quarta-feira, outubro 31, 2007

Aloha!

- Meia volta ao mundo para participar numa conferência, são luxos pouco compatíveis com a problemática ambiental. A generalização da videoconferência deveria limitar o número de deslocações de conferencistas, a emissão de CO2 e o desperdício de recursos. Ainda não estamos nesse ponto.

- Primeira impressão de Honolulu: os fotógrafos havaianos são excelentes. A selva de betão, a manhosice da construção dos hotéis "de sonho" e os condomínios que cortam o acesso directo à praia são brilhantemente disfarçados nas fotos turísticas.

- A fruta é exótica, sabe mesmo a fruta, e o peixe é fresquíssimo, a comida-brinquedo da metrópole ainda não se conseguiu impor aqui.

sábado, outubro 27, 2007

A Klepsýdra muda de águas

Dentro de algumas horas a Klepsýdra vai começar a registar o tempo com a água salgada lá do meio do Pacífico Norte, aí mesmo onde estão a pensar. Não vai propriamente de férias, mas os caros leitores podem sempre apresentar-se de prancha! ;)

sexta-feira, outubro 26, 2007

A China vai à Lua

A China iniciou o seu programa lunar com o lançamento do satélite Chang’e-1. O objectivo é fazer aterrar um rover na superfície lunar lá para 2020. Através dos emails que vou trocando com os meus colaboradores chineses sente-se aquele arrepio na espinha, a emoção de que o seu trabalho pode trazer de volta a China aos grandes acontecimentos da história, mas desta vez pelos bons motivos.

Conversas com o meu jardineiro



"Conversas com o meu jardineiro" de Jean Becker, baseado no romance homónimo de Henri Cueco, é um delicioso filme sobre os prazeres e as maleitas da vida. Dois colegas de infância encontram-se alguns decénios mais tarde, na velha aldeia onde frequentaram juntos a escola primária. Dupinceau (Daniel Auteil), filho de boas famílias, tem um percurso escolar sem falhas que o leva até às belas artes, acabando por fazer carreira na pintura. Léo (ou Dujardin), filho de modesta família, abandona a escola, levando uma pacata vida de operário cheia de rotinas e de rígidos rituais. A vida de Dupinceau contrasta com a do seu ex-colega de escola, exibindo um comportamento afectivo caótico, indisciplina e indiferença perante as coisas simples da vida, como o seu jardim. O reencontro entre os dois proporciona-lhes deliciosos momentos de nostalgia, intercalados por momentos de conflito entre as duas formas substancialmente diversas de encarar a vida. Este conflito, que vai evoluindo de uma forma interessante ao longo do filme, alimenta deliciosamente uma narrativa simples, mas intensa.

Duas boas interpretações, as de Daniel Auteuil e de Jean-Pierre Darroussin, num filme cuja principal virtude é a simplicidade. "Conversas com o meu jardineiro" prova como é possível fazer um filme de grande qualidade sem necessidade de se recorrer a grandes orçamentos.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Dawkins explica o darwinismo aos neocons e às criancinhas

"The argument from improbability states that complex things could not have come about by chance. But many people define 'come about by chance' as a synonym for 'come about in the absence of deliberate design'. Not surprisingly, therefore, they think improbability is evidence of design (...) A deep understanding of Darwinism teaches us to be wary of the easy assumption that design is the only alternative to chance (...) Natural selection is a cumulative process which breaks the problem of improbability up into small pieces. Each of the small pieces is slightly improbable, but not prohibitively so. When large numbers of these slightly improbable events are stacked up in series, the end product of the accumulation is very very improbable indeed (...) The creationist completely misses the point because he insists on treating the genesis of statistical improbability as a single, one-off event. He doesn't understand the power of accumulation."
"The God Delusion", Richard Dawkins, Bantam Press, 2006, pag. 114 e 120.


Após este blá blá blá vazio sobre darwinismo tirei do baú das trapalhadas uma ilustração do texto de Dawkins:
"de acordo com o argumento [do desígnio], o mundo natural, em particular o mundo biológico, apresenta uma ordenação que não pode ser explicada por mero acaso. Apresenta design. (...) A Teoria da Evolução não coloca em causa, por si só, o argumento do desígnio, isto porque, na ausência de outra explicação, o mistério da mudança teria igualmente que ser atribuido a um designer."
João Miranda a defender de cernelha o Desenho Inteligente/Criacionismo

terça-feira, outubro 23, 2007

Nem um europeísta aprecia o espectáculo

Já aqui escrevi várias vezes, defendo a adopção de um Tratado Constitucional para a UE, mas o espectáculo que nos tem sido proporcionado ultimamente pelos principais protagonistas das negociações é deprimente.

