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segunda-feira, agosto 03, 2009

Metano, o novo perigo para o aquecimento global

(Publicado no portal Esquerda.net)

A progressiva diminuição dos gelos polares ocasionada pelo aquecimento global revelou um novo perigo que poderá reforçar o efeito de estufa: o metano. O metano é um gás cuja capacidade para reter o calor do Sol é 25 vezes superior ao CO2. No fundo dos lagos gelados do Árctico estão acumuladas cerca de 50 mil milhões de toneladas de metano - 10 vezes mais do que o metano concentrado na atmosfera que contribui actualmente para o efeito de estufa. À medida que esses lagos foram perdendo as suas coberturas de gelo, os restos de animais e plantas existentes no fundo descongelaram e foram processados por bactérias produzindo-se deste modo quantidades consideráveis de metano.

Nalgumas regiões esse metano já foi produzido noutras eras e encontra-se logo abaixo da camada de gelo superficial. Basta furar o gelo para haver libertação de metano. Foi assim, ao furar a cobertura de gelo de um pequeno lago siberiano, que a investigadora Katey Walter descobriu uma impressionante libertação de gás. Katey acendeu um fósforo em frente ao furo acendendo-se uma chama semelhante à produzida por um gigantesco bico fogão. Graças ao trabalho continuado desta investigadora durante os últimos sete anos, sabemos hoje que esse metano está a ser libertado para a atmosfera a uma taxa crescente de ano para ano. Mesmo em pequenas quantidades esse metano tem um alto poder para agravar o efeito de estufa, contribuindo para o aquecimento global e acelerando o degelo desses lagos, aumentando assim a quantidade de metano libertada para a atmosfera. Esta espiral de emissão de metano funciona em regime de realimentação positiva, acelerando à medida que o tempo passa.

A concentração de metano na atmosfera é hoje cerca de 1700 ppm (partes por milhão) o que corresponde a mais do dobro da concentração no inicio da era industrial (cerca de 800 ppm). No entanto, a concentração de metano medida na atmosfera teve um crescimento ainda mais rápido entre 2006 e 2008 do que nos anos anteriores, correspondendo ao considerável degelo registado no Árctico na ultima década.
Estas medidas mostram que a perigosa espiral de emissão de metano parece já estar em franca progressão. Mais um motivo para agirmos rapidamente contra o aquecimento global. Se cruzarmos os braços corremos o risco de a libertação de metano e o aquecimento global tomarem proporções incontroláveis.

segunda-feira, setembro 22, 2008

O segundo pior ano do Árctico

Desde 1979, quando o Árctico começou a ser observado por satélites, 2007 foi o ano em que a calote polar mais recuou. 2008 foi o segundo pior ano desde o início deste programa de observação do Árctico. O mínimo atingido este Verão correspondeu a uma superfície de gelo apenas 9,4% superior à superfície do mínimo de 2007.

Recordo que o Árctico é muito mais sensível a pequenas variações de temperatura do planeta do que o Antárctico (por razões que já aqui foram invocadas), funcionando na prática como um termómetro muito mais eficiente do que o Antárctico, muito invocado para justificar teorias conspirativo-niilistas muito ignorantes.

As perspectivas futuras não são muito animadoras, dado que muito dificilmente o Árctico recuperará a sua massa de gelo. O gelo dos pólos funciona também como um poderoso reflector dos raios solares, há medida que este desaparece, menos radiação é reflectida, mais radiação é absorvida e mais rapidamente aquece o planeta. O mais provável à luz da ciência actual é que a calote polar do Árctico possa desaparecer completamente num dos Verões a partir de 2030.

quarta-feira, março 05, 2008

O Árctico, o Antárctico e o aquecimento global

Publicado no portal Esquerda.net:

As regiões polares do nosso planeta reagem de forma diversa às alterações do clima provocadas pelo aquecimento global. A calote polar do Árctico é consideravelmente mais sensível à variação da temperatura média da Terra, enquanto o Antárctico responde de uma forma muito mais lenta às mesmas variações de temperatura. Um artigo de Spencer Weart, especialista em história da ciência, publicado no sítio RealClimate descreve com rigor as diferenças entre as duas regiões polares.

Desde há cerca de 25 anos que os modelos que descrevem a evolução do Antárctico em função do aquecimento global, prevêem correctamente que a região do Pólo Sul se mantenha fria. Fundamentalmente, esta conclusão decorre da capacidade calorífica da imensa calote polar e da gigantesca massa oceânica que envolve a Antárctida. O aumento da temperatura originado na atmosfera pelos gases de efeito de estufa tem, numa primeira fase, impacto directo apenas sobre as camadas oceânicas mais externas, dado que são estas as primeiras a absorver o excesso de energia capturada pelo planeta. À medida que a concentração dos gases de efeito de estufa aumenta, a dispersão do calor nos oceanos vai progredindo até profundidades sucessivamente superiores, mascarando temporariamente a percepção do aquecimento global. O modelo de Schneider e Thompson1 mostra que o superior volume oceânico do Hemisfério Sul se traduz numa resposta ao aquecimento global desfasada de alguns decénios à posteriori em relação à resposta das massas oceânicas do hemisfério norte, bem menos abundantes. Adicionalmente, a mistura de águas quentes e frias que ocorre a profundidades consideravelmente superiores no Hemisfério Sul em comparação com o Hemisfério Norte, explica também que os mais recentes modelos do clima da Antárctida indiquem que este continente não aqueça perceptivelmente antes de o clima no resto do planeta ter sido alterado radicalmente. Se pelo contrário se verificasse um aquecimento regular e generalizado da Antárctida num curto período de tempo isso significaria que o clima nas restantes regiões da Terra teria entrado numa fase de alterações radicais e consideravelmente perigosas para a humanidade.

Recentemente, o estudo das massas polares tem progredido bastante graças à observação por satélite. O ENVISAT é actualmente o satélite meteorológico da ESA que mais tem contribuído para o conhecimento das alterações climática nos pólos do nosso planeta. Esta animação da NASA composta por imagens de satélite mostra o rápido degelo a que tem estado sujeito o Árctico entre 1979 e 2006, tendo o ENVISAT registando no passado Setembro de 2007 a menor cobertura de gelo do Árctico registada até hoje2 (imagem ESA) em trabalho publicado recentemente da autoria de Comiso e Parkinson.

1- Stephen H. Schneider and S.L. Thompson, J. Geophysical Research 86: 3135-3147 (1981).
2- Josefino Comiso and Claire Parkinson, Geophys. Res. Lett. 35, L01703 (2008)