terça-feira, janeiro 13, 2009

Ennemis Publics

"Ennemis publics" é o resultado da troca de correspondência ocorrida de Janeiro a Julho de 2008 entre o escritor Michel Houellebecq e o filósofo Bernard-Henri Lévy. Na origem da publicação conjunta de tão diferentes personagens estão os ataques pessoais de que ambos são alvo e que vão muito para lá da sua escrita, chegando ao ponto de envolver a mãe de Houellebecq e no caso de Lévy, atingindo a actriz Arielle Dombasle, a sua companheira. Na primeira carta, Houellebecq classifica os dois correspondentes como individus assez méprisables. No entanto, apesar de alguma vitimização menos interessante depressa a troca de correspondência toma contornos de um verdadeiro e vivo debate, onde as partes se irritam, para se acalmarem a seguir, voltando a irritar-se, sobrepondo-se a este ritmo emocional uma reflexão aberta digna de diálogos de filósofos da Grécia antiga. Houellebecq gosta da Rússia, das "sumptuosas louras russas", mas Lévy, irritado, lembra que a Rússia é também Putin, as oligarquias e a mão de ferro sobre os adversários políticos e as minorias étnicas. Ambos atravessam aleatoriamente a história do pensamento político dos dois últimos séculos e da literatura europeia (onde há referências a Pessoa). O debate atinge a sua fase mais interessante quando se aborda o tema da espiritualidade. Lévy, embora ateu, prefere Jerusalém a Atenas, prefere os escritos dos profetas e dos velhos rabis aos dos filósofos da Grécia antiga. Com uma certeza e uma clarividência surpreendentes, Houellebecq confessa-se desprovido de espiritualidade, assentando o seu pensamento exclusivamente na ciência. Estas reflexões vão sendo intercaladas ao longo da troca de correspondência com revelações pessoais em geral interessantes, onde os autores se expõem mais do que é comum, sobretudo Lévy.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Žižek sobre a ciência moderna

No meu resumo de “Sede Sábios, Tornai-vos Profetas” do post anterior dei mais ênfase às passagens em que Charpak se lamenta do distanciamento entre filosofia e ciência, citando autores que apesar de tudo ele elogia. Charpak deixa bem claro que a ciência só tem a ganhar se conseguir estreitar esse fosso com a filosofia, não é de modo nenhum sua intenção criar clivagens estéreis entre as duas disciplinas.
Na obra “La subjectivité à venir” (Flammarion, 2006), Slavoj Žižek tem várias passagens sobre a ciência que ajudam a estreitar esse fosso (tal como no artigo citado pela Palmira Silva), formulando o problema identificado por Charpak quase nos mesmo termos:

… l’impasse réside simplement aujourd’hui dans le fait que le savoir scientifique ne nous sert plus de “grand autre” symbolique. Le fossé entre la science moderne et le bon sens aristotélicien de l’ontologie philosophique est ici insurmontable: si un premier signe de ce fossé se repère avec Galilé, il se creuse de manière extrême avec la physique quantique, lorsque nous avons affaire à des lois et des règles qui fonctionnent dans le réel bien qu’elles ne puissent plus être retraduites dans notre expérience de la réalité représentable“, pag. 103.

Também sobre Heidegger, Žižek refere-se de uma forma semelhante às considerações de Charpak, classificando algumas das suas posições como “totalmente ambíguas”, embora ressalvando que existe muita crítica simplista para tentar desacreditar o filósofo (pag. 57).

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Sede Sábios, Tornai-vos Profetas!