- A reflexão sobre as derrotas nos referendos holandês e francês foi esquecida (inclusivamente a questão matemática que já aqui expus);
- A abertura de um período de debate na UE aproximando-a aos cidadãos foi só retórica;
- Passar por cima dos NÃO através de votos parlamentares, só vai aumentar a desconfiança contra a UE e a vitimização dos anti-europeístas (Pacheco Pereira é um conhecido exemplo destes últimos);
- Prometer referendos e não os fazer, produz o mesmo efeito referido no ponto anterior;
- Considero infantil alguém congratular-se efusivamente por um tratado se chamar Tratado de Lisboa;
- A organização da Presidência Portuguesa tem sido péssima, coisa que tem tido pouco falado nos media nacionais.

domingo, outubro 21, 2007

João Miranda enterra-se ainda mais, agora o IPCC

"o feito [90% de probabilidades de a subida na temperatura] que José Manuel Fernandes atribui ao IPCC é impossível. Não existe nenhuma teoria científica que permita sustentar a atribuição de probabilidades à origem do aquecimento global. O aquecimento global é um processo deterministico, não é um processo aleatório. Aquele valor de probabilidade mede apenas o grau de confiança que o IPCC tem nas suas conclusões. Reflecte uma opinião do IPCC sobre o seu próprio trabalho. Mas ainda assim uma opinião." João Miranda



Se o João Miranda tivesse lido o relatório do IPCC poupava-nos de mais este chorrilho de disparates. A conclusão do relatório do IPCC sobre a influência da actividade humana no aquecimento global é caracterizada e quantificada de uma forma muito clara:

"The understanding of anthropogenic warming and cooling influences on climate has improved since the TAR, leading to very high confidence that the global average net effect of human activities since 1750 has been one of warming, with a radiative forcing of +1.6 [+0.6 to +2.4] W m–2."
"Summary for Policymakers", pag.3;
Figura TS5 (b) da pag.32 do "Technical Summary"

Nota:
Very high confidence: At least 9 out of 10 chance (> 90%), pag. 22 “Technical Summary”


O gráfico mostra de uma forma claríssima, com mais de 90% de probabilidade, que a radiação (em potência por metro quadrado) retida pelos gases de efeito de estufa emitidos pelo homem (antropogénicos) contribui para o aquecimento do planeta desde 1750. É este o resultado que está na origem da conclusão do IPCC acima referida. Quem investiga conhece a metodologia para se chegar a este tipo de resultado:

1- Os vários cientistas espalhados pelo planeta que trabalham em climatologia submetem a publicação trabalhos que são revistos pelos seus pares, onde se analisa até à equação a validade do trabalho. Os resultados publicados vêm acompanhados de barras de erro e incluem análises estatísticas que dão o grau de confiança no resultado.

2 – Afim de determinar o saldo entre a radiação que escapa e a que é retida pela atmosfera - para lá do mesmo saldo com origem em causas naturais - os investigadores compilam os resultados de todos os trabalhos que quantificam as contribuições de diferentes factores para o saldo de radiação que entra e sai através da atmosfera. Os erros associados a esses trabalhos são tratados através de diversos procedimentos estatísticos rigorosos. O mais básico é a formula de propagação dos erros, outro mais complexo mas mais comum é a formulação dos resultados pela significância (em sigmas) que exprime o grau de confiança no resultado, que pode ser expresso em probabilidades (o relatório do IPCC explica todos estes procedimentos).

3 – Obtém-se deste modo o resultado final de que a actividade humana desde 1750 está a contribuir para o aquecimento global, com um grau de confiança muito elevado, cuja probabilidade é superior a 90%, podendo-se exprimir esse aquecimento em potência absorvida média absorvida de 1,6 W.m-2.

João Miranda, um caso de arrogância e ignorância aguda
Percebemos todos que o João Miranda entrou em histeria bloguística após o anúncio do Nobel da Paz, estado esse que o fez estatelar-se ao comprido enquanto tentava vilipendiar Al Gore.

