quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Aquecimento global, disparates locais

Quando se fala em aquecimento global fala-se no aumento da temperatura média de todo o planeta. Por exemplo, se a temperatura média da Terra aumentar 1ºC durante 10 anos, existirão certamente numerosas regiões do planeta onde a temperatura média diminui, mas serão muito mais extensas as regiões onde a temperatura aumenta.

O recente frio inverno europeu, mas apesar de tudo frio dentro daquilo que é a normalidade, suscitou os habituais comentários niilistas sobre o aquecimento global. Foi a enésima vez que fenómenos extremos locais servem para negar um fenómeno global. Isto faz tanto sentido como abrir a porta do congelador e só porque sentimos frio concluímos que o aquecimento global não existe. Nem por acaso as temperaturas extremas e as vaga de fogos na Austrália - fenómenos bem mais raros que os invernos frios da Europa - vieram lembrar que a temperatura média do planeta poderá apesar de tudo estar a subir, ou pelo menos, poderá não andar muito longe das médias registadas nos últimos 10 anos (os 10 anos mais quentes de sempre).
Para quem sabe estatística isto são evidências. Mas o problema é que a blogosfera é poluída constantemente por comentários de indivíduos que não perceberem estas evidências, indivíduos a quem faltam chumbos no secundário. São sempre os mesmos. Mas há também quem faça de uma forma consciente, com o intuito de gerar desinformação, como é o caso de Rui Moura do blogue Mitos Climáticos.

Os fogos na Austrália devem-se ao aquecimento global?
Esta é uma pergunta a que ninguém pode dar uma resposta absoluta e definitiva. Sabemos que o aquecimento global aumenta a probabilidade que fenómenos deste tipo aconteçam (ou de furacões da dimensão do Katrina), mas em toda a história da Terra sempre aconteceram fenómenos climáticos extremos aleatórios. A resposta é talvez sim.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Má matemática na economia

Esta crise veio evidenciar que há muita má matemática na economia. Tinha ficado convencido disso desde que li "ENRON: The smartest guys in the room", quando me dei conta que eminentes sumidades da Harvard Business School tinham engolido sem questionar todas as artimanhas da ENRON e da Anderson Consulting. Ou quando li que alguns dos seus ex-alunos (supostamente brilhantes) se envolveram em toscos esquemas piramidais e circulares de produção de lucro e calculavam a probabilidade de ter bons investimentos baseados apenas nos casos de sucesso, desprezando o que ia correndo mal. A estatística positiva (muito utilizada na astrologia) presta-se sempre a grandes espalhanços.

Via Ladrões de Bicicletas, aconselho a leitura deste texto publicado no Times que coloca em causa a economia como ela é dada actualmente nas mais eminentes universidades.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

A crise não é nada com eles

Um extra-terrestre que leia este texto do Abrupto só pode pensar o seguinte: a crise actual é culpa da União Europeia e do socialismo. Com o que lá está, só pode, não há outra alternativa! A crise não tem nada a ver com a ideologia que Pacheco Pereira defende, aquilo não é nada com eles!

O que aquele texto evidencia na realidade é o estado de niilismo em que mergulharam os catequistas das maravilhas do mercado, todos aqueles que andaram a cultivar a letargia colectiva, uma sociedade acrítica que aceita sem se questionar lucros colossais a partir de actividades não produtivas e que aceita passivamente que as suas economias sejam investidas em actividades de alto risco sem que ninguém lhes peça licença. Quantas vezes Pacheco Pereira criticou os processos da UE contra os abusos dos grandes monopólios, da banca e das grandes multi-nacionais (a Microsoft, a Google, a Monsanto, etc.), apelando indirectamente ao carneirismo, ao fechar de olhos à expansão do poder das empresas ao espaço público. O mais irónico é que este discurso ajuda a validar comportamentos que são contraproducentes em relação ao próprio mercado, contribuindo para o falseamento da concorrência.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Legado e assassinato de Martin Luther King


Em frente ao Lincoln Memorial, Washington DC, EUA, 2002.

Estou a acabar de ler "Os Pensadores" de Daniel J. Boorstin. À medida que me aproximo do fim do livro chego à terrível conclusão que a maior parte dos grandes pensadores da humanidade, os grandes inovadores de cada época, foram perseguidos, refugiados, condenados a prisão em julgamentos falseados, condenados à morte ou pura e simplesmente assassinados. Sócrates, Aristóteles, S. Bento de Núrsia, Lutero, Thomas Moore, Rousseau, John Locke, Marx, Einstein ou Ghandi são apenas alguns entre muitos exemplos. Martin Luther King foi um dos últimos pensadores a seguir este destino. A sua luta pacífica irritava profundamente a direita dura americana, que impossibilitada de organizar um julgamento falseado à moda antiga num cenário de opinião pública inflamada acabou por organizar um confortável assassinato. Não foi a extrema-direita, foi a direita dura, foi uma direita mais "responsável" e religiosa, a direita do racismo velado, foi essa direita a dar a ordem de assassinato. Ainda não perdi a esperança de sabermos um dia exactamente qual foi o grupinho de políticos que o arquitectou.

A eleição de Obama foi um maravilhoso acontecimento poético, um acontecimento que faz parte do valiosíssimo legado que a luta de Luther King nos deixou. E para essas contas tanto dá que Obama seja mau ou bom político, um presidente afro-americano também tem direito a ser mau político, sobretudo depois da catástrofe Bush-filho.

Obrigado Martin!

terça-feira, fevereiro 03, 2009

O mais pequeno exoplaneta



O satélite francês COROT observou o mais pequeno exoplaneta (planeta fora do sistema solar) descoberto até hoje. O planeta catalogado como COROT-Exo-7b tem um diâmetro ligeiramente inferior ao dobro do diâmetro da Terra. Mais um esforço e descobrimos o primeiro exoplaneta do tamanho da Terra. O COROT-Exo-7b foi observado indirectamente através da diminuição do brilho da estrela em torno da qual orbita quando a sua trajectória se interpôs entre a Terra e a referida estrela, como se pode ver no gráfico que acompanha a imagem artística da ESA.
A missão COROT é uma missão francesa, do CNES, mas conta também com a colaboração da ESA, da Áustria, da Bélgica, da Alemanha, do Brasil e da Espanha.

A Pimbalhização da Blogosfera

Os leitores que me conhecem sabem bem que não cultivo essa nostalgia idílica do "dantes é que era bom", no entanto sou obrigado a constatar que a blogosfera nacional está a tender para o pimba, como aconteceu com a televisão e está a acontecer com os jornais. Especialmente alguns dos grandes blogues, dos mais visitados, tornaram-se infrequentáveis. É post-relâmpago atrás de post-relâmpago acompanhado de fotografia-choque (sem citar a origem) que pode ser o sangue na Palestina, a fotografia de Sócrates transfigurada no photoshop, a foto da gaja boa ou ainda os apanhados do youtube.

A blogosfera sempre foi histérica, está-lhe no código genético, é um efeito secundário do imediatismo deste meio de comunicação. Mas passado o momento de histeria que acompanha um assunto de actualidade, passa-se ao pimba. O grande texto de reflexão e de análise do assunto que gerava verdadeira discussão faz-se raro e é cada vez mais desprezado. Não espanta por isso que blogues que têm mantido o nível, concorde-se ou não com eles, estejam a perder espaço, como é o caso do Abrupto. O Abrupto perde espaço sobretudo para a direita-pimba. Na direita tenho-me mantido fiel aos "velhinhos", ao Francisco José Viegas, embora desgoste do registo Correio da Manhã (parece-me forçado) a tender para a rebeldia conformista. Mas na direita temos ainda um Filipe Nunes Vicente que escreve cada vez melhor. Na esquerda temos um Luís Januário melhor, um Rui Tavares muito melhor embora raro, um Paulo Querido sempre em evolução e temos dois blogues colectivos recentes com qualidade (Jugular e Ladrões de Bicicletas), mas menos lidos do que merecem. Ganhámos ainda o excelente De Rerum Natura, onde a Palmira é uma grande aquisição da blogosfera.
No entanto entre o que se ganhou e o que se perdeu (refiro-me sempre aos blogues mais lidos), considero que se perdeu muito em qualidade, a discussão histérico-pimba domina, o dogmatismo domina e os assuntos-choque dominam. Não contem comigo para isso.

domingo, fevereiro 01, 2009

Mais de 1000 Anos de Aquecimento Global

(Publicado no portal Esquerda.net)
Foi publicado esta semana nos Proceedings of the National Academy of Sciences (publicação prestigiada a par da Science, da Nature e da Geophysical Research Letters) um trabalho da autoria de Susan Solomon onde se conclui que serão necessários mais de mil anos para recuperar do aquecimento do planeta gerado pelas emissões de gases de efeito de estufa. Anteriormente, estimava-se este período de recuperação em apenas cerca de 200 anos. O artigo intitulado "Alterações Climáticas Irreversíveis Provocadas pelas Emissões de Dióxido de Carbono" centra a sua tese no lento arrefecimento dos oceanos.

Segundo Solomon estes continuarão a aquecer a atmosfera durante mais de 1000 anos mesmo que se reduzam drasticamente as emissões de dióxido de carbono. Salomon dá alguns exemplos ilustrativos do impacto da irreversibilidade do clima durante mais de 1000 anos. Se a concentração de CO2 atmosférico se elevar a 600 partes por milhão em volume (ppmv) são de esperar longos períodos de secas em mais regiões do planeta e a subida do nível da água do mar provocada pela expansão térmica dos oceanos entre 40 cm a 1 metro, numa estimativa mais conservadora. O nível do mar poderá subir mais, entre 60 cm e 1,90 m, se a concentração de CO2 exceder 1000 ppmv. Deverá ainda adicionar-se a contribuição dos glaciares para a subida do nível da água do mar, que poderá ser da mesma ordem ou superior em vários metros durante este milénio.

