domingo, fevereiro 26, 2006

Porto Infeliz

Quem vai ao Porto, àquela magnífica cidade, na minha opinião a mais cativante cidade deste país mutilado por reles urbanizações, ali mesmo na Ribeira, no centro do geográfico do meu Portugal emocional, encontra uma pobreza chocante, uma miséria que salta à vista do mais distraído, toxicodependência aos molhos, gente que não foi à escola, jovens e putos que gozam com a escola. O futuro não passa por ali, mas passam muitos turistas banzados que fotografam uma União Europeia que já não se vê em lado nenhum. Alguns beliscam-se, mas a verdade é que estão mesmo no Porto, a segunda maior cidade de Portugal, uma das montras do país, o Porto é mesmo assim ali no centro: pobre, analfabeto e violento quando calha. O caos urbanístico de Gaia, mesmo por detrás das caves do vindo do Porto é o castigo merecido para o turista que se perde no emaranhado de placas informativas arbitrárias. Para os que acertam na Ribeira, espera-os chulice da pior espécie naqueles restaurantes que já foram em tempos baratos, generosos e honestos. Agora, até se vende arroz de marisco numa espécie de pires de alumínio, imaginem uns grãos de arroz amarelado com três mexilhões a enfeitar. O turista come, cala e paga.
O triste acontecimento desta semana faz parte deste universo, o universo do Porto Infeliz, que estende aos bairros (guetos) sociais e a mais algumas zonas antigas da cidade em avançado declínio social, mas essas o turista não vê.

Iraque? Vai bem, obrigado.

O Iraque vive sob ameaça de guerra civil há largos meses e percebe-se que as forças de ocupação muito pouco poderão fazer para a evitar. Mas pode-se sempre dizer que o Iraque agora está melhor, que há mais escolas a funcionar, por exemplo. O problema é que a escola da rua funciona ainda melhor, essa escola onde se aprende a jogar ao gato e ao rato com os militares americanos, onde o ódio floresce à mercê dos muftis mais radicais, onde abater um americano passa a ser um troféu mais prestigiante do que qualquer diploma escolar.
Esta é uma boa altura para recordar que o Iraque hoje desliza perigosamente para um banho de sangue por pura irresponsabilidade de meia dúzia de radicais perigosos da administração Bush. Essa irreponsabilidade é perigosa porque é simultaneamente ingénua e perversa. É ingénua porque parte de pessoas extremamente ignorantes sobre o que é o mundo fora das fronteiras dos EUA. E é perversa porque se trata de gente que em nome de uma ideologia cínica, o neo-conservadorismo, tenta tirar proveitos económicos de uma forma descarada da conjuntura política e social criada do Iraque.
Acho que está na hora da Europa mudar radicalmente a sua política de alianças com os EUA. Sejamos claros: há muito tempo que não somos aliados dos EUA.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Os cérebros fogem a sete pés

Esta foi a notícia científica da semana. Leiam as declarações do presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia sobre o programa Damião de Góis implementado pela ex-Ministra da Ciência e cujo o objectivo seria o de atrair para o país cientistas portugueses actualmente no estrangeiro:
"Até ao momento houve cinco candidaturas das quais quatro foram consideradas inelegíveis."

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Nuclear: Portugal sempre na "crista da onda"

Distribuição de fundos do programa 6ºPQ EURATOM 2002-2006:

Fusão termonuclear controlada (programa ITER) - 750 M€
Gestão de resíduos radioactivos- 90 M€
Protecção contra radiações - 50 M€
Outras actividades (tecnologias e segurança) - 50 M€

