segunda-feira, outubro 10, 2011

Pergunta do BE sobre cortes no Hospital da Figueira

Assunto: Cortes no Hospital Distrital da Figueira da Foz

Destinatário: Ministério da Saúde

Exma. Senhora Presidente da Assembleia da República
A Administração do Hospital Distrital da Figueira da Foz (HDFF) enviou aos Ministros da Saúde e das Finanças propostas de cortes nos custos operacionais, na ordem dos cinco milhões de euros/ano. Que incluem: a possibilidade de encerramento do hospital de dia oncológico; a suspensão da actividade da viatura médica de emergência e reanimação (VMER); o encerramento do bloco operatório no período nocturno; a redução da equipa médica de urgência durante a noite, a redução de pessoal na triagem da urgência pediátrica e ainda a redução de enfermeiros no bloco operatório.
Todas estas medidas foram propostas à tutela sem qualquer diálogo com os directores de serviço do HDFF, o que levou já a quase totalidade a colocar o ser lugar à disposição.
Propostas que deveriam ser precedidas de cuidada análise e discussão interna com os representantes dos profissionais de saúde, com vista a minorar o impacto sobre a actividade assistencial, resumiram-se a mais cortes cegos, decididos administrativamente.
Os cortes decretados pelo Ministério da Saúde nos orçamentos dos hospitais para 2011 e 2012 são de uma ordem tão elevada, que só com o envolvimento de todos os profissionais, será possível minorar o impacto sobre a actividade assistencial e alcançar quaisquer objectivos com que as administrações se comprometam.
Atendendo ao exposto, e ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, o Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda vem por este meio dirigir ao Governo, através do Ministério da Saúde, as seguintes perguntas:
1. Que propostas foram apresentadas ao Ministério da Saúde pela Administração do HDFF, com vista à redução dos custos operacionais daquele Hospital em 2011 e 2012?
2. Qual o impacto dessas propostas nos custos operacionais do HDFF?
3. Qual a posição do Ministério da Saúde relativamente às propostas apresentadas, tendo em consideração que tem vindo a afirmar não pretender pôr em causa a qualidade dos cuidados de saúde prestados?
4. Legitima o Ministério da Saúde a actuação da Administração, ao decidir unilateralmente as propostas a apresentar, sem consultar os representantes dos profissionais de saúde, incluindo os directores de serviço?

Palácio de São Bento, 6 de Outubro de 2011.

João Semedo

domingo, outubro 09, 2011

Uma semana que demonstra a importância da ciência

(Publicado no portal Esquerda.net)



Desde há cerca de uma semana a ciência tem estado presente nas notícias pelos melhores motivos.Em primeiro lugar a experiência que mediu o tempo de voo dos neutrinos ao longo dos 730,5 km que separam o CERN do Laboratório do Gran Sasso em Aquila, Itália, abriu novas perspectivas à física fundamental ao revelar que os neutrinos viajam mais rápido do que a luz. A confirmar-se o resultado, as leis que regem o Universo deverão ser ajustadas e novas tecnologias poderão emergir a partir desta importantíssima descoberta. Na passada terça-feira, o Nobel da Física premiou a descoberta da expansão acelerada do Universo através da observação de supernovas longínquas. Desta vez o júri do Nobel não premiou uma descoberta com aplicações práticas, premiou um contributo relevante para conhecermos melhor este estranho lugar onde se desenrolam as nossas existências: o Universo. No dia seguinte foi inaugurada a Gemasolar, a maior central comercial de produção de energia solar que utiliza uma impressionante técnica em que os raios solares reflectidos por 2650 espelhos convergem numa torre com um núcleo salino. O sal a altas temperaturas serve para gerar vapor de água que por sua vez faz funcionar turbinas para produção de electricidade. Durante a noite o sal mantém-se quente e continua a produzir electricidade enquanto não volta a luz do Sol. Com uma potência de cerca de 20 MW, a Gemasolar apresenta uma capacidade de produção de energia equivalente a uma pequena central térmica.

Esta semana relembra-nos a importância da ciência para conhecermos melhor a evolução do Universo, as leis que o regem e a aplicação que essas leis poderão ter para gerar tecnologias que tornam a nossa vida mais confortável. O caminho que se percorre da ciência fundamental até tecnologia aplicada ao cidadão comum, é um caminho longo mas um dos raros que pode servir de solução em tempos de crise profunda. Mas, o panorama em Portugal mudou, hoje ninguém percebeu se o ministério de fusão que engloba educação e ciência tem alguma estratégia no domínio da política científica para fazer parte de uma hipotética solução que nos tire da crise, como aconteceu no caso finlandês (ver relatório da União Europeia). O silêncio profundo do ministério sobre a ciência, a ausência de um debate para envolver o meio científico na busca de uma estratégia alargada de combate à crise e ao desemprego, e os cortes radicais nos projectos financiados em 2011, transmitem para já a sensação que o Ministério da Ciência foi simplesmente suprimido.

sexta-feira, outubro 07, 2011

Despovoamento

Despovoamento é o título da crónica de hoje de Fernando Alves na TSF. Sobre o interior, sobre o seu despovoamento, o centralismo e as novas regras para a fusão de freguesias, enfim novos velhos problemas. A não perder.

quinta-feira, outubro 06, 2011

A angústia do leitor de Bolaño após a página 300

Depois de ler "La carte et le territoire" de Houellebecq, ler "2666" de Bolaño foi como começar a ler as páginas amarelas. Percebi porque é que os editores não respeitaram a vontade póstuma de Bolaño em dividir a obra em pequenas edições espaçadas no tempo. Pessoalmente, se comprasse a primeira não compraria mais nenhuma. A primeira história de 2666, apesar de tudo, a mais interessante até à página 300 (só faltam 700) mergulha-nos numa caça ao tesouro estimulante em busca do escritor Benno von Archimboldi. Mas é a única coisa estimulante, as personagens são autênticas figuras geométricas bidimensionais, sem espessura, triângulos que interceptam os seus vértices e as suas arestas com quadrados e losangos. O vernáculo é despropositado, quiçá mal traduzido (joder e follar significam coisas distintas em castelhano). As passagens sobre sexo são uma merda, ao nível luso. Nesse aspecto, o Chile é farinha da mesma massa, os mesmos complexos, o mesmo marialvismo velado, etc.

Quando li a nota sobre o autor que referia a sua adesão a uma nova geração de autores sul-americanos anti-Garcia Marquez, fiquei entusiasmado. Mas agora não sei se vou aguentar mais 700 páginas de xaropada Roberto Bolaño. Se alguma alma caridosa que já leu 2666 pretender motivar-me para seguir até à última página, use a caixa de comentários.

quarta-feira, outubro 05, 2011

A Taxa Tobin era coisa de radical de esquerda, lembram-se?


Há cerca de 10 anos atrás a Taxa Tobin era uma coisa de radicais de esquerda, de bloquistas, coisas da ATTAC, o próprio Tobin declarou que tinha uma visão da economia diferente de quem defendia a sua taxa.
Agora com a economia europeia e mundial em perigo de implosão, em cima dos joelhos, Barroso não hesita em propor uma espécie de taxa Tobin que cobriria cerca de 85% das transações dos bancos, bolsas e empresas financeiras. Mais vale (muito) tarde do que nunca. Obviamente, que o país europeu (o Reino Unido e a sua City) que mais ganha com a especulação e a economia da ganância é contra a medida.

terça-feira, outubro 04, 2011

Nobel da Física premeia astrofísica

The Nobel Prize in Physics 2011 was awarded "for the discovery of the accelerating expansion of the Universe through observations of distant supernovae" with one half to Saul Perlmutter and the other half jointly to Brian P. Schmidt and Adam G. Riess.


A primeira imagem fornecida pelo novo observatório ALMA (Atacama Large Millimetre/sub-millimetre Array) mostra as galáxias das antenas (NGC 4038 e 4039) situadas a cerca de 70 milhões de anos-luz da Terra. O ALMA foi construído no Chile e é formado por uma rede de telescópios que operam numa gama de comprimentos de onda milimétricos e sub-milimétricos, entre o infravermelho e as micro-ondas.

quinta-feira, setembro 29, 2011

Mais populismo rasca de Medina Carreira a nu

"um dos [problemas] que condiciona a implementação de mudanças é o peso do Estado na vida do país. (...) hoje, entre funcionários e pensionistas, “há 5 a 6 milhões de portugueses que recebem do Estado e que não estão nada preocupados... porque acham que o Estado paga sempre.”.
Medina Carreira, Casino da Figueira da Foz, 20/09/2011

A este exercício de ilusionismo populista responde muito bem o meu conterrâneo Alexandre Campos no blogue Aldeia Olímpica:
"Sempre pensei que os funcionários públicos ganham o seu ordenado à custa do seu trabalho; que os reformados, sejam públicos ou privados, têm direito à sua reforma porque a ganharam e descontaram para tal; que os desempregados têm direito ao subsídio a partir do momento que não lhes garantem trabalho, e porque, é muito importante compreender isto, enquanto trabalhadores fizeram os seus descontos, pagaram os seus impostos."

Caro Alexandre, é que esse "xico-esperto e lambe-botas do poder económico actual", como bem classificas acha que os reformados e os funcionários públicos são todos uns "vadios" e uns "pelintras" que estão é a roubar o estado, se fizeram descontos ou se são profissionais no seu trabalho, isso pouco interessa. O que é interessa é que ele não abdica da sua reformazita choruda do estado por dois miseráveis anos em que foi ministro das finanças durante os quais o FMI teve que intervir e a economia ficou em pantanas. Reforma esta que certamente acumula com outras reformas dos tachos dos grupos económicos por onde passou depois de ser ministro.

