segunda-feira, março 23, 2009

Índice do niilismo

Quando lemos o Abrupto percebemos que o "índice do situacionismo" (situacionismo... valha-nos a Santa Ingrácia!) tem outra função para além de fazer pressão e de manipular (se correr bem) os principais meios de comunicação. O "índice do situacionismo" tem servido em grande parte para alimentar o niilismo da crise. Esta crise que é da total responsabilidade da ideologia a que o Abrupto tanto apelou desde que foi criado. Se um índice do niilismo houvera, no Abrupto estaria a rebentar a escala.

O Complexo Baader Meinhof



"O Complexo Baader Meinhof" é mais uma excelente produção da Constantin Films integrando uma série de filmes que revisitam o passado recente da Alemanha. O realizador Uli Edel dá-nos a sua interpretação histórica do grupo de extrema-esquerda Facção Exército Vermelho, dirigido por Andreas Baader e Ulrike Meinhof, mostrando-nos um grupo pouco doutrinado, mais motivado e deslumbrado pelo radicalismo das actividades da organização. Alguma crítica alemã considerou que Uli Edel se afastou um pouco da realidade, representando um grupo sexy de terroristas. No entanto, considero que o "Complexo Baader Meinhof" é uma interessantíssima viagem à história recente da Europa, ao terrorismo de inspiração marxista e às ilusões que vinham do lado de lá da cortina de ferro. A cena em que se grita em uníssono na universidade "Ho! Ho! Ho Chi Minh!" é um soberbo estímulo para a nossa memória.
Excelentes interpretações de Johanna Wokalek, de Martina Gedeck e de Moritz Bleibtreu. A não perder!

quarta-feira, março 18, 2009

100 questões sobre a ciência e a vida

A não perder esta edição especial da Science&Vie onde são formuladas e respondidas 100 perguntas sobre assuntos científicos populares. Organizada em três partes (porquê, quando e como) esta edição faz uso de uma linguagem acessível ao cidadão comum.
Alguns exemplos: Porque é que um diamante é duro? Porque choramos? Quando se extinguirá o Sol? Quando utilizamos o nosso cérebro no máximo das suas possibilidades? Como actua o ferro de passar a roupa nos tecidos? Como funcionam as lâmpadas de baixo consumo?

terça-feira, março 17, 2009

A ciência segundo George Bush

Gostei muito dos comentários do Pedro Mexia no Governo Sombra desta sexta-feira 13 a propósito da resolução de Obama sobre a investigação de células estaminais. Com muita clareza disse o que algumas vozes na direita se têm esquivado a admitir. A política científica de Bush era inspirada em tendências religiosas fundamentalistas e tinha um enquadramento ideológico de confrontação directa com os cientistas. Não admira que tenha surgido durante o seu mandato o movimento Defend Science. O manifesto deste movimento foi subscrito por cerca de duas dezenas de prémios Nobel, insurgindo-se contra o niilismo do darwinismo, do aquecimento global, do Big Bang e contra os cortes na investigação em áreas onde dominam os dogmas religiosos.

segunda-feira, março 16, 2009

Lixo e Congestionamento Espacial

(publicado no portal Esquerda.net)

Na semana passada, os três tripulantes da Estação Espacial Internacional (ISS: International Space Station), um russo e dois americanos, foram obrigados a refugiar-se na Soyuz para se proteger do impacto de um fragmento de motor com cerca de 1 cm deslocando-se a uma velocidade superior a 10 mil quilómetros por hora. No entanto, os responsáveis pelo controlo da missão sublinharam que a decisão de mudar os astronautas para a Soyuz foi uma medida de precaução, visto que a probabilidade de impacto era muito baixa. Se este fragmento fosse detectado com antecedência os controladores de voo teriam optado por alterar a trajectória da ISS. Nos últimos 10 anos, foi necessário efectuar esse tipo de manobras por oito vezes para evitar outros tantos fragmentos. Este foi o segundo incidente com alguma gravidade a ocorrer no espaço com um intervalo de cerca de um mês. No passado dia 10 de Fevereiro, sobre a Sibéria, o satélite de comunicações americano Iridium 33 colidiu com o satélite Kosmos 2251, um satélite militar russo fora de serviço, espalhando cerca de 600 novos fragmentos no espaço.

Desde 1957, ano em que entrou em órbita o primeiro satélite construído pelo homem, o Sputnik, foram lançados cerca de 6.000 satélites, entre os quais menos de 1.000 continuam em funcionamento. Hoje em dia, são mais de 18.000 os objectos produzidos pelo homem com mais de 10 cm a orbitar no espaço, totalizando cerca de 5.000 toneladas de fragmentos de variados tipos que se deslocam em órbitas até 2.000 quilómetros de altitude. No entanto, apenas 8.600 fragmentos são seguidos em permanência pelas estações de controlo. Com a progressiva entrada da China na exploração espacial espera-se que este problema se venha a agravar significativamente.

Estes incidentes recentes lançaram a discussão sobre urgência de gerir o lixo espacial. Existem várias soluções propostas, em função do tipo de fragmentos. A solução mais simples consiste em fazer cair na Terra de uma forma controlada os satélites fora de serviço. Embora esta solução tenha a vantagem de permitir queimar uma boa parte do material dos satélites na entrada na atmosfera, representa alguns perigos adicionais para o caso dos satélites com motores a reacção nuclear, semelhantes ao dos submarinos nucleares. Outra solução seria equipar todos os novos satélites com um motor que os ejectassem para órbitas onde estes não constituíssem qualquer perigo, uma espécie órbita cemitério.

Livro de Reclamações e a ASAE

Bateu-se tanto na ASAE, mas o que é certo é que os portugueses utilizaram bem mais o livro de reclamações em 2008 e por alguma razão deve ter sido. Não sou um adepto de uma sociedade asséptica, mas concordo inteiramente com o Filipe Moura sobre a importância de reforçar a ASAE perante a abundância de vigarice em grande parte do nosso comércio e dos nossos serviços.

"Os portugueses estão a reclamar cada vez mais enquanto consumidores de produtos e serviços, tendo efectuado 198 mil queixas no Livro de Reclamações em 2008, mais 78 mil do que no ano anterior." Ler resto do artigo do DN.

sexta-feira, março 13, 2009

Lixo Espacial


Ontem, os tripulantes da Estação Espacial Internacional tiveram que recorrer à cápsula de refúgio da Soyuz para se proteger do impacto de um fragmento de um motor com cerca de 1 cm a uma velocidade de algumas dezenas de milhar de quilómetros por hora.
Hoje em dia, são mais de 18000 os objectos produzidos pelo homem com mais de 10 cm a orbitar no espaço. Por este andar é bem possível que um dia tenhamos que recorrer a satélites para fazer a recolha do lixo.

quinta-feira, março 12, 2009

Verano Azul

Eu ouvi... No final do jogo, os altifalantes do Estádio do Dragão emitiam a toda pastilla o genérico da série Verano Azul.

terça-feira, março 10, 2009

Klepsýdras de Ouro 2008

Melhor Filme


"Quem quer ser bilionário" de Danny Boyle e Loveleen Tandan, pela denuncia da miséria social dos bairros da lata indianos e por um retrato mais lato, um retrato dirigido a todos os humanos, esse retrato dos efeitos das novas prisões urbanas, entre o lixo e o luxo, que revela o pior que há em nós: o oportunismo, o cinismo e a cobardia.


Melhor Actriz

Johanna Wokalek pela sua interpretação no filme O Complexo de Baader Meinhof


Melhor Actor

O búlgaro Ivan Barnev pela sua interpretação no filme Eu Servi o Rei de Inglaterra.


Melhor Filme Fantástico
"[Rec] Regista o Medo" de Jaume Balagueró e Paco Plaza

Melhor Filme Político
"Gomorra" de Matteo Garrone

Melhores Diálogos
"Eu Servi o Rei de Inglaterra" de Jiří Menzel. A adaptação ao cinema do livro do mesmo nome da autoria do escritor checo Bohumil Hrabal ofereceu-nos excelentes diálogos que combinam a ironia com a inocência. Apreciei especialmente a cena do passeio romântico de Jan Díte (Ivan Barnev) com a sua namorada alemã junto ao Vltava em que esta coloca algumas reticências à relação dado Jan não ser de raça ariana, desencadeando em Jan uma ligeira preocupação momentânea, embora este achasse que a sua namorada tinha toda a razão...


Klepsýdra dos Leitores

A escolha foi boa. Agradeço a participação dos leitores.

Hoje: Klepsýdras de Ouro

Depois das 23h serão atribuídas as Klepsýdras de Ouro referentes a 2008. A passadeira de veludo azul já está estendida, a polícia de choque mobilizada e a imprensa mundial já cercou o perímetro das nossas soberbas instalações. O George Clooney e a Monica Bellucci fizeram questão de apresentar os galardões. Nós não recusámos.

Os candidatos a melhor filme já são conhecidos e continuam a votos ali ao lado para a Klepsýdra de Ouro dos nossos leitores. A Klepsýdra de Ouro para a melhor actriz tem como candidatas: Angelina Jolie (A Troca), Johanna Wokalek (O Complexo de Baader Meinhof), Laura Baquela (A Turma) e Sophie Marceau (Mulheres de Guerra). Os candidatos a melhores actores: Koen De Bouw (Loft), Sean Penn (Milk), Ivan Barnev (Eu Servi o Rei de Inglaterra), John Malkovich (A Troca) e Moritz Bleibtreu (Mulheres de Guerra).

segunda-feira, março 09, 2009

Fundador da Al Qaeda critica Bin Laden

A crise das críticas dos dissidentes não se resume ao PS, PSD e PCP, estende-se à própria Al Qaeda. Via Courrier International, encontrei um artigo que vale a pena ler de uma ponta à outra publicado por David Blair no Telegraph onde são relatadas as críticas do Dr. Fadl (ex-Al Qaeda) a Osama bin Laden, onde Fadl acusa Osama de cada gota de sangue derramado no Iraque e no Afeganistão. É certo que Fadl está numa prisão no Egipto, e sabemos que um bastão e uns eléctrodos são capazes de fazer milagres, mas a resposta de 200 páginas elaborada por Zawahiri é um forte indicador que as críticas de Fadl são genuínas.

domingo, março 08, 2009

Klepsydras de Ouro

Como vem sendo tradicao vamos aqui atribuir as Klepsýdras de Ouro aos melhores filmes do ano. Este ano havera uma novidade: a Klepsydra de Ouro do publico. Por isso continuem a votar ali na caixinha ao lado no vosso filme preferido. Para quem nao conhece deixo-vos o palmarés deste prestigiadíssimo prémio (e quica o mais cobicado de todos).



