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domingo, outubro 14, 2012

PCF contra encerramento de centrais nucleares

(publicado no portal Esquerda.net)


Nas últimas semanas, o PCF (Partido Comunista Francês) tem-se manifestado abertamente contra o encerramento das centrais nucleares francesas, em particular contra o encerramento da central nuclear de Fessenheim, na Alsácia, tal como está previsto no programa eleitoral de François Hollande por pressão dos Verdes franceses (Europe Ecologie). O PCF fundamenta as suas posições recorrendo a argumentação onde se invoca a perda dos postos de trabalho, onde se garante a segurança da unidade de Fessenheim e se apela à independência energética nacional. Ora, os postos de trabalho que serão criados no complexo de energias renováveis que substituirá a unidade de Fessenheim, será da mesma ordem de grandeza dos postos de trabalho da central nuclear em causa. Acresce que o encerramento de uma central nuclear é um processo que se prolonga durante vários anos e alguns dos processos de tratamento dos resíduos perigosos chegam a prolongar-se por várias décadas. Mas, o mais grave é que a posição do PCF acaba por dar cobertura à abundante subcontratação de trabalhadores no setor do nuclear, trabalhadores estes que realizam o trabalho mais perigoso, recebendo salários pouco superiores ao salário mínimo, suportando doses bem acima de qualquer um dos funcionários da central, e que têm sido vítimas de acidentes incapacitantes. A central nuclear de Fessenheim é a mais antiga central francesa em funcionamento, foi construída em 1977, tendo sido previsto na altura um tempo de vida de 20 anos que foi já largamente ultrapassado. Esta central encontra-se localizada numa região de atividade sísmica, sem dar garantias de resistir a um terramoto de magnitude superior a 6,7 na escala de Richter – estima-se que o terramoto com um epicentro a 50 km ocorrido em Basileia em 1356 poderá ter atingido os 6,9 – e à rutura do grande canal da Alsácia. Estes factos não só descredibilizam as garantias de segurança dadas pelo PCF, como são reforçados pelo número de acidentes de nível 0 e de nível 1 que quadruplicou ao longo da última década.

A pobre fundamentação do PCF na defesa da energia nuclear, sobretudo depois de Fukushima, revela um acantonamento ideológico crónico e uma nostalgia do programa nuclear do bloco de leste implementado por partidos como o Partido Socialista Unificado da Alemanha (ex-RDA) e o Partido Comunista da Checoslováquia, ambos representados no GUE/NGL (Esquerda Unitária Europeia e Verdes Nórdicos) no Parlamento Europeu através do Partido do Socialismo Democrático que integra o Die Linke e do Partido Comunista da Boémia e da Morávia (Rep. Checa). Os comunistas checos são acérrimos defensores da energia nuclear e o Die Linke defende uma saída do nuclear apenas a médio ou longo prazo. No GUE também o PCP mostrou abertura à discussão da energia nuclear. Apesar do PCF ter integrado a Frente de Esquerda nas eleições presidenciais, Jean-Luc Mélenchon defende uma saída progressiva do nuclear e propõe a realização de um referendo sobre a questão.

quarta-feira, maio 09, 2012

segunda-feira, maio 07, 2012

A energia nuclear no centro do debate presidencial francês

(publicado no portal Esquerda.net)

A energia nuclear foi um dos pontos principais de debate e do programa dos candidatos à eleição presidencial francesa. No país que mais depende desta forma de energia, a ampla variedade de posições sobre este tema produziu um debate intenso quer entre esquerda e direita, mas também entre os próprios candidatos de esquerda.

O programa de Nicolas Sarkozy é claro na afirmação do nuclear como uma opção estratégica fundamental para contornar a dependência das energias fósseis. A posição de Marine Le Pen, embora muito vaga, defende a continuidade do nuclear para garantir a independência nacional da França no setor energético, embora tenha admitido que a energia nuclear é perigosa e que a longo prazo deva ser equacionada a sua substituição.

Eva Joly, dos Verdes, apresentou o único programa abertamente pela extinção da produção de energia nuclear. Aliás, foi sob a pressão de um acordo assinado entre Verdes e o Partido Socialista Francês que o programa de François Hollande passou a integrar medidas concretas para a redução da energia nuclear a curto e a médio prazo. Em particular, o encerramento da central de Fessenheim nos próximos cinco anos. A central de Fessenheim, localizada na Alsácia perto de uma falha sísmica, é a mais velha central francesa, em atividade há 35 anos, e também a que comporta maiores riscos de ocorrência de um acidente grave. Outra medida importante é a redução a 50% da energia nuclear na produção de energia elétrica até 2025. O valor atual é de 75%, sendo o mais elevado do mundo. No entanto, Hollande defende a continuidade do programa de construção do novo reator EPR (European Pressurised Reactor/Evolutionary Power Reactor).