A não perder também este delicioso texto do Fernando Campos, destaco:
"A sua boca é uma torneira a deitar enormidades; que não caem em saco roto: a sua audiência é um imenso balde sem fundo e de boca aberta."

quarta-feira, setembro 28, 2011

Relatório Marisa Matias sobre investigação aprovado no PE



Um excelente trabalho da Marisa que culminou na aprovação do relatório sobre o financiamento da investigação e inovação na União Europeia para 2014-2020. Foram meses de negociações e de debates onde participaram investigadores portugueses e de toda Europa, inclusivamente prémios Nobel.

Agora um conselho de amigo, Marisa: vai dormir. Desconfio que não deves ter tido uma noite de 8 horas de sono nos últimos meses.

terça-feira, setembro 27, 2011

The Third Industrial Revolution de Jeremy Rifkin

Jeremy Rifkin é um dos meus pensadores de eleição. Dirige a Foundation on Economic Trends, foi conselheiro de Prodi na Comissão Europeia e escreveu obras muito interessantes como "O Sonho Europeu" e "A Economia do Hidrogénio" que aqui serviram para variados textos.
Hoje Rifkin lançou um novo livro "The Third Industrial Revolution - How Lateral Power Is Transforming Energy, the Economy, and the World". A minha biblioteca já me dirigiu um ultimato para adquirir a nova obra do senhor Jeremy.

O populismo rasca de Medina Carreira a nu

“Resolveu-se nos últimos anos endeusar as universidades. Mas então por que é que estamos tão mal? Porque não precisamos de tantos doutores, precisamos é de gente média que saiba fazer. As universidades aturam uma data de vadios e preparam a meia dúzia de gente que sempre foi boa”
Medina Carreira, Casino da Figueira da Foz, 20/09/2011.

Esta trapalhada rasca e mal educada num país saudável nem teria resposta. Mas dada a tribuna mediática - sempre sem contraditório - que é atribuída a este indivíduo, se não se responder, estas asneiras tantas vezes proferidas passam a ser verdade.

A primeira frase revela apenas que os progressos significativos registados nas universidades públicas e na ciência incomodam Medina Carreira. Porquê? Atrapalha a sua intervenção política em prol das ideologias do estado mínimo. O falhanço estrondoso de uma sociedade fortemente dependente dos mercados responde à segunda frase, que no nosso caso se traduz numa dívida privada de 220% do PIB (sobretudo externa), dívida que Medina Carreira evita evocar. A terceira frase revela um misto de ignorância e rasteireza. Portugal não tem licenciados (doutores em medina-carreirês) a mais, tem licenciados a menos. Todos os países com melhor nível de vida que nosso têm uma maior percentagem de pessoas formadas no ensino superior do que nós temos. Nesses países os quadros médios (gente média em medina-carreirês) passaram quase todos pelo ensino superior (escolas técnicas, bacharéis ou licenciaturas). Essa ideia é reforçada pelo relatório que estabelece os objectivos científicos da União Europeia, "Towards 3%: attainment of the Barcelona target", que descreve o sucesso da aposta da Finlândia na ciência e nas universidades nos anos 90 para responder à maior recessão registada num país da Europa ocidental desde a II Guerra Mundial, a uma taxa de desemprego de 20% e a uma dívida externa incomportável.

Número de publicações científicas por ano de autoria ou co-autoria de investigadores portugueses incluídas no Science Citation Index Expanded (Thomson Reuters/ISI).

No tempo de Medina Carreira não eram os melhores alunos que entravam nas universidades, eram os filhos dos ricos. O próprio Medina frequentou a universidade graças ao nível de vida do seu pai, o historiador António Barbosa Carreira. Nesse tempo, tirando algumas honrosas excepções Portugal era praticamente um zero em ciência. Havia departamentos inteiros nas universidades que não tinham qualquer actividade científica. A maioria dos alunos andava a passear os livros, não acabava o curso, mas isso não os impedia de ostentar o título de doutor no quotidiano (começamos a perceber a origem do medina-carreirês). No entanto a aposta que foi feita nos últimos 20 anos nas universidades e na ciência teve um retorno científico exponencial (ver gráfico). O número de patentes e de empresas científicas e tecnológicas disparou. Quer instituições quer empresas de investigação participam hoje em redes científicas internacionais juntamente com a ESA, o CERN e outras instituições muito prestigiadas. Apesar de tudo ainda há um caminho longo a percorrer, mas prefiro de longe esta universidade de "vadios" do que a velha universidade de filhinhos do papá.

domingo, setembro 25, 2011

Medina Carreira em registo tasca vínica

A palete de odores oscila entre o vinagre e o carrascão, num canto um velhinho mutilado trauteia uma moda num acordeão, sobre um banco corrido duas meretrizes asseguram a um cavalheiro que também são virgens, por baixo de uma das mesas um cão com duas feridas no dorso suspira. O cavalheiro de olhar esguio, levanta-se desconcertadamente tornando visíveis várias manchas tintas imprimidas na camisa e duas gotas grossas que lhe escorrem entre a cara e o pescoço, soltando em seguida esta frase em alta voz:

“As universidades aturam uma data de vadios e preparam a meia dúzia de gente que sempre foi boa”.


Nah, estou a reinar. Isto foi proferido por Medina Carreira, ao que parece em estado sóbrio, em ambiente muito respeitável do Casino da Figueira na passada terça-feira.

sexta-feira, setembro 23, 2011

Cuidado com a cabeça


É para esta tarde que está prevista a entrada na atmosfera dos destroços do satélite UARS, um satélite meteorológico lançado em 1991. A probabilidade que nos caia na cabeça é pequena, mas é bem mais provável assistir a um espectáculo de estrelas cadentes de origem humana. Para quem quer acompanhara a par e passo a queda do satélite seguir para esta página da NASA.

quinta-feira, setembro 22, 2011

A Figueira no Mapa



Na capa deste magnífico deste Atlas Maior de Joan Blaeu de 1665, reeditado pela Taschen, identificamos uma secção da nossa costa. Em destaque o Cabo Mondego. Ao lado desfilam localidades com nomes familiares: Buarcos, Santa Catarina, Figueira, Tavarede, Lavos, etc.

Publicações figueirenses



Os dois livros que sugiro na minha crónica "Pontos de Vista desta semana.
É com especial prazer que divulgo o trabalho do Nuno Camarneiro, um ex-autor aqui da casa.

segunda-feira, setembro 19, 2011

O capitalismo falhou II

Neste diagrama interactivo que mostra a distribuição de riqueza entre os 10% mais ricos e os restantes 90% da população americana mostra-se que os anos Reagan foram fatais para as classes média e baixa, enquanto os ricos ficavam cada vez mais ricos.

Manifesto Ciência lança propostas em Livro Branco

(publicado no portal Esquerda.net)

Tal como se temia, as medidas de austeridade alastraram à ciência, tendo-se traduzido muito recentemente na diminuição considerável do número de projectos financiados no concurso de 2011 pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. O caso de sucesso da Finlândia, que reforçou a aposta na ciência aquando da profunda recessão em que o país mergulhou no início dos anos 90 (consultar relatório da União Europeia, "Towards 3%: attainment of the Barcelona target"), não serviu de exemplo para o novo governo. Sem uma estratégia, nem a curto, nem a longo prazo, sem ministério, a ciência portuguesa está neste momento à deriva. Ninguém sabe, ninguém faz a menor ideia do que serão os próximos anos.

Perante este cenário, o movimento Manifesto Ciência lançou na forma de Livro Branco um conjunto de propostas que realçam o impacto da ciência no desenvolvimento económico das sociedades e o seu potencial para combater o desemprego e para ultrapassar períodos de crise. Neste particular são apresentadas propostas “que promovam a transferência de tecnologia e o empreendedorismo alicerçados na ciência portuguesa”. Mas também são apresentadas propostas muito relevantes para evitar um estado de deriva nos laboratórios e nos centros de investigação nacionais e para assegurar a sua sustentabilidade económica sem prejuízo da qualidade da investigação aí realizada. Uma das propostas apela para a abertura de concursos de projectos e de bolsas todos os anos, sempre na mesma data, com um período de avaliação e comunicação de resultados que não deverá exceder os 6 meses. À semelhança do que acontece no Reino Unido, apela-se à suspensão ou redução substancial do IVA (23%) no âmbito de despesas com os projectos de investigação. O IVA é neste momento um real problema no encorajamento à competição a financiamentos europeus e internacionais, dado que neste tipo de financiamentos as despesas de IVA não são aceites como despesas elegíveis. É proposto também um sistema misto para os recursos humanos: bolsas e contratos – actualmente não é garantido que o sistema de contratos se mantenha. Finalmente, de forma a garantir o desenvolvimento da cultura científica, a Manifesto Ciência propõe o incremento do número de revistas científicas subscritas pelos centros de investigação e universidades, “alargando a sua disponibilidade e reduzindo os custos de subscrição”.

sexta-feira, setembro 16, 2011

O foguetão da NASA que substitui o vaivém



A NASA já anunciou o sucessor do vaivém. Optou-se por uma opção clássica, um foguetão mais potente que todos os outros da agência, designado por SLS (Space Launch System). Ver mais aqui.

quinta-feira, setembro 15, 2011

Menos figueirenses, mais betão

Já há resultados preliminares dos censos de 2011. O concelho da Figueira perdeu quase 500 habitantes relativamente a 2001, nada de dramático em 10 anos, menos de 1%. O que cresceu significativamente em 10 anos foi o número de alojamentos, quase 15%. Era também disto que se falava quando se falava da betonização da Figueira da Foz.
















quarta-feira, setembro 14, 2011

O capitalismo falhou

É preciso repeti-lo. O capitalismo falhou.
A emissão de dívida europeia proposta por Krugmann vem com mais de um ano de atraso. Entretanto as políticas de austeridade pagam-se com muito desemprego e degradação dos serviços públicos.

segunda-feira, setembro 12, 2011

Pontos de Vista

Esta semana comecei a colaborar no programa Pontos de Vista da Rádio Clube Foz do Mondego. Eis o alinhamento das crónicas:


2ª-feira: Rui Curado Silva
3ª-feira: João Portugal
4ª-feira: Nélson Fernandes
5ª-feira: Miguel Almeida
6ª-feira: Pedro Daniel Santos.

