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terça-feira, julho 10, 2007

O pão nosso de cada dia (caixa de comentários)

O direito ao contraditório do meu leitor que assina sob o nome de Lowlander à entrada "O pão nosso de cada dia":

1 - Qualidade nutritiva. Com que base e que o Rui afirma existir alguma diferenca na qualidade nutritiva dos animais produzidos em intensivo dos outros? E essencial nao confundir diferentes pontos da cadeia alimentar. Os problemas nutricionais actualmente existentes nas populacoes sao consequencias do processamento terciario de alimentos (que ocorre nas cozinhas) e nao da materia prima em si.

2 - Sabor. Mais uma vez, nao esta demonstrado convenientemente. Se comparar melhores praticas com melhores praticas de producao entre diferentes sistemas de producao e colocar consumidores de olhos vendados a testar produtos nao sao detectadas diferencas.

3 - Custo/beneficio da producao intensiva na sociedade Ocidental. Caro Rui, a producao intensiva de alimentos comecou com a revolucao industrial na agricultura e chegou a pecuaria na Europa e EUA no principio do sec. XX. Os beneficios sao indiscutiveis: o cidadao medio actual gasta menos de 10% do seu rendimento disponivel na sua alimentacao enquanto que no incio do sec. essa figura andava na casa dos 30 ou 40%. O que isto significa e que sobram recursos para as pessoas se poderem dedicar a outras actividades. A sociedade pos-industrial que actualmente procura a qualidade de vida so se pode debrucar sobre tais temas porque nao tem outras preocupacoes em mente.
Todos os indicadores que avaliam bem-estar de uma sociedade indicam claros progressos DESDE a intrudocao da agro-industria intensiva. Nao foram os avancos da medicina que impulsionaram a melhoria da qualidade de vida das sociedades, eles intensificaram tendencias ja instaladas. Os primers foram a industrializacao e massificacao da producao de todos os bens de consumo essencias entre os quais e notavelmente os bens alimentares.
Concordo que o sistema induza desperdicio e excedente, no entanto, com o sistema economico actualmente em vigor, a unica forma de voce garantir as classes medias alimentos acessiveis e portanto libertar recursos para se poderem dedicar a ouras actividades e precisamente inundando o mercado.

Os sistemas de producao intensivos devem ser regulados e enquadrados. Isto e perfeitamente possivel e desejavel, as politicas da Uniao Europeia sao prova disso mesmo. No entanto esta onda de odio, ressentimento ou desdem, nao sei bem que actualmente se faz sentir em relacao aos alimentos produzidos em larga escala e mais demonstracao de ignorancia que de avanco civilizacional e pior que isso, completamente irrealista nos seus objectivos.


Caríssimo Lowlander, obviamente que estas questões não são lineares, as coisas não são a preto e branco, por isso me preocupei mais em colocar questões do que dar respostas. Alguns especialistas na área pronunciam-se de uma forma muito negativa neste trabalho ,"We feed the world", sobre a qualidade nutritiva e o sabor dos alimentos. Quanto ao ponto 3, são conhecidos todos esses milagres da revolução agrícola e industrial e eu não estou contra esses avanços, o que eu pergunto é se esses "milagres" não estão a ir longe demais e a tornar-se absurdos tendo em conta as reais necessidades de consumo, tal como aconteceu com a PAC. O objectivo inicial da PAC era acabar com a escassez de produção na Europa do pós-guerra. Esse objectivo foi rapidamente atingido, mas a PAC nos dias de hoje é obsoleta e prejudicial sobretudo para muitos produtores fora do espaço europeu.
Quanto à regulação e enquadramento, estou totalmente de acordo.

quarta-feira, maio 02, 2007

Tenho um animal morto no meu prato!

"Tenho um animal morto no meu prato!", assim exclamou um amigo, filho de emigrantes portugueses nos EUA, após regressar ao país e lhe servirem um robalo grelhado num restaurante de Peniche. Nos EUA este amigo habituou-se a comer comida embalada em caixinhas, café fechado em goblets de cartão, queijos coloridos e sem cheiro, croquetes de todos os tipos de carne moída com formazinhas do Mickey e de peixinhos iguais aos desenhos da escola primária, pipocas da cor dos marcadores fluorescentes da Stabilo e bolachas com pepitas de morango, mas sem morango, pepitas feitas de pequenas gomas vermelhas com aroma artificial a morango.

Nos EUA ninguém proibiu que se coma peixe grelhado, que se veja a cor do café, que se toque num grão de milho ou que se comam morangos frescos, mas na realidade a "mão invisível" da religião do Mercado encarregou-se de que a esmagadora maioria dos americanos já não saiba o que de facto come. Sabem que comem marcas, que comem coisas trituradas, depois enformadas e coloridas como nos filmes da Disney e de Hollywood, sabem o número dos menus do restaurante X e a cor do "queijo" (em geral são emulsões lácteas e não queijo) que sai fora da sanduíche do menu Y.

Na prática, a ideologia do ultraliberalismo, da mão invisível e do modo de vida que Pacheco Pereira defende para a Europa, responsável pela alienação alimentar da maior parte dos americanos (os mais pobres), é muito mais proibitiva, sem proibir, do que os preconceitos alimentares religiosos comuns às religiões do livro (os católicos também os têm). É particularmente uma ideologia mais proibitiva do que o Islão a quem Pacheco Pereira dedica a entrada "Daqui a uns anos, na Europa, será assim?". Na verdade, e apesar da diferença de níveis de vida, em média, a alimentação de um muçulmano é muito mais variada do que a alimentação de um americano. Se deixássemos, seria essa alimentação "americana" que a Europa teria à mesa "daqui a uns anos", nada de peixes mortos no prato, nem queijos que cheiram mal, nem legumes crus, tudo seria servido em caixinhas da Disney, com histórias dos sobrinhos do Mickey. Dos sobrinhos, obviamente! É que as criancinhas poderiam ficar chocadas se fossem filhos do Mickey. Como é que se iria depois explicar que o Mickey tem um pénis a Minie uma vagina que servem para copular e ter filhos?