Jean-Luc Mélenchon defende uma saída progressiva do nuclear e propôs a realização de um referendo sobre a questão. Entre os seus apoiantes diretos, o Partido Comunista Francês defende a continuidade do programa nuclear, enquanto o Partido de Esquerda é contra.

Entre declarações confusas e pouco claras sobre o assunto, o candidato Philippe Poutou do NPA admitiu a falta de unanimidade dentro do seu partido sobre a questão da energia nuclear, embora o seu programa proponha a saída da energia nuclear dentro de 10 anos.

A candidata da Lutte Ouvrière, Nathalie Arthaud mostrou-se favorável à energia nuclear no quadro de uma gestão pública.

No caso de vitória de Sarkozy, não se espera nenhuma alteração ao programa nuclear francês nos próximos cinco anos. No caso de vitória de Hollande, pelo menos existe a esperança de uma inflexão das prioridades energéticas do país e do encerramento da central de Fessenheim, no entanto nada de radicalmente diferente ocorrerá certamente no panorama energético francês.

segunda-feira, abril 23, 2012

Sectarismo na esquerda francesa: NPA/LCR e Verdes


A NPA (o novo oleado da LCR) escolheu voluntariamente a via do sectarismo recusando a aliança com Mélenchon, mas muito pior que isso foi a escolha de um candidato absolutamente impreparado para representar o programa da LCR. Mais uma vez a LCR não resistiu ao populismo barato e escolheu um candidato com o único propósito de ir rapar votos a um sector da sociedade sem haver a mínima preocupação de perceber se o candidato estava preparado ou motivado para representar essas ideias. Foi um desastre,   Philippe Poutou foi recorrentemente gozado nos debates e entrevistas em que participou pelas inúmeras gafes e desconhecimento completo de alguns dos principais tema políticos e do seu próprio programa político. 
Em 2001, em Estrasburgo, tive oportunidade de participar em debates com Alain Krivine. Independentemente de concordarmos ou não com ele, constatei de perto que o homem era uma verdadeira sumidade. Desde então a escolha dos candidatos da LCR/NPA não se processa segundo a capacidade do candidato para transmitir o programa político, mas antes segundo o cálculo do voto que se vai buscar se o candidato é carteiro, ou se usa lenço ou se trabalha na indústria automóvel (ouvir a intervenção Michel Onfray sobre este assunto). O populismo barato e o sectarismo explicam os 1,15% obtidos.


Os Verdes decidiram escolher uma candidata contra Nicolas Hulot, de longe o Verde francês mais popular. Apesar de não se candidatar, há cinco anos as sondagens chegaram a colocá-lo nos 15%. Mas como Nicolas Hulot é um militante recente e não estava suficientemente purificado, a ala mais sectária dos Verdes franceses estendeu-lhe todas as cascas de banana possíveis para evitar a sua escolha como candidato. Conseguiu-o, Eva Jolly foi eleita candidata, mas era uma candidata sem motivação, sem grandes ideias ou estratégias que pudessem encaixar no programa dos Verdes. A sua campanha foi errática, confusa e sem chama como testemunham os 2,3% obtidos. No entanto, é preciso não esquecer que o ponto fraco dos Verdes são as presidenciais, a sua posição contra o sistema presidencialista sempre mobilizou pouco os militantes ecologistas.



quarta-feira, janeiro 18, 2012

Beigbeder um escritor quase não traduzido

Na sua edição de Dezembro a revista Ler dedica uma secção a escritores não traduzidos para português, na sequência de mais um Nobel da Literatura atribuído a um escritor praticamente desprezado pelas nossas editoras. Preparava-me para acrescentar Beigbeder a essa lista, quando descubro que há 10 anos atrás a Editorial Presença publicou o original 99 Francs com o título "14,99€ - A Outra Face da Moeda". O seu estilo auto-ficcional, libertino e intelectual é lido e traduzido nos países balticos, Rússia e na conservadora Turquia. A sua obra já deu origem a dois filmes, o novíssimo "L'amour dure trois ans" e o espirituoso "99 Francs" com Jean Dujardin. Mas Frédéric Beigbeder apresenta alguns inconvenientes para os nossos editores: não é marialvista, não escreve sobre sopas de peixe com leite de mamas, não se leva a sério e goza a fundo consigo mesmo (esta o macho luso não perdoa). É pena, passa-nos ao lado a prosa de um escritor que descreve intencionalmente o seu tempo, que vive a fundo o seu tempo, que gosta do seu tempo, que descreve o mundanismo dos nossos dias, uma espécie de Balzac do século XXI, enfim um escritor que daqui a 200 anos será apreciado por transmitir um retrato fiel das vivências da nossa geração.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

