quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Aborto no canal ARTE

Hoje às 20:35, no programa Zoom Europa do canal ARTE, será transmitida uma reportagem sobre os movimentos anti-aborto em Portugal. O fundamentalismo católico luso não deixa indiferente resto da Europa.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

SIM, por vergonha

No primeiro referendo à Despenalização do Aborto votei SIM por razões científicas e por achar que o Estado deve respeitar as convicções espirituais e éticas de cada um. Mas desta vez, voto SIM por vergonha.

Estava fora do país quando ocorreu o primeiro julgamento de mulheres em Portugal. Lembro-me como se fosse hoje das imagens divulgadas pela Euronews, os rostos dos meus colegas estrangeiros reflectiam uma estupefacção silenciosa. Vivi aquele momento como se tivesse vários autocolantes colados na testa: selvagem, troglodita, macho de pacotilha, etc. Alguns colegas tentaram reconfortar-me dizendo que cada país tem os seus podres e que as coisas iriam mudar, mas um colega escocês, muito franco, disse-me: "é a vossa vertente terceiro-mundista...".

Em conversas que tive sobretudo com mulheres de outros países, sempre que referia que em Portugal o aborto era crime até às 10 primeiras semanas, gerava-se um silêncio glacial, a simpatia que o nosso país desperta ao estrangeiro que não nos conhece bem desvanecia-se naquele momento. Portugal já um país que tem fama de ser desorganizado, raramente pontual e pouco credível, o circo da condenação das mulheres que abortam é mais uma camada de terceiro-mundismo que se junta às outras. Os engraçadinhos que andaram a invocar razões económicas para votar NÃO deveriam equacionar nas suas contas não só os custos dos tribunais que julgam mulheres mas também todos os empresários que não escolhem Portugal para investir pela nossa imagem retrógada (não são poucos), em que a condenação de mulheres que abortam só funciona para nos enterrar ainda mais.

Por estas razões tenho tido muito pouca paciência discutir o aborto com o lado do NÃO, desta vez defendido por alguns dos sectores mais fanáticos da sociedade portuguesa. Quando nos apercebemos que um dos grandes arautos do NÃO é João César das Neves, um cristão que tem uma tribuna num jornal intitulada "não há almoços grátis", percebe-se que estamos a discutir ao nível da anedota.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Prazeres científicos

Aquela "cruzinha" mais acima, amarela e branca, é o prazer científico da semana passada no Acelerador Europeu de Sincrotrão. Quando se perde o tino aos dias e às noites, estas coisas recompensam o espírito e fazem esquecer a decrepitude do corpo.

sábado, fevereiro 03, 2007

Como funciona um acelerador de sincrotrão?

Aqui uma animação para leigos.
A radiação gama emitida por aqueles electrõezinhos é conduzida até às linhas de serviço (beamlines) onde instalámos amostras dos elementos principais do telescópio espacial de raios gama que estamos a desenvolver.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Ponto da situação sobre Aquecimento Global

O relatório que será divulgado daqui a algumas horas pelo Painel Governamental Internacional para as Alterações Climáticas foi revisto por cerca de 2500 cientistas especialistas em climatologia e teve a contribuição escrita de mais de 1000 investigadores de 130 países. O relatório que será dividido em 4 volumes representa mais de 6 anos de trabalho. Durante todo este tempo, os investigadores envolvidos neste extenso trabalho científico levantaram-se todos os dias para ir trabalhar em assuntos complicados - em frequentes casos bem mais do que as 8 horas diárias - publicando e confrontando continuadamente as suas teorias e os seus resultados científicos com os seus pares espalhados pelo mundo. Porque é que estes investigadores continuam a ser alvo de ataques idiotas da parte de grupos de charlatães organizados, alguns bem pagos, que não investigam e que não sabem o que é a ciência? Nos dias que correm a resposta reside no fanatismo político, há uma ideologia que não está nada contente com isto, há muita coisa que cai por terra e eles sabem bem que assim é.

Um momento de humor às 5 da matina

Adoro as calinadas negacionistas do Insurgente. Esta é fabulosa:

Título irónico: "O aquecimento global não perdoa"
Entrada: "Caiu neve em Lisboa"

Conclusão: Lisboa=global, logo local=global.
O link para o Portugal Diário parece-me que ajuda a reforçar ideia.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Turno das 0 às 8

Uma maçã bem roída no fresquinho da noite de Grenoble sob o luar reflectido pelas montanhas sem neve. Observo três ou quatro coelhos que fazem sprints na relva à volta do acelerador de partículas, coelhos acelerados portanto, e eis que inicio o turno da meia-noite às 8. No cardápio que me espera constam: cálculos, parafusos, radiação e discussão, sob o síndroma da falta de sono.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Aquecimento Global hoje

Textos a não perder sobre o aquecimento global:
- Do David Luz na Linha dos Nodos: "A França face ao ambientalismo global" sobre o grande assunto de actualidade da campanha eleitoral francesa, o Pacto Ecológico de Nicolas Hulot.
- Do Nuno Ferreira na Aba de Heisenberg:"A mão humana no aquecimento global" e "O ártico sem gelo, brevemente, rapidamente..."

terça-feira, janeiro 30, 2007

Directamente de Grenoble

Durante uma semana a Klepsýdra será alimentada a partir do Acelerador Europeu de Sincrotrão, da cidade sobre a qual um dia Stendhal escreveu: "au bout de chaque rue, une montagne..."

Espero ter um bocadinho de tempo para divulgar os mistérios científicos que por aqui tentaremos desvendar.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Desnuclearização do Médio Oriente

O recente livro de Miguel Portas sobre o Líbano, "No Labirinto", que aqui comentei, lança uma ideia que defendo há muito e que pode dar um contributo importante para pacificar o Médio Oriente. Na página 196 o Miguel refere que as potências nucleares poderiam fazer uma "proposta que seguramente seduziria Teerão: a desnuclearização do Médio e do Próximo Oriente." Como é sabido Israel, a Índia e o Paquistão são os três países da região que possuem armas nucleares. No passado, dois países (a Ucrânia e a África do Sul) desmantelaram com sucesso a totalidade dos seus arsenais nucleares, logo não seria nada de extraordinário desmantelar os arsenais nucleares dos três países referidos. Dado o carácter simbólico que a acção representaria - um passo atrás do ponto de vista militar - a desnuclearização poderia aliviar um pouco a tensão política do Médio Oriente e retirar a vontade do Irão a prosseguir os seus avanços no desenvolvimento de tecnologia nuclear, sem recorrer a ameaças que só têm tido o efeito contrário ao desejado.

Grandes Momentos da 7ª Arte

A seguir no Mar Salgado grandes momentos da 7ª arte escolhidos pelo Nuno Mota Pinto.

sábado, janeiro 27, 2007

Dicas para o Não sobre julgamentos de mulheres

Registo que os defensores do Não andam muito preocupados com a vertente económica do aborto. Como já aqui tinha escrito em Março de 2005, presume-se que o João Miranda, entre outros, estão dispostos a pagar os julgamentos de mulheres acusadas de aborto. Eu acho que isso é chato. Para evitar este incómodo financeiro, basta ir ao baú das velhas e boas práticas da Igreja:

"[O Papa] Inocêncio desancadeou um movimento de acusação, tortura e execução sistemáticas de inúmeras "bruxas" em toda a Europa (...) [segundo Thomas Ady em "A Candle in the Dark"] se uma mulher for acusada de bruxaria, é uma bruxa. A tortura é um meio infalível de demonstrar a validade da acusação. A ré não tem quaisquer direitos. Não há oportunidade de um confronto com os acusadores. Dá-se pouca atenção à possibilidade de as acusações poderem ser feitas com objectivos ímpios - por ciúme, por exemplo, ou por vingança, ou pela cupidez dos inquisidores, que costumavam fiscar em seu proveito os bens da acusada. (...) [a tortura] inclui métodos de sevícias concebidos para libertar os demónios do corpo da vítima antes desta ser mortas (...) Isto tornou-se rapidamente um sistema de fraude financeira. Todos os custos da investigação, julgamento e execução ficavam a cargo da acusada e seus familiares - incluindo as diárias pagas aos investigadores privados contratados para espiar a ré, vinho para os guardas, banquetes para os juízes, as despesas de viagem de um mensageiro enviado para ir buscar um torturador mais experiente a outra cidade, bem como lenha para a fogueira, o alcatrão e a corda para o enforcamento. E havia ainda um bónus para os membros do tribunal por cada bruxa queimada. O remanescente dos bens da bruxa condenada, se ainda houvesse algum, era dividido entre a Igreja e o estado."

"Um Mundo Infestado de Demónios", Carl Sagan, Gradiva, 2002, pp. 127-129.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Bola preta para os críticos de cinema

A propósito do filme "Babel", três entradas em blogues diferentes (Almareios, Arrastão e A Natureza do Mal) coincidem na crítica aos próprios críticos de cinema nacionais. Junto-me a essas crítica. A minha crítica começa logo pela falta de exigência dos jornais na escolha dos críticos de cinema. Quem escreve sobre cinema em jornais com dezenas ou centenas de milhares de leitores e é pago por isso tem que oferecer ao leitor algo mais do que uma conversa de café ou algo mais do que se escreve nos blogues. O que se verifica é que a maior parte dos críticos de cinema não vê muito cinema. Vêm aquele cinemazeco de algibeira de Hollywood, as lamechices da Disney e pouco mais. Provavelmente, menos de 25% dos críticos saem deste perfil e vão um bocadinho mais longe, já vêm uns David Lynchs, uns Tim Burtons ou uns Cronenbergs, mas muitos ficam-se por aqui. São muito poucos os que vêm todo o tipo de cinema, que vão à Cinemateca, que frequentam cine-clubes, que alugam filmes antigos, que vêm filmes em canais de TV que passam bom cinema (o canal ARTE por exemplo). Obviamente, depois a qualidade da crítica reflecte muito a qualidade e amplitude do cinema que se vê.