Horário: 10h45 com repetição às 18h40.

terça-feira, setembro 06, 2011

DSK não interessa à esquerda


(via cartoons)

Deixando de lado as questões judiciais (teoria da conspiração ou violação), o comportamento de DSK (Dominique Strauss-Kahn) é inaceitável para um distinto representante da esquerda. DSK não teve qualquer pudor em despejar em cima do sistema judicial americano toda a sua fortuna familiar, revelando um completo desprezo pela desigualdade colossal entre a sua condição socioeconómica e a da queixosa. Percebe-se que não acredita num sistema judicial igualitário, onde ricos e pobres possam ter os mesmos instrumentos de defesa, nem tem interesse que assim seja. Ficámos a conhecer melhor um homem cujas opções de vida pessoal e familiar demonstram que não acredita no ensino público, nos transportes públicos, revelaram um indivíduo marialvista e que não hesita em fazer uso do seu poder em instituições públicas para resolver situações pessoais (ler carta da funcionária húngara que saiu do FMI depois do caso com DSK). As suas opções políticas à frente do FMI falam por si.

O que mais me perturba é energia que se gasta à esquerda para tentar desculpar o indesculpável relativo a DSK. Há bem melhores candidatos em França para bater Sarkozy.

segunda-feira, setembro 05, 2011

Lançada maior turbina para energia de correntes marítimas

(publicado no portal Esquerda.net)

Esta semana foi lançada ao largo da Bretanha a maior turbina do mundo (16 metros de diâmetro e 1000 toneladas de peso) destinada à produção de energia a partir de correntes submarinas.Instalada a 35 metros de profundidade, ao largo da costa de Paimpol e da ilha de Bréhat, a referida turbina deverá passar uma série de testes em condições reais, em particular a sua resposta às correntes e ao meio natural. Depois desta fase de testes a EDF (Electricité De France) instalará outras três turbinas na mesma zona ao curso de 2012. O parque de 4 turbinas produzirá um total de 2 MW/h, capazes de alimentar cerca de 2000 a 3000 lares. As turbinas estarão ligadas a um cabo submarino de 15 km que as ligará à rede eléctrica continental.

As turbinas do parque Paimpol-Bréhat foram construídas pela empresa irlandesa Openhydro nos estaleiros militares navais de Brest, tendo sido financiadas em parceria entre a EDF e as autoridades regionais. A região da Bretanha entrou com cerca de 25% dos custos. O projecto tem sido acompanhado pelas associações de recreio, ambientais e pescadores locais tendo sido avaliados os diferentes impactos na região. Neste sentido, a EDF chegou a um acordo com os pescadores locais para financiar em cerca de um milhão de euros um estudo sobre o impacto do parque na migração das lagostas, cuja pesca é importantíssima para a economia local.

Estima-se que o potencial de produção de energia a partir de correntes submarinas é de 2,5 a 3,5 GW em França, o que corresponde a 3 ou 4 % da produção actual de energia do país, ou seja poderá abranger alguns milhões de franceses. No entanto, um dos problemas desta forma de produção de energia é que a sua eficiência depende em grande medida da localização geográfica. O potencial da costa francesa para produzir energia a partir das correntes marítimas estima-se em cerca de 20 a 25% do potencial de toda a Europa. Melhores condições apenas se encontram nas ilhas britânicas. Na Escócia, a empresa ScotishPower Renewables está a implementar desde Fevereiro o maior parque de produção de energia de correntes marítimas, com o objectivo de produzir cerca de 10 MW a distribuir por cerca de 5 mil habitações. As maiores vantagens desta forma de produção de energia são o seu ligeiro impacto ambiental, comparada com outras renováveis, e a grande previsibilidade das correntes marítimas em contraste com a considerável aleatoriedade dos ventos, no caso da energia eólica.

Apesar de a EDF estimar o preço dos primeiros MW produzidos pelas turbinas de Paimpol cerca de 8 vezes mais elevado do que o actual preço de mercado, espera-se que nos próximos anos se consiga reduzir esses custos para um terço. A França tem como objectivo produzir até 2020 cerca de 23% de energia a partir das renováveis. A Escócia estabeleceu uma meta de 80% para a mesma data. Ambas as metas resultarão numa considerável redução de consumo e de importação de petróleo e de gás natural, o que a longo prazo constituirá uma escolha mais económica, visto que o preço destes combustíveis fósseis continuará ao aumentar ao longo das próximas décadas.

sexta-feira, setembro 02, 2011

O mercado tem sempre razão

O título desta notícia do DN diz tudo: "Gestores não executivos recebem 7400 euros por reunião". No texto lê-se "Daniel Proença de Carvalho, António Nogueira Leite, José Pedro Aguiar-Branco, António Lobo Xavier e João Vieira Castro são os "campeões" deste tipo de funções". Em particular sobre o ministro da defesa lê-se "por duas assembleias gerais em 2009, Aguiar-Branco recebeu 8080 euros, ou seja, 4040 por reunião". São as leis do mercado - dirão uns - mas a verdade é que isto são práticas semelhantes às práticas da ENRON.

Lê-se ainda que a Semapa "não divulga o salário do advogado [Aguiar-Branco]". Num país com uma das maiores dívidas privadas da Europa (~240% do PIB, cerca de duas vezes e meia a dívida pública), o mínimo que se exige a um ministro que vem do sector privado é que seja absolutamente transparente sobre os seus rendimentos anteriores. Aqui, desafiamos Aguiar-Branco a divulgar o salário da Semapa, para perceber se o moralismo do governo não passa de retórica.


Energia das correntes

Depois de algum tempo de pousio, os fluidos desta Klepsýdra voltam a circular. Nada melhor para assinalar este facto que a maior turbina do mundo destinada à produção de energia a partir das correntes marítimas, em operação desde ontem ao largo da Bretanha. Aqui fica o filme e a ligação:

sexta-feira, agosto 12, 2011

Pertencer à mesma equipa



Em "To the Castle and Back", Vaclav Havel critica uma despropositada carga da polícia checa sobre jovens manifestantes, num episódio ocorrido já depois do fim da era comunista. Havel lamenta-se que aquela intervenção teve como principal resultado cavar um fosso entre o estado e os jovens, separando-os, fazendo com que uns e outros não sintam que pertencem à mesma equipa.

Conheço mal Londres, mas quando estive em Birmingham foi para mim muito claro que os seus habitantes já não pertenciam à mesma equipa. Já havia gente de costas voltadas, havia o nós e os outros, a fazer lembrar o divórcio entre as cités e a sociedade francesa. A diferença é que em França os guetos foram criados por decreto no tempo de Pompidou e no Reino Unido foi a mão invisível que foi empurrando gente desempregada, gente em situação precária, com os mesmos problemas, para os mesmos bairros.

Depois acabar com os bairros da lata, o próximo passo da Europa deverá ser acabar com os guetos. Misturar ricos e pobres, cultos e menos escolarizados, imigrantes e autóctones, fazer-lhes sentir que as cidades pertencem a todos e que são um espaço de partilha.

segunda-feira, agosto 01, 2011

Houellebecq, Beigbeder e Angot

Michel Houellebecq, Frédéric Beigbeder e Christine Angot cruzam-se nos livros um dos outros em registos autoficcionais com estilos muito diversos. Raramente são simpáticos uns com os outros. Ao ler "La carte et le territoire", o prémio Goncourt de 2011 constatei que involuntariamente os três escritores formam uma cadeia literária viva que caracteriza uma certa Paris e uma certa França actuais. Os três escritores conseguem encaixar a aparente futilidade e banalidade dos gestos e dos hábitos quotidianos numa escrita inteligente, mas sem super-heróis. Beigbeder é um barómetro das discotecas e da vida mundana, Angot descreve-nos a suas idas ao quiosque e Houellebecq não hesita em partilhar os suas aventuras através de estradas bordejadas das distracções modernas.