sexta-feira, novembro 04, 2011

Libération acolhe Charlie Hebdo



Depois do incêndio da redacção do Charlie Hebdo, num gesto raro nos tempos que correm, o jornal Libération decidiu acolher os jornalista do semanário satírico.
A empresa Bluevision que gere o sítio internet do semanário revelou que a página tem sido alvo de constantes ataques informáticos coordenados e provenientes sobretudo de servidores localizados na Turquia e na Arábia Saudita. Esta última proveniência prova que o peixe é grosso e sabe o que quer. Como se isto não bastasse, os trabalhadores da empresa têm recebido constantes ameaças de morte. Entretanto, enquanto o sítio internet continua com problemas, o Charlie Hebdo criou ontem um blogue.


segunda-feira, setembro 05, 2011

Lançada maior turbina para energia de correntes marítimas

(publicado no portal Esquerda.net)

Esta semana foi lançada ao largo da Bretanha a maior turbina do mundo (16 metros de diâmetro e 1000 toneladas de peso) destinada à produção de energia a partir de correntes submarinas.Instalada a 35 metros de profundidade, ao largo da costa de Paimpol e da ilha de Bréhat, a referida turbina deverá passar uma série de testes em condições reais, em particular a sua resposta às correntes e ao meio natural. Depois desta fase de testes a EDF (Electricité De France) instalará outras três turbinas na mesma zona ao curso de 2012. O parque de 4 turbinas produzirá um total de 2 MW/h, capazes de alimentar cerca de 2000 a 3000 lares. As turbinas estarão ligadas a um cabo submarino de 15 km que as ligará à rede eléctrica continental.

As turbinas do parque Paimpol-Bréhat foram construídas pela empresa irlandesa Openhydro nos estaleiros militares navais de Brest, tendo sido financiadas em parceria entre a EDF e as autoridades regionais. A região da Bretanha entrou com cerca de 25% dos custos. O projecto tem sido acompanhado pelas associações de recreio, ambientais e pescadores locais tendo sido avaliados os diferentes impactos na região. Neste sentido, a EDF chegou a um acordo com os pescadores locais para financiar em cerca de um milhão de euros um estudo sobre o impacto do parque na migração das lagostas, cuja pesca é importantíssima para a economia local.

Estima-se que o potencial de produção de energia a partir de correntes submarinas é de 2,5 a 3,5 GW em França, o que corresponde a 3 ou 4 % da produção actual de energia do país, ou seja poderá abranger alguns milhões de franceses. No entanto, um dos problemas desta forma de produção de energia é que a sua eficiência depende em grande medida da localização geográfica. O potencial da costa francesa para produzir energia a partir das correntes marítimas estima-se em cerca de 20 a 25% do potencial de toda a Europa. Melhores condições apenas se encontram nas ilhas britânicas. Na Escócia, a empresa ScotishPower Renewables está a implementar desde Fevereiro o maior parque de produção de energia de correntes marítimas, com o objectivo de produzir cerca de 10 MW a distribuir por cerca de 5 mil habitações. As maiores vantagens desta forma de produção de energia são o seu ligeiro impacto ambiental, comparada com outras renováveis, e a grande previsibilidade das correntes marítimas em contraste com a considerável aleatoriedade dos ventos, no caso da energia eólica.

