O movimento apela à continuidade do investimento enquadrado numa estratégia clara de longo prazo, relembrando a importância da ciência para ultrapassar a crise e o significativo impacto económico e social que tiveram medidas semelhantes implementadas em países de dimensão semelhante ao nosso. Neste sentido o movimento enumera uma série de ideias expressas num manifesto intitulado “Ciência - fonte de ideias para inovar Portugal”.

Esta é uma iniciativa louvável de investigadores e de empresários, numa altura de mudança governativa em que ainda não foi esquecida a incipiente política científica do último governo PSD-CDS. O primeiro sinal dado por este novo governo ao fundir os ministérios da ciência e da educação não indicia nada de bom. O populismo que pretende fazer poupanças cortando no número de ministérios, não está apenas a fazer cortes a que correspondem montantes insignificantes como também poderá comprometer o bom funcionamento das instituições que regulam a ciência, com consequências económicas negativas largamente superiores às pretensas poupanças.

É de lamentar a falta de importância que se dá à ciência, sobretudo quando se sabe que a aposta na ciência foi a receita para muitos países saírem de situações de crise profunda. Um dos casos de estudo é a Finlândia. O relatório que estabelece os objectivos científicos da União Europeia, "Towards 3%: attainment of the Barcelona target" publicado pela EASAC (European Academies, Science Advisory Council), descreve o sucesso das medidas adoptadas pela Finlândia para sair da crise em que o país mergulhou no início dos anos 90. Para responder à maior recessão registada num país da Europa ocidental desde a II Guerra Mundial, a uma taxa de desemprego de 20% e a uma dívida externa incomportável, o governo de união nacional teve a visão de não estender à ciência os cortes aplicados nos outros domínios. Pelo contrário, o investimento em ciência e tecnologia foi inclusivamente aumentado. O sucesso dessa política é conhecido, do qual a Nokia é o seu mais brilhante exemplo. Hoje, muitos de nós, transportamos no bolso o resultado de uma boa resposta a uma profunda crise.

sexta-feira, junho 17, 2011

Os mercados estão quase a acalmar...

"Juros da dívida batem máximos históricos a dez anos"

Sugiro que deixemos de trabalhar para o nosso bem-estar e para o bem-estar dos nossos filhos. Vamos trabalhar todos para acalmar os mercados.
Quando o homo-sapiens apareceu na savana, teve que trabalhar para acalmar as feras. O homo-sapiens moderno e sofisticado tem uma tarefa muito mais nobre: acalmar os mercados.

Nova Empresa de Investigação na Figueira

Uma empresa de investigação na área da extracção e da produção de óleos essenciais e produtos derivados, a Jardins de Vapor, abriu portas no Parque Industrial da Figueira. São este tipo de empresas que trazem verdadeira mais valia a uma cidade: jovens, emprego qualificado, alto potencial de crescimento e produção de activos transaccionáveis.
Que tudo corra pelo melhor.

quinta-feira, junho 16, 2011

A escravidão moderna na Ryanair

Já aqui defendi que a Ryanair deveria ser colocada na lista negra de companhias aéreas elaborada pela União Europeia. Este testemunho de uma hospedeira da Ryanair é muito ilustrativo das práticas abusivas e escravizantes da empresa. Por muito, menos outras empresas já foram multadas e punidas na justiça.
Se razões faltassem ao caríssimo leitor, eis mais uma para não voar na Ryanair.

Novo Jornal Europeu: European Daily

Foi lançada a edição zero do novo jornal europeu , o European Daily.
Produzido em Londres com ajuda de muitas mãos de outros cantos da Europa, esta publicação assume a perspectiva europeia da notícia por contraponto à habitual perspectiva nacional dos jornais publicados em cada país.
Esta primeira edição é prometedora, mas veremos se funciona periodicidade diária, embora seja uma vantagem evidente sobre os dois concorrentes óbvios: o Courrier International e o site Press Europ

quarta-feira, junho 15, 2011

É verdade, mas...

"Portugal virou, então, à direita (...) O que é duplamente irónico: porque foram as ideias liberais da direita e a sua crença num capitalismo sem regras que nos mergulharam a todos na crise; e porque são os mais pobres e mais desfavorecidos que mais vão sofrer"
Miguel Sousa Tavares do Expresso, 10 de Junho de 2011.