Lembro-me de ler críticas sucintas de um ou dois parágrafos que espremidos se resumiam a: "este filme é maniqueísta" ou "este filme é politicamente correcto", sem fundamentação da opinião expressa. Frequentemente, as críticas não enquadram o filme no contexto da obra dos autores, não se pesquisa sobre o local e sobre o contexto histórico da acção, não se citam os filmes que estiveram na origem de remakes, mas escreve-se demais sobre os milhões que custou filme A, B ou C, sobre a receita de bilheteira e fazem-se primeiras páginas muito generosas e simpáticas de filmes fraquíssimos produzidos por grandes companhias (serão essas primeiras páginas de borla?). Para completar o ramalhete de misérias, acho ridícula a mania dos ódios de estimação. Parece que para se ser crítico de cinema é preciso ter ódios de estimação. Um odeia o cinema francês, outro odeia o Michael Moore, outro o Woody Allen, outro a Barbra Streisand (os que têm falta de imaginação), e julgam-se muito engraçadinhos porque cortam rente cada vez que aparece um filme ligado ao seu ódio de estimação.

As consequências do baixo nível dos críticos é que muito cinema de qualidade nem sequer passa nas salas portuguesas ("Karakter" por exemplo) ou então passa, mas passa despercebido, como foi o caso caricato da primeira ronda de exibições do filme "Crash" de Paul Haggis, que só depois de vencer o Oscar é que foi exibido nas salas principais do país.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Babel

Durante as primeiras cenas de "Babel" em que interagem personagens de diferentes culturas pensei para comigo: "já vi isto, já me aconteceram cenas destas". O filme seguia e ía revendo mais pormenores das minhas viagens, alguns nos mesmos locais, EUA, Tijuana e México, outros ocorreram em locais diferentes mas onde as reacções das pessoas foram muito parecidas às reacções das personagens de "Babel" de Alejandro Iñárritu. O mérito de Iñárritu é o de nos mostrar os habitantes deste mundo sem filtro. Todas as personagens receiam o encontro com o outro, o fosso entre códigos de comunicação e de códigos de vida é tão profundo, que se equipara ao que separa Yasujiro , uma surda-muda japonesa, do mundo "exterior". A coca-cola light sem gelo, a náusea dos turistas na aldeia marroquina ou a matança da galinha na festa mexicana, rimam com o mundo, o mundo das encruzilhadas dos povos.
Em "Babel", o medo faz a acção, faz descarrilar uma personagem para as armadilhas lançadas pelos fantasmas de outra personagem de uma cultura diversa. Mas "Babel" mostra também como as relações de dominação continuam bem presentes, apesar da abolição da escravatura e das cartas dos direitos humanos. Essa dominação está bem patente na forma como Richard nega a autorização para que a empregada mexicana compareça no casamento do seu filho ou como a polícia marroquina lida com os pastores.
"Babel" representa um mundo frágil, como o mundo da parábola da borboleta que bate as asas no pacífico e desencadeia uma tempestade noutra parte do mundo. Em "Babel", não é bem uma borboleta que desencadeia a tempestade, é uma carabina japonesa levada para Marrocos.

Filme Klepsýdra ***** (5 estrelas)

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Lisboa-Dakar em plena cidade

Gosto de rallies e acho que os rallies são muito importantes (numa futura entrada explicarei porquê), mas a proliferação de veículos todo-o-terreno (TT) com que me deparo no trânsito das nossas cidades, tanto em Portugal como no resto da Europa, é absolutamente escandalosa, por vezes parece que estamos no meio do pelotão do Lisboa-Dakar. Os TT em geral são bonitos, também gosto de TT, gosto de conduzi-los, mas conduzir TT's em cidade é um desperdício, não só porque todo o prazer de conduzir um TT é castrado em ambiente urbano mas acima de tudo porque os consumos dos TT atingem níveis absurdos para as tarefas que desempenham nas cidades.

Alguns países europeus já começaram a alterar a fiscalidade para penalizar a circulação dos TT nas cidades, em Portugal o debate nem sequer começou. Aqui ligação para o 4x4 Info, um sítio activista belga sobre a proliferação de TT com informação técnica relevante sobre o assunto.

Memória curta: Madrid, 11 de Março

Serve esta entrada só para relembrar que o pior atentado ocorrido em Espanha desde o fim da Guerra Civil, foi o atentado de 11 de Março e foi consequência directa da política anti-terrorista de Aznar.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

80 mortos em Bagdade não são para comentar?

O atentado ocorrido esta manhã em Bagdade matou cerca de 80 pessoas e feriu cerca de 160. Será que aqueles que fugosamente comentaram o recente atentado no aeroporto de Madrid e que condenaram duramente a política de Zapatero, não têm nada a dizer sobre o atentado de hoje? Seria interessante ler umas linhazitas sobre o atentado de hoje e já agora sobre os atentados ocorridos na passada semana no Iraque que fizeram dezenas de mortos. E seria ainda mais interessante que fossem coerentes na análise e que usassem a mesma bitola que usaram para avaliar Zapatero.

domingo, janeiro 21, 2007

Ver rostos em todo lado

"... o pai ou a mãe sorri à criança, esta devolve o sorriso e cria-se ou reforça-seum laço. Mal a criança vê, reconhece rostos e agora sabemos que esta aptidão está impressa no nosso cérebro. As crianças que há um milhão de anos eram incapazes de reconhecer um rosto devolviam menos sorrisos, era menos provável que cativassem os pais e que medrassem. Hoje em dia, quase todas as crianças identificam rapidamente um rosto humano e respondem com um esboço de sorriso.

Como efeito secundário inesperado, o maquinismo de reconhecimento de padrões do nosso cérebro é tão eficaz em isolar um rosto de um amontoado de outros pormenores que por vezes vemos rostos onde estes não existem.
"

"Um Mundo Infestado de Demónios", Carl Sagan, Gradiva, 2002, pag. 58
(Imagem do "rosto de Marte" visto pela sonda Viking 1 em 1976)

sábado, janeiro 20, 2007

Deus existe!

Nunca pensei escrever um dia um post com este título, mas a cerveja Deus, esse divino líquido belga, é a prova indiscutível da existência do altíssimo. A cerveja Deus é numa primeira fase fermentada por processos tradicionais em solo Bélgica, sendo de seguida transportada em camiões até à região de Champanhe, em França. Em Champanhe, a cerveja Deus é engarrafada e maturada em caves como se se tratasse de um comum champanhe, sendo adicionada a mesma levedura responsável pela estrutura do famoso vinho gaseificado francês. O resultado é uma cerveja com uma estrutura de champanhe. É indescritível, é incomparável, pudera estamos na presença de Deus!

À atenção do Francisco: 100 + 1 é a conta que DEUS fez ;)

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Malena, uma mulher ameaçadora



Sei que para muitos é uma heresia escrever isto, mas na minha opinião "Malena" é o melhor filme de Giuseppe Tornatore. Se tiver paciência um dia escreverei aqui o que acho de "Cinema Paraíso". Em "Malena", Tornatore mostra como é fácil e como é apetecível para uma comunidade condenar a mulher com alguma qualidade que não se submete aos códigos tradicionais. Pode ser o caso de uma mulher muito bonita que desperta desconfianças femininas ou que provoca mau estar entre os homens incapazes de ganhar a sua intimidade. Pode ser também o caso de uma mulher muito inteligente que ameaça o território intelectual masculino, em domínios habitualmente interditos a mulheres. Se uma mulher reunir estas duas qualidades o caso torna-se muito mais bicudo. A relação entre a comunidade e Malena (Monica Bellucci) faz-se em função da ameaça que esta representa ou não aos códigos estabelecidos. A cena de vingança popular sobre Malena por esta ter sido uma das prostitutas do bordel nazi aí instalado, é apenas um pretexto para castigar Malena, castigá-la por ser muito bonita, castigá-la pelo efeito que provoca entre os maridos, castigá-la porque não foi suficientemente amável para alguns homens e castigá-la por não se render à penitência moralista que a comunidade inflige a si mesma.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Sério Alarme dos Físicos Nucleares



Clicar na imagem para ler a mais recente comunicação dos investigadores em tecnologia atómica e nuclear responsáveis pela publicação do Bulletin of the Atomic Scientist. Este boletim foi fundado pelos investigadores envolvidos no Manhattan Project preocupados com a utilização da tecnologia nuclear para fins militares depois do lançamento das bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki. Desde 1945, a revista teve ilustres colaboradores como Albert Einstein, Hans Bethe, Max Born, Oppenheimer, Bertrand Russell, Leo Szilarde ou Paul Weiss.


PS- No blogue Mitos Climáticos continua o habitual Tsunami de asneiras

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Grandes Portugueses + IVA



Adoro a estética kitsch do nosso país, principalmente a das televisões.
Quando acedi à página da RTP e deparei com o banner daquele que seria o meu escolhido se votasse (não gosto de "votar + IVA") não fiquei indiferente à composição. A imagem do Infante com um ar angelical ao lado de um número de telefone e do preço da chamada + IVA, com pormenor das mãos em posição de oração ali pelo meio, é uma obra-prima da RTP. Só falta um rodapé com um sms romântico da Sónia Vanessa dirigido ao Bernardo da linha.

Porquê o Infante? (um momento de incontenção verbal)
Na minha opinião um grande qualquer-coisa (Português, Espanhol, Basco, Chinês, Zulu, etc.) tem que obedecer a três critérios básicos: 1) A contribuição para a sua tribo deve comportar um esforço (intelectual e/ou físico) construtivo considerável; 2) Deve existir um antes e um depois do grande personagem; 3) Inovação. (Isto parece um formulário da FCT)

O extenso e exigente trabalho multidisciplinar (científico, tecnológico, humano, etc.) de planificação das descobertas bem sucedidas na costa de África dirigido pelo Infante merece toda a minha vénia. Acresce o mérito de as descobertas terem sido envolvidas em grande secretismo e em alguma competição com países bem mais apetrechados e bem mais poderosos do que Portugal.