Palmarés
Melhor Filme
2007:"Conversas com o meu Jardineiro" de Jean Becker
2006:"Partículas Elementares" de Oskar Roehler
2005:"L'Enfer" de Danis Tanovic
2004:"A Queda" de Oliver Hirschbiegel

Melhor Actriz
2007: Romola Garai pelo filme Angel
2006: Martina Gedeck pelos filmes "Partículas Elementares" e "As Vidas dos Outros"
2005: Isabelle Carré pelo filme "Entre ses Mains" e Cécile De France pelo filme "As Bonecas Russas"

Melhor Actor
2007: Dominique Pinon pelo filme Romance de Gare
2006: Denzel Washington pelo filme "Infiltrado".
2005: José Garcia pelos filmes "A Caixa Negra" e "Golpe a Golpe"

Melhor Filme Fantástico
2007: "Inland Empire" de David Lynch
2006: "Perfume" de Tom Tykwer
2005: "A Caixa Negra" de Richard Berry

Melhor Filme Político
2007: "Our Daily Bread" de Nikolaus Geyrhalter
2006: "As Vidas dos Outros" de Florian Henckel von Donnersmarck
2005: "ENRON: The Smartest Guys in the Room" de Alex Gibney

Melhor Diálogo:
2007: "99 Francos" de Jan Kounen
2006: "Infiltrado" de Spike Lee
2005: "ENRON" de Alex Gibney

sexta-feira, março 06, 2009

Glaciares-clepsidra

A cerca de 2400 m de altitude, perto de um dos maiores glaciares da Europa, esses grandes reservatórios de água que nos vão doseando H2O no estado líquido através de grandes rios como o Danúbio e o Reno, observo este inverno mais inverno a tentar repor parte do que se perdeu nos últimos 20 anos. E foi muito o que se perdeu. Estes glaciares funcionam agora como clepsidras de água no estado sólido. Marcam o tempo que falta para produzirmos o irreparável.

"Ciao Rui, até amanhã!", virei-me, mas não era para mim.
Emigrantes, muitos emigrantes, velhos e jovens, a provar que a diáspora continua. Oiço falar de saudades da terra, de 30 anos de trabalho, de uma reforma suiça e do regresso à Beira Interior.

terça-feira, março 03, 2009

O que é "E agora eu sou Galileu"?

(Publicado no portal Esquerda.net)

Em 2009 celebra-se o Ano Internacional da Astronomia (AIA) com iniciativas a decorrerem em todo mundo e também em Portugal. No nosso país, a agenda do AIA pode ser consultada página internet oficial da comissão organizadora. "E agora eu sou Galileu" é o título da próxima iniciativa nacional. Como se pode ler no resumo programa oficial esta iniciativa "destina-se a recriar as observações de Galileu, a nível nacional, pondo em destaque a sua importância para o conhecimento do Universo".

Com o objectivo de reproduzir as principais descobertas realizadas por Galileu, o participante que integrar estas actividades que decorrerão ao longo do ano poderá observar: as fases de Vénus, os satélites de Júpiter, Saturno, as crateras da Lua, manchas solares e a Via-Láctea.

As primeiras observações iniciam-se este fim-de-semana, com a observação de Vénus. Estas observações decorrerão em vários locais do país, sendo coordenadas pelas seguintes instituições: Associação Portuguesa de Astrónomos Amadores, Centro de Astrofísica da Universidade do Porto, Centro Ciência Viva Bragança, Núcleo Interactivo de Astronomia, Universidade da Madeira, Observatório Astronómico de Lisboa e a Orion - Sociedade Científica de Astronomia do Minho. Os respectivos contactos poderão ser encontrados aqui. As próximas observações decorrerão a 3 e a 4 de Abril, devendo reproduzir as observações das crateras lunares realizadas por Galileu.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Vira-Latas Milionário: glamour ou violência?

(AllPosters.com)

Um colega, conhecedor da Índia, repetiu-me várias vezes o seguinte: "o que me impressiona na Índia é chegar a um bairro caótico e imundo e ver passar mulheres com vestidos coloridos impecáveis".

Li as críticas a "Quem quer ser bilionário" do Daniel Oliveira e da Joana Amaral Dias onde ambos fazem referência à estetização da pobreza, ao glamour e às cores fortes, presentes neste filme de Danny Boyle. Não serão os bairros da lata da Índia um pouco assim, caóticos e imundos (como diz o meu colega) mas com um certo glamour, com a seda a fazer milagres no meio da miséria? A estetização da pobreza é sempre um risco para quem filma em bairros da lata. Na "Cidade de Deus", por exemplo, a estetização das armas e dos tiroteios é bem mais potente do que o glamour dos vestidos de seda de Bombaim. Muitos viram a "Cidade de Deus" só pela cowboiada concluindo pobremente que aquilo só se resolvia com uma bomba atómica em cima da favela. Justamente, concordo com a Joana quando diz que o mais importante é o que cada espectador faz do filme. Presta o espectador mais atenção ao glamour ou à violência a que estão sujeitas as crianças dos bairros da lata? Não me refiro à violência física, mas sim à violência das hierarquias sociais e institucionais, à corrupção generalizada, à exploração laboral, ao machismo, à intolerância religiosa, ao oportunismo, a esse cocktail de violências invisíveis ou menos visíveis que infernizam a vida daqueles jovens a extremos inimagináveis para um confortável europeu.
Foi precisamente essa violência que faz com que a maior parte daqueles jovens não tenha forma de sair do ciclo vicioso do bairro da lata (excepto através de um concurso) que lhes oferece um futuro sem opções, um futuro em linha recta, foi essa violência bem presente na película de Boyle que me fez apreciar o filme. Vi a denúncia e escapou-me completamente o glamour e as cores fortes.
A vous de juger!

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Estrelas de Klepcinema 2008 (actualização)

5 estrelas
[Rec] Regista o Medo (Jaume Balagueró e Paco Plaza)
Loft (Erik Van Looy)
Quem quer ser Bilionário (Danny Boyle e Loveleen Tandan)

4 estrelas
Milk (Gus Van Sant)
Valsa com Bashir (Ari Folman)
Gomorra (Matteo Garrone)
O Complexo de Baader Meinhof (Uli Edel)
MR73 (Olivier Marchal)
A Troca (Clint Eastwood)
Eu Servi o Rei de Inglaterra (Jiří Menzel)
O Silêncio de Lorna (Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne)

3 estrelas
A Turma (Laurent Cantet)
Destruir Depois de Ler (Ethan Coen e Joel Coen)
C'est dur d'être aimé par des cons (Daniel Leconte)
Mulheres de Guerra (Jean-Paul Salomé)
Deux Jours à Tuer (Jean Becker)
Amor em Tempo de Cólera (Mike Newell)
Quantum of Solace (Marc Forster)
Two Lovers (James Gray)
Tropa de Elite (José Padilha)

2 estrelas
Parlez-moi de la pluie (Agnès Jaoui)
Vicky, Cristina, Barcelona (Woody Allen)
Morte de um Presidente (Gabriel Range)
Nés en 68 (Olivier Ducastel)

1 estrela
Babylon AD (Mathieu Kassovitz, mas avacalhado pela 20 Century Fox)
O Acontecimento (M. Night Shyamalan)

terça-feira, fevereiro 24, 2009

E agora eu sou Galileu

"E agora eu sou Galileu" é o título da próxima iniciativa nacional no Ano Internacional da Astronomia, eis a página internet e o resumo:

"Esta iniciativa destina-se a recriar as observações de Galileu, a nível nacional, pondo em destaque a sua importância para o conhecimento do Universo. Embora qualquer organismo nacional se possa juntar a esta iniciativa, ela será centralizada alguns nodos, que assegurarão o contacto mais próximo com o público."

A culpa é sempre do maquinista

Concordo totalmente com o último parágrafo deste texto do Luís Januário.
Uma das justificações dadas pela ortodoxia comunista para o descalabro da URSS é que o sistema, a economia planificada, não era mau, a culpa era do factor humano, era do maquinista, o maquinista é que fez descarrilar as máquinas.
Achei piada quando em 2002, após o escândalo ENRON, ouvi a mesma justificação, a culpa era dos maozões da ENRON, o sistema estava bem, só precisava de uns retoques. Hoje , depois de alguma cosmética legislativa, quando o sistema ultra-liberal se está a afundar fortemente provocando desemprego e vidas destruídas a uma escala já comparável ao descalabro do bloco de leste, ouvimos de novo a mesma justificação: o sistema é bom, a culpa é do maquinista...

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

A transformação política da Islândia

O país da Europa que mais sofreu com a crise está a operar uma transformação política extraordinária. Os Verdes de Esquerda estão na frente das sondagens. Preparam-se dois referendos, um sobre a adesão ao euro e outro sobre a adesão à UE. A direita, a responsável ideológica pela crise, continua a descer a pique nas sondagens.
Por cá ainda vai havendo espaço para o niilismo da crise, por lá, onde se sente no pêlo a bancarrota, já não há lugar para floriados retóricos.

domingo, fevereiro 22, 2009

Votar no melhor filme

A partir de hoje os caros leitores podem votar no melhor filme de 2008, na caixa do lado direito. A escolha está condicionada aos filmes que vi e aos filmes que já sairam em Portugal.