Este trabalho de Solomon vem vincar a necessidade urgente de agir para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa sob pena de prolongarmos durante mais 1000 anos, a dezenas de próximas gerações de seres humanos, consequências nefastas e perenes para o clima do planeta.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

O modus operandi da charlatanice climática

Por ordem cronológica isto tem mais piada.

21 de Janeiro de 2009
A NASA divulga esta fotografia correspondente a 50 anos de observações da Antárctida sob o título "Satélites confirmam o aquecimento do oeste da Antárctida no último meio-século"


Red represents areas where temperatures have increased the most during the last 50 years, particularly in West Antarctica, while dark blue represents areas with a lesser degree of warming. Temperature changes are measured in degrees Celsius.


23 de Janeiro de 2009
Para justificar que a Antárctida está a arrefecer, contrariando o comunicado da NASA, Rui Moura tem esta entrada no seu blogue niilista onde mostra um gráfico da NASA desactualizado, publicado há cerca de 5 anos atrás, correspondente apenas a 22 anos de observação (1982-2004). Ora, esta informação de 22 anos de observações está totalmente contida no gráfico acima, correspondente a informação que cobre um período de observações até há 50 anos atrás e que tem em conta uma maior quantidade de dados das estações de observações terrestres e dos satélites. Assim, se atira areia aos olhos dos leigos...

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Loft



"Loft" de Erik Van Looy é um policial em que um conjunto de personagens muito sofisticadas constrói um jogo secreto centrado na infidelidade conjugal. Estabelece-se um pacto entre amigos, distribui-se a chave de um apartamento secreto e abre-se a porta ao pecado. Rapidamente o apartamento torna-se o centro das vidas destas personagens e a sofisticação revela-se um pobre verniz que esconde mal o animal primordial que habita por baixo da pele de cada um. Até que verniz começa a estalar...
Excelente interpretação de Koen De Bouw (Chris Van Outryve).
"Loft" ainda não estreou em Portugal, chateiem o vosso cinema ou distribuidor!

Filme Klepsýdra ***** (5 estrelas)

Artigo de Solomon sobre a concentração de CO2

Eis o resumo do artigo de Susan Solomon referido na minha entrada anterior:

Irreversible climate change due to carbon dioxide emissions

The severity of damaging human-induced climate change depends not only on the magnitude of the change but also on the potential for irreversibility. This paper shows that the climate change that takes place due to increases in carbon dioxide concentration is largely irreversible for 1,000 years after emissions stop. Following cessation of emissions, removal of atmospheric carbon dioxide decreases radiative forcing, but is largely compensated by slower loss of heat to the ocean, so that atmospheric temperatures do not drop significantly for at least 1,000 years. Among illustrative irreversible impacts that should be expected if atmospheric carbon dioxide concentrations increase from current levels near 385 parts per million by volume (ppmv) to a peak of 450–600 ppmv over the coming century are irreversible dry-season rainfall reductions in several regions comparable to those of the “dust bowl” era and inexorable sea level rise. Thermal expansion of the warming ocean provides a conservative lower limit to irreversible global average sea level rise of at least 0.4–1.0 m if 21st century CO2 concentrations exceed 600 ppmv and 0.6–1.9 m for peak CO2 concentrations exceeding ≈1,000 ppmv. Additional contributions from glaciers and ice sheet contributions to future sea level rise are uncertain but may equal or exceed several meters over the next millennium or longer.

(Ler aqui o artigo completo)

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Recuperar do Aquecimento Global em 1000 Anos

Foi publicado ontem nos Proceedings of the National Academy of Sciences (uma das mais prestigiadas publicações que dá espaço ao estudo do clima a par da Science, Nature e da Geophysical Research Letters) um trabalho da autoria de Susan Solomon onde se conclui que serão necessários mais de mil anos para recuperar do aquecimento do planeta causado pelas emissões de gases de efeito de estufa. Anteriormente, estimava-se em cerca de 200 anos...

segunda-feira, janeiro 26, 2009

Método Científico (comentários)

A política vigente vai exactamente em sentido contrário, tira-se cada vez mais horas lectivas às ciências (química, física, naturais) e a filosofia tem um programa estranhíssimo (para não ser malcriada). Os alunos chegam ao secundário sem saberem quase o que é um laboratório!
Eva Lima (Filhos & Cadilhos)

Confirmo as tuas palavras Rui. Fiz uma entrevista a um jovem engenheiro que não sabia o que seria o método científico aliás confessou que "não faço a menor ideia"...
Não é pois de admirar que engenheiros destes terminem irremediavelmente em caixas de supermercado !

João Vaz (Ambiente na Figueira)

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Reforçar o Ensino do Método Científico

Dou-me conta que o desconhecimento do método científico é assustador, as recentes discussões na blogosfera sobre ciência revelam uma ignorância profunda do assunto. E o pior é quando este desconhecimento vem da parte de cientistas (das ciências sociais e humanas às ciências exactas). O método científico é dado em filosofia no secundário e pontualmente nas disciplinas científicas, mas manifestamente não chega nas nossas sociedades sofisticadas que utilizam hoje a fundo variadíssimos produtos tecnológicos filhos da investigação científica. A consciência crítica é pobre e vulnerável à charlatanice bem embrulhada que se infiltra em todos os interstícios das sociedades complexas em que vivemos.

Já há muito tempo que considero que o método científico deveria ser dado no secundário muito mais aprofundadamente. Talvez fosse bom que o método científico ocupasse todo um trimestre na disciplina de filosofia no secundário. E que em física e química, matemática, biologia, economia, história e português, fossem dados exemplos que obrigassem os alunos a cruzar conhecimentos com os conceitos que adquiriram sobre o método científico em filosofia. Poderiam ser introduzidos em paralelo exemplos de pseudo-ciência para obrigar os alunos a distinguir entre aquilo que é ciência do que não é.

No meu entender este assunto deveria ser prioritário, tal como o combate ao analfabetismo.

Acordar um dia

É um blogue de qualidade dedicado à micro narrativa da autoria do caríssimo Nuno Camarneiro, ex-colaborador aqui da Klepsýdra, que anda lá fora a lutar pela vida.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

250 Milhões de Libras para a Ciência

(Publicado no portal Esquerda.net)

Num momento de profunda crise o governo britânico decidiu investir 250 milhões de libras na criação de uma nova vaga de cientistas e de engenheiros, tendo para isso anunciado a criação de 44 novos centros de investigação onde serão formados em contínuo mais de 2000 estudantes de doutoramento.

Os centros serão especializados em diferentes áreas científicas e tecnológicas, com uma especial ênfase para as áreas da energia e das alterações climáticas. Apesar da sua abrangência este programa pretende responder a assuntos muito específicos mas de grande actualidade, como a gestão da escassez de água potável, o desenvolvimento de órgãos artificiais e a manutenção da competitividade da industrial aeroespacial.

No campo das ciências sociais e humanas existirá uma aposta particular em mudar a forma como se tem lidado com a criminalidade e o terrorismo. Existirá um enfoque maior no estudo do comportamento dos indivíduos envolvidos nestas actividades e na análise da estrutura e da propagação das redes de crime organizado, concentrando-se mais o esforço ao nível da prevenção em vez das tradicionais soluções repressivas.

O organismo responsável pela gestão deste programa é o Engineering and Physical Sciences Research Council (EPSR). Recentemente foi dado início ao período de ensaio tendo sido já publicados no sítio internet do EPSR ofertas de emprego e concursos para projectos abertos à participação de cientistas de todos os países.

Quilimanjaro tem menos 3 metros

A expedição para medir com precisão o Monte Quilimanjaro de que aqui fiz eco, teve como resultado o acerto da altura do monte para 5891,8 m, ou seja menos 3,2 m do que altura vigente. Está de parabéns o Gregor Samsa, ex-colaborador aqui da Klepsýdra e participante na expedição.

sábado, janeiro 17, 2009

Sábado em Coimbra XLIII: Quebra Bar

O Quebra Bar pode ser Quebra Lar,
depende da noite.
O Quebra Lar pode ser Quebra Lar
depende da noite se Quebra é substantivo ou verbo.

O Quebra Bar pode ser Brokeback Bar,
depende da noite,
ou Quebra las Costillas,
depende do cliente.

Vou pela tostas, pela música e pelo vinho,
(ah! como é difícil encontrar bares que servem vinho)
Gosto menos da fumarada,
o seu Quebranhar de Aquiles!

Sábado em Coimbra XLII

quinta-feira, janeiro 15, 2009

Académica de Comboio

Uma semana depois de Ronaldo ter destruído um Ferrari e numa altura em que o mundo futebolístico preza em mostrar grandes máquinas, a Académica foi jogar a Setúbal de comboio. É só vantagens, declarou Domingos Paciência. Acredito, lembro-me bem das miseráveis viagens de autocarro e de carro quando jogava basquetebol. Se foi manobra de marketing, funcionou. Falo por mim, tenho mais gozo em apoiar uma equipa que anda de comboio.
Ide de comboio até ao Porto e ganhai! O Porto precisa de ser eliminado para se concentrar na Liga dos Campeões e era giro a Académica ganhar uma taça 40 anos depois da insurreição contra o regime fascista.