Sem querer minimizar a brilhante obra de Camões, não escolheria o poeta por uma razão que é frequentemente desprezada quando se dá Camões na escola secundária. A principal obra de Camões, Os Lusíadas, segue uma receita que foi utilizada com frequência na Europa, que é a receita da Odisseia (o pormenor dos deuses que manipulam Vasco da Gama vai mais longe que outras obras na colagem à Odisseia), e nesse aspecto não é uma obra tão inovadora como possa parecer. O que nos enche de orgulho e que atribui uma dimensão simbólica muito poderosa aos Lusíadas é que o nosso Ulisses (Vasco da Gama) era real, existiu mesmo e foi lá ao fim do mundo e voltou!

10 anos mais quentes e previsão para 2007

1998
2005
2003
2002
2004
2006
2001
1997
1995
1999

Repare-se que os 10 anos mais quentes desde que há registo ocorreram nos últimos 12 anos...
O British Meteorological Office estima com uma probabilidade de 60% que o ano de 2007 pode ser o ano mais quente de sempre.

O actual cenário do aquecimento global está gerar algum alarme entre a comunidade científica, a evolução climática do planeta começa a seguir as tendências das previsões mais pessimistas. É agora mais do que óbvio que é necessário começar a agir em larga escala e já, mas pelos vistos a classe política continua adormecida, inclusivamente a europeia, que tem sido mais activa no estudo e no combate do problema.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

No Labirinto: o Líbano entre guerras, política e religião

Aquando da sua apresentação em Coimbra, Vital Moreira disse deste livro que revelava o melhor Miguel Portas, o Miguel Portas das Viagens. Subscrevo inteiramente. É o Miguel conta com entusiasmo as suas viagens pelo Líbano e regiões vizinhas, descreve com paixão lugares, ruínas, pedras e mezzés. É o Miguel que lê nos olhos e nos gestos das gentes e nos transmite sem rodeios as suas impressões sobre aquelas micro-sociedades, a importância dos clãs familiares, a ostentação que convive com a miséria e a pobreza, a religião que separa, mas que é praticamente a única instituição solidária num país deslumbrado pela banca e pela bolsa.

A Parte I do livro intitulada "O nascimento de uma nação" é de leitura obrigatória para todos aqueles que se interessam pela política do Médio e Próximo Oriente. Muito bem documentada, esta Parte I faz-nos um resumo da história recente do Líbano e da região - o Líbano como país só existe desde 1941 - ligando as divisões étnicas, religiosas e políticas à efervescência e ao trânsito de povos que houve naquela região desde há mais de dois mil anos. "Nunca um país tão pequeno acolheu tanta diferença" (pag. 29) é a frase de Miguel Portas que melhor ilustra a equação libanesa. É esta concentração de povos e religiões numa região onde se disputam intensamente territórios há dezenas de séculos que torna tudo tão complexo de se realizar no Líbano, mesmo quando a tarefa em si parece simples. Ao lermos esta Parte I damo-nos conta da imensa quantidade de asneiras que foram escritas por comentadores e cronistas políticos durante o ataque ao Líbano no passado Verão, nomeadamente o apoio aos pedidos irrealistas de Israel para que o governo libanês eliminasse o Hezbollah. Era o mesmo que pedir a alguém para fumar num paiol de armas.

A segunda parte descreve os 33 dias em que o Líbano foi atacado por Israel, a envolvente política que deu origem ao conflito e a situação resultante do pós-guerra. A presença do Miguel no Líbano durante o conflito oferece-nos uma visão muito mais rica e precisa das reacções políticas e sociais que acompanharam o conflito, nomeadamente o estatuto e a popularidade que o Hezbollah ganhou à custa das bombas israelitas. Pessoalmente, considero os capítulos "Hezbollah" e "Islamismo" demasiado optimistas e o citado messianismo socialista da autoria de Françoies Thual (pag. 150) parece-me uma longínqua miragem política. Enquanto Israel ameaça, o Hezbollah ganha simpatias, aderentes e muitos votos, mas em tempo de paz, por muito que o Hezbollah tenha evoluído, os resquícios de políticas de extrema-direita religiosa não desaparecem de um dia para o outro. O meu pessimismo é reforçado pelas opiniões das minhas amizades libanesas do sul do país.

A total desorientação e o isolamento da diplomacia americana durante as negociações são muito bem resumidas pelo Miguel e são um exemplo flagrante da falta de estudo e de tacto para lidar com a referida complexidade da equação libanesa. É a mesma complexidade, que o Miguel conhece como poucos no nosso país, que faz do seu apoio ao reforço da FINUL subordinada à autoridade libanesa uma rara opinião credível e sólida sobre o assunto. Contrasta com a reacção pavloviana (parafraseando um amigo bloquista) que classificou a "intervenção da FINUL" (já lá estava antes da guerra) de novo imperialismo. Como refere bem o Miguel, o retirar dessa força funcionaria como um convite para o segundo round de Israel, sem testemunhas, com pontes e estradas por construir a facilitar o assalto.

Apesar de Israel ter mostrado mais uma vez uma superioridade militar brutal, a imagem do país emergiu do conflito enxovalhada como nunca. O Miguel termina bem concluindo que apesar da pesistência e da complexidade dos problemas, o resultado deste conflito mostrou que vale a pena exercer a política contra o primado da guerra.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Revistas







Muito boa a última edição da Courrier International com textos de Umberto Eco e Timoty Ash, entre outros, sobre o recrudescimento de tabus com origem no fanatismo religioso.

A primeira Ciel et Espace do ano traz sempre aquele excelente e indispensável calendário dos eventos astronómicos do ano.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

As minhas actrizes preferidas

Ano novo... altura escolhida para actualizar a minha lista de actrizes preferidas. Entre parenteses o filme em que mais apreciei a actriz e o respectivo realizador. Por ordem:

Fanny Ardant (La femme d'à côté, François Truffaut)
Catherine Deneuve (Belle de Jour, Luis Buñuel)
Isabelle Huppert (A Pianista, Michael Haneke)
Charlotte Rampling (Swimming Pool, François Ozon)
Franka Potente (Corre Lola Corre, Tom Tykwer)
Paprika Steen (Festen, Thomas Vinterberg)
Fernanda Montenegro (Central do Brasil, Walter Salles)
Branka Katic (Gato Preto Gato Branco, Emir Kusturica)
Solveig Dommartin (Asas do Desejo, Wim Wenders)
Jodie Foster (Contacto, Robert Zemeckis)
Hanna Schygulla (Lili Marlene, Rainer Werner Fassbinder)
Ingrid Bergman (Casablanca, Michael Curtiz)
Isabella Rossellini (Blue Velvet, David Lynch)
Cécile de France (As Bonecas Russas, Cédric Klapisch)
Nicole Kidman (Eyes Wide Shut, Stanley Kubrick)
Martina Gedeck (Partículas Elementares, Oskar Roehler)
Maggie Cheung (Disponível para Amar, Kar Wai Wong)

sábado, janeiro 06, 2007

A fuga para a frente de JPP tropeça no Iraque

A isto chama-se fuga para a frente:

"[O atentado da ETA] mostrou a enorme irresponsabilidade do caminho negocial que iniciou com o terrorismo", J. Pacheco Pereira, "A ETA e Zapatero" no Abrupto.

Acho espantoso como é que uma pessoa inteligente que tomou as posições que tomou sobre o conflito iraquiano - onde estoiram bombas quase diariamente que fazem dezenas de vítimas - achar que o atentado do aeroporto de Madrid mostra a enorme irresponsabilidade do caminho negocial. Deveremos concluir que uma escolha responsável é a escolha do caminho bélico que se iniciou no Iraque?
Esta entrada do Abrupto é o exemplo típico da indiferença aos atentados diários no Iraque a que me referi na entrada anterior em contraste com a sobrevalorização excessiva a tudo o que se passa no Ocidente. Vivemos tempos em que uma mochila perdida no metro de Londres ou de Madrid provoca histerias colectivas enquanto uma bomba que explode junto a uma estação de serviço em Bagdade matando 20 pessoas e ferindo 30 provoca um enorme bocejo em frente ao televisor. O sangue branco e ocidental é hipervalorizado, vale muito mais do que o sangue mesopotâmico.

Esta entrada revela também um estilo de crónica grosseira que começa a ser demasiado habitual (V. Graça Moura usa e abusa deste estilo). Parte-se de pressupostos de deturpação grosseira da realidade para depois se atacar o adversário político através de um exercício de retórica inteligente e sofisticado, de interessante leitura, que embala alguns leitores em justificações desejadas, mas longe (ou fora) da realidade. Esta passagem é outro exemplo deste estilo:

"políticas de Aznar que serviam Espanha: (...) uma política de intransigência com o terrorismo basco..."

A política de intransigência com o terrorismo basco foi nada mais nada menos que igualar a ETA à Al Qaeda. Foi afirmar que um grupo terrorista com objectivos sobretudo nacionalistas e territoriais fosse comparado a uma organização de escala quase planetária cujo o objectivo é o de converter todo planeta a uma visão deturpada de uma religião, utilizando para isso os meios que forem necessários. O resultado é conhecido. Aznar atraiu para Espanha a Al Qaeda e foi surpreendido pelo maior atentado vivido em Espanha desde o fim da Guerra Civil. Aznar não poderia ter feito pior, porque era muito difícil fazer pior.

Além do mais não há memória de no tempo de Aznar o Batasuna fazer declarações em que se demarca do núcleo mais violento da ETA (se é que estes ainda se consideram da ETA). Contrariamente a tudo o que escreve JPP, o que este atentado de Madrid revelou foi que a sociedade espanhola passou a perceber muito bem com quem é que não pode negociar: com o núcleo violento que se isola cada vez mais dentro da ETA e com os obcecados do terrorismo do PP, próximos de Aznar.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

A indiferença aos atentados no Iraque

Entre o que mais me choca no conflito iraquiano é essa imperial indiferença aos atentados que abalam diariamente o Iraque. No seu novo livro, o Miguel Portas descreve muito bem essa indiferença:

"[A televisão] mostra-nos a dor que se esconde nos escombros, nos cemitérios ou nas valas comuns. Mas mostrar e sentir estão longe de ser sinónimos. Depois, as câmaras iludem. A morte, a destruição e a miséria são perversamente cenográficas. E ao fim de alguns dias, o que vemos perde significado, é mais uma notícia, a mesma de ontem e de anteontem e, quase certo, a de amanhã. (...) [No Iraque] há muito que já não se somam os dias e perdeu conta aos mortos. "Aquilo" é o dia-a-dia. Quando assim é, as câmaras podem entrar nas ruínas de famílias amputadas, estropiadas e destroçadas, mas são incapazes de nos transportar para dentro dessa realidade. Ficamos de lado, imunizados, aturdidos ou indiferentes."

