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terça-feira, setembro 27, 2011

O populismo rasca de Medina Carreira a nu

“Resolveu-se nos últimos anos endeusar as universidades. Mas então por que é que estamos tão mal? Porque não precisamos de tantos doutores, precisamos é de gente média que saiba fazer. As universidades aturam uma data de vadios e preparam a meia dúzia de gente que sempre foi boa”
Medina Carreira, Casino da Figueira da Foz, 20/09/2011.

Esta trapalhada rasca e mal educada num país saudável nem teria resposta. Mas dada a tribuna mediática - sempre sem contraditório - que é atribuída a este indivíduo, se não se responder, estas asneiras tantas vezes proferidas passam a ser verdade.

A primeira frase revela apenas que os progressos significativos registados nas universidades públicas e na ciência incomodam Medina Carreira. Porquê? Atrapalha a sua intervenção política em prol das ideologias do estado mínimo. O falhanço estrondoso de uma sociedade fortemente dependente dos mercados responde à segunda frase, que no nosso caso se traduz numa dívida privada de 220% do PIB (sobretudo externa), dívida que Medina Carreira evita evocar. A terceira frase revela um misto de ignorância e rasteireza. Portugal não tem licenciados (doutores em medina-carreirês) a mais, tem licenciados a menos. Todos os países com melhor nível de vida que nosso têm uma maior percentagem de pessoas formadas no ensino superior do que nós temos. Nesses países os quadros médios (gente média em medina-carreirês) passaram quase todos pelo ensino superior (escolas técnicas, bacharéis ou licenciaturas). Essa ideia é reforçada pelo relatório que estabelece os objectivos científicos da União Europeia, "Towards 3%: attainment of the Barcelona target", que descreve o sucesso da aposta da Finlândia na ciência e nas universidades nos anos 90 para responder à maior recessão registada num país da Europa ocidental desde a II Guerra Mundial, a uma taxa de desemprego de 20% e a uma dívida externa incomportável.

Número de publicações científicas por ano de autoria ou co-autoria de investigadores portugueses incluídas no Science Citation Index Expanded (Thomson Reuters/ISI).

No tempo de Medina Carreira não eram os melhores alunos que entravam nas universidades, eram os filhos dos ricos. O próprio Medina frequentou a universidade graças ao nível de vida do seu pai, o historiador António Barbosa Carreira. Nesse tempo, tirando algumas honrosas excepções Portugal era praticamente um zero em ciência. Havia departamentos inteiros nas universidades que não tinham qualquer actividade científica. A maioria dos alunos andava a passear os livros, não acabava o curso, mas isso não os impedia de ostentar o título de doutor no quotidiano (começamos a perceber a origem do medina-carreirês). No entanto a aposta que foi feita nos últimos 20 anos nas universidades e na ciência teve um retorno científico exponencial (ver gráfico). O número de patentes e de empresas científicas e tecnológicas disparou. Quer instituições quer empresas de investigação participam hoje em redes científicas internacionais juntamente com a ESA, o CERN e outras instituições muito prestigiadas. Apesar de tudo ainda há um caminho longo a percorrer, mas prefiro de longe esta universidade de "vadios" do que a velha universidade de filhinhos do papá.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

A Universidade Jaguar (caixa de comentários)

Com todo o devido respeito pelas suas considerações pela universidade Católica - organização onde estudei - creio que V/ Exª elabora em erro. Senão vejamos:

(a) a Católica foi pioneira na introdução do curso de biotecnologia no país e mantém uma das unidades mais avançadas de investigação na península ibérica. Trata-se do polo de biotecnologia da Asprela.

(b) A Católica tem uma escola de Gestão e de Economia que ocupam anualmente lugares cimeiros nos rankings europeus.

(c) a faculdade de Direito da Católica tem neste momento o curso de LLM mais avançado do país e a qualidade da sua formação a nível de licenciatura já foi reconhecida nacional e internacionalmente.

(d) a Católica tem ainda um curso de Som e Imagem que é dos mais avançados do país.