O Vira-Latas Milionário



"Quem quer ser Bilionário?" - poderia intitular-se "O Vira-Latas Milionário" - de Danny Boyle, combina a dinâmica "Trainspoting" (do mesmo autor) com um retrato social tipo "Cidade de Deus". A violência sob todas as formas a que estão sujeitas as crianças dos bairros da lata e a forma como esta violência forja o carácter de cada indivíduo é o tema principal desta obra-prima de Boyle. A estrutura da narrativa é excelente e surpreendente, e talvez o ponto mais forte deste filme, onde quase tudo é muito bom. O filme começa com o interrogatório de Jamal, um jovem que cresceu nos bairros da lata de Bombaim, depois de uma prestação com sucesso na versão indiana do concurso "Quem quer ser milionário?". E daqui partimos para o turbilhão da história de vida de Jamal e para algo mais que deixarei ao leitor a possibilidade de descobrir quando assistir ao filme.
O elenco é composto exclusivamente por actores indianos desconhecidos no ocidente, onde se destaca a prestação de Anil Kapoor, o apresentador do "Quem quer ser milionário?" - aquela dançazita após uma das respostas de Jamal é fabulosa. A bela Freida Pinto, a paixão de Jamal, é uma actriz de origem portuguesa, descendente das famílias católicas da velha Bombaim.

Filme Klepsýdra ***** (5 estrelas)

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Cinema sem pipoca

Já aqui dei a opinião negativa sobre a crítica de cinema em Portugal: caprichosa, mal informada (tem vindo a melhorar admito), de vistas curtas e sempre disposta a dar primeiras páginas de suplementos às "super-produções de hollywood", o brochezito do costume. Nos blogues, de uma forma gratuita, podemos ler muito melhor sobre cinema: ler o Luís Januário, ler o Bruno Sena e ler Um Blog Sobre Kleist.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

A fraude que se segue: Robert Stanford

Robert Stanford é o autor de mais uma fraude de grandes proporções, cerca de 6 mil milhões de euros. É impressionante como a sociedade que se foi construindo nos últimos anos se tornou acrítica e crente, deslumbrada com o dinheiro fácil, compactuando com o lucro sem produção. O pior é que me parece que não está a ser feito muito para irradicar o ultra-liberalismo económico entranhado no sistema. Os mercados financeiros estão a operar alguma mudança importante no seu funcionamento? Parece-me que não.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

O freeport do PSD

É curioso constatar como alguns dos principais dirigentes do PSD que vibram com o caso Freeport, são os mesmos que aprovaram a candidatura de Duarte Silva à câmara da Figueira da Foz. Duarte Silva, recorde-se, está envolvido num processo muito semelhante ao caso Freeport, com a agravante de ter sido constituído arguido. A nível nacional o PSD escandaliza-se e com razão sobre as negociatas Freeport. A nível interno, longe dos holofotes, escolhem os caciques do costume, volta tudo ao normal, ao país do betão e do futebol patrocinados pelas câmaras.
Nas próximas eleições temo que entre Felgueiras da Foz ou Figueira da Foz, se escolha a primeira, já não tenho grandes ilusões, é o resultado da estupidez quotidiana que se vai cultivando no nosso país, um país cada vez mais kitsch e acrítico.

domingo, fevereiro 15, 2009

47°C em Melbourne

47,9°C registados no passado 7 de Fevereiro foi a temperatura mais alta registada em Melbourne - cidade costeira - desde que há registo de temperaturas na Austrália. Para percebermos o significado deste valor convém reter que a temperatura mais elevada registada na Austrália foram 50°C na região de Oodnadatta, situada em pleno deserto a 112m abaixo do nível do mar, e a temperatura mais alta registada na Terra foram 57,8°C no deserto Sahara.

sábado, fevereiro 14, 2009

Quando se Romperam os Diques

"Quando se Romperam os Diques" de Spike Lee é um filme documentário produzido pela HBO que descreve os efeitos da passagem do Katrina em Nova Orleães em Agosto de 2005. O documentário de Spike Lee mostra com clareza que a tragédia ocorrida não teve origem nos efeitos directos do furacão Katrina, mas sim na quebra dos diques aquando da sua passagem pela cidade. Mais de metade da cidade está abaixo do nível do mar, em média estas zonas estão cerca de meio metro abaixo, mas certas zonas estão 5 metros abaixo do nível do mar. Após a passagem do Katrina a cidade começou a ser rapidamente inundada até se formarem algumas ilhas que serviram de refúgio aos que viram as suas habitações inundadas. O que é impressionante no filme de Spike Lee é constatar como a morte chega pela calada. A concentração de pessoas aos milhares em pequenas áreas, como no estádio de baseball, a falta de saneamento básico, a exposição ao calor, a falta de água potável e de alimentos começaram a fazer vítimas desde o primeiro dia. Diabéticos, idosos, crianças, bebés e pessoas que dependiam de medicação espécífica foram os primeiros a morrer. Os mortos ficavam misturados com os vivos. Milhares de pessoas sem ter para onde ir, que entupiam as retretes e as casas de banho a níveis impensáveis, pessoas habituadas ao conforto das suas casas, estavam de um momento para outro a viver uma tragédia terceiro-mundista.
Exceptuando o esforço da guarda-costeira que trabalhou 24 horas por dia por iniciativa própria, a Administração Bush não adoptou medidas de salvamento que correspondessem à dimensão da tragédia. Um dos sobreviventes do Katrina queixa-se a Spike Lee: "vimos chegar uns soldados com uniformes diferentes e perguntámos de que unidade eram. Responderam-nos que eram Canadianos. Perguntámos como tinham chegado ali. Disseram-nos que se meteram num barco no Canadá e desceram até Nova Orleães. Ficámos furiosos, onde estavam os nossos soldados?..."

Katrina e o aquecimento global
Sobre a probabilidade do Katrina estar relacionado com o aquecimento global ler este artigo da Nature, este e este artigo no Journal of Climate (Via Linha dos Nodos).

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Darwin e a emancipação da ciência

(Publicado no portal Esquerda.net)

A descoberta por Charles Darwin da evolução pela selecção natural, desencadeou desde cedo reacções acesas e apaixonadas entre a comunidade científica e a sociedade civil. A Igreja de Inglaterra foi a primeira instituição importante a formular uma reacção de rejeição da teoria da evolução. Desde então o carácter revolucionário da obra de Darwin não deixou de ser objecto de ataques ideológicos e religiosos, suscitando no entanto a admiração de eminentes pensadores.

Marx considerava que o grande feito de Darwin foi o de nos interessar pela "história da tecnologia da natureza". Para Darwin a ascensão e o declínio das espécies era determinado pela luta entre organismos, pela selecção natural e pela sobrevivência dos mais aptos. Darwin inspirou Marx, para quem o destino era determinado pela luta de classes económicas. Esta ideia seria reforçada por Friedrich Engels quando este declarou perante o seu túmulo: "Tal como Darwin descobriu a lei da evolução na natureza orgânica, também Marx descobriu a lei da evolução na história humana".

Mais tarde Henri Bergson, filósofo e Prémio Nobel da Literatura em 1927, foi aquele que empregou argumentos mais sofisticados na tentativa de negar a teoria de Darwin. Bergson considerava que o processo de selecção natural a actuar por variações aleatórias não chega para explicar a evolução de um órgão complexo como o olho dos vertebrados. Considerava que houve um impulso vital (élan vital) a dirigir o desenvolvimento dessas partes mais complexas.

Ora, a selecção natural é um processo de acumulação de pequenos passos evolutivos, cada um deles com uma probabilidade baixa, mas não extremamente baixa. Quando um número muito grande destes pequenos passos pouco prováveis se sucede em série, o resultado final desta acumulação de passos é de facto muito pouco provável. O erro de Bergson e dos criacionistas é que insistem num erro estatístico fundamental ao considerarem o resultado final de um processo evolutivo como um único passo, desprezando o poder da acumulação de pequenos passos pouco prováveis.

Recentemente, as teses de Bergson foram retomadas pelos defensores do Desenho Inteligente. Para esta corrente niilista alguns dos seres vivos existentes na Terra não têm passado evolutivo, tendo sido obra de uma inteligência superior. Em 2004 um grupo de professores adepto desta corrente tentou incluir o desenho inteligente no currículo de uma escola secundária de Dover, Pensilvânia, EUA. O caso passou pelos tribunais e o Desenho Inteligente foi excluído do currículo da escola de Dover por violar o princípio constitucional de separação entre Igreja e Estado.

Este como outros ataques à ciência provenientes de seitas religiosas evangélicas norte-americanas associadas a correntes neo-conservadoras mais radicais (onde se inclui a ex-candidata Sarah Palin) despoletaram durante a recente campanha eleitoral americana o movimento "Defenda a Ciência". O seu manifesto contra a pseudo-ciência e a ortodoxia religiosa vincava a importância da defesa do Darwinismo contra as investidas dos criacionistas e do Desenho Inteligente. Este manifesto foi subscrito por milhares de investigadores, entre os quais 14 Prémios Nobel e mais de 100 membros da National Academy of Sciences dos EUA. O movimento "Defenda a Ciência" celebra hoje os 200 anos do nascimento de Darwin e os 150 anos da publicação de "A Origem das Espécies", apelando à defesa do legado de Darwin contra as novas seitas e as novas ideologias que pretendem mergulhar a nossa civilização em novas eras obscurantistas.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Aquecimento global, disparates locais

Quando se fala em aquecimento global fala-se no aumento da temperatura média de todo o planeta. Por exemplo, se a temperatura média da Terra aumentar 1ºC durante 10 anos, existirão certamente numerosas regiões do planeta onde a temperatura média diminui, mas serão muito mais extensas as regiões onde a temperatura aumenta.

