sexta-feira, março 18, 2011

quinta-feira, março 17, 2011

Fantasmas sobre o perfeccionismo japonês

Têm-se alimentado muitos fantasmas sobre as virtudes da organização japonesa, mas a realidade é que o Japão apresenta um dos piores registos de acidentes da indústria nuclear: Tokaimura (nível 4) em 1999, Mihama (nível 1) em 2004 e Fukushima (nível 5, 6 ou7?). Pior que o japonês só o programa soviético.

No caso do acidente de Tokaimura foi a lógica do lucro de uma empresa privada que se sobrepôs às regras mais elementares de segurança. Para poupar, foi guardada num único recipiente maior quantidade do que era autorizado de uma solução com material radioactivo, tendo-se atingido a massa crítica necessária para desencadear uma reacção em cadeia. A reacção emitiu fortes doses de radiação que provocou a morte de dois trabalhadores e sérios problemas de saúde a um terceiro. O acidente de Mihama em 2004 provocou a morte de quatro trabalhadores e queimaduras em sete, após a ruptura de um tubo de vapor de água a mais de 250°C. Mas este acidente ficou também marcado pela falta de transparência dos responsáveis da central sobre as consequências do acidente. A própria opção de construção de 55 reactores no arquipélago japonês, em permanente risco sísmico, insere-se na mesma lógica do lucro que se sobrepõe à segurança. Não é de estranhar a revelação da Wikileaks (divulgada no Daily Telegraph) de que um dos responsáveis da Agência Internacional de Energia Atómica teria advertido em 2008 o governo japonês para o risco que corriam as centrais japonesas em caso de um sismo muito forte. A central de Fukushima foi projectada para resistir a sismos de escala 7, o sismo da passada sexta atingiu o grau 8,9.

No Japão há uma cultura de disciplina e de respeito impressionante pelas hierarquias, aliás a II Guerra Mundial foi um período em que essa obediência hierárquica atingiu extremos impensáveis. Mas da obediência e da disciplina até à cultura da transparência e do respeito pelas regras segurança ainda vai uma grande distância. Nestes aspectos os japoneses comportam-se como outras sociedades ofuscadas pelo deus mercado.

Science & Vie sobre catástrofes naturais

A excelente revista de divulgação científica Science & Vie acabou de lançar um número especial muito oportuno. "La Terre : Planète à hauts risques" é um número dedicado a catástrofes naturais em que se dedica um capítulo aos terramotos e tsunamis. Outros capítulos abordam erupões vulcânicas, tempestades, inundações, etc.

quarta-feira, março 16, 2011

Possíveis consequências de Fukushima

As consequências económicas são imediatas para a economia com a paragem por tempo indeterminado dos 6 reactores de Fukushima Daiichi que representam cerca de 10% dos reactores nucleares do país. A longo prazo muito certamente os reactores 1, 2 e 3 ficarão irremediavelmente inutilizados e os custos da reparação da central ascenderão facilmente a milhares de milhões de euros. Se houve alguma economia na produção de energia nuclear (nem todos os programas nucleares civis são rentáveis, ao contrário do que se pensa), esta será largamente suplantada pelos custos de reparação, tal como aconteceu em Three Mile Island, em Sellafield, em Forsmark e obviamente em Chernobyl.

Os riscos para trabalhadores e população serão piores do que Three Mile Island (acidente de nível 4) mas certamente bem menos graves que Chernobyl (nível 7), mesmo que haja uma explosão da cúpula de confinamento dos reactores (e não do edifício como já ocorreu) causada pela operação de arrefecimento. As fissuras e as brechas de 8 metros detectadas nos confinamentos de dois reactores estão a deixar escapar radiação altamente perigosa para as imediações e o incêndio ocorrido na piscina de arrefecimento do reactor 4 lançou uma nuvem radioactiva para a atmosfera durante duas horas. Não é de excluir que estes problemas se possam agravar e estender à piscina do reactor 5 que continua a aquecer e a perder água. Se houver fusão do combustível nuclear é provável que a parte inferior do confinamento de segurança do reactor possa ceder com a consequente contaminação dos solos. O incêndio nas piscinas também poderá contaminar o solo envolvente. Comparando com Chernobyl e o acidente de Palomares (B52 que se despenhou com 4 bombas nucleares) onde houve contaminação radioactiva dos solos é de esperar a criação de uma área interdita à população de alguns quilómetros quadrados durante mais de 50 anos.

segunda-feira, março 14, 2011

O excesso de confiança no sector nuclear

O secretismo em torno dos programas nucleares soviético e americano e o clima de competição da Guerra Fria explicam a falta de comunicação tanto dos EUA como da URSS de problemas e acidentes que iam ocorrendo nas centrais nucleares. Inclusivamente a nível interno pequenos acidentes eram prontamente abafados, sobretudo na URSS. Os engenheiros soviéticos não tinham qualquer informação sobre os acidentes nas outras centrais do país, logo na prática estavam convencidos que a estatística de acidentes era próxima de zero. Gerou-se assim um clima de excesso de confiança que foi uma das principais causas do acidente de Chernobyl, quer no desleixo como foi implementado o projecto durante a construção da central, como na negligência dos engenheiros durante o teste de segurança que ironicamente originou o acidente.

Mas o excesso de confiança estende-se às sociedades mais abertas, sobretudo quando a lógica de mercado é aplicada aos programas nucleares civis, como adverte Georges Charpak (Nobel da Física e um dos responsáveis do programa nuclear francês) na obra "De Tchernobyl en tchernobyls", Odile Jacob, 2005. Por exemplo, o acidente de 1999 em Tokaimura no Japão ocorreu porque a lógica do lucro de uma empresa privada se sobrepôs às regras mais elementares de segurança. A construção de 55 reactores no arquipélago japonês em permanente risco sísmico não são uma opção que se possa considerar razoável, por muito que se possa fazer pela segurança de uma central. Também aqui a lógica do lucro não estará certamente dissociada desta decisão.

O excesso de confiança surge ainda nos debates domésticos sobre o nuclear (não apenas em Portugal) quando se reduz o número de acidentes a Chernobyl, quando se esquece Three Mile Island em que o puro acaso não produziu outro Chernobyl, quando se ignora Tokaimura ou os recentes acidentes em centrais do Reino Unido (Sellafield) e da Suécia (Forsmark). A indústria nuclear é mais segura do que a generalidade das indústrias químicas, mas não é uma indústria imaculada, não é uma indústria de risco zero nem nada que se pareça. E como os acidentes da indústria nuclear são potencialmente muito mais perigosos e muito mais caros de remediar, quando se debate o nuclear deve-se oferecer às populações toda a informação disponível, deve-se usar da máxima transparência.

sábado, março 12, 2011

O terramoto nas centrais nucleares japonesas

(publicado esta manhã no portal Esquerda.net)

A informação vai saindo a conta-gotas, mas é já uma certeza a ocorrência de um incêndio na central de Onagawa e a existência de problemas muito graves de arrefecimento em dois reactores da central de Fukushima, onde se produziu uma violenta explosão.

A explosão danificou o edifício onde se encontra um desses reactores tendo provocado vários feridos. A central de Fukushima está em alerta máximo e tudo indica que material combustível sobreaquecido entrou em fusão num dos reactores. O governo japonês confirmou uma fuga radioactiva de alta perigosidade e ordenou a evacuação da população num perímetro de 20 km à volta da central.

Em Chernobyl a gravidade do acidente resultou de uma explosão causada pela pressão do vapor da água produzido no circuito de arrefecimento de um dos reactores. Essa explosão pulverizou o tecto do edifício do reactor e projectou grandes quantidades de materiais altamente radioactivos na atmosfera. Neste caso, negligências graves durante a construção e o não respeito do projecto inicial da central tornaram possível um acidente que em condições normais não deveria ter ocorrido.

Ainda se ignora se em Fukushima as cúpulas dos reactores, que servem para impedir a fuga de radiação em caso de acidente, foram destruídas pela explosão como aconteceu em Chernobyl. No entanto, materiais altamente radioactivos armazenados no exterior dos edifícios principais foram já dispersos nas redondezas e na costa japonesa pela inundação provocada pelo tsunami.

O Japão tem 55 reactores nucleares, 11 dos quais pararam automaticamente através de protocolos específicos de segurança assim que ocorreu o terramoto. Teoricamente as centrais japonesas estavam preparadas para lidar com sismos desta intensidade, mas o inesperado tsunami poderá explicar algumas das falhas graves que estão a acontecer.

Para informações mais actualizadas seguir o sítio da Agência Internacional de Energia Atómica e a Euronews.

sexta-feira, março 11, 2011

Acidente nuclear grave no Japão

Ainda não há muita informação disponível, mas é já uma certeza que há um incêndio na central de Onagawa e, como se temia esta manhã, há problemas muito graves de arrefecimento de dois reactores na central de Fukushima.
Relembro que em Chernobyl a gravidade do acidente foi agravada pela explosão causada pela pressão do vapor da água do circuito de arrefecimento de um dos reactores e por falhas graves no projecto da central. Na central de Fukushima pode estar a acontecer o pior, mas para já não há indicações de problemas com as cúpulas que encerram os reactores e que evitam fugas radioactivas significativas. No entanto os materiais altamente radioactivos armazenados no exterior foram dispersos pelo tsunami.
11 dos 55 reactores japoneses pararam durante o terramoto.
Ler e/ou ouvir a reportagem da Euronews.