(Publicado no Cinco Dias)
Georges Charpak (Nobel da Física em 92) e Roland Omnès são autores do livro de título irónico "Sede Sábios, Tornai-vos Profetas". Este livro surge na sequência de "Feiticeiros e Cientistas", uma publicação conjunta entre Charpak e Henri Broch, onde ensina o leitor a identificar através da matemática, da estatística e da lógica, os truques e as artimanhas de astrólogos e de outros charlatães. Neste "Sede Sábios, Tornai-vos Profetas", Charpak parte da história da conhecimento e do método científico para analisar a relação da filosofia e da religião com a ciência. Charpak analisa a resposta da filosofia e da religião aos novos desafios colocados pela física moderna, pelo afastamento das leis da natureza da intuição humana e pela transcendência da dimensão humana quando analisamos a imensidade do universo ou quando estudamos partículas sub-atómicas.
Charpak analisa as reflexões de Hume, de Kant e de Nietzsche sobre a ciência. Curiosamente, apesar de estar entre os que mais rapidamente a percebem a importância do método científico, Nietzsche é um dos primeiros a contestar o desenvolvimento da teoria atómica realizada por Dalton e Thompson e critica fortemente o darwinismo. Mais tarde, a aceitação da mecânica quântica sofreu grande resistência de filósofos que deram valiosos contributos para clarificar o significado do conhecimento da científico como Russell, Husserl ou Wittgenstein. Charpak dedica uma secção a Heidegger onde transcreve algumas passagens obscuras que revelam um considerável afastamento entre a sua filosofia e a ciência.



Nesta obra pouco divulgada entre nós, Charpak lança algumas pistas que poderão ajudar a perceber o que está na origem de alguns dos casos de pseudo-ciência apontados por Boghossian na obra recomendada pela Palmira Silva, que já está na minha lista de próximas aquisições.

quinta-feira, janeiro 08, 2009

A Universidade Jaguar (caixa de comentários)

Com todo o devido respeito pelas suas considerações pela universidade Católica - organização onde estudei - creio que V/ Exª elabora em erro. Senão vejamos:

(a) a Católica foi pioneira na introdução do curso de biotecnologia no país e mantém uma das unidades mais avançadas de investigação na península ibérica. Trata-se do polo de biotecnologia da Asprela.

(b) A Católica tem uma escola de Gestão e de Economia que ocupam anualmente lugares cimeiros nos rankings europeus.

(c) a faculdade de Direito da Católica tem neste momento o curso de LLM mais avançado do país e a qualidade da sua formação a nível de licenciatura já foi reconhecida nacional e internacionalmente.

(d) a Católica tem ainda um curso de Som e Imagem que é dos mais avançados do país.

(e) a nível de investigação científica, desafio-o a encontrar em Portugal centros de estudo que ultrapassem em produção científica e qualidade os seguintes centros de estudo: Centro de Direito Privado Comparado; Centro de Estudos Comerciais; Gabinete de Estudos Laborais; Gabinete de Estudos Internacionais. Para sua informação estes centros de estudo recebem na íntegra financiamento da FCT e obtiveram a classificação mais baixa de Bom (sendo Muito Bom a classificação de >50% destes centros). Note-se que falo apenas dos centros de Direito e ignoro os centros de investigação noutras áreas.

(f) concordo em absoluto com o que diz a propósito das universidades privadas mas isso deriva tão só de falta de supervisão por parte do ministério responsável pela tutela do ensino superior. Existem inúmeras universidades privadas que conseguiriam ter cursos de excelência se tivessem condições de desenvolvimento.

(f.1) a propósito do anterior, note-se que também nas públicas existe desbaste de dinheiros públicos. Veja a qualidade da produção científica de algumas faculdades públicas e diga-me quem é coxo em termos europeus. Note-se que a Faculdade de Direito de Lisboa recusou há algum tempo o reconhecimento do Doutoramento de uma aluna que se doutorou em Harvard com um dos grandes crâneos da matéria e que foi agraciada com um prémio no final da tese. Isso mereceu mesmo um telefonema da parte da direcção da faculdade a perguntar quem era a FDUL para recusar o reconhecimento de um diploma de Harvard!