O recente frio inverno europeu, mas apesar de tudo frio dentro daquilo que é a normalidade, suscitou os habituais comentários niilistas sobre o aquecimento global. Foi a enésima vez que fenómenos extremos locais servem para negar um fenómeno global. Isto faz tanto sentido como abrir a porta do congelador e só porque sentimos frio concluímos que o aquecimento global não existe. Nem por acaso as temperaturas extremas e as vaga de fogos na Austrália - fenómenos bem mais raros que os invernos frios da Europa - vieram lembrar que a temperatura média do planeta poderá apesar de tudo estar a subir, ou pelo menos, poderá não andar muito longe das médias registadas nos últimos 10 anos (os 10 anos mais quentes de sempre).
Para quem sabe estatística isto são evidências. Mas o problema é que a blogosfera é poluída constantemente por comentários de indivíduos que não perceberem estas evidências, indivíduos a quem faltam chumbos no secundário. São sempre os mesmos. Mas há também quem faça de uma forma consciente, com o intuito de gerar desinformação, como é o caso de Rui Moura do blogue Mitos Climáticos.

Os fogos na Austrália devem-se ao aquecimento global?
Esta é uma pergunta a que ninguém pode dar uma resposta absoluta e definitiva. Sabemos que o aquecimento global aumenta a probabilidade que fenómenos deste tipo aconteçam (ou de furacões da dimensão do Katrina), mas em toda a história da Terra sempre aconteceram fenómenos climáticos extremos aleatórios. A resposta é talvez sim.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Má matemática na economia

Esta crise veio evidenciar que há muita má matemática na economia. Tinha ficado convencido disso desde que li "ENRON: The smartest guys in the room", quando me dei conta que eminentes sumidades da Harvard Business School tinham engolido sem questionar todas as artimanhas da ENRON e da Anderson Consulting. Ou quando li que alguns dos seus ex-alunos (supostamente brilhantes) se envolveram em toscos esquemas piramidais e circulares de produção de lucro e calculavam a probabilidade de ter bons investimentos baseados apenas nos casos de sucesso, desprezando o que ia correndo mal. A estatística positiva (muito utilizada na astrologia) presta-se sempre a grandes espalhanços.

Via Ladrões de Bicicletas, aconselho a leitura deste texto publicado no Times que coloca em causa a economia como ela é dada actualmente nas mais eminentes universidades.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

A crise não é nada com eles

Um extra-terrestre que leia este texto do Abrupto só pode pensar o seguinte: a crise actual é culpa da União Europeia e do socialismo. Com o que lá está, só pode, não há outra alternativa! A crise não tem nada a ver com a ideologia que Pacheco Pereira defende, aquilo não é nada com eles!

O que aquele texto evidencia na realidade é o estado de niilismo em que mergulharam os catequistas das maravilhas do mercado, todos aqueles que andaram a cultivar a letargia colectiva, uma sociedade acrítica que aceita sem se questionar lucros colossais a partir de actividades não produtivas e que aceita passivamente que as suas economias sejam investidas em actividades de alto risco sem que ninguém lhes peça licença. Quantas vezes Pacheco Pereira criticou os processos da UE contra os abusos dos grandes monopólios, da banca e das grandes multi-nacionais (a Microsoft, a Google, a Monsanto, etc.), apelando indirectamente ao carneirismo, ao fechar de olhos à expansão do poder das empresas ao espaço público. O mais irónico é que este discurso ajuda a validar comportamentos que são contraproducentes em relação ao próprio mercado, contribuindo para o falseamento da concorrência.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Legado e assassinato de Martin Luther King


Em frente ao Lincoln Memorial, Washington DC, EUA, 2002.

Estou a acabar de ler "Os Pensadores" de Daniel J. Boorstin. À medida que me aproximo do fim do livro chego à terrível conclusão que a maior parte dos grandes pensadores da humanidade, os grandes inovadores de cada época, foram perseguidos, refugiados, condenados a prisão em julgamentos falseados, condenados à morte ou pura e simplesmente assassinados. Sócrates, Aristóteles, S. Bento de Núrsia, Lutero, Thomas Moore, Rousseau, John Locke, Marx, Einstein ou Ghandi são apenas alguns entre muitos exemplos. Martin Luther King foi um dos últimos pensadores a seguir este destino. A sua luta pacífica irritava profundamente a direita dura americana, que impossibilitada de organizar um julgamento falseado à moda antiga num cenário de opinião pública inflamada acabou por organizar um confortável assassinato. Não foi a extrema-direita, foi a direita dura, foi uma direita mais "responsável" e religiosa, a direita do racismo velado, foi essa direita a dar a ordem de assassinato. Ainda não perdi a esperança de sabermos um dia exactamente qual foi o grupinho de políticos que o arquitectou.

A eleição de Obama foi um maravilhoso acontecimento poético, um acontecimento que faz parte do valiosíssimo legado que a luta de Luther King nos deixou. E para essas contas tanto dá que Obama seja mau ou bom político, um presidente afro-americano também tem direito a ser mau político, sobretudo depois da catástrofe Bush-filho.

Obrigado Martin!

terça-feira, fevereiro 03, 2009

O mais pequeno exoplaneta



O satélite francês COROT observou o mais pequeno exoplaneta (planeta fora do sistema solar) descoberto até hoje. O planeta catalogado como COROT-Exo-7b tem um diâmetro ligeiramente inferior ao dobro do diâmetro da Terra. Mais um esforço e descobrimos o primeiro exoplaneta do tamanho da Terra. O COROT-Exo-7b foi observado indirectamente através da diminuição do brilho da estrela em torno da qual orbita quando a sua trajectória se interpôs entre a Terra e a referida estrela, como se pode ver no gráfico que acompanha a imagem artística da ESA.
A missão COROT é uma missão francesa, do CNES, mas conta também com a colaboração da ESA, da Áustria, da Bélgica, da Alemanha, do Brasil e da Espanha.

A Pimbalhização da Blogosfera

Os leitores que me conhecem sabem bem que não cultivo essa nostalgia idílica do "dantes é que era bom", no entanto sou obrigado a constatar que a blogosfera nacional está a tender para o pimba, como aconteceu com a televisão e está a acontecer com os jornais. Especialmente alguns dos grandes blogues, dos mais visitados, tornaram-se infrequentáveis. É post-relâmpago atrás de post-relâmpago acompanhado de fotografia-choque (sem citar a origem) que pode ser o sangue na Palestina, a fotografia de Sócrates transfigurada no photoshop, a foto da gaja boa ou ainda os apanhados do youtube.

A blogosfera sempre foi histérica, está-lhe no código genético, é um efeito secundário do imediatismo deste meio de comunicação. Mas passado o momento de histeria que acompanha um assunto de actualidade, passa-se ao pimba. O grande texto de reflexão e de análise do assunto que gerava verdadeira discussão faz-se raro e é cada vez mais desprezado. Não espanta por isso que blogues que têm mantido o nível, concorde-se ou não com eles, estejam a perder espaço, como é o caso do Abrupto. O Abrupto perde espaço sobretudo para a direita-pimba. Na direita tenho-me mantido fiel aos "velhinhos", ao Francisco José Viegas, embora desgoste do registo Correio da Manhã (parece-me forçado) a tender para a rebeldia conformista. Mas na direita temos ainda um Filipe Nunes Vicente que escreve cada vez melhor. Na esquerda temos um Luís Januário melhor, um Rui Tavares muito melhor embora raro, um Paulo Querido sempre em evolução e temos dois blogues colectivos recentes com qualidade (Jugular e Ladrões de Bicicletas), mas menos lidos do que merecem. Ganhámos ainda o excelente De Rerum Natura, onde a Palmira é uma grande aquisição da blogosfera.
No entanto entre o que se ganhou e o que se perdeu (refiro-me sempre aos blogues mais lidos), considero que se perdeu muito em qualidade, a discussão histérico-pimba domina, o dogmatismo domina e os assuntos-choque dominam. Não contem comigo para isso.

domingo, fevereiro 01, 2009

Mais de 1000 Anos de Aquecimento Global

(Publicado no portal Esquerda.net)
Foi publicado esta semana nos Proceedings of the National Academy of Sciences (publicação prestigiada a par da Science, da Nature e da Geophysical Research Letters) um trabalho da autoria de Susan Solomon onde se conclui que serão necessários mais de mil anos para recuperar do aquecimento do planeta gerado pelas emissões de gases de efeito de estufa. Anteriormente, estimava-se este período de recuperação em apenas cerca de 200 anos. O artigo intitulado "Alterações Climáticas Irreversíveis Provocadas pelas Emissões de Dióxido de Carbono" centra a sua tese no lento arrefecimento dos oceanos.

Segundo Solomon estes continuarão a aquecer a atmosfera durante mais de 1000 anos mesmo que se reduzam drasticamente as emissões de dióxido de carbono. Salomon dá alguns exemplos ilustrativos do impacto da irreversibilidade do clima durante mais de 1000 anos. Se a concentração de CO2 atmosférico se elevar a 600 partes por milhão em volume (ppmv) são de esperar longos períodos de secas em mais regiões do planeta e a subida do nível da água do mar provocada pela expansão térmica dos oceanos entre 40 cm a 1 metro, numa estimativa mais conservadora. O nível do mar poderá subir mais, entre 60 cm e 1,90 m, se a concentração de CO2 exceder 1000 ppmv. Deverá ainda adicionar-se a contribuição dos glaciares para a subida do nível da água do mar, que poderá ser da mesma ordem ou superior em vários metros durante este milénio.