terça-feira, janeiro 13, 2009

Ennemis Publics

"Ennemis publics" é o resultado da troca de correspondência ocorrida de Janeiro a Julho de 2008 entre o escritor Michel Houellebecq e o filósofo Bernard-Henri Lévy. Na origem da publicação conjunta de tão diferentes personagens estão os ataques pessoais de que ambos são alvo e que vão muito para lá da sua escrita, chegando ao ponto de envolver a mãe de Houellebecq e no caso de Lévy, atingindo a actriz Arielle Dombasle, a sua companheira. Na primeira carta, Houellebecq classifica os dois correspondentes como individus assez méprisables. No entanto, apesar de alguma vitimização menos interessante depressa a troca de correspondência toma contornos de um verdadeiro e vivo debate, onde as partes se irritam, para se acalmarem a seguir, voltando a irritar-se, sobrepondo-se a este ritmo emocional uma reflexão aberta digna de diálogos de filósofos da Grécia antiga. Houellebecq gosta da Rússia, das "sumptuosas louras russas", mas Lévy, irritado, lembra que a Rússia é também Putin, as oligarquias e a mão de ferro sobre os adversários políticos e as minorias étnicas. Ambos atravessam aleatoriamente a história do pensamento político dos dois últimos séculos e da literatura europeia (onde há referências a Pessoa). O debate atinge a sua fase mais interessante quando se aborda o tema da espiritualidade. Lévy, embora ateu, prefere Jerusalém a Atenas, prefere os escritos dos profetas e dos velhos rabis aos dos filósofos da Grécia antiga. Com uma certeza e uma clarividência surpreendentes, Houellebecq confessa-se desprovido de espiritualidade, assentando o seu pensamento exclusivamente na ciência. Estas reflexões vão sendo intercaladas ao longo da troca de correspondência com revelações pessoais em geral interessantes, onde os autores se expõem mais do que é comum, sobretudo Lévy.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Žižek sobre a ciência moderna

No meu resumo de “Sede Sábios, Tornai-vos Profetas” do post anterior dei mais ênfase às passagens em que Charpak se lamenta do distanciamento entre filosofia e ciência, citando autores que apesar de tudo ele elogia. Charpak deixa bem claro que a ciência só tem a ganhar se conseguir estreitar esse fosso com a filosofia, não é de modo nenhum sua intenção criar clivagens estéreis entre as duas disciplinas.
Na obra “La subjectivité à venir” (Flammarion, 2006), Slavoj Žižek tem várias passagens sobre a ciência que ajudam a estreitar esse fosso (tal como no artigo citado pela Palmira Silva), formulando o problema identificado por Charpak quase nos mesmo termos:

… l’impasse réside simplement aujourd’hui dans le fait que le savoir scientifique ne nous sert plus de “grand autre” symbolique. Le fossé entre la science moderne et le bon sens aristotélicien de l’ontologie philosophique est ici insurmontable: si un premier signe de ce fossé se repère avec Galilé, il se creuse de manière extrême avec la physique quantique, lorsque nous avons affaire à des lois et des règles qui fonctionnent dans le réel bien qu’elles ne puissent plus être retraduites dans notre expérience de la réalité représentable“, pag. 103.

Também sobre Heidegger, Žižek refere-se de uma forma semelhante às considerações de Charpak, classificando algumas das suas posições como “totalmente ambíguas”, embora ressalvando que existe muita crítica simplista para tentar desacreditar o filósofo (pag. 57).

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Sede Sábios, Tornai-vos Profetas!

(Publicado no Cinco Dias)
Georges Charpak (Nobel da Física em 92) e Roland Omnès são autores do livro de título irónico "Sede Sábios, Tornai-vos Profetas". Este livro surge na sequência de "Feiticeiros e Cientistas", uma publicação conjunta entre Charpak e Henri Broch, onde ensina o leitor a identificar através da matemática, da estatística e da lógica, os truques e as artimanhas de astrólogos e de outros charlatães. Neste "Sede Sábios, Tornai-vos Profetas", Charpak parte da história da conhecimento e do método científico para analisar a relação da filosofia e da religião com a ciência. Charpak analisa a resposta da filosofia e da religião aos novos desafios colocados pela física moderna, pelo afastamento das leis da natureza da intuição humana e pela transcendência da dimensão humana quando analisamos a imensidade do universo ou quando estudamos partículas sub-atómicas.
Charpak analisa as reflexões de Hume, de Kant e de Nietzsche sobre a ciência. Curiosamente, apesar de estar entre os que mais rapidamente a percebem a importância do método científico, Nietzsche é um dos primeiros a contestar o desenvolvimento da teoria atómica realizada por Dalton e Thompson e critica fortemente o darwinismo. Mais tarde, a aceitação da mecânica quântica sofreu grande resistência de filósofos que deram valiosos contributos para clarificar o significado do conhecimento da científico como Russell, Husserl ou Wittgenstein. Charpak dedica uma secção a Heidegger onde transcreve algumas passagens obscuras que revelam um considerável afastamento entre a sua filosofia e a ciência.



Nesta obra pouco divulgada entre nós, Charpak lança algumas pistas que poderão ajudar a perceber o que está na origem de alguns dos casos de pseudo-ciência apontados por Boghossian na obra recomendada pela Palmira Silva, que já está na minha lista de próximas aquisições.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

A Universidade Jaguar (caixa de comentários)

Com todo o devido respeito pelas suas considerações pela universidade Católica - organização onde estudei - creio que V/ Exª elabora em erro. Senão vejamos:

(a) a Católica foi pioneira na introdução do curso de biotecnologia no país e mantém uma das unidades mais avançadas de investigação na península ibérica. Trata-se do polo de biotecnologia da Asprela.

(b) A Católica tem uma escola de Gestão e de Economia que ocupam anualmente lugares cimeiros nos rankings europeus.

(c) a faculdade de Direito da Católica tem neste momento o curso de LLM mais avançado do país e a qualidade da sua formação a nível de licenciatura já foi reconhecida nacional e internacionalmente.

(d) a Católica tem ainda um curso de Som e Imagem que é dos mais avançados do país.

(e) a nível de investigação científica, desafio-o a encontrar em Portugal centros de estudo que ultrapassem em produção científica e qualidade os seguintes centros de estudo: Centro de Direito Privado Comparado; Centro de Estudos Comerciais; Gabinete de Estudos Laborais; Gabinete de Estudos Internacionais. Para sua informação estes centros de estudo recebem na íntegra financiamento da FCT e obtiveram a classificação mais baixa de Bom (sendo Muito Bom a classificação de >50% destes centros). Note-se que falo apenas dos centros de Direito e ignoro os centros de investigação noutras áreas.

(f) concordo em absoluto com o que diz a propósito das universidades privadas mas isso deriva tão só de falta de supervisão por parte do ministério responsável pela tutela do ensino superior. Existem inúmeras universidades privadas que conseguiriam ter cursos de excelência se tivessem condições de desenvolvimento.

(f.1) a propósito do anterior, note-se que também nas públicas existe desbaste de dinheiros públicos. Veja a qualidade da produção científica de algumas faculdades públicas e diga-me quem é coxo em termos europeus. Note-se que a Faculdade de Direito de Lisboa recusou há algum tempo o reconhecimento do Doutoramento de uma aluna que se doutorou em Harvard com um dos grandes crâneos da matéria e que foi agraciada com um prémio no final da tese. Isso mereceu mesmo um telefonema da parte da direcção da faculdade a perguntar quem era a FDUL para recusar o reconhecimento de um diploma de Harvard!

Eu sei que as privadas são de uma maneira geral muito fracas em Portugal mas olhe que as públicas também não são exemplo para ninguém - com honrosas excepções como a FEUP e outros casos isolados.

B.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

2009, Ano Internacional da Astronomia

Este ano é o Ano Internacional da Astronomia, aqui na Klepsýdra vamos participar activamente nalgumas actividades e divulgar as mais importantes. Eis o calendário do mês de Janeiro do programa nacional coordenado pelo caríssimo João Fernandes.

terça-feira, janeiro 06, 2009

A Universidade Jaguar

Na passada semana encerrou definitivamente a Universidade Moderna sob o silêncio do xôtor Paulo Portas. Concordo em grande parte com o Luís Januário. Entre as privadas há mais universidades que deveriam fechar. E se fossemos mais rigorosos apenas uma merece o título de universidade: a Católica. No entanto, mesmo a Universidade Católica no contexto europeu é uma universidade coxa onde a produção científica é fraca e se resume praticamente apenas às ciências sociais e humanas. A maior parte das universidades privadas não tem sequer produção científica. Estas instituições deveriam perder o estatuto de universidade e ser designadas mais correctamente como escolas ou institutos de ensino superior, tal como é prática noutros países da OCDE. Existem vários casos de politécnicos no país que produzem trabalho científico e que mereciam bem mais o estatuto de universidade. Apesar de algumas das privadas ainda prestarem serviços à sociedade civil, elaborando sondagens ou estudos técnicos, as restantes dedicam-se apenas à cobrança de propinas e de inscrições nos exames, por vezes, utilizando estratagemas que indignam profundamente os estudantes.

É por estas e por outras que sou pouco sensível ao choradinho das universidades privadas quando se queixam de falta de financiamento do estado. As privadas, tal como as públicas, podem concorrer a projectos europeus e nacionais que financiam a investigação, mas curiosamente o que se verifica é que essas oportunidades são pobremente aproveitadas, especialmente nos domínios das Engenharias e das Ciências Exactas. No entanto, tal como a Moderna algumas das privadas não dispensam um parque de automóveis de luxo adquiridos ou alugados. Por exemplo, um Jaguar custa mais de 100 mil euros, o que corresponde a uma quantia superior ao orçamento médio dos projectos a três anos financiados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Pelo preço de duas ou três viaturas destas é possível equipar um laboratório capaz de produzir trabalhos científicos com qualidade aceitável. É tudo uma questão de prioridades...

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Os Canibais



"Os Canibais" é um dos meus filmes preferidos de Manoel de Oliveira. Esta obra é um acto de ousadia do Mestre que transpôs para a fita diálogos recitados em tom de ópera. A solenidade do bel canto reforça a ironia e o sarcasmo com que Oliveira aborda o drama em que o Visconde de Alveleda disputa com Dom João o amor de Margarida. O drama cruza-se em permanência com o ridículo das personagens, em cenas de um humor caustico, requintado e subtil muito típico de Manoel de Oliveira.
Excelentes interpretações de Leonor Silveira (Margarida) e de Diogo Dória (Dom João).
Fica a sugestão para quem quiser descobrir o melhor da filmografia de Oliveira.