"No Labirinto: o Líbano entre Guerras, Política e Religião", Miguel Portas, Almedina, 2006, pag. 99.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Principais descobertas da ESA em 2006

Ver aqui a lista das principais descobertas científicas da ESA em 2006 bem como as principais actividades previstas para 2007.

quarta-feira, janeiro 03, 2007

2007: Ano Internacional da Física Solar

Este ano comemora-se o Ano Internacional da Física Solar. Consultar aqui a página dedicada aos eventos previstos e à divulgação dos processos físicos que governam a nossa estrela, a respectiva heliosfera e que influenciam a Terra.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Doomsday Code

Produzido pelo excelente Tony Robinson, este interessante documentário intitulado "Doomsday Code" (aqui documentário integral) investiga as implicações das manobras dos evangelistas americanos que acreditam ter descodificado o Livro da Revelação, onde se descreve o fim dos tempos e que segundo os mesmos acontecerá muito em breve. O problema é que entre este grupo de fanáticos estão conselheiros do presidente George W. Bush. Estes interpretam como sinais do fim do mundo, acontecimentos como o 11 de Setembro, a invasão do Kuwait, o derrube de Saddam ou a intifada na Palestina. Entre as declarações de Bush sobre estes eventos encontramos expressões como: "axis of evil", "war on terror" ou "the epic struggle of good and evil", expressões estas que vão de encontro às ideias da igreja evangélica de direita, tal como as suas opções políticas e militares.

Quanto tempo falta para o fim do mundo?
Esta página surrealista intitulada Rapture Index tenta dar uma resposta a essa pergunta. Rapture é o nome dado a um acontecimento que segundo os apologistas do fim dos tempos se manifestaria como a elevação aos céus de todos os seguidores de Cristo, e apenas estes, acontecimento esse que ocorreria pouco tempo antes do fim do mundo. Através da contabilidade de uma série de sinais que indicam a chegada da Rapture (coisas banais, como o número de anticristos, falsos Cristos ou o preço do petróleo...) é calculado um índice de probabilidade de este acontecimento ocorrer. Neste momento o índice é de 163. Para este valor os fiéis da seita aconselham-nos a apertar os cintos...

Quem se lixa é o mexilhão
Como não podia deixar de ser, entre as vítimas directas de seitas apocalípticas contam-se pessoas de meios mais modestos e miseráveis, como é o caso de África, nomeadamente do Uganda, onde esta seita tem uma boa implantação. A quantidade de suicídios e homicídios em massa no Uganda tem subido em flecha desde que a seita se começou a espalhar pelas várias regiões do país.

domingo, dezembro 31, 2006

Prazeres do ano: blogues

- Esta entrada do Bruno no Avatares intitulada Engates com a qual concordo a 100%. É por concordar inteiramente com este texto do Bruno que achei aquele engate de Match Point na sala de bilhar de uma foleirice que me fez lembrar mais uma novela mexicana do que uma película do grande W. Allen.

- A entrada Hezbollah Fashionable do Luís na Natureza do Mal. Nao concordo com a totalidade do texto, mas é isso que eu espero da esquerda, que seja crítica em vez de se confinar a manadas opinativas, que produza diversidade de leituras e que nao reduza a realidade aos bons e aos maus, tracando riscos no chao, aqui estás tu, aqui estou eu.

- A loja da Eva da Eva Lima, uma mulher a tempo inteiro no Filhos e Cadilhos. Os filhotes da Eva devem adorar aquela bonecada.

sábado, dezembro 30, 2006

Chiclete, mastiga e deita fora


Rumsfeld aperta o bacalhau ao seu aliado Saddam, 20-12-1983

Saddam foi mais uma entre as muitas chicletes dos EUA. Enquanto estava docinha aquilo é que foi mastigar, mas mesmo quando o doce acabou, a chiclete Saddam serviu para justificar a máquina de guerra e os interesses petrolíferos, até a morte de Saddam fui chupada até ao tutano, para servir de aspirina apressada para a dor de cabeça iraquiana.

Como refere a Ana Gomes muitos governantes estrangeiros (incluindo Donald Rumsfeld) haviam sido cúmplices ou encobridores dos crimes de Saddam. Um dos crimes que esteve na base da condenação de Saddam teve a preciosa ajuda dos EUA que forneceram as fotos áreas das regiões curdas a gasear. A matança curda teve ainda o detalhe sórdido de o Congresso americano ter recusado a sua condenação pública pouco depois dos factos.

Mas não há vergonha na cara, hoje em dia as principais chicletes dos EUA são as petromonarquias da península arábica, nomeadamente a Arábia Saudita, onde se cometem crimes diários de fazer inveja ao próprio Saddam.

Ler entrada do Bruno no Avatares.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Prazeres do ano: o filme

O filme "Partículas Elementares" de Oskar Roehler, baseado no livro do mesmo nome de Michel Houellebecq. Ler comentário Klepcinema.

COROT em busca de planetas como a Terra

Foi ontem lancado do Cazaquistao o satélite COROT (imagem ESA) que terá como missão detectar planetas fora do sistema solar. O objectivo é tentar detectar planetas de tamanho comparável ao da Terra, espera-se na melhor das hipóteses detectar planetas uma vez e meia a Terra. A missão COROT é uma missão francesa da responsabilidade do CNES. Ver aqui a excelente página oficial do COROT.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Prazeres do ano: o vinho

Este Gewürtztraminer de Rosacker produzido pelas Caves Vinícolas de Hunawihr na Alsácia é isto e muito mais:

La robe est profonde et d’un beau doré, le bouquet se nuance de caramel et de poivre, de miel et de réglisse. L’ attaque est franche, sur le fruit confit, capiteux sans excès, moelleux à souhait, il termine chaleureusement sur des épices.
Données analytiques : alcool : 13,6 % vol sucre : 26 g/l


O preco deste nectar que deixa um Pera Manca a um canto, está muito longe das chulices - frequentemente acompanhadas de aldrabice - que se praticam em Portugal. Menos de 10€.

Para viciados em mapas

"Le Dessous des Cartes" de Jean-Christophe Victor, edição conjunta da ARTE éditions e da Tallandier, é uma compilação em livro dos excelentes programas do mesmo nome apresentados pelo autor no canal ARTE. "Le Dessous des Cartes" divide-se em duas partes: Itinéraires Géopolitiques e Le Monde qui vient. Na primeira parte encontramos secções sobre Kaliningrado, os Balcãs, a geopolítica dos oleodutos, o canal do Panamá, a Moldávia, o Médio Oriente, o Petróleo, a Gronelândia, a Palestina, etc. Na segunda parte os mapas ilustram temas como a proliferação nuclear, os conflitos da Chechénia ou da Costa do Marfim, a riqueza e a pobreza das nações, o aquecimento global, etc.

sábado, dezembro 23, 2006

O significado do beijo entre Uhura e o capitao Kirk

A minha cronica de hoje no Portal do Astronomo é dedicada ao beijo entre Uhura e o capitao Kirk, que foi o primeiro beijo a ser transmitido na televisao americana entre um homem branco e uma mulher negra. O beijo aconteceu no episodio Plato's Stepchildren da série Caminho das Estrelas transmitido em 1968.

Esquerda e neoliberais mesmo combate?

Esta entrada do Abrupto ilustra com muita clareza o último parágrafo da minha entrada anterior. Os meus amigos de esquerda que são contra o Tratado Constitucional, com o argumento que este vai no caminho do neoliberalismo, arriscam-se a ir para a rua defender o Não lado a lado com aqueles que dizem combater...

Acho que está na hora da esquerda que defende o Não iniciar uma séria reflexão sobre o assunto. Não é preciso ir muito longe, basta ler a história dos tratados europeus, basta comparar que tratado é mais "neoliberal", o Tratado de Nice ou o Tratado Constitucional.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Os Intelectuais e o Liberalismo

Publicado pela Odile Jacob com o título "Pourquoi les intellectuels n’aiment pas le libéralisme", título muito mais de acordo com o conteúdo da obra, foi traduzido para português como "Os Intelectuais e o Liberalismo". Esta obra de Raymond Boudon propõe-se acima de tudo explicar a falta de popularidade das ideias liberais junto dos intelectuais. Na minha opinião, o livro não cumpre esse objectivo. Perde-se em explicações intrincadas que revelam acima de tudo uma óbvia aversão de Boudon às ciências sociais. O autor revela também lacunas graves quando ataca os estudos realizados na área da psicologia, ao referir-se a Freud como se de um charlatão se tratasse, referindo-se aos seus trabalhos como investigação duvidosa. Dadas as excelentes relações entre Freud e Einstein, a dada altura da minha leitura temi que Boudon classificasse a teoria da relatividade de Einstein como igualmente duvidosa. Um autor que envereda por estes caminhos não poderia dar descanso aos seus ódios de estimação, como é o caso do paupérrimo e gratuito ataque ao escritor Michel Houlebecq.
Em relação à opção do autor de dividir o campo das ideias entre liberais e iliberais é meio caminho andado para a obra perder boa dose de credibilidade.
Mas, "Os Intelectuais e o Liberalismo" também tem os seus pontos positivos. A obra ajuda a perceber com clareza as várias tendências - de esquerda e de direita - e os vários níveis de liberalismo, que tanta confusão geram tanto na direita como na esquerda deste nosso país. Pode ter uma função pedagógica para os liberais de direita, para impedir a mistura com menos frequência de ideias e de conceitos claramente conservadores com os conceitos liberais. Para a esquerda a obra também pode ser útil, dado que ajudará a compreender porque é que aqueles que defendem as formas mais desumanizadas de liberalismo são contra o Tratado Constitucional da UE e a Declaração de Bolonha. Pode-se ser contra estes documentos por muitas razões, mas nunca porque serem “neo-liberais”. Os “neo-liberais”, esses, estarão do mesmo lado da barricada da esquerda que fizer oposição ao Tratado Constitucional ou a Bolonha.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Mundo de Aventuras XL


San Cristobal de las Casas, Chiapas, México, 2005

Roubei-lhe a alma, eu sei, mas foi por uma boa causa: aquelas tranças negras.