Este trabalho de Solomon vem vincar a necessidade urgente de agir para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa sob pena de prolongarmos durante mais 1000 anos, a dezenas de próximas gerações de seres humanos, consequências nefastas e perenes para o clima do planeta.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

O modus operandi da charlatanice climática

Por ordem cronológica isto tem mais piada.

21 de Janeiro de 2009
A NASA divulga esta fotografia correspondente a 50 anos de observações da Antárctida sob o título "Satélites confirmam o aquecimento do oeste da Antárctida no último meio-século"


Red represents areas where temperatures have increased the most during the last 50 years, particularly in West Antarctica, while dark blue represents areas with a lesser degree of warming. Temperature changes are measured in degrees Celsius.


23 de Janeiro de 2009
Para justificar que a Antárctida está a arrefecer, contrariando o comunicado da NASA, Rui Moura tem esta entrada no seu blogue niilista onde mostra um gráfico da NASA desactualizado, publicado há cerca de 5 anos atrás, correspondente apenas a 22 anos de observação (1982-2004). Ora, esta informação de 22 anos de observações está totalmente contida no gráfico acima, correspondente a informação que cobre um período de observações até há 50 anos atrás e que tem em conta uma maior quantidade de dados das estações de observações terrestres e dos satélites. Assim, se atira areia aos olhos dos leigos...

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Loft



"Loft" de Erik Van Looy é um policial em que um conjunto de personagens muito sofisticadas constrói um jogo secreto centrado na infidelidade conjugal. Estabelece-se um pacto entre amigos, distribui-se a chave de um apartamento secreto e abre-se a porta ao pecado. Rapidamente o apartamento torna-se o centro das vidas destas personagens e a sofisticação revela-se um pobre verniz que esconde mal o animal primordial que habita por baixo da pele de cada um. Até que verniz começa a estalar...
Excelente interpretação de Koen De Bouw (Chris Van Outryve).
"Loft" ainda não estreou em Portugal, chateiem o vosso cinema ou distribuidor!

Filme Klepsýdra ***** (5 estrelas)

Artigo de Solomon sobre a concentração de CO2

Eis o resumo do artigo de Susan Solomon referido na minha entrada anterior:

Irreversible climate change due to carbon dioxide emissions

The severity of damaging human-induced climate change depends not only on the magnitude of the change but also on the potential for irreversibility. This paper shows that the climate change that takes place due to increases in carbon dioxide concentration is largely irreversible for 1,000 years after emissions stop. Following cessation of emissions, removal of atmospheric carbon dioxide decreases radiative forcing, but is largely compensated by slower loss of heat to the ocean, so that atmospheric temperatures do not drop significantly for at least 1,000 years. Among illustrative irreversible impacts that should be expected if atmospheric carbon dioxide concentrations increase from current levels near 385 parts per million by volume (ppmv) to a peak of 450–600 ppmv over the coming century are irreversible dry-season rainfall reductions in several regions comparable to those of the “dust bowl” era and inexorable sea level rise. Thermal expansion of the warming ocean provides a conservative lower limit to irreversible global average sea level rise of at least 0.4–1.0 m if 21st century CO2 concentrations exceed 600 ppmv and 0.6–1.9 m for peak CO2 concentrations exceeding ≈1,000 ppmv. Additional contributions from glaciers and ice sheet contributions to future sea level rise are uncertain but may equal or exceed several meters over the next millennium or longer.

(Ler aqui o artigo completo)

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Recuperar do Aquecimento Global em 1000 Anos

Foi publicado ontem nos Proceedings of the National Academy of Sciences (uma das mais prestigiadas publicações que dá espaço ao estudo do clima a par da Science, Nature e da Geophysical Research Letters) um trabalho da autoria de Susan Solomon onde se conclui que serão necessários mais de mil anos para recuperar do aquecimento do planeta causado pelas emissões de gases de efeito de estufa. Anteriormente, estimava-se em cerca de 200 anos...

terça-feira, janeiro 27, 2009

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Método Científico (comentários)

A política vigente vai exactamente em sentido contrário, tira-se cada vez mais horas lectivas às ciências (química, física, naturais) e a filosofia tem um programa estranhíssimo (para não ser malcriada). Os alunos chegam ao secundário sem saberem quase o que é um laboratório!
Eva Lima (Filhos & Cadilhos)

Confirmo as tuas palavras Rui. Fiz uma entrevista a um jovem engenheiro que não sabia o que seria o método científico aliás confessou que "não faço a menor ideia"...
Não é pois de admirar que engenheiros destes terminem irremediavelmente em caixas de supermercado !

João Vaz (Ambiente na Figueira)

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Reforçar o Ensino do Método Científico

Dou-me conta que o desconhecimento do método científico é assustador, as recentes discussões na blogosfera sobre ciência revelam uma ignorância profunda do assunto. E o pior é quando este desconhecimento vem da parte de cientistas (das ciências sociais e humanas às ciências exactas). O método científico é dado em filosofia no secundário e pontualmente nas disciplinas científicas, mas manifestamente não chega nas nossas sociedades sofisticadas que utilizam hoje a fundo variadíssimos produtos tecnológicos filhos da investigação científica. A consciência crítica é pobre e vulnerável à charlatanice bem embrulhada que se infiltra em todos os interstícios das sociedades complexas em que vivemos.

Já há muito tempo que considero que o método científico deveria ser dado no secundário muito mais aprofundadamente. Talvez fosse bom que o método científico ocupasse todo um trimestre na disciplina de filosofia no secundário. E que em física e química, matemática, biologia, economia, história e português, fossem dados exemplos que obrigassem os alunos a cruzar conhecimentos com os conceitos que adquiriram sobre o método científico em filosofia. Poderiam ser introduzidos em paralelo exemplos de pseudo-ciência para obrigar os alunos a distinguir entre aquilo que é ciência do que não é.

No meu entender este assunto deveria ser prioritário, tal como o combate ao analfabetismo.

Acordar um dia

É um blogue de qualidade dedicado à micro narrativa da autoria do caríssimo Nuno Camarneiro, ex-colaborador aqui da Klepsýdra, que anda lá fora a lutar pela vida.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

250 Milhões de Libras para a Ciência

(Publicado no portal Esquerda.net)

Num momento de profunda crise o governo britânico decidiu investir 250 milhões de libras na criação de uma nova vaga de cientistas e de engenheiros, tendo para isso anunciado a criação de 44 novos centros de investigação onde serão formados em contínuo mais de 2000 estudantes de doutoramento.

Os centros serão especializados em diferentes áreas científicas e tecnológicas, com uma especial ênfase para as áreas da energia e das alterações climáticas. Apesar da sua abrangência este programa pretende responder a assuntos muito específicos mas de grande actualidade, como a gestão da escassez de água potável, o desenvolvimento de órgãos artificiais e a manutenção da competitividade da industrial aeroespacial.

No campo das ciências sociais e humanas existirá uma aposta particular em mudar a forma como se tem lidado com a criminalidade e o terrorismo. Existirá um enfoque maior no estudo do comportamento dos indivíduos envolvidos nestas actividades e na análise da estrutura e da propagação das redes de crime organizado, concentrando-se mais o esforço ao nível da prevenção em vez das tradicionais soluções repressivas.

O organismo responsável pela gestão deste programa é o Engineering and Physical Sciences Research Council (EPSR). Recentemente foi dado início ao período de ensaio tendo sido já publicados no sítio internet do EPSR ofertas de emprego e concursos para projectos abertos à participação de cientistas de todos os países.

Quilimanjaro tem menos 3 metros

A expedição para medir com precisão o Monte Quilimanjaro de que aqui fiz eco, teve como resultado o acerto da altura do monte para 5891,8 m, ou seja menos 3,2 m do que altura vigente. Está de parabéns o Gregor Samsa, ex-colaborador aqui da Klepsýdra e participante na expedição.

sábado, janeiro 17, 2009

Sábado em Coimbra XLIII: Quebra Bar

O Quebra Bar pode ser Quebra Lar,
depende da noite.
O Quebra Lar pode ser Quebra Lar
depende da noite se Quebra é substantivo ou verbo.

O Quebra Bar pode ser Brokeback Bar,
depende da noite,
ou Quebra las Costillas,
depende do cliente.

Vou pela tostas, pela música e pelo vinho,
(ah! como é difícil encontrar bares que servem vinho)
Gosto menos da fumarada,
o seu Quebranhar de Aquiles!

Sábado em Coimbra XLII

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Académica de Comboio

Uma semana depois de Ronaldo ter destruído um Ferrari e numa altura em que o mundo futebolístico preza em mostrar grandes máquinas, a Académica foi jogar a Setúbal de comboio. É só vantagens, declarou Domingos Paciência. Acredito, lembro-me bem das miseráveis viagens de autocarro e de carro quando jogava basquetebol. Se foi manobra de marketing, funcionou. Falo por mim, tenho mais gozo em apoiar uma equipa que anda de comboio.
Ide de comboio até ao Porto e ganhai! O Porto precisa de ser eliminado para se concentrar na Liga dos Campeões e era giro a Académica ganhar uma taça 40 anos depois da insurreição contra o regime fascista.