No entanto, o João Miranda cometeu erros ainda mais graves quando tentou vilipendiar o trabalho dos investigadores do IPCC, o trabalho de pessoas que fazem investigação a sério (não passam o tempo a investigar nos blogues) e que publicam continuamente artigos científicos avaliados pelos seus pares.
A interpretação do João Miranda sobre as conclusões do relatório do IPCC é errada em toda a linha e o pior é que os seus comentários revelam que o jornalista José Manuel Fernandes tem mais cuidado a analisar um assunto científico do que o João Miranda, que assina como investigador em biotecnologia. Pior ainda é que do seu texto se percebe perfeitamente que os conhecimentos do João Miranda sobre estatística são paupérrimos, que não está familiarizado com as técnicas de análise de propagação de erros ou como se pode exprimir resultados em função do grau de confiança. O lixo que escreveu este sábado no DN está embebido da mesma falta de rigor e dos mesmos equívocos encontrados no texto dedicado a JM Fernandes.

sexta-feira, outubro 19, 2007

A Desilusão de Deus

"A Desilusão de Deus" de Richard Dawkins não é apenas uma brilhante obra de divulgação científica, a obra de Dawkins é sobretudo uma obra oportuna do ponto de vista político. Numa época, em que o fundamentalismo religioso voltou a ganhar terreno, em particular através da progressão do islamismo no Médio Oriente e da ascensão ao poder nos EUA de uma das variantes mais fanáticas de protestantismo evangélico, Dawkins interpela-nos com toda a oportunidade sobre os perigos deste evidente retrocesso civilizacional.

Dawkins actualiza a reflexão científica sobre a existência de Deus através dos capítulos "A Hipótese da Existência de Deus" e "Argumentos para a Existência de Deus". A tendência humana para acreditar em entidades superiores ou espirituais é analisada no capítulo "Raízes da Religião" de uma forma muito interessante, do ponto de vista evolutivo da nossa espécie, tal como já o tinha feito Desmond Morris, embora as explicações não sejam totalmente coincidentes entre os dois autores. Ao longo do capítulo "Raízes da Moral", Dawkins desmonta a ideia que a moral só pode existir associada à religião. Através de múltiplos exemplos Dawkins recorda-nos que há mais de dois mil anos que as maiores atrocidades da nossa história têm sido perpetradas em nome de uma miríade de deuses. Neste capítulo Dawkins analisa o papel dos regimes laicos na pacificação da sociedade, sem deixar de caracterizar devidamente o estalinismo e o nazismo. Estaline como produto de um seminário católico e a espiritualidade maniqueísta de Hitler e a sua cumplicidade com o Vaticano.
A intolerância natural da religião é analisada por Dawkins, referindo-se este em particular à hostilidade à homossexualidade, ao modo de vida das sociedades mais abertas, à ciência e às religiões minoritárias. Apesar de Dawkins ser um aberto crítico das facções mais ortodoxas do judaísmo (tal como é crítico da Opus Dei, do catolicismo evangélico fundamentalista e do islamismo radical), Dawkins relembra-nos a história milenar da perseguição ao povo judeu, "os assassinos de Deus", como eram caracterizados.

Na minha opinião o melhor capítulo da obra é o capítulo dedicado à dificuldade que o cidadão comum tem em compreender os problemas cuja escala nos ultrapassa do ponto de vista espacial e do ponto de vista temporal. O muito grande ou muito pequeno, o Universo ou um quark não são conceitos intuitivos tendo em conta as nossas dimensões naturais e o espaço que cabe no nosso campo de visão. Os fenómenos naturais que duram alguns nanosegundos ou os milhares de milhões anos da vida de uma estrela dificilmente são assimilados pela maior parte das pessoas. Por exemplo, parte da dificuldade em compreender o fenómeno do aquecimento global tem origem no conflito entre a escala temporal facilmente intuitiva associada às recentes medições e a menos intuitiva escala temporal do ciclos de glaciações terrestres. A incompreensão da base científica associada a fenómenos cuja escala nos transcende são uma fonte abundante de espiritualismo e de sentimentos religiosos.