Tal como refere o José Mário Silva numa das últimas edições da revista Ler, falta na literatura portuguesa quem se atreva a descrever as vivências do quotidiano, os cafés que frequentam, os jornais que lêem ou fazendo saltar para o meio das páginas personagens reais com quem se cruza no autocarro e na farmácia. Falta sobretudo um Beigbeder. Não é por isso de estranhar que este autor (tal como Angot) não tenham obra publicada em Portugal.

sexta-feira, julho 29, 2011

Como assanhar fanáticos II

O Ricardo Alves tem razão ao interpelar nesta entrada o Blasfémias sobre os atentados na Noruega. Relembremos que no Blasfémias também se fez futurismo à moda de Breivik nesta entrada, por exemplo, onde se representa o seguinte mapa:




Estou com um dilema futurista. Será que vamos ser todos pulverizados já para o ano pela Maldição Maia de 2012 ou seremos invadidos pelos mouros em 2015?
A memória é muito curta e esquece-se que há 100 anos, as "vítimas" deste mapa da treta de 2015 eram os "invasores" deste mapa que ainda não passou completamente à história:

terça-feira, julho 26, 2011

Como assanhar fanáticos

Até poderia ser uma das muitas passagens futurista do manifesto de Breivik, mas não, o texto abaixo transcrito foi publicado por Vasco Graça Moura na edição do Diário de Notícias de 19 de Fevereiro de 2003, na ressaca do voto do Parlamento Europeu contra a intervenção americana no Iraque.
O mais irónico é que neste texto os EUA são retratados em 2033 como a última reserva de branquitude, de cristianismo e de pureza onomástica. Abençoado Hussein Obama.


Europa, 17 de Fevereiro de 2033

Paris. O presidente Moustapha Ahmed Ibn Dupont aprovou várias medidas de apoio à alta costura francesa para a promoção do chador no mundo. Os oculistas protestam e afirmam que os óculos é que dão mais valor às mulheres, quando elas só mostram os olhos. No Centre Pompidou abriu uma exposição pós-pós-moderna de sapatos acumulados à entrada de Notre-Dame. Um crítico de arte imprudente que falou de souliers de Satan foi defenestrado por blasfémia do alto de um minarete em Montparnasse. Só depois se verificou tratar-se de uma gralha tipográfica. O revisor responsável foi lapidado.

Berlim. O chanceler Abdul Klaus von Rundfunk interditou a Nona Sinfonia de Beethoven em audições públicas ou privadas. A simples detenção de partituras ou discos implicará o corte das orelhas dos prevaricadores. Vai ser intensificada a investigação sobre tecnologia dos altos fornos. Altos responsáveis desmentem quaisquer preocupações étnicas na matéria.

Bruxelas. O rei Babadur-al-Alrun de Hohenlohe convocou o primeiro-ministro Abu-Akhbar Desfôrets e o ministro francófono Hassan Ibn Cocasse com vista à preparação de mais uma acção de sensibilização da opinião pública contra a separação entre a religião e o estado, uma vez que ou o estado se conforma com os preceitos da religião e é dispensável, ou diverge deles e é nefasto. O aiatola Eustache Ibn Gamal, reitor da Universidade Aladdin de Lovaina, falou do “eixo do mel” na abertura do seminário internacional sobre o papel da apicultura intensiva na redução do choque das civilizações. Confirma-se o achado de documentação relativa à extinta União Europeia num bunker da Rue de la Loi: foi nomeada uma comissão de expurgo, presidida pelo ministro flamengo Mohamed van der Roeckwaerts.

Vaticano. O papa Omar I relatou pormenorizadamente ao colégio dos cardeais a sua última peregrinação a Meca, explicando as razões atendíveis por que não foi autorizado a entrar no santuário. Foi aprovada a substituição do tratamento de “Sua Santidade” pelo de “Sua Obediência” e a exportação de vacinas de água-benta para os territórios em que ainda se detecte a presença do vírus da varíola, em consequência da última jihad de libertação da Europa, ocorrida há 30 anos. O consistório, como prova de boa vontade e tolerância, mandou revestir os frescos da Capela Sixtina com azulejos sobrantes da casa de banho de um dos palácios de Saddam Hussein.

Córdova. O rei Tarik II incumbiu o conde Julian Al-Barabi de Mora y Moro das obras de construção da nova e esplendorosa capital da Ibéria. O mulá Osama Extchgandiarra manifestou a sua preferência por Bilbao para sede do califado.

Lisboa. O ministro da educação, Sheik Al-Nefzaouí da Silva Pimentel, declarou não valer a pena mandar queimar Os Lusíadas pelo seu teor anti-islâmico, uma vez que a obra está fora do mercado e completamente esquecida. Mantém-se todavia a sanção do arrancamento dos olhos para quem os ler. Yassib Neca, presidente do F. C. da Merdaleja, denunciou como “cão infiel” o Dr. Samir Getúlio, presidente da Liga de Clubes. O Dr. Samir recolheu ao Aljube. Depois da remoção das vinhas, o vale do Douro vai passar a produzir sémola em socalcos, com vista à exportação de cuscus. Figuras da meiga esquerda lusitana foram condecoradas a título póstumo com a Ordem do Crescente Suave, por serviços prestados à causa de Bagdad.

Washington. O secretário de Estado da Defesa, John K. Merrywhistler, resumiu em quatro palavras a posição do seu país quanto à presente situação da Europa: “Let them fuck themselves”.

Vasco Graça Moura

Telescópio James Webb ameaçado pela direita americana

Publicado no portal Esquerda.net.

O futuro do telescópio James Webb, o telescópio espacial que deverá substituir o telescópio Hubble, foi posto em causa por uma proposta de cancelamento da missão elaborada pelo comité responsável pela execução financeira da Câmara dos Representantes dos EUA. No entanto, esta decisão deverá ainda passar pelo voto da Câmara dos Representantes cuja maioria é republicana e pelo voto do Senado onde a maioria é democrata.

O James Webb é um projecto comum da ESA, da NASA e da Agência Espacial Canadiana. Do ponto de vista científico será o telescópio espacial mais importante para a astronomia e a astrofísica nas próximas décadas e o substituto do actual telescópio Hubble.

O referido comité, onde a direita tem a maioria, justificou a decisão pelos elevados custos do projecto relembrando as actuais condicionantes orçamentais dos EUA para combater a crise da dívida. Estes argumentos foram denunciados pelo movimento Defend Science que evocou os gastos com os sistemas de ar condicionado utilizados no Afeganistão e no Iraque superiores a 20 mil milhões de dólares por ano, a cargo do contribuinte americano. A poupança que significaria o cancelamento do James Webb seria cerca de 1,6 mil milhões de dólares, para um custo total de cerca de 6,5 mil milhões - três quartos desta verba foi já implementada no projecto.

No entanto, frequentemente a direita americana tem tomado posições niilistas em relação à ciência realizada pelo telescópio Hubble, em particular as descobertas relativas ao Big Bang. Os sectores mais ortodoxos do Partido Republicano continuam a fazer pressão para que o criacionismo seja a explicação exclusiva da origem do Universo. Obviamente, para estes sectores o telescópio James Webb poderá realizar muitas descobertas inconvenientes, dado que entre os principais objectivos desta missão estão a observação dos primeiros objectos celestes formados após o Big Bang, a observação da formação de galáxias, do nascimento de estrelas, de sistemas protoplanetários e o estudo da origem da vida. Não seria de estranhar que a argumentação economicista seja apenas uma justificação de fachada para alimentar a cruzada contra a ciência dos sectores mais ortodoxos da direita americana.

segunda-feira, julho 25, 2011

Entregues aos Jotinhas

É deprimente constatar que ser Jotinha é um dos principais critérios para se ser líder do PS e do PSD. É um critério que atrai incompetência. Arriscamo-nos, em tempo de crise, a ter o binómio primeiro-ministro e líder da oposição mais incompetente de sempre.

sexta-feira, julho 22, 2011

Reestruturação: o Bloco tinha razão

As decisões tomadas ontem durante a Cimeira Europeia configuram uma reestruturação das dívidas da Grécia, Portugal e Irlanda, apesar de ser apenas uma reestruturaçãozinha, ainda tímida. Tal como escrevi nesta entrada sobre a reestruturação da dívida, o tempo iria dar razão ao Bloco.
Pena foram os meses perdidos a insistir em soluções de política de austeridade e aqui há uma grande dose de responsabilidade de Barroso e Van Rompuy. Quem pagou esta inacção foram os europeus através dos seus salários e dos seus empregos.

quinta-feira, julho 21, 2011

Juntem as claques todas do mundo



... e não chegam aos calcanhares desta coreografia dos agricultores do Loire-Atlantique (departamento 44).

Há 8 anos, como se fosse ontem



Há oito anos afixámos esta folha na blogosfera. Desde então, foi esticada ao longo de 2216 textos Mas ainda não estamos saciados, mais dois mil e depois mais mil e mil textos virão.
Este ano o Mestre de Cerimónias do nosso aniversário é Jean-Marc Généreux. Ele ofereceu-se e nós não ousámos recusar. Como é hábito, segue o programa da maluqueira.


2011 Klepsýdra Club Session

00.00-00.15 - Discurso de abertura de Jean-Marc Généreux intitulado: "Desde que leio a Klepsýdra danço o Jive com muito mais pinta".
00.15-00.45 - Warm Up - Se Hou
00.45-01.45 - Monika Kruse
01.45-02.45 - Armin Van Buuren
02.45-03.00 - Tom Craft Grand Warm Up - DJ Muxaxo
03.00-04.45 - Tom Craft
04.45-05.30 - Eric Morillo
05.30-06.00 - ATB
06.00-06.30 - Monsieur Philippe Corti

quarta-feira, julho 13, 2011

Sardanhada

Tendo escolhido este ano a Sardenha para carregar baterias dou-me com uma Itália a resvalar para o mesmo buraco onde caíram Portugal, Irlanda e Grécia. Com uma dívida pública de cerca de 130% do PIB, cerca de 40% mais do que Portugal mas com uma dívida privada e externa inferiores, a Itália pode ser a próxima vítima do liberalismo selvagem. Portugal é muito falado na TV Berlusconi (todos os canais disponíveis) após a despromoção atribuída pelas agências de notação, não passa despercebido o exemplo dos ultra-liberais portugueses que estão a provar do seu próprio veneno.
Mas o pior de tudo, é calma de Barroso e Van Rompuy perante a crise. Tenham dignidade e demitam-se.