A Hungria precisa do Euro

"A Hungria precisa do euro o mais rapidamente possível", foi a resposta do primeiro-ministro húngaro questionado por um repórter eslovaco que sondava a opinião de políticos dos países vizinhos sobre a adesão da Eslováquia ao euro. Ler aqui a mesma opinião do banco Central Húngaro.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

O trilho da Eslováquia até ao Euro

(Publicado no Cinco Dias)
É curiosa a história da moeda oficial da Eslováquia desde a independência do Império Austro-Húngaro. A coroa checoslovaca foi a moeda oficial enquanto durou a união da Rep. Checa e da Eslováquia, mas durante os 6 anos de anexação da Rep. Checa pelos nazis a Eslováquia teve a sua própria coroa. A coroa eslovaca voltou depois da separação definitiva da Checoslováquia em 1993 para mais 15 breves anos de existência.
Desde 1 de Janeiro, os Eslovacos voltam a ter uma moeda partilhada com outras nações mas desta vez os imperadores que chamavam Pressburg a Bratislava já não são coroados na Catedral de São Martinho e as lagartas dos tanques do Império do outro lado da Europa já não rasgam o alcatrão da estrada em frente à Universidade Comenius.
Mas a história não acaba aqui. Após o recente afundanço económico da Hungria e do impacto económico negativo da crise nos países fora da eurozona, o atlantismo populista que emanava da Polónia para o resto dos países de leste perdeu muito da sua chama. Uma sondagem recente realizada na Rep. Checa dá 65% da população a favor do euro. Ironia, das ironias, em breve checos e eslovacos voltarão a ter a mesma moeda.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Prazeres de 2008: blogues

Os meus posts preferidos do ano:

First We Take Bombay do Luís Januário na Natureza do Mal
Do post do Luís gosto muito desta passagem: "Esta é a cidade [Triana] dos fenícios e de Cartago, de Roma e dos godos, a cidade moura. Mas nao sabemos. Ignoramos até que, em pleno século XX, homens como nós enterraram vivos e algemados os seus inimigos (...) Ignoramos tudo. Porque, como disse Juan Gelman ontem em Salamanca, depois dos ditadores vêm os comisarios del olvido. E um dia morreremos, demasiado ignorantes â mao justiceira dos fanáticos, demasiado estúpidos."

Antena Islamica do Filipe Nunes Vicente no Mar Salgado

O Princípio de Deus do Miguel Portas no Sem Muros

Prazeres de 2008: o livro

Entre as minhas leituras das edicoes de 2008, a mais interessante foi a do livro "Ennemis publics" de Michel Houellebecq, autor de "Partículas Elementares" e do filósofo Bernard-Henri Lévy. Um livro de recolha de correspondência trocada entre os dois autores entre Janeiro e Julho deste ano, ao longo da qual partilharam as suas principais obsessões, análises políticas e reflexões sobre temas sociais caros a cada deles.

terça-feira, dezembro 30, 2008

2008, o ano em que o planeta se revelou finito

(publicado no dossier temas 2008 do portal Esquerda.net)
2008 será recordado como o ano em que o planeta se revelou finito, em que a actividade humana numa parte do mundo teve consequências reais e palpáveis noutra parte do planeta. Tal como a parábola da manta, que tapa de um lado destapando do outro, a crise dos cereais e do petróleo veio evidenciar da pior maneira os reais limites de alguns dos nossos principais recursos naturais.

O brusco aumento da procura de petróleo da parte de mercados emergentes, como a Índia e China, a especulação dos mercados financeiros e a progressiva escassez do petróleo e dos restantes combustíveis primários provocaram uma subida acentuada do preço do crude para preços record, seguida de uma descida brusca provocada pela crise financeira. Um processo semelhante ocorreu com os preços dos cereais e seus derivados, tendo-se agravado o problema neste caso com a quebra verificada no volume de colheitas agrícolas nos últimos dois anos e o aumento da percentagem relativa de solos dedicados à produção de biocombustíveis. Estas oscilações de preço tiveram consequências reais, provocando revoltas, falências, desemprego que resultaram em mortes directas e indirectas destes acontecimentos.

Desde os séculos XVII e XVIII, grande parte do pensamento económico foi orientado pelos escritos de John Locke, de Thomas Hobbes ou de Adam Smith, que simplificavam ou davam pouca importância à escassez ou ao limite dos principais recursos naturais. Na prática, os contemporâneos destes filósofos consideravam quase todos os principais recursos como sendo infinitos ou exploráveis indefinidamente. A explosão demográfica e a exploração intensiva dos principais recursos naturais que ocorreu durante século XX vieram revelar que alguns dos principais recursos naturais, como o petróleo, tinham os dias contados. Ainda assim os alertas lançados sortiram pouco efeito e foi preciso esperar por 2008 para que o cidadão comum percebesse finalmente que o modelo de sociedade dominante estava a pôr em perigo a sua própria segurança alimentar e energética. A emaranhada teia que liga as cadeias de exploração, produção, comercialização e consumo dos produtos de primeira necessidade está sujeita a processos estatísticos complexos de difícil compreensão para o produtor ou o consumidor individual que se encontra no seu canto do mundo e que tem uma perspectiva do problema limitada ao horizonte da sua região ou do seu país. Deste modo, um produtor ou um consumidor que esteja genuinamente convencido que a sua actividade não tem qualquer efeito nocivo poderá estar a contribuir sem saber para uma catástrofe humanitária noutro ponto do planeta. É aqui que falha, em particular a filosofia de John Locke. Segundo John Locke, a natureza não tem qualquer valor até ser transformada pelo trabalho humano para satisfazer as necessidades do homem. No entanto, Locke ressalvava que a exploração de recursos naturais poderia continuar indefinidamente desde que existissem em quantidade e qualidade para todos. Para além de sabermos hoje que a natureza não transformada pode ter um papel importantíssimo para a sobrevivência do homem (os pulmões da Amazónia ou das florestas do Canadá e da Sibéria, os gigantescos reservatórios de CO2 que são os nossos oceanos, etc.), sabemos também que nem sempre quem explora um recurso tem a percepção exacta de que pode estar a comprometer o acesso a esse recurso por parte de outros indivíduos noutra parte do mundo ou por parte das gerações seguintes.

As sociedades de produção e consumo massificado em que nos tornámos precisam de generalizar conceitos como o princípio da precaução da UE que protegem consumidores e produtores da incerteza resultante da massificação de novas actividades económicas e precisam sobretudo de se tornar em verdadeiras sociedades baseadas no conhecimento, em que o conhecimento científico seja devidamente considerado e respeitado pelo poder político e pelos diversos agentes económicos. O resultado desse trabalho científico mostra hoje que o modelo de vida das sociedades ditas ocidentais não é decalcável para o resto dos habitantes do planeta, nem para as gerações seguintes.

A encruzilhada entre o aumento do consumo energético do planeta, a progressiva escassez das reservas de combustíveis primários e o aquecimento global provocado pela emissão de gases de efeito de estufa deverá obrigar a uma séria reflexão sobre o nosso modo de vida, sobre a forma intensiva como produzimos e consumimos. A médio prazo será necessário encontrar novas formas de produção de energia em larga escala não dependentes de combustíveis primários com reservas finitas. Será por isso urgente apostar na investigação de novas tecnologias, como o projecto ITER de fusão nuclear, que poderá ser a futura energia de produção em larga escala, limpa e sustentável que substituirá definitivamente os combustíveis primários. Enquanto essas tecnologias não chegam será necessário massificar tanto quanto possível a produção de energia geotérmica, eólica, solar, das marés, das ondas, etc., transformando a habitação e o transporte para o seu consumo em larga escala (ler proposta de Jeremy Rifkin).

A produção de alimentos deverá cada vez mais aderir a métodos de produção sustentável que não esgotem os solos ou os recursos marinhos e deverá ser menos orientada para a exploração animal que requer a produção de grandes quantidades de cereais e um elevado consumo de água, requisitos que poderão ser fatais nas zonas menos férteis do mundo. A introdução de novas tecnologias e de novos produtos químicos na produção de alimentos deverá estar sujeita ao princípio da precaução para garantir a segurança de consumidores, de produtores e dos ecossistemas e responder a novos desafios como o sério declínio da taxa de natalidade nas sociedades mais desenvolvidas.

A nossa segurança alimentar e energética vai requerer uma transformação radical da sociedade, em particular a mudança de indicadores de desenvolvimento. Indicadores baseados essencialmente na produção, como o PIB, deverão ter um peso menor e indicadores dependentes da qualidade de vida, da sustentabilidade da actividade humana e da preservação do ambiente deverão ter um peso bem mais importante nas sociedades futuras. Produzir menos, para ganhar menos e viver melhor, poderá ser o mote das futuras gerações.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Prazeres de 2008: o vinho

O Quinta de S.Lourenco tinto (so encontrei foto do branco). Para alem da excelente relacao preco qualidade, escolho-o pelo efeito surpresa. Ate provar este Quinta de S.Lourenco todos os espumantes tintos que tinha provado eram gasosas ou decapantes que mal se enquadravam na categoria de vinho. A casta baga é cada vez mais uma das minhas preferidas para espumantes.

Onde está a esquerda Israelo-Palestiniana?



Durante a minha vida de nómada europeu convivi com refugiados israelitas palestinianos ateus, israelitas católicos, com libaneses muçulmanos, libaneses ateus, palestinianos muçulmanos e sei lá que mais! Amizades duradouras, amizades fugazes, colegas de trabalho e co-autores de artigos científicos ouvi-os durante anos sobre a questão israelo-palestiniana. Algumas das histórias eram duras e deixaram sequelas físicas. As opiniões sobre o conflito eram diversas, mas eram comuns num ponto: a solução não passava pela disputa da fronteira ao centímetro e só poderia ser de cariz diplomático.