(e) a nível de investigação científica, desafio-o a encontrar em Portugal centros de estudo que ultrapassem em produção científica e qualidade os seguintes centros de estudo: Centro de Direito Privado Comparado; Centro de Estudos Comerciais; Gabinete de Estudos Laborais; Gabinete de Estudos Internacionais. Para sua informação estes centros de estudo recebem na íntegra financiamento da FCT e obtiveram a classificação mais baixa de Bom (sendo Muito Bom a classificação de >50% destes centros). Note-se que falo apenas dos centros de Direito e ignoro os centros de investigação noutras áreas.

(f) concordo em absoluto com o que diz a propósito das universidades privadas mas isso deriva tão só de falta de supervisão por parte do ministério responsável pela tutela do ensino superior. Existem inúmeras universidades privadas que conseguiriam ter cursos de excelência se tivessem condições de desenvolvimento.

(f.1) a propósito do anterior, note-se que também nas públicas existe desbaste de dinheiros públicos. Veja a qualidade da produção científica de algumas faculdades públicas e diga-me quem é coxo em termos europeus. Note-se que a Faculdade de Direito de Lisboa recusou há algum tempo o reconhecimento do Doutoramento de uma aluna que se doutorou em Harvard com um dos grandes crâneos da matéria e que foi agraciada com um prémio no final da tese. Isso mereceu mesmo um telefonema da parte da direcção da faculdade a perguntar quem era a FDUL para recusar o reconhecimento de um diploma de Harvard!

Eu sei que as privadas são de uma maneira geral muito fracas em Portugal mas olhe que as públicas também não são exemplo para ninguém - com honrosas excepções como a FEUP e outros casos isolados.

B.

terça-feira, janeiro 06, 2009

A Universidade Jaguar

Na passada semana encerrou definitivamente a Universidade Moderna sob o silêncio do xôtor Paulo Portas. Concordo em grande parte com o Luís Januário. Entre as privadas há mais universidades que deveriam fechar. E se fossemos mais rigorosos apenas uma merece o título de universidade: a Católica. No entanto, mesmo a Universidade Católica no contexto europeu é uma universidade coxa onde a produção científica é fraca e se resume praticamente apenas às ciências sociais e humanas. A maior parte das universidades privadas não tem sequer produção científica. Estas instituições deveriam perder o estatuto de universidade e ser designadas mais correctamente como escolas ou institutos de ensino superior, tal como é prática noutros países da OCDE. Existem vários casos de politécnicos no país que produzem trabalho científico e que mereciam bem mais o estatuto de universidade. Apesar de algumas das privadas ainda prestarem serviços à sociedade civil, elaborando sondagens ou estudos técnicos, as restantes dedicam-se apenas à cobrança de propinas e de inscrições nos exames, por vezes, utilizando estratagemas que indignam profundamente os estudantes.

É por estas e por outras que sou pouco sensível ao choradinho das universidades privadas quando se queixam de falta de financiamento do estado. As privadas, tal como as públicas, podem concorrer a projectos europeus e nacionais que financiam a investigação, mas curiosamente o que se verifica é que essas oportunidades são pobremente aproveitadas, especialmente nos domínios das Engenharias e das Ciências Exactas. No entanto, tal como a Moderna algumas das privadas não dispensam um parque de automóveis de luxo adquiridos ou alugados. Por exemplo, um Jaguar custa mais de 100 mil euros, o que corresponde a uma quantia superior ao orçamento médio dos projectos a três anos financiados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Pelo preço de duas ou três viaturas destas é possível equipar um laboratório capaz de produzir trabalhos científicos com qualidade aceitável. É tudo uma questão de prioridades...

quarta-feira, julho 30, 2008

Fim da Chulice Moderna

Pelas razões que escrevi em entrada anterior, o encerramento da Universidade Moderna é um acto higiénico na difícil tarefa de credibilização do ensino superior privado.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Provinciana ou não?