terça-feira, janeiro 13, 2009

Ennemis Publics

"Ennemis publics" é o resultado da troca de correspondência ocorrida de Janeiro a Julho de 2008 entre o escritor Michel Houellebecq e o filósofo Bernard-Henri Lévy. Na origem da publicação conjunta de tão diferentes personagens estão os ataques pessoais de que ambos são alvo e que vão muito para lá da sua escrita, chegando ao ponto de envolver a mãe de Houellebecq e no caso de Lévy, atingindo a actriz Arielle Dombasle, a sua companheira. Na primeira carta, Houellebecq classifica os dois correspondentes como individus assez méprisables. No entanto, apesar de alguma vitimização menos interessante depressa a troca de correspondência toma contornos de um verdadeiro e vivo debate, onde as partes se irritam, para se acalmarem a seguir, voltando a irritar-se, sobrepondo-se a este ritmo emocional uma reflexão aberta digna de diálogos de filósofos da Grécia antiga. Houellebecq gosta da Rússia, das "sumptuosas louras russas", mas Lévy, irritado, lembra que a Rússia é também Putin, as oligarquias e a mão de ferro sobre os adversários políticos e as minorias étnicas. Ambos atravessam aleatoriamente a história do pensamento político dos dois últimos séculos e da literatura europeia (onde há referências a Pessoa). O debate atinge a sua fase mais interessante quando se aborda o tema da espiritualidade. Lévy, embora ateu, prefere Jerusalém a Atenas, prefere os escritos dos profetas e dos velhos rabis aos dos filósofos da Grécia antiga. Com uma certeza e uma clarividência surpreendentes, Houellebecq confessa-se desprovido de espiritualidade, assentando o seu pensamento exclusivamente na ciência. Estas reflexões vão sendo intercaladas ao longo da troca de correspondência com revelações pessoais em geral interessantes, onde os autores se expõem mais do que é comum, sobretudo Lévy.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Žižek sobre a ciência moderna

No meu resumo de “Sede Sábios, Tornai-vos Profetas” do post anterior dei mais ênfase às passagens em que Charpak se lamenta do distanciamento entre filosofia e ciência, citando autores que apesar de tudo ele elogia. Charpak deixa bem claro que a ciência só tem a ganhar se conseguir estreitar esse fosso com a filosofia, não é de modo nenhum sua intenção criar clivagens estéreis entre as duas disciplinas.
Na obra “La subjectivité à venir” (Flammarion, 2006), Slavoj Žižek tem várias passagens sobre a ciência que ajudam a estreitar esse fosso (tal como no artigo citado pela Palmira Silva), formulando o problema identificado por Charpak quase nos mesmo termos:

… l’impasse réside simplement aujourd’hui dans le fait que le savoir scientifique ne nous sert plus de “grand autre” symbolique. Le fossé entre la science moderne et le bon sens aristotélicien de l’ontologie philosophique est ici insurmontable: si un premier signe de ce fossé se repère avec Galilé, il se creuse de manière extrême avec la physique quantique, lorsque nous avons affaire à des lois et des règles qui fonctionnent dans le réel bien qu’elles ne puissent plus être retraduites dans notre expérience de la réalité représentable“, pag. 103.

Também sobre Heidegger, Žižek refere-se de uma forma semelhante às considerações de Charpak, classificando algumas das suas posições como “totalmente ambíguas”, embora ressalvando que existe muita crítica simplista para tentar desacreditar o filósofo (pag. 57).

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Sede Sábios, Tornai-vos Profetas!

(Publicado no Cinco Dias)
Georges Charpak (Nobel da Física em 92) e Roland Omnès são autores do livro de título irónico "Sede Sábios, Tornai-vos Profetas". Este livro surge na sequência de "Feiticeiros e Cientistas", uma publicação conjunta entre Charpak e Henri Broch, onde ensina o leitor a identificar através da matemática, da estatística e da lógica, os truques e as artimanhas de astrólogos e de outros charlatães. Neste "Sede Sábios, Tornai-vos Profetas", Charpak parte da história da conhecimento e do método científico para analisar a relação da filosofia e da religião com a ciência. Charpak analisa a resposta da filosofia e da religião aos novos desafios colocados pela física moderna, pelo afastamento das leis da natureza da intuição humana e pela transcendência da dimensão humana quando analisamos a imensidade do universo ou quando estudamos partículas sub-atómicas.
Charpak analisa as reflexões de Hume, de Kant e de Nietzsche sobre a ciência. Curiosamente, apesar de estar entre os que mais rapidamente a percebem a importância do método científico, Nietzsche é um dos primeiros a contestar o desenvolvimento da teoria atómica realizada por Dalton e Thompson e critica fortemente o darwinismo. Mais tarde, a aceitação da mecânica quântica sofreu grande resistência de filósofos que deram valiosos contributos para clarificar o significado do conhecimento da científico como Russell, Husserl ou Wittgenstein. Charpak dedica uma secção a Heidegger onde transcreve algumas passagens obscuras que revelam um considerável afastamento entre a sua filosofia e a ciência.



Nesta obra pouco divulgada entre nós, Charpak lança algumas pistas que poderão ajudar a perceber o que está na origem de alguns dos casos de pseudo-ciência apontados por Boghossian na obra recomendada pela Palmira Silva, que já está na minha lista de próximas aquisições.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

A Universidade Jaguar (caixa de comentários)

Com todo o devido respeito pelas suas considerações pela universidade Católica - organização onde estudei - creio que V/ Exª elabora em erro. Senão vejamos:

(a) a Católica foi pioneira na introdução do curso de biotecnologia no país e mantém uma das unidades mais avançadas de investigação na península ibérica. Trata-se do polo de biotecnologia da Asprela.

(b) A Católica tem uma escola de Gestão e de Economia que ocupam anualmente lugares cimeiros nos rankings europeus.

(c) a faculdade de Direito da Católica tem neste momento o curso de LLM mais avançado do país e a qualidade da sua formação a nível de licenciatura já foi reconhecida nacional e internacionalmente.

(d) a Católica tem ainda um curso de Som e Imagem que é dos mais avançados do país.

(e) a nível de investigação científica, desafio-o a encontrar em Portugal centros de estudo que ultrapassem em produção científica e qualidade os seguintes centros de estudo: Centro de Direito Privado Comparado; Centro de Estudos Comerciais; Gabinete de Estudos Laborais; Gabinete de Estudos Internacionais. Para sua informação estes centros de estudo recebem na íntegra financiamento da FCT e obtiveram a classificação mais baixa de Bom (sendo Muito Bom a classificação de >50% destes centros). Note-se que falo apenas dos centros de Direito e ignoro os centros de investigação noutras áreas.

(f) concordo em absoluto com o que diz a propósito das universidades privadas mas isso deriva tão só de falta de supervisão por parte do ministério responsável pela tutela do ensino superior. Existem inúmeras universidades privadas que conseguiriam ter cursos de excelência se tivessem condições de desenvolvimento.

(f.1) a propósito do anterior, note-se que também nas públicas existe desbaste de dinheiros públicos. Veja a qualidade da produção científica de algumas faculdades públicas e diga-me quem é coxo em termos europeus. Note-se que a Faculdade de Direito de Lisboa recusou há algum tempo o reconhecimento do Doutoramento de uma aluna que se doutorou em Harvard com um dos grandes crâneos da matéria e que foi agraciada com um prémio no final da tese. Isso mereceu mesmo um telefonema da parte da direcção da faculdade a perguntar quem era a FDUL para recusar o reconhecimento de um diploma de Harvard!

Eu sei que as privadas são de uma maneira geral muito fracas em Portugal mas olhe que as públicas também não são exemplo para ninguém - com honrosas excepções como a FEUP e outros casos isolados.

B.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

2009, Ano Internacional da Astronomia

Este ano é o Ano Internacional da Astronomia, aqui na Klepsýdra vamos participar activamente nalgumas actividades e divulgar as mais importantes. Eis o calendário do mês de Janeiro do programa nacional coordenado pelo caríssimo João Fernandes.

terça-feira, janeiro 06, 2009

A Universidade Jaguar

Na passada semana encerrou definitivamente a Universidade Moderna sob o silêncio do xôtor Paulo Portas. Concordo em grande parte com o Luís Januário. Entre as privadas há mais universidades que deveriam fechar. E se fossemos mais rigorosos apenas uma merece o título de universidade: a Católica. No entanto, mesmo a Universidade Católica no contexto europeu é uma universidade coxa onde a produção científica é fraca e se resume praticamente apenas às ciências sociais e humanas. A maior parte das universidades privadas não tem sequer produção científica. Estas instituições deveriam perder o estatuto de universidade e ser designadas mais correctamente como escolas ou institutos de ensino superior, tal como é prática noutros países da OCDE. Existem vários casos de politécnicos no país que produzem trabalho científico e que mereciam bem mais o estatuto de universidade. Apesar de algumas das privadas ainda prestarem serviços à sociedade civil, elaborando sondagens ou estudos técnicos, as restantes dedicam-se apenas à cobrança de propinas e de inscrições nos exames, por vezes, utilizando estratagemas que indignam profundamente os estudantes.

É por estas e por outras que sou pouco sensível ao choradinho das universidades privadas quando se queixam de falta de financiamento do estado. As privadas, tal como as públicas, podem concorrer a projectos europeus e nacionais que financiam a investigação, mas curiosamente o que se verifica é que essas oportunidades são pobremente aproveitadas, especialmente nos domínios das Engenharias e das Ciências Exactas. No entanto, tal como a Moderna algumas das privadas não dispensam um parque de automóveis de luxo adquiridos ou alugados. Por exemplo, um Jaguar custa mais de 100 mil euros, o que corresponde a uma quantia superior ao orçamento médio dos projectos a três anos financiados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Pelo preço de duas ou três viaturas destas é possível equipar um laboratório capaz de produzir trabalhos científicos com qualidade aceitável. É tudo uma questão de prioridades...

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Os Canibais



"Os Canibais" é um dos meus filmes preferidos de Manoel de Oliveira. Esta obra é um acto de ousadia do Mestre que transpôs para a fita diálogos recitados em tom de ópera. A solenidade do bel canto reforça a ironia e o sarcasmo com que Oliveira aborda o drama em que o Visconde de Alveleda disputa com Dom João o amor de Margarida. O drama cruza-se em permanência com o ridículo das personagens, em cenas de um humor caustico, requintado e subtil muito típico de Manoel de Oliveira.
Excelentes interpretações de Leonor Silveira (Margarida) e de Diogo Dória (Dom João).
Fica a sugestão para quem quiser descobrir o melhor da filmografia de Oliveira.