Outras passagens interessantes são o desmontar da infantilidade do Desenho Inteligente em poucas páginas, a análise ao negacionismo militante contra o darwinismo, a ciência moderna e o aquecimento global, bem como variadíssimas passagens deliciosas da bíblia onde se relatam genocídios, homicídios e abuso de mulheres e crianças em nome de Deus. Dawkins descreve ainda os evangelhos mais folclóricos, os que foram deixados de lado pelos últimos compiladores das escrituras, que descrevem Jesus Cristo em criança abusando dos seus poderes divinos como se fosse um mágico, ora transformando os seus colegas em cabras ora ajudando o seu pai nos trabalhos de carpintaria aumentando miraculosamente as dimensões das peças de madeira.

Livro Klepsýdra ***** (5 estrelas)

Principais ligações ateístas (e não só) fornecidas por Dawkins:
American Atheists
Atheist Alliance
Freedom From Religion Foundation
James Randi Educational Foundation

quinta-feira, outubro 18, 2007

Bernard-Henri Lévy no Esprits Libres



Hoje pelas 22:40 na TV5, Bernard-Henri Lévy (BHL) será o convidado de honra do excelente programa de literatura Esprits Libres. BHL apresentará o seu novo livro "Ce grand cadavre à la renverse" (Grasset), onde reflecte sobre a esquerda francesa e a esquerda europeia.

Confesso que já vi o programa, disponível na íntegra no sítio da TV5. O debate com BHL é como deve ser, acutilante, sem concessões, abrangendo uma variedade de assuntos que vão desde as recorrentes acusações à vida mundana do filósofo até à sofisticação da formulação teórica do que é uma política realmente de esquerda, passando por questões como o Darfur ou o racismo. BHL sai-se muito bem na minha opinião. O livro parece ser muito interessante. Mais mês menos mês aqui se comentará a última obra de BHL.

terça-feira, outubro 16, 2007

As asneiras do Rui Moura, do João Miranda e do Insurgente

É o que dá andar a fazer copy-past frenéticos de sites de pseudo-ciência sem ler com atenção e com rigor o que está escrito nos relatórios científicos ao compará-los com o filme do Al Gore. Não vi o filme, mas a análise a "Uma Verdade Inconveniente" fundamentada cientificamente por alguns dos melhores especialistas de climatologia pode ser lida aqui:

http://www.realclimate.org/index.php/archives/2007/10/convenient-untruths/

A conclusão:
"Overall, our verdict is that the 9 points are not "errors" at all (with possibly one unwise choice of tense on the island evacuation point). But behind each of these issues lies some fascinating, and in some cases worrying, scientific findings and we can only applaud the prospect that more classroom discussions of these subjects may occur because of this court case."

A análise dos 9 pontos é clara como a água para qualquer leigo, não deixa muito espaço às habituais fugas-para-a-frente negacionistas e mostra bem a deturpação deliberada da leitura que foi feita do acordão do juri inglês, do filme do Al Gore e das conclusões do IPCC. Leiam e comparem com o que foi martelado insistentemente pelo blogue negacionista do Rui Moura, pelo João Miranda (esta é muita gira) e pelo Insurgente.

A angústia do negacionista na hora do Nobel

O Nuno descreve e fundamenta devidamente a precipitação nos negacionistas do costume perante o anúncio do Nobel da Paz. Fomos bombardeados com mais um rol de asneiras e desta vez das grandes. Lá iremos, porque há disparates que são inadmissíveis para quem põe títulos à frente do nome.

Mundo de Aventuras XLIV


San Cristobal de las Casas, Chiapas, México, 2005

Mundo de Aventuras XLIII

segunda-feira, outubro 15, 2007

A superstição é imiscível com a ciência

É curioso ver o Insurgente tentar atirar-se a alguém evocando estar do lado da ciência, e é curioso por duas razões. Em primeiro lugar porque o Insurgente é um blogue que pisca o olho à superstição com muita facilidade e em segundo lugar porque em geral a ciência é apresentada pelo Insurgente de uma forma muito trapalhona.

A gama de superstições com que o Insurgente simpatiza vai desde a Nossa Senhora de Fátima ao Desenho Inteligente. Ora, a charlatanice do Desenho Inteligente é naturalmente rejeitada pelo Vaticano, quer isto dizer que é pecado um católico adorar o bezerro de ouro do desenho inteligente (1º e 2º mandamento, Êxodo 20.3 e 20.4). Tenham cuidado, o inferno espreita os pecadores! É sabido também que o Desenho Inteligente é uma fabricação de algumas seitas evangélicas americanas mais radicais. Se o Insurgente é um blogue de inspiração católica evangélica fundamentalista, retiro o que disse e ficamos perfeitamente esclarecidos.