Como podemos constatar, a EURATOM não está muito virada para a construção de novas centrais nucleares (fissão nuclear) e está a apostar cerca de 80% do seu orçamento no projecto de fusão nuclear ITER. A Alemanha está a desactivar todas as suas centrais nucleares, a Itália reduziu em muito o seu programa nuclear, nos EUA não se constrói uma nova central há cerca de 20 anos e na Europa apenas a Roménia e a Finlândia estão a construir novas unidades. O que faz do debate lançado por Patrick Monteiro mais um debate obsoleto e facilitista sobre políticas energéticas em Portugal.
Portugal deveria estar a debater seriamente a sua participação no ITER, mas não, andamos sempre na "crista da onda".

terça-feira, fevereiro 21, 2006

ARTE: Grande debate sobre Islão com Cohn-Bendit

Hoje, a partir das 19.45, o canal ARTE transmite uma soirée Thema intitulada "L'Islam est-il soluble dans la démocratie?", que finalizará com um grande debate às 21.00 onde participam Cohn-Bendit, o director do jornal satírico "Charlie Hebdo", o caricaturista austríaco Gerhard Haderer (cujos desenhos de Jesus Cristo foram considerados blasfemos), uma jornalista de origem iraniana, um documentarista argelino, um ex-mufti moderado de Marselha e um bispo protestante da Baviera. A ARTE disponibiliza um fórum onde poderão ser propostas a Cohn-Bendit algumas perguntas para o debate.

PS- Esqueçam o futebol! O Benfica joga péssimo e o futebol do Liverpool é uma grande seca.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Bernard-Henri Lévy sobre a esquerda americana

Carta aberta de Bernard-Henri Lévy à esquerda americana, via Origem das Espécies.

Larry Flint: a liberdade paga-se com o corpo

O filme "Larry Flint" de Milos Forman tem a virtude de nos relembrar que a luta contra os sectores mais conservadores da sociedade pela liberdade de expressão tem sido uma árdua luta. Em Larry Flint esta luta deixou marcas físicas bem visíveis que o acompanharão até ao resto dos seus dias. O filme recorda o processo que Flint ganhou por unanimidade ao pastor fundamentalista Jerry Falwell, após a publicação na revista Hustler em Novembro de 1983 de uma paródia a um anúncio da Campari em que Flint insinuava que a primeira de Falwell tinha sido consumada com a própria mãe. Apesar do trabalho "artístico" de Flint não ser propriamente refinado, tenho algum respeito por quem se bate a este ponto pelos seus direitos e liberdades.
Por isso, quer o conservadorismo violento surja na forma de barbudos fascistas no Médio Oriente, de pastores fundamentalistas nos EUA ou de cabeças rapadas de extrema direita na Europa, não esqueço todos aqueles que pagaram com o corpo, tal como Flint, para que hoje seja possível exprimirmo-nos com um bocadinho mais de liberdade.

domingo, fevereiro 19, 2006

Lúcia ou o retrato de um país atrasado

Perdoem-me os crentes que respeito, mas este circo mediático à volta da transladação do corpo da Irmã Lúcia para Fátima é mais um episódio retrógrado de um país atrasado e que se está a atrasar como já não acontecia há muito. Não são só os indicadores económicos e sociais que dizem que nos estamos a atrasar, é também a política. Portugal tem uma esquerda atrasada e isso foi bem visível nestas presidenciais, onde os candidatos mais conservadores de esquerda obtiveram um excelente resultado. Mas a direita portuguesa, tal como as restantes direitas do sul da Europa, ainda é mais atrasada. Em contraste com a direita nórdica, a nossa direita não mostra preocupações ambientais, faz cruzadas contra o rendimento mínimo e abusa constantemente do direito à laicidade, da igualdade de direitos entre sexos e do direito a uma sexualidade própria.