Eu sei que as privadas são de uma maneira geral muito fracas em Portugal mas olhe que as públicas também não são exemplo para ninguém - com honrosas excepções como a FEUP e outros casos isolados.

B.

quarta-feira, janeiro 07, 2009

2009, Ano Internacional da Astronomia

Este ano é o Ano Internacional da Astronomia, aqui na Klepsýdra vamos participar activamente nalgumas actividades e divulgar as mais importantes. Eis o calendário do mês de Janeiro do programa nacional coordenado pelo caríssimo João Fernandes.

terça-feira, janeiro 06, 2009

A Universidade Jaguar

Na passada semana encerrou definitivamente a Universidade Moderna sob o silêncio do xôtor Paulo Portas. Concordo em grande parte com o Luís Januário. Entre as privadas há mais universidades que deveriam fechar. E se fossemos mais rigorosos apenas uma merece o título de universidade: a Católica. No entanto, mesmo a Universidade Católica no contexto europeu é uma universidade coxa onde a produção científica é fraca e se resume praticamente apenas às ciências sociais e humanas. A maior parte das universidades privadas não tem sequer produção científica. Estas instituições deveriam perder o estatuto de universidade e ser designadas mais correctamente como escolas ou institutos de ensino superior, tal como é prática noutros países da OCDE. Existem vários casos de politécnicos no país que produzem trabalho científico e que mereciam bem mais o estatuto de universidade. Apesar de algumas das privadas ainda prestarem serviços à sociedade civil, elaborando sondagens ou estudos técnicos, as restantes dedicam-se apenas à cobrança de propinas e de inscrições nos exames, por vezes, utilizando estratagemas que indignam profundamente os estudantes.

É por estas e por outras que sou pouco sensível ao choradinho das universidades privadas quando se queixam de falta de financiamento do estado. As privadas, tal como as públicas, podem concorrer a projectos europeus e nacionais que financiam a investigação, mas curiosamente o que se verifica é que essas oportunidades são pobremente aproveitadas, especialmente nos domínios das Engenharias e das Ciências Exactas. No entanto, tal como a Moderna algumas das privadas não dispensam um parque de automóveis de luxo adquiridos ou alugados. Por exemplo, um Jaguar custa mais de 100 mil euros, o que corresponde a uma quantia superior ao orçamento médio dos projectos a três anos financiados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Pelo preço de duas ou três viaturas destas é possível equipar um laboratório capaz de produzir trabalhos científicos com qualidade aceitável. É tudo uma questão de prioridades...

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Os Canibais



"Os Canibais" é um dos meus filmes preferidos de Manoel de Oliveira. Esta obra é um acto de ousadia do Mestre que transpôs para a fita diálogos recitados em tom de ópera. A solenidade do bel canto reforça a ironia e o sarcasmo com que Oliveira aborda o drama em que o Visconde de Alveleda disputa com Dom João o amor de Margarida. O drama cruza-se em permanência com o ridículo das personagens, em cenas de um humor caustico, requintado e subtil muito típico de Manoel de Oliveira.
Excelentes interpretações de Leonor Silveira (Margarida) e de Diogo Dória (Dom João).
Fica a sugestão para quem quiser descobrir o melhor da filmografia de Oliveira.

A Hungria precisa do Euro

"A Hungria precisa do euro o mais rapidamente possível", foi a resposta do primeiro-ministro húngaro questionado por um repórter eslovaco que sondava a opinião de políticos dos países vizinhos sobre a adesão da Eslováquia ao euro. Ler aqui a mesma opinião do banco Central Húngaro.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