O cartoon da semana



Por David Horsey.

quinta-feira, março 10, 2011

Racionalizar a fiscalidade automóvel

Na fórmula 1 e nos rallies há limites para a capacidade dos motores e há novas categorias para automóveis com soluções ecológicas. No entanto apesar do cidadão comum não ter ambições de piloto de corridas nas nossas ruas e nas nossas estradas pode circular praticamente tudo sem restrições. Num continente em que a velocidade máxima oscila tipicamente entre os 50 km/h em cidade e os 120 km/h, continuam a vender-se carros com motores com mais de 2000, 3000, 3500 cc (mais que nos rallies), com 150 cv, 200 cv, que atingem velocidades máximas de 200, 220, 250 km/h. Continuam a vender-se veículos todo-o-terreno que podem circular com toda a liberdade em centros históricos medievais com calçadas centenárias e fachadas milenárias.

Já referi que gosto de automóveis e por isso sei perfeitamente que estas motorizações são exageradíssimas e irracionais quando a esmagadora maioria das pessoas quer é uma caixa com rodas que as leve de um ponto A a um ponto B, estão-se nas tintas para a cavalagem do motor, quando muito exigem que a caixa com rodas seja gira e estilosa. Um ex-engenheiro da VW demonstrou que transformando o motor e a carroçaria de um VW Golf era possível reduzir o consumo abaixo dos 3 litros/100km. Optimizando um novo motor às necessidades básicas do condutor e aos limites de velocidade concebeu um motor apenas de 25 cavalos mas de binário elevado adequado às subidas e acelerações.

A propósito das medidas adoptadas em Espanha, julgo que este seria o momento acertado para transformar radicalmente a fiscalidade automóvel, as normas de trânsito e a lógica de circulação urbana, antes de esbanjarmos mais dinheiro e petróleo de uma forma fútil. Durante milhões de anos 90 toneladas de matéria orgânica produzem cerca de 4 litros de gasolina. Optimizar a fiscalidade automóvel a nível europeu (ou ibérico) permitiria responder simultaneamente a diversos problemas que se somam e com tendência para piorar como: a escassez do petróleo, o aumento dos preços dos combustíveis fósseis, a poluição, o combate às alterações do clima e o endividamento externo. Como bónus ganharíamos mais segurança rodoviária.

quarta-feira, março 09, 2011

Cicatriz Marciana



Esta belíssima cratera marciana parece uma cicatriz rasgada por um meteorito rasante. Parece, mas o mais certo é ter resultado do impacto simultâneo de dois meteoritos, provavelmente dois fragmentos de um corpo maior, que erravam juntos pelo Sistema Solar.

segunda-feira, março 07, 2011

Racionalidade automóvel: o exemplo espanhol

A decisão do governo espanhol em limitar a velocidade a 110 km/h nas auto-estradas a partir de hoje é um exemplo de uma medida racional que implica um esforço muito menor do cidadão para combater a crise e que tem implicações positivas na segurança rodoviária e na qualidade de vida. Sabendo que o problema principal da crise nacional é a nossa elevadíssima dívida privada, uma parte dela resultante da importação do petróleo, faz todo o sentido tomar medidas que reduzam a dependência e o consumo do petróleo. Faço notar que a velocidade máxima nos países europeus que detêm reservas de petróleo é inferior à do nosso país: Reino Unido ~113km/h, Noruega 100 km/h e Rússia 110km/h. 110 km/h é uma velocidade mais do que suficiente para trajectos longos (já fiz muitos de cerca de 2000 km) e para a qual os motores funcionam perto da melhor parte do seu regime quando se considera a poluição, a fiabilidade e o consumo. Acrescento que gosto de automóveis e que adoro conduzir, por isso estou bem consciente das irracionalidades motorizadas que circulam nas nossas estradas. Por isso, seria muito mais racional para a crise da dívida privada proceder a alterações profundas na fiscalidade automóvel, tal como a taxação mais severa de veículos particulares com motores com mais de 2000 cm3 ou de veículos todo-terreno (autênticos luxos com rodas), em vez acentuar a pressão sobre os cortes de salários ou nos serviços públicos que pouco ou nada contribuíram para a crise.

domingo, março 06, 2011

Avenida dos Aliados

Encomendei as faixas de campeão 2010/2011 para aí na jornada 5. Recebi há pouco uma mensagem informando que já estavam a ser estampadas.

Agora só queremos uma coisa, é um campeonato sem espinhas, nem que seja preciso jogar com 11 defesas.

quinta-feira, março 03, 2011

terça-feira, março 01, 2011

Paulo Portas na Ilha das Maravilhas

Em 2001, Paulo Portas visita a Irlanda reunindo com o primeiro-ministro Bertie Ahern do partido Fianna Fáil com o objectivo de "abordar o método irlandês para atingir o equilíbrio orçamental, a contenção da despesa pública, as reformas estruturais e o uso e fiscalização dos fundos comunitários". Entretanto, numerosas instituições financeiras e imobiliárias começavam a delapidar a Irlanda endividando-se fortemente no exterior, incitando o cidadão a endividar-se para comprar a casa que precisava e a que não precisava. Mas nessa altura o dinheiro a crédito fluía a rodos e isso era suficiente para Bertie Ahern e Paulo Portas provarem a validade do sistema.

Até 2008, Paulo Portas falava da Irlanda de Bertie Ahern como se fosse um quadro do Fianna Fáil classificando a sua política económica como "um exemplo a seguir pelo Estado Português". A partir de 2009 Paulo Portas deixou de falar sobre a Irlanda...

Este fim-de-semana, o mesmo Fianna Fáil teve o seu pior resultado de sempre passando de 41% para 17%. As eleições foram ganhas pelo Fine Gael. Julgaria o caro leitor que Paulo Portas reflectisse seriamente sobre a derrota estrondosa do partido e das políticas que tanto tempo apoiou e que levaram a Irlanda ao abismo. Tal como noutras ocasiões Paulo Portas colou-se a uma vitória que não é sua, à vitória do Fine Gael. Vale a pena ler Paulo Portas no facebook felicitar o Fine Gael recorrendo à justificação esfarrapada de que o Fine Gael faz parte do seu grupo político no Parlamento Europeu, o PPE. Adivinha-se já Paulo Portas a cantar as próximas vitórias do PSD, dado que também este pertence ao PPE... Mas a memória é tramada para os troca-tintas, e a memória diz-nos que foi por iniciativa de Paulo Portas em 1999 que o CDS abandonou o PPE para aderir aos nacionalistas da UEN (União para a Europa das Nações) da qual faziam parte os seus grandes amigos do Fianna Fáil. Se hoje o CDS está no PPE deve-se apenas ao acordo de coligação com o PSD nas europeias de 2004 e 2009 que lhe retirou a autonomia para escolher a UEN.

segunda-feira, fevereiro 28, 2011

Petróleo continuará a aumentar nos próximos anos

(publicado no portal Esquerda.net)

As recentes revoltas populares no Magreb e no Médio Oriente, em particular incertezas relativamente ao trânsito de petróleo através do Canal de Suez e do oleoduto Sumed no Egipto, voltaram a desencadear uma subida de preço do petróleo no mercado mundial. Esta subida é sobretudo de carácter especulativo dado que a Arábia Saudita garantiu compensar eventuais baixas de produção.

Actualmente, a produção de petróleo supera o consumo em cerca de 4 milhões de barris por dia (um barril de petróleo ~ 159 litros). No entanto, a curto prazo a Agência Internacional de Energia estima que o consumo de petróleo aumente cerca 1,5% por ano e que a capacidade de produção suba apenas cerca de 0,4% ao ano. A este ritmo poderá verificar-se uma situação de penúria dentro de 5 anos, altura em que a produção de petróleo poderá não satisfazer a totalidade da procura mundial. Os investimentos a realizar pelas petrolíferas para satisfazer a procura poderão fazer subir mais rapidamente o preço do petróleo, o que poderá catapultar o preço do Brent – serve de referência para cerca de dois terços do petróleo comercializado – bem acima dos 150 dólares por barril em 2020.

Perante o cenário previsto pela Agência Internacional de Energia, a aposta nas energias renováveis constitui uma solução progressivamente mais económica e sustentável a médio e longo prazo para estados importadores de petróleo, como Portugal. Para um país como o nosso com um sério problema de endividamento privado ao exterior, em boa parte resultante da importação de petróleo, a aposta feita nas eólicas adivinhava-se rapidamente compensadora. Mas se o preço do petróleo atingir os 150 dólares outros tipos de energias renováveis vão passar a ter preços competitivos. É estranho por isso verificar-se em Portugal a progressão de um discurso arcaico, como o do grupo de pressão liderado por Mira Amaral, a favor do consumo exclusivo de energias fósseis, quando estas são tendencialmente mais caras e os seus custos se reflectem directamente na parcela de importações do país.

domingo, fevereiro 27, 2011

Derrota estrondosa de Paulo Portas na Irlanda

Não sei quantas vezes Paulo Portas referiu a Irlanda como exemplo político. Quem o ouvia ficava com a sensação que tinha escrito o programa de governo em conjunto com o executivo irlandês, os impostos baixos, uma economia a caminho do estado mínimo, a atracção de capitais estrangeiros, etc. Claro que não referia que o investimento estrangeiro era essencialmente volátil, que as empresas investiam e os particulares compravam casa com o dinheiro que não tinham, apesar dos impostos baixos. Tudo isto coexistia com bolsas de pobreza chocantes financiadas quase exclusivamente pela União Europeia, porque o novo capitalista irlandês era contra os subsídios... Ironicamente, agora vive todo o país de subsídios internacionais por causa dos que eram contra os subsídios.
Paulo Portas é especialista em colar-se às vitórias dos outros (primeiro referendo do aborto, vitória de Durão Barroso nas legislativas, etc.) mas tem esta derrota coladinha à pele.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Foi você que pediu um campo de golfe?