A felicidade cai sempre do céu
Respeito a religiosidade e acho que por muito modernos que sejamos haverá sempre uma parte da população que recorrerá à espiritualidade para resolver os seus problemas do quotidiano. O problema é que em Portugal essa parte da população é exagerada. Uma percentagem considerável da população espera que a felicidade caia do céu, e isto não é apenas uma questão religiosa, por exemplo o Euromilhões é a outra vertente do mesmo problema. É assustador verificar a percentagem colossal de pessoas (comparando com os outros países do Euromilhões) que joga num jogo em que a probabilidade de ganhar é ínfima. Depois temos a face oposta do Euromilhões, as famosas "roletas russas": a prostituição sem preservativo, o chuto com seringa usada, a ultrapassagem sem visibilidade, etc. Os portugueses adoram confiar na sorte e nos santinhos.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Um ano depois: o Protocolo de Quioto mais forte

Fez ontem um ano que o Protocolo de Quioto entrou em vigor. Um ano depois, o Protocolo está mais forte do que nunca, depois das decisões tomadas na United Nations Climate Change Conference que decorreu no passado Dezembro em Montreal. Quioto foi prolongado para lá de 2012 e foi alargado o espaço de diálogo com países que até tinham resistido a participar nas conversações, como os EUA. Mas Quioto está sobretudo mais forte do ponto de vista científico. Hoje todas as grandes instituições internacionais que estudam o clima (NASA, IPPC, AEA, USEPA, etc.) convergem em dois pontos importantes: 1) o aquecimento global é um facto confirmado; 2) É preciso combatê-lo agora, pois quanto mais tarde o fizermos mais difícil será a tarefa. Para estas conclusões contribuíram os novos dados, a diminuição das barras de erro através de novas técnicas de análise, o aperfeiçoamento dos modelos teóricos e a sua validação no terreno e um trabalho mais eficaz das redes internacionais de investigação.

O cenário piorou
O problema é que em política ambiental só se começam a tomar decisões inteligentes quando as coisas começam a correr mal. Em Dezembro passado em Montreal já havia alguma certeza que o ano de 2005 seria um dos mais quentes jamais registados (desde 1880), foi por isso e por causa dos estragos do Katrina que os EUA e outros países mais relutantes aproximaram a sua política ambiental do grupo de países do Protocolo de Quioto. Como podemos ver 2005 está no topo da lista da NASA dos 5 anos mais quentes desde que há registo. Aliás, a página da NASA que analisa o ano de 2005 é bem elucidativa do perigoso cenário climático que se está a desenhar. Mas, existe um perigo adicional que tem vindo a preocupar bastante a comunidade científica, que é a questão da retro-alimentação positiva do desequilíbrios climáticos, ou seja os desequilíbrios que estamos hoje a provocar no ambiente poderão originar novos desequilíbrios ainda mais perigosos, não contemplados nos modelos hoje existentes. Sobre eles falarei numa próxima entrada.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Galacto-choque de civilizações


Imagem artística, sítio ESA

Os Messiers Dozeanos (a vermelho) investem contra nós, os Via Lacteanos. Mas a cada passagem do aglomerado de estrelas M12 através do nosso disco azul, nós roubamos-lhes muitas estrelas, esvaziamo-los do seu poder.
(30 segundos de Valsa das Valquírias)
Em breve, a ameaça vermelha será reduzida a um insignificante carreiro de formigas cósmico and we will prevail!
(Vangelis versão Guterres para finalizar)

Estão a ver, basta pegarem nos telescópios para assistirem a uma guerra de civilizações em directo, ainda por cima à escala galáctica. Entretanto por cá podemos brincar a coisas mais engraçadas.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

ENRON em versão japonesa

A história de Takafumi Horie, o fundador do grupo Livedoor, é a versão japonesa do escândalo ENRON. As mesmas bandeiras e os mesmos cânticos da mesma religião do Estado Mínimo estiveram ao serviço de abusos frios e fanáticos que lesaram milhares de pessoas.

Não me venham cá dizer que isto são simples casos de polícia. Aqui há ideologia, e muita, envolvida nestes escândalos. Os abusos da Livedoor e os abusos da ENRON foram perpetrados em nome de uma bandeira e em nome de uma causa, tal como os abusos cometidos pelos comunistas. Quando os comunistas "expropriavam" um banco faziam-no de bandeira vermelha em punho. Isto não se trata de simples roubos, isto é política.