Andy Schleck, obviamente

Acredito pouco em fábulas de bifes de vaca com hormonas consumidos num restaurante espanhol na Holanda, guardados em tupperwares que deixam os mesmos resíduos das embalagens de plástico de produtos dopantes.
Por isso quero ver nos Campos Elísios Andy Schleck de amarelo.

sexta-feira, julho 01, 2011

Peter Falk, o Columbo

Peter Falk foi Columbo naquela que é a minha série policial preferida, de longe, muito longe e foi também Columbo em "As Asas do Desejo", o meu filme preferido.

Curiosamente, a deliciosa personagem protagonizada por Peter Falk foi inspirada em Porfiry Petrovich, o detective de "Crime e Castigo" de Dostoiévski. Os autores da série inspiraram-se nas manhas de Petrovich, que se auto-desvalorizava e desvalorizava as perguntas dos interrogatórios a Raskólnikov, para no final aplicar uma ou duas questões que sobressaltavam o assassino de Aliona Ivanovna. Igualmente a estrutura do romance de Dostoiévski foi seguida em Columbo. Fica-se logo a saber quem e como assassinou, guardando-se todo o prazer para o descascar do crime e não para a revelação do criminoso. Depois, em Columbo, havia a gabardina (escolhida por Falk), o Peugeot 403, o cão e a mulher invisível de Columbo. Outro aspecto relevante da série era a afronta aos ricos e poderosos que se desenrolava durante a investigação, aquela gabardina e aquela personagem rapidamente gerava a cólera entre a aristocracia californiana. Em tempos de Guerra Fria, os autores revelaram uma coragem assinalável.

quarta-feira, junho 29, 2011

Uma estrela de neutrões com mais olhos que barriga



No reino animal é complicado um peixinho vermelho tentar engolir uma baleia, mas no Universo profundo uma pequena estrela de neutrões pode tentar engolir uma estrela azul gigante. Animação resultante das imagens to telescópio de raios X da ESA, XMM.

terça-feira, junho 28, 2011

Trapalhada nos secretários de estado e aviões a pedais

O populismo do Estado Mínimo, a ilusão transmitida às pessoas de que se poupa dinheiro cortando no número de ministérios, nas viagens de avião do primeiro-ministro ou reduzindo o número de deputados já começa a gerar trapalhada. A escolha de um número populista e arbitrário de ministérios (10+1, tipo Futre, depois de uma partilha de pastas cheia de manhas) em vez da definição dos ministérios em função do trabalho efectivo dedicado a cada área, teve como resultado a nomeação de 33 secretários de estado. As trapalhadas burocráticas para que os secretários de estado possam ter o mesmo poder de acção nos ministérios extintos, o tempo que se vai perder a mudar legislação, regulamentos, reajustamentos logísticos e de pessoal vão ter custos adicionais para o contribuinte. Um dos ministérios que é uma salada de temas, aquele gerido por Cristas, é o exemplo da irracionalidade deste executivo. Neste ministério vão ser geridos cerca de 90% dos fundos europeus, só...

Mas o episódio mais caricato foi a revelação de que o primeiro-ministro não poupou viajando em classe económica. Seria interessante saber se esta decisão não terá saído mais cara ao contribuinte com eventuais custos adicionais na segurança, dada a vulnerabilidade ao viajar em económica. As mega-empresas do sector financeiro mal-intencionadas ou o crime organizado agradecem essa vulnerabilidade certamente. Enquanto isso na banca, onde se recebe uma boa parte do empréstimo destinado a Portugal, os jactos privados não pararam de voar, os bónus milionários continuam a ser distribuídos e os pára-quedas dourados estão sempre à disposição em caso de alguma coisa correr mal.

Para dar maior realismo às medidas austeridade, Passos Coelho poderia encomendar aviões a pedais à Ryanair para uso do governo, com o ritmo da pedalada a ser comandado a chicote por Ricardo Salgado, José de Mello e Fernando Ulrich.

segunda-feira, junho 27, 2011

Фёдор Достоéвский

O que mais me impressionou nas minhas leituras de Dostoiévski é a maturidade da escrita. Há uma ingenuidade própria do ambiente da época, do século XIX, que se encontra inclusivamente na escrita de Emile Zola, Eça de Queirós ou Oscar Wilde. Mas em Dostoiévski, o olhar crítico sobre a sociedade e os indivíduos, o recuo com que é aplicado, é quase inacreditável para quem não atravessou o miolo do século XX.

Foram dias muito especiais em São Petersburgo, a estadia nas ruas onde se desenrolou Crime e Castigo, não é todos os dias que se pode ser vizinho de Raskólnikov e dormir a dois passos da casa onde Aliona e Lizaveta Ivanovna foram assassinadas, e da porta, daquela porta, atrás da qual Raskólnikov ainda se escondeu. Essa porta, tal como o apartamento, existiu e ainda existe, pode servir para esconder hipotéticos assassinos do século XXI.

sexta-feira, junho 24, 2011

Сáнкт-Петербýрг II


São Petersburgo, cerca das duas e meia da manhã. Em frente fica o Pólo Norte e a claridade vai avançando no céu da cidade dos czares e da revolução de Outubro.

terça-feira, junho 21, 2011

Сáнкт-Петербýрг

Consta que os bolcheviques foram muito expeditos em transformar as principais possessões dos Romanov em museus, entre as quais o Hermitage. Por duas razões. Os bolcheviques davam muita importância a um património cultural ao alcance do povo. Mas os bolcheviques também queriam mostrar a esse mesmo povo a opulência de vida dos Romanov, queriam mostrar ao povo o quão tinham sido roubados e explorados pelos Romanov. E o saque não foi grande, foi colossal. Depois de ter visto Versalhes, o Escorial, a Cidade Proibida e os principais palácios de Itália, os palácios dos Romanov são difíceis de qualificar. Aquelas colecções de obras de arte e a sucessão de salas e jardins com recheios sem paralelo no resto da Europa só foram possíveis de erguer à custa de gastos de fortunas umas atrás da outras.
O resultado é uma cidade entre as mais belas do mundo, que rivaliza sem favor com Paris e Roma. Mas não posso deixar de pensar nos milhões de russos que morreram à fome e que foram duramente explorados às portas do século XX para enriquecer uma única família.

Эрмитаж



Hermitage, São Petersburgo, cerca da uma e meia da manhã de hoje. A noite teima em não cair. Do lado do Pólo Norte o céu é mais claro. A sul reina o escuro, o resto da Europa dorme.

domingo, junho 19, 2011

Manifesto pela Ciência

(publicado no portal Esquerda.net)

O Movimento Ciência Portugal – movimento de cientistas e empreendedores que consideram que a investigação científica é um motor de desenvolvimento económico e social do país – lançou um manifesto cujo o objectivo é fazer da ciência e da tecnologia uma prioridade do debate político sobre o desenvolvimento do país.

O movimento sublinha os bons resultados decorrentes do investimento realizados nos últimos anos em recursos humanos e na investigação, em particular a criação de numerosas novas empresas e emprego de base científica e tecnológica. O movimento apela à continuidade do investimento enquadrado numa estratégia clara de longo prazo, relembrando a importância da ciência para ultrapassar a crise e o significativo impacto económico e social que tiveram medidas semelhantes implementadas em países de dimensão semelhante ao nosso. Neste sentido o movimento enumera uma série de ideias expressas num manifesto intitulado “Ciência - fonte de ideias para inovar Portugal”.

Esta é uma iniciativa louvável de investigadores e de empresários, numa altura de mudança governativa em que ainda não foi esquecida a incipiente política científica do último governo PSD-CDS. O primeiro sinal dado por este novo governo ao fundir os ministérios da ciência e da educação não indicia nada de bom. O populismo que pretende fazer poupanças cortando no número de ministérios, não está apenas a fazer cortes a que correspondem montantes insignificantes como também poderá comprometer o bom funcionamento das instituições que regulam a ciência, com consequências económicas negativas largamente superiores às pretensas poupanças.

É de lamentar a falta de importância que se dá à ciência, sobretudo quando se sabe que a aposta na ciência foi a receita para muitos países saírem de situações de crise profunda. Um dos casos de estudo é a Finlândia. O relatório que estabelece os objectivos científicos da União Europeia, "Towards 3%: attainment of the Barcelona target" publicado pela EASAC (European Academies, Science Advisory Council), descreve o sucesso das medidas adoptadas pela Finlândia para sair da crise em que o país mergulhou no início dos anos 90. Para responder à maior recessão registada num país da Europa ocidental desde a II Guerra Mundial, a uma taxa de desemprego de 20% e a uma dívida externa incomportável, o governo de união nacional teve a visão de não estender à ciência os cortes aplicados nos outros domínios. Pelo contrário, o investimento em ciência e tecnologia foi inclusivamente aumentado. O sucesso dessa política é conhecido, do qual a Nokia é o seu mais brilhante exemplo. Hoje, muitos de nós, transportamos no bolso o resultado de uma boa resposta a uma profunda crise.

sexta-feira, junho 17, 2011

Os mercados estão quase a acalmar...