(publicado no O Figueirense de 18/02/2011, sem ligação na versão electrónica)

Golfe de Marvão em 2009 completamente seco (clicar para aumentar)

Integrei a comissão de acompanhamento do Parque Desportivo de Buarcos pelo que não me pronunciarei sobre o golfe ali previsto antes da conclusão do processo. No entanto, importa tentar perceber porque estão previstos cerca de uma dezena de campos golfe no triângulo Figueira-Coimbra-Mira, sabendo que a taxa de utilização dos melhores campos do país, no Algarve, é muito baixa. Sobretudo sabendo que a sua adaptação ao nosso clima não se faz sem consequências. O golfe moderno foi inventado na Escócia onde em média chove 220 dias por ano.
A lição que se retira da crise da banca americana dos anos 80 e da bolha imobiliária espanhola é que a construção de campos de golfe se trata de um mero esquema para valorizar terrenos, aparthotéis e aldeamentos adjacentes (ler “The Best Way to Rob a Bank Is to Own One” William Black ou ver “Let’s Make Money” de Erwin Wagenhofer). A sobrevalorização dos empreendimentos confere altos rendimentos às instituições financeiras que fornecem o crédito para a construção através da cobrança de juros, da valorização de acções e da colocação de novos produtos nos mercados. Estas ganham sempre, independentemente de as empresas imobiliárias regionais e de os pequenos investidores locais prosperarem ou declararem falência. Independentemente da utilização ou não dos campos para a efectiva prática do golfe.
O sul de Espanha está pejado de urbanizações fantasma com campos de golfe ao abandono, onde os investidores locais faliram em massa. Algo similar ocorreu com o campo de golfe de Marvão, curiosamente integrado numa rede espanhola de golfe, hoje transformado em pasto para ovelhas, ladeado pelo empreendimento fantasma da Aldeia D'Azenha. O golfe de Marvão será colocado à venda em hasta pública no próximo dia 25 pelas 11 horas e já consta que não existirão compradores…

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Faz falta um Delors na Europa

A escolha de figuras incipientes como Durão Barroso, ou ainda pior, como Van Rompuy, deixou a União Europeia entregue a um soberanismo egoísta. Quando é essencial mais integração para blindar a Europa da especulação, quando é mais do que evidente que é necessário emitir dívida em euros, quando é essencial travar a arbitrariedade das agências de notação e da utilização em massa de offshores, a Europa encontra-se bloqueada por políticos sem iniciativa à mercê dos egoísmos dos maiores governos da Europa.
No tempo de Delors não se hesitava na Europa. É um homem com essa fibra de que precisa hoje a União Europeia. Esse homem poderia muito bem ser Jean-Claude Juncker (tendo em conta que a maioria do parlamento é de direita).

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Vivem em cima das nossas possibilidades

"Está tudo a correr bem: em 2010, o lucro dos três maiores bancos privados nacionais cresceu 8%, face a 2009, para quase mil milhões de euros. É a banca, aparentemente, a conseguir transferir o stress para outros. Questão de poder. Entretanto, segundo o Negócios, e isto até custa a crer, o “encargo fiscal do BCP, BES e BPI caiu 83%” no mesmo período, o que terá ajudado no aumento dos lucros, claro. Isso e os empréstimos do BCE a taxas de juro quase nulas. O BCE está aí para as curvas dos bancos, mas não para as dos Estados que amparam os bancos e que depois ficam na sua dependência. É a vida no capitalismo financeirizado. Os riscos financeiros, que são muitos neste regime, são sempre socializados. Por isso é que o controlo público dos bancos deveria ser superior."
João Rodrigues no Ladrões de Bicicletas.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Palomares radioactiva 45 anos depois

(publicado portal Esquerda.net)

Quarta bomba que caiu no Mar Mediterrâneo e foi recuperada dois meses mais tarde – Foto retirada do site brookings.edu

Há cerca de 45 anos, mais precisamente a 17 de Janeiro de 1966, durante uma operação de reabastecimento em voo, um bombardeiro B52 da Força Aérea dos EUA colidiu com um avião cisterna KC-135. Ambos os aparelhos foram destruídos. O B52 transportava quatro bombas termonucleares Mk 28. Três bombas caíram junto à aldeia piscatória de Palomares na Andaluzia, Espanha. A carga não-nuclear de duas bombas explodiu tendo espalhado plutónio radioactivo por uma área de cerca de dois quilómetros quadrados. A carga nuclear não explode por impacto como as bombas convencionais, mas através do correcto funcionamento do dispositivo detonador. A quarta bomba caiu no Mar Mediterrâneo, tendo sido recuperada dois meses mais tarde.

O nível de contaminação do solo de Palomares só atingirá o nível de radioactividade natural dentro de alguns milhares de anos. Para minimizar os efeitos da radioactividade, logo após o acidente, equipas americanas removeram mais de 1300 metros cúbicos de solo contaminado que foi transportado e colocado num depósito de lixo nuclear em Savannah River na Carolina do Sul, EUA. No entanto, depois de um estudo realizado por técnicos espanhóis em 2004 estima-se que restam ainda cerca de 50 mil metros cúbicos de solo contaminado numa área interdita à população local. No mesmo ano os EUA concordaram em pagar a limpeza do restante terreno contaminado, cujo custo foi estimado em cerca de 31 milhões de euros, mas o compromisso de limpeza da área e os pagamentos acordados não têm sido cumpridos na íntegra pelos americanos. Recentemente, uma fuga da wikileaksrevelou a preocupação da Embaixada dos EUA em Madrid sobre o impacto negativo na opinião pública espanhola e nas relações bilaterais entre os dois países, se a Administração Obama não respeitasse os compromissos assumidos.

Apesar de os EUA terem enviado recentemente uma equipa de cientistas para avaliar o estado de contaminação dos solos, o governo espanhol endureceu a sua posição e enviou uma mensagem directamente a Obama para que se procedesse à remoção do plutónio o mais rapidamente possível. A passada semana, 45 anos depois do acidente, Espanha decretou a interdição de reabastecimento em voo sobre o território espanhol de aviões da Força Aérea Americana.

43 mulheres mortas por violência doméstica em 2010

A UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) divulgou que em 2010 foram mortas 43 mulheres em Portugal por violência doméstica. A esta violência juntam-se a das centenas de mulheres e de crianças que foram vítimas de maus tratos. O machismo autoritário, o marialvismo e a rigidez de costumes continuam demasiado ancorados no nosso modo de vida. E não vão desaparecer de um dia para o outro. Mas as mulheres que não aceitam este modo de vida são cada vez mais. Tal como refere a líder da UMAR "As mulheres estão a mudar. Elas dizem que não, que não querem uma relação violenta. E eles não aceitam essa decisão."

Os centros de ajuda que foram criados nos últimos anos são um apoio extraordinário, mas são claramente insuficientes dados os números desta tragédia. Enquanto acharmos normal a verborreia machista e tradicionalista, enquanto classificarmos o marialvismo de bonacheirão, enquanto não respeitarmos o sexo oposto na sua plenitude, isto não pára. Não é com centros de ajuda nem com prisões que se muda a mentalidade de trogloditas dispostos a matar mulher e filhos e de se suicidar em seguida.

Maior Colecção de Mapas Impressos de Portugal

A Reitoria da Universidade de Coimbra adquiriu a maior colecção de mapas impressos de Portugal, - o mais antigo é de 1561 - reunida pelo Professor Carlos Conde. A apresentação da colecção realizar-se-á numa sessão pública que vai decorrer na Biblioteca Joanina no próximo dia 9 de Fevereiro, pelas 17 horas. Mais informação aqui.
O Prof. Conde é uma referência incontornável do Departamento de Física e um verdadeiro pai científico para quem como eu teve o privilégio de se formar com ele. Durante o Estado Novo, quando departamentos das nossa universidades não publicavam um único trabalho científico, o Prof. Conde fez parte de um pequeno grupo que fundou um verdadeiro centro de investigação, que publica, que se tornou uma referência internacional e que ainda por cima trabalha nessa maçada que é a física experimental. Estamos todos gratos por isso e pelos mapas.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Sobre o ataque a reguladores e ao parlamento

O livro de "The Best Way to Rob a Bank Is to Own One" (University of Texas Press, 2005) de William K. Black é um verdadeiro manual sobre as artimanhas do sector financeiro para pôr fora-do-jogo eleitos e reguladores. No final dos anos 80, o contribuinte americano pagou um preço altíssimo pela desregulação do sector financeiro, graças à castração do poder dos reguladores e dos eleitos políticos. Sem escrutínio, o sector bancário usou e abusou de esquemas fraudulentos que produziram prejuízos pesadíssimos pagos posteriormente pelo contribuinte.