Publicação dos cartoons já faz prisões no Yemen e na Argélia

A ferocidade deste fascismo a cavalo em Maomé parece não ter limites. Basta ler a justificação para a publicação dos cartoons dada pelos jornalistas visados.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Triunfo do integrismo e o fim da esquerda

Da Indonésia à Mauritânia o Islamismo (corrente política que defende a ortodoxia religiosa, não confundir com o Islão) tem vindo a ganhar terreno e com ele têm surgido as expressões mais brutais de intolerância religiosa, de machismo, de xenofobia e de limitação das liberdades e direitos. Os sucessivos equívocos e fracassos que foram cometidos no Médio Oriente desde a invasão do Iraque foram o maior aliado deste surto fascista que varre estas nações, apelando aos sentimentos mais básicos do ser humano, a autodefesa do seu território através de um nacionalismo agudo com a bênção de Deus. Neste momento e depois de todas as borradas que se verificaram, já não os censuro, estes comportamentos básicos estão inscritos no nosso código genético, é mais forte do que nós (ler "O Macaco Nu" de Desmond Morris, está lá tudo).

Um grande erro foi deixar ao deus-dará as inúmeras organizações políticas democráticas oriundas do Médio Oriente e do Magreb instaladas na Europa, não lhes dar o devido apoio, não lhes dar voz, não os ajudar a estabelecer sólidas redes de trabalho. E aqui julgo que a esquerda europeia tem a sua dose de culpa. Depois de tantos fóruns e tantas manifs pouco, muito pouco foi feito para apoiar decentemente estas redes, sobretudo num momento hostil, em que cada borrada de George W. Bush funciona como um gigantesco balão de oxigénio para o integrismo islâmico. Vi com os meus próprios olhos quando estive em França, como à esquerda se preferia organizar uma manif popularucha contra a guerra ou contra a "Europa Neoliberal" (eu gostava de os ver a viver na "América Social" ou a trabalhar 16 horas por dia na Ásia) em que até a direita alinha, do que fazer acções para apoiar os movimentos progressistas dos países de tradição muçulmana. O problema é que hoje praticamente não existe esquerda nestes países. Ler, por exemplo, o caso do sírio comunista que se converteu ao integrismo no dossier sobre o Islamismo na edição da passada semana da Courrier International.

O escritor tunisino Abdelwahab Meddeb (na foto) é um dos poucos que se tem batido contra a avalanche integrista que devassa o Magreb. A sua intervenção a propósito dos cartoons no debate Ripostes referido na entrada anterior, foi refrescante e brilhante, mas causa angústia perceber que se bate com poucos contra muitos, mesmo muitos. Olhos nos olhos com o conservador Fouad Alaoui (presidente da Union des organisations islamiques de France), Meddeb denunciou o crescimento desmesurado no mundo muçulmano de um obscurantismo que ele apelidou de fascista. Foi um momento corajoso à antiga, que fez Fouad engolir em seco. Precisamos de mais Meddebs neste mundo, porque já toda a gente percebeu que não é com os escuteiros da US Army a guardar o Ministério do Petróleo Iraquiano que vamos lá.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Debates na TV francesa sobre islamismo e cartoons

A tradição dos grandes programas de debate da TV francesa fazem dos seus canais os mais interessantes durante estes dias conturbados. Longe, muito longe dos canais anglo-saxónicos cheios de corzinhas e de letras em rodapé com os resultados do soccer e do futebol americano (que nós copiamos), onde surgem os comentadores do costume interrogados pelos jornalistas do costume.
A ver absolutamente a edição de 12 de Fevereiro do programa Rispostes (disponível na internet), que em Portugal pode ser visto na TV5.