Respondendo ao FNV do Mar Salgado, concordo com Prof. Gomes Canotilho quando afirma que a Universidade de Coimbra é cada vez mais provinciana, tendo em conta que a fracção de inscrições de alunos da região tem aumentado. Para este facto tem contribuído ultimamente o aumento brutal das propinas. Hoje fica mais barato a um aluno pagar as propinas de uma universidade privada localizada na sua área de residência do que se deslocar para estudar na Universidade de Coimbra, onde deverá de pagar propinas+quarto.
Um dos efeitos secundários do aumento exagerado das propinas é a promoção do imobilismo. Os alunos dos grandes centros ficam nos grandes centros, os da província ficam na província. No caso de não existirem alunos na província em número suficiente as universidades e os politécnicos vão correr um sério risco de fechar cursos ou até mesmo de fechar as portas, é o que se verifica actualmente em Castelo Branco, Covilhã, Guarda e Trás-os-Montes.

A sorte da Universidade de Coimbra é ter um lastro de qualidade em muitas áreas diferentes que vem do passado e de não ser provinciana na actividade científica, o que lhe tem valido ser considerada a melhor universidade do país ano após ano. Mas se a tendência para o provincianismo continuar o futuro poderá ser menos risonho.

segunda-feira, novembro 26, 2007

Sobre a Melhor Universidade

Fico satisfeito por a minha universidade ser considerada a melhor do país por um ranking de prestígio como o do The Times Higher Education Supplement, mas este resultado à luz do panorama europeu e internacional não é brilhante. Nem é tanto pela posição a nível global 319ª (266ª em 2006 até foi muito bom), é sobretudo por alguma inércia na sua dinâmica como instituição académica e científica e pela a sua pobre ligação à sociedade, quando comparada com o panorama internacional.

Hoje em dia, os investigadores das melhores universidades europeias e mundiais estão habituadíssimos a publicar os seus trabalhos em revistas internacionais da especialidade onde são avaliados pelos seus pares. Apesar de na Universidade de Coimbra esta prática salutar se ter finalmente instalado - que lhe tem valido o 1° lugar no ranking - pouco tem sido feito para cultivar a sua valorização e a criação de condições para a produção científica e tecnológica. Poderia encher este blogue até lá baixo de histórias absurdas sobre a burocracia e a tacanhês de meia dúzia de personagens de departamentos, de faculdades e de serviços administrativos que só empatam o dinamismo da instituição. São o resquício da Coimbra dos Shôtores que não investigavam, que não interagiam nem com empresas, nem com a sociedade, nem achavam que essa era a sua obrigação. Isso, felizmente, está a acabar e muito o devemos à ruptura que se deu na contestação de Abril de 1969 e a alguns pontapés bem dados no traseiro após o 25 de Abril.

Apesar de o forte da UC ser a sua presença constante no meio científico internacional em quase todos os domínios, o seu contacto com a sociedade (empresas, instituições públicas), a divulgação do seu trabalho ao grande público e a sua internacionalização quer através da participação em redes internacionais ou na atracção de alunos e docentes estrangeiros, ainda fica muito aquém da realidade das universidades por onde passei e com as quais colaboro: Pádua, Louis Pasteur (Estrasburgo), Bolonha e Louvain-la-Neuve - todas no top 200 da Times. Todas multiculturais e perfeitamente internacionalizadas.

Mas os problemas da UC são também os problemas das restantes universidades do país, onde é apenas um pouco mais grave o problema da pouca publicação dos trabalhos de investigação em revistas internacionais com arbitragem - no caso das privadas é praticamente inexistente, apesar do acesso em igualdade de oportunidades aos fundos de investigação nacionais e europeus. A ligação à indústria, à sociedade e às instituições públicas é fraca e a criação de redes sólidas com empresas e as referidas instituições ainda está por fazer. No caso de alguma ligação à indústria ainda se encontra muito xico-espertismo de parte-a-parte e a transferência de tecnologia para as empresas ainda é em muitos casos uma simples camuflagem para algumas negociatas em proveito individual. O paroquialismo reina na universidade portuguesa, a dificuldade em entrar em redes internacionais é enorme e a falta de credibilidade e de pontualidade não escapam ao olhar crítico dos nossos parceiros europeus e mundiais.