O trilho da Eslováquia até ao Euro

(Publicado no Cinco Dias)
É curiosa a história da moeda oficial da Eslováquia desde a independência do Império Austro-Húngaro. A coroa checoslovaca foi a moeda oficial enquanto durou a união da Rep. Checa e da Eslováquia, mas durante os 6 anos de anexação da Rep. Checa pelos nazis a Eslováquia teve a sua própria coroa. A coroa eslovaca voltou depois da separação definitiva da Checoslováquia em 1993 para mais 15 breves anos de existência.
Desde 1 de Janeiro, os Eslovacos voltam a ter uma moeda partilhada com outras nações mas desta vez os imperadores que chamavam Pressburg a Bratislava já não são coroados na Catedral de São Martinho e as lagartas dos tanques do Império do outro lado da Europa já não rasgam o alcatrão da estrada em frente à Universidade Comenius.
Mas a história não acaba aqui. Após o recente afundanço económico da Hungria e do impacto económico negativo da crise nos países fora da eurozona, o atlantismo populista que emanava da Polónia para o resto dos países de leste perdeu muito da sua chama. Uma sondagem recente realizada na Rep. Checa dá 65% da população a favor do euro. Ironia, das ironias, em breve checos e eslovacos voltarão a ter a mesma moeda.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Prazeres de 2008: blogues

Os meus posts preferidos do ano:

First We Take Bombay do Luís Januário na Natureza do Mal
Do post do Luís gosto muito desta passagem: "Esta é a cidade [Triana] dos fenícios e de Cartago, de Roma e dos godos, a cidade moura. Mas nao sabemos. Ignoramos até que, em pleno século XX, homens como nós enterraram vivos e algemados os seus inimigos (...) Ignoramos tudo. Porque, como disse Juan Gelman ontem em Salamanca, depois dos ditadores vêm os comisarios del olvido. E um dia morreremos, demasiado ignorantes â mao justiceira dos fanáticos, demasiado estúpidos."

Antena Islamica do Filipe Nunes Vicente no Mar Salgado

O Princípio de Deus do Miguel Portas no Sem Muros

Prazeres de 2008: o livro

Entre as minhas leituras das edicoes de 2008, a mais interessante foi a do livro "Ennemis publics" de Michel Houellebecq, autor de "Partículas Elementares" e do filósofo Bernard-Henri Lévy. Um livro de recolha de correspondência trocada entre os dois autores entre Janeiro e Julho deste ano, ao longo da qual partilharam as suas principais obsessões, análises políticas e reflexões sobre temas sociais caros a cada deles.

terça-feira, dezembro 30, 2008

2008, o ano em que o planeta se revelou finito

(publicado no dossier temas 2008 do portal Esquerda.net)
2008 será recordado como o ano em que o planeta se revelou finito, em que a actividade humana numa parte do mundo teve consequências reais e palpáveis noutra parte do planeta. Tal como a parábola da manta, que tapa de um lado destapando do outro, a crise dos cereais e do petróleo veio evidenciar da pior maneira os reais limites de alguns dos nossos principais recursos naturais.

O brusco aumento da procura de petróleo da parte de mercados emergentes, como a Índia e China, a especulação dos mercados financeiros e a progressiva escassez do petróleo e dos restantes combustíveis primários provocaram uma subida acentuada do preço do crude para preços record, seguida de uma descida brusca provocada pela crise financeira. Um processo semelhante ocorreu com os preços dos cereais e seus derivados, tendo-se agravado o problema neste caso com a quebra verificada no volume de colheitas agrícolas nos últimos dois anos e o aumento da percentagem relativa de solos dedicados à produção de biocombustíveis. Estas oscilações de preço tiveram consequências reais, provocando revoltas, falências, desemprego que resultaram em mortes directas e indirectas destes acontecimentos.

