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sexta-feira, novembro 16, 2012

O Bairro Fantasma

(publicado na edição de ontem do jornal As Beiras)
Cidade Fantasma, algures no Nevada, EUA, Agosto de 2001
Numa das mais recentes sextas-feiras, enquanto esperava um amigo, deambulei durante uma hora pelo Bairro Novo à hora do jantar. Por momentos foi invadido pelo mesmo sentimento que tive quando atravessei uma cidade fantasma no Nevada. Havia casas, uma oficina, um hotel, lojas, os postes de eletricidade intactos e sinais de trânsito imaculados. Mas não havia gente. A estrada, parcialmente coberta de areia, era regularmente atravessada por bolas de feno. Fiz parte de um conjunto de marretas que há uns anos atrás alertou que a abertura de demasiadas grandes superfícies na Figueira poderia ter este resultado. A crise só acelerou o processo. O que mais me custa, é constar que a vitrina da Casa Havanesa já não tem livros. Mas ainda pode ser pior. Há três anos, no Casino da Figueira, chamei a atenção para a lógica estranha dos despedimentos do próprio Casino. Nesse dia fiz muitos amigos... Hoje, as luzes do Casino ainda iluminam o Bairro Novo. Nem quero imaginar como será o Bairro se estas se apagam.

terça-feira, novembro 06, 2012

Ainda há tomates neste mundo


A Standard and Poor's foi condenada na Austrália a uma indemnização de 13 milhões de euros por ter classificado com triplo A produtos tóxicos adquiridos por muncícipios de Nova Gales do Sul em 2008.

quinta-feira, abril 19, 2012

Menu a três euros e meio

Fui jantar a um estabelecimento da baixa coimbrã onde era proposto um menu a três euros e meio: sopa, prato e sobremesa. Li várias vezes "menu a três euros e meio". Para me certificar de não sei o quê, mudei de página e voltei à página inicial e continuava lá escrito "menu a três euros e meio". Quando chegou a empregada a minha escolha foi clara: "quero um menu a três euros e meio". Queria degustar o sabor da crise. A sopa, de legumes, foi o melhor do menu. Nalgumas tascas do norte da Europa poderia facilmente ser cobrada a três euros e meio. Escolhi salsicha com ovo estrelado, era a opção quatro. A opção um era omelete, a dois era um filete de frango e a terceira não me recordo. O acompanhamento era sempre o mesmo: batata frita e salada. Uma salsicha engelhada de lata (não era Nobre nem Izidoro, era pior) acompanhava um ovo borrachóide com a gema cozida. Era tudo mau no prato principal. A sobremesa era uma gelatina de fruta que poderia integrar sem problemas um menu a 5,99 € de uma cadeia de comida rápida ou que poderia ser vendida à peça na Disneylandia na Califórnia a dez dólares mais taxas.

No final daquele repasto que não foi muito delicado com o meu esófago e as minhas paredes intestinais, fiquei a pensar longamente no esforço de todos aqueles habitantes, transeuntes e trabalhadores da baixa cuja única opção para se manterem à tona é aquele menu a três euros e meio. Mas o meu pensamento foi também para a gente séria da banca e da finança, para aqueles voos de jato da empresa, Lisboa-Nova Iorque, para as senhoras dos gestores irem às compras e para os bravos corretores da City que depois de passarem uma árdua jornada de trabalho a carregar em botões onde se joga a sorte de trabalhadores mal pagos a milhares de quilómetros de Londres acabam o dia num clube hípico local fazendo apostas milionárias nas corridas.

quinta-feira, dezembro 22, 2011

Premiar os culpados da crise

Depois de Mario Draghi, Mario Monti e Lucas Papadémos (ex-Goldman Sachs), mais um cargo político europeu importantíssimo atribuído a um quadro oriundo de uma das empresas financeiras responsáveis pela crise mundial: Luís de Guindos (ex-Lehman Brothers) é Ministro da Economia do governo Rajoy. Não há vergonha na cara.

quinta-feira, novembro 24, 2011

O capitalismo falhou


(Foto de Jim Hubbard ©Bettmann/CORBIS)

Convém admiti-lo, falhou o modelo do capitalismo financeiro tal como o imaginaram Thatcher, Reagan e Milton Friedman. A ideia de que os mercados se auto-regulam e que a mão invisível do mercado age tendencialmente em benefício da sociedade, é uma ficção. A economia é uma ciência complexa que engloba tanto a matemática avançada da engenharia financeira como as inúmeras incertezas associadas à actividade humana. Crer que um sistema tão complexo se auto-regula é pura profissão de fé, sobretudo numa economia globalizada onde se movimenta à velocidade de um clique, de um lado para o outro do planeta, quantias inimagináveis para o cidadão comum. No fundo é o reverso da medalha da fé comunista na economia planificada da URSS.