Sousa Tavares tem toda a razão, mas...
A banca e o sistema financeiro ficaram com a cabeça a prémio desde 2008, por isso mexeram-se e prepararam bem o terreno, enviaram cadeias de email "anónimas" acusando o estado de tudo, as televisões de direita deixaram de brincar em serviço, ofereceram ao povo as homilias do Medina Carreira, os jornais de economia (também de direita) ostracizaram todas as opiniões fora do pensamento ultraliberal, enfim um clássico da manipulação colectiva pelo sistema financeiro bem explicado no livro “The Best Way to Rob a Bank Is to Own One” de William Black, que descreve um ambiente semelhante durante a crise da banca ocorrida durante a era Reagan.
Pelo seu lado a esquerda ajudou bem. O PS continuou a dar crédito a um líder que no caso Freeport fez o suficiente (e só entro em conta com as decisões legais que tomou enquanto ministro do ambiente) para ser expulso de qualquer partido decente de esquerda. O BE estatelou-se ao tentar imitar o PCP. E o PCP (ou CDU se contarmos com a usurpação da sigla dos Verdes) continua na sua linha estóica de inutilidade política.

terça-feira, junho 14, 2011

Manifesto pela ciência

O manifesto pela ciência é uma excelente iniciativa de investigadores e de empresários, nesta altura de mudança governativa. A avaliar pela miséria que foi a política científica do último governo PSD-CDS, não se esperam grandes anos para a ciência. É uma pena, porque foi apostando na ciência que muitos países saíram de crises profundas. Um dos casos de estudo é a Finlândia. Leia-se aqui um relatório da UE que descreve o sucesso das medidas adoptadas pela Finlândia para sair da crise profunda em que mergulharam no início dos anos 90. Eis um breve extracto:

"In the early 1990s, an economic crisis struck Finland. Until then, Finland had traditionally depended on the Soviet Union for up to a third of its exports. When the Soviet Union collapsed in 1991, as much as 25% of Finland’s export trade contracts became irrelevant virtually overnight. What followed was the deepest economic recession experienced by any European market economy since the second World War, as Finland’s unemployment rate rose from around 3-4% to nearly 20% within the space of a few months. At the same time, Finland’s foreign debt was virtually exploding.

The depth of the economic crisis in the early 1990s helped create a general national sense of urgency, which helped further bolster the role of science and technology policy in Finnish economic policy. By the early 1990s, the importance of technological development for societal and economic development had become widely accepted. There was a strong consensus regarding this issue. Thus, in spite of deep cuts being made elsewhere, the funding for science and technology remained the same and even grew. Because of the widespread sense of urgency, there was little resistance to this policy, even though it largely had to be funded by reallocating funds from other purposes and, notably, from privatisation of governmentowned
companies, as the soaring rate of government debt did not permit funding through loans."
"Towards 3%: attainment of the Barcelona target", European Academies, Science Advisory Council

sexta-feira, junho 10, 2011

O advogado do terror



"O Advogado do Terror" é um filme que descreve o percurso de Jacques Vergès, um advogado francês, filho de pai da Reunião e mãe vietnamita, em cuja carteira de clientes figuraram o terrorista Carlos, o nazi Klaus Barbie, entre outras personagens culpadas de crimes violentos.
O mais interessante deste filme é perceber que a motivação de Vergés para defender uma série de personagens detestadas pelo mundo ocidental está claramente associada a uma vingança pela humilhação sofrida pelos pais durante o período colonial francês. A cada defesa de um inimigo público das ex-potências coloniais discerne-se uma pequena victória contra o estado que tratou a sua mãe como uma cidadã de segunda. Vergés utiliza a ironia e o cinismo sem limites para demonstrar o que sente.
Outra parte interessante do filme é a abordagem sobre o desaparecimento temporário de Vergés. Teria ele colaborado com Carlos? O seu modo de vida fausto e burguês rimavam pouco com o modo de vida austero dos grupos terroristas de extrema esquerda. Estaria Vergés a simular uma participação na organização de Carlos, para mais uma vez humilhar os estados ocidentais?

quinta-feira, junho 09, 2011

Reflexão sobre o Bloco - Daniel Oliveira II

A ler este artigo do Daniel Oliveira sobre o BE no sítio do Expresso. Destaco as seguintes passagens que me parecem tocar no cerne do problema:

"...uma cada vez maior discrepância entre o perfil político, social e ideológico dos militantes e dos eleitores. E esta pequenez cria no bloco o receio de assumir responsabilidades (faltam-lhe "tropas" que o defendam) e um desconhecimento do que é a sua rede de apoiantes e votantes."

"Pressionado pela má-consciência do apoio a Alegre e pela possibilidade do PCP se antecipar, a direção do Bloco entrou em versão pavloviana e decidiu avançar para uma moção de censura fora de tempo e mal preparada, que baralhou o eleitorado. Na verdade, tratou-se de um remake de um episódio passado, até nos protagonistas internos: o da Câmara Municipal de Lisboa. Depois de um esforço de alargamento e de uma política de aliança com independentes que correspondia à estratégia definida, a linha sectária (que raramente é visível no exterior, mas que consegue ter um extraordinário poder na curta estrutura do Bloco) impôs a sua vontade e contradisse a linha seguida até aí, apelando à pureza e autosuficiência do partido. Das duas vezes, agora e então, com resultados desastrosos nas urnas."