"Juros da dívida batem máximos históricos a dez anos"

Sugiro que deixemos de trabalhar para o nosso bem-estar e para o bem-estar dos nossos filhos. Vamos trabalhar todos para acalmar os mercados.
Quando o homo-sapiens apareceu na savana, teve que trabalhar para acalmar as feras. O homo-sapiens moderno e sofisticado tem uma tarefa muito mais nobre: acalmar os mercados.

Nova Empresa de Investigação na Figueira

Uma empresa de investigação na área da extracção e da produção de óleos essenciais e produtos derivados, a Jardins de Vapor, abriu portas no Parque Industrial da Figueira. São este tipo de empresas que trazem verdadeira mais valia a uma cidade: jovens, emprego qualificado, alto potencial de crescimento e produção de activos transaccionáveis.
Que tudo corra pelo melhor.

quinta-feira, junho 16, 2011

A escravidão moderna na Ryanair

Já aqui defendi que a Ryanair deveria ser colocada na lista negra de companhias aéreas elaborada pela União Europeia. Este testemunho de uma hospedeira da Ryanair é muito ilustrativo das práticas abusivas e escravizantes da empresa. Por muito, menos outras empresas já foram multadas e punidas na justiça.
Se razões faltassem ao caríssimo leitor, eis mais uma para não voar na Ryanair.

Novo Jornal Europeu: European Daily

Foi lançada a edição zero do novo jornal europeu , o European Daily.
Produzido em Londres com ajuda de muitas mãos de outros cantos da Europa, esta publicação assume a perspectiva europeia da notícia por contraponto à habitual perspectiva nacional dos jornais publicados em cada país.
Esta primeira edição é prometedora, mas veremos se funciona periodicidade diária, embora seja uma vantagem evidente sobre os dois concorrentes óbvios: o Courrier International e o site Press Europ

quarta-feira, junho 15, 2011

É verdade, mas...

"Portugal virou, então, à direita (...) O que é duplamente irónico: porque foram as ideias liberais da direita e a sua crença num capitalismo sem regras que nos mergulharam a todos na crise; e porque são os mais pobres e mais desfavorecidos que mais vão sofrer"
Miguel Sousa Tavares do Expresso, 10 de Junho de 2011.

Sousa Tavares tem toda a razão, mas...
A banca e o sistema financeiro ficaram com a cabeça a prémio desde 2008, por isso mexeram-se e prepararam bem o terreno, enviaram cadeias de email "anónimas" acusando o estado de tudo, as televisões de direita deixaram de brincar em serviço, ofereceram ao povo as homilias do Medina Carreira, os jornais de economia (também de direita) ostracizaram todas as opiniões fora do pensamento ultraliberal, enfim um clássico da manipulação colectiva pelo sistema financeiro bem explicado no livro “The Best Way to Rob a Bank Is to Own One” de William Black, que descreve um ambiente semelhante durante a crise da banca ocorrida durante a era Reagan.
Pelo seu lado a esquerda ajudou bem. O PS continuou a dar crédito a um líder que no caso Freeport fez o suficiente (e só entro em conta com as decisões legais que tomou enquanto ministro do ambiente) para ser expulso de qualquer partido decente de esquerda. O BE estatelou-se ao tentar imitar o PCP. E o PCP (ou CDU se contarmos com a usurpação da sigla dos Verdes) continua na sua linha estóica de inutilidade política.

terça-feira, junho 14, 2011

Manifesto pela ciência

O manifesto pela ciência é uma excelente iniciativa de investigadores e de empresários, nesta altura de mudança governativa. A avaliar pela miséria que foi a política científica do último governo PSD-CDS, não se esperam grandes anos para a ciência. É uma pena, porque foi apostando na ciência que muitos países saíram de crises profundas. Um dos casos de estudo é a Finlândia. Leia-se aqui um relatório da UE que descreve o sucesso das medidas adoptadas pela Finlândia para sair da crise profunda em que mergulharam no início dos anos 90. Eis um breve extracto:

"In the early 1990s, an economic crisis struck Finland. Until then, Finland had traditionally depended on the Soviet Union for up to a third of its exports. When the Soviet Union collapsed in 1991, as much as 25% of Finland’s export trade contracts became irrelevant virtually overnight. What followed was the deepest economic recession experienced by any European market economy since the second World War, as Finland’s unemployment rate rose from around 3-4% to nearly 20% within the space of a few months. At the same time, Finland’s foreign debt was virtually exploding.

The depth of the economic crisis in the early 1990s helped create a general national sense of urgency, which helped further bolster the role of science and technology policy in Finnish economic policy. By the early 1990s, the importance of technological development for societal and economic development had become widely accepted. There was a strong consensus regarding this issue. Thus, in spite of deep cuts being made elsewhere, the funding for science and technology remained the same and even grew. Because of the widespread sense of urgency, there was little resistance to this policy, even though it largely had to be funded by reallocating funds from other purposes and, notably, from privatisation of governmentowned
companies, as the soaring rate of government debt did not permit funding through loans."
"Towards 3%: attainment of the Barcelona target", European Academies, Science Advisory Council

sexta-feira, junho 10, 2011

O advogado do terror



"O Advogado do Terror" é um filme que descreve o percurso de Jacques Vergès, um advogado francês, filho de pai da Reunião e mãe vietnamita, em cuja carteira de clientes figuraram o terrorista Carlos, o nazi Klaus Barbie, entre outras personagens culpadas de crimes violentos.
O mais interessante deste filme é perceber que a motivação de Vergés para defender uma série de personagens detestadas pelo mundo ocidental está claramente associada a uma vingança pela humilhação sofrida pelos pais durante o período colonial francês. A cada defesa de um inimigo público das ex-potências coloniais discerne-se uma pequena victória contra o estado que tratou a sua mãe como uma cidadã de segunda. Vergés utiliza a ironia e o cinismo sem limites para demonstrar o que sente.
Outra parte interessante do filme é a abordagem sobre o desaparecimento temporário de Vergés. Teria ele colaborado com Carlos? O seu modo de vida fausto e burguês rimavam pouco com o modo de vida austero dos grupos terroristas de extrema esquerda. Estaria Vergés a simular uma participação na organização de Carlos, para mais uma vez humilhar os estados ocidentais?

quinta-feira, junho 09, 2011

Reflexão sobre o Bloco - Daniel Oliveira II

A ler este artigo do Daniel Oliveira sobre o BE no sítio do Expresso. Destaco as seguintes passagens que me parecem tocar no cerne do problema:

"...uma cada vez maior discrepância entre o perfil político, social e ideológico dos militantes e dos eleitores. E esta pequenez cria no bloco o receio de assumir responsabilidades (faltam-lhe "tropas" que o defendam) e um desconhecimento do que é a sua rede de apoiantes e votantes."

"Pressionado pela má-consciência do apoio a Alegre e pela possibilidade do PCP se antecipar, a direção do Bloco entrou em versão pavloviana e decidiu avançar para uma moção de censura fora de tempo e mal preparada, que baralhou o eleitorado. Na verdade, tratou-se de um remake de um episódio passado, até nos protagonistas internos: o da Câmara Municipal de Lisboa. Depois de um esforço de alargamento e de uma política de aliança com independentes que correspondia à estratégia definida, a linha sectária (que raramente é visível no exterior, mas que consegue ter um extraordinário poder na curta estrutura do Bloco) impôs a sua vontade e contradisse a linha seguida até aí, apelando à pureza e autosuficiência do partido. Das duas vezes, agora e então, com resultados desastrosos nas urnas."

"Quem tem defendido que a queda do Bloco começou com as eleições presidenciais devia olhar para a evolução das sondagens. É verdade que o Bloco caiu ligeiramente nesse período (mas vale a pena ver as sondagens no dia das Presidenciais, bem acima do resultado atual). Não nego que este apoio teve o seu efeito em alguns setores do eleitorado do partido. Mas é com a moção de censura (que parecia um ziguezague), anunciada duas semanas depois, que começa a vir por aí abaixo de forma bem acentuada. Evolução que a ausência na reunião com a troika confirmou."

quarta-feira, junho 08, 2011

O tempo do Bloco

Ando a ler "Que faire?" de Daniel Cohn-Bendit, onde se resume o percurso político dos principais partidos Verdes europeus desde o início dos anos 80 até à actualidade. Foi um percurso de 30 anos em que os resultados eleitorais foram subindo de década para década, dos 2% aos 10%, com trambolhões de volta para os 4% e para os 2%. No entanto, o Europe-Écologie (França) obteve 16% e os Verdes alemães obtiveram 12% nas eleições europeias de 2009. No mesmo ano os Verdes alemães obtiveram 11% nas legislativas. O estado federado de Baden-Württemberg é a partir deste ano governado por um Verde, à cabeça da coligação com o SPD.

Do ponto de vista da política económica, social e ambiental estes partidos ecologistas atraem nos respectivos países um eleitorado muito semelhante ao do Bloco. Em Portugal o PCP sequestrou a sigla dos Verdes, mas é incapaz de atrair esquerda não-marxista, socialistas, ecologistas, libertários, liberais de esquerda, toda essa fauna política que vota BE em Portugal e vota Verdes na Alemanha e em França.