Hoje o mapa mundo das dívidas públicas e privadas é chocante e é o resultado da substituição dos bancos centrais pelos bancos privados no financiamento da economia. O Japão e o Reino Unido apresentam dívidas (pública+privada) acima dos 450% do PIB. A Coreia do Sul, Espanha, Suiça, Itália, Portugal, os EUA, França, Canadá e a Alemanha com dívidas entre os 250% e os 350% do PIB. Inclusivamente países emergentes com forte crescimento como é a China, o Brasil e a Índia, apresentam dívidas da ordem dos 150% do PIB. Nos media, já nem se fala dos "mortos", dos países que se afundaram totalmente como a Islândia ou a Hungria que pediu ontem a sua segunda ajuda ao FMI num período de três anos. Mas a dívido-dependência vem amarrada a outra crença do capitalismo financeiro, é a do crescimento eterno. Se o Universo fosse plano e infinito, cheio de minérios e de árvores de fruto e se cada ser humano pudesse engordar toneladas atrás de toneladas, a religião do crescimento eterno até poderia ter alguma consistência. Mas, o nosso planetazinho é finito e o homo sapiens não aguenta consumir dezenas de quilos de bodegas por dia para salvar a economia.

É precisa uma outra economia que conviva bem com o crescimento e com a falta dele, que não seja dependente da predação egoísta dos escassos recursos planetários por apenas duas ou três gerações de gananciosos e é precisa uma regulação forte, de "braços longos", internacional, que atravesse fronteiras à mesma velocidade que o crime financeiro. Estamos a precisar de uma espécie de Green New Deal à escala planetária, se não quisermos ser odiados pelas próximas gerações.

Viva o capitalismo!

"Juros exigidos para comprar dívida portuguesa ultrapassam 14% a 2 e 3 anos", TSF.
É a escola de Thatcher no seu melhor, é nesta escola que o nosso primeiro-ministro acredita. Com ferros se mata...

quinta-feira, novembro 03, 2011

A Europa Soberanista no seu pior

Esta União Europeia representa o modelo soberanista no seu pior. O Conselho, composto pelos chefes de estado de cada país, tem um poder excessivo onde pesam demasiado os egoísmos nacionais e os protagonismos individuais (Sarkozy e Berlusconi, por exemplo). São os mesmos chefes de estado que escolhem o Presidente da Comissão Europeia e o Presidente do Conselho. De preferência escolhem quem não lhes faça sombra, figurinhas de segunda ou terceira linha como Van Rompuy ou Barroso. Por exemplo, é hoje conhecido que Blair (ou seja indirectamente Bush) boicotou a escolha de Jean-Claude Juncker para presidente da Comissão para escolher o prestável Barroso aquando da invasão do Iraque.

Este modelo da UE tanto é o modelo de Sarkozy, como o de Merkel ou o modelo de Papandreou. Este último promovido anteontem a grande democrata, nunca batalhou pelo reforço dos poderes do Parlamento Europeu ou pela democratização da Comissão ou do Conselho. A nível interno Papandreou nunca propôs referendar a entrada da Grécia no euro quando esta não cumpria as condições mínimas em 2001, ou referendar a organização de uns jogos olímpicos que a Grécia não podia pagar, ou referendar um orçamento da defesa que rondava os 5% do PIB ou referendar o poder excessivo e ilegítimo de uma oligarquia financeira na economia do seu país. Se tocasse neste último ponto, aí sim estaria a genuinamente a defender o futuro da Grécia e aí sim a Grécia poderia tornar-se mais democrática. O referendo que propõe é puramente tacticista, é um referendo para salvar a face, onde os Gregos vão decidir entre dose e meia-dose de austeridade.

Há muito que Delors e depois Prodi defenderam a inevitabilidade de uma maior integração europeia, opiniões transversais ao espectro do Parlamento Europeu, que vão de Juncker a Cohn-Bendit, têm combatido a via soberanista. Não é por falta de opções que a UE não progride. A eleição directa pelos europeus dos Presidentes da Comissão ou do Conselho e o reforço dos poderes do Parlmaneto Europeu facilitaria a escolha de candidatos de primeira linha, que verdadeiramente se interessam pelo projecto europeu e poderia evitar uma Europa à deriva, ao sabor dos caprichos de Sarkozy, Papandreou ou Merkel.

terça-feira, outubro 25, 2011

Compreender a Dívida Pública



A origem desta crise explicada às criancinhas ou o essencial de que não falam Camilos, Salgados e Medinas.

quinta-feira, outubro 20, 2011

Há lata para dizer tudo

"O Estado a gerir bancos é um desastre", Ricardo Salgado a 19/10/2011.

As subprimes dos bancos privados enterraram a economia mundial, mas de seguida foram salvos pelos estados, ou seja pelos contribuintes. Em Portugal tivemos o BPN, o BPP e uma dívida privada de 220% do PIB em grande medida da responsabilidade dos nossos bancos privados. Mas não há pudor na voz dos banqueiros responsáveis por este estado de coisas.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Manif de 15 de Outubro, Bolsa de Bruxelas

Este sábado foi assim em frente ao edifício da Bolsa de Bruxelas (clicar na imagem). Atrás de mim, uma multidão a perder de vista no emaranhado de ruas do centro (entre 6 mil e 10 mil segundo a imprensa local).

sexta-feira, outubro 14, 2011

Uns e outros

O esforço que está a ser pedido aos trabalhadores e pensionistas não tem paralelo no sector financeiro e nos sectores onde a fuga ao fisco representa uma parte de leão. O talão ou a factura passaram a ser de entrega imediata e obrigatória? Não. A isenção de taxas e impostos no sector bolsista e financeiro foi corrigida? Não. Vai ter que ser a Rua a impor algum moralismo nisto tudo...