O caso BPN já nos custou 5 mil milhões de euros injectados na CGD (o maior investimento público de sempre). No entanto quase nada foi feito para reforçar a regulação do sector financeiro, como aumentar o número de efectivos das entidades reguladoras, de preferência bem pagos para estarem mais imunes a actos de corrupção. Ou ampliar os poderes de fiscalização do parlamento. Quando se ouve Jorge Lacão a pedir uma redução do número de deputados superior a 20% simultaneamente com a redução dos vencimentos das entidades reguladoras, parece que estamos a assistir à sequela do livro de William Black. Na sua obra, Black (um regulador) descreve com detalhe como este tipo de ideias era proposto por políticos americanos não eleitos, geralmente após uma noite regada de champanhe em veleiros cheios de acompanhantes de luxo pagas pelos bancos.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Nunca Acreditei na Ideia do Tigre Celta

"Nunca Acreditei na Ideia do Tigre Celta. Bebi demais, na Irlanda. Ouvi muita música, demais, na Irlanda. (...) Vestiram-nos de executivos na ponte aérea para Londres e nos intercontinentais para Bóston, acolheram regras continentais, tentaram higienizar os muros da Factory, os jardins de Dun'Laghoire, as ruas de Cork, Clifden, Galway ou Siglo. Para fabricar o Tigre Celta estragaram uma parte da minha Irlanda."
Francisco José Viegas, Revista Ler de Janeiro de 2011, pag.23

Diria mais caro Francisco. O homo sapiens sempre bebeu demais, sempre cantou e dançou demais. A espaços a civilização tentou domá-lo, ou higienizá-lo, a Santa Inquisição, o Comité Central e Wall Street, entre outras seitas religiosas. Mas o homo sapiens é muita macaco. É macaco. Não é tigre.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Krugman: Europa melhor que EUA face à crise

Este ensaio de Paul Krugman no New York Times sobre a crise na União Europeia é muito certeiro e está cheio de ideias interessantes. Apesar de longo vale bem a pena ler até ao fim.
Destaco a passagem da comparação com os EUA. Quem já viajou pelos EUA sabe do que Krugman está a falar. Dá-se de caras com uma miséria chocante de que já perdemos a memória na Europa. Muitos jovens sem tecto e velhinhos sem reforma a dormir em jardins ao fim de uma vida de trabalho em que alguns acumulavam dois empregos.

"Not long ago Europeans could, with considerable justification, say that the current economic crisis was actually demonstrating the advantages of their economic and social model. Like the United States, Europe suffered a severe slump in the wake of the global financial meltdown; but the human costs of that slump seemed far less in Europe than in America. In much of Europe, rules governing worker firing helped limit job loss, while strong social-welfare programs ensured that even the jobless retained their health care and received a basic income. Europe’s gross domestic product might have fallen as much as ours, but the Europeans weren’t suffering anything like the same amount of misery. And the truth is that they still aren’t.

(...) The Europeans have shown us that peace and unity can be brought to a region with a history of violence, and in the process they have created perhaps the most decent societies in human history, combining democracy and human rights with a level of individual economic security that America comes nowhere close to matching."

O cartoon da semana



Hosni Moubarak, Kadhafi e o rei Abdallah da Arábia Saudita (via Cartoons).

sexta-feira, janeiro 28, 2011

Cavaco deve demitir-se

A primeira decisão de Cavaco Silva como presidente da república reeleito deveria ser declarar a sua própria demissão. As novas revelações feitas sobre a sua casa de férias são demasiado graves para serem branqueadas pela sua recente eleição. Já não são apenas as ligações de amizade entre Cavaco e a maior quadrilha deste país, não são apenas os lucros de 140%, agora é aldrabice da pura e dura.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

2010 é ano mais quente de sempre

(publicado no portal Esquerda.net)

O ano de 2010, juntamente com 2005, registou uma temperatura média global (temperatura continental e oceânica) de 0,62ºC acima da média de temperaturas do século XX. Na tabela abaixo pode-se verificar que 2010 e 2005 são os anos mais quentes desde que se regista a temperatura global, desde 1880. A mesma tabela mostra que entre os 10 anos mais quentes registados, nove ocorreram durante os últimos dez anos: 2001 a 2007, 2009 e 2010. A anomalia representa em quanto a temperatura média do respectivo ano ultrapassou a média de temperaturas do século XX.

Apesar destes serem dados preliminares, sendo passíveis de pequenas correcções, é evidente que na década anterior se acentuou consideravelmente o aquecimento global e, perante os dados de 2010, essa tendência poderá manter-se na actual década. O facto de o Sol ter passado recentemente por um mínimo de actividade relativamente longo só reforça a gravidade do aumento de temperatura registado.

No seu relatório de 2010, os cientistas do NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) chamam a atenção para a influência na temperatura e na precipitação global do fenómeno climático La Niña, especialmente forte no final de 2010. Mas, numa tabela onde se registam os 10 fenómenos climáticos mais importantes do ano, a NOAA considerou a vaga de fogos na Rússia e as inundações no Paquistão como os acontecimentos mais significativos.

Se a clareza destes dados não forem suficientemente fortes para convencer os líderes europeus, americanos e chineses a mudar a lógica de desenvolvimento, ficaremos certamente entregues à arbitrariedade de acontecimentos climáticos catastróficos, até finalmente a classe política tomar medidas adequadas.


10 anos mais quentes desde que há registo
Anos mais quentes Anomalia (ºC)
2010 0,62
2005 0,62
1998 0,60
2003 0,58
2002 0,58
2009 0,56
2006 0,56
2007 0,55
2004 0,54
2001 0,52


domingo, janeiro 23, 2011

Continuar a questionar Cavaco Silva

A vitória de Cavaco Silva é inquestionável.
Já as práticas relativas aos lucros no BPN e à permuta de casas são muito questionáveis e continuarão a ser questionadas. São assim as regras da democracia.
A questão do BPN está na génese das ilegalidades financeiras que contribuíram fortemente para esta crise, que geraram desemprego e destruíram muitas vidas, não é propriamente uma questão que se oculte com a fumaça efémera do triunfalismo eleitoral. À falta de uma explicação plausível do Presidente reeleito fica cada vez mais claro que este cedeu ao lucro fácil sem medir as consequências do seu acto e que considera ideologicamente aceitável a organização actual do sistema financeiro.

sexta-feira, janeiro 21, 2011

A bater no muro

(publicado no O Figueirense de 14/01/2011)
O orçamento apresentado pelo executivo camarário é o orçamento de uma autarquia a bater no muro. Com cerca de 80 milhões de euros em dívida, as soluções que se apresentavam ao executivo oscilavam entre o mau e o muito mau. A principal solução deste orçamento consiste num empréstimo de 31 milhões de euros para pagamento de dívidas a terceiros. Na prática esta operação transfere a dívida para a banca e adia a sua liquidação para 2023, acrescida de 6,5% de juros. Serão sobretudo os figueirenses mais jovens quem vai sofrer as consequências desta decisão.

No momento em que vamos começar a pagar a sério a factura dos exageros do passado, os figueirenses devem estar conscientes que esses exageros se estendem até aos tempos em que a dispendiosa agenda política de Santana Lopes se cruzou com os destinos do município. O tempo das cigarras acabou. Sabíamos que estes iriam ser tempos difíceis para a Figueira, espero por isso que o actual presidente, por pressões internas ou externas, não se sinta na obrigação de apresentar uma obra simbólica do seu mandato, um mamarracho de betão ou uma paisagem subtropical artificial. De obras inúteis e efémeras a Figueira já teve a sua dose.

A equação é quase impossível. Sem margem para investimento, é necessário criar dinamismo económico e garantir a protecção social. Por isso, admitindo que a solução do empréstimo é a menos má e dado o avultado lucro que este representa para a banca, não teria sido possível negociar contrapartidas totalmente legítimas para os figueirenses? Não se poderia ter negociado o recurso ao crédito ou micro-crédito em condições mais favoráveis para investidores individuais, comércio, pequenas empresas, espaços culturais e educacionais do nosso concelho? A estagnação do investimento camarário poderia ser compensada desta forma, facilitando a criação de novos negócios e por conseguinte a criação de emprego. Em tempos difíceis, seria uma pequena grande ajuda para quem pretende abrir ou renovar um café, uma papelaria, uma banca num mercado, um infantário ou uma associação cultural e recreativa em qualquer freguesia do nosso concelho.
Infelizmente, a história repete-se e a banca mais uma vez fica a ganhar. Desta vez será à custa dos figueirenses mais jovens, quando a função da banca deveria ser a de ajudar a financiar o futuro dos jovens.

terça-feira, janeiro 18, 2011

Falta de Chá II

O Nobel Paul Krugman assina este excelente artigo sobre o discurso de ódio e de violência contra os representantes políticos eleitos na América.
Na minha recente estadia nos EUA tive oportunidade de constatar esse discurso violento, recordo um esbracejar ameaçador de um comentador da FOX, que achava que os políticos eleitos deveriam deixar outros (leia-se banqueiros, especuladores, líderes religiosos fanáticos, etc.) governar. Recordo também a profunda violência dos discursos (discursos muito políticos) de pastores das mais de 75% de rádios religiosas que inundavam o meu rádio no estado do Tennessee.