terça-feira, setembro 11, 2007

Propinas, Nível Educacional e Abandono Escolar

Portugal é o país europeu com o nível educacional mais baixo da Europa (excluindo Malta): apenas cerca de 26% dos portugueses concluíram o 12º ano, a percentagem da população com o ensino superior é a mais baixa e as taxas de analfabetismo e de abandono escolar são as mais elevadas da Europa. O país europeu cujo nível educacional está a seguir ao nosso é Espanha com cerca de 40% da população com o 12º ano concluído, quase o dobro de Portugal. Há muito que aqui defendo que o combate a este flagelo deveria ser a prioridade número 1 nacional. Por esta razão, à luz dos referidos dados considero que o último parágrafo desta contribuição de Vital Moreira para o debate não traz nada de positivo ao combate do problema. E para não entrarmos em esquemas de pescadinha de rabo na boca respondendo à oposição às propinas afirmando que com mais propinas há mais apoio social escolar, convém ter uma ideia do nível a partir do qual um estudante português tem acesso a esse apoio social e do nível de investimento que os outros países da UE consagram ao apoio social escolar. Os números lançados pelo Pedro Sales são muito significativos. As diferenças negativas de todos os indicadores de apoio escolar não são uns meros 2 ou 3% em relação à média dos restantes países, são cerca de 20% ou mais. Estes números para um país que precisa de recuperar um atraso educacional enorme são uma vergonha. Se o Vital Moreira entregar estes números aos seus pares europeus trocando o nome dos países por letras (Portugal=A, Espanha=B, França=C, etc.), tenho a certeza que lhe responderão que o país A (Portugal) é um país rico, com um alto nível educacional, abandono escolar residual e analfabetismo inexistente. Convido-o vivamente a fazer a experiência via email com os seus ex-colegas da Comissão de Veneza, por exemplo.

O "contra" do Pedro Sales é muito bem fundamentado, está muito longe de ser um "Porque Sim". O "a favor" do Vital Moreira é que é justificado de uma forma muito fraquinha e não é apenas do ponto de vista quantitativo, como demonstram os números lançados pelo Pedro. Do ponto de vista qualitativo gostaria que o Vital Moreira me respondesse objectivamente qual é a racionalidade de, num país que tem de recuperar um enorme atraso educacional, pedir o esforço de investimento a uma larga fracção (já excluindo os ricos) dos que deveriam ser o alvo desse mesmo investimento, pelos custos acrescidos que já comportam? Se há alguma causa pela qual vale a pena pagar impostos em Portugal é a causa da recuperação do nosso atraso educacional, essa sim é verdadeiramente uma CAUSA NOSSA. Para além disso, o Vital Moreira acha que os estudantes deslocados cujos rendimentos familiares ficam um pouco acima do nível para beneficiar do apoio escolar - que é uma grande percentagem dos estudantes nas zonas mais pobres do país - se sentem ou são encorajados para estudar na Universidade com o nível de propinas que é praticado? Sobretudo quando na família e na terrinha ninguém fez esse percurso, não há hábitos de estudo, de leitura e ainda se olha com desconfiança quem estuda.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Os números das propinas

A ler este texto do Pedro Sales muito bem informado e com números muito úteis para percebermos a especificidade das propinas em Portugal quando comparamos com o resto da Europa.
Voltarei a este tema.

sábado, abril 14, 2007

A universidade privada (caixa de comentários)

"Sou licenciado numa universidade privada mas muitas vezes ao longo do curso me perguntei se ela não precisava de ser fechada. Muitas vezes de qualidade de ensino não tinha nada, e grande parte dos meus colegas pensavam o mesmo. Várias vezes sem professores mas as propinas tinham de ser pagas, quer houvesse professores ou não. Quer houvesse aulas ou não, quer os professores tivessem qualidade ou não."
Miguel (A Embaixada)

terça-feira, abril 10, 2007

A universidade privada em Portugal

A história da universidade privada em Portugal é uma triste história. Salvo algumas honrosas excepções, como a Católica, a generalidade das universidades privadas nacionais vivem da ganância, da chulice à custa dos alunos e do xico-espertismo dos seus gestores. Por exemplo, a investigação - uma das tarefas fundamentais de uma universidade - é praticamente inexistente no ensino privado. Quer isto dizer que o contributo das universidades privadas para o conhecimento da sociedade portuguesa é quase nulo, as privadas funcionam como se fossem escolas secundárias para meninos com mais de 18 anos. Mais grave ainda é que estas instituições nem se podem queixar de falta de verbas para a investigação. Basta ver o número de projectos propostos por universidades privadas ao último concurso aberto a todas as áreas da Fundação para a Ciência e a Tecnologia para percebermos o desinteresse brutal destas instituições pela investigação.