Desde os séculos XVII e XVIII, grande parte do pensamento económico foi orientado pelos escritos de John Locke, de Thomas Hobbes ou de Adam Smith, que simplificavam ou davam pouca importância à escassez ou ao limite dos principais recursos naturais. Na prática, os contemporâneos destes filósofos consideravam quase todos os principais recursos como sendo infinitos ou exploráveis indefinidamente. A explosão demográfica e a exploração intensiva dos principais recursos naturais que ocorreu durante século XX vieram revelar que alguns dos principais recursos naturais, como o petróleo, tinham os dias contados. Ainda assim os alertas lançados sortiram pouco efeito e foi preciso esperar por 2008 para que o cidadão comum percebesse finalmente que o modelo de sociedade dominante estava a pôr em perigo a sua própria segurança alimentar e energética. A emaranhada teia que liga as cadeias de exploração, produção, comercialização e consumo dos produtos de primeira necessidade está sujeita a processos estatísticos complexos de difícil compreensão para o produtor ou o consumidor individual que se encontra no seu canto do mundo e que tem uma perspectiva do problema limitada ao horizonte da sua região ou do seu país. Deste modo, um produtor ou um consumidor que esteja genuinamente convencido que a sua actividade não tem qualquer efeito nocivo poderá estar a contribuir sem saber para uma catástrofe humanitária noutro ponto do planeta. É aqui que falha, em particular a filosofia de John Locke. Segundo John Locke, a natureza não tem qualquer valor até ser transformada pelo trabalho humano para satisfazer as necessidades do homem. No entanto, Locke ressalvava que a exploração de recursos naturais poderia continuar indefinidamente desde que existissem em quantidade e qualidade para todos. Para além de sabermos hoje que a natureza não transformada pode ter um papel importantíssimo para a sobrevivência do homem (os pulmões da Amazónia ou das florestas do Canadá e da Sibéria, os gigantescos reservatórios de CO2 que são os nossos oceanos, etc.), sabemos também que nem sempre quem explora um recurso tem a percepção exacta de que pode estar a comprometer o acesso a esse recurso por parte de outros indivíduos noutra parte do mundo ou por parte das gerações seguintes.

As sociedades de produção e consumo massificado em que nos tornámos precisam de generalizar conceitos como o princípio da precaução da UE que protegem consumidores e produtores da incerteza resultante da massificação de novas actividades económicas e precisam sobretudo de se tornar em verdadeiras sociedades baseadas no conhecimento, em que o conhecimento científico seja devidamente considerado e respeitado pelo poder político e pelos diversos agentes económicos. O resultado desse trabalho científico mostra hoje que o modelo de vida das sociedades ditas ocidentais não é decalcável para o resto dos habitantes do planeta, nem para as gerações seguintes.

A encruzilhada entre o aumento do consumo energético do planeta, a progressiva escassez das reservas de combustíveis primários e o aquecimento global provocado pela emissão de gases de efeito de estufa deverá obrigar a uma séria reflexão sobre o nosso modo de vida, sobre a forma intensiva como produzimos e consumimos. A médio prazo será necessário encontrar novas formas de produção de energia em larga escala não dependentes de combustíveis primários com reservas finitas. Será por isso urgente apostar na investigação de novas tecnologias, como o projecto ITER de fusão nuclear, que poderá ser a futura energia de produção em larga escala, limpa e sustentável que substituirá definitivamente os combustíveis primários. Enquanto essas tecnologias não chegam será necessário massificar tanto quanto possível a produção de energia geotérmica, eólica, solar, das marés, das ondas, etc., transformando a habitação e o transporte para o seu consumo em larga escala (ler proposta de Jeremy Rifkin).

A produção de alimentos deverá cada vez mais aderir a métodos de produção sustentável que não esgotem os solos ou os recursos marinhos e deverá ser menos orientada para a exploração animal que requer a produção de grandes quantidades de cereais e um elevado consumo de água, requisitos que poderão ser fatais nas zonas menos férteis do mundo. A introdução de novas tecnologias e de novos produtos químicos na produção de alimentos deverá estar sujeita ao princípio da precaução para garantir a segurança de consumidores, de produtores e dos ecossistemas e responder a novos desafios como o sério declínio da taxa de natalidade nas sociedades mais desenvolvidas.