"Quem tem defendido que a queda do Bloco começou com as eleições presidenciais devia olhar para a evolução das sondagens. É verdade que o Bloco caiu ligeiramente nesse período (mas vale a pena ver as sondagens no dia das Presidenciais, bem acima do resultado atual). Não nego que este apoio teve o seu efeito em alguns setores do eleitorado do partido. Mas é com a moção de censura (que parecia um ziguezague), anunciada duas semanas depois, que começa a vir por aí abaixo de forma bem acentuada. Evolução que a ausência na reunião com a troika confirmou."

quarta-feira, junho 08, 2011

O tempo do Bloco

Ando a ler "Que faire?" de Daniel Cohn-Bendit, onde se resume o percurso político dos principais partidos Verdes europeus desde o início dos anos 80 até à actualidade. Foi um percurso de 30 anos em que os resultados eleitorais foram subindo de década para década, dos 2% aos 10%, com trambolhões de volta para os 4% e para os 2%. No entanto, o Europe-Écologie (França) obteve 16% e os Verdes alemães obtiveram 12% nas eleições europeias de 2009. No mesmo ano os Verdes alemães obtiveram 11% nas legislativas. O estado federado de Baden-Württemberg é a partir deste ano governado por um Verde, à cabeça da coligação com o SPD.

Do ponto de vista da política económica, social e ambiental estes partidos ecologistas atraem nos respectivos países um eleitorado muito semelhante ao do Bloco. Em Portugal o PCP sequestrou a sigla dos Verdes, mas é incapaz de atrair esquerda não-marxista, socialistas, ecologistas, libertários, liberais de esquerda, toda essa fauna política que vota BE em Portugal e vota Verdes na Alemanha e em França.

Em apenas 10 anos o BE saltou dos 2,4% em 1999 para os 9,8% em 2009. Sabíamos que os 9,8% eram bons demais para ser verdade, havia ali muita vacuidade, gente descontente mas sem convicções, oportunistas, entre outros perfis pouco recomendáveis. Descer para 5,2% foi mau, mas o mundo não acaba amanhã. Tal como os Verdes europeus precisamos de tempo para consolidar, consolidar a nível local, consolidar a organização e consolidar a ideologia, calibrá-la com a realidade e a diversidade do nosso eleitorado e dos nossos aderentes. O BE pode e deve pensar em participar nas decisões do país (a nível local, regional ou nacional) até ao final desta década. O planeta não espera, as crises ambientais que se avizinham vão requerer as políticas ambientais das nossas esquerdas. No domínio económico, olhando para a Grécia e Irlanda, temo que a realidade vá dar razão ao BE muito mais cedo do que se espera.

terça-feira, junho 07, 2011

Reflexão sobre o Bloco - Daniel Oliveira

"...se o Bloco quer ser cópia do PCP, não só existe o original (que resulta para o seu próprio eleitorado), como, assim, o BE se afasta da sua base de apoio natural. O ziguezague na sua estratégia e a irresponsabilidade de algumas opções recentes foram punidas pelos eleitores."
Daniel Oilveira

Concordo, com uma pequena ressalva. Eu gostaria muito que o BE copiasse o PCP no que este tem de positivo, como a organização da sua estrutura, sobretudo a organização autárquica. O que eu lamento é o BE ter imitado os velhos tiques do PCP: a recusa em reunir com a comissão tripartida e a moção de censura.

segunda-feira, junho 06, 2011

A pesada herança de Fukushima

(publicado no portal Esquerda.net)

As reais consequências para o futuro da central de Fukushima Daichi e das regiões vizinhas começam a definir-se após recentes relatórios e declarações públicas de responsáveis japoneses. Em relatório enviado esta quarta-feira ao governo japonês por um grupo de peritos da Agência Internacional de Energia Atómica, afirma-se que os riscos de tsunami foram subestimados aquando da construção da central.

Noutro relatório elaborado pela organização japonesa responsável pelo tratamento dos resíduos nucleares identifica uma região contaminada superior a 600 km2. Fora da zona de exclusão de 20 km foram detectadas bolsas de contaminação ao nível das regiões evacuadas junto a Chernobyl. Por exemplo, em Katsurao, a cerca de 25 km da central, a contaminação por Césio 134 e 137 induz uma dose por habitante de cerca de 30 mSv, ou seja 30 vezes a dose autorizada.

Tetsuya Terasawa, o porta-voz da TEPco, a operadora da central de Fukushima, classificou o nível de radiação junto à central equivalente ao dos destroços deixados pelo teste de uma bomba atómica. Tersawa afirmou ainda que existe uma forte probabilidade de ter ocorrido a fusão dos reactores 2 e 3, tal como aconteceu no reactor 1 – a central de Fukushima é composta por quatro reactores. A fusão do combustível no reactor 1 gerou fissuras na estrutura de protecção através das quais se registam fugas de material radioactivo. Suspeitam-se fugas também no reactor 2. A TEPco espera controlar as fugas de radiação até finais de Julho e manter a temperatura dos reactores abaixo de 100°C até Janeiro de 2012. O presidente da TEPco, Masataka Shimizu, demitiu-se após a divulgação de um prejuízo de 11 mil milhões de euros - o pior défice de uma empresa não financeira da história do Japão.

Certamente uma área de algumas centenas de quilómetros quadrados estará vedada à população durante várias décadas com consequências pesadíssimas para a economia e o bem-estar das populações evacuadas e vizinhas da região sinistrada. É uma herança muito pesada para um país em reconstrução de um tsunami violentíssimo, com graves problemas de sustentabilidade energética, com uma economia estagnada há duas décadas e uma dívida pública superior a 200%.

sexta-feira, junho 03, 2011

O deputado que prestou contas

(publicado no O Figueirense de hoje, sem ligação à versão electrónica)

Em 2009, o BE elegeu pela primeira vez um deputado pelo distrito de Coimbra, o professor José Manuel Pureza. Durante os dois últimos anos o eleito bloquista prestou contas aos eleitores sobre o trabalho realizado na Assembleia da República em duas sessões (uma por ano) realizadas na Figueira e divulgadas nas páginas deste jornal. Nessas sessões, em que o deputado estava ali à distância de um aperto de mão, o eleitor que se questiona “o que é que os deputados fazem lá no Parlamento” teve a oportunidade rara de interpelar directamente um dos seus representantes distritais. Este é um conceito de responsabilização do eleito que promove a transparência, um valor essencial e prioritário para a credibilização da actividade política actual. No entanto, poucas concelhias no distrito de Coimbra correram esse risco de expor o seu eleito às questões directas dos eleitores.

Entra o bombo…
Nos antípodas desta prática está o CDS. O seu deputado por Coimbra, o médico Serpa Oliva, desde que foi eleito apenas se fez notar no concelho este fim-de-semana ao som de bombo e gaita, distribuindo com alegria inúmeras esferográficas. Mas o respeito do CDS pelos figueirenses também ficou patente na candidatura à câmara municipal, encabeçada por uma senhora muito educada e simpática mas que em pleno debate de cabeças de lista disse: “nem sabia que a Figueira estava endividada”. Eram só 80 milhões de euros em dívida. Isto mostra o nível de alheamento da política local de um partido a viver dos sketches televisivos do seu líder que ganha muitos votos à custa de atiçar pobres contra pobres. Nos países onde se atribui rendimento mínimo aos mais pobres, as taxas de mortalidade infantil são mais baixas – a dos EUA é quase o dobro da portuguesa – mas o poder do sketch televisivo anula a gravidade do assunto.
No próximo domingo a escolha dos figueirenses também vai passar por aqui, entre duas formas muito diferentes de fazer política, entre Serpa Oliva e José Manuel Pureza.

quinta-feira, junho 02, 2011

A ideia da privatização da RTP

A avaliar pela grelha semanal das duas estações privadas à hora a que podem ver televisão as pessoas que trabalham e estudam , a privatização da RTP deixa antever um futuro brilhante para um dos países da Europa que mais tempo passa à frente da televisão. Infelizmente para uma boa parte da população, de baixo nível educacional, que não lê, a televisão é o principal meio de educação. É esta xaropada de telenovelas, de concursos rasca e de telejornais sensacionalistas que lhes servem os privados de segunda a sexta:

TVI
19:32 Morangos Com Açúcar VIII
20:00 Jornal das 8
21:25 Remédio Santo
22:30 Anjo Meu
23:20 Sedução

SIC
20:00 Jornal da Noite
21:30 Peso Pesado - Diários
22:25 Laços de Sangue
23:40 Araguaia

Não haja ilusões a grelha televisiva de quem comprar a RTP (muito provavelmente a preço de saldos) não vai fugir muito disto. Juntando isto à brilhante ideia de acabar com o Ministério da Cultura, e em certos meios do PSD há inclusivamente quem queira extinguir o Ministério da Educação, a hercúlea tarefa de recuperação do nosso atraso educacional será ainda mais difícil.