Em apenas 10 anos o BE saltou dos 2,4% em 1999 para os 9,8% em 2009. Sabíamos que os 9,8% eram bons demais para ser verdade, havia ali muita vacuidade, gente descontente mas sem convicções, oportunistas, entre outros perfis pouco recomendáveis. Descer para 5,2% foi mau, mas o mundo não acaba amanhã. Tal como os Verdes europeus precisamos de tempo para consolidar, consolidar a nível local, consolidar a organização e consolidar a ideologia, calibrá-la com a realidade e a diversidade do nosso eleitorado e dos nossos aderentes. O BE pode e deve pensar em participar nas decisões do país (a nível local, regional ou nacional) até ao final desta década. O planeta não espera, as crises ambientais que se avizinham vão requerer as políticas ambientais das nossas esquerdas. No domínio económico, olhando para a Grécia e Irlanda, temo que a realidade vá dar razão ao BE muito mais cedo do que se espera.

terça-feira, junho 07, 2011

Reflexão sobre o Bloco - Daniel Oliveira

"...se o Bloco quer ser cópia do PCP, não só existe o original (que resulta para o seu próprio eleitorado), como, assim, o BE se afasta da sua base de apoio natural. O ziguezague na sua estratégia e a irresponsabilidade de algumas opções recentes foram punidas pelos eleitores."
Daniel Oilveira

Concordo, com uma pequena ressalva. Eu gostaria muito que o BE copiasse o PCP no que este tem de positivo, como a organização da sua estrutura, sobretudo a organização autárquica. O que eu lamento é o BE ter imitado os velhos tiques do PCP: a recusa em reunir com a comissão tripartida e a moção de censura.

segunda-feira, junho 06, 2011

A pesada herança de Fukushima

(publicado no portal Esquerda.net)

As reais consequências para o futuro da central de Fukushima Daichi e das regiões vizinhas começam a definir-se após recentes relatórios e declarações públicas de responsáveis japoneses. Em relatório enviado esta quarta-feira ao governo japonês por um grupo de peritos da Agência Internacional de Energia Atómica, afirma-se que os riscos de tsunami foram subestimados aquando da construção da central.

Noutro relatório elaborado pela organização japonesa responsável pelo tratamento dos resíduos nucleares identifica uma região contaminada superior a 600 km2. Fora da zona de exclusão de 20 km foram detectadas bolsas de contaminação ao nível das regiões evacuadas junto a Chernobyl. Por exemplo, em Katsurao, a cerca de 25 km da central, a contaminação por Césio 134 e 137 induz uma dose por habitante de cerca de 30 mSv, ou seja 30 vezes a dose autorizada.

Tetsuya Terasawa, o porta-voz da TEPco, a operadora da central de Fukushima, classificou o nível de radiação junto à central equivalente ao dos destroços deixados pelo teste de uma bomba atómica. Tersawa afirmou ainda que existe uma forte probabilidade de ter ocorrido a fusão dos reactores 2 e 3, tal como aconteceu no reactor 1 – a central de Fukushima é composta por quatro reactores. A fusão do combustível no reactor 1 gerou fissuras na estrutura de protecção através das quais se registam fugas de material radioactivo. Suspeitam-se fugas também no reactor 2. A TEPco espera controlar as fugas de radiação até finais de Julho e manter a temperatura dos reactores abaixo de 100°C até Janeiro de 2012. O presidente da TEPco, Masataka Shimizu, demitiu-se após a divulgação de um prejuízo de 11 mil milhões de euros - o pior défice de uma empresa não financeira da história do Japão.

Certamente uma área de algumas centenas de quilómetros quadrados estará vedada à população durante várias décadas com consequências pesadíssimas para a economia e o bem-estar das populações evacuadas e vizinhas da região sinistrada. É uma herança muito pesada para um país em reconstrução de um tsunami violentíssimo, com graves problemas de sustentabilidade energética, com uma economia estagnada há duas décadas e uma dívida pública superior a 200%.

sexta-feira, junho 03, 2011

O deputado que prestou contas

(publicado no O Figueirense de hoje, sem ligação à versão electrónica)

Em 2009, o BE elegeu pela primeira vez um deputado pelo distrito de Coimbra, o professor José Manuel Pureza. Durante os dois últimos anos o eleito bloquista prestou contas aos eleitores sobre o trabalho realizado na Assembleia da República em duas sessões (uma por ano) realizadas na Figueira e divulgadas nas páginas deste jornal. Nessas sessões, em que o deputado estava ali à distância de um aperto de mão, o eleitor que se questiona “o que é que os deputados fazem lá no Parlamento” teve a oportunidade rara de interpelar directamente um dos seus representantes distritais. Este é um conceito de responsabilização do eleito que promove a transparência, um valor essencial e prioritário para a credibilização da actividade política actual. No entanto, poucas concelhias no distrito de Coimbra correram esse risco de expor o seu eleito às questões directas dos eleitores.

Entra o bombo…
Nos antípodas desta prática está o CDS. O seu deputado por Coimbra, o médico Serpa Oliva, desde que foi eleito apenas se fez notar no concelho este fim-de-semana ao som de bombo e gaita, distribuindo com alegria inúmeras esferográficas. Mas o respeito do CDS pelos figueirenses também ficou patente na candidatura à câmara municipal, encabeçada por uma senhora muito educada e simpática mas que em pleno debate de cabeças de lista disse: “nem sabia que a Figueira estava endividada”. Eram só 80 milhões de euros em dívida. Isto mostra o nível de alheamento da política local de um partido a viver dos sketches televisivos do seu líder que ganha muitos votos à custa de atiçar pobres contra pobres. Nos países onde se atribui rendimento mínimo aos mais pobres, as taxas de mortalidade infantil são mais baixas – a dos EUA é quase o dobro da portuguesa – mas o poder do sketch televisivo anula a gravidade do assunto.
No próximo domingo a escolha dos figueirenses também vai passar por aqui, entre duas formas muito diferentes de fazer política, entre Serpa Oliva e José Manuel Pureza.

quinta-feira, junho 02, 2011

A ideia da privatização da RTP

A avaliar pela grelha semanal das duas estações privadas à hora a que podem ver televisão as pessoas que trabalham e estudam , a privatização da RTP deixa antever um futuro brilhante para um dos países da Europa que mais tempo passa à frente da televisão. Infelizmente para uma boa parte da população, de baixo nível educacional, que não lê, a televisão é o principal meio de educação. É esta xaropada de telenovelas, de concursos rasca e de telejornais sensacionalistas que lhes servem os privados de segunda a sexta:

TVI
19:32 Morangos Com Açúcar VIII
20:00 Jornal das 8
21:25 Remédio Santo
22:30 Anjo Meu
23:20 Sedução

SIC
20:00 Jornal da Noite
21:30 Peso Pesado - Diários
22:25 Laços de Sangue
23:40 Araguaia

Não haja ilusões a grelha televisiva de quem comprar a RTP (muito provavelmente a preço de saldos) não vai fugir muito disto. Juntando isto à brilhante ideia de acabar com o Ministério da Cultura, e em certos meios do PSD há inclusivamente quem queira extinguir o Ministério da Educação, a hercúlea tarefa de recuperação do nosso atraso educacional será ainda mais difícil.

terça-feira, maio 31, 2011

A teoria do complot



Delicioso este cartoon de Vadot publicado no l'Express em que se fundem duas teorias da conspiração (desaparecimento de Ben Laden e o caso Strauss-Khan) numa única narrativa.

segunda-feira, maio 30, 2011

Como reestruturar a dívida

É o título de um interessante artigo Nuno Peres Monteiro e Eduardo Teixeira (Prof. em Yale e quadro bancário, respectivamente), como se sabe ambos estão longe de ser aderentes do Bloco de Esquerda. Temo que muito proximamente, mais rapidamente do que esperamos, a realidade dê toda a razão a Louçã.

quinta-feira, maio 26, 2011

E se a mortalidade infantil aumentar?



(Gráfico Pordata)

Se o PSD e o CDS constituírem governo e implementarem as suas ideias sobre a privatização da saúde e cortes (ou extinção) do complemento social de inserção, e se no seguimento destas medidas a mortalidade infantil aumentar, alguém vai ter que se responsabilizar por esse flagelo.

Portugal é um dos países do mundo com menor taxa de mortalidade infantil, menor do que nos EUA e do que na generalidade dos países onde a saúde não é universal nem tendencialmente gratuita e dos países que não cuidam dos mais pobres entre os pobres. Este é um dos parâmetros que mostra com maior clareza a diferença entre o país de Salazar, onde as crianças até um ano de idade morriam a uma taxa que já não se usava há décadas no resto da Europa (Bulgária e Roménia incluídas), e o Portugal de hoje. Em 2010, pela primeira vez desde há décadas, a mortalidade aumentou, aumentou residualmente, mas aumentou. Espero que daqui a 4 anos não estejamos aqui a lamentar uma subida bem mais considerável.

O cartoon da semana



Por Bertrams no De Groene Amsterdammer

terça-feira, maio 24, 2011

Aquecimento Global afecta produção agrícola mundial

(publicado no portal Esquerda.net)

Um trabalho científico publicado na revista Science deste mês analisa a produção agrícola mundial desde 1980 em função de vários factores, entre os quais o aumento de temperatura global registado nos últimos 30 anos decorrente da actividade humana. Entre os dez anos mais quentes até hoje registados, nove ocorreram entre 2001 e 2010. Dezembro de 2010 foi o 310omês consecutivo cuja temperatura ultrapassou a média de temperaturas do século XX. A última vez que um mês apresentou uma temperatura média inferior à do século XX foi o mês de Fevereiro de 1985. Esta tendência clara de aumento da temperatura média global reflectiu-se no trabalho publicado na Science. Nas principais regiões de cultivo registaram-se durante a época de crescimento da produção agrícola as variações da temperatura média expressas no mapa apresentado. Exceptuando as regiões agrícolas dos EUA e do Canadá onde se verifica um ligeiro arrefecimento, no resto do mundo registou-se um aumento até 3°C.