A nossa segurança alimentar e energética vai requerer uma transformação radical da sociedade, em particular a mudança de indicadores de desenvolvimento. Indicadores baseados essencialmente na produção, como o PIB, deverão ter um peso menor e indicadores dependentes da qualidade de vida, da sustentabilidade da actividade humana e da preservação do ambiente deverão ter um peso bem mais importante nas sociedades futuras. Produzir menos, para ganhar menos e viver melhor, poderá ser o mote das futuras gerações.

segunda-feira, dezembro 29, 2008

Prazeres de 2008: o vinho

O Quinta de S.Lourenco tinto (so encontrei foto do branco). Para alem da excelente relacao preco qualidade, escolho-o pelo efeito surpresa. Ate provar este Quinta de S.Lourenco todos os espumantes tintos que tinha provado eram gasosas ou decapantes que mal se enquadravam na categoria de vinho. A casta baga é cada vez mais uma das minhas preferidas para espumantes.

Onde está a esquerda Israelo-Palestiniana?



Durante a minha vida de nómada europeu convivi com refugiados israelitas palestinianos ateus, israelitas católicos, com libaneses muçulmanos, libaneses ateus, palestinianos muçulmanos e sei lá que mais! Amizades duradouras, amizades fugazes, colegas de trabalho e co-autores de artigos científicos ouvi-os durante anos sobre a questão israelo-palestiniana. Algumas das histórias eram duras e deixaram sequelas físicas. As opiniões sobre o conflito eram diversas, mas eram comuns num ponto: a solução não passava pela disputa da fronteira ao centímetro e só poderia ser de cariz diplomático.

Até hoje, a única ocasião em que essa solução foi conseguida deve-se ao esforço quer da esquerda palestiniana quer da esquerda israelita. Por muito criticáveis que sejam, o que é certo é que Rabin ou Arafat conseguiram (com ajuda, mas a diplomacia é assim mesmo) o que mais ninguém conseguiu. Desde então, Rabin foi assassinado por extremistas fanáticos cujo objectivo de boicotar o processo de paz foi plenamente conseguido e Arafat morreu deixando caminho livre à extrema-direita e aos fanáticos do Hamas (preferia não ter razão, caro Francisco). Com a direita dura, a extrema-direita e os fanáticos quase todos no poder em Israel e na Palestina, a guerra a meio-gás é a solução ideal para se perpetuarem no poder. E a vitimização é uma arma que ambas as partes empregam com maestria. Eles sabem muito bem o que fazem. Os mísseis de Israel dão votos ao Hamas e os rockets do Hamas dão votos à direita dura e 'a extrema-direita israelita. Aliás, não me admirava nada se o espectro político das duas partes se deslocasse ainda mais para a direita. Há bem pior do que o Kadima em Israel e dentro do Hamas há quem considere os actuais governantes como traidores. E é exactamente a palavra traidor que tem sido a palavra-chave dos extremistas. Segundo o seu assassino Rabin era um traidor e Arafat sempre foi um traidor para o Hamas (apesar de estes terem sido apoiados por Israel). Todos os que tentarem um processo de paz naquela zona serão forçosamente traidores. É uma lógica que só deixa de fora do conceito de traidor os mais sanguinários e os mais fanáticos, esses serão sempre virgens puras intocáveis.

A região entrou num processo de retro-realimentacao positiva que desloca sucessivamente o espectro partidário para o fanatismo e a ortodoxia, que cultiva a paranóia colectiva e a vitimização. Para além de uma intervenção da ONU, só vejo uma solução para quebrar este ciclo vicioso. Seria algo como uma união das esquerdas israelo-palestinianas e da minoria de direita que acredita na diplomacia num programa político comum para a resolução do conflito; num compromisso de paz pré-eleitoral que deixasse apeados os amigos dos mísseis e dos rockets, que os isolasse. Assim cada rocket e cada míssil disparado antes das respectivas eleições teria um valor político muito mais reduzido. A esquerda europeia poderