domingo, junho 24, 2007

Fabius chuta contra o Tratado eee... auto-golo!

A táctica de Laurent Fabius no seio do PSF ancorada às suas ambições presidenciais foi a estratégia política que mais contribuiu - mais do que qualquer estratégia racional - para o Não de esquerda no referendo francês ao Tratado Constitucional. No primeiro jornal televisivo em que participou após a vitória do Não, a primeira pergunta feita pelo jornalista a Fabius foi qualquer coisa como "Qual o significado desta vitória?", a que este respondeu: "François Hollande deve deixar a presidência do PS"... Se alguém tinha dúvidas, neste momento ficou claro que Fabius se estava a borrifar para a Europa! Simultaneamente, os maiores neo-liberais da Europa - que sempre foram fervorosamente contra o Tratado - agradeciam o auto-golo de um Fabius que tinha apelado ao Não em nome do combate ao neo-liberalismo! Bem visto, da parte de Fabius...

O resultado deste "tiro no pé" da esquerda francesa é que o Tratado recém alinhavado em Bruxelas que substituirá o Tratado de Nice, será um tratado mais à direita do que o Tratado Constitucional, será mais conformista, mais conservador e que agradará mais a todos aqueles que preferem uma Europa bem comportadinha, muito obediente aos EUA e a todos os caprichos do mercado mundial. Basta ler algum regozijo dos que entre nós defendem esse modelo. Os mais radicais anti-europeístas, como Pacheco Pereira, vão continuar a boicotar todas as versões reduzidas do Tratado que venham a ser apresentadas, interessa-lhes mais uma Europa tecnicamente impotente.

À atenção do MIC e do BE
A Esquerda Europeia perdeu e só pode perder ainda mais se continuar com um programa político de carácter pavloviano, resumindo a sua participação europeia a uma reacção permanente a estímulos políticos pontuais, sobretudo quando estes são mal avaliados como foi o caso do Tratado Constitucional. E são frequentemente mal avaliados porque infelizmente uma parte da Esquerda Europeia não tem um verdadeiro programa político europeu. É o caso da facção do PSF de Fabius e é também o caso da Esquerda Unitária Europeia. Ora, o dever da Esquerda Europeia é um dever de iniciativa. A Europa é actualmente líder nalguns dos principais desafios do planeta: combate às alterações climáticas, moderação de conflitos regionais (no Líbano foi evidente), respeito pelos direitos humanos, da sexualidade, da laicidade e da paridade. Estes são desafios muito caros à esquerda, mas se os erros da esquerda retirarem à Europa a sua capacidade de iniciativa esta caberá aos EUA e à China e todos sabemos muito bem a leviandade com que cada um destes países trata estes assuntos. A responsabilidade da Esquerda Europeia estende-se à aproximação da UE aos cidadãos. Neste particular, o actual formato de realização de 27 referendos dispersos no tempo não faz qualquer sentido do ponto de vista democrático e matemático (explicarei porquê). Deste modo, um NÃO tem um peso excessivo, que favorece claramente a generalidade das posições anti-europeístas. Um referendo a nível europeu, realizado no mesmo dia, de uma forma clara e simples para todo o cidadão europeu, não só reforçaria o sentimento que vivemos numa casa comum, com um destino comum, como evitaria o falseamento democrático dos resultados e das reais escolhas dos europeus. Somados os votos de todos os referendos ao Tratado Constitucional, qual foi a percentagem de voto NÃO? 20%? 30%? E entre os votos NÃO havia mais esquerda ou mais direita? Havia certamente muito mais direita, e havia direita da piorzinha...

sexta-feira, junho 22, 2007

TGV e aeroporto: um debate que apodrece

Quando Marques Mendes lançou o ataque à OTA e ao TGV, estava com a corda ao pescoço, as críticas internas ao seu trabalho na oposição eram implacáveis. No entanto, apesar do risco de mais críticas internas, dada a contradição que esse ataque representava em relação à anterior política Durão-Santana, Marques Mendes sabia que o ataque à OTA e ao TGV comportava dois pontos fortes:

1- A questão da territorialidade: o local do novo aeroporto e o trajecto do TGV comportam um potencial de conflito regional impressionante (que é bem evidente). Um bom demagogo sabe que lançando duas ou três larachas bem dirigidas é suficiente para pôr as regiões e as cidades em conflito entre elas.

2- A causa do estado mínimo: os defensores de um estado que não deve investir em transportes públicos, os que não se ralam minimamente que o transporte individual poluente e caro seja em muitos casos a única opção para o transporte em massa de bens e de pessoas, os que negam o papel do aquecimento global na mudança dos nossos hábitos, os que estão sempre prontos a defender o gigantesco lobby do petróleo, esses Marques Mendes sabia que os ia ter consigo. Foram os primeiros a morder o isco!

Apesar do debate ter começado bem com a exigência de estudos - algo que deveria ser feito SEMPRE - os dois aspectos enunciados tornaram-se dominantes, empobrecendo o debate sobre o novo aeroporto e o comboio de alta velocidade. Nas últimas semanas, a infantilidade que reina nalgumas cabeças dos defensores do estado mínimo e dos que exigem o aeroporto no seu quintal tem vindo a apodrecer e a ridicularizar o debate. A fúria de exigência e elaboração de estudos que se desencadeou recentemente tem muito pouco de sério. Em primeiro lugar, porque um estudo sério não se faz em cima dos joelhos e em segundo lugar porque se percebe muito bem que não é o conteúdo dos estudos que é valorizado, mas sim o seu potencial como arma de arremesso político. Por exemplo, na blogosfera alguns escribas do Blasfémias e do Insurgente são o reflexo dessa histeria à volta dos estudos, o que não deixa de ser curioso visto que são os mesmos escribas que sempre negaram os mais importantes e completos estudos elaborados nos últimos anos: os estudos sobre as alterações climáticas. Os referidos escribas não se coibiram a escrever todos os disparates possíveis e imaginários para descredibilizar esses estudos, para além disso o João Miranda (o recordista dos disparates do Blasfémias) chegou a fazer a apologia cerrada de estudos pseudocientíficos sobre o desenho inteligente, uma infantilidade intelectual carregada de charlatanice barata. Obviamente, depois pouca credibilidade merece o que os mesmos opinam sobre os estudos do aeroporto e do TGV, é uma opinião em sintonia com o quadro descrito, quase sempre no registo do disparate.

É pena
É uma pena, porque esta poderia ser uma oportunidade de pela primeira vez na nossa história projectar uma futura rede de transportes que tivesse em conta o desenvolvimento sustentável do país, debatendo prioritariamente: a maximização do transporte de bens e pessoas através de soluções amigas do ambiente, a optimização do ponto de vista da rapidez, dos custos económicos e ambientais e da descentralização no acesso das cidades do interior e do litoral à rede ferroviária e aeroportuária, a articulação da nossa rede ferroviária com a rede transeuropeia de alta velocidade, a revisão da fiscalidade afecta a cada meio de transporte em função da poluição e da capacidade de transporte e o potencial de desenvolvimento académico, científico e tecnológico que tal projecto representa.
Infelizmente, o que domina o debate é o "quero o aeroporto no meu quintal".

quinta-feira, junho 21, 2007

Deus foi um malandreco com G. W. Bush

"Georg W. Bush says that God told him to invade Iraq (a pity God didn't vouchsafe him a revelation that there were no weapons of mass destruction)."

"The God Delusion", Richard Dawkins, Bantam Press, 2006, pag. 88

quarta-feira, junho 20, 2007

Manuel Tão sobre o novo aeroporto e o TGV

Vale a pena ler todos os textos sobre transportes publicados no blog do Manuel Tão (infelizmente em hibernação), doutorado em economia de transportes pela Universidade de Leeds. O Manuel Tão produziu um raro e valioso trabalho de investigação sobre o impacto de uma rede de comboio de alta velocidade no nosso país.

Destaco a seguinte passagem de um dos seus textos:

"Mas vamos uma vez mais tentar perceber o que move o sentimento destas criaturas, um pouco ao jeito de todos aqueles que há século e meio se declaravam frontalmente contra a introdução do caminho de ferro no “país pobre” e de “dimensão reduzida” que era Portugal. Há muitas razões para existir oposição ao TGV. As mais legítimas prendem-se, seguramente, com os interesses ligados ao transporte aéreo de curta e média distância, assim como, claro está, aos de todo o mundo ligado à venda de combustíveis, viaturas automóveis e exploração de rodovias. Da mesma maneira que o comboio destronou os almocreves, também o comboio de “alta velocidade” vai acabar com muitas linhas aéreas (Lisboa-Porto e Lisboa-Madrid serão substituídas pelo novo transporte, isento de emissões poluentes), e ainda abstrair praticamente metade do tráfego das auto-estradas paralelas, como a A1."

segunda-feira, junho 18, 2007

Lucros da Monsanto e o crime do Agente Laranja



São sobejamente conhecidas uma série de histórias macabras sobre a empresa Monsanto, sobre a forma implacável como processam nos tribunais os agricultores americanos que involuntariamente vêem os seus campos infestados por plantas geneticamente modificadas patenteadas pela empresa. Porém, o processo desencadeado hoje por veteranos de guerra americanos e por vítimas vietnamitas contra a Monsanto revela uma história ainda mais macabra. Ler tudo aqui.
Sabemos de antemão que no fim deste processo o lucro do crime compensa largamente a penalização da multa. No fundo, no fundo, é apenas a mão invisível no seu esplendor, é o sacrosanto mercado a velar por nós...

sexta-feira, junho 15, 2007

Mais uma boa razão para ser contra a NATO

O teor do texto "Os Mísseis Russos e a Europa" de José Pacheco Pereira (JPP) constitui, para aqueles que como eu defendem a saída de Portugal da NATO (desconfio que a maioria dos portugueses pensa da mesma maneira), mais um forte motivo para não pertencermos a essa falsa aliança, essencialmente pela exposição de dois tipos de argumentação:

1- Inversão da realidade - Transformar o agressor em agredido e o agredido em agressor. É um argumento típico dos irredutíveis da NATO e de todas as asneiras de G. W. Bush. Já aqui denunciei um texto em que Vasco Graça Moura atribui à esquerda o apoio à Al-Qaeda (não se percebe como), num total branqueamento da iniciativa de Richard Perle, o verdadeiro mentor dos planos de expansão e de reforço da Al-Qaeda. No seu texto, JPP não vê qualquer problema no sistema anti-míssil americano, o problema no seu entender é que os russos estão a reapontar os mísseis para a Europa, mais precisamente, nas palavras de JPP, a admitir que nunca deixaram de apontar. Obviamente, para JPP o sistema anti-míssil americano não está a ameaçar nem a provocar ninguém, nem a desrespeitar tratados internacionais (também incluem estes sistemas), até porque o sistema anti-míssil americano funciona com pombas. As pombas voam até junto dos mísseis russos e transformam-nos em pétalas de rosa (e não em destroços de plutónio e urânio) que caem suavemente sobre os telhados da Europa de Leste...

2- Fantasia geradora de medos - JPP atribui erradamente o perigo atómico a um cenário de uma fantasia geradora de pequenos medos. O grande perigo da proliferação nuclear não é o cenário de fantasia insinuado por JPP, no qual o perigo viria de um Putin que vai apontando e disparando sadicamente, um a um, vários mísseis contra cidades europeias, "um para os Açores, outro para o comando da OTAN de Cascais", "um lote especial para Bruxelas", etc. O grande problema da proliferação nuclear é outro e está muito bem identificado e analisado num grande livro: "De Tchernobyl en tchernobyls" (Odile Jacob, 2005) da autoria do Nobel da Física Georges Charpak e Richard Garwin, físico que trabalhou no programa nuclear americano. O problema da construção de sistemas de defesa foi alvo de vários trabalhos académicos que demonstram que para uma grande potência é mais eficiente e barato construir mais mísseis ofensivos do que construir sistemas de defesa balísticos. A resposta natural dos russos ao sistema de defesa anti-míssil americano é simples: mais mísseis e ainda ficam a ganhar. O verdadeiro problema do sistema anti-míssil é que este contribui para a proliferação nuclear, com todos os grandes perigos que lhe estão associados: a potencial disseminação de materiais utilizados nas bombas por grupos terroristas e o perigo de um lançamento acidental entre as mais de 8000 armas nucleares actualmente espalhadas pelo mundo, das quais cerca de 480 estão na Europa e 90 na Turquia (ler o artigo "Apocalypse Soon" de Robert S. McNamara).

Já agora, para onde estão apontadas as chaminés de CO2 da indústria dos EUA?


Este texto de JPP é radicalmente mais anti-russo do que as palavras do próprio Bush durante o G8: "They're [Russians] not a military threat. They're not what we should be hyperventilating about. What we ought to be doing is figuring out ways to work together". Ora, quando os acérrimos defensores da NATO em Portugal (que não são muitos) são mais papistas que o papa, justificando a aliança atlântica através da manipulação da realidade e do nosso imaginário, todos temos motivos para temer que a aliança em causa seja mais geradora de perigos do que de segurança. Será que não está na altura de um referendo à NATO? Ou será que a NATO está acima do poder democrático?

quinta-feira, junho 14, 2007

terça-feira, junho 12, 2007

Vertigem Americana

Os neoconservadores não gostam, já se sabe que não se pode criticar nem a América nem o mercado, e os marxistas dogmáticos esperneiam e praguejam, sentem-se ultrapassados pela esquerda. Oh da guarda, lá vem mais um livro do BHL!

Finalmente, traduzida para português, chegou às nossas livrarias a última e excelente obra do filósofo francês Bernard-Henri Lévy: "Vertigem Americana". Clicar aqui para ler a apresentação e a análise feita em entrada anterior. Este é um livro altamente recomendado aos fiéis leitores da Klepsýdra.

Livro Klepsýdra ***** (5 estrelas)

sábado, junho 09, 2007

Sábado em Coimbra XXXVI: conversas com o Afonso

Sempre que vou ao café Santa Cruz tento ficar no canto da esplanada mais próximo da igreja, mais próximo do Afonso, o Afonso Henriques. Do seu túmulo, que fica a apenas alguns metros da minha mesa, o Afonso saúda-me erguendo ligeiramente a espada pousada sobre o peito. De seguida iniciamos grandes cavaqueiras sobre o estado da nação e do mundo. Ele quer saber tudo. Falamos do passado e falamos destas ruazinhas em frente a nós, quem vivia ali há 800 e tal anos, os episódios passados com os seus servidores, os seus soldados, os clérigos e as mulheres que serviam todos estes homens. Fixo o início da rua direita e começo a percorrê-la de sandálias, sobre a lama amassada pelas montadas, pelos comerciantes, viajantes e locais que vinham à praça de Coimbra recém conquistada para o campo do cristianismo. Toco alguns dos artefactos à venda, bem como as castanhas, as peras e as romãs de há 800 anos, respiro fundo e sinto o cheiro original desta cidade...

Sábado em Coimbra XXXV

quinta-feira, junho 07, 2007

Estado da Ciência nas Universidades e na Sociedade

Em boa hora fui convidado (obrigado T.) a ler este sublime artigo sobre o declínio da ciência na sociedade da autoria de Harry Kroto. O artigo descreve o caso britânico, mas muito do que ali se analisa aplica-se na perfeição ao caso português, aliás entre Blair e Sócrates muita coisa há em comum, infelizmente. Harry Kroto analisa o encerramento de prestigiados cursos de ciência numa altura em que as empresas dependem mais do que nunca da ciência e da tecnologia, ao mesmo tempo que proliferam nas universidades cursos light de comunicação e publicidade. O problema é apresentado como deve ser, realçando a ausência de racionalidade de um sistema universitário unicamente economicista em que as pessoas são reduzidas a contribuintes, sendo dissociadas dos tremendos benefícios sociais produzidos pela ciência e pela tecnologia.
Kroto descreve ainda o flagelo da ignorância do método científico e as suas consequências na proliferação de todas as pseudo-ciências (desenho inteligente, o negacionismo do aquecimento global, etc.) e na implementação de políticas na agricultura, nos negócios e na justiça. Sobre este tema escreverei em breve umas linhas sobre o caso português. Há uma ou duas coisas que devem ser ditas, talvez à bruta...

terça-feira, junho 05, 2007

Sistema de defesa anti-míssil dos EUA na Europa II

Ler o texto da Ana Gomes sobre o sistema de defesa anti-míssil que os EUA estão a tentar impor à Europa.

Construa-se o aeroporto no quintal de V. Pulido Valente!

Este excelente e desgarrado texto da Isabel do Aba de Heisenberg é um verdadeiro murro na mesa contra o discurso centralista e macrocéfalo em torno do novo aeroporto. A vítima é Vasco Pulido Valente - um excelente representante do imobilismo luso - mas o barrete poderia servir a muita gente que só vê Lisboa à frente. Deliciemo-nos com alguns extratos do texto da Isabel:


"Na sua crónica, no Público de hoje, Vasco Pulido Valente (VPV) veste a pele de “O Lisboeta”. O Lisboeta chateado ante a perspectiva de o aeroporto já não lhe ficar ali ao pé da porta, de ter que se levantar cedo para apanhar o avião, que chatice, de ter que apanhar o táxi, que chatice, olhe VPV eu cá apanho os mal-cheirosos expressos da RN, que como a grande maioria dos portugueses não tenho orçamento para grandes viagens de táxi. VPV aborrece-se, mas VPV à boa maneira macrocéfala da capital, faz a figura de Mário Lino, considera que o resto do país é um deserto ou pior ainda, não existe."

"Não sei onde é que o VPV mora em Lisboa, mas certamente não é ali para os lados do Campo Grande, com os aviõezinhos a roçarem-lhe o telhado… Se calhar até é, mas já se habituou. Mas olhe que eu que até acho graça a aterrar em Lisboa, a sobrevoá-la muito baixinho, fico sempre a pensar que pela cabeça do meu vizinho do lado, que não é de cá, deve estar a passar qualquer coisa como, mas a que país do terceiro mundo vim eu parar?"

"E já agora se ainda tiver paciência e bondade para pensar nos 8 milhões de portugueses que vivem fora de Lisboa, veja por exemplo o meu caso, que vivo em Coimbra, que raramente faço viagens de avião que não sejam de trabalho e que por isso, são sempre curtas, não vou à Nova Zelândia, e que raramente saio por mais de 3 ou 4 dias. Para apanhar os primeiros aviões da manhã só me resta ir pernoitar a Lisboa, para um avião lá pelas nove horas, tenho um expresso da RN, desconfortável, perigoso e fedorento, pelo meio do dia já tenho os nossos modernos pendulares , mais táxi ou autocarro a partir do Oriente. Chegadas a partir das nove da noite dão de novo direito a autocarros da RN, que por acaso saem de Sete-Rios. E se chego, por exemplo às 22.30 tenho que esperar pelo autocarro da meia-noite e chegar a Coimbra às 3 da manha. Veja VPV, isto é Portugal."

segunda-feira, junho 04, 2007

Testemunho de Bernard-Henri Lévy sobre o Darfur

Recentemente, Bernard-Henri Lévy (BHL) entrou clandestinamente no Sudão, na região do Darfur. No programa "Ce soir ou Jamais" da France 3, BHL oferece-nos o seu testemunho sobre o genocídio em lume brando ali perpetrado pelo regime sudanês. Ver aqui a entrevista integral.

quinta-feira, maio 31, 2007

Transporte ferroviário vs transporte rodoviário

1- Uma tonelada de mercadorias transportada por camião consome 3 a 4 vezes mais energia do que o seu transporte por via ferroviária.
2- A emissão equivalente de CO2 do transporte ferroviário é cerca de 10 vezes inferior à de um camião.
3 - O contributo do camião para as alterações alterações climáticas tem um impacto económico negativo 2,5 vezes superior ao transporte ferroviário (dados UIRR).

quarta-feira, maio 30, 2007

A expansão da rede europeia de alta velocidade



Esta semana foi concluída a linha do TGV Este que liga o TGV ao ICE alemão, ligando também uma série de cidades de grande e média dimensão da Europa central: Metz, Reims, Estrasburgo, Luxemburgo, Frankfurt, Zurique, Basileia, etc. É agora possível ir de Londres a Munique sempre em comboio de alta velocidade.

O mapa apresentado é retirado do sítio internet do TGV, e representa os países que integram a actual rede europeia de alta velocidade. A expansão para o leste não tardará muito. É sabido que este tipo de transporte é menos poluente do que o avião e do que o transporte rodoviário, além disso é o único transporte de massas capaz de competir com o avião em rapidez em trajectos de algumas centenas de quilómetros. Vêem Portugal no mapa? Claro que não! Em Portugal a visão política de futuro de uma boa parte dos políticos, não é o comboio de alta velocidade, a política de futuro é antes o camião, o autocarro, o avião e claro, o automóvel (de preferência TTs de 3500 cm3) atrelado às inevitáveis auto-estradas e as suas gulosas portagens. Obviamente, políticos como Marques Mendes e os ultra-liberais do costume vão continuar a combater o TGV e a aprovar viadutos, pontes e túneis caríssimos e inúteis, como o túnel do Marquês, a aprovar estádios de futebol e a proteger e alimentar as empresas que constroem auto-estradas caríssimas destinadas às moscas (para que serve a auto-estrada do litoral que vai duplicar a A1?).

PS- Há um argumento engraçado em Portugal contra o TGV, segundo o qual o TGV foi concebido para circular apenas em regiões e países planos. É cada planície de uma ponta à outra da Suiça e de Itália...

terça-feira, maio 29, 2007

Polónia vs Venezuela

Há qualquer coisa de polaco na república populista da Venezuela e qualquer coisa de venezuelano na república neoconservadora da Polónia. Ambas se revoltam contra o pai (EUA e URSS). Paga o povo.

domingo, maio 27, 2007

4 meses, 3 semanas e 2 dias

Ler no sítio do canal ARTE a crítica ao filme "4 meses, 3 semanas e 2 dias" do romeno Cristian Mungiu, Palma de Ouro de 2007. Aqui a crítica a todos os filmes premiados.

Vu du Ciel


Carrosséis agrícolas alimentados pela água de lençóis freáticos no deserto Wadi Rum, Jordânia

Da autoria de Yann Arthus-Bertrand, "Vu du Ciel" é uma série de quatro filmes sublimes onde é apresentado e analisado o estado actual do planeta. Alternado entre esplêndidas imagens da Terra vista do céu, entrevistas a mulheres e homens que dedicam a sua vida à defesa dos ecossistemas e a denúncia de variados atentados à biosfera, Arthus-Bertrand apresenta-nos uma série de uma qualidade invulgar que interpela de uma forma muito inteligente o espectador. Arthus-Bertrand calcorreou o planeta da Gronelândia à Nova Caledónia, para nos mostrar as graves consequências nos ecossistemas provocadas pelo aquecimento global, a ameaça que o nosso modo de vida representa para a biodiversidade do planeta e mostrando também os bons exemplos em que o trabalho dos cientistas e de organizações especializadas teve sucesso na recuperação de ecossistemas considerados praticamente perdidos.

A série de Arthus-Bertrand que conjuga a imagem com a apresentação dos mais recentes dados científicos - disponíveis no sítio da série - é a melhor representação audiovisual dos riscos apresentados pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas. "Vu du Ciel" é uma série incontornável para todos aqueles que se interessam pela ecologia, as alterações climáticas e o futuro do planeta. A série tem vindo a ser apresentada no canal France 2 (TV5), mas uma série desta qualidade é de emissão obrigatória em qualquer televisão do mundo. Resta saber qual será a primeira televisão portuguesa que vai sacrificar um punhado de horas de estupidificação televisiva (ler futebol, variedades da vida real ou telenovelas) por uma série sublime, inteligente e popular.

quinta-feira, maio 24, 2007

Concordo

"Claro que cá fora, as mulheres são de um modo geral mais “mestres” e mais “belas” e eles dificilmente competem quer numa quer noutra qualidade, mas talvez tenha sido também isso uma fonte de atracção, porque ajuda ao escapismo masculino pensar que, pelo menos, na televisão, as mulheres são mais burras do que eles.", Pacheco Pereira, entrada "Belas e Mestres" no Abrupto.

O meu pai ganhou a Liga Record

O meu pai depois de se reformar dedicou-se à salutar actividade de treinador de bancada e fê-lo com sucesso como se pode ler aqui. Estou orgulhoso obviamente. Para além disso, a próxima vez que me pegar com o Paulo Querido sobre o Scolari já tenho mais um argumento a meu favor: ser filho do campeão dos treinadores de bancada. Toma lá embrulha Paulo! ;)

O sucesso do meu pai não surge ao acaso, eu conheço-o, a matemática teve uma importância fundamental. Apesar de não ter um curso superior, conhecendo a Universidade como conheço não tenho dúvidas nenhumas que poderia ter tirado um curso de matemática, física ou economia (ou outros cursos que envolvessem cálculos) com muita facilidade. Mas, o meu pai teve o azar de fazer parte da geração de António Barreto, de Fátima Bonifácio e de Vasco Graça Moura. Nesses tempos só os ricos é que iam para as Universidades, todos os outros que tivessem algum talento em vez de ir para a Universidade iam fazer o que era poupado aos filhos dos ricos: bater os costados no ultramar. É por isso que este sucesso do meu pai de certa forma me entristece, porque tenho a certeza que se tivesse tido as mesmas oportunidades que eu - ensino universal e gratuito - o seu futuro seria outro, o seu talento para a matemática não seria desperdiçado em profissões menores.

terça-feira, maio 22, 2007

Chegar de comboio a Lisboa antes das 9h

Finalmente, algum responsável da CP iluminado pela luz do Altíssimo descobriu que não existiam comboios provenientes de Coimbra e do Porto que chegassem a Lisboa antes das 9 horas da manhã. 9:20 era o melhor que se arranjava. Com reuniões e compromissos marcados para as 9:00, as pessoas do Porto e de Coimbra eram obrigadas a recorrer ao transporte individual ou a passar a véspera em Lisboa. Quantas vezes estoirei dinheiro desta maneira, do meu bolso e dos dinheiros públicos, para cumprir com pontualidade os meus compromissos de trabalho marcados para as 9 horas em Lisboa. Agora temos um Alfa que chega às 8:22 a Lisboa, estamos melhor sem dúvida, mas parece-me que os responsáveis pelos horários da CP não estão bem a par dos horários dos voos do aeroporto da Portela. Em qualquer país civilizado da Europa, as linhas de comboio que servem os aeroportos (parece-me que foi essa a intenção da construção da gare do Oriente) oferecem horários de chegada a partir das 6:30 da manhã. Desconfio que vamos ter que esperar mais alguns longos anos até que um dos responsáveis dos horários da CP volte a ser iluminado pelo Altíssimo, relembrando-o de que existem portugueses que moram a norte de Vila Franca de Xira cujos voos saem do aeroporto da Portela a partir das 7 da manhã...

segunda-feira, maio 21, 2007

31

31 títulos, entre os quais três taças europeias e uma taça intercontinental. A transferência de Baía para o Barcelona continua a ser a mais cara transferência de sempre de um guarda-redes. O Vítor é na minha opinião um dos mais talentosos futebolistas portugueses de sempre, na minha opinião só superado em talento pelo Figo e pelo Eusébio, mas o seu imenso desportivismo, a sua eloquência (quantos futebolistas do seu nível conseguem articular duas ideias seguidas?), a sua inteligência, o seu comportamento disciplinar exemplar e o respeito que sempre demonstrou pelos adversários fazem dele o maior desportista que passou pelos relvados portugueses nas últimas décadas. Homens assim são raros. É por isso que muitos de nós, adeptos do Porto, esperamos muito mais do Vítor. A cadeira de Presidente do FCP é dele quando ele quiser, mas desconfio que o 31 vai passar a 32, 33, etc. se o Vítor juntar à braçadeira de capitão a de treinador. Se o nosso país tivesse menos preconceitos a selecção ficaria muito bem entregue a um homem assim.

sexta-feira, maio 18, 2007

Escandaloso: nomeação de Rui Pereira e praxe

- A nomeação de Rui Pereira, juiz do Tribunal Constitucional, para Ministro da Administração Interna faz-me sentir cidadão de uma autêntica república das bananas. Hoje no tribunal, amanhã ministro, quiçá depois de amanhã outra vez no tribunal e por aí fora. O essencial da democracia e um dos pilares fundamentais que distinguem as democracias do despotismo que é a separação entre poder político e poder judicial é neste caso completamente desprezada. Sinto convulsões estomacais.

- O mínimo que se exige à Reitoria da Universidade de Coimbra é a expulsão dos responsáveis pelo violento abuso de que foram alvo os alunos do primeiro ano no dia que antecedeu o início da Queima das Fitas. A violência da praxe combate-se não apenas aplicando as leis da República (válidas para todos os cidadãos) aos alunos universitários, mas também através da aplicação de castigos internos que garantam a liberdade de estudo e de circulação de todos os alunos no espaço universitário. A melhor forma de combater este flagelo é cultivando o salutar acto de denunciar a violência universitária quer na PSP quer na Reitoria. A proibição da Praxe já se sabe que seria uma ideia tão brilhante como proibir de fumar ao ar livre ou proibir o véu, sabemos bem que existirão sempre meia dúzia de masoquistas que gostam de se passear com as trombas pintadas e de ser insultados de bestas para baixo, nem que seja só para contrariar os anti-praxistas.

quinta-feira, maio 17, 2007

Palmas de Ouro por ordem de preferência

Partilho com os caríssimos leitores cinéfilos todos os filmes Palma de Ouro de Cannes que vi por ordem de preferência:

Underground - Emir Kusturica (1995)
La Dolce Vita - Federico Fellini (1960)
Barton Fink - Joel e Ethan Coen (1991)
Blow-Up - Michelangelo Antonioni (1967)
Dancer in the dark - Lars von Trier (2000)
Elephant - Gus van Sant (2003)
O Piano - Jane Campion (1993)
Adeus minha Concubina - Chen Kaige (1993)
Taxi Driver - Martin Scorsese (1976)
Fahrenheit 9/11 - Michael Moore (2004)
Pulp fiction - Quentin Tarantino (1994)
Paris, Texas - Wim Wenders (1984)
O Pianista - Roman Polanski (2002)
A Criança - Jean-Pierre et Luc Dardenne (2005)
Sexo Mentiras e Video - Steven Soderbergh (1989)
Segredos e Mentiras - Mike Leigh (1996)
A Missão - Roland Joffé (1986)
A Enguia - Shohei Imamura (1997)
O Quarto do Filho - Nanni Moretti (2001)
Apocalypse now - Francis Ford Coppola (1979)
Brisa de Mudança - Ken Loach (2006)

Residencial Eurostadium é ilegal, obviamente!

Desde o início que se sabia que a Residencial Eurostadium em Coimbra era ilegal. Bastava ler os regulamentos de construção para aquela zona da cidade. Mas o sentimento de impunidade que gozavam o Grupo Amorim e a Câmara de Coimbra não os demoveu nem um milímetro de continuar a obra e de vender todos os T0 para "estudantes" (é estudantes é...).
A sentença do Tribunal é claríssima.
Conheço o arquitecto que teve a coragem de denunciar o caso à justiça há quatro anos. Tive a oportunidade de testemunhar alguns dos transtornos que sofreu na sua vida pessoal durante todo esse tempo, foi uma autêntica luta de David contra Golias ao serviço da cidadania. Faz falta mais gente assim.

terça-feira, maio 15, 2007

Festival de Cannes no Canal ARTE

Até ao dia 27 de Maio, o canal ARTE vai acompanhar o festival de Cannes exibindo filmes premiados em edições anteriores, reportagens, documentários e crítica sobre os autores e os filmes presentes este ano. A não perder por qualquer cinéfilo que se preze. ;)

Belle Toujours

"Belle Toujours" é a continuação imaginada por Manoel de Oliveira da história de "Belle de Jour" 40 anos depois. "Belle Toujours" conta com a interpretação de Bulle Ogier a substituir Catherine Deneuve na personagem de Séverine e Michel Piccoli sempre na pele de Henri Husson. A estreia do novo filme do Mestre está marcada para dia 14 de Junho.

segunda-feira, maio 14, 2007

Belle de Jour



"Belle de Jour" de Luis Buñuel é uma adaptação ao cinema de um romance de Joseph Kessel. A qualidade dos elementos que Buñuel acrescentou ao original levaram o próprio Kessel a admitir que o filme era superior ao seu romance. Esta obra-prima de Buñuel conta a história de Séverine (Catherine Deneuve) uma aristocrata frígida, cuja vida sexual com Pierre, o seu marido, é praticamente inexistente. Severine descobre um discreto bordel, onde poderá trabalhar durante o dia, na ausência de Pierre, com o intuito de dar largas aos seus fantasmas e com a esperança de encontrar aí algo que possa dar de novo um sentido à sua vida sexual com Pierre. No entanto, os planos de Séverine serão alterados quando esta conhece Henri Husson (Michel Piccoli), um cliente habitual do bordel...

Esta obra-prima de Buñuel confrontou em 1967 a sociedade da época com fantasmas femininos que representavam uma clara transgressão às normas estabelecidas - estávamos a um ano do Maio de 68. No entanto, apesar das transformações sociais que ocorreram até aos dias de hoje, a obra de Buñuel continua actual. Para ilustrar a actualidade da obra transcrevo uma pequena parte de um excelente texto intitulado igualmente "Belle de Jour" da autoria Joana Amaral Dias publicado na revista Manifesto n°5:

"...apenas a validação a a apreciação da prostituição voluntária, que entretanto substituiu o discurso abolicionista na cena internacional, verdadeiramente desafia as perspectivas tradicionais sobre a sexualidade feminina, ela é frequentemente conjugada no modo criminal ou estigmatizante. As mulheres que escolhem ser prostitutas e recusam o estatuto de vítimas, são mais provavelmente ostracizadas e desprezadas... implicitamente dizendo-se que, pela sua transgressão, "merecem o que têm"."

sábado, maio 12, 2007

Sábado em Coimbra XXXV: aos juristas da cidade

Coimbra é a cidade do Direito, com uma densidade de advogados, professores, alunos de Direito e profissionais da área que bate qualquer outra cidade do país. Tendo os conimbricenses o privilégio de ter tantos especialistas das leis que nos regem, o rumo que leva o desenvolvimento da cidade inspira-me uma série de questões dirigidas aos meus caríssimos conterrâneos juristas:

- Porque é que em Coimbra se cometem ilegalidades grosseiras com tanto à-vontade?
- Porque é que um empresário constrói um prédio à vista de toda a gente com vários andares acima do limite permitido pela lei? Esta é uma ilegalidade impossível de esconder, está à vista de todos, não se trata de uma recôndita cave transformada em parque de estacionamento, trata-se de um prédio junto a uma das artérias mais frequentadas da cidade. Será que o empresario estava convicto que teria cobertura jurídica?
- Porque é que se cometeram ilegalidades grosseiras nas demolições na Baixa e na construção do Studio Residence no Eurostadium?
- Porque é que proliferam as urbanizações selvagens, sem espaços verdes, sem transportes públicos, sem passeios, sem estética, destruindo irremediavelmente os poucos espaços verdes que ainda existem na cidade?
- Porque é que se constrói à beira da estrada por todo lado, fora dos limites da cidade e dos limites das vilas e das aldeias que rodeiam Coimbra?
- Será que os meus conterrâneos juristas não vêem estas aberrações?
- Os meus conterrâneos juristas que auferem tão onerosos salários, não viajam? Não vêm que no resto da Europa não se vê esta selvajaria dentro e fora dos limites das cidades?
- Não acham estranho que em Coimbra se possa construir em todo o lado? As nossas leis não são muito diferentes das espanholas ou francesas. Quando atravessam a cidade a pé ou ao volante do vosso veículos, estas aberrações não vos inspira uma reflexão sobre o respeito das leis que regem o espaço urbano da nossa cidade?
- Não vos causa indignação o caos urbanístico em que mergulhou a cidade nos últimos 10 anos?

Coimbra, uma cidade histórica e com estilo único no país, está cada vez mais feia, caótica e agressiva. Se vocês, caros conterrâneos juristas, não se indignarem com ilegalidades desta dimensão, o resto dos conimbricenses pouco podem fazer - os poucos corajosos vêm os seus processos eternizados nos tribunais apesar dos pareceres favoráveis das suas reclamações.

Sábado em Coimbra XXXIV

quarta-feira, maio 09, 2007

Quando o país se confronta com a dura realidade

A histeria nacional do momento, o caso da menina inglesa desaparecida no Algarve, tem tido a virtude de confrontar os portugueses com o que a imprensa viperina e o cidadão médio mal informado do norte da Europa, neste caso de Inglaterra, pensam realmente de Portugal e dos portugueses. Independentemente da nossa polícia estar a conduzir bem ou mal as investigações, por defeito para o inglês médio a polícia portuguesa só pode trabalhar mal. Um país cuja organização do território é uma lástima e que até há bem pouco tempo praticava julgamentos medievais de mulheres, só pode desencadear este tipo de reacção epidérmica, por muito bons que sejam o Cristiano Ronaldo ou o Mourinho em Inglaterra. Futebol é futebol, civismo é civismo. É provavelmente injusto para a polícia que está a trabalhar no duro no Algarve, mas a culpa dessa imagem negativa é de todos nós, somos nós que construímos esta imagem do país.

Babel à portuguesa
Esta é também uma ocasião para os que não gostaram de Babel por acharem o filme "politicamente correcto" compararem o que se está a passar com o episódio de Babel passado em Marrocos. Aí têm ao vivo e em directo do Algarve um filme "politicamente correcto"...

Guerra Fria parte II

Abaixo transcrevo uma passagem de um texto sobre o sistema anti-míssil do Instituto de Estudos Estratégicos e Internacionais bem elucidativo do que a Administração Bush anda a preparar juntamente com os governos checo e polaco nas costas dos cidadãos europeus. É de assinalar a reacção popular negativa mesmo no caso polaco.

"A opinião pública do país [Rep. Checa] está dividida sobre esta questão. Segundo uma sondagem públicada pelo Prague Daily Monitor, 61 por cento dos inquiridos mostraram-se contra a instalação do radar. Enquanto que num referento local, a população da aldeia Trokavek – onde vai ser instalado o radar – votou em massa contra a iniciativa norte-americana. Apenas um dos 72 eleitores da localidade votou favoravelmente. Contudo, é de realçar que o resultado do escrutínio não foi considerado vinculativo.
Não se julgue que é só a opinião pública checa que está contra a proposta vinda da América. De acordo com a revista Warsaw Voice – que cita uma sondagem da televisão pública polaca – 73 por cento dos inquiridos defendem a realização de um referendo sobre a instalação de uma parte do sistema de defesa antimíssil norte-americano no seu país. Além disso, 49 por cento das pessoas dizem estar contra esta iniciativa da Casa Branca e apenas 37 por cento veêm a medida como positiva.
Os dois maiores responsáveis políticos do país, o presidente Lech Kaczynsky e o Primeiro-Ministro, Jaroslaw Kaczynski, estão disponíveis para dialogar com o presidente norte-americano George W. Bush. Dizem preferir ser eles próprios a negociar com os EUA, em vez de confiarem na UE e na NATO para tratar destas questões de segurança, afirmando estar perante questões meramente "bilaterais".
"

terça-feira, maio 08, 2007

segunda-feira, maio 07, 2007

O Pacto Ecológico de Nicolas Hulot

O Pacto Ecológico apresentado por Nicolas Hulot antes do início da campanha eleitoral foi na minha opinião a contribuição política mais interessante para estas presidenciais francesas. Apontado pela imprensa como candidato, Nicolas Hulot surgiu nas sondagens com 10% de intenção de voto. Humildemente não apresentou candidatura às presidenciais, mas conseguiu a assinuatura do seu Pacto Ecológico da parte de todos os candidatos excepto Arlette Laguiller, Besancenot (já se sabe que o Marxismo tem resposta para tudo...), Le Pen, De Villiers e Nihous.

Na sequência do Pacto Ecológico, Nicolas Hulot lançou o livro "Pour un Pacte Écologique". A obra de Hulot para além de ser um interessantíssimo retrato das actuais sociedades em que vivemos, apresenta sem grandes preconceitos ideológicos 10 objectivos para que o nosso modo de vida possa ser compatível com os recursos finitos do planeta e com equilíbrio que rege os ciclos do clima terrestre. Hulot divide os seus objectivos em 10 áreas diferentes: economia, energia, agricultura, território, transportes, fiscalidade, biodiversidade, saúde, investigação científica e política internacional. Hulot apresenta números crús e chocantes sobre o nosso modo de vida actual: apenas 7% das matérias-primas estão presentes nos produtos que consumimos; 80% desses produtos são utilizados uma única vez; a produção de um computador portátil de 3kg necessita do equivalente energético de 350kg de petróleo; 1 kg de cereais necessita de 1000 litros de água; um hamburguer necessita de 10 mil litros de água; 47% dos frutos e legumes europeus contêm pesticidas; a superfície de florestas primárias do planeta foi reduzida a 1/4.
Esta é uma obra incontornável sobre a sustentabilidade do nosso modo de vida, sobre o futuro das próximas gerações e sobre a reflexão política a que estaremos obrigados nos próximos 100 anos, imposta pelos limites do nosso planeta. Assim que possível tentarei aqui transcrever algumas das suas passagens mais interessantes.

domingo, maio 06, 2007

Bernard-Henri Lévy sobre Ségolène e Sarkozy

Bernard-Henri Lévy apoiou publicamente Ségolène Royal desde a primeira volta. Para desenjoar da noite de victória de Sarkozy, aqui ficam as suas declarações sobre as presidenciais francesas já com algumas semanas de atraso.

quinta-feira, maio 03, 2007

Mais uma ilegalidade grosseira em Coimbra

Aqui descrita pela Catarina Martins.
Espanta-me o à-vontade com que se cometem ilegalidades deste calibre na cidade do Direito.

Surpreendente Ségolène

Já sabíamos que cabia a Ségolène atacar. Também já sabíamos que a Sarkozy bastava gerir a vantagem das sondagens. Apesar disso, Ségolène surpreendeu toda gente, inclusive o próprio Sarkozy. Ségolène esteve muito melhor no ataque a Sarkozy do que este a gerir a sua vantagem. Sabemos que a proeza de Ségolène terá pouca expressão na inversão da tendência de voto, mas foi muito interessante ver Sarkozy a entrar no debate de peito feito contra a semana das 35 horas de trabalho e a sair do debate com as 35 horas entre as pernas. Ficámos a saber que Sarkozy não quer acabar com as 35 horas, nem as principais associações patronais (estas já consultaram os índices de produtividade). Em vez, Sarkozy propõe aumentar as horas extraordinárias. Num país onde apenas metade dessas horas são utilizadas, a ideia é fraca.
Grandes calinadas foram proferidas pelos dois sobre a energia nuclear, valeu-lhes o desconhecimento sobre o assunto da generalidade dos eleitores. Ségolène patinou fortemente nos números da segurança social e Sarkozy transpareceu alguma insegurança nos seus conhecimentos quando interpelado com agressividade, mesmo quando tinha razão.
Foi essa determinação na interpelação do adversário, esse espremer constante dos conhecimentos e das propostas do outro, que fez deste debate um grande debate. Ambos se queimaram, ambos ficaram expostos às suas fragilidades, mas as propostas políticas ficaram muito mais claras para os eleitores. Estou a pensar nos quatro debates insonsos entre Kerry e Bush, onde se repetiam constantemente frases feitas, onde o raciocínio político era linear e simplista apesar da gravidade dos assuntos (como a guerra) e onde os candidatos se debatiam como se tivessem num campo de squash, contra a parede, e não olhos nos olhos.

quarta-feira, maio 02, 2007

Tenho um animal morto no meu prato!

"Tenho um animal morto no meu prato!", assim exclamou um amigo, filho de emigrantes portugueses nos EUA, após regressar ao país e lhe servirem um robalo grelhado num restaurante de Peniche. Nos EUA este amigo habituou-se a comer comida embalada em caixinhas, café fechado em goblets de cartão, queijos coloridos e sem cheiro, croquetes de todos os tipos de carne moída com formazinhas do Mickey e de peixinhos iguais aos desenhos da escola primária, pipocas da cor dos marcadores fluorescentes da Stabilo e bolachas com pepitas de morango, mas sem morango, pepitas feitas de pequenas gomas vermelhas com aroma artificial a morango.

Nos EUA ninguém proibiu que se coma peixe grelhado, que se veja a cor do café, que se toque num grão de milho ou que se comam morangos frescos, mas na realidade a "mão invisível" da religião do Mercado encarregou-se de que a esmagadora maioria dos americanos já não saiba o que de facto come. Sabem que comem marcas, que comem coisas trituradas, depois enformadas e coloridas como nos filmes da Disney e de Hollywood, sabem o número dos menus do restaurante X e a cor do "queijo" (em geral são emulsões lácteas e não queijo) que sai fora da sanduíche do menu Y.

Na prática, a ideologia do ultraliberalismo, da mão invisível e do modo de vida que Pacheco Pereira defende para a Europa, responsável pela alienação alimentar da maior parte dos americanos (os mais pobres), é muito mais proibitiva, sem proibir, do que os preconceitos alimentares religiosos comuns às religiões do livro (os católicos também os têm). É particularmente uma ideologia mais proibitiva do que o Islão a quem Pacheco Pereira dedica a entrada "Daqui a uns anos, na Europa, será assim?". Na verdade, e apesar da diferença de níveis de vida, em média, a alimentação de um muçulmano é muito mais variada do que a alimentação de um americano. Se deixássemos, seria essa alimentação "americana" que a Europa teria à mesa "daqui a uns anos", nada de peixes mortos no prato, nem queijos que cheiram mal, nem legumes crus, tudo seria servido em caixinhas da Disney, com histórias dos sobrinhos do Mickey. Dos sobrinhos, obviamente! É que as criancinhas poderiam ficar chocadas se fossem filhos do Mickey. Como é que se iria depois explicar que o Mickey tem um pénis a Minie uma vagina que servem para copular e ter filhos?

sexta-feira, abril 27, 2007

República Neoconservadora da Polónia

A Courrier Internacional desta semana inclui um dossier muito bom sobre a deriva neoconservadora que grassa na Polónia visto por intelectuais polacos e pela imprensa internacional.
É muito interessante analisar os resultados das políticas neoconservadores de origem americana na Europa. A experiência neoconservadora polaca acaba por ser útil pelo menos por uma razão, para que os europeus tenham mais certezas sobre aquilo que não querem importar dos EUA.


Caixa de comentários:
"A Polónia constitiu um estudo de caso interessantíssimo. Não só pelo seu alinhamento canino em relação a qualquer coisa que venha do Atlântico, mas também pelas bem significativas propostas de reintrodução da pena de morte, de proibição da homossexualidade a funcionários públicos e à tentativa falhada (felizmente) de proibição geral do aborto. Coisinha mais reaça não há. Poderão argumentar que se trata de uma compensação pelos tempos da rolha soviética. Cada um acredita no que entende. O que sei é que a Polónia, como qualquer outro Estado, para aderir à UE compromete-se com o acquis e, supostamente, com um certo espírito. Tem sido o que se sabe." Sérgio

"a condição da mulher com companheiro na Polónia é servi-lo enquanto ele se senta a beber cerveja. Se houve país europeu da CE que a mentalidade das mulheres me provocou pena e revolta foi a Polónia." Henedina

quinta-feira, abril 26, 2007

O efeito Bayrou

Quando estudei em Estrasburgo tive a oportunidade de assistir a dois debates sobre a Europa com a participação de François Bayrou - um deles muito bom, com Cohn-Bendit. Bayrou é um político de centro-direita, com o qual discordo da sua visão sobre o papel da família na sociedade, sobre o trabalho, sobre a economia, mas algo que merece a minha total simpatia é o seu europeísmo. Bayrou é um dos poucos políticos europeus que olha para lá do seu quintal e que já percebeu quase tudo sobre o papel importantíssimo que a Europa deve desempenhar na política mundial das próximas décadas. O desastre iraquiano, a nova guerra fria que os EUA querem impor à Europa, o aquecimento global e a reformulação da OMC, são desafios da política europeia aos quais Bayrou é sensível e que são objecto do seu discurso corrente.

Bayrou foi o político mais incisivo no ataque a Nicolas Sarkozy, identificando bem a perigosidade da sua candidatura. Sarkozy é um político que aproveita habilmente os ódios inter-comunitários para fazer política, muito ao jeito de Aznar. Com Sarkozy todos os ódios vão ter salvo-conduto, assanhando cidadãos contra cidadãos, comunidades religiosas contra comunidades religiosas, maiorias contra minorias, tal como Aznar se empenhou em assanhar bascos contra bascos-castelhanos, castelhanos contra bascos e castelhanos contra todas as comunidades de Espanha.
Os 18% da primeira volta deram honras quase de chefe de estado à sua declaração de ontem. Apesar de não ter dado indicação de voto para a segunda volta, Bayrou voltou a deixar clara a perigosidade do projecto de sociedade do seu parceiro de coligação governamental, Nicolas Sarkozy. As críticas de Bayrou a Ségolène foram muito mais brandas e uma aproximação entre os dois tem estado a ser concebida através de uma fórmula de debates sobre aspectos políticos específicos entre Bayrou e Ségolène. Pode estar aqui a chave para a recuperação de Ségolène.

terça-feira, abril 24, 2007

Um instrumento português no VLT

Uma câmara de infra-vermelhos de alta resolução, a CAMCAO (Camera for Multiconjugated Adaptive Optics), integra um sistema que serve para validar as técnicas de óptica adaptativa para futuros telescópios do ESO (Observatório Europeu do Sul). Esta câmara acaba de ter "first light" no VLT (Very Large Telescope). A câmara CAMCAO foi concebida, construída e validada por uma equipa portuguesa, o consórcio CAMCAO. Este é coordenado pela FCUL e integra o laboratório LAER do INETI e o LIP-Coimbra.
Os meus parabéns para toda a equipa do CAMCAO.

Sistema de defesa anti-míssil dos EUA na Europa

A intervenção de 13 de Março da Ana Gomes no Parlamento Europeu, resume muito bem a questão política sobre o sistema de defesa anti-míssil que alguns continuam a querer impingir à Europa:

"...é escandalosamente atentatória dos compromissos europeus a consideração unilateral pela Polónia, República Checa e Reino Unido da participação no sistema de defesa anti-míssil dos EUA: para quê a UE, ou mesmo a NATO, senão para discutir o futuro estratégico da Europa?"

É de facto escandaloso e é também uma fonte provável de revolta dos cidadãos europeus contra os EUA e a NATO. Brevemente escreverei sobre o sistema anti-míssil, em particular o que tem sido publicado sobre o assunto por especialistas da área.

domingo, abril 22, 2007

84,5% de participação

A taxa de participação desta primeira volta das eleições presidenciais francesas é invejável no mundo democrático. Sublinhe-se que esta taxa de participação não é fruto de histeria provocada por guerras ou por atentados terroristas, trata-se de uma iniciativa massivamente cidadã perante as importantes encruzilhadas em que se encontra a França e a Europa.

O discurso de Ségolène Royal foi estranhamente rígido, deixou no ar a ideia que Ségolène não se encontra em perfeitas condições físicas. O que é preocupante dado que as sondagens não lhe são favoráveis. Infelizmente, e por culpa do fraco programa da própria Ségolène, é muito forte a probabilidade da Europa voltar a ter um Aznar, um governante que assanha os seus cidadãos uns contra os outros e que se comporta como um cãozinho de companhia dos EUA.

Figuera dé Foss

"Figuera dé Foss! (...) Do you know Figuera dé Foss?", perguntou-me. (...) Eu sou da Figueira da Foz", respondi-lhe. (...) Roy foi contando a sua história. Que o lugar que tinha gostado mais na sua viagem pela Europa era a Figueira: tinha lá ficado dois meses. (...) "a real nice little town", com as casinhas ordenadas à volta da baía.
Casinhas ordenadas? "Há quanto tempo foi isso, Roy?", perguntei, já meio desconfiado. "Acho que foi em 74 ou 75". (...) [Nessa altura] de facto, a Figueira era uma cidade de casinhas ordenadas à volta da baía. Se ele visse a marginal agora, até chorava. A especulação imobiliária, o vandalismo do cimento começou no início da década de 80, alguns anos depois de Roy ter passado dois meses na "nice little" Figueira. (...) Quando começou o processo de destruição de uma das marginais mais elegantes de Portugal eu já tinha olhos para ver: e lembro com nitidez uma sucessão de mansões fantasiosas em frente ao mar, e habitações simples mas coerentes atrás dessa primeira linha de riqueza e bo-tom. Não ficou uma casa em pé.
(...) "Não voltes", disse-lhe, com um sorriso triste, "é o meu conselho". Roy ficou a pensar que era por ser uma cidade da Europa, uma cidade muito cara.


"No princípio estava o mar", Gonçalo Cadilhe, pag.198-201.

quinta-feira, abril 19, 2007

Túnel Marquês: obra faraónica, errada e centralista

Os custos do novo Túnel do Marquês já vão em cerca de 19 milhões de euros e "ainda não estão fechados" como afirmou o próprio Carmona Rodrigues. O Túnel é uma obra estrategicamente errada que vai contra todas as regras actuais de organização das grandes cidades. A subida do preço do petróleo, a escassez prevista deste recurso e o aquecimento global irão obrigar inevitavelmente a que as grandes cidades organizem prioritariamente a sua mobilidade em função dos transportes públicos e não em função do transporte individual e poluente, como é o caso do automóvel. Ao contrário do que se pretende através da abertura do Túnel do Marquês, o acesso do automóvel ao centro das grandes cidades deve ser progressivamente limitado e não aumentado ou facilitado. Ao contrário da filosofia subjacente à obra do Marquês, é ao transporte público que deve ser facilitado o acesso e a mobilidade dentro do espaço urbano. Não se pense que este erro não comportará custos adicionais ao custo efectivo da obra (ainda não fechado). A obra incitará a mais investimento errado em mais transporte individual, carburante e a tudo o que lhe está associado, a que se somam os custos inerentes à emissão de mais gases de feito de estufa e retira desnecessariamente potenciais clientes aos transportes colectivos de Lisboa que são pagos pelos contribuintes de todo o país. Estranho que no recente frenesim de exigência de estudos de obras públicas (que acho muito bem) não se tenha discutido publicamente o custo/benefício desta obra.
No próximo dia 25 de Abril, no momento da sua inauguração, o Túnel do Marquês será já uma obra obsoleta, desnecessária e com custos futuros que se acumularão à factura que continua a subir.

Esta obra é também um símbolo do centralismo deste país. Um país que está a cometer um interioricídio arrepiante, enterra mais de 19 milhões de euros numa obra desnecessária mesmo no umbigo da capital, quando no resto do país existem carências de toda a ordem nos transportes urbanos, nos transportes ferroviários e rodoviários entre cidades e projectos essenciais que não saem do papel há décadas (ex: metro de superfície de Coimbra).

quarta-feira, abril 18, 2007

terça-feira, abril 17, 2007

Angel



"Angel" de François Ozon é baseado no romance do mesmo nome da escritora inglesa Elizabeth Taylor publicado em 1957. "Angel" narra a ascensão meteórica de uma escritora de romances populares de origens modestas à nata do meio literário londrino. Angel é uma mulher muito ambiciosa que não se inibe de usar todo o poder que o sucesso lhe conferiu para atingir os seus objectivos, renegando as suas origens, manipulando os que lhe são próximos e alimentando um romance amoroso de fachada. Vi neste "Angel" uma espécie de Citizen Kane no feminino, uma parábola onde outros tipos de ambição e de poder são capazes de cegar e de corromper o espírito de uma mulher. Apesar de correr o risco de encalhar em estereótipos, o próprio nome da mansão de Angel, Paradise, simboliza o fantasma absoluto em que Angel se revê, de mulher imaculada readmitida no jardim de Deus, da mesma maneira que o nome da mansão de Kane, Xanadu (a capital do Império Mongol), simboliza o fantasma do supremo poder masculino, o desejo de ser o imperador.
Concordo em absoluto com o David Luz, Romola Garai (Angel) é um nome a fixar, sem ela "Angel" seria outro filme, certamente mais pobre.

segunda-feira, abril 16, 2007

Se fosse francês votaria Dominique Voynet

Votaria Dominique Voynet sobretudo pelo seu europeísmo empenhado e entusiasta e pelo seu programa económico e social que é o que responde de uma forma mais abrangente a todos os principais desafios dos tempos que se aproximam. É um programa verdadeiramente de esquerda, mas de uma esquerda que não faz broches ao marxismo. No entanto, a campanha de Voynet fica fragilizada pelas divisões dentro dos Verdes, pela candidatura de José Bové, pelo efeito mediático do Pacto Ecológico de Nicolas Hulot e pela ausência de Cohn-Bendit. As sondagens apontam resultados modestos, a que a repetição da sua candidatura não é alheia. É pena.

Ségolène Royal

Um programa confuso, fraco e que tenta pescar de uma forma atabalhoada em várias frentes, até na frente anti-europeísta do PS representada por Fabius, fazem de Ségolène a maior decepção da esquerda francesa. Como há 5 anos atrás, teme-se o pior nas hostes do PS.

sábado, abril 14, 2007

A universidade privada (caixa de comentários)

"Sou licenciado numa universidade privada mas muitas vezes ao longo do curso me perguntei se ela não precisava de ser fechada. Muitas vezes de qualidade de ensino não tinha nada, e grande parte dos meus colegas pensavam o mesmo. Várias vezes sem professores mas as propinas tinham de ser pagas, quer houvesse professores ou não. Quer houvesse aulas ou não, quer os professores tivessem qualidade ou não."
Miguel (A Embaixada)

sexta-feira, abril 13, 2007

Aldrabice de CV e os cargos políticos não-eleitos

Desde que se iniciou a prática (de louvar) de publicação de CV dos políticos na internet, reparei na trapalhada e na aldrabice pegada que se praticava com intuito de encher com linhas e linhas de palha as biografias e os CV dos titulares de cargos políticos. Uma artimanha muito utilizada é a de que político X frequentou o MBA ou a pós-graduação da Universidade Y ou Z (ex: CV de Morais Sarmento na anterior legislatura). Frequentou? Como é que prova que de facto frequentou? Qualquer um pode encher linhas de CV com frequentou... No entanto, reparei em algo bem mais grave: um intenso cheiro a esturro a diplomas comprados. A proliferação de universidades privadas que passam diplomas sem controlo do respectivo Estado é um esquema a que recorrem muitos políticos medíocres, casos de insucesso escolar, mas de sucesso estrondoso no carreirismo político.

O caso toma contornos de maior gravidade quando alguns destes políticos medíocres, recorrendo a diplomas forjados, acedem a cargos políticos técnicos (assessores, conselheiros, etc.) para os quais não precisam de ser eleitos, mas precisam de um diploma no CV que justifique a escolha do político responsável pelo gabinete que os acolhe. Pior ainda, são aqueles que no fim de uma legislatura recebem como presente um alto cargo bem remunerado numa empresa pública justificado por uma falsa competência que consta do seu CV. Desconfio que se investigassem quantos diplomas foram comprados em universidades estrangeiras (deixo aqui uma dica: Boston, EUA) por assessores de ministros e por titulares de altos cargos em empresas públicas que vieram da política poderiam descobrir todo um miserável mundo de falsificação de carreiras político-profissionais.

Uma palavra a José Sócrates
O CV de José Sócrates foi pelo menos antecipado por alguém, por esse alguém que escreveu que Sócrates era licenciado em Eng. Civil antes de o ser. A trapalhada mesmo não sendo intencional funde-se no oceano de aldrabice e de trapalhadas dos CV dos políticos.
Trapalhadas destas são desmotivadoras para quem trabalha no meio científico, por exemplo. Um CV de um investigador com uma gaffe desse calibre dá direito a exclusão da generalidade dos concursos individuais e a projectos...

quinta-feira, abril 12, 2007

Ciclo Stephen Frears no canal ARTE

A partir de hoje o canal ARTE vai passar um ciclo de cinema dedicado ao realizador Stephen Frears, o realizador de "A Raínha". É uma oportunidade para rever "The Snapper" e "Ligações Perigosas", entre outros.

terça-feira, abril 10, 2007

A universidade privada em Portugal

A história da universidade privada em Portugal é uma triste história. Salvo algumas honrosas excepções, como a Católica, a generalidade das universidades privadas nacionais vivem da ganância, da chulice à custa dos alunos e do xico-espertismo dos seus gestores. Por exemplo, a investigação - uma das tarefas fundamentais de uma universidade - é praticamente inexistente no ensino privado. Quer isto dizer que o contributo das universidades privadas para o conhecimento da sociedade portuguesa é quase nulo, as privadas funcionam como se fossem escolas secundárias para meninos com mais de 18 anos. Mais grave ainda é que estas instituições nem se podem queixar de falta de verbas para a investigação. Basta ver o número de projectos propostos por universidades privadas ao último concurso aberto a todas as áreas da Fundação para a Ciência e a Tecnologia para percebermos o desinteresse brutal destas instituições pela investigação.

Como é que se resolve o assunto?
Definindo critérios claros sobre as funções e os objectivos de cada tipo de instituição de ensino superior (sobre formação, serviço à sociedade e investigação), elevando a fasquia dos critérios de avaliação e aumentando a frequência das inspecções ao trabalho das instituições. Depois é fechar o que se tiver de fechar, doa a quem doer, este é um assunto demasiado sério para se dar o benefício da dúvida a xico-espertos.

segunda-feira, abril 09, 2007

Já não há pachorra

-Para a pseudociência à portuguesa muito bem denunciada neste texto do Filipe Moura.
-Para as maçadas de Vasco Pulido Valente muito bem caracterizadas pela Fernanda Câncio.

domingo, abril 08, 2007

Inland Empire - A woman in trouble

"Inland Empire" de David Lynch é de longe o filme mais experimental e mais original do autor. A particularidade desta obra de Lynch consiste na representação sistemática do imaginário dos personagens, dos seus fantasmas, das suas angústias, traumas, etc., em simultâneo com a própria realidade. Ao contrário de Mulholland Drive, nesta obra Lynch não faz cedências ao espectador introduzindo pistas triviais que permitam distinguir entre a representação do real e do imaginário. Ambos se fundem e confundem, tal como acontece nas reflexões que condicionam os nossos actos. É esta a a grande dificuldade mas também o grande interesse deste filme.

Quando Lynch iniciou as filmagens de "Inland Empire", o guião do filme estava em grande parte por definir e isso é perceptível ao longo do filme. A trama segue as angústias de Nikki Grace - a woman in trouble tal como a define o subtítulo - recuperando alguns dos temas centrais de Mulholland Drive como o fascínio destrutivo que exerce a indústria cinematográfica e os sacrifícios e as angústias que os aspirantes a actores estão dispostos a tolerar para conseguir um lugar ao sol. Inland Empire é a zona de Los Angeles onde residem os actores que ainda não são suficientemente ricos ou famosos para morar em Bevery Hills. Inland Empire é pois o limbo entre o anonimato e o estrelato em Hollywood. Grace (Laura Dern) tem como parceiro de primeiro filme Devon Derk. Após a rodagem de algumas cenas, Grace inicia um relacionamento amoroso extraconjugal com Derk. A partir desse momento o personagem Derk desaparece do filme e iniciamos uma viagem intensa através dos mini-universos interiores de uma Grace que entra num processo de culpabilização doloroso. Em cada mudança de cena Grace salta para uma nova caixa simbólica, um novo mini-universo, que se confunde com a realidade. De tal modo é baralhada a realidade com o imaginário de Grace que a relação com Derk parece uma sofisticada construção justificativa para o dilema de Grace: "ser puta ou não ser puta". A ideia é repetida várias vezes ao longo do filme através da representação de um grupo de mulheres de comportamento suspeito que interpelam Grace de uma forma sugestiva.
Mais do que tentar descodificar aqui o significado complexo de cada um dos elementos simbólicos que compõem a trama deste Inland Empire, convido vivamente o leitor a ver esta nova obra de David Lynch. O filme de Lynch vale mais pela originalidade e pela ousadia experimental do que pela estética e pelo tema abordado. Este Inland Empire é um filme que deve ser visto e revisto, no entanto as cerca de três horas de filme e uma estética por vezes pouco cuidada na transposição entre algumas cenas mais experimentais são pouco convidativas a revisionamentos integrais desta interessante obra cinematográfica.

Vive la France!
"Inland Empire" é o segundo filme francês (com algum financiamento americano e polaco) de David Lynch, depois de "Mulholland Drive", e a prova de que a excepção cultural francesa é actualmente o abono de família de algum do melhor cinema de autor que se vai fazendo nos EUA, em contraponto com o deserto criativo que a "mão invisível" de Hollywood inflinge ao cinema americano.

segunda-feira, abril 02, 2007

Bússola para Inland Empire: Žižek

Žižek recorre frequentemente à obra de David Lynch para ilustrar as suas reflexões sobre o real e o imaginário. Na filmografia de Lynch ambos os aspectos se fundem em filmes como "Lost Highway" ou "Mulholland Drive", tal como se fundem nos nossos cérebros. O problema é que não estamos habituados a ver a representação dessa fusão fora do nosso mundo interior, especialmente numa tela cinematográfica. A obra intitulada "The Art of the Ridiculous Sublime: On David Lynch's Lost Highway" de Žižek poderá ser uma boa bússola para orientar o espectador ao longo das quase três horas do novíssimo filme de David Lynch, "Inland Empire".

Parabéns Ticha



Mais um título para a Ticha Penicheiro (segunda a contar da direita), desta vez foi o Campeonato Europeu de Clubes, pelo Spartak de Moscovo. Continua a deslumbrar-me a carreira daquela menina que em tempos acompanhava o pai, meu treinador de iniciados, aos treinos e aos jogos e andava lá pelos cantos do pavilhão a driblar a bola e a resmungar sozinha.

sábado, março 31, 2007

Sábado em Coimbra XXXIV: Requiem pela Rua Direita

Rua Direita, Rua Direita, essa rua torta,
que vai do Terreiro da Erva à Igreja de Sta. Cruz
onde se confessa a via romana da ex-Aeminium,
os pecados por ali sempre se pagaram, mas nunca se apagaram.

...eis que chegam os bulldozers,
essas borrachas rotring da santíssima trindade.
Em nome da Câmara, da Académica e do Grupo Amorim, Ámen!

Sábado em Coimbra XXXIII

quinta-feira, março 29, 2007

A esquerda e a Europa

Ler extractos da entrevista de Mário Soares ao Público sobre a Europa, via O Avesso do Avesso. Destaco:

"Eu costumo dizer que não há ninguém de esquerda que não seja também europeu. Se a esquerda não é europeia não é nada."

Desconfio que Mário Soares está carregadinho de razão. O que é certo, é que a esquerda anti-europeísta existe. Existe e é de uma tristeza política confrangedora. É triste esquerda rimar com populismo, com desconfianças nacionalistas, com masturbações patrioteiras, com saudosismos pseudo-revolucionários, com negacionismos históricos, etc. Refiro-me a quem? Ao PCP, PCF, PCdI, Links Partei, PC Checo e ao PS de Fabius.

terça-feira, março 27, 2007

Excelente documentário de António Barreto

Já aqui malhei forte e feio em António Barreto, e não me arrependo, porque acho que Barreto errou, e errou muito, sobre o que escreveu sobre a educação, o ensino superior e a investigação científica. Mas, depois de ter assistido ao primeiro episódio da série "Portugal - um retrato social", não posso deixar de aplaudir com muita satisfação o excelente trabalho por ele realizado na produção desta série. Uma coisa é vociferar e entrar em histeria inconsequente contra o Salazarismo, outra é mostrar, quase sem grandes comentários, o país de merda que era Portugal antes do 25 de Abril.

50 anos depois (caixa de comentários)

Recortes da caixa decomentários da entrada "50 anos depois":

"É um projecto que terá as suas dificuldades próprias, mas se a Europa se pacificou e se desenvolveu, foi graças à superação de paradigmas passados. É uma aventura que vale a pena. Muitos dos problemas que apontou resolvem-se com mais e melhor Europa. Não posso, aliás, deixar de recordar o contributo das teses federalistas para a Europa. Kant é uma boa leitura para estes dias. Tomara, nos quatro anos de invasão do Iraque, que fosse um pouco mais considerado." Sérgio

"Juntar 25 países com culturas e hábitos diferentes, criar uma moeda única, um parlamento e regras únicas é um feito de saudar." Papalagui

"Não creio que a UE seja subserviente face aos EUA. Enquanto o RU é fortemente atlantista, a França é muito céptica face à América. Repara que se algum dos países for atacado, a NATO, como aliança é obrigada a intervir. É ela, portanto, e não a UE, que tem garantido a paz na Europa." David Luz (Linha dos Nodos)

sábado, março 24, 2007

50 anos depois

A Europa ainda tem muita coisa a melhorar, mas é preciso não esquecer que em nenhuma outra região do mundo se foi tão longe na ecologia, na redução do horário de trabalho, no tempo de férias, na cobertura social, na aposta da diplomacia internacional, na luta contra a exclusão, na sexualidade, na paridade, na laicidade, na integração de países vizinhos mais pobres (da Irlanda à Bulgária) por países mais ricos, na qualidade de vida e no desenvolvimento sustentável. Tudo isto aconteceu num quadro de diversidade impressionante de tendências e de pensamento político (do Parlamento Europeu aos parlamentos nacionais), diversidade cultural, linguística e espiritual. É um património assinalável que não se deve desbaratar em nome de tácticas políticas efémeras.

No entanto, a imigração, as relações de comércio externo com os países em vias de desenvolvimento, a exploração da mão-de-obra nesses países, a fraca transposição da produção científica para a tecnologia ao serviço da sociedade e a subserviência à NATO/EUA, continuam como os pontos negros da UE. Cabe-nos a nós construir a Europa dos próximos decénios revolucionando o necessário da política para eliminar estes pontos negros. Isso não se faz a olhar para o umbigo de cada país, nem a olhar para os outros povos como corpos estranhos. A força da UE é fazer melhor em conjunto do que o resultado da soma das partes separadas. É nesta espírito que identifico com a Europa e me considero Europeísta, e não porque ache que a Europa é um continente especial ou que o continente tenha sido iluminado pelas pontas dos dedos do Altíssimo quando este criou os animaizinhos, as arvorezinhas e os homenzinhos.

quinta-feira, março 22, 2007

Como o planeta "respira" o CO2



Esta extraordinária animação construída com os dados do satélite Envisat da ESA, mostra a variação da concentração de dióxido carbono na atmosfera terrestre entre 2003 e 2005. É impressionante verificar como a sua quantidade diminui significativamente na Primavera e no Verão à medida que a vegetação do hemisfério norte vai crescendo - o hemisfério sul tem menos área continental e por isso menos vegetação - e o efeito inverso no Outono e no Inverno.
Abaixo a concentração de metano no mesmo período.

Críticos de cinema do Público (comentários)

"Era interessante procurar uma correlação estatística entre o número de estrelas dadas aos filmes e as distribuidoras, e depois procurar verificar se os jornais e as distribuidoras têm interesses comuns", David Luz.

Pois era...

"Realmente é espantosa a quantidade de filmes que só são vistos por um ou dois críticos. Conheço cinéfilos que vêem mais filmes que certos críticos!", David Luz.

Eu também.

quarta-feira, março 21, 2007

Críticos de cinema do Público vão juntos ao WC?

Ocorreu-me esta pergunta ao apreciar esta página de cinema do Público de nome sugestivo: topFilmz. Na página topFilmz encontramos as estrelinhas dadas pelos críticos de cinema do Público. Passem os olhos pela página, vale a pena... Reparem que o acaso faz que os quatro críticos do Público só atribuam 5 estrelas ao mesmo filme, a película "Cartas de Iwo Jima" de Clint Eastwood. Se passarem os olhos pelo resto, mais estrela menos estrela, os críticos do Público estão basicamente de acordo. O filme Babel é a prova dos nove sobre o que estes críticos odeiam em cinema (eu percebo-os, andar de autocarro sem ar condicionado em Marrocos no meio de terroristas perigosíssimos é chato). Fica a sensação que a crítica de cinema do Público é feita por um grupo de amigos. Mas não, é mais forte do que isso. Pensando bem, se juntarem os vossos três melhores amigos que gostam de cinema muito dificilmente conseguiriam uma tabela de estrelinhas tão bem comportada como esta. A comunhão de gostos dos críticos do Público é tal que só pode ser explicada, ou por uma formatação e uniformização cerebral colectiva resultado de anos e anos a ver o mesmo tipo de filmes, ou por "exigências maiores" da indústria de distribuição cinematográfica. Acredito mais na primeira hipótese.

Conclusão
O Público não precisa de pagar a 4 críticos de cinema. Poderia despedir três e pagar apenas a um crítico. Ao Jorge Mourinha, por exemplo, que é o único que se dá ao trabalho de levantar o traseiro para ir ao cinema. Este assinaria a atribuição de estrelas juntamente com três nomes fictícios diferentes, tirava uma estrela aqui, adicionava outra ali e o resultado para o leitor seria exactamente o mesmo.

terça-feira, março 20, 2007

Sobre o filme As Vidas dos Outros

Ler o comentário do Luís ao filme As Vidas dos Outros na Natureza do Mal. Destaco:

"Estranhamente, não chega conquistar um Óscar, um êxito razoável de bilheteira no Reino Unido para escapar a uma exibição discreta em salas secundárias da capital de um Império que também já foi. O fascismo nunca existiu, já se sabe. E aquele comunismo, camaradas, também não."

Broches a uma ideologia que é contra a ciência

O programa e os painéis do colóquio "Darwinismo versus Criacionismo - Onde começa e onde acaba uma teoria científica" (via Causa Nossa), organizado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, deixam entender que se vai explicar porque é que o Darwinismo é ciência e o Criacionismo (desenho inteligente incluído) não é ciência nenhuma. No entanto, há dois reparos importantes a fazer.

Primeiro, o título lança desnecessariamente alguma confusão sobre o assunto, pois o Darwinismo não pode ser comparado com o Criacionismo à luz da ciência. Compará-los tem tanto significado como comparar batatas com sereias. O Darwinismo é perfeitamente fundamentado pela ciência - há poucas teorias para as quais tenham sido reunidas tantas provas que as validem - enquanto o Criacionismo (e a sua última moda do desenho inteligente) não tem qualquer base científica, não existe qualquer trabalho científico válido que verifique as hipóteses de base criacionista.

O segundo reparo a fazer a este colóquio é que se trata de mais um broche à ideologia neoconservadora com origem nos EUA, que é a única ideologia hoje em dia que alimenta este tipo de pseudociência. Quem conhece um bocadinho os manobrismos que os neoconservadores ensaiam na Europa, sabe muito bem de onde surgem este delírios. Fundaçõezinhas e fundaçõezecas, do tipo da fundação do mafioso George Soros, multiplicam-se pelo continente europeu, principalmente na Europa de Leste com o objectivo de evangelizar os europeus aos maiores delírios do neoconsevadorismo americano. O menu neoconservador é composto por uma catequese espiritual e outra materialista. A catequese materialista baseia-se no ultraliberalismo do Estado Mínimo contra o Modelo Social Europeu. A catequese espiritual baseia-se no combate cerrado à ciência, através do negacionismo do Darwinismo, do Big Bang e do Aquecimento Global. Os recentes desenvolvimentos científicos sobre as alterações climáticas desferiram um rude golpe à ideologia neoconservadora, mas o dinheiro dos poços de petróleo continua a jorrar para alimentar os delírios pseudo-científicos. Infelizmente, este colóquio tem tudo para ser considerado mais um broche à ideologia neoconservadora do que propriamente uma oportunidade para esclarecer o grande público sobre a importância do método científico na complexidade das sociedades actuais.

segunda-feira, março 19, 2007

Depois digam que a culpa é da Europa...

É escandalosa a situação dos ex-trabalhadores da Companhia Portuguesa do Cobre que continuam com verbas avultadas para receber por o Estado ter aplicado só em 2000 a directiva comunitária dos anos 80 que obriga à criação do Fundo de Reserva de Garantia Salarial. A legislação vigente em 1996, na altura da falência, dava prioridade às dívidas aos bancos. Os bancos receberam, os trabalhadores também não...

domingo, março 18, 2007

Taxi Driver

"Taxi Driver" é o meu filme preferido de Martin Scorsese - não vi o premiado "Entre Inimigos", o remake de "Infernal Affairs" de Wai Keung Lau. Em "Taxi Driver", Scorsese explora até ao absurdo a diferença entre a justiça e o justiceiro da selva urbana. É de certo modo uma recriação do tema de "Fury" realizado em 1936 por Fritz Lang, adaptando o tema da justiça pelas próprias mãos aos anos 70, ao ambiente urbano de uma grande cidade e à desumanização das sociedades modernas. Em "Taxi Driver", Robert de Niro interpreta o excelente papel de Travis Bickle, um taxista solitário e desequilibrado que decide fazer justiça pelas suas próprias mãos para purificar a cidade, fazendo uso da força das armas e da moral de pacotilha. Jodie Foster (com apenas 14 anos) interpreta uma prostituta a quem Travis vai convencer a deixar a "má vida".

Apesar de "Taxi Driver" levar ao absurdo a fúria justiceira, é um filme sempre actual, sobretudo porque as grandes cidades das democracias modernas, só são modernas até à profundidade da primeira camada de verniz. Daí para baixo, ainda não se percebeu como funcionam os mais básicos pilares da justiça, não se distingue entre justiça e vingança e aplaude-se com frequência os Travis deste mundo.

sexta-feira, março 16, 2007

Mares nunca antes navegados

A sonda Cassini da NASA descobriu a existência de mares no planeta Titã. Quem estiver a pensar ir lá mandar em mergulho pode tirar o cavalinho da chuva, são mares de etano ou de metano líquido.

quarta-feira, março 14, 2007

Verdades do Iraque como azeite em copo de água

Para quem tinha lido o livro "Disarming Iraq" de Hans Blix, as suas declarações de manipulação por parte dos governos britânico e americano do relatório sobre as armas de destruição em massa (ADM) não são grande novidade. Em "Disarming Iraq" já está lá tudo, num livro muito interessante nunca traduzido para português, vá-se lá saber porquê...

Aqui fica uma entrada de 11 de Outubro de 2004 em que comento as denúncias de Hans Blix em "Disarming Iraq" sobre o processo de inspecções de ADM.

segunda-feira, março 12, 2007

O negacionismo da teoria da evolução na ARTE

Hoje no canal ARTE, pela 21h20 de Portugal, é transmitido um documentário intitulado "La Science en Guerre" sobre o delírio negacionista da teoria da evolução de Darwin que grassa nos EUA.

O secundário mal feito de Helena Matos

Esta crónica do Rui Tavares publicada no Público sobre um texto de Helena Matos (suponho publicado no dia anterior no mesmo jornal) deixou-me com os cabelos em pé tal é o grau de ignorância científica (nível escola secundária) que Helena Matos evidencia. Não tenho o texto completo da Helena Matos, por isso corro algum risco de ser injusto, no entanto o parágrafo abaixo transcrito e as citações entre aspas são suficientes para perceber que a Helena Matos não domina nem de perto nem de longe uma das matérias essenciais do ensino secundário: o Método Científico. Eis o referido parágrafo:

Haverá alguma correspondência, como sugeriu ontem Helena Matos, entre os profetas religiosos que declaravam que as catástrofes naturais eram provocadas pelo pecado e aqueles que hoje identificam causas humanas nas alterações climáticas? Poderá considerar-se que a crença numa e na outra coisa é “uma atitude igualmente supersticiosa”? Será legítimo concluir que “onde uns colocavam a vontade de Deus coloca-se agora o equilíbrio da Terra”? Rui Tavares

Qualquer estudo científico moderno está sujeita aos critérios rigorosos e absolutamente cépticos do método científico. De uma forma simplificada podemos dividir o Método Científico em quatro passos:

1- Observação
2- Hipótese
3- Previsão
4- Experimentação

Só depois de um fenómeno ter sido estudado rigorosamente através deste método é que os cientistas produzem uma conclusão fundamentada, conclusão essa que tem sempre um determinado grau de certeza. No caso do aquecimento global, os 1000 melhores investigadores do mundo (de 130 países) em climatologia, depois de 6 anos de trabalho, determinaram um grau de certeza superior a 90% para a origem humana do fenómeno. Ora os profetas religiosos, a superstição, "a vontade de Deus" e o próprio raciocínio da Helena Matos não passam por este processo rigoroso de estudo e por isso mesmo não são ciência, são palpites muito pobrezinhos.

O problema é que a ignorância do que é o método científico tem sido recorrente entre os textos negacionistas do aquecimento global, não é só Helena Matos, são também as toneladas de textos do Blasfémias (todos sobre o criacionismo), do Insurgente, do Mitos Climáticos e do Luciano Amaral no DN a evidenciar o mesmo problema.
Não é por uma falha no programa das escolas secundárias que este flagelo intelectual grassa no país, lembro-me de ter dado o método científico em duas disciplinas: filosofia e física&química. A raiz do problema está na fraquíssima cultura científica do nosso país. Este défice científico da nossa sociedade impede que a maior parte dos cidadãos não perceba que saber o método científico é tão importante como saber a gramática ou história de Portugal.

sábado, março 10, 2007

20% de energias renováveis na UE até 2020

A decisão de ontem do Conselho Europeu em estabelecer uma meta de consumo de 20% de energias renováveis no horizonte de 2020 no espaço geográfico abrangido pela UE, é uma decisão histórica, que vai no sentido das boas políticas de combate ao aquecimento global, no entanto as respectivas negociações foram ensombradas por dois detalhes não desprezáveis. O primeiro foi a intransigência da França e de alguns países de leste onde o consumo de energia de origem nuclear é maioritário, em aceitar a meta de 20% como uma meta individual, para cada país. A decisão de 20% ficou assim estabelecida como uma média de consumo energético de toda a UE, quer isto dizer que alguns países vão fazer um esforço maior no sentido do consumo de energias renováveis para compensar a aposta nuclear da França e dos referidos países de leste. O segundo detalhe negativo, é a indiferença dos EUA em relação à decisão. Na minha opinião está na altura da UE interpelar seriamente os EUA sobre a essência da palavra aliado. Não se pode ter a pretensão de ser um aliado de armas e depois pela calada do fumos das chaminés contribuir para destruir o planeta, destruindo tudo a eito, aliados e inimigos, não faz sentido.

quinta-feira, março 08, 2007

Serviço público...

A RTP continua na sua senda de canal pimba, seguindo o estilo SIC/TVI. Hoje a soirée da RTP internacional é dedicada à Gala dos 103 anos do Benfica. No próximo dia 1 de Maio, espero que sejam coerentes e não se esqueçam de transmitir o Monumental Digestivo directamente do Café Nau que se segue à jantarada comemorativa dos 114 anos da Naval.
A RTP poderia até tornar-se um canal especializado em aniversários de clubes, ou mesmo em baptizados ou casamentos de dirigentes, de associados e de massagistas...

terça-feira, março 06, 2007

Melhores momentos das presidenciais francesas

Sem dúvida, os melhores momentos destas presidenciais francesas são dois grandes momentos de participação cidadã:

- O Pacto Ecológico proposto por Nicolas Hulot aos candidatos presidenciais. Um pacto que compromete o futuro presidente francês a uma série de medidas para a protecção do ambiente.

- O Contrato Social e de Cidadania apresentado pelo colectivo AC Le Feu, constituído por jovens das cités fartos de carros queimados e de políticos autistas.

sábado, março 03, 2007

Aquecimento Global Hoje

A ler o texto do David Luz na Linha dos Nodos sobre a importância do estudo dos polos no estudo do aquecimento global.

Ler este texto do Alexandre Andrade no Um Blog sobre Kleist relembrando a verdadeira natureza sobre o sítio Junk Science (já faltou menos para o Blasfémias promover a astrologia a ciência exacta), já aqui denunciado numa entrada anterior. E um grande parabéns para o Alexandre e para o seu excelente e delicioso blogue.

O Nuno Ferreira do Aba de Heisenberg tem esta entrada que ilustra com clareza o fundamento científico das opiniões dos negacionistas do aquecimento global.

Aniversários

O Avesso do Avesso foi uma grande aquisição para a blogosfera nacional, está de parabéns o Filipe Moura.

Apesar de traulitada que chove às vezes daqui para lá e de lá para cá, os meus parabéns à malta do Blasfémias, sobretudo ao desportivismo de alguns dos seus escribas.

sexta-feira, março 02, 2007

As Vidas dos Outros

"As Vidas dos Outros" é na minha opinião um dos melhores filmes de 2006. O grande interesse desta obra de Florian Henckel von Donnersmarck - Filme Europeu do Ano e Oscar para o Melhor Filme Estrangeiro - é o de mostrar até que ponto a polícia política da ex-RDA era capaz de corromper a alma dos cidadãos, mesmo dos que se esforçavam para não pactuar com o regime. O filme abre com um interrogatório a um preso político que evidencia dois aspectos tenebrosos. Primeiro, é difícil não associar o efeito produzido pela farda de Gerd Wiesler e o ambiente de interrogatório, às fardas e aos interrogatórios do período nazi. Para muitos Stasis o fim da Segunda Guerra Mundial constituiu apenas uma pequena mudança de adereço da farda, onde a suástica foi substituída pela foice e o martelo. Em segundo lugar, o interrogatório em si, acompanhado pela sua explicação académica apresentada numa sala de aula, mostra a verdadeira essência da perseguição política. Curiosamente, outro alemão, o padre jesuíta Friedrich von Spee já tinha escrito em 1631 a propósito da inquisição e da caça às bruxas, na obra Cautio Criminalis, algo que ilustra na perfeição a natureza destes interrogatórios:

"[A acusada de bruxaria] ou levou uma vida de pecado e indigna, ou levou uma vida boa e respeitável. No primeiro caso, deve ser considerada culpada. Por outro lado, se levou uma vida boa, também deverá ser condenada, pois as bruxas são dissimuladas e tentam parecer particularmente virtuosas"

Preso por ter cão e por não ter, assim foram as perseguições políticas tanto na comunista RDA como no Portugal fascista de Salazar e Caetano. Aliás o filme mostra isso mesmo, mostra que os métodos das ditaduras comunistas eram muito parecidos com os das ditaduras fascistas.



A narrativa de "As Vidas dos Outros" segue o trabalho do stasi Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) que tinha por missão escutar e investigar a vida privada de Dreyman, um intelectual objecto de suspeita do regime. Seguimos primeiro as suas certezas, depois as suas dúvidas, enquanto isso as vidas dos outros, de Dreyman e da sua companheira Christa-Maria (Martina Gedeck) vão-se degradando. O efeito corrosivo do regime é tal que atinge as mais sólidas relações amorosas.

Martina Gedeck tem neste filme mais uma das suas grandes interpretações do ano, depois de "Partículas Elementares". Aqui na Klepsýdra é já considerada uma das melhores actrizes deste nosso planeta azul.

quinta-feira, março 01, 2007

Leituras: Luísa Schmidt e Stephen Cohen

Muito bom o artigo "Alterações Cirúrgicas" de Luísa Schmidt publicado no Expresso desta semana na revista Única que denuncia as medidas de cosmética ambiental lançadas por Sócrates que muito pouco fazem por um real combate ao aquecimento global.
(voltei a pesar o Expresso e anotei um quilo e meio a menos que há 3 meses atrás)

Muito bom o artigo "A Nova Guerra Fria Americana" de Stephen Cohen no dossier da na Courrier International (CI) desta semana dedicado às relações Rússia-EUA (publicado no The Nation em Julho de 2006). Referindo-se às relações dos EUA com Rússia depois do fim da Guerra Fria, Stephen enuncia uma série de factos que parecem demonstrar que os EUA continuaram a avançar em direcção à Rússia mesmo depois da Guerra Fria ter findado.
Aqui fica a conclusão da versão curta publicada na CI:

"The extraordinarily anti-Russian nature of these policies casts serious doubt on two American official and media axioms: that the recent "chill" in US-Russian relations has been caused by Putin's behavior at home and abroad, and that the cold war ended fifteen years ago. The first axiom is false, the second only half true: The cold war ended in Moscow, but not in Washington, as is clear from a brief look back."