Foto sacada algures entre Knoxville e Chattanooga, Novembro 2010.

domingo, janeiro 16, 2011

Abdelwahab Meddeb sobre a Tunísia

Abdelwahab Meddeb é um intelectual tunisino refugiado em França que se tem batido contra a ditadura de Ben Ali, contra a xenofobia europeia e contra o islamismo. Gosto das suas intervenções, sempre fundamentadas, corajosas, muito na linha daquela coragem tranquila de Luther King. As suas últimas intervenções, algumas horas antes da fuga do presidente Ben Ali, nas entrevistas à Ouest-France aqui e à France Inter:



terça-feira, janeiro 11, 2011

Bom demais para ser verdade Sr. Presidente

Os lucros de 140% obtidos por Cavaco na venda de acções do BPN em apenas dois anos estão bem acima da média dos lucros dos investidores de Bernard Madoff. Para atrair novos investidores Madoff gabava-se em festas de ricos de ter obtido retornos de 18% para os seus melhores clientes. Se há alguma coisa que a leitura de "Too Good To Be True" de Erin Arvelund revela é que a fraude de Madoff foi possível e tomou a dimensão que tomou porque os clientes nunca questionaram os métodos empregados para obter tamanhos lucros. Quem tinha uma formação mínima em economia sabia que aquilo era bom demais para ser verdade e foi essa linha que definiu o que era credível do que era uma fantasia financeira, que distinguiu entre os economistas, investidores e analistas honestos, os que se recusaram a aprovar o negócio de Madoff, e todos os desonestos que foram cúmplices da fraude.

Cavaco é um economista. Sabe muito bem que um lucro de 140% em dois anos (ou mesmo em quatro) requer uma justificação muito forte para ser credível. Aliás foi o próprio Cavaco que em 1987 utilizou a expressão "gato por lebre" para classificar lucros estratosféricos da bolsa de Lisboa que resultaram no maior crash da bolsa nacional até então. A única fuga possível de Cavaco na entrevista de ontem foi dizer que não sabia quanto tinha ganho. O que contradiz as palavras que profere logo a seguir quando se classifica de "muito rigoroso" e de "mísero professor". Se é tão rigoroso não sabe que ganhou 140% num investimento? Não sabe quanto investe? Que rigor é esse? Um "mísero professor" (de economia) não se interessa por um investimento que dá 140%? Então para que investe? Um mísero qualquer interessa-se por um investimento que dá 140% nem que sejam 10€, o mísero ganha 24€, não despreza ganhos desta ordem.

Se há alguma coisa verdadeiramente honesta a concluir é que Cavaco não foi honesto. Não violou nenhuma lei, mas não foi honesto com a economia e nem sequer foi honesto com a sua própria ideologia política. A sua linha política, uma democracia-cristã conservadora, também desaprova este tipo de práticas. Cavaco foi cúmplice de uma onda de xico-espertismo que teve consequências nefastas na nossa economia, que produziu desemprego e prejuízos de milhares de milhões de euros. Os portugueses devem por isso sancioná-lo nas urnas.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

A pulseira do desequilíbrio

À atenção dos fãs de astrologia, niilistas do aquecimento global e do darwinismo

A empresa Power Balance reconheceu (ou foi forçada a reconhecer) anunciar benefícios para a saúde atribuídos à utilização chamada pulseira do equilíbrio que não estão provados cientificamente. A empresa informa que quem quiser devolver a pulseira do equilíbrio será reembolsado. No entanto, os masoquistas não foram esquecidos, a pulseira continua à venda no sítio da Power Balance ao módico preço de 46€ (60 dólares australianos).

domingo, janeiro 09, 2011

Centrais nucleares de terceira geração mais caras que previsto

(publicado no portal esquerda.net)

A TVO, a fornecedora nacional de electricidade da Finlândia, comunicou recentemente que a construção do seu novo reactor nuclear sofreu um novo atraso superior a um ano. Este reactor designado de terceira geração, trata-se do EPR (European Pressurised Reactor/Evolutionary Power Reactor) da empresa francesa Areva em construção em Olkiluoto, no sudoeste da Finlândia. A construção do EPR foi iniciada em 2005 com o compromisso de estar terminado em 2009. Desde então, sucessivos atrasos elevaram a factura inicial de 3 mil milhões de euros (um preço chave na mão estabelecido entre a TVO e a Areva) para 5,7 mil milhões de euros. Depois da derrapagem de custos, a TVO entrou em conflito com a Areva e pede o reembolso da diferença de 2,7 mil milhões de euros.

Existem apenas quatro reactores deste tipo correntemente em construção: dois na China, um na Finlândia e outro em França. A construção dos dois reactores chineses iniciou-se há poucos meses, pelo que não há informação sobre eventuais derrapagens de custos. A construção do reactor francês, tal como o finlandês, tem sofrido atrasos e aumentos de custo bem superiores ao inicialmente estimado.

O EPR deverá ser o mais potente reactor nuclear do mundo, com uma potência de cerca de 1650 MW, mas é também o reactor mais caro concebido até hoje. Este tipo de reactores tem sido publicitado como o mais seguro do mundo, capaz de resistir ao embate de um avião de linha. No entanto, o EPR nunca foi testado, a unidade finlandesa será a primeira a entrar em funcionamento. O combustível utilizado nestes reactores é designado por MOX (Mélange d’OXides), uma liga constituída por óxidos de urânio e de plutónio. A utilização do MOX apresenta a vantagem de reciclar o plutónio proveniente de armamento nuclear e de aumentar a concentração de material físsil do combustível utilizado nos reactores. No entanto, é um combustível mais caro que o combustível utilizado nas centrais nucleares de anteriores gerações e para o qual ainda não foi encontrada uma solução de tratamento e armazenamento depois de utilizado.

Foi este tipo de reactores que foi proposto há cerca de cinco anos como uma solução energética mais barata para Portugal pelo grupo de pressão liderado por Patrick Monteiro de Barros.

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Aprender espanhol, desaprender línguas

O espaço reservado às línguas estrangeiras do boletim de inscrição para agente da PVDE (mais tarde PIDE) foi preenchido por Rosa Casaco da seguinte forma: português, espanhol e brasileiro. "Eu era muito desenrascado" foi a forma como justificou o acto posteriormente.

Concordo com a Inês Pedrosa (Revista Ler, Novembro, pag. 85), acho uma aberração aprender espanhol no secundário. Obviamente, excluindo quem segue uma via literária ou um curso superior de espanhol. A forma avassaladora como o francês e o alemão têm vindo a ser substituídos como segunda língua pelo espanhol está a destruir o que de positivo foi conseguido com a introdução do inglês nos primeiros anos do curriculum escolar. Depois de gerações que praticamente não falavam uma única língua estrangeira, produzimos e muito bem desde o 25 de Abril gerações que dominam razoavelmente bem uma língua (mais inglês, francês eram menos) e que se desenrascam, pelos menos na leitura, numa segunda língua (francês e alemão). Depois das minhas experiências no estrangeiro garanto-vos que em matéria línguas estamos acima da média europeia. Actualmente, ao lançarmos uma nova geração que aprende espanhol no secundário, invertemos o rumo para os tempos de Rosa Casaco. Entre três anos a aprender espanhol, "brasileiro" ou lisboês a diferença não é muita.

O espanhol é uma língua interessante e rica, mas francamente, é uma língua que sai nos pacotes de nestum. Na minha área é até negativo enviar um CV onde o espanhol figure entre as línguas estrangeiras (excepto no caso de ex-residentes em países de língua espanhola e no caso estudos superiores em espanhol). Qualquer troca-tintas aprende espanhol se for preciso. É por isso lamentável que em plena era de globalização onde outras línguas ganham uma enorme importância em vez de no secundário acrescentarmos ao francês e ao alemão outras línguas como o chinês ou o russo, se atrofie o ensino ao espanhol.

PS- Acho lamentável num país latino o ensino do latim não ser obrigatório no secundário. Pelo menos dois anos.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Sovaqueira de astronauta

Este artigo Steve Mirsky sobre as actividades menos nobres dos astronautas a bordo de naves espaciais, revela-nos um ambiente fétido que tresanda a suor, onde as necessidades fisiológicas requerem algum nível de perícia e um estômago de ferro. Enfim uma última prova para super-homens (e super-mulheres) seleccionados depois de dezenas de rigorosos testes físicos e psicológicos.

James Lovell, um dos heróis da Apollo 13, ao sair da sua cápsula recuperada em pleno oceano foi questionado sobre o que sentiu durante a atribulada missão lunar, tendo respondido diplomaticamente que foram sensações bem diferentes da fresca brisa do mar que percorria o ar. Mais tarde referiu que sentiu como se tivesse vivido uma semana dentro de uma casa de banho.

terça-feira, janeiro 04, 2011

Eclipse entre nuvens



Hoje ainda vi menos do eclipse do que isto. Noutros tempos poderia dar direito a cortar o pescoço ao astrónomo (e/ou astrólogo) de serviço.

sábado, janeiro 01, 2011

10 olhares sobre a Europa

A Presseurop desafiou 10 intelectuais europeus a escrever sobre a Europa. A crónica do Gonçalo M. Tavares é deliciosa, no seu habitual estilo irónico. Obviamente que a interessante ideia de confusão do signo com a coisa deve-se mais a um seguidismo da Europa ao outro lado do Atlântico, mas não deixa de ser uma interpretação certeira de uma das facetas da crise. O exemplo do sector imobiliário - o terreno ou o apartamento cujo valor multiplica 10 ou por 20 depois de mudar várias vezes de mãos - seria melhor ilustração da ideia do Gonçalo Tavares.

Destaco:
"A já velha separação entre o signo e a coisa. A célebre frase “a palavra CÃO não morde”: se pusermos os dedos no C no A ou no O não corremos qualquer risco, os nossos dedos ficarão intactos, o C e o A não mordem – velha lição de linguística. E foi esta separação que inaugurou a modernidade. Os primitivos não acreditavam nisso, não acreditavam em dois mundos separados. Para os primitivos o signo era já uma coisa. O desenho de veado não era o desenho de um veado, era o veado. Não havia diferença.