Apesar de a EDF estimar o preço dos primeiros MW produzidos pelas turbinas de Paimpol cerca de 8 vezes mais elevado do que o actual preço de mercado, espera-se que nos próximos anos se consiga reduzir esses custos para um terço. A França tem como objectivo produzir até 2020 cerca de 23% de energia a partir das renováveis. A Escócia estabeleceu uma meta de 80% para a mesma data. Ambas as metas resultarão numa considerável redução de consumo e de importação de petróleo e de gás natural, o que a longo prazo constituirá uma escolha mais económica, visto que o preço destes combustíveis fósseis continuará ao aumentar ao longo das próximas décadas.

sexta-feira, setembro 02, 2011

Energia das correntes

Depois de algum tempo de pousio, os fluidos desta Klepsýdra voltam a circular. Nada melhor para assinalar este facto que a maior turbina do mundo destinada à produção de energia a partir das correntes marítimas, em operação desde ontem ao largo da Bretanha. Aqui fica o filme e a ligação:

segunda-feira, agosto 01, 2011

Houellebecq, Beigbeder e Angot

Michel Houellebecq, Frédéric Beigbeder e Christine Angot cruzam-se nos livros um dos outros em registos autoficcionais com estilos muito diversos. Raramente são simpáticos uns com os outros. Ao ler "La carte et le territoire", o prémio Goncourt de 2011 constatei que involuntariamente os três escritores formam uma cadeia literária viva que caracteriza uma certa Paris e uma certa França actuais. Os três escritores conseguem encaixar a aparente futilidade e banalidade dos gestos e dos hábitos quotidianos numa escrita inteligente, mas sem super-heróis. Beigbeder é um barómetro das discotecas e da vida mundana, Angot descreve-nos a suas idas ao quiosque e Houellebecq não hesita em partilhar os suas aventuras através de estradas bordejadas das distracções modernas.

Tal como refere o José Mário Silva numa das últimas edições da revista Ler, falta na literatura portuguesa quem se atreva a descrever as vivências do quotidiano, os cafés que frequentam, os jornais que lêem ou fazendo saltar para o meio das páginas personagens reais com quem se cruza no autocarro e na farmácia. Falta sobretudo um Beigbeder. Não é por isso de estranhar que este autor (tal como Angot) não tenham obra publicada em Portugal.

sexta-feira, junho 10, 2011

O advogado do terror



"O Advogado do Terror" é um filme que descreve o percurso de Jacques Vergès, um advogado francês, filho de pai da Reunião e mãe vietnamita, em cuja carteira de clientes figuraram o terrorista Carlos, o nazi Klaus Barbie, entre outras personagens culpadas de crimes violentos.
O mais interessante deste filme é perceber que a motivação de Vergés para defender uma série de personagens detestadas pelo mundo ocidental está claramente associada a uma vingança pela humilhação sofrida pelos pais durante o período colonial francês. A cada defesa de um inimigo público das ex-potências coloniais discerne-se uma pequena victória contra o estado que tratou a sua mãe como uma cidadã de segunda. Vergés utiliza a ironia e o cinismo sem limites para demonstrar o que sente.
Outra parte interessante do filme é a abordagem sobre o desaparecimento temporário de Vergés. Teria ele colaborado com Carlos? O seu modo de vida fausto e burguês rimavam pouco com o modo de vida austero dos grupos terroristas de extrema esquerda. Estaria Vergés a simular uma participação na organização de Carlos, para mais uma vez humilhar os estados ocidentais?

sexta-feira, outubro 08, 2010

Georges Charpak (1924-2010)

Georges Charpak, Nobel da Física em 1992, fez parte desse grupo minoritário de cientistas que se preocupa em interagir com a sociedade, em transpor o que se faz no interior dos laboratórios para o cidadão comum. Charpak publicou excelentes livros de divulgação científica como "De Tchernobyl en tchernobyls", Odile Jacob, 2005, "Soyez savants, devenez prophètes", Odile Jacob, 2004 ou a sua única obra traduzida em português "Feiticeiros e Cientistas", Gradiva, 2002. Estas obras são um reflexo da intervenção de Charpak contra a charlatanice, as pseudo-ciências e a cupidez do mercado, onde de uma forma espirituosa desmonta os artifícios de espécies várias desde astrólogos, passando por economistas com poucos escrúpulos até a cientistas sociais iluminados pelo além. O sentido crítico que empregou nas suas análises da sociedade teriam sido da maior utilidade para combater o charlatanismo de mercado dos tempos que correm.
Recordo as palavras duras e violentas com que classificou os responsáveis da direcção da nossa televisão pública quando aceitou subscrever uma petição contra uma rubrica diária de astrologia da RTP. Não era um homem meigo para charlatães e afins. Charpak vai deixar saudades, mas também deixou escola, uma grande escola de espírito crítico.