Até hoje, a única ocasião em que essa solução foi conseguida deve-se ao esforço quer da esquerda palestiniana quer da esquerda israelita. Por muito criticáveis que sejam, o que é certo é que Rabin ou Arafat conseguiram (com ajuda, mas a diplomacia é assim mesmo) o que mais ninguém conseguiu. Desde então, Rabin foi assassinado por extremistas fanáticos cujo objectivo de boicotar o processo de paz foi plenamente conseguido e Arafat morreu deixando caminho livre à extrema-direita e aos fanáticos do Hamas (preferia não ter razão, caro Francisco). Com a direita dura, a extrema-direita e os fanáticos quase todos no poder em Israel e na Palestina, a guerra a meio-gás é a solução ideal para se perpetuarem no poder. E a vitimização é uma arma que ambas as partes empregam com maestria. Eles sabem muito bem o que fazem. Os mísseis de Israel dão votos ao Hamas e os rockets do Hamas dão votos à direita dura e 'a extrema-direita israelita. Aliás, não me admirava nada se o espectro político das duas partes se deslocasse ainda mais para a direita. Há bem pior do que o Kadima em Israel e dentro do Hamas há quem considere os actuais governantes como traidores. E é exactamente a palavra traidor que tem sido a palavra-chave dos extremistas. Segundo o seu assassino Rabin era um traidor e Arafat sempre foi um traidor para o Hamas (apesar de estes terem sido apoiados por Israel). Todos os que tentarem um processo de paz naquela zona serão forçosamente traidores. É uma lógica que só deixa de fora do conceito de traidor os mais sanguinários e os mais fanáticos, esses serão sempre virgens puras intocáveis.

A região entrou num processo de retro-realimentacao positiva que desloca sucessivamente o espectro partidário para o fanatismo e a ortodoxia, que cultiva a paranóia colectiva e a vitimização. Para além de uma intervenção da ONU, só vejo uma solução para quebrar este ciclo vicioso. Seria algo como uma união das esquerdas israelo-palestinianas e da minoria de direita que acredita na diplomacia num programa político comum para a resolução do conflito; num compromisso de paz pré-eleitoral que deixasse apeados os amigos dos mísseis e dos rockets, que os isolasse. Assim cada rocket e cada míssil disparado antes das respectivas eleições teria um valor político muito mais reduzido. A esquerda europeia poderia dar uma valiosa ajuda nesse difícil combate interno, sobretudo depois da eleição de um presidente dos EUA de "esquerda". Convém relembrar que foi justamente com um presidente americano de "esquerda" que Rabin e Arafat assinaram os acordos de Oslo.

sábado, dezembro 27, 2008

Prazeres de 2008: filmes

[REC] Regista o medo de Paco Plaza e Jaume Balaguero


Sendo um cliente muito difícil do género filme de terror fantástico fiquei completamente rendido a este "[REC] Regista o medo" de Paco Plaza e Jaume Balaguero. Muito bem filmado, com um argumento bem articulado que consegue manter quase na perfeição a intensidade do filme até ao último minuto. Sublinho intensidade do filme e não suspense, é na intensidade que este filme espanhol se destaca dos demais no género fantástico.

Loft de Erik Van Looy


"Loft" do belga Erik Van Looy é um filme que ainda nao vos apresentei aqui na Klepsýdra (nao tardará muito). Loft é um policial negro imperdível que confronta uma série de personagens altamente sofisticadas num jogo entre amigos em que predomina o lado mais animal do comportamento humano...

quarta-feira, dezembro 24, 2008

O 1910

Reza a lenda que o bar 1910 é o único bar de Coimbra que está aberto na noite da Natal,

reza a lenda que é o último reduto de resistentes, de sem-família, de almas perdidas, de putas e de aleijados,

reza a lenda que é abrigo de gente mal amada, de gente que nunca soube amar, de mimados e de almas ingénuas que amaram demais.

Nosso Senhor Jesus Cristo, esse de que rezam as lendas, passaria certamente o Natal no 1910.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Deux choses qui méritent d'être vécues

"... il y a deux choses - pas trois, pas quatre, deux - qui m'ont paru mériter d´être vécus: aimer, d'abord; je veux dire aimer au sens strict; aimer au sens d'aimer les femmes; et puis écrire, juste écrire, passer des nuits, des jours, encore des nuits, sur mon établi de mots, à faire que pâte lève, que la forme vienne et que mes petites colonnes de signes tiennent à peu près debout (...) Pourquoi écrivez-vous? Parce qu'on ne peut pas faire l'amour toute la journée. Pourquoi faites-vous l'amour? Parce qu'on ne peut pas écrire toute la journée."

"Ennemis publics", Bernard-Henri Lévy, Flammarion, pag. 251

Jeremy Rifkin sobre os automóveis eléctricos

É o tema da minha crónica deste fim-de-semana no portal Esquerda.net.

sábado, dezembro 20, 2008

Sábado em Coimbra XLII: o blogue do Tó Zé

Para muitos dos meus leitores de Coimbra o Tó Zé dispensa apresentações. O Tó Zé é um dos poucos conimbricenses que trata a cidade por tu, conhece-lhe as manhas, os delírios, sabe de cor o programa das festas e os recantos onde ocorrem performances maradas.
O Tó Zé tem um blogue: Por Mão Própria.

Sábado em Coimbra XLI

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Dióxido de carbono descoberto num exoplaneta



Graças ao Telescópio Espacial Hubble foi possível detectar pela primeira vez dióxido de carbono na atmosfera de um exoplaneta. O exoplaneta HD 189733b, de tamanho comparável a Júpiter, é demasiado quente para permitir a existência de vida como a conhecemos na Terra. No entanto, esta descoberta constitui um excelente exercício para detectar compostos químicos como o CO2 que poderão estar associados à existência de vida noutros planetas.

Prisão perpétua para Theoneste Bagosora

Pouco a pouco se vai fazendo alguma justiça às vítimas do genocídio do Ruanda. Theoneste Bagosora foi condenado a prisão perpétua, mas entre os principais responsáveis do genocídio ainda são muitos os que escapam à justiça.
Apesar tudo, este caso demonstra a diferença considerável entre os tribunais da ONU e a justiça texana, ilustrada por esse espectáculo degradante e pouco pacificador que foi o julgamento de Saddam ou por esse processo medieval que ainda decorre em Guantanamo.

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Revolução verde para combater a crise

(Publicado no Cinco Dias)
Jeremy Rifkin, presidente da Foundation on Economic Trends e autor do livro "O Sonho Europeu" que ganhou actualidade com a presente crise, apela neste artigo a uma revolução verde para combater a actual crise. A solução proposta por Rifkin tem a virtude de responder igualmente ao problema levantado pelo Relatório Stern, que alerta para os custos consideráveis para a economia resultantes dos efeitos directos e indirectos do aquecimento global. Rifkin propõe a massificação da utilização de novas tecnologias mais limpas no sector automóvel, em particular a banalização da utilização de tomadas para veículos eléctricos nas paragens das auto-estradas e nos parques de estacionamento, onde a associação estratégica entre empresas do sector automóvel e a indústria de produção de electricidade poderia ter um papel importante na aceleração do processo. Rifkin ilustra o seu discurso citando os exemplos actuais de associação entre a Toyota e a EDF e a Daimler e RWE.
Relembro que o insucesso de anteriores projectos de automóveis eléctricos se deveu em grande parte à diversidade e à incompatibilidade de sistemas utilizados, bem como à rapidez com que os referidos sistemas se tornavam obsoletos, desvalorizando os automóveis eléctricos usados a níveis preços que impossibilitavam a sua revenda por parte dos particulares.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Das pirâmides de Gizé à pirâmide de Madoff

As Pirâmides de Gizé foram construídas por milhares de escravos, sob o estalar de chicotes e de vergastadas. A beleza da Pirâmide de Madoff é que foi construída por ricos, por muito ricos, por homens livres e informados, pelos faraós do nosso tempo. Acho que a Pirâmide de Madoff deveria ser promovida imediatamente a maravilha do mundo.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

O Mestre

Le Maître. Era desta forma que o director do cinema Odyssée de Estrasburgo - cidade onde vivi quatro anos - se referia a Manoel de Oliveira. O Odyssée fazia questão de apresentar as estreias nacionais do Mestre, convidava actores, realizadores, críticos e a première de um Oliveira era sempre uma soirée especial. Foi nessa altura que percebi a verdadeira dimensão internacional da obra de Manoel de Oliveira, que só tinha paralelo entre os autores portugueses no cinema de João César Monteiro. Na prática, para o resto do mundo estes são os únicos realizadores portugueses que existem. É uma pena, mas espero que as carreiras de João Botelho, de Joaquim Sapinho ou de Pedro Costa me desmintam um dia.



Para além da qualidade do cinema de Manoel de Oliveira, há outra característica que aprecio no autor: a sua permanente capacidade de deslumbramento. Num país que é diariamente bombardeado pelas crónicas da escola de Vasco Pulido Valente, o narrador omnisciente enfadado, que já sabe tudo o que aconteceu, o que acontece e o que acontecerá, dá-me um gozo bestial este jovem de 100 anos que faz um manguito a esse estado de espírito e que continua a entusiasmar-se com o que extrai da literatura, das vidas das jovens mulheres e de gandas malucos como o Pedro Abrunhosa. Este vídeo em que Wim Wenders filma Oliveira a imitar o Charlot é um exemplo perfeito desse jovem Oliveira entusiasta, humorado, que continua a apreciar cada segundo de vida.

Agustina e Leonor
Estas são as duas grandes mulheres que contribuíram em parte para o sucesso do Mestre. A qualidade dos romances da Agustina Bessa-Luís e a interpretação de Leonor Silveira, que na minha opinião é de longe a melhor actriz portuguesa, são a base do melhor que Oliveira produziu para a sétima arte.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Sobre a tolerância à asneira

(Publicado no Cinco Dias)
Este fim-de-semana o nosso serviço público radiofónico transmitiu durante quase uma hora a entrevista de Fernando Alvim a Alexandra Solnado, autora do livro "Mais Luz". Dentro do género a entrevista nem foi das piores, o tom jocoso do apresentador tentou transmitir algum cepticismo sobre a cavaqueira que Alexandra Solnado entretém com Nosso Senhor Jesus Cristo. No entanto, o problema reside na frequência com que personagens como a dita entrevistada aparecem no nosso espaço público e pior é quando se atribui a essas personagens absoluta credibilidade por defeito. Lembram-se da astróloga do programa Praça da Alegria da RTP?