De certa maneira, a Europa – desde há décadas – que acentuou o seu lado primitivo. Voltou a acreditar na magia. Quase toda a economia está hoje instalada no mundo abstrato, no mundo das letras e dos números – e não no mundo das matérias com volume. Porque a velha economia era isto: duas vacas que se trocavam por mil galinhas; fábricas e máquinas, árvores que se vendiam ou compravam. Pouco a pouco, no entanto, os elementos vivos e os metros quadrados foram desaparecendo de cena. Ficaram papéis com signos e números e a Europa transformou-se assim num Novo Continente Primitivo, em que as pessoas assumem comportamentos idênticos aos das tribos da Amazónia que confundiam signos com o real e acreditavam que a letra A ou um desenho os podia esmagar ou amaldiçoar
"

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Bom solstício de Inverno

Em quase todas as culturas do mundo se festeja o solstício de Inverno, o dia a partir do qual os dias voltam a ficar mais longos e as noites mais curtas. É um hábito que nos ficou do tempo em que andávamos agrupados em tribos e temíamos muito a noite. Entre nós o solstício de Inverno festeja-se de 24 para 25 de Dezembro na forma da celebração do Menino de Jesus, que seja... O que importa é reunir a tribo e brindar aos dias mais longos.

O solstício deste ano ocorreu simultaneamente com um eclipse da Lua, foi um momento mágico que não ocorria desde 1638. O próximo eclipse em dia de solstício de Inverno ocorrerá apenas em 2094.

terça-feira, dezembro 21, 2010

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Mil milhões em submarinos, zero em transparência

Em tempo de crise vamos desembolsar um luxo: mil milhões de euros em submarinos. O mínimo que se exige é que todas as transacções envolvidas sejam transparentes. Não só não são, como não há muita vontade de investigar por parte deste governo, apesar dos fortes indícios de fraude. Paulo Portas pode descansar e continuar a culpar os ciganos e os desempregados pela crise.
As denúncias da eurodeputada Ana Gomes são um oásis de decência no meio da carneirada que se apoderou do Partido Socialista.

terça-feira, dezembro 14, 2010

Uma cimeira fria em ano quente

(publicado no Esquerda.net)

Os dados de Novembro do National Climatic Data Center – a entidade que realiza o cálculo mais abrangente e mais fiável da temperatura média do planeta recorrendo a dados registados nos continentes, nos oceanos e a partir do espaço – são expressivos. 2010 será certamente um dos anos mais quentes registados desde 1880, desde que começaram a ser registadas as temperaturas globais. Até ao final de Outubro de 2010, a média da temperatura global do planeta (continentes e oceanos) era similar à média registada entre Janeiro e Outubro de 1998, o ano mais quente de sempre. O Alasca, o Canadá, o Nordeste Africano, o Médio Oriente, o Cazaquistão e grande parte da Rússia, foram as regiões que contribuíram com temperaturas anormalmente mais quentes para a média global. Curiosamente a Europa foi este ano uma das regiões mais frias em relação à sua média de temperaturas.

É importante realçar que este nível de temperatura é registado durante um mínimo prolongado do Sol. O Sol obedece a um ciclo de actividade de 11 anos, ciclo esse que atingiu o seu mínimo há cerca de três anos e tem demorado mais do que o normal a descolar do mínimo de actividade. Em geral, os anos de mínimos solares são sucedidos de temperaturas mais baixas na Terra, algo que não ocorreu durante os últimos 3 anos.

Ao contrário da Terra, a cimeira de Cancún decorreu num clima de alguma frieza e pacatez. A crise parece ter adiado para as cimeiras de 2011 na África do Sul e de 2012 no Brasil as decisões mais importantes, em particular a decisão de dar continuidade ao Protocolo de Quioto para lá de 2012. Apesar de tudo houve importantes decisões tomadas, sobretudo para os países em desenvolvimento, tendo-se chegado a um consenso para criar um mecanismo de compensação financeira para combater a desflorestação. Também está prevista a criação de um “fundo verde” para os países em desenvolvimento que envolve a transferência de novas tecnologias limpas.

Como nos mostram os dados de 2010, o clima é insensível aos humores humanos e um ano sem decisões terá certamente custos no futuro que se estenderão a períodos talvez da ordem da década ou mais.

sexta-feira, dezembro 10, 2010

... Depois a Islândia virou à esquerda

Depois da sucessão de acontecimentos relatados em "Meltdown Iceland" houve eleições na Islândia que foram ganhas por uma coligação de esquerda: sociais-democratas (centro-esquerda) e aliança verde-vermelha (uma espécie de Bloco de Esquerda lá do sítio). O Rui Tavares conta o que se passou a seguir.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

Como se afundou a Islândia

Como se de um romance se tratasse, em "Meltdown Iceland", Roger Boyes (Bloomsbury, 2009) conta-nos a história da ascensão meteórica e queda da Islândia. Essa história está intimamente ligada à do primeiro-ministro que mais tempo esteve em funções (de 1991 a 2004): David Oddsson. Em 1984, aquando de um debate televisivo com a participação de Milton Friedman, Oddsson teve uma revelação divina: a modernidade passava pelas políticas de Reagan e Thatcher.

Nos anos 80, a Islândia era uma sociedade socialista que investia fortemente na saúde e na educação, a taxa de mortalidade infantil era das mais baixas do mundo, bem como o número de habitantes por médico, o nível educacional era dos mais elevados do planeta e o mercado de trabalho andava próximo do pleno emprego. Estavam criadas as condições para que uma nova geração mais ambiciosa desse início a uma festa rija ao som do trio: Friedman, Thatcher e Reagan. Assim que chega ao poder, Oddsson privatiza tudo o que pode. Quem tinha dinheiro e estava no sítio certo na hora certa, independentemente de ser incompetente ou charlatão, partia com um avanço esmagador e dominador num horizonte de décadas. Estávamos em 1991. Formam-se logo nessa altura as primeiras máfias económicas e os primeiros monopólios perversos, graças à ausência de critérios para as privatizações. Uma política de estado mínimo avessa a intervir no sector privado e a desregulação radical dos mercados transformou a Islândia da noite para o dia. Em pouco tempo, o objectivo principal de pescadores e agricultores era apostar nos mercados sobre o sucesso ou falhanço da sua própria produção. Os objectivos das actividades em si passaram para um plano secundário. A banca expandiu-se para lá da ilha, contraindo dívida atrás de dívida, compravam-se lojas de luxo em Londres, cadeias de supermercados na Dinamarca e instituições financeiras na Holanda. Os jovens licenciados em gestão tinham emprego imediato na banca, onde começavam a receber avultados bónus ao fim de pouco mais de um mês de trabalho.

A Islândia era uma ilha resplandecente banhada por um mar de rosas. A Islândia maravilhava Harvard, o país crescia cerca de 7% ao ano, a Moody's mantinha a notação do país sempre lá em cima, os banqueiros liam a Arte da Guerra de Sun Tzu tomando-se por guerreiros vikings dos tempos modernos e mais importante que tudo os reguladores dormiam com os banqueiros - Oddsson foi governador do Banco da Islândia a partir de 2004.

Os três principais bancos islandeses endividaram-se cerca de 8 vezes o PIB da Islândia, muito para lá da capacidade de resposta do Banco da Islândia. Quando os credores britânicos pediram o seu dinheiro de volta, orgulhosa e arrogantemente o governo islandês do partido de Oddsson respondeu que só garantia os depósitos dos islandeses. Ironicamente, o governo britânico accionou de imediato uma lei anti-terrorismo aprovada a pensar nos movimentos financeiros da Al-Qaeda, para congelar todos os bens da banca islandesa no Reino Unido. Abriu-se o alçapão e a Islândia mergulhou no vazio. A política anti-União Europeia, a aposta numa moeda nacional sem dimensão para jogar no mercado global (vários artigos especializados alertaram a Islândia para esse risco) deixou a Islândia isolada no meio do Atlântico, Reagan, Thatcher ou Friedman já tinham saído de cena, sem aliados, sem estruturas económicas a quem pedir auxílio, a Islândia bateu no fundo. Nas últimas páginas, Roger Boyes descreve um país em vésperas das eleições de 2009, em estado de choque, com uma dívida per capita de 400 milhões de dólares, ou seja cada família comportava uma dívida média de 1,6 mil milhões de dólares. Boyes descreve um zombie económico a viver de esmolas da Rússia, à mercê da caridade de banqueiros russos manhosos.


Lê-se no cartaz: David (Oddsson) Bin Laden.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Forcados Amadores do Aeroporto da Portela

As peças que se soltaram do avião da TAAG (linhas aéreas angolanas) e que caíram sobre Almada causaram dois feridos ligeiros e estragos em dez viaturas. Há 30 anos o avião onde voava Sá Carneiro despenhou-se sobre um bairro habitacional. A sorte dos habitantes é que o avião era um Cessna e não um Boeing. Já aqui escrevi sobre a perigosidade do aeroporto da Portela, entre muitos outros problemas como o caos funcional que reina no aeroporto, a péssima imagem que transmite aos estrangeiros, a poluição atmosférica (Lisboa é borrifada diariamente por dezenas de toneladas de querosene queimado) e sonora, o péssimo serviço de transportes de acesso, etc. Curiosamente até referi que existia o risco de um dia se soltarem peças em zonas de grande densidade populacional.
No entanto, este incidente do avião da TAAG não fez ninguém reflectir sobre a necessidade de fechar a Portela. Estamos à espera que aconteça um acidente espectacular com muito fogo e sangue para depois fazermos um novo aeroporto à pressa, mal amanhado e muito mais caro do que o projecto actual do novo aeroporto, enfim o habitual.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Os peões do Império

Desde o escândalo do programa de espionagem ECHELON sabíamos que na diplomacia (Luís Amado é um entre muitos), na economia, na opinião política, na contra-informação científica e em muitas outras áreas os EUA pagavam, promoviam e... acariciavam vários tipos de figurinhas na Europa. Os tais que praticavam os chamados broches a Bush. Hoje, já conhecemos alguns nomes, mas há mais. Luís Amado nunca me enganou, cheguei mesmo a comentar o seu alheamento sobre o projecto europeu, posição que estava nos antípodas do vigor e da falta de vergonha com que defendeu as ilegalidades da Administração Bush. Apenas está a ser tornado público a artilharia pesada, como a questão de Guantanamo, caso contrário poderíamos ter acesso a uma lista mais vasta de amigos acariciados por serviços bem mais baratuchos, alguns desses amigos estão à distância de um clique, na barra de ligações do seu blogue.