Como é que se resolve o assunto?
Definindo critérios claros sobre as funções e os objectivos de cada tipo de instituição de ensino superior (sobre formação, serviço à sociedade e investigação), elevando a fasquia dos critérios de avaliação e aumentando a frequência das inspecções ao trabalho das instituições. Depois é fechar o que se tiver de fechar, doa a quem doer, este é um assunto demasiado sério para se dar o benefício da dúvida a xico-espertos.

quarta-feira, setembro 24, 2003

Um milhão de Erasmus

Começo a cruzar-me com muitas caras perdidas que olham para os telhados das faculdades, consultam mapas e fazem perguntas aos transeuntes. Rostos vindos de toda a Europa: do norte, do centro, do leste, das ilhas, do mediterrâneo, etc. Revejo-me nestes gestos, lembro-me do longínquo ano de 1993.

Há aproximadamente 10 anos atrás estava eu ávido para chegar Pádua e começar a descobrir a cidade, o país, a cultura e uma das mais antigas universidades da Europa. Mal sabia eu que me esperava um mundo de aventuras com aqueles que iriam ser os meus companheiros de aulas do Dipartimento di Fisica Galileo Galilei, da residência Fusinato, do curso de língua italiana e sobretudo do «universo Erasmus».

Fundámos o «dialecto Erasmus» do ano 1993/94. Todos os anos os novos estudantes Erasmus distorcem entre si a língua local com expressões bizarras que resultam de uma mistura de erros de pronunciação, de entonações e de expressões importadas das respectivas línguas maternas.

Descobrimos que a história de cada país é ensinada de uma forma muito chauvinista. Os Espanhóis aprendem o nome de batalhas em que derrotaram os Portugueses, que os Portugueses fingem que nunca existiram, e os Portugueses só conhecem as batalhas que ganharam aos Espanhóis, mas que por sua vez estes omitem nos seus manuais escolares.

O mais enriquecedor deste tipo de programas é o convívio saudável que se proporciona entre pessoas de diferentes culturas. Durante aqueles meses, a maior parte dos estudantes aprende a conviver com as diferenças. Aprende-se a aceitar as diferentes formas de cumprimentos (aperto de mão, dois beijinhos, três beijinhos, etc.), as diferenças gastronómicas, as diferentes concepções de pontualidade, os diferentes métodos de estudo e a importância relativa de assuntos como a música, o cinema ou o desporto (de sofá ou praticado).

Este tipo de relacionamento entre indivíduos de diferentes países e culturas contribui fortemente para minimizar comportamentos primários que consistem em fazer generalizações e acusações precipitadas sobre os habitantes do país A, B ou C. Como tão bem retrata o filme o «Albergue Espanhol», as desastradas generalizações do personagem britânico de visita à sua a irmã - segundo o qual os espanhóis dizem todos «Caramba! Caramba!» e os alemães são ainda uns nazis - causa um grande desconforto no seio do grupo Erasmus da residência que já aprendeu a viver com as suas diferenças. Curiosamente, a atitude daquele personagem era tão semelhante ao Vasco Graça Moura do artigo «Europa, 17 de Fevereiro de 2033».

Durante o ano lectivo de 2002/03 a Europa festejou «Um Milhão de Erasmus». Mais de um milhão de estudantes de universidades de toda a Europa participaram neste excelente programa de mobilidade que começou em 1987. Deste milhão de Erasmus muitos irão ocupar lugares de destaque nos respectivos países e na Europa. No meu entender seria benéfico que estes ex-Erasmus - ou pessoas de semelhante formação - começassem progressivamente a ocupar os lugares de Estrasburgo e de Bruxelas apeando aqueles «velhos políticos europeus» que não têm melhor coisa para fazer dos seus mandatos senão incitar a ódios primários entre as várias nações da Europa ou contra outras regiões do mundo. A União Europeia seria sem dúvida uma instituição mais interessante se souber aproveitar estes «novos Europeus» de horizontes mais largos que os «velhos Vascos Graça Moura» desta Europa.