Vivi em países em que existe algum espírito crítico no espaço público e por isso habituei-me a ver essas personagens que contactam com o além restringidas às prateleiras das livrarias dedicadas ao esoterismo, aos yogas e às medicinas placebo. Quando muito tinham o seu espaço mais mediático em canais de televisão especializados onde vendiam diariamente a sua banha da cobra. Geralmente, nas ocasiões em que essas personagens tentavam conquistar o espaço público eram cilindradas imediatamente por especialistas (médicos, astrónomos, psicólogos, historiadores, etc.), davam meia volta e regressavam ao seu habitat natural! Em Portugal raramente é assim. Estamos mal habituados, estamos habituados a tolerar a asneira, toda a asneira, desde a asneira do astrólogo até à asneira do típico xico-esperto lusitano.

Desde há longos anos que assumi entre as minhas obrigações de investigador divulgar ciência e combater a desinformação científica no espaço público. Fazer divulgação científica é um trabalho muito gratificante, um trabalho em que transmitimos uma imagem simpática. Combater a desinformação é um trabalho em que poucos dos meus colegas se aventuram, porque é trabalho sujo, em que é preciso estar disposto a vestir o fato de macaco e a calçar um par de luvas. Recordo as vivas discussões que tivemos na SPA sobre se deveríamos intervir contra este ou aquele charlatão. Cada vez que me empenhei no combate à desinformação estava perfeitamente consciente de que não iria ser bonito. Já se sabe que em boa parte dos casos não se vai lá com falinhas mansas, é preciso ir à bruta. Nesses casos os visados e os seus procuradores acusaram-me de muita coisa: cartesiano, fundamentalista, dogmático, mau feitio, inquisidor, fascista, comunista, "perigoso cientista dos átomos", etc. Enfim, fiz muitas amizades para o resto da vida como devem imaginar, mas a minha carapaça é dura, pode bem com esse espernear nervoso e garanto-vos que valeu quase sempre a pena intervir. Da mesma forma, posso bem com esses coros de virgens que se levantaram na sequência da minha entrada anterior e que outrora se divertiam à brava no respeitável, educado e nada fulanizante blogue Anacleto (lembram-se da economia anacleta?).

A pseudociência com motivações económicas, espirituais ou ideológicas fazem parte do meu reportório desde as primeiras linhas do Klepsýdra e dada a abundância do assunto no nosso país serão aqui objecto de escrita sempre que se apresente uma boa ocasião. Stay tuned.

terça-feira, dezembro 09, 2008

A Turma

Vencedor da Palma de Ouro de 2008, "A Turma" de Laurent Cantet é um filme em registo cru, quase documentário, sobre as escolas francesas dos subúrbios das grandes cidades. Quando vivi em França conheci aquela realidade, via aqueles putos na rua, vê-los representados dentro da sala de aula não mudou muito o que penso sobre o assunto. O grande mérito de "A Turma" é o de mostrar como é complexo lidar com aquela indisciplina mesmo quando se tem boa vontade, fazendo-o Cantet sem cair na tentação do maniqueísmo. Fiquei com a sensação que o filme interpela quer um professor que prefere métodos mais tradicionais como o que pratica métodos mais actuais, ambos certamente se questionaram no fundo deles próprios sobre a eficácia da escola quando o problema vem de fora. Um problema que é resultado da profunda guetização instalada nas cités, do desemprego, dos maus exemplos que os putos vêem na rua, da falta de referências "normais" e do desalinhamento com pais profundamente alheados do frenesim da vida moderna, sem capacidade para lidar com os putos, nem de dar respostas eficazes para os colocar ao abrigo de confusões.

domingo, dezembro 07, 2008

Novos limites de emissões de CO2

(Publicado no portal Esquerda.net)
Segundo as novas regras aprovadas esta semana pela União Europeia mais de 65% dos automóveis deverão emitir menos de 130 g/km até 2012, aumentando essa exigência para 75% do parque automóvel em 2013, 80% em 2014 e deverá atingir os 100% em 2015.

A partir de 2012 será implementado um sistema de multas que penalizará os construtores automóveis em 5€ pela primeira grama de CO2 por carro acima do limite estabelecido, 15€ para a segunda grama, 25€ para a terceira e 95€ para cada grama adicional. A partir de 2019 cada grama acima do limite de emissão será taxada em 95€ por carro produzido. A partir de 2020 o limite de emissão por quilómetro deverá ser reduzido para 95g de CO2.

No entanto, este acordo resultou de um suavizar de objectivos inicialmente traçados que em conjunto com os vários regimes de excepção geraram o protesto dos eurodeputados verdes e dos liberais - os liberais europeus distribuem-se entre esquerda e direita - contra os socialistas europeus e o Partido Popular Europeu. Os regimes de excepção aprovados incluem um crédito que pode ir até 7g/km no caso dos construtores introduzirem novas tecnologias amigas do ambiente, um super-crédito para marcas que produzam viaturas que emitam menos de 50g/km e uma redução de apenas 25% do nível de emissão de 2007 para construtores que produzam menos de 300 mil carros por ano. Como se deve imaginar neste segmento estarão incluídas algumas marcas de luxo.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Orelhas de Burro

(Publicado no Cinco Dias)
Como se pode verificar neste comunicado da NASA, o Sol entrou no seu novo ciclo de aproximadamente 11 anos, o ciclo 24, em Janeiro quando foram detectadas as primeiras manchas solares com polaridade invertida em relação à polaridade das manchas do ciclo 23. Apesar deste mínimo ter sido um dos mais calmos registados, os mínimos de 1933, 1954 tiveram um número de dias sem manchas que será comparável ao do corrente ano e o mínimo de 1913 foi bem mais tranquilo com mais de 300 dias sem manchas solares. O corrente ciclo 24 é um ciclo normal que já registou cerca de 18 manchas solares com a nova polaridade, um valor normal em ano de mínimo, e cujo fluxo de radiação emitida tem sido também o esperado. Aqui algumas imagens do Sol que registei no Observatório de Coimbra durante um eclipse parcial de 96, ano de mínimo, onde apenas se observam duas pequenas manchas. Como é hábito em anos de mínimos e máximos a comunidade científica reuniu-se para debater os dados resultantes das observações e curiosamente já em Julho deste ano a NASA deu-se ao trabalho de prevenir o público contra as habituais especulações pseudo-científicas, explicando porque não havia nada de errado na actividade do Sol.

Mas, o João Miranda como nem a NASA ouve, não resistiu e debitou um texto de pura desinformação, errado de uma ponta à outra, onde reina a especulação ignorante e pseudo-científica com o único intuito de tentar negar o aquecimento global, uma obsessão ideológica recorrente do autor. Mas a melhor passagem é aquela em que o autor insinua que se deveria especular sobre um novo mínimo de Maunder.

terça-feira, dezembro 02, 2008

Salade pour tout le monde

Le seul souvenir que je garde du prestigieux dirigeant d'enterprise, c'est au restaurant d'altitude, quand les membres du groupe ont commencé à hésiter un peu trop longtemps sur le choix de la garniture de légumes associé à leur plat (frites, ou pommes vapeur, ou riz, enfin n'importe quoi). Je vois son regard agacé, son adresse brutale et suffisante au serveur: "Salade pour tout le monde!"
Un grand dirigeant d'enterprise, le souvenir que j'en ai, est celui qui sait dire "Salada pour tout le monde!" au bon moment.

"Ennemis publics", Michel Houellebecq, Flammarion, pag.64

segunda-feira, dezembro 01, 2008

80 génios da astronomia

Para todos os viciados em astronomia, a não perder este número especial da Ciel&Espace dedicada aos 80 nomes mais importantes da história da astronomia. A selecção dos 80 nomes é cuidada, não é euro-cêntrica, ali encontramos nomes menos conhecidos da Pérsia e do mundo Árabe.

sexta-feira, novembro 28, 2008

10 milhões de euros para a ESA

O resultado do Conselho de Ministros da ESA foi surpreendentemente excelente, tendo sido aprovado o aumento do orçamento para 10 mil milhões de euros.

Entre os pontos mais importantes que foram aprovados conta-se a evolução do Ariane 5 e um programa de preparação de futuros lançadores, uma nova iniciativa de alterações climáticas "Climate Change Initiative" relativa à provisão de variáveis climáticas essenciais, novos estudos de definição relativamente à evolução de um veículo de transferência retornável, o sistema Iris, um satélite de gestão de tráfego aéreo e o início do programa "Space Situational Awareness" que fornecerá as informações necessárias para ajudar a proteger os sistemas espaciais europeus contra resíduos espaciais e a influência de clima espacial adverso.

quarta-feira, novembro 26, 2008

Coimbra no feminino

Duas escritas no feminino que estão entre os blogues de Coimbra que vou seguindo com regularidade são o Coisas Poucas e o Socialarte. O primeiro é escrito pela Isabel, a mesma do velhinho Aba de Heisenberg, e é preenchido por uma escrita interventiva e crítica que não alinha em manadas. Por vezes o estado das coisas é tal que leio a Isabel só para não me sentir um extra-terrestre. O segundo é da autoria da Carla Gonçalves e é um blogue onde mesmo as etiquetas são interessantes. No blogue da Carla andamos mais no domínio do espaço sideral, fazendo parte das minhas leituras quando dou ordens aos meus pés para não tocar na crosta terrestre.

terça-feira, novembro 25, 2008

De Cartão de Sócio no Conselho da ESA

Teve hoje início o Conselho de Ministros da Agência Espacial Europeia que deverá decidir qual será o orçamento para os próximos anos. Temo muito que a actual crise financeira contribua para que o orçamento da ESA continue a encolher, até porque esta seria uma má resposta à crise. A Europa é hoje líder em vários sectores da tecnologia espacial, temos a melhor rede de observatórios terrestres e espaciais, do rádio aos raios gama, temos o melhor veículo de lançamento de satélites, o foguetão Ariane, e em breve o melhor sistema de posicionamento global será europeu, o sistema Galileu. Apesar do PIB dos EUA não diferir muito do PIB da Europa, actualmente a NASA tem um orçamento cinco vezes superior ao da ESA. A Europa arrisca-se assim a perder liderança nas áreas mencionadas e isso não deixará de ter impacto na nossa economia. Apostar na expansão da ESA garantiria essa liderança e abriria a porta a áreas como as missões tripuladas, sector em que temos andado sistematicamente à boleia de russos e de americanos, numa altura em que até a China já tem as suas próprias missões. Apostar mais no espaço é também uma forma eficaz de combater a crise, dado que este é um domínio que gera sub-produtos de alta tecnologia que estimulam a indústria dos países que os inventam e cujos lucros frequentemente ultrapassam em muito os custos de investigação e desenvolvimento, gerando riqueza e emprego.