Nas minhas esporádicas visitas ao Insurgente deparei-me com entradas sobre o problema do aquecimento global absolutamente trapalhonas. Confunde-se o que é global com o local, por exemplo um fenómeno climático local que não é estatisticamente significativo (nem na duração nem na frequência) é transformado em global (há resmas de entradas destas no Insurgente). É como se o caríssimo leitor chegasse à conclusão que não há aquecimento global porque abriu o frigorífico e ficou com frio… Esta outra entrada é de uma ignorância que dava chumbo na escola secundária. Nesta recorrem a um investigador do IPCC para fazer valer as suas ideias e nesta recorrem a um trapalhão para descredibilizar o IPCC. O Insurgente é assim, é uma trapalhada sem fim!

Há dois conceitos essenciais que o Insurgente tem que assimilar:

1) a ciência não é miscível com a superstição. Ou deixam a superstição de lado ou assumem-se definitivamente como um blogue de superstições e crendices, mas nesse caso é melhor deixarem de falar de ciência, porque perdem a toda credibilidade.
2) quando se faz referência à ciência deve-se ter o cuidado de recorrer a verdadeiro trabalho científico como o do IPCC e não andar à pesca de sítios Internet, de livros e de blogues que escrevem aquilo que querem ouvir. É que isso é muito fácil, a Internet é tão vasta que encontramos todas as barbaridades possíveis e imaginárias escritas com a maior das convicções em nome da ciência, mas isso não faz delas verdadeira ciência.

Os assassinos de Deus… lembram-se?

Os assassinos de Deus eram os judeus, segundo a Igreja Católica. E durante séculos foram assassinados muitos judeus (ex: massacre de 4 mil judeus em Lisboa em 1516) e muitos homens que nem judeus eram em nome desta acusação divina.
Leiam agora esta passagem do Insurgente:

"Um povo que foi também vítima de um século que quis, por momentos, matar Deus"

O Insurgente faz frequentemente uso deste léxico, mas com o cuidado de não derrapar para as velhas perseguições (a actual conjuntura não permite), usa-o para as novas perseguições, a matilha anda sedenta de sangue, por exemplo o lobby judeu é substituído pelo lobby gay, acusado e julgado sumariamente com a mesma convicção, o mesmo fanatismo e a mesma intolerância de outrora.

É paradoxal alguém ser acusado de matar algo que não existe, mais paradoxal é quando se mata os que são acusados de matar algo que não existe, é paradoxal mas foi um dos desportos preferidos da Igreja Católica durante séculos...

sexta-feira, outubro 12, 2007

IPCC

Aplauso para o árduo trabalho do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC). Durante quase uma década, mais de 1000 investigadores do IPCC oriundos de 130 países diferentes levantaram-se todas as manhãs para dedicar todo o seu tempo de trabalho ao estudo do clima, longe dos holofotes e do mediatismo, para nos oferecer um rigorosíssimo relatório sobre as alterações do clima posteriormente revisto por cerca de 2500 dos melhores investigadores especialistas em climatologia. O Nobel é muito bem merecido.

Dá-me um certo gozo, admito
Não posso negar que esbocei um sorriso malandro quando li as reacções dos astrólogos de serviço da causa negacionista. Numa altura em que até Bush e Lomborg admitem o problema do aquecimento global, eles permanecem estóicos, firmes e hirtos a denunciar a conspiração mundial da ciência contra a sua ideologia. Requiescat in Pace.

Excelente reportagem sobre transgénicos



A France 2 produziu uma excelente reportagem sobre a problemática dos transgénicos. Sem piscar o olho a apoiantes ou a detractores, a reportagem busca a informação essencial: os benefícios e os riscos à luz das respostas que a ciência tem para oferecer (para ver a emissão integral clicar na linha: "Voir ou revoir cette émission en intégralité").
Curiosamente, esta reportagem mostra como a acção dos Eufémios foi excessivamente mediatizada em Portugal quando comparada com o activismo que se pratica no resto do mundo. Não quero com isto dizer que apoio este tipo de acções.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Como combater o tele-lixo

É simples. Basta memorizar (ou escrever num papelinho) a publicidade que passa durante os circo-jornais da TVI, da SIC generalista e da RTP e a publicidade que passa entre as telenovelas e os programas de variedades da vida real, depois quando for às compras, compre os produtos concorrentes das marcas que fazem publicidade à hora do tele-lixo.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Os Fantasmas de Goya



"Os Fantasmas de Goya" de Milos Forman é uma das raras obras cinematográficas que aborda o tema da Inquisição Espanhola (não muito diferente da portuguesa). Começamos por assistir a um processo de denúncia de uma jovem oriunda de uma família judia que não é mais do que a vingança de uma frustração afectiva de um bufo. Sem entrar em momentos de sadismo fácil o filme mostra a profunda violência da Inquisição, mesmo quando a tortura se resume à utilização de uma corda. A narrativa atravessa o período da ocupação da Espanha pelas tropas napoleónicas e a interrupção da Inquisição, mostrando como é fácil para os mais fanáticos saltar do dogmatismo religioso para o dogmatismo ideológico. Infelizmente a história da esquerda tem muito disto, e em parte ainda se reconhece aqui e ali tendências de esquerda que herdaram o "salto-mortal" do dogmatismo religioso para o dogmatismo ideológico.

É uma pena o filme ser falado em inglês, perde-se muito em ambiente histórico e na substância dos diálogos. Pior, só Bardem a falar inglês. A forma como aquele que é na minha opinião um dos melhores actores da actualidade se exprime no filme, faz-me lembrar um bolseiro espanhol perdido num campus universitário britânico.

terça-feira, outubro 09, 2007

Espionagem económica Americana na Europa

Este texto e este de Pacheco Pereira vitimizam de uma forma sumária os EUA em relação a supostas más práticas económicas da UE. Como gosto pouco que invertam a realidade, que contem histórias ao contrário, eis ALGUNS dos casos em que empresas europeias foram vítimas de espionagem económica e de concorrência por parte dos EUA e que provocaram prejuízo e desemprego na Europa (ver sub-cap. 10.7 do relatório sobre o sistema de espionagem americano ECHELON):

Airbus
Escuta de faxes e telefonemas (sob o pretexto de suspeição de suborno...) transmitidos às concorrentes norte-americanas Boeing e Mc-Donnell-Douglas tiveram como consequência um negócio de 6 mil milhões de dólares favorável às empresas americanas.

BASF
Roubo da descrição do processo de produção de matéria-prima do creme para a pele da firma BASF (cosméticos).

Ministério da Economia Alemão
Roubo de informações sobre produtos de alta tecnologia no Ministério da Economia

Enercon (Alemanha)
Fotografias de pormenores importantes de parque eólico de alta tecnologia (terminais e platinas) permite o seu patenteamento nos EUA que teve como consequência a suspensão de projectos de penetração da Enercon no mercado americano.

Thomson-Alcatel
Escutas das negociações para a instalação de um sistema de vigilância por radar da floresta tropical brasileira entre a empresa e o governo brasileiro. As informações foram transmitidas à Raytheon que entra na corrida e ganha o contrato com ajuda da pressão de Clinton sob o argumento da suspeita de suborno.


PS- Só me refiro aqui a práticas desleais em que o governo americano recorreu aos serviços secretos, pagos pelos contribuintes para praticar outro tipo actividades - isto passou-se antes do 11 de Setembro. Dou de barato as patifarias e ilegalidades puramente proteccionistas que os EUA têm feito à indústria automóvel europeia, à Airbus, à carne, ao aço, ao cinema, aos queijos, aos vinhos e a uma série de produtos alimentares que têm um aspecto, textura e sabor autêntico, muito diferente da comida de plástico americana. Tudo casos bem diferentes das ilegalidades praticadas (mas defendidas por Pacheco Pereira) por empresas americanas julgadas em tribunais europeus em que estas tiveram total acesso aos melhores advogados, a um julgamento imparcial e a recurso.

O Nobel da Física explicado

No Rerum Natura, Luís Alcácer explica o que é a magnetorresistência gigante, a descoberta que deu o Nobel da Física a Albert Fert e a Peter Grünberg.