sábado, fevereiro 11, 2006

Sábado em Coimbra XXVII: Manias

Respondendo ao repto da Isabel, aqui vão algumas das minhas manias, as conimbricenses:

- Mania de ler no Couraça e nos intervalos imaginar Veneza lá em baixo e o Mondego transformado em Canal Grande
- Mania da luz e das sombras sobre as pedras, os muros e as paredes da Alta.
- Mania da Sessão Especial no Avenida
- Mania do Zé Manel dos Ossos
- Mania do 007
- Mania de subir a Couraça de Lisboa a pé
- Mania de começar as compras no mercado pela senhora das azeitonas

Sábado em Coimbra XXVI

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

ENRON: quando a mão invisível produz luz invisível

O filme "ENRON" descreve cruamente o fraudulento processo de construção de uma mega-central de produção de energia eléctrica em Dabhol na Índia. O mais interessante e sórdido desta história é que o objectivo principal da construção desta central não era iluminar bondosamente a casa dos indianos ou levar a electricidade aos sítios mais pobres da Índia, mas sim e apenas fazer subir as acções da ENRON na bolsa de valores através do anúncio do projecto e da construção da central na Índia, um país populoso e com carências energéticas. O projecto foi apresentado com pompa e circunstância com a ambição de iluminar toda a Índia. O efeito que este anúncio teve em Wall Street deu para cobrir largamente o que se gastou na construção da central na Índia. Hoje em Dabhol existe uma central eléctrica gigantesca, que se encontra fechada e que nunca funcionou, ocupando uma superfície considerável de terrenos expropriada à força a milhares de indianos. Ficou uma obra que faz lembrar os mais megalómanos projectos estalinistas, mas construída pelo liberalismo mais selvagem. Como tudo isto foi possível? A ENRON limitou-se a comprar alguns dos principais responsáveis pela energia do governo indiano, que deram carta verde a tudo. Outro dos pormenores sórdidos desta história é que o preço da electricidade a pagar caso esta central alguma vez funcionasse seria um dos preços mais caros do mundo. Para a ENRON seria tudo lucro.

Mais sobre o filme "ENRON: The Smartest Guys in the Room"

ENRON: contraditório (caixa de comentários)

Apesar da liberdade de expressão estar em saldos, aqui publicou-se com regularidade opiniões interessantes que eram deixadas nas caixas de comentários. Aqui vai a do JCD em jeito de contraditório à minha anterior entrada da ENRON:

"Admitindo que tudo isso seja verdade, o que está em causa é a regulação de mercado e não a desregulação. Num mercado desregulado, se a ENRON abusasse do preço, outros players pareceriam. Estas coisas só podem acontecer quando o estado está no caminho."

terça-feira, fevereiro 07, 2006

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Bola na rede

Comungo inteiramente da opinião da Joana Amaral Dias sobre o filme "Macth Point". De facto, a fórmula "pessoas bonitas a fazerem coisas horríveis umas às outras dá bilheteira". Mas há outra fórmula no filme que também dá bilheteira. É o fantasma do matador e da "bomba nuclear". Este é um fantasma masculino muito comum que podemos ver representado na cena de engate na sala de bilhar. O matador avista a "bomba nuclear", aproxima-se, electriza-a com um olhar fulminante, balbucia duas ou três frases fatais, e como ele é obviamente irresistível, ela entrega-se completamente ao matador. Ora, a probabilidade disto acontecer é muito baixa, quando muito apenas um famoso artista da rádio-tv-e-disco como o Woody Allen, poderia ter uma taxa de sucesso razoável utilizando a técnica do matador. É por isso que para o comum dos mortais a cena não passa da categoria de fantasma. Pelas razões do costume, este é um tipo de fantasma muito popular em países latinos (para não ir mais longe).