Levamos o Cartão de Sócio
O nosso Ministro leva o cartão de sócio da ESA para o Conselho e é só por isso que o deixam participar. Portugal paga uma quota anual de cerca de 10 milhões de euros para pertencer à ESA e a única maneira de reaver esta soma é participando em projectos e missões da Agência. Escusado será dizer que o retorno das verbas da ESA para o nosso país é um dos mais baixos entre os países membros. Até 2005 existia um Programa Dinamizador das Ciências e Tecnologias para o Espaço que servia para garantir o co-financiamento de instituições nacionais caso um dos seus projectos fosse aprovado pela ESA. Sublinho que este é um tipo de garantia importantíssima para participar em consórcios europeus que propõem missões à ESA. A partir de 2006, ao contrário da esmagadora maioria dos países da ESA, os investigadores portugueses só poderão contar com os seus orçamentos correntes, não existindo qualquer esforço nacional a nível institucional para combatermos o nosso défice no retorno da verba que pagamos à ESA. Passamos por vergonhas grandes em reuniões de consórcios da ESA onde apenas podemos garantir uma contribuição em função dos trocos que ainda nos restam em caixa...

domingo, novembro 23, 2008

O Homem-Betoneira

(Publicado no Cinco Dias)
Referi aqui na passada semana a fúria da câmara da Figueira da Foz, cujo presidente Duarte Silva foi constituído arguido no processo do Vale do Galante, para tentar passar a revisão de um plano de urbanização que é mais um atentado ao ordenamento do território. Um dos principais beneficiados das políticas de urbanização do executivo de Duarte Silva tem sido o empresário Aprígio Santos, proprietário da empresa de construção civil Imoholding e presidente do Naval 1° de Maio. Estão a ver o filme não estão? Agora vejam este. Não, não é o Ezequiel Valadas do Gato Fedorento, aqui a personagem é real.

sexta-feira, novembro 21, 2008

Todos querem o Euro

(Publicado no Cinco Dias)
Neste interessante artigo publicado no Financial Times é realçado o euro-entusiasmo emergente fora da zona euro após o desespero gerado pela actual crise financeira. Na Polónia, o mais atlantista dos países europeus, o euro é agora considerado como uma forma de protecção contra a crise financeira, cerca de 70% dos islandeses desejam a adesão ao euro, em recente sondagem realizada na Suécia 47% dos cidadãos declararam-se favoráveis à moeda única contra os 42% do SIM no último referendo e na Dinamarca pela primeira vez a maioria da população deseja o euro. Neste país discute-se já a organização de um referendo após um ataque especulativo sofrido pela coroa dinamarquesa em Outubro que obrigou o banco central a aumentar as taxas de juro de 5 para 5,5% (1,75% acima do valor da eurozona) para evitar futuros ataques.

Europeísta
O Filipe Moura apresentou-me como sendo europeísta. No entanto convém esclarecer que sou europeísta, não porque considere que exista algo especial ou transcendental no continente europeu, mas sim porque considero que a soma da Europa unida é bem superior à soma das paroquiazinhas separadas. Poderia do mesmo modo ser africanista, bolivarista ou oceanista, desde que os mesmos princípios fossem implementados nas respectivas zonas do planeta. Dito isto, estive desde a primeira hora entre aqueles que à esquerda consideraram o euro como um instrumento que iria contribuir para unir mais a Europa e tornar a União bem mais imune a ataques especulativos, como os que ajudaram a destruir as economias de alguns dos "tigres" asiáticos nos anos 90. Apesar de ainda muitas coisas poderem correr mal, o mínimo que se pode dizer é que o euro cumpriu na perfeição a função para a qual foi criado e, permitam-me a ousadia, acho mesmo que nas últimas semanas acabou de se pagar. Façam uma estimativa dos custos adicionais que a crise provocou fora da Eurozona e apliquem-nos aos 15 países onde circula o euro e chegarão certamente a um valor bem superior aos custos da sua implementação.

quinta-feira, novembro 20, 2008

Betoneira da Foz

A betonização da Figueira da Foz prossegue o seu curso, parece que não há limites para destruir, isto é tanto mais grave quanto estas iniciativas partem de um executivo em sérios problemas com a justiça, relembro que o actual presidente Duarte Silva foi constituído arguido no processo do Vale do Galante.
Da parte do meu caríssimo amigo João Vaz recebi a lista de atentados que se preparam no âmbito da revisão do plano de urbanização que será concluído dia 24:

- Projecta-se uma redução das áreas verdes e aumento do edificado, apesar do actual excesso de habitação (em 2001 estimavam-se cerca de 12.000 fogos sem residentes permanentes só nas seguintes freguesias: São Julião, Tavarede, Gala, Vila Verde e São Pedro;

- Planeia-se construção em altura, em geral para a cidade com o extremo de (até) 18 pisos se for um Hotel de 4/5 estrelas em qualquer ponto das freguesias envolvidas;

- Urbanização do campo de treinos municipal (usado pela Naval) para dar lugar a habitação e comércio com 6 pisos numa zona rodeada de escolas e equipamentos desportivos;

- A área projectada para o Parque Urbano irá diminuir em 25% - sendo esta percentagem afecta à construção;

- Projecta-se uma grande urbanização a menos de 300 metros da praia com prédios até 7 pisos na zona da Gala confinante com o Parque de Campismo da Orbitur, destoando da paisagem envolvente e correndo-se o risco da criação de mais um Foz Village (Bairro Fantasma...);

- Projecta-se construção junto à duna, em frente ao campo de futebol na Cova (Gala) a menos de 100 metros do mar apesar de um parecer negativo emitido pelo INAG;

- Avança-se com a possibilidade de edificar o espaço do antigo terminal rodoviário com construção em altura, até 18 metros;

- Não há estudos sobre a mobilidade, a carta de ruído foi mal executada (opinião da CCDR plasmada num documento disponível na Internet - ver endereço abaixo) e o parecer ambiental é muito pobre e baseia-se em dados errados.

terça-feira, novembro 18, 2008

Put your hands up for Detroit!

As três marcas de Detroit (GM, Ford e Chrysler) estão neste momento no Congresso Americano a tentar obter 25 mil milhões de dólares de ajuda dos 700 mil milhões de dólares do programa de salvação das instituições financeiras (Troubled Asset Relief Program) aprovado em Outubro.
É a segunda vaga da crise a atingir empresas que dependem de crédito directo e do crédito ao consumo dos seus clientes. A crise de Detroit não é brincadeira nenhuma, sem esta ajuda calcula-se em cerca de dois milhões e meio o número de empregos em risco se a produção das três empresas fosse reduzida para metade - a solução equacionada para evitar falências.

Repete-se a história, agora na indústria automóvel, perante a ameaça de falência de empresas-chave a mão invisível passa a ser um conceito apenas útil à retórica de crentes, enquanto no terreno é à mão socialista que calha o trabalho sujo. Além do mais, convém neste caso evitar a vergonha que seria a invasão das estradas americanas por viaturas europeias, após décadas do proteccionismo agressivo praticado no mercado automóvel americano.


segunda-feira, novembro 17, 2008

Miguel Portas em Coimbra sobre a crise

Hoje, segunda-feira, dia 17 de Novembro, na FEUC o meu caríssimo amigo Miguel Portas apresentará "A crise económica e financeira: causas e prioridades”", pelas 15 horas no auditório da FEUC. O debate será moderado por Vítor Neves, Professor da FEUC e Investigador do CES.

sexta-feira, novembro 14, 2008

A primeira fotografia de um exoplaneta


(foto do sítio da ESA)

A foto acima mostra a primeira observação directa de um exoplaneta obtida pelo Telescópio Espacial Hubble. Até hoje, mais de 200 exoplanetas foram descobertos através de medidas indirectas recorrendo à variação da órbita e à variação do brilho das estrelas mais próximas dos planetas.

quinta-feira, novembro 13, 2008

É desesperante ser adorado por idiotas

"É desesperante ser adorado por idiotas" é a minha tradução do título do filme "C'est dur d'être aimé par des cons" de Daniel Leconte que ainda não estreou entre nós. Este filme conta o processo que envolveu o jornal francês Charlie Hebdo após a publicação de algumas das caricaturas de Maomé e de uma edição em que era representada na capa a figura de Maomé em desespero com os protestos dos integristas contra a publicação das mesmas caricaturas. O processo contra o Charlie Hebdo foi da iniciativa das elites religiosas muçulmanas, mais preocupadas em dar um peso muito maior a figurinhas de Maomé do que aos problemas sociais, sobretudo desemprego e guetização, que grassam nas diversas comunidades muçulmanas francesas.
"É desesperante ser adorado por idiotas" é uma expressão colocada na boca de Maomé, mas é na verdade uma expressão muito mais universal, poderia ser utilizada com o mesmo significado se substituíssemos Maomé por Cristo ou David quando pensamos nos cristãos evangélicos americanos, na Opus Dei ou nos judeus ortodoxos. Durante o processo, Philippe Val, o editor do jornal, não se cansou de fazer passar esta ideia e a presença de autoridades católicas ao lado das elites religiosas muçulmanas durante o processo só a veio reforçar.
Apesar da liberdade de expressão ter saído vitoriosa deste processo, este documentário mostra como este valor é frágil e está sujeito a ataques poderosos e violentos de grupos de pressão com pretensões muito próximas do totalitarismo.