sexta-feira, abril 30, 2010

Mulheres da luta II

(publicado no Esquerda Republicana)
Taslima Nasreen e Caroline Fourest publicaram "Libres de Dire". Caroline Fourest é uma incansável activista francesa que se tem batido contra os abusos religiosos e espirituais contras as mulheres. Taslima Nasreen, é uma refugiada política bengali a viver em França sob a ameaça de morte de grupos fundamentalistas islâmicos. Nesta obra ambas reflectem sobre o papel da religião na condição feminina, sobre as respostas da esquerda política à ameaça fundamentalista, sobre a laicidade e o humanismo numa época em que o comunitarismo espiritual e religioso começa a ganhar terreno na Europa.
Sugestão de leitura para o próximo dia 13 de Maio.

segunda-feira, abril 19, 2010

Investigadores denunciam falta de ética dos negacionistas

(Publicado no portal Esquerda.net)
Um documento difundido por mais de 400 investigadores do clima franceses denuncia a falta de ética científica dos niilistas do clima. Os referidos investigadores declararam-se simultaneamente agastados pela cobertura mediática conferida a protagonismos individuais de personagens alheadas da ciência e a polémicas sem fundamento científico que tentam sistematicamente negar os resultados que atribuem o aquecimento global à actividade humana com mais de 90 % de certeza. O documento refere em particular Claude Allègre, ex-ministro da educação do governo Jospin, que em obra recente "L'imposture climatique ou la fausse écologie" (Plon, 2010) procede a uma série de considerações sobre o aquecimento global onde foram detectados inúmeros erros envolvendo citações, dados e gráficos, bem como erros de fundo associados ao conhecimento da física que envolve o estudo dos sistemas climáticos. Foram detectadas falsificações de dados como as dos gráficos do climatólogo Hakan Grudd e de Louise Sime, especialista em glaciares. O documento é mais contundente sobre a falta de ética científica do livro de Allègre, visto que as citações, dados e conclusões da sua obra não foram objecto de revisão pelos pares, ao contrário da ética subjacente ao trabalho científico publicado pelos especialistas do clima, esse sim, sujeito ao rigor da revisão, verificação de cálculos e releitura crítica do raciocínio e das conclusões.



A reacção dos climatólogos franceses vem ao encontro do apelo lançado pelo editorial de Março da revista Nature em que se alerta a comunidade científica de que a estratégia de não resposta aos niilistas para não dar visibilidade a protagonismos individuais pseudo-científicos ter tido como resultado a ocupação do espaço mediático por estes indivíduos. Neste caso francês, a opinião pública parece ter ouvido os cientistas dado que a exposição pública das fraudes de Allègre e dos inúmeros erros do seu livro lançaram no descrédito o ex-ministro francês.

terça-feira, março 23, 2010

Descoberto planeta semelhante a Júpiter fora do sistema solar

(publicado no portal Esquerda.net)

Até hoje foram descobertos mais de 400 planetas fora do nosso sistema solar, os chamados exoplanetas. O interesse da descoberta do exoplaneta CoRoT - 9b deve-se à semelhança da sua massa e do seu raio relativamente a Júpiter, o maior planeta do nosso Sistema Solar. Esta descoberta é significativa visto que pela primeira vez, os investigadores poderão aplicar a um exoplaneta os mesmos modelos que descrevem um dos planetas do Sistema Solar. O CoRoT - 9b apresenta uma órbita em torno da sua estrela com características semelhantes à órbita de Mercúrio - o planeta mais próximo do Sol - apresentando uma faixa de temperaturas médias entre os -20º C e os 150º C. Os exoplanetas descobertos anteriormente mais parecidos com os corpos do Sistema Solar eram uma espécie de "Júpiter quente", apresentando temperaturas muito mais altas e percorrendo órbitas mais próximas da sua estrela do que a órbita de Mercúrio.

Cada vez que o Corot - 9b transita em frente à sua estrela, a diminuição de brilho que a sua sombra provoca permite aos cientistas saber a sua posição, determinar a sua dimensão e estudar a sua composição. Espera-se que dentro de alguns anos se possa conhecer a sua composição com uma grande precisão, após um conjunto de observações limitadas a cerca de 8 horas cada - relativas a cada trânsito em frente à estrela - e que serão realizadas de 95 em 95 dias, o período da órbita do exoplaneta em torno da sua estrela.