Exceptuando duas ou três cenas interessantes, também sou um dos que acha que o filme não é nada de especial, tem mais o mérito de quebrar um ciclo cinematográfico algo repetitivo de Woody Allen.

domingo, fevereiro 05, 2006

ENRON ou a mão invisível no seu melhor

"ENRON: The Smartest Guys in the Room" é um dos filmes incontornáveis de 2005. Eu diria mais, acho que toda a gente deveria ver este filme. Todos nós deveríamos ter a percepção das limitações e da impotência real dos trabalhadores, dos cidadãos, das cidades, dos estados, da política e até mesmo da justiça perante mercados sem regulação e sem intervenção das instituições que representam os cidadãos. Na história da gigantesca sucessão de fraudes perpetradas pela ENRON, houve um acontecimento fulcral que abriu via verde para o sucesso e o perpetuar das fraudes grosseiras da ENRON. Esse acontecimento foi o Estado da Califórnia deixar de regular o seu mercado da energia. A partir daí a mão invisível fez aquilo que faz melhor, que é concentrar a riqueza junto dos que estão mais bem colocados para o fazer (seja de forma racional ou irracional, legal ou ilegal, sustentável ou não sustentável, produzindo bens ou produzindo simplesmente vácuo). Com uma posição dominante no mercado da Califórnia, a ENRON fez disparar o preço da electricidade à custa de apagões intencionais inventando uma crise energética. Lembram-se da crise energética nos EUA em 2001? Pois bem, essa crise nunca existiu, foi tudo jogada da ENRON. Vale a pena ver o filme só para ouvir o nível das conversas telefónicas dos traders - jovens entre os 25 e os 35 anos - que gozavam e riam a bandeiras despregadas, como se tivessem a jogar numa playstation, enquanto ordenavam às centrais para cortar a electricidade, provocando apagões na Califórnia, apagões esses que causaram mortes, falências, desempregados, acidentes, demissões políticas e... a vitória de Schwarznegger, um caro amigo da ENRON.

(Farei mais comentários sobre este filme nos próximos dias)

sábado, fevereiro 04, 2006

Sábado em Coimbra XXVI: muros e muretes floridos

Se há algo que esta cidade tem de particular são os múltiplos muros e muretes, alguns floridos, que em vez de servir para separar servem para suster o relevo acidentado de Coimbra e que convidam os putos a saltá-los, os namorados a entrelaçar as pernas enquanto se beijam e as flores e as plantas a praticar rapel do mais radical. Do mercado municipal à Sé Nova, da Rua da Sofia à Cruz de Celas, da Portagem ao Departamento de Física, podemos desfrutar de muros de todos os tipos e feitios. Gosto particularmente do muro que serpenteia a Couraça de Lisboa, gosto do panorama para o rio e dos inúmeros quintais e escadarias estreitas que se escondem por detrás.
Um dia, um tipo muito provinciano que por aqui passou, chamado António Oliveira decidiu destruir uma das sequências mais poéticas de muros, muretes e pequenas escadas enfeitadas de árvores e flores, para deixar no seu lugar uma desértica e austera escada, apelidada de Monumental...


Sábado em Coimbra XXV

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

VPV vai acabar com o google e viver numa cabana

Esta entrada de Vasco Pulido Valente (VPV) contra o novo cartão do cidadão é um espelho da nossa incapacidade e do nosso atraso em acompanhar as rápidas transformações do mundo de hoje. VPV argumenta penosamente contra o novo cartão como se viesse aí um novo perigo para os direitos e as liberdades dos cidadãos. Vejamos:

1 - Este "rectângulo de plástico" NÃO reúne "quase tudo o que há a saber de relevante sobre um indivíduo". Existem outros rectângulo de plástico, chips electrónicos e códigos de barras que dão muito mais a conhecer do que é relevante sobre um indivíduo, tais como o cartão de crédito, o cartão do telemóvel, as máquinas dos parques de estacionamento ou o identificador de Via Verde.