A Hungria precisa do Euro

"A Hungria precisa do euro o mais rapidamente possível", foi a resposta do primeiro-ministro húngaro questionado por um repórter eslovaco que sondava a opinião de políticos dos países vizinhos sobre a adesão da Eslováquia ao euro. Ler aqui a mesma opinião do banco Central Húngaro.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

O trilho da Eslováquia até ao Euro

(Publicado no Cinco Dias)
É curiosa a história da moeda oficial da Eslováquia desde a independência do Império Austro-Húngaro. A coroa checoslovaca foi a moeda oficial enquanto durou a união da Rep. Checa e da Eslováquia, mas durante os 6 anos de anexação da Rep. Checa pelos nazis a Eslováquia teve a sua própria coroa. A coroa eslovaca voltou depois da separação definitiva da Checoslováquia em 1993 para mais 15 breves anos de existência.
Desde 1 de Janeiro, os Eslovacos voltam a ter uma moeda partilhada com outras nações mas desta vez os imperadores que chamavam Pressburg a Bratislava já não são coroados na Catedral de São Martinho e as lagartas dos tanques do Império do outro lado da Europa já não rasgam o alcatrão da estrada em frente à Universidade Comenius.
Mas a história não acaba aqui. Após o recente afundanço económico da Hungria e do impacto económico negativo da crise nos países fora da eurozona, o atlantismo populista que emanava da Polónia para o resto dos países de leste perdeu muito da sua chama. Uma sondagem recente realizada na Rep. Checa dá 65% da população a favor do euro. Ironia, das ironias, em breve checos e eslovacos voltarão a ter a mesma moeda.

quinta-feira, janeiro 01, 2009

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Prazeres de 2008: blogues

Os meus posts preferidos do ano:

First We Take Bombay do Luís Januário na Natureza do Mal
Do post do Luís gosto muito desta passagem: "Esta é a cidade [Triana] dos fenícios e de Cartago, de Roma e dos godos, a cidade moura. Mas nao sabemos. Ignoramos até que, em pleno século XX, homens como nós enterraram vivos e algemados os seus inimigos (...) Ignoramos tudo. Porque, como disse Juan Gelman ontem em Salamanca, depois dos ditadores vêm os comisarios del olvido. E um dia morreremos, demasiado ignorantes â mao justiceira dos fanáticos, demasiado estúpidos."

Antena Islamica do Filipe Nunes Vicente no Mar Salgado

O Princípio de Deus do Miguel Portas no Sem Muros

Prazeres de 2008: o livro

Entre as minhas leituras das edicoes de 2008, a mais interessante foi a do livro "Ennemis publics" de Michel Houellebecq, autor de "Partículas Elementares" e do filósofo Bernard-Henri Lévy. Um livro de recolha de correspondência trocada entre os dois autores entre Janeiro e Julho deste ano, ao longo da qual partilharam as suas principais obsessões, análises políticas e reflexões sobre temas sociais caros a cada deles.

terça-feira, dezembro 30, 2008

2008, o ano em que o planeta se revelou finito

(publicado no dossier temas 2008 do portal Esquerda.net)
2008 será recordado como o ano em que o planeta se revelou finito, em que a actividade humana numa parte do mundo teve consequências reais e palpáveis noutra parte do planeta. Tal como a parábola da manta, que tapa de um lado destapando do outro, a crise dos cereais e do petróleo veio evidenciar da pior maneira os reais limites de alguns dos nossos principais recursos naturais.

O brusco aumento da procura de petróleo da parte de mercados emergentes, como a Índia e China, a especulação dos mercados financeiros e a progressiva escassez do petróleo e dos restantes combustíveis primários provocaram uma subida acentuada do preço do crude para preços record, seguida de uma descida brusca provocada pela crise financeira. Um processo semelhante ocorreu com os preços dos cereais e seus derivados, tendo-se agravado o problema neste caso com a quebra verificada no volume de colheitas agrícolas nos últimos dois anos e o aumento da percentagem relativa de solos dedicados à produção de biocombustíveis. Estas oscilações de preço tiveram consequências reais, provocando revoltas, falências, desemprego que resultaram em mortes directas e indirectas destes acontecimentos.

Desde os séculos XVII e XVIII, grande parte do pensamento económico foi orientado pelos escritos de John Locke, de Thomas Hobbes ou de Adam Smith, que simplificavam ou davam pouca importância à escassez ou ao limite dos principais recursos naturais. Na prática, os contemporâneos destes filósofos consideravam quase todos os principais recursos como sendo infinitos ou exploráveis indefinidamente. A explosão demográfica e a exploração intensiva dos principais recursos naturais que ocorreu durante século XX vieram revelar que alguns dos principais recursos naturais, como o petróleo, tinham os dias contados. Ainda assim os alertas lançados sortiram pouco efeito e foi preciso esperar por 2008 para que o cidadão comum percebesse finalmente que o modelo de sociedade dominante estava a pôr em perigo a sua própria segurança alimentar e energética. A emaranhada teia que liga as cadeias de exploração, produção, comercialização e consumo dos produtos de primeira necessidade está sujeita a processos estatísticos complexos de difícil compreensão para o produtor ou o consumidor individual que se encontra no seu canto do mundo e que tem uma perspectiva do problema limitada ao horizonte da sua região ou do seu país. Deste modo, um produtor ou um consumidor que esteja genuinamente convencido que a sua actividade não tem qualquer efeito nocivo poderá estar a contribuir sem saber para uma catástrofe humanitária noutro ponto do planeta. É aqui que falha, em particular a filosofia de John Locke. Segundo John Locke, a natureza não tem qualquer valor até ser transformada pelo trabalho humano para satisfazer as necessidades do homem. No entanto, Locke ressalvava que a exploração de recursos naturais poderia continuar indefinidamente desde que existissem em quantidade e qualidade para todos. Para além de sabermos hoje que a natureza não transformada pode ter um papel importantíssimo para a sobrevivência do homem (os pulmões da Amazónia ou das florestas do Canadá e da Sibéria, os gigantescos reservatórios de CO2 que são os nossos oceanos, etc.), sabemos também que nem sempre quem explora um recurso tem a percepção exacta de que pode estar a comprometer o acesso a esse recurso por parte de outros indivíduos noutra parte do mundo ou por parte das gerações seguintes.

As sociedades de produção e consumo massificado em que nos tornámos precisam de generalizar conceitos como o princípio da precaução da UE que protegem consumidores e produtores da incerteza resultante da massificação de novas actividades económicas e precisam sobretudo de se tornar em verdadeiras sociedades baseadas no conhecimento, em que o conhecimento científico seja devidamente considerado e respeitado pelo poder político e pelos diversos agentes económicos. O resultado desse trabalho científico mostra hoje que o modelo de vida das sociedades ditas ocidentais não é decalcável para o resto dos habitantes do planeta, nem para as gerações seguintes.

A encruzilhada entre o aumento do consumo energético do planeta, a progressiva escassez das reservas de combustíveis primários e o aquecimento global provocado pela emissão de gases de efeito de estufa deverá obrigar a uma séria reflexão sobre o nosso modo de vida, sobre a forma intensiva como produzimos e consumimos. A médio prazo será necessário encontrar novas formas de produção de energia em larga escala não dependentes de combustíveis primários com reservas finitas. Será por isso urgente apostar na investigação de novas tecnologias, como o projecto ITER de fusão nuclear, que poderá ser a futura energia de produção em larga escala, limpa e sustentável que substituirá definitivamente os combustíveis primários. Enquanto essas tecnologias não chegam será necessário massificar tanto quanto possível a produção de energia geotérmica, eólica, solar, das marés, das ondas, etc., transformando a habitação e o transporte para o seu consumo em larga escala (ler proposta de Jeremy Rifkin).

A produção de alimentos deverá cada vez mais aderir a métodos de produção sustentável que não esgotem os solos ou os recursos marinhos e deverá ser menos orientada para a exploração animal que requer a produção de grandes quantidades de cereais e um elevado consumo de água, requisitos que poderão ser fatais nas zonas menos férteis do mundo. A introdução de novas tecnologias e de novos produtos químicos na produção de alimentos deverá estar sujeita ao princípio da precaução para garantir a segurança de consumidores, de produtores e dos ecossistemas e responder a novos desafios como o sério declínio da taxa de natalidade nas sociedades mais desenvolvidas.

A nossa segurança alimentar e energética vai requerer uma transformação radical da sociedade, em particular a mudança de indicadores de desenvolvimento. Indicadores baseados essencialmente na produção, como o PIB, deverão ter um peso menor e indicadores dependentes da qualidade de vida, da sustentabilidade da actividade humana e da preservação do ambiente deverão ter um peso bem mais importante nas sociedades futuras. Produzir menos, para ganhar menos e viver melhor, poderá ser o mote das futuras gerações.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Prazeres de 2008: o vinho

O Quinta de S.Lourenco tinto (so encontrei foto do branco). Para alem da excelente relacao preco qualidade, escolho-o pelo efeito surpresa. Ate provar este Quinta de S.Lourenco todos os espumantes tintos que tinha provado eram gasosas ou decapantes que mal se enquadravam na categoria de vinho. A casta baga é cada vez mais uma das minhas preferidas para espumantes.

Onde está a esquerda Israelo-Palestiniana?



Durante a minha vida de nómada europeu convivi com refugiados israelitas palestinianos ateus, israelitas católicos, com libaneses muçulmanos, libaneses ateus, palestinianos muçulmanos e sei lá que mais! Amizades duradouras, amizades fugazes, colegas de trabalho e co-autores de artigos científicos ouvi-os durante anos sobre a questão israelo-palestiniana. Algumas das histórias eram duras e deixaram sequelas físicas. As opiniões sobre o conflito eram diversas, mas eram comuns num ponto: a solução não passava pela disputa da fronteira ao centímetro e só poderia ser de cariz diplomático.

Até hoje, a única ocasião em que essa solução foi conseguida deve-se ao esforço quer da esquerda palestiniana quer da esquerda israelita. Por muito criticáveis que sejam, o que é certo é que Rabin ou Arafat conseguiram (com ajuda, mas a diplomacia é assim mesmo) o que mais ninguém conseguiu. Desde então, Rabin foi assassinado por extremistas fanáticos cujo objectivo de boicotar o processo de paz foi plenamente conseguido e Arafat morreu deixando caminho livre à extrema-direita e aos fanáticos do Hamas (preferia não ter razão, caro Francisco). Com a direita dura, a extrema-direita e os fanáticos quase todos no poder em Israel e na Palestina, a guerra a meio-gás é a solução ideal para se perpetuarem no poder. E a vitimização é uma arma que ambas as partes empregam com maestria. Eles sabem muito bem o que fazem. Os mísseis de Israel dão votos ao Hamas e os rockets do Hamas dão votos à direita dura e 'a extrema-direita israelita. Aliás, não me admirava nada se o espectro político das duas partes se deslocasse ainda mais para a direita. Há bem pior do que o Kadima em Israel e dentro do Hamas há quem considere os actuais governantes como traidores. E é exactamente a palavra traidor que tem sido a palavra-chave dos extremistas. Segundo o seu assassino Rabin era um traidor e Arafat sempre foi um traidor para o Hamas (apesar de estes terem sido apoiados por Israel). Todos os que tentarem um processo de paz naquela zona serão forçosamente traidores. É uma lógica que só deixa de fora do conceito de traidor os mais sanguinários e os mais fanáticos, esses serão sempre virgens puras intocáveis.

A região entrou num processo de retro-realimentacao positiva que desloca sucessivamente o espectro partidário para o fanatismo e a ortodoxia, que cultiva a paranóia colectiva e a vitimização. Para além de uma intervenção da ONU, só vejo uma solução para quebrar este ciclo vicioso. Seria algo como uma união das esquerdas israelo-palestinianas e da minoria de direita que acredita na diplomacia num programa político comum para a resolução do conflito; num compromisso de paz pré-eleitoral que deixasse apeados os amigos dos mísseis e dos rockets, que os isolasse. Assim cada rocket e cada míssil disparado antes das respectivas eleições teria um valor político muito mais reduzido. A esquerda europeia poderia dar uma valiosa ajuda nesse difícil combate interno, sobretudo depois da eleição de um presidente dos EUA de "esquerda". Convém relembrar que foi justamente com um presidente americano de "esquerda" que Rabin e Arafat assinaram os acordos de Oslo.

sábado, dezembro 27, 2008

Prazeres de 2008: filmes

[REC] Regista o medo de Paco Plaza e Jaume Balaguero


Sendo um cliente muito difícil do género filme de terror fantástico fiquei completamente rendido a este "[REC] Regista o medo" de Paco Plaza e Jaume Balaguero. Muito bem filmado, com um argumento bem articulado que consegue manter quase na perfeição a intensidade do filme até ao último minuto. Sublinho intensidade do filme e não suspense, é na intensidade que este filme espanhol se destaca dos demais no género fantástico.

Loft de Erik Van Looy


"Loft" do belga Erik Van Looy é um filme que ainda nao vos apresentei aqui na Klepsýdra (nao tardará muito). Loft é um policial negro imperdível que confronta uma série de personagens altamente sofisticadas num jogo entre amigos em que predomina o lado mais animal do comportamento humano...

quarta-feira, dezembro 24, 2008

O 1910

Reza a lenda que o bar 1910 é o único bar de Coimbra que está aberto na noite da Natal,

reza a lenda que é o último reduto de resistentes, de sem-família, de almas perdidas, de putas e de aleijados,

reza a lenda que é abrigo de gente mal amada, de gente que nunca soube amar, de mimados e de almas ingénuas que amaram demais.

Nosso Senhor Jesus Cristo, esse de que rezam as lendas, passaria certamente o Natal no 1910.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Deux choses qui méritent d'être vécues

"... il y a deux choses - pas trois, pas quatre, deux - qui m'ont paru mériter d´être vécus: aimer, d'abord; je veux dire aimer au sens strict; aimer au sens d'aimer les femmes; et puis écrire, juste écrire, passer des nuits, des jours, encore des nuits, sur mon établi de mots, à faire que pâte lève, que la forme vienne et que mes petites colonnes de signes tiennent à peu près debout (...) Pourquoi écrivez-vous? Parce qu'on ne peut pas faire l'amour toute la journée. Pourquoi faites-vous l'amour? Parce qu'on ne peut pas écrire toute la journée."

"Ennemis publics", Bernard-Henri Lévy, Flammarion, pag. 251

Jeremy Rifkin sobre os automóveis eléctricos

É o tema da minha crónica deste fim-de-semana no portal Esquerda.net.

sábado, dezembro 20, 2008

Sábado em Coimbra XLII: o blogue do Tó Zé

Para muitos dos meus leitores de Coimbra o Tó Zé dispensa apresentações. O Tó Zé é um dos poucos conimbricenses que trata a cidade por tu, conhece-lhe as manhas, os delírios, sabe de cor o programa das festas e os recantos onde ocorrem performances maradas.
O Tó Zé tem um blogue: Por Mão Própria.

Sábado em Coimbra XLI

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Dióxido de carbono descoberto num exoplaneta



Graças ao Telescópio Espacial Hubble foi possível detectar pela primeira vez dióxido de carbono na atmosfera de um exoplaneta. O exoplaneta HD 189733b, de tamanho comparável a Júpiter, é demasiado quente para permitir a existência de vida como a conhecemos na Terra. No entanto, esta descoberta constitui um excelente exercício para detectar compostos químicos como o CO2 que poderão estar associados à existência de vida noutros planetas.

Prisão perpétua para Theoneste Bagosora

Pouco a pouco se vai fazendo alguma justiça às vítimas do genocídio do Ruanda. Theoneste Bagosora foi condenado a prisão perpétua, mas entre os principais responsáveis do genocídio ainda são muitos os que escapam à justiça.
Apesar tudo, este caso demonstra a diferença considerável entre os tribunais da ONU e a justiça texana, ilustrada por esse espectáculo degradante e pouco pacificador que foi o julgamento de Saddam ou por esse processo medieval que ainda decorre em Guantanamo.

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Revolução verde para combater a crise

(Publicado no Cinco Dias)
Jeremy Rifkin, presidente da Foundation on Economic Trends e autor do livro "O Sonho Europeu" que ganhou actualidade com a presente crise, apela neste artigo a uma revolução verde para combater a actual crise. A solução proposta por Rifkin tem a virtude de responder igualmente ao problema levantado pelo Relatório Stern, que alerta para os custos consideráveis para a economia resultantes dos efeitos directos e indirectos do aquecimento global. Rifkin propõe a massificação da utilização de novas tecnologias mais limpas no sector automóvel, em particular a banalização da utilização de tomadas para veículos eléctricos nas paragens das auto-estradas e nos parques de estacionamento, onde a associação estratégica entre empresas do sector automóvel e a indústria de produção de electricidade poderia ter um papel importante na aceleração do processo. Rifkin ilustra o seu discurso citando os exemplos actuais de associação entre a Toyota e a EDF e a Daimler e RWE.
Relembro que o insucesso de anteriores projectos de automóveis eléctricos se deveu em grande parte à diversidade e à incompatibilidade de sistemas utilizados, bem como à rapidez com que os referidos sistemas se tornavam obsoletos, desvalorizando os automóveis eléctricos usados a níveis preços que impossibilitavam a sua revenda por parte dos particulares.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Das pirâmides de Gizé à pirâmide de Madoff

As Pirâmides de Gizé foram construídas por milhares de escravos, sob o estalar de chicotes e de vergastadas. A beleza da Pirâmide de Madoff é que foi construída por ricos, por muito ricos, por homens livres e informados, pelos faraós do nosso tempo. Acho que a Pirâmide de Madoff deveria ser promovida imediatamente a maravilha do mundo.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

O Mestre

Le Maître. Era desta forma que o director do cinema Odyssée de Estrasburgo - cidade onde vivi quatro anos - se referia a Manoel de Oliveira. O Odyssée fazia questão de apresentar as estreias nacionais do Mestre, convidava actores, realizadores, críticos e a première de um Oliveira era sempre uma soirée especial. Foi nessa altura que percebi a verdadeira dimensão internacional da obra de Manoel de Oliveira, que só tinha paralelo entre os autores portugueses no cinema de João César Monteiro. Na prática, para o resto do mundo estes são os únicos realizadores portugueses que existem. É uma pena, mas espero que as carreiras de João Botelho, de Joaquim Sapinho ou de Pedro Costa me desmintam um dia.



Para além da qualidade do cinema de Manoel de Oliveira, há outra característica que aprecio no autor: a sua permanente capacidade de deslumbramento. Num país que é diariamente bombardeado pelas crónicas da escola de Vasco Pulido Valente, o narrador omnisciente enfadado, que já sabe tudo o que aconteceu, o que acontece e o que acontecerá, dá-me um gozo bestial este jovem de 100 anos que faz um manguito a esse estado de espírito e que continua a entusiasmar-se com o que extrai da literatura, das vidas das jovens mulheres e de gandas malucos como o Pedro Abrunhosa. Este vídeo em que Wim Wenders filma Oliveira a imitar o Charlot é um exemplo perfeito desse jovem Oliveira entusiasta, humorado, que continua a apreciar cada segundo de vida.

Agustina e Leonor
Estas são as duas grandes mulheres que contribuíram em parte para o sucesso do Mestre. A qualidade dos romances da Agustina Bessa-Luís e a interpretação de Leonor Silveira, que na minha opinião é de longe a melhor actriz portuguesa, são a base do melhor que Oliveira produziu para a sétima arte.