O nome deste exoplaneta tem origem no satélite CoRoT (Convection, Rotation et Transits planétaires), o satélite francês lançado em 27 de Dezembro de 2006 através do qual foi possível descobrir este exoplaneta. O satélite CoRoT foi lançado com o objectivo de estudar a sismologia de estrelas e de descobrir exoplanetas com dimensões aproximadas aos dos planetas do nosso Sistema Solar. Depois da descoberta de um gémeo de Júpiter espera-se a descoberta de novos exoplanetas de dimensões ainda mais reduzidas, mais próximas das dimensões da Terra, com potencial para albergar formas de vida como as que conhecemos no nosso planeta.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Dominique de Villepin vs Sarkozistão



A primeira vitória nos tribunais de Villepin contra o Sarkozistão - um pequeno estado dentro do estado francês composto de amiguismos, trocas de favores, "come e cala", de lambe-botismo que se instalou à volta do presidente Sarkozy - para além de me ter dado um gozo muito especial remeteu-nos um passado recente, para outra postura de coragem de Villepin em que este se destacou pelo memorável discurso na ONU contra as fantasias da Administração Bush sobre as armas de destruição em massa no Iraque.

A perseguição do Sarkozistão a Villepin continuará. E já sabemos que dificilmente homens da fibra de Villepin sobrevivem à matilha indemnes. Mas cada pequena vitória de Villepin contra o Sarkozistão vale por 10 e aqui estaremos para as aplaudir.

PS-
Dedico estas linhas ao Αλέξανδρος ο Μίκρος, razão da minha ausência de uma semana da Κλεψύδρα

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Cyrano de Bergerac



"Cyrano de Bergerac" apesar de se tratar de uma obra de 1990 de Jean-Paul Rappeneau, apenas recentemente passou pelo meu leitor de DVD. E em boa hora passou! Este filme baseado na peça de teatro do mesmo nome da autoria de Edmond Rostand é uma pérola do cinema, um filme único. Inspirada na história de uma personagem real, Savinien Cyrano de Bergerac, a acção desenrola-se na França conturbada do século XVII, conturbada pela Guerra dos Trinta Anos e por um clima de disputa entre notáveis da época. No meio deste ambiente hostil, a poesia, a eloquência e o talento na esgrima de Cyrano é uma fonte de motivação guerreira para os homens e de sedução para as mulheres. Apaixonado por Roxane mas desmotivado pela sua figura, sobretudo pelo seu "gigantesco" nariz, Cyrano projecta a sua paixão através das cartas de amor que escreve assinando pelo jovem Christian de Neuvillette, igualmente apaixonado por Roxane mas incapaz de escrever e encalhado numa timidez que o impede de se exprimir. Adivinha-se o drama...
Durante as duas horas de filme somos agraciados por uma interpretação magistral de Gérard Depardieu (actor que não está entre as minhas preferências), por um recital de bem declamar, bem falar, por um hino à poesia e à literatura, enquadrados no turbilhão da dança irreverente da capa e espada de Cyrano.
Este é um filme que para além de nos lavar a alma, além de ser um filme bem disposto, irónico, cheio de acção e apesar de ser teatral, é um filme que nos manda ir ler. Vai ler! Tens muito para ler! E a seguir declama aos deuses e às infantas da tua paróquia!

sexta-feira, setembro 11, 2009

Os Visitantes



"Os Visitantes" de Jean-Marie Poiré é uma das minhas comédias preferidas. Embora entre os actores não apresente grandes talentos da comédia (confesso que não aprecio muito a Valérie Lemercier no registo comédia e esse também não é o forte de Jean Reno), "Os Visitantes" apresenta um excelente argumento e um rigor histórico invulgar para um filme do género. Começando pelo objectivo dos "Visitantes", a descendência, passando pelos pormenores da idade média contados por Reno, "durante os banquetes queimávamos árvores inteiras para assar veados", até ao choque entre passado-futuro com cenas memoráveis como aquela onde a retrete serve de lavatório, ou quando Clavier come uma sandes embrulhada em papel celofane ou ainda o caríssimo banho à base de Chanel nº 5.
O nível de maturidade de "Os Visitantes" contrasta fortemente com a ingenuidade latente das comédias americanas que partem de viagens no tempo para construir a sua narrativa, como o "Regresso ao Futuro". "Os Visitantes" é uma comédia de luxo que teve sequelas, menos conseguidas, mas nem por isso menos desprovidas de um excelente conteúdo histórico.
É a minha proposta aos caríssimos leitores para este fim-de-semana, para aqueles momentos de ócio em que nos abstraímos da outra comédia: a humana.