Mundo de Aventuras XXXIX

terça-feira, dezembro 19, 2006

Dona Carolina

"Carlos Magno, na Antena Um, chamou-lhe dona Carolina. (...) Como não se chama dona à vereadora do PP nem à irmã, que são as únicas senhoras que me vêm à cabeça a esta hora dominical, a distinção da forma de tratamento deve querer dizer alguma coisa. Eles explicam logo a seguir. A mulher, esta mulher, era uma alternadeira." Luís na Natureza do Mal.

Nem mais Luís!


Um país kitsch e javardo
Este episódio Carolina, para além da questão judicial, vem revelar aquela faceta kitsch do nosso país sem a qual já não conseguimos viver. As revistolas e os jornalecos javardos forram as capas com a cara da Carolina, os jornais da TVI e da SIC passam em intermitência um bonequinho no canto do écran, durante uma hora, uma hora e meia, anunciam agora é que é, agora é que vem aí a reportagem da Carolina. Nos cafés, nos bares aprecio as caras dos homens, a excitação cresce, o fantasma da mulher que sai do bordel para se unir a um cliente, funciona como pólvora num país que vive a sexualidade entre o pudor religioso e a javardice marialvista. Agora é Carolina, há 6 meses atrás, foi Merche Romero, páginas e páginas de javardice, fotos de paparazzis de esgoto, da objectiva que aponta para o meio das pernas que se alongam na espreguiçadeira produz-se uma capa da revista de programação televisiva que se arruma lá em casa ao lado da santinha de fátima. De Merche a Carolina até à próxima excitação, a sexualidade destes homens segue para bingo, entre o puritanismo da eucaristia dominical e a beira de estrada, de preferência sem preservativo!

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Criacionismo visto pelo liberal Raymond Boudon

"O darwinismo [segundo os criacionistas] seria uma máquina infernal ao serviço do «modernismo». Grupos fanáticos do criacionismo vão mesmo ao ponto de propor que seja eliminada dos livros escolares destinados aos alunos americanos toda e qualquer referência aos dinossauros"

"Os Intelectuais e o Liberalismo", Raymond Boudon, pag.51, Gradiva, 2005.

Este parágrafo de Boudon ilustra bem a qualidade dos liberais lusitanos, entre os quais parte significativa não hesita em se vergar à banha da cobra criacionista. A palavra fanáticos não aparece ali ao acaso.

Barton Fink

"Barton Fink" dos irmãos Coen é uma excelente autocrítica ao cinema americano, nomeadamente à irresistível tentação de querer que a criação artística seja rentável à força, nem que para isso se tenha que matar a criatividade e a qualidade. Os irmãos Coen não o fazem por menos, em "Barton Fink" a indústria cinematográfica de Hollywood vai a Nova Iorque contratar os grandes escritores de peças de teatro para escrever enredos de filmes de boxe para a indústria californiana. Barton Fink (John Turturro) é um desses jovens talentos nova-iorquinos que se prepara para dar o salto do teatro para o cinema, mas quando Barton Fink parte para Hollyoowd fá-lo já sem grandes ilusões...
"Barton Fink" é uma obra-prima dos irmãos Coen, na minha opinião o seu melhor filme, inteligente, denso sem ser pesado, cáustico, onde se podem apreciar cenas e sequências cinematográficas do melhor que se produz na sétima arte e que conta com uma grande interpretação de John Turturro.

sábado, dezembro 16, 2006

Sábado em Coimbra XXXII: novo museu da ciência

O Laboratório Chimico foi um dos primeiros edifícios do mundo a ser equipado com salas e laboratórios dedicados às aulas de química. Hoje é o mais antigo entre os que restam desses tempos. Uma relíquia que melhorou com a integração do novo museu da ciência, um dos melhores que vi até hoje, com um conjunto de experiências em várias áreas que podem ser efectuadas pelo simples visitante. A não perder, para quem visitar Coimbra.

Ler ainda esta entrada da Sofia Araújo no Conta Natura.

Sábado em Coimbra XXXI

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Este maravilhoso país centralista

Ontem:
Bruxelas->Lisboa em 2:40 de avião;
Lisboa->Coimbra em 1:50 no Alfa;
Coimbra-> Figueira da Foz em mais de 3 horas!!! 2:30 de seca na estação (o horário não prevê ligação do Alfa à Figueira) + 30 e tal minutos de comboio.
Viva o Lisboaquistão!

segunda-feira, dezembro 11, 2006

A importância do Tribunal Penal Internacional

...vê-se no dia em que morre um dos maiores facínoras que jamais exitiu no planeta Terra, sem nunca ter sido julgado e condenado.

Não esqueceremos a ajuda preciosa que o mesmo facínora recebeu no fatídico 11 de Setembro de 1973, tal como não esqueceremos quem foram os outros facínoras que o ajudaram.

Pepe na selecção?

Está ao nível dos craques do Scolari: o Ricardo, o Quim, o Boa Morte, o Ricardo Costa e o Hugo Viana.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Chegou a France 24

Para quem já não tinha pachorra para Sky e CNNs, existe finalmente uma alternativa àqueles serviços noticiosos em tom paternalista lá do alto dos impérios para a miserável plebe mundial. A France 24, o novo canal francês de notícias de 24 horas, começou a emitir desde ontem.

Como curiosidade refira-se que um dos motivos que levou à decisão de criação desta cadeia de televisão deve-se à censura dos aplausos ao discurso de Villepin contra a invasão do Iraque na ONU em 2003, que tanto a CNN como a Fox News (nesta, este tipo de coisas fazem parte do cardápio) decidiram cortar durante a transmissão que efectuavam na altura.

PS- Agora é só pedir aos serviços de TV por cabo para substituir a Fox pela France 24.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Supercomputador Milipeia

Hoje, o Centro de Física Computacional do Departamento de Física da Universidade de Coimbra inaugurou o supercomputador "Milipeia", que é agora o mais poderoso computador instalado em Portugal dedicado à investigação científica. Para os interessados clicar aqui para mais informações.

domingo, dezembro 03, 2006

Filme europeu do ano: A vida dos outros

"A vida dos outros", o primeiro filme de Florian von Donnersmarck, com Martina Gedeck e que narra a história de um agente da Stasi na ex-RDA, foi o vencedor do prémio do melhor filme europeu de 2006.

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Manifesto dos gajos altos

A tabela de dimensões de camas publicada pelo Bruno é arrepiante para a malta de perna longa. Pior, só camas de 1,90m rematadas por uma espessa tábua que me fazem sonhar a noite toda com a panóplia de golpes de Shotokan ou com o grande Houdini trancado num baú. Mas a verdadeira tortura é passar uma semana num hospital de perna partida deitado numa cama de 1,90m rematada por uma grelha barras metálicas...

Camas de 2,10m já e em força!
(mesmo assim não dão para grandes cambalhotas)

quinta-feira, novembro 30, 2006

Karel Čapek, o pai da palavra robô

A minha crónica de hoje no Portal do Astrónomo é sobre Karel Čapek, escritor de ficção científica e pai da palavra robô.

O véu visto por dentro

Já aqui referi várias vezes que por princípio sou contra a interdição do lenço nas escolas ou contra a interdição do véu no espaço público. Mas reduzir o problema do véu à sua interdição ou não é ver apenas uma parte do problema. Aqui vão referências de obras escritas por mulheres que conhecem bem o problema do véu e que o enquadram devidamente no alastramento do integrismo entre as comunidades muçulmanas:

- "Les mensonges des intégristes" e "Frères musulmans, frères féroces" de Latifa Ben Mansour

- "Deux femmes en colère" de Kenza Braiga e Olivia Cattan

segunda-feira, novembro 27, 2006

Quem é que continua a negar o aquecimento global?

Desde 2002 que o campo dos negacionistas do aquecimento global sofreu um duro revés quando a Shell, Texaco, BP, Ford, GM e Daimler-Chrysler abandonaram a Global Climate Coalition - organização que negava o aquecimento global e lutava contra a ratificação do Protocolo de Quioto - na sequência de um relatório publicado por um grupo intergovernamental peritos sobre as evoluções climáticas que previa o aumento da temperatura do planeta entre 1,4º e 5ºC até ao ano 2100. Pouco tempo depois a Global Climate Coalition encerrou e o seu sítio internet está agora inactivo como se pode verificar.

O que restou deste movimento?
Restaram os fanáticos e a Exxon/Mobil. Nos últmos 6 anos a Exxon financiou em 55 milhões de dólares fundações e grupos de pressão com graus de fanatismo variável (uns tentam utilizar argumentos científicos, outros dedicam-se a denegrir a ciência e os cientistas) com o objectivo de continuar o negacionismo das alterações climáticas. Um dos mais mediáticos negacionistas a soldo da Exxon é Steven Milloy, cronista da Fox News, que alimenta um sítio internet apelidado Junk Science, que é em si junk do pior que há. Através de dois institutos que dirige, o Free Enterprise Action Institute e o Advancement os Sound Science Center, Steven Milloy já recebeu cerca de 90 mil dólares de donativos da Exxon/Mobil. Sobre Quioto Milloy referiu-se como sendo uma "infâmia científica e económica". Tchriiiim! $90 000$ -> caixa registadora

sábado, novembro 25, 2006

1,5 kg de Expresso para o lixo

Após separar a parte informativa do jornal Expresso do lixo publicitário de golfes, de telemóveis, de imobiliárias e de electrodomésticos, deparei com uma montanha absolutamente obscena de papel que ia direitinho para o lixo. Não resisti a pesá-la. 1,5 kg! Leram bem, 1,5 kg de lixo que acompanha o jornal! 1,5 kg multiplicado pela tiragem média do jornal (225 000 exemplares) dá 337,5 toneladas de lixo publicitário semanal que acompanham o Expresso!!!
Se até hoje os jornais não tomaram iniciativas sérias para evitar este desperdício, acho que está na hora de serem impostas medidas draconianas. O planeta não é infinito e o somatório de todos os lixos inúteis deste género começam a fazer estragos.

PS- Não compro o Sol, aquela coisa kitsch onde o texto e a prosa atrapalham as corzinhas e as fotografias javardas de variedades da vida real. Arriscava-me a mandar para o lixo o jornal inteiro e acabar por ler os folhetos publicitários...

sexta-feira, novembro 24, 2006

150 mortos? Não são brancos nem ocidentais!

Julgo que os mais de 150 mortos resultantes dos atentados de ontem no Iraque mereciam pelo menos duas ou três linhas da parte dos políticos e dos cronistas que defenderam a implementação sistema que hoje vigora no país através da ocupação americana. De certa forma choca-me verificar este silêncio de quem defendeu tão acerrimamente a solução actual para o Iraque. Se os 150 mortos ocorressem num atentado em Londres provavelmente hoje estaríamos inundados de crónicas épicas sobre a cidade de Londres, os londrinos, as ruas onde compraram os pacotinhos de chá ou sobre tal amigo que trabalhava ali mesmo ao pé do sítio onde explodiram as bombas.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Uma garrafa de plástico em África

Ler esta entrada da Isabel (Aba de Heisenberg) citando o Gonçalo Cadilhe.
Um dia, não muito distante, o mundo vai ter que reequacionar seriamente o que produz e o que consome.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Djindji Rindji


(foto sítio UEFA)

Sa romalen pucela
Bubamara sosi acela
Devla, Devla vacar le
Bubamaru koka pocinel

Ej romalen asunen
Ej cavoren gugle zuralen
Bubamara cajori
Baro Grga vojsi odjili
Djindji rindji Bubamaro
cknije sužije
ajde mori goj romesa
Sa Romalen pucela
ede ori fusujesa cudela
Devla, Devla sacerle
Bubamaru vojte aresle
Ej Romalen asunen
ej cavoren gugle sukaren
životo si ringispil
trade aj ro, aj romni
Djindji rindji Bubamaro....

É o mínimo

A decisão de dar prioridade política à livre circulação de pessoas dos 10 novos países membros da UE - cuja circulação é ainda restrita - durante a Presidência Portuguesa do próximo ano é mínimo que se exige de um país que tem 5 milhões de emigrantes espalhados pelo mundo.

terça-feira, novembro 21, 2006

Um mau rascunho sobre o nuclear em Portugal

Em Agosto o DN publicava na primeira página os resultados de um estudo económico sobre qual seria o custo da factura da electricidade se se produzisse energia nuclear em Portugal. Detectei meia dúzia de erros, gafes e trapalhadas. Apesar de estar de férias, tentei sem sucesso contactar a jornalista para a alertar das incongruências do tal estudo.

Hoje às 15.00 participo num debate sobre o nuclear na FCUP. Para o preparar descarreguei da página da FEP o tal estudo, da autoria de Pedro Cosme Vieira da FEP, intitulado "Energia nuclear: Uma solução para Portugal?".
Trata-se de um estudo sobre uma questão importantíssima com 37 páginas... Descontando a capa, a contracapa e a bibliografia ficamos com 31 páginas de estudo. A análise económica, a polpa deste estudo começa na página 26 e acaba na página 32. Até à página 26 é só palha cheia de erros e alguns bem graves, como os 600 anos para que a radioactividade dos lixos tóxicos atinjam o nível da radioactividade natural. De facto são 600 mil anos! O autor não se esqueceu de acrescentar três zeros, visto que reforça qualitativamente a ideia dos 600 anos noutras passagens do estudo. A polpa do estudo está polvilhada de tabelas e gráficos de pouca utilidade. As contas que realmente interessam resumem-se a meia página (pag. 27), cabem num guardanapo de papel, e estão ao alcance de um bom aluno da quarta classe. As contas partem de um pressuposto errado. É que Portugal não são os EUA. Portugal não gastou cerca de 5821027000000 dólares num programa nuclear, como é o caso do programa americano. Portugal não tem nem as instalações, nem os laboratórios, nem as empresas especializadas, nem o pessoal qualificado que permitam construir uma central ao custo de 1500€/kW como o podem fazer os EUA. Por isso, o custo estimado pelo autor de 0,05€/kWh para electricidade de origem nuclear não tem grande significado, até porque nos EUA os consumidores domésticos pagam-na ao custo médio de 0,059€/kWh e os serviços a 0,076€/kWh. Em França - país que possui mais de 70 reactores - a electricidade custa 0,11€/kWh (sem iva).

Por todas estas razões considero que estamos perante um rascunho e não um estudo, e sublinhe-se que se trata de um mau rascunho. Convido os meus pares de física a espreitar os termos utilizados no texto, basta passar os olhos pelas primeiras páginas...

domingo, novembro 19, 2006

Último Tango em Paris - ninguém saiu ileso

Em 1972 o realizador italiano Bernardo Bertolucci estreia "Último Tango em Paris", com Marlon Brando, Maria Schneider e Jean-Pierre Léaud. Nos vários países onde foi permitida a sua estreia, a carga erótica do filme não deixou os espectadores indiferentes, suscitando polémica, protestos, manifestações de apoio, etc. Mas o mais interessante e menos conhecido é que a rodagem do "Último Tango em Paris" foi muito mais nefasta para Bertolucci, Brando, Schneider e Léaud do que a sua estreia. Apesar de Bertolucci ter sido objecto de uma condenação jurídica em Itália, o conflito com Brando e Schneider resultante da rodagem do filme seria mais marcante para o realizador. Na célebre cena em que Paul (Marlon Brando) se entrega a Jeanne (Maria Schneider) suplicando-lhe para que o penetre, Brando improvisa integralmente a cena a pedido de Bertolucci, após uma conversa entre os dois em que Bertolucci decifra um sonho de Brando cujo significado o deixa extremamente perturbado. A partir daí Brando nunca mais foi o mesmo até ao fim das filmagens. Maria Schneider teve a sua dose na célebre cena do pacote de manteiga. Bertolucci não preveniu Schneider sobre a conclusão da cena. Desde o instante em que Brando imobiliza Schneider com alguma violência e se apodera do pacote de manteiga, Schneider tentou impedir o desenrolar da acção e tudo o resto que se seguiu foi contra os protestos genuínos da actriz, que acabou por se sentir de certa forma violada. Durante longos anos, quando Maria Schneider pedia um pacote de manteiga numa mercearia provocava galhofa garantida entre comerciantes e clientes. O trauma dessa célebre cena nunca mais abandonou a vida de Schneider.
Após a estreia do filme, Brando recusou-se a falar com Bertolucci durante cerca de 15 anos. Schneider cortou relações com o realizador. Ainda como curiosidade refira-se que durante a rodagem do filme, Léaud - um dos actores fetiche de Truffaut - evitou sempre cruzar-se com Marlon Brando. Léaud tinha um pavor incontrolável de Marlon Brando. Se reparem não existe nenhuma cena onde os dois contracenam.

sexta-feira, novembro 17, 2006

No Princípio Estava o Mar

“No Princípio Estava o Mar” do meu conterrâneo figueirense Gonçalo Cadilhe é uma recolha de sublimes e deliciosas crónicas enviadas pelo autor à revista Surf Portugal, durante uma série de viagens à volta do mundo. As crónicas valem tanto pelo seu carácter poético como pelos apontamentos mais críticos. Gostei do entusiasmo com que o Gonçalo descreve as noites em que vai para a cama com o sal no corpo, gostei da forma como descreve as pessoas dos países por onde passa, sem rancores, sem ingenuidade, sem ilusões, gosto da sua determinação em percorrer milhares de quilómetros para curtir meia dúzia de ondas e gosto do seu desprezo pelo materialismo, uma raridade nos dias de hoje. De facto, não precisamos de muitas coisas (leia-se possessões) para desfrutarmos do que há de bom neste planeta.

Entre as passagens mais críticas do livro destaco a passagem em que o Gonçalo descreve El Salvador: “El Salvador sofreu durante os anos 80 uma das piores guerras civis do século XX. Os acordos de paz de 1992 não resolveram o problema da violência. As armas ficaram nas mãos da população enquanto a falta de horizontes económicos, o desemprego e a epidemia de crack fizeram o resto: a violência política transmutou-se em violência aleatória, delinquência e “gangsterismo”. Hoje, El Salvador é um dos países mais inseguros do continente.”

Um povo que não merece o mar que tem
As críticas do Gonçalo ao nosso país são muito certeiras, sobretudo as que se referem à nossa difícil relação com o mar, quando enumera os variadíssimos atentados à nossa orla costeira, quando lamenta uma gastronomia muito desconfiada do peixe, quando refere a nossa indiferença sobre variadíssimos produtos do mar, como a flor de sal e quando relembra a nossa azelhice e as nossas fobias do mar.
Enquanto lia estas críticas dei por mim a pensar: quantos portugueses sabem nadar? Certamente menos do que os cidadãos de países europeus que não têm mar, como a Rep. Checa, ou países cuja orla costeira é reduzida, como a Bélgica. Quando joguei basquete em equipas figueirenses, um dos insultos que ouvíamos da bancada assim que jogávamos nalguma localidade a mais de 20 km do mar, era: peixeiros! O mais triste, nem era ser insultado, era sim o facto daquelas pessoas serem de tal modo avessas ao mar, que nem percebiam que para nós ser peixeiro era motivo de orgulho.
As crónicas dirigidas ao nosso materialismo kitsch também valem bem a pena a sua leitura. A fúria dos todo-terreno em plena cidade, a fúria dos empréstimos para comprar bugiganga electrodoméstica, a fúria das roupas de marca, etc., está lá tudo.

terça-feira, novembro 14, 2006

Iraque: segregação das mulheres (comentários)

"Nos fins dos anos 80 conheci vários iraquianos exilados (fugidos de Sadam). Pelo que me contaram a sociedade iraquiana da época era bastante tolerante. As mulheres exerciam profissões idênticas aos homens (na minha universidade havia uma iraquiana a tirar engenharia civil), vestiam-se sem véu, havia tolerância religiosa para com outros credos."
Eva Lima

"É um facto que o Hamas é uma organização político-religiosa com bases na intolerância e no pior lado do Corão.
Mas as democracias ocidentais preferiram essa gente macabra do que apoiar e ajudar a solidificar a OLP de Arafat, que como se sabe era muito mais moderada em vários aspectos...
"
Manuel

"e pensar que o Iraque de Saddam até era uma das sociedades mais laicas e onde as mulheres mais direitos tinham... havia muita perseguição política e os massacres eram coisa corrente, mas neste domínio houve um claro e intenso retrocesso."
Rui Martins

segunda-feira, novembro 13, 2006

Raios Cósmicos e aquecimento global

No CERN tem vindo ser preparada uma experiência apelidada CLOUD (Cosmics Leaving OUtdoor Droplets) que visa o estudo da contribuição dos raios cósmicos para o aquecimento global. Os raios cósmicos ao atravessarem a atmosfera terrestre aceleram a produção de aerosóis e de agregados de moléculas que posteriormente poderão formar nuvens de baixa altitude cujas gotículas podem reflectir parte significativa da luz solar.

Urs Neu do Swiss Forum for Climate and Global Change alerta para as confusões que este estudo pode originar, sobretudo entre aqueles que tentam desesperadamente negar o aquecimento global:

"The cosmic ray theory has been used by people who want to deny human influence on global warming. (...) If there really is an effect then it would simply be part of the climate change cocktail (...) What we want to understand is if, and by how much, this natural phenomenon contributes to the climate mix. We need to understand how clouds are affected to reduce the uncertainties from climate predictions."

sexta-feira, novembro 10, 2006

Iraque: regresso da segregação das mulheres

No capítulo Women's Rights da entrevista da Joana Amaral Dias à iraquiana Mahmud Houzan, directora da Women´s Freedom in Iraq, Houzan faz um resumo deprimente e esclarecedor do recuo que sofreram os direitos das mulheres, desde que os EUA ocupam o país. É um depoimento que confirma muito daquilo que foi escrito por Ali Ajjam na Courrier International (edição nº795 26/1 a 1/2/2006 extraído do jornal Al-Hayat), num artigo intitulado "L'imam a remplacé Saddam" sobre a deriva islamista que flagela o país. Ali denuncia as pressões a que estão sujeitas as mulheres dentro das empresas: "on leur a conseillé avec insistance d'adopter le voile". No mesmo artigo Ali cita um académico, Amer Fayad: "la soumission aux hommes de religion a pris la relève de la soumission aux militaires de Saddam". Na cidade de Kout, a 180 km de Bagdad, foram criados tribunais religiosos que primam sobre o direito do estado, cujas principais vítimas são as mulheres. Bassorah, a segunda cidade mais importante do Iraque, é controlada por grupos armados religiosos. Podemos ler no mesmo artigo: "ces forces contrôllent totalement la ville, disposent à leur guise du budget de l'Etat, imposent leur volonté à la societé grâce à leurs milices. Tout cela anéanti la vie culturelle, et les habitants n'ont plus rien d'autre à faire que se morfondre dans une longue et triste suite de regrets".

Foi também esta "democracia" que a Administração Bush ajudou a nascer no Iraque. Todos os irredutíveis apoiantes da Administração Bush que cantaram hinos a um Iraque no bom caminho deveriam fazer uma reflexão séria sobre o que escreveram.

Também à esquerda estes testemunhos deveriam desencadear uma reflexão séria entre todos aqueles que consideram revolucionária a luta dos fascistas do Hamas, do Hezbollah e da Irmandade Muçulmana cuja atitude em relação às mulheres não é muito diferente da descrita. Expliquem-me o que há de revolucionário em humilhar e segregar as mulheres? No fundo o Hamas e afins têm uma visão sobre as mulheres e a família muito parecida com a dos judeus ultra-ortodoxos, a luta para proibir o desfile gay marcado para hoje em Jerusalém é disso um exemplo.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Mais uma missa de V.G. Moura sobre o fim do mundo

Ler o octogésimo nono artigo de Vasco Graça Moura em que faz um paralelo entre a eclosão da II Guerra Mundial e a guerra ao terrorismo.

Estamos todos convencidos, antes de começar a II Guerra Mundial a Europa era só pacifistas! Os nacionalismos exacerbados tanto de esquerda como de direita não existiam. Nos anos 30 era só lenços brancos, pombas e ramos de oliveira! As brigadas internacionais que foram combater para Espanha um dos primeiros bastiões do fascismo, onde os alemães testaram as suas armas, nunca existiram. Malraux, brigadistas, socialistas, trabalhistas, etc., nunca estiveram em Espanha, devem ter ficado em casa a estudar a passagem da vida de Cristo onde este oferece a outra face.
Todos sabemos que a ocupação do território alemão, na região do Sarr, depois da I Guerra Mundial não contou nada para a ascensão de Hitler. A culpa é da diplomacia, obviamente.

Depois, já se sabe, "os países membros da União Europeia querem construí-la a despeito de não conseguirem dotá-la de qualquer capacidade militar", denuncia V.G. Moura. Número de armas nucleares europeias: Reino Unido cerca de 350; França cerca de 200 (números de 2002). Portanto, 550 armas nucleares é zero de capacidade nuclear... Os Scud de Saddam, aquilo é que era material perigosíssimo! Armas nucleares é para frouxos europeus, aliás as armas nucleares são tão fraquinhas que o valente V.G. Moura até as usa para acender a lareira lá em casa!

V.G. Moura continua para bingo: "Falar nisso assusta os cidadãos e, sobretudo, uma juventude que cresceu embrulhada em algodão-em-rama e vota a partir dos 18 anos".
Esta é para mim.
Não me recordo se os cobertores da casa da minha avó eram de algodão-em-rama. O que me recordo é que nem o meu pai, nem a minha família, nem os amigos do meu pai eram ricos, também não tínhamos amigos médicos que lhe passassem um atestado a dizer que tinham bicos de papagaio nos pés. O meu pai decidiu não fugir para o Luxemburgo, ao contrário do que fizeram grande parte dos seus amigos. Deram-lhe uma G3 e um bilhete para Angola. Este foi o "algodão-em-rama" que esperava muitos milhares da minha geração assim que viemos ao mundo...

Rumsfeld: três anos ao serviço da Al Qaeda

Foram três anos de eficaz propaganda à Al Qaeda, em nome da causa neo-conservadora. Sem Rumsfeld o nível de donativos à Al Qaeda e de recrutamento de jovens nunca chegaria onde chegou. Ben Laden ou Mollah Omar deveriam condecorá-lo como o seu mais poderoso recrutador, quase ao nível de um Goebbels.

quarta-feira, novembro 08, 2006

Perfume - A história de um assassino

"Perfume" é um excelente filme do alemão Tom Tykwer - o realizador de "Corre Lola Corre" - baseado no romance do mesmo nome de Patrick Süskind. "Perfume" conta a história de Jean-Baptiste Grenouille, um indivíduo ingénuo e de comportamento obsessivo, que nasceu com um extraordinário dom de detecção e de reconhecimento de todos os odores do mundo. Trata-se de uma narrativa invulgar e surpreendente que percorre deliciosos cenários da França do século XVIII, entre Paris e Grasse, a capital mundial do perfume na Provença. Apesar de ser um filme dirigido ao grande público, acessível tanto à avozinha, como ao adolescente crivado de acne, este é um filme de uma perversão e de uma rebeldia raras, em que alguns dos inabaláveis pilares sociais sofrem uma atrevida rasteira.
Não vou adiantar mais, vou deixar aos caríssimos leitores o prazer de descobrir este invulgar e excelente filme.

Nota negativa
Este filme só não leva as 5 Estrelas Klepsýdra porque é falado em inglês. Tom Tykwer não resistiu à ambição de uma generosa receita de bilheteira rodando o filme em inglês, mas felizmente recorreu a bons actores ingleses, como Ben Whishaw ou Alan Rickman, ou ao americano Dustin Hoffman, o que contribuiu para a riqueza dos diálogos e minimizou os estragos linguísticos provocados por um idioma relativamente limitado. Se este filme fosse falado em francês o Perfume teria sido sem dúvida outro, ou em italiano, ou em alemão.

terça-feira, novembro 07, 2006

Congresso de feministas muçulmanas

Este fim de semana decorreu em Barcelona o Congresso Internacional de Feministas Muçulmanas. Embora o congresso fosse destinado a movimentos feministas religiosos - com posições diferentes dos movimentos laicos - a tão esperada modernização das sociedades muçulmanas pode também passar por aqui. As declarações de Shaheen Sardar Ali são disso uma ilustração:

«On assimile la loi divine à un corpus de lois et de préceptes machistes énoncés dans un contexte de sociétés dominées par l'homme. C'est de tout ce poids répressif qu'il faut aujourd'hui nous débarrasser»

domingo, novembro 05, 2006

Diário de bordo de um cosmonauta

"Carnet de bord d'un Cosmonaute" é um livro fundamental para os viciados em tudo o que se relacione com a exploração espacial. Jean-Pierre Haigneré participou em duas missões espaciais a bordo da Mir, após as quais passou a chefiar a preparação dos astronautas da ESA. Este livro é uma recolha do diário de bordo de Haigneré durante a sua última missão a bordo da Mir cuja duração foi cerca de 6 meses. É um livro cheio de curiosidades sobre a vida dos cosmonautas, abarcando assuntos que vão desde a preparação dos passeios no espaço até à descrição do menu de conservas e de comida desidratada.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Impacto económico do Aquecimento Global

O governo britânico elaborou um extenso e rigoroso relatório sobre o impacto do aquecimento global na economia mundial. As principais conclusões vêm ao encontro dos diversos alertas que já vinham sendo lançados por instituições como a NASA, o IPPC e a AEA:

"What are the costs of doing nothing?
We have to try to model the dangerous risks we have been discussing. We have to look out over 100-200 years when the big effects of our actions over the next 50 years will come through. When we do this in a way that averages across risks, time, and countries, we calculate that the damages from business-as-usual would be equivalent to at least 5 and up to 20% of consumption a year, depending on the types of risks and effects included. The first effects of climate change are already evident, but it is still some time before impacts and risks on this scale will appear. But given the lags, action to head off these risks is urgent.
"

"What are the costs and benefits of taking action?
The costs of removing most of that risk, getting to 550 or below, are around 1% of GDP per year. The cost could be above or below 1% depending on policies, technological progress and ambitions but would be in this region. This is equivalent to paying on average 1% more for what we buy - the price rise for carbon intensive goods would be higher and for low carbon intensive goods would be lower – it is like a one-off increase by 1% in the price level. That is manageable; we can grow and be green.
"

"The conclusion of the Review is essentially optimistic. There is still time to avoid the worst impacts of climate change, if we act now and act internationally. Governments, businesses and individuals all need to work together to respond to the challenge. Strong, deliberate policy choices by governments are essential to motivate change.
But the task is urgent. Delaying action, even by a decade or two, will take us into dangerous territory. We must not let this window of opportunity close.
"

ACLEFEU, um ano depois dos tumultos em França

Um ano depois dos tumultos em França, o colectivo ACLEFEU, composto por residentes das cités, realizou um levantamento sobre o que foi feito em todo país para resolver os problemas das mesmas cités: a exclusão, o desemprego, o estado das habitações e dos equipamentos, etc. A conclusão desse levantamento é que muito pouco ou nada mudou.