Um filme dentro do filme
Vi este filme em Bruxelas no dia da sua estreia, numa sala onde um grupo de quatro jovens muito bem vestidos, certamente vindos directamente de uma mesquita sofisticada, tentaram realizar um número muito mal ensaiado contra a projecção do filme. Após alguns berros dos espectadores presentes na sala, acabaram por sair, não dispensado um sonoro estrondo ao fechar a porta da sala. Vive la liberté!

terça-feira, novembro 11, 2008

segunda-feira, novembro 10, 2008

Björk sobre o descalabro da Islândia

No The Times a cantora Björk desabafa sobre a crise financeira e sobre as pobres ideias para sair do buraco financeiro propostas pelos mesmo políticos que afundaram o país. O genial plano de salvação nacional propõe a transformação do país numa gigantesca metalurgia em regime de "monocultura" de produção de alumínio. Björk teme o pior pela paisagem, pelo ambiente e pela economia do país, caso haja uma crise no mercado do alummínio (déjà vu).

domingo, novembro 09, 2008

Yes!

A não perder a edição da Courrier International desta semana que inclui um dossier especial sobre a vitória de Obama com as reacções registadas na imprensa de todo o mundo.

sábado, novembro 08, 2008

General Motors vende Hummer

A minha crónica deste fim-de-semana no portal Esquerda.net:

Depois de uma quebra de vendas de 47% desde 2007 e cansada da imagem negativa difundida por um dos veículos automóveis mais gastadores do parque automóvel americano, a marca Hummer foi posta à venda pela direcção da General Motors. Até ao momento, apenas a marca indiana Mahindra & Mahindra mostrou interesse público pela compra da Hummer.

O Hummer é a versão civil de um todo-o-terreno militar designado Humvee (High Mobility Multipurpose Wheeled Vehicle) concebido pela AM General para o exército americano. A marca Hummer foi lançada em 1992, através da comercialização do Hummer H1, que teve como primeiro cliente o actor Arnold Schwarzenegger. Na altura, o modelo adquirido por Schwarzenegger pesava cerca de três toneladas e estava equipado com um motor de 6500 cm3 V8 turbodiesel cujo consumo era de 22 litros aos 100 km. Este valor violava as leis que regulavam o consumo de combustível nos EUA em 1992. Mais tarde, durante o seu mandato de governador do Estado da Califórnia, Schwarzenegger implementou importantes medidas ambientais, acabando por converter um dos seus Hummer ao consumo de hidrogénio.

Em 2003 foi lançado o modelo Hummer H2, equipado com um motor de 6000 cm3 e um reservatório de 121 litros para um consumo de 19,5 litros aos 100 km. A última série da Hummer, a H3, começou a ser produzida em 2005 tendo sido equipada com motores mais modestos, sendo o mais económico o motor de 3700 cm3 cujo consumo é de 10,6 litros aos 100 km. Como termo de comparação interessa reter que os modelos mais vendidos na Europa, o VW Golf e o Ford Focus, são equipados com motores cuja capacidade oscila entre os 1400 e os 2000 cm3 e cujos consumos vão dos 7 aos 11 litros aos 100 km.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Graça Moura e o secretário de Estado da Defesa Merrywhistler

O texto a seguir foi publicado por Vasco Graça Moura na edição do Diário de Notícias de 19 de Fevereiro de 2003 e está disponível neste sítio do autor. Leiam-no até à parte do secretário de Estado da Defesa John K. Merrywhistler. Eu prefiro não comentar, tirem as vossas próprias conclusões… São textos como este que fazem da vitória de Obama uma vitória tão deliciosa (publicado no Cinco Dias).


Europa, 17 de Fevereiro de 2033

Paris. O presidente Moustapha Ahmed Ibn Dupont aprovou várias medidas de apoio à alta costura francesa para a promoção do chador no mundo. Os oculistas protestam e afirmam que os óculos é que dão mais valor às mulheres, quando elas só mostram os olhos. No Centre Pompidou abriu uma exposição pós-pós-moderna de sapatos acumulados à entrada de Notre-Dame. Um crítico de arte imprudente que falou de souliers de Satan foi defenestrado por blasfémia do alto de um minarete em Montparnasse. Só depois se verificou tratar-se de uma gralha tipográfica. O revisor responsável foi lapidado.

Berlim. O chanceler Abdul Klaus von Rundfunk interditou a Nona Sinfonia de Beethoven em audições públicas ou privadas. A simples detenção de partituras ou discos implicará o corte das orelhas dos prevaricadores. Vai ser intensificada a investigação sobre tecnologia dos altos fornos. Altos responsáveis desmentem quaisquer preocupações étnicas na matéria.

Bruxelas. O rei Babadur-al-Alrun de Hohenlohe convocou o primeiro-ministro Abu-Akhbar Desfôrets e o ministro francófono Hassan Ibn Cocasse com vista à preparação de mais uma acção de sensibilização da opinião pública contra a separação entre a religião e o estado, uma vez que ou o estado se conforma com os preceitos da religião e é dispensável, ou diverge deles e é nefasto. O aiatola Eustache Ibn Gamal, reitor da Universidade Aladdin de Lovaina, falou do “eixo do mel” na abertura do seminário internacional sobre o papel da apicultura intensiva na redução do choque das civilizações. Confirma-se o achado de documentação relativa à extinta União Europeia num bunker da Rue de la Loi: foi nomeada uma comissão de expurgo, presidida pelo ministro flamengo Mohamed van der Roeckwaerts.

Vaticano. O papa Omar I relatou pormenorizadamente ao colégio dos cardeais a sua última peregrinação a Meca, explicando as razões atendíveis por que não foi autorizado a entrar no santuário. Foi aprovada a substituição do tratamento de “Sua Santidade” pelo de “Sua Obediência” e a exportação de vacinas de água-benta para os territórios em que ainda se detecte a presença do vírus da varíola, em consequência da última jihad de libertação da Europa, ocorrida há 30 anos. O consistório, como prova de boa vontade e tolerância, mandou revestir os frescos da Capela Sixtina com azulejos sobrantes da casa de banho de um dos palácios de Saddam Hussein.

Córdova. O rei Tarik II incumbiu o conde Julian Al-Barabi de Mora y Moro das obras de construção da nova e esplendorosa capital da Ibéria. O mulá Osama Extchgandiarra manifestou a sua preferência por Bilbao para sede do califado.

Lisboa. O ministro da educação, Sheik Al-Nefzaouí da Silva Pimentel, declarou não valer a pena mandar queimar Os Lusíadas pelo seu teor anti-islâmico, uma vez que a obra está fora do mercado e completamente esquecida. Mantém-se todavia a sanção do arrancamento dos olhos para quem os ler. Yassib Neca, presidente do F. C. da Merdaleja, denunciou como “cão infiel” o Dr. Samir Getúlio, presidente da Liga de Clubes. O Dr. Samir recolheu ao Aljube. Depois da remoção das vinhas, o vale do Douro vai passar a produzir sémola em socalcos, com vista à exportação de cuscus. Figuras da meiga esquerda lusitana foram condecoradas a título póstumo com a Ordem do Crescente Suave, por serviços prestados à causa de Bagdad.

Washington. O secretário de Estado da Defesa, John K. Merrywhistler, resumiu em quatro palavras a posição do seu país quanto à presente situação da Europa: “Let them fuck themselves”.

Vasco Graça Moura

quarta-feira, novembro 05, 2008

I Have a Dream


Washington DC, EUA (Outubro de 2002)

Quando fotografei estes putos cheios de energia, ali nas escadas do Lincoln Memorial, no mesmo local de onde Martin Luther King proferiu a 28 de Agosto de 1963 o seu famoso discurso "I Have a Dream" estava longe de imaginar que seis anos mais tarde os EUA se aproximassem vertiginosamente do sonho de Luther King. Ainda há muitas arestas a limar, mas o resultado das eleições de ontem foi uma página que se virou na América. Nunca mais as coisas serão como eram. Podemos agora passar a outros assuntos mais importantes.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Sinais dos tempos: Hummer à venda

Depois de uma quebra nas vendas de cerca de 47% desde 2007 e cansados da imagem negativa que transmite o veículo mais gastador do parque automóvel americano, a marca Hummer foi finalmente colocada à venda pela General Motors. Até agora apenas a marca indiana Mahindra & Mahindra mostrou interesse público pela compra da Hummer.

Não é nacionalização, é compra!

"Não é nacionalização, é compra de um banco pelo Estado". Disse o porta-voz do PSD sobre a nacionalização do BPN. É "compra", é... É duro engolir sapos, isso é que é. A radicalização recente do PSD em direcção à ideologia do Estado Mínimo é a responsável por este niilismo trapalhão. Há pessoas que deveriam tirar algumas conclusões muito sérias sobre o que andaram a escrever nos últimos anos sobre as maravilhas do mercado, mas andam a esquivar-se...

sábado, novembro 01, 2008

Passagens sobre o casino ENRON

Passagens do livro “The smartest guys in the room” (publicado no Cinco Dias):

market participants could see prices on a screen (…) “It was free, it was easy, and it was addictive”, says a former ENRON executive” pag. 221.

Because market rewarded every new move they made, ENRON’s employees started to think they couldn’t make mistakes. One top executive says, “We got to the point where we thought we were bulletproof“. pag. 230

On August 23, 2000, ENRON’s stock closed at $90 - its all-time high (…) When people asked Skilling about the chances of the stock tumbling, he had a ready answer: “I can’t worry about comets hitting the building” pag. 244

Vince Kaminski, ENRON’s probability guru, used to warn Skilling that he shouldn’t have earnings expectations when it came to the trading business; in any given year, profits were as likely to go down as to go up. Skilling would respond that people always told him that, but the traders had always come through. And he assumed they’d keep coming through. So every year, trading was handed a budget that was substantially higher than the year before.” pag. 228.