Queria deixar bem claro que não simpatizo com os métodos da wikileaks, mas quem com ferros mata...

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Inércia e progressos na ciência europeia

(publicado no portal Esquerda.net)
Foi divulgado o relatório de 2010 da UNESCO dedicado à Ciência. O relatório analisa o estado e a evolução da investigação científica em todo mundo. As conclusões relativas à Europa são em parte animadoras e parcialmente frustrantes. O relatório revela que a União Europeia é hoje claramente o espaço geopolítico que lidera na produção de publicações científicas com 36,5% das publicações científicas mundiais, à frente dos EUA com 27,7%, do Japão com 7,6% e da China 10,6%. O relatório refere outro aspecto positivo importante que consiste na criação de instituições de investigação supra-nacionais, entre as quais se destaca o CERN, na totalidade de 180 organizações cobrindo praticamente todas as áreas do saber. Apesar destes aspectos serem positivos, não são suficientes para nos darmos por satisfeitos com a política científica europeia.

De facto, o relatório indica que muito ficou por fazer no que respeita ao investimento em investigação e em desenvolvimento e ao impacto da ciência na sociedade, através da inovação e da criação de novas tecnologias. Quando consideramos os objectivos constantes na estratégia de Lisboa e de Barcelona da UE (União Europeia), em particular o objectivo de dedicar 3% do PIB à investigação até 2010, verifica-se que maior parte dos países membros estão longe desse patamar e por conseguinte também média europeia não atinge a fasquia dos 3%. A distracção e a poluição que o debate político europeu sofreu quando se atribui total prioridade ao combate ao terrorismo, bem como as imensas dificuldades que resultaram da presente crise internacional explicam em grande medida o esquecimento dos principais objectivos no campo da ciência que tinham sido acordados pelos estados europeus.

Sendo o número de patentes registadas um parâmetro que ilustra razoavelmente o impacto da inovação e das novas tecnologias na sociedade, verifica-se que este é outro domínio que ficou relativamente esquecido na UE. A UE continua a patentear menos do que os EUA e apenas em 2007 ultrapassou o Japão, com a agravante de ambos os países serem menos populosos do que a totalidade da UE – dados fornecidos pelo European Patent Office, pelo Japanese Patent Office e pelo United States Patents and Trademark Office.

Serviço público

Duarte de Bragança pediu nacionalidade timorense*.

* Infelizmente mantém a nacionalidade portuguesa...

terça-feira, novembro 30, 2010

Finalmente outra economia

O Prós e Contras de ontem finalmente trouxe ao debate sobre a crise visões da economia variadas, bem longe dos habituais debates entre os amigos da banca e os amigos dos amigos da banca, em que a única diferença de opiniões é entre um que quer o FMI em Portugal ontem, o outro daqui a 10 minutos e o outro amanhã de manhã (foto via Arrastão). Pôs-se em causa, e bem, a credibilidade das agências de notação. Ouviram-se ideias interessantes. Retenho a melhor, a discriminação positiva de actividades económicas que produzam activos transaccionáveis e postos de trabalho proposta por João Ferreira do Amaral. Ouviu-se finalmente falar em detalhe sobre o verdadeiro cerne da crise: a nossa colossal dívida privada. Tendo sido bem identificado o excessivo endividamento das famílias para comprar casa. E aqui recordo que temos mais de um milhão de casas vazias, um milhão de casas construidas graças a empréstimos bancários a empresas imobiliárias e de construção. Isto representa demasiado dinheiro empatado em dívida para um país tão pequeno. Talvez se começássemos a tomar algumas medidas radicais neste sector se aliviasse a dívida mais rapidamente.

Mas também se ouviu um ex-ministro das finanças que profere sentenças sobre o país como um taxista e tal como para todos os taxistas os culpados dos desastres são sempre os outros, eles são os maiores a conduzir. Por isso quando um ex-responsável político cujo o desempenho como ministro das finanças foi catastrófico mas que acusa tudo e todos de incompetência e cuja reforma de ministro é bem compostinha, que só fala de política e de ideologia mas diz que não é político, que não quer falar dos outros países por que a crise é só nossa (é uma espécie de teoria do oásis ao contrário) mas que elogia a política laboral da República Checa (liberal à irlandesa) e a rapidez dos decisores políticos da Roménia (leia-se da máfia romena, a maior instituição do país) quando um xico-esperto destes é desancado pelo Daniel Oliveira em público e olhos-nos-olhos, todo o país que não alinha em retóricas populistas e discursos sedutores para a mediocridade televisiva patrocinada pela banca, esse país gosta e não gosta pouco, gosta muito. Obrigado Daniel!

quarta-feira, novembro 24, 2010

TV da Universidade de Coimbra

Saúda-se a abertura da UCV, a nova televisão da UC (Universidade de Coimbra). Tendo em conta que estamos na melhor universidade do país, só peca por tardia. Espero que traga dinamismo, criatividade e inconformismo, que ajude a limpar algumas velhas teias de aranha da instituição. Para já aquela panóplia de écrans por detrás dos apresentadores, uma espécie de mimetismo à portuguesa da CNN não é grande prenúncio.

sexta-feira, novembro 19, 2010

4 razões para sair da NATO

(publicado no Esquerda Republicana)
1- Por uma questão de princípio. A NATO é provavelmente a organização internacional menos democrática a que Portugal pertence. Todos sabemos que são os EUA quem manda na NATO (sublinho o verbo mandar) e os restantes países são simples figurantes, úteis para legitimar as decisões tomadas em Washington. Em geral, o quadro agrava-se durante os mandatos do Partido Republicano. Eu nem quero pensar o que terá que aceitar um membro da NATO europeu se alguma vez os EUA tiverem um presidente do Tea Party. Nesse caso fazer parte da NATO será sinónimo de dormir com o inimigo.

2- Os EUA nunca cumpriram inteiramente com as suas obrigações nas Lages e violaram frequentemente a legislação nacional, usando a base para transporte ilegal de prisioneiros e trânsito ilegal de armas nucleares. Dada a posição estratégica das Lages, o Estado Português poderia usar o espaço da base para outros fins, transformando as Lages numa base de socorro internacional com patrocínio da ONU, equipada com navios rápidos, helicópteros e aviões de socorro, busca e transporte de mantimentos. Só nos últimos anos uma base desse tipo teria sido muito útil para agir com rapidez no Haiti, em Nova Orleães (os primeiros a chegar foram guardas canadianos...), na busca do avião da Air France caído ao largo do Brasil, etc.

3- Existem ameaças maiores à nossa segurança do que as ameaças militares. O aquecimento global, a penúria energética, a penúria de água potável e o terrorismo financeiro são ameaças bem maiores à nossa soberania. Neste particular os EUA, os patrões da NATO, têm sido mais inimigos da Europa e do Mundo do que propriamente aliados. Não rima tirarmos fotografias conjuntas e sorridentes como aliados na NATO e depois o resto do ano andarmos a dar tiros nos pés uns aos outros através de guerras monetárias, terrorismo financeiro, dumping ambiental e laboral que se traduz em desemprego e baixa na qualidade de vida para os cidadãos. Isto não é sério. No concreto não somos aliados.

4- Acho fundamental que Portugal conjugue a sua estratégia militar com países que partilhem a mesma concepção de liberdade, diplomacia internacional e democracia. Acho desejável a participação num eventual exército europeu da UE e/ou outros países que rejeitem a tortura, a imposição da democracia pelas armas, o cinismo travestido de diplomacia (a realpolitik) e a utilização dos recursos naturais sem sustentabilidade. E não me digam que só os EUA é que nos podem defender. A França tem um poder nuclear e militar suficientemente dissuasor para lidar com qualquer potência do mundo (são publicações militares especializadas que o afirmam).

quinta-feira, novembro 18, 2010

Lembram-se dos testes de resistência à banca?

Extracto da entrevista de Daniel Gros do Centro de Estudos Políticos europeus à Euronews sobre a Irlanda (ou será o Tigre Celta?):

Euronews: Vimos a União Europeia lançar os testes de resistência aos bancos. Esses testes não funcionaram na realidade?
Daniel Gros: Os testes de resistência foram vendidos como testes de resistência europeus, mas na realidade trata-se de uma recolha dos testes nacionais, coordenados de forma bastante frouxa pelos organismos europeus. Ninguém das instituições europeias pôde ver os livros de contas dos bancos, os pormenores, é lá que estão as perdas e eles não puderam encontrá-las. É algo que deveria ser mudado mas há pouca vontade para o fazer.