O cartoon da semana



(por John Darkow)

quinta-feira, outubro 13, 2011

Ocupar a City

(publicado no Esquerda Republicana)

A City londrina, o maior sorvedouro de dinheiro da Europa para actividades económicas puramente especulativas que não produzem bens ou serviços que melhorem o bem-estar dos cidadãos, será ocupada a partir de sábado (ver página Occupy the London Stock Exchange). É sobretudo ali que a Europa em peso deveria rejeitar uma sociedade submetida ao arbítrio das oligarquias financeiras (respondendo ao Rui Tavares). Os protestos nacionais deveriam concentrar-se em frente às principais bolsas: Frankfurt, Paris, Atenas, Lisboa, etc.

quarta-feira, outubro 12, 2011

Grande homilia de Žižek em Nova Iorque

Žižek no seu melhor, a dois passos de Wall Street. Um discurso fabuloso, inteligente, humorado (não resistiu a introduzir lá no meio a teoria do café com adoçante), abrangente, virado para o dia de amanhã e não para o momento e cheio de tiques. O auditório deu-lhe aquele delicioso tom de homilia. Não resisto a partilhar esta passagem:

"We are only witnessing how the system is destroying itself. We all know the classic scenes from cartoons. The cart reaches a precipice. But it goes on walking. Ignoring the fact that there is nothing beneath. Only when it looks down and notices it, it falls down. This is what we are doing here. We are telling the guys there on Wall Street – Hey, look down!"
Occupy Wall Street




Protestar no sítio certo

Depois de variados movimentos de descontentamento espalhados pelo planeta terem disparado em quase todas as direcções, eis que a pontaria se afina. Os protestos contra a crise não poderiam escolher melhor lugar do que Wall Steet.
Exceptuando o caso da Islândia onde o eleitorado castigou directamente as políticas que levaram o país à falência, nos restantes países da Europa as eleições tenderam mais a castigar o partido do governo, (indiscriminadamente esquerdas e direitas) quando eclodiu a crise, do que propriamente castigar as políticas que geraram esta crise mundial. Estes protestos em Wall Street são muito certeiros, denunciam as políticas que conduziram a sociedade a submeter-se por completo aos devaneios dos mercados financeiros. Os eleitores do mundo inteiro deveriam observar o mesmo e castigar os partidos que defendem estas políticas em vez de castigar apenas o boneco que dirige nesse momento o respectivo país. Basta ler os programas eleitorais, não é difícil.

Já agora estes protestos na Europa deveriam estender-se a um protesto em massa junto ao maior sorvedouro de riqueza da Europa, a City em Londres, e porque não em frente à bolsa de Lisboa.

sexta-feira, julho 22, 2011

Reestruturação: o Bloco tinha razão

As decisões tomadas ontem durante a Cimeira Europeia configuram uma reestruturação das dívidas da Grécia, Portugal e Irlanda, apesar de ser apenas uma reestruturaçãozinha, ainda tímida. Tal como escrevi nesta entrada sobre a reestruturação da dívida, o tempo iria dar razão ao Bloco.
Pena foram os meses perdidos a insistir em soluções de política de austeridade e aqui há uma grande dose de responsabilidade de Barroso e Van Rompuy. Quem pagou esta inacção foram os europeus através dos seus salários e dos seus empregos.

quarta-feira, julho 13, 2011

Sardanhada

Tendo escolhido este ano a Sardenha para carregar baterias dou-me com uma Itália a resvalar para o mesmo buraco onde caíram Portugal, Irlanda e Grécia. Com uma dívida pública de cerca de 130% do PIB, cerca de 40% mais do que Portugal mas com uma dívida privada e externa inferiores, a Itália pode ser a próxima vítima do liberalismo selvagem. Portugal é muito falado na TV Berlusconi (todos os canais disponíveis) após a despromoção atribuída pelas agências de notação, não passa despercebido o exemplo dos ultra-liberais portugueses que estão a provar do seu próprio veneno.
Mas o pior de tudo, é calma de Barroso e Van Rompuy perante a crise. Tenham dignidade e demitam-se.

segunda-feira, maio 30, 2011

Como reestruturar a dívida

É o título de um interessante artigo Nuno Peres Monteiro e Eduardo Teixeira (Prof. em Yale e quadro bancário, respectivamente), como se sabe ambos estão longe de ser aderentes do Bloco de Esquerda. Temo que muito proximamente, mais rapidamente do que esperamos, a realidade dê toda a razão a Louçã.