Entre os principais factores (medidos e simulados por modelos) que afectam as colheitas, verificou-se que a precipitação não teve grande influência na produção média global. No entanto os efeitos produzidos pela variação da temperatura média revelaram-se importantes para cada um dos produtos agrícolas estudados, em particular nas regiões onde aumentou a temperatura (ver mapa). Observou-se nos últimos 30 anos uma redução da produção de trigo na Rússia, na Índia e em França, bem como uma diminuição da produção de milho na China e no Brasil à medida que a temperatura nestas regiões foi aumentando. Estes dados indicam que a prioridade de adaptação às alterações do clima deve estar centrada nos efeitos produzidos nas culturas pelo aumento de temperatura global.

Pesando o aumento de cerca de 20% dos custos afectados apenas ao aumento da temperatura com os benefícios para as culturas resultantes do aumento da concentração do dióxido de carbono na atmosfera causado pela actividade humana, verificou-se um aumento total do preço do trigo e do milho superior a 5%, ou seja um aumento total de despesa de 50 mil milhões de dólares (a preços constantes) em todo o mundo.

Tendo em conta que nas últimas duas décadas tem sido mais frequente ocorrerem anos em que o consumo supera a produção agrícola mundial e tendo ainda em conta o facto de a temperatura média global continuar a aumentar, e a aumentar mais rapidamente, não se prevêem melhorias para a agricultura do planeta. Se razões faltavam, eis mais um forte motivo para se combater o aquecimento global com muita urgência.

quinta-feira, maio 19, 2011

E que tal cortar gorduras no sector privado?

Como se mostra neste esquema, todos os anos cerca de 10 mil milhões de euros gerados no sector privado resultam de fraude e de crime económico. 6 mil milhões de parcerias público privadas, privatizações e rendas várias (monopólios naturais, saúde e ensino privados, por exemplo). 5 mil milhões resultam de juros cobrados sobre a dívida pública (gráfico publicado no livro Os Donos de Portugal).

O que apresentam os programas de PSD, CDS e PS para combater estes 20 mil milhões de euros de desperdício? Pouco ou nada. Pior ainda, o PSD e o CDS apresentam várias medidas deixam ainda mais caminho livre à fraude e ao crime económico. Ao proporem a redução cega de funcionários públicos e de salários nas divisões que supervisionam o sector financeiro e ao proporem a redução do número de deputados (o órgão com mais poder em democracia para lançar inquéritos aos maiores poderes do país) estarão a recriar as condições de desregulação que precederam o desastre do sector financeiro islandês e irlandês.

quarta-feira, maio 18, 2011

Avenida dos Aliados: aplaudir Domingos

Aplaudir Domingos quando entrar em campo, é o mínimo, e agradecer o extraordinário contributo para o sucesso F.C. Porto enquanto jogador.

Rotos vs Esfarrapados em Terra de Falidos

O que pensará o europeu comum quando esta noite descobrir que a final da Liga Europa decorre na Irlanda com dois finalistas portugueses (só faltava o árbitro ser grego para completar o ramalhete)?
Se consultar as respectivas dívidas privadas (220% do PIB em Portugal e 350% na Irlanda) produzidas pelos sectores imobiliário e a banca de ambos os países, andará perto da revelação deste milagre.

terça-feira, maio 17, 2011

Barómetro da crise

A crise faz-se de muitas pequenas histórias como esta relatada pelo António Agostinho no Outra Margem.

segunda-feira, maio 16, 2011

Quem andou a elogiar a Irlanda...




Neste interessante artigo do Prémio Nobel Paul Krugman pode ler-se:

"people who praised Ireland as a role model shouldn’t be giving lectures on responsible government" (quem andou a elogiar a Irlanda como modelo a seguir não deveria dar lições de moral sobre governação responsável).

Neste aspecto, o discurso de Paulo Portas aqui relembrado e aplaudido na altura pela sua bancada é muito eloquente. Obviamente, os extremistas do Bloco de Esquerda é que estavam equivocados.

Mas o artigo de Krugman descreve também como as elites responsáveis pela crise têm sacudido a água do capote, fazendo-se passar por sérios e austeros (isto faz-se através das televisões que são controladas pela direita) distribuindo acusações ao processo democrático e ao comum eleitor, afastando as atenções dos crimes e imoralidades cometidos pelo sistema financeiro:

"So it was the bad judgment of the elite, not the greediness of the common man, that caused America’s deficit. And much the same is true of the European crisis."

domingo, maio 15, 2011

Avenida dos Aliados: sem espinhas

O sonho de gerações de portistas, um campeonato ganho sem espinhas.
Agora há outra grande meta que aparece no horizonte. Não vai durar menos de 7 anos a ser alcançada, mas a contagem decrescente já começou, carago.

quarta-feira, maio 11, 2011

Habilidades que Paulo Portas aprendeu na Irlanda


Veja-se o gráfico do aumento da dívida pública em função do PIB apresentado por Paulo Portas no debate de segunda-feira. Agora leia-se este artigo do Jornal de Negócios onde é apresentado o mesmo indicador mas desta vez sem países escondidos. Portugal é quinto e não primeiro como no gráfico de Portas. Portas "só" escondeu quatro países, sendo o pior a Irlanda, curiosamente o país onde Paulo Portas foi aprender como é que se afunda um país com o ex-primeiro ministro Bertie Ahern. Era exactamente este tipo de habilidades que a banca irlandesa praticava nas suas contas na altura, após a desregulação implementada pelo governo.
Via Ladrões de Bicicletas

domingo, maio 08, 2011

Investimento público em ciência e na educação produziu resultados positivos

(publicado no portal Esquerda.net)


O relatório da Comissão Europeia que revela uma progressão considerável no ensino e na investigação em Portugal, demonstra claramente uma relação causa efeito entre o investimento público na educação e na investigação depois do 25 de Abril e o progresso obtido nestes domínios. Portugal teve a segunda mais alta taxa de doutoramento da União Europeia entre os 25 e os 34 anos, três para cada mil habitantes, ao nível da Finlândia e atrás da Suécia (3,2 doutorados para cada mil habitantes). No período compreendido entre 2000 e 2009 duplicou o número de diplomados no ensino superior entre os 30 e os 34 anos. Registou-se no mesmo período o maior Justificar completamentecrescimento da Europa de diplomados em Matemática, Ciências e Tecnologias. Estes dados explicam o aumento quase exponencial (ver gráfico) verificado no número de publicações científicas por ano de autoria ou co-autoria de investigadores portugueses (incluídas no Science Citation Index Expanded - Thomson Reuters/ISI).

No ensino secundário verificou-se uma melhoria nos resultados nos testes internacionais do PISA (Programme for International Student Assessment), no entanto o abandono escolar continua a ser o mais elevado da União Europeia, apesar de ter diminuído consideravelmente nos últimos 30 anos. O relatório refere que nos restantes países mais de metade dos jovens com poucos estudos não têm emprego ou não estão à procura, mas em relação a Portugal conclui: “os jovens abandonam a escola para entrar num mercado de trabalho que dá oportunidades de emprego a quem tem baixas qualificações”.

Christopher Pissarides, Prémio Nobel da Economia de 2010, apelou recentemente para mais investimento na educação em tempos de crise, de forma a preparar melhor os jovens antes de entrarem num mercado de trabalho em crise, justificando que é melhor aplicar o dinheiro na continuidade do percurso escolar do que pagar subsídios de desemprego aos jovens que abandonam o sistema de ensino.

Perante estes argumentos e estes indicadores, o desmantelamento do ensino público e insinuações de extinção do Ministério da Educação, avançados recentemente por algumas associações na órbita dos partidos de direita, poderão revelar-se medidas catastróficas e contribuir fortemente para prolongar o estado de recessão ou de estagnação do país.

sexta-feira, maio 06, 2011

Science & Vie especial Fukushima

Foi publicada uma edição especial da revista Science & Vie dedicada ao acidente de Fukushima, de uma qualidade rara para uma revista de divulgação científica. Para além de um enquadramento cheio de dados estatísticos sobre a energia nuclear no mundo, os problemas de segurança das centrais são dissecados com seriedade em função de cada modelo. É apresentada uma lista completa das 20 centrais em que ocorreram acidentes de nível 3 a 7, com esquemas muito completos do interior dos reactores. É feito ainda o ponto da situação de Chernobyl.

quinta-feira, maio 05, 2011

Avenida dos Aliados: até as bebemos...



Villareal foi um dos piores jogos da época nas competições europeias, para empurrar com uma Guinness de penalty.
Dia 18 todos os portistas têm a obrigação de aplaudir o Dominguinhos antes do jogo começar.

quarta-feira, maio 04, 2011

A ressaca britânica

A ressaca a que me refiro não é a ressaca do casamento que custou só em segurança cerca de 25 milhões de euros aos contribuintes britânicos. A ressaca a que me refiro é a ressaca dos anos Thatcher, dos delírios da City e da desregulação dos mercados. Como se pode ver aqui e aqui, apesar da dívida pública rondar os 60% do PIB, a dívida privada do Reino Unido é cerca de 400% do PIB (Portugal: ~90% pública e ~220% privada). No mesmo mapa reparem na dívida do Japão, Coreia, EUA, etc. As dívidas privadas são astronómicas, é a marca do thatcherismo no mundo. De certeza que isto não vai acabar bem, sem devedores deixarem de pagar a credores ou sem reestruturações de dívida.