Devo referir que esta conclusão não me espanta absolutamente nada. O que me incomoda mais nisto tudo é incrível passividade da esquerda perante a gravidade da situação das cités. A "luta" contra o CPE simboliza melhor do que qualquer outro exemplo essa passividade e um certo egoísmo político que caracterizam uma boa parte da esquerda francesa.

Durante anos a resposta da direita aos problemas das cités foi essencialmente a política da bastonada, com os resultados que se viram. Villepin foi o primeiro político de direita a propor medidas alternativas ao bastão. Villepin propôs o CPE com o objectivo de oferecer mais oportunidades de trabalho nas cités. A esquerda não concordou. Sendo assim, o que eu esperava da esquerda era que centrasse a sua luta contra o CPE no quadro da resolução dos problemas das cités, apresentando alternativas por exemplo, mas não foi isso que aconteceu. Em poucos dias as "vítimas" do CPE deixaram de ser os jovens das cités para passarem a ser os estudantes universitários, que muito dificilmente seriam abrangidos pela lei, visto que esta só poderia ser aplicada a trabalho não qualificado e a jovens até aos 24 anos. Mais uns dias volvidos e entre as "vítimas" que se manifestavam já se encontravam trabalhadores quase na reforma. As cités tinham sido já completamente esquecidas. A esquerda mergulhou num egoísmo eleitoralista fácil e perdeu uma grande oportunidade para debater as cités a sério. Um ano volvido, ainda estamos no ponto de partida...

sábado, outubro 28, 2006

Sábado em Coimbra XXXI: anti-Tübingen

Coimbra e o Mondego são um anti-retrato de Tübingen e do seu rio Steinlach e de Würzburg e do seu Main.

Em Tübingen o rio faz parte da cidade, não é um obstáculo, barcaças propulsionadas através de longas varas, baratas e acessíveis, proporcionam momentos de romantismo e de fantátistico contacto com a natureza ao comum cidadão.

Em Würzburg os atletas do clube de remo local podem ir a pé dos balneários através de um ambiente 100 % natural (nada de relvas tratadas) até ao rio.

Tanto as margens do Steinlach como as do Main estão acessíveis aos cidadãos no seu estado natural em quase todos os pontos das cidades. Em ambas as cidades a Universidade vai até ao rio, molha os pés e avança até ter água pela cintura...

Sábado em Coimbra XXX

sexta-feira, outubro 27, 2006

O racismo de Huntington em American Vertigo

Vale a pena relembrar o racismo de Huntington, o autor de "Choque de Civilizações", no dia em que foi decretada a construção do muro (na verdade o resto do muro, que ele já existe) entre o México e os EUA. Em "American Vertigo", Bernard-Henri Lévy descreve o seguinte episódio passado durante a entrevista a Samuel Huntington num restaurante caro de Beacon Hill:

"dans cet élégant restaurant où la chère était trop bonne et le vin trop capiteux, le voilà qui à ma grande surprise, renonce à toute prudence et lâche, en quelques phrases, ce que ses adversaires le soupçonnent de penser tout bas sans oser, d'habitude, l'avouer trop haut. Ah! l'affreuse violence qui sourd de son oeil bleu quand il me lance que «le grand problème avec les Hispaniques c'est qu'ils n'ont pas envie d'éducation»! La haine de petit Blanc qui défigure le visage savant de Monsieur le Professeur" (pag. 377).

Os hispânicos também somos nós. E não vale a pena dizer que o termo hispânicos é mais dirigido aos mexicanos e aos porto-riquenhos. Vi com os meus próprios olhos os nossos emigrantes nos EUA, baixinhos, cabeludos, de bigode, risco ao lado e barriguinha, para o americano médio é tudo farinha da mesma massa. A guerra de civilizações também é em certa medida contra nós, só um ingénuo pode pensar que Huntington nos tem como parceiros no choque de civilizações.

quinta-feira, outubro 26, 2006

França, Inglaterra e véu islâmico

É curioso, em 2006, verificarmos os resultados de duas políticas europeias distintas sobre a ostentação de símbolos religiosos nas escolas públicas.

Em França desde que entrou em vigor a circular Bayrou de 1994 que proibia a ostentação de símbolos religiosos nas escolas, o número de casos de litígio sobre a aplicação da lei baixou de 9000 em 1994 para 300 em 2006. Devo esclarecer que por princípio não concordo com este tipo de procedimento, mas devo confessar que os resultados são sem dúvida muito positivos.

No Reino Unido, a política seguida nas escolas públicas foi a de não restrição de ostentação de símbolos religiosos, embora nalguns casos tivesse existido um acordo em adaptar a farda escolar obrigatória à cultura de origem dos alunos, permitindo os turbantes no caso de estudantes indianos. Os resultados no Reino Unido são catastróficos a todos os níveis na comunidade muçulmana, sobretudo no abandono da escola pública pela escola corânica, cuja dimensão escapa aos responsáveis políticos. É neste particular que se comete o erro mais grave. A inexistência de documentos de identificação oficiais permite aos movimentos islâmicos mais radicais colocarem fora de circulação milhares de crianças - o estado britânico não sabe da sua existência - que vão encher as escolas corânicas controladas pelos mesmos movimentos.
A recente polémica da professora muçulmana que se apresentou numa escola pública para ensinar de véu, através do qual apenas se vislumbravam os olhos, mostra o estado de degradação a que se chegou no Reino Unido.

Preferia que não existissem interdições, parafraseando Cohn Bendit, preferia que as raparigas entrassem para o liceu de lenço na cabeça e saíssem de cabelo pintado e piercing no umbigo. Mas os franceses que foram tão criticados de jacobinismo por alguns anglófilos da nossa praça acabam por sair claramente vencedores deste combate, muito graças ao seu pragmatismo e àquele espírito de "raleurs" que é bem conhecido.

quarta-feira, outubro 25, 2006

Partículas Elementares


(Partículas Elementares de Oskar Roehler baseado no livro do mesmo nome de Michel Houellebecq)

Bruno e Michael são meios-irmãos, filhos de uma hippie convicta até ao fim dos seus dias. Partilham a dificuldade de integração numa sociedade onde proliferam vidas clássicas. Bruno, escravo dos seus fantasmas sexuais, vive perdido no seu extremismo e no alcoolismo e Michael, introvertido e bloqueado emocionalmente, vive mergulhado na ciência e isolado do contacto com o sexo oposto. Ambos vão sair do circulo vicioso em que se encontram, mas é Bruno quem vai ter a experiência mais traumática. Bruno vai viver um dos seus fantasmas, e como é duro quando os fantasmas se materializam...
"Partículas Elementares" é baseado no romance do mesmo nome de Michel Houellebecq que conta com uma excelente interpretação de Moritz Bleibtreu (Bruno), com Franka Pontente (a Lola de "Corre Lola Corre" onde contracena com Moritz) e ainda com a deliciosa Martina Gedeck. A escolha de Martina Gedeck para a personagem Christiane - que vai materializar dos fantasmas de Bruno - é excelente, por tudo, até porque fiquei a partilhar parcialmente do sofrimento de Bruno...

Filme Klepsýdra ***** (5 estrelas)

segunda-feira, outubro 23, 2006

Para quando ARTE Portugal?

O canal franco-alemão ARTE estendeu o seu conceito à Bélgica. A ARTE Bélgique deu os primeiros passos recentemente e já se fala na ARTE Espanha.

Uma ARTE Portugal seria uma bênção. Num país onde os projectos de televisão privada em canal aberto vieram exclusivamente da direita, onde a qualidade bateu no fundo e por aí tem permanecido alimentada por telenovelas, futebol e variedades da vida real, faz muita falta um verdadeiro canal de serviço público. Faz falta um canal que não seja um insulto à inteligência constante, um canal que não seja kitsch, que não dê às pessoas "o que elas querem", mas que ofereça a possibilidade às pessoas de poderem escolher programas, filmes, reportagens, debates com qualidade, feitos pelos melhores e com meios inovadores. É essa a fasquia e o pequeno segredo do sucesso do canal ARTE.

Por exemplo, em Portugal é perfeitamente impossível pensar em ter um grande programa de debate de literatura, confrontando escritores, políticos, intervenientes sociais, leitores, críticos etc., como é corrente em França ou na Alemanha. Mas o canal ARTE vai mais longe, exemplo disso é série de programas "A Saute Mouton" em que alguns dos maiores pensadores da actualidade se propuseram debater o tema Europa, participando entre outros: Joschka Fischer, Jürgen Habermas, Fernando Savater, Umberto Eco, Günter Grass, Susan Sontag, Adam Michnik, Slavoj Zizek e Jeremy Rifkin.