2 - Ao contrário do que refere VPV não "basta carregar em meia dúzia de botões e uma pessoa fica instantaneamente nua". Cada serviço terá apenas acesso à informação a que tem direito. Não haverá nenhum serviço que possa ter informação a todos os dados simultaneamente. Para além disso, geralmente este tipo de cartões só permite o acesso aos dados mediante um código do conhecimento exclusivo do proprietário do cartão.

3 - Como o próprio VPV admite, o Estado não vai aceder a nenhuma nova informação sobre o cidadão. Outros cartões possuem já de forma directa ou indirecta parte das informações do cartão do cidadão. Através de um simples cartão de débito ou de crédito, um empregado bancário poderá saber não só alguns dos nossos dados pessoais, datas, moradas, nº de telefone, etc., como também a nossa actividade pessoal mais privada, se temos um leitor de DVD, se o comprámos em Andorra ou no Colombo, se transferimos dinheiro para um primo taxista que está na Suiça (quem trabalhou no Independente sabe bem que é assim), se pagámos uns vodkas no Elefante Branco às 4 da matina ou se somos assinantes do sítio internet da revista Hustler. O cartão do cidadão também não vai registar quem são os meus amigos, quando me contactaram e de onde me contactaram, dados esses registados pelo cartão do telemóvel e pelas inúmeras antenas dos operadores.

4 - O programa de espionagem americano ECHELON (e o seu sucessor) registaram e registam dados bem mais graves, como a actividade política, e ninguém parece importar-se em Portugal. Lembram-se de uma cidadã portuguesa que foi impedida de entrar nos EUA só porque foi arguida (e não condenada) no processo das FP25?

5 - Depois vê-se que VPV anda alheado da realidade: "Na América e na Inglaterra, ainda não existem documentos de identificação universal". Ora, o cartão do cidadão já foi anunciado por Tony Blair, logo tal como em Portugal ainda não existe, mas existirá. Hoje cada viagem aos EUA vale no mínimo uma fotografia e duas impressões digitais nos serviços de fronteira. E em breve será necessário um passaporte com mais dados biológicos do que a simples impressão digital.

6 - Neste país fala-se tanto em mobilidade e de versatilidade no mundo do emprego, mas quando chega a hora de facilitar a vida às pessoas mais dinâmicas e móveis deste país, arranja-se logo uma piconhice qualquer para manter o monólito burocrático que gangrena o serviço público e inferniza a vida dos cidadãos. Por exemplo, desde que voltei a Portugal em 2002 o tempo que perdi para actualizar e renovar documentos, pedir certidões e autorizações para me passarem certidões (!!!), equivale a cerca de um mês de trabalho. Só para legalizar o meu carro foram precisos 17 documentos e mais de um ano de idas estéreis de Coimbra ao serviço de Alfândega de Aveiro!!!

7 - No entanto, "basta carregar em meia dúzia de botões" e o google diz-nos coisas fantásticas sobre VPV (cerca de 28500 respostas!!!), coisa de fazer inveja a qualquer ambicioso cartão do cidadão.

A minha conclusão:
Hoje são tantos os sensores e câmaras que registam a nossa actividade que é impossível passar completamente anónimo no meio urbano. Se VPV teme assim tanto dispositivos do género do cartão do cidadão, o melhor que tem a fazer é abandonar as cidades. Talvez uma vida tranquila numa cabana no meio de uma floresta bem densa o coloque ao abrigo das novas tecnologias, mesmo assim é preciso ter cuidado com os satélites de observação. Não faltarão certamente muitos anos até um google Earth qualquer nos mostrar todas as cabanas deste planeta...

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

10 melhores filmes de 2005 no UbsK

A seguir no "Um blog sobre Kleist" os 10 melhores filmes de 2005. É uma tarefa que exige tempo, mas como o UbsK é um dos poucos blogues que vê muito mais do que apenas aquele cinema que está ali mesmo à frente do nariz, aqui haverá paciência para esperar.