Euronews: Alguém fez batota?
Daniel Gros: É bastante claro que algo de estranho se passou na Irlanda. O estado de saúde dos bancos irlandeses era bom em Julho e, em Setembro, de repente, o governo irlandês vê-se a braços com um défice de 32% do PIB. Isso não deveria ter ocorrido num país normal.

quarta-feira, novembro 17, 2010

Há ali mão de Mourinho

A minha teoria da constipação: Mourinho articulou aquilo com o Paulo Bento à revelia da direcção do Real Madrid. Nunca vi a Portugal a jogar tão bem tacticamente. Assim, o trabalho fica fácil, fácil para ases como Nani e Ronaldo. Foi o que faltou à Geração de Ouro.

terça-feira, novembro 16, 2010

Prémio Goncourt para Houellebecq

Michel Houellebecq é um escritor especialmente apreciado nesta casa, por isso o Prémio Goncourt de 2010 é aqui aplaudido sonoramente: Bravo! Bravo!
Em Michel Houellebecq gosto da sua escrita sobre uma temática em que os escritores portugueses são péssimos: a sexualidade. Houellebecq escreve bem sobre mulheres, amantes, taras, situações embaraçosas, no limite do aceitável, sem ser javardo nem marialvista.
Gosto também daquelas personagens principais que não se levam a sério. Gosto da sua melancolia. E acho piada ao seu positivismo atabalhoado, um positivismo à moda antiga. Gosto dos seus ensaios pelos carreiros da ficção científica, bem melhores do que a aborrecida ficção científica que se pratica nos dias que correm.

segunda-feira, novembro 15, 2010

Sobre o futuro dos resíduos nucleares

(publicado no Esquerda.net)
Os recentes protestos contra o transporte de onze vagões de resíduos nucleares entre a unidade de tratamento de La Hague, em França e Gorleben na Alemanha, contribuiriam para reabrir o debate sobre o futuro dos resíduos radioactivos produzidos por centrais nucleares. Actualmente, os resíduos nucleares mais perigosos acumulam-se em piscinas de arrefecimento e hangares ventilados. Espera-se poder vitrificar os produtos de fissão não recicláveis em blocos que serão acondicionados em contentores de aço selados a serem posteriormente armazenados em galerias escavadas em extractos subterrâneos de granito, argila ou sal situados a mais de 500 metros de profundidade. Este tipo de resíduos mantém uma actividade acima do nível da radioactividade natural durante mais de 600 mil anos.

O governo alemão tencionava construir um depósito com custos da ordem de milhares de milhões de euros para os seus resíduos mais perigosos numa mina de sal em Gorleben, onde ocorreram alguns dos recentes protestos. No entanto, a 15 de Janeiro deste ano foram evacuados 126 mil barris de resíduos nucleares de perigosidade mediana, que tinham sido colocados em 1967 numa mina de sal de Asse, depois de terem sido detectadas numerosas fugas de água contaminada. Klaus-Jürgen Roehlig, perito em gestão de resíduos da Universidade de Clausthal, declarou que este incidente “coloca em causa a escolha de minas de sal para armazenar os resíduos nucleares mais perigosos”.

Recentemente, os EUA decidiram suspender o armazenamento de resíduos nucleares no fundo da única mina que estava prevista para o efeito, na Montanha Yucca no Nevada, depois de terem sido gastos mais de 10 mil milhões de dólares no projecto. Por ordem do presidente Obama foi criada uma comissão de peritos para encontrar nova solução para os resíduos nucleares. Estão em cima da mesa soluções de depósito em furos de grande profundidade no fundo dos oceanos, no interior dos glaciares do Pólo Sul e soluções mais exóticas como a ejecção dos resíduos para o espaço.

Entre os países com programas nucleares civis, apenas a França, a Suécia e Finlândia possuem programas em marcha para guardar os resíduos em galerias subterrâneas de grande profundidade.

Custos infindáveis
Outra vertente dos protestos dos manifestantes franco-alemães que convém realçar é a questão dos custos infindáveis da energia nuclear. Desde que foram lançados os primeiros programas nucleares civis nos anos 50 – muitos destes programas resultaram de programas militares extremamente caros – nunca foram guardados definitivamente em algum lugar da Terra os resíduos nucleares mais perigosos, nocivos durante mais de 600 mil anos. Desde então, as parcelas para a factura real dos custos da energia nuclear não têm parado de aumentar e continuarão a aumentar durante mais 600 mil anos, se não se encontrar entretanto uma nova técnica para encurtar o período de perigosidade dos produtos de fissão. Até esse dia, não podemos estimar com precisão e honestidade quais os verdadeiros custos de 1 kWh produzido por uma central nuclear.

sexta-feira, novembro 12, 2010

Terrorismo financeiro nacional

"Já o tenho dito, repito: os bancos portugueses que exigem cortes de salários e de abonos de família, e que aplaudem o acordo entre o PS e PSD para o orçamento, fazem parte dos corsários que estão a comprar a dívida pública nacional com juros de mais de 7%. Ontem, compraram mais de 350 milhões em títulos. Isto é, como juro de 7%, por cada milhão que o BPI, BES, BCP ou outros investem em títulos da dívida portuguesa, exigem o pagamento de 2 milhões dentro de dez anos. Ficamos a pagar impostos para garantir esta renda. Compreende-se porque querem o aumento dos impostos. "Fizemos tudo bem", dizia Ricardo Salgado, do BES, a propósito do acordo orçamental que patrocinou. Tudo bem feito. Pagamos o dobro do que nos emprestam. A especulação não é só criada pelos fundos de capitais alemães ou chineses. A especulação mora num balcão de um banco perto de si."
Francisco Louçã, 11/11/2010.

quarta-feira, novembro 10, 2010

Descoberta nova estrutura na Via Láctea

Os cientistas que alterem os atlas do Universo e os poetas que modifiquem as estrofes, a Via Láctea mudou!
O satélite Fermi da NASA acabou de revelar uma desconhecida estrutura na nossa galáxia, até agora invisível aos antigos instrumentos de observação. De 25 mil anos-luz para "cima" a 25 anos-luz para "baixo" estendem-se duas gigantescas bolhas de raios gama e de raios-X (aqui imagem ampliada).

sexta-feira, novembro 05, 2010

Islândia e Singapura no ranking de transparência

No ranking de percepção da corrupção da Transparency International divulgado recentemente, países como Singapura, Irlanda, Barbados, Qatar e Islândia aparecem muito bem classificados, até ao vigésimo lugar.
Ando a ler "Meltdown Iceland" de Roger Boyes que descreve a sucessão de acontecimentos que levaram ao descalabro financeiro da Islândia. A Islândia em 2008 era de longe um dos países da Europa cujo sistema financeiro era menos transparente, onde clãs e máfias familiares controlavam os principais fluxos de dinheiro do país. Ao contrário de outros países a componente ideológica, o Thatcherismo doentio do ex-primeiro ministro David Oddsson, foi decisiva para se atingir a bancarrota. Dois anos depois a Islândia mudou de governo mas as elites, embora falidas, são basicamente as mesmas. Não imagino como é que um país que era tão corrupto e opaco em Outubro de 2008 possa estar de volta ao topo da transparência, acho mesmo obsceno.
Sobre Singapura só a cegueira ideológica pode explicar esta classificação. Um país não democrático controlado por uma máfia familiar é tão transparente como um Airbus 380 pintado de rosa-choque. Também só a paixão ideológica pode explicar as posições da Irlanda e do Qatar, que passam cada um pela sua versão da crise islandesa, e a dos Barbados, onde repousa e circula dinheiro de alguns dos maiores criminosos do mundo.
Enquanto os reguladores continuarem fascinados com os regulados não vamos a lado nenhum.

quarta-feira, novembro 03, 2010

Figueira da Foz no jogo Napoleão



Em ano de comemoração dos 200 anos da terceira campanha napoleónica em Portugal (a Batalha do Buçaco, entre outras), foi lançada uma extensão dedicada às campanhas peninsulares para o jogo de computador Napoleon Total War. Sou um apreciador de jogos de estratégia e devo dizer que fiquei surpreendido com o rigor histórico deste jogo (ler revisão). Mais rigoroso do que a história de Portugal da carochinha que me foi vendida na escola há 30 anos atrás pelos resquícios do programa escolar salazarista.

No jogo estão representados os principais pontos estratégicos das campanhas napoleónicas, entre os quais as Linhas de Torres, o porto da Figueira da Foz (onde desembarcaram as tropas do Duque de Wellington). Poderão ser comandadas as tropas inglesas, portuguesas, espanholas e francesas. As cidades e os portos podem ser capturados, melhorados e optimizados para as campanhas. Para os apreciadores de jogos de estratégia este é um jogo a não perder.

segunda-feira, novembro 01, 2010

Orçamento de base zero

O Orçamento de Base Zero, é uma excelente iniciativa do BE para combater o desperdício onde ele existe de facto e não à base de cortes cegos que afectam os serviços do estado mais eficientes e mais úteis. No meio da cacofonia sobre os desperdícios do estado, Louçã foi objectivo e cirúrgico na proposta. Mas não chega, enquanto vivermos numa sociedade baseada na dívida generalizada (casa, carro, consumo, etc.) e na falta de transparência do sector financeiro, estaremos perigosamente dependentes das agência de notação e dos bancos, onde se continua a praticar os crimes que mais afectam hoje as vidas das pessoas (emprego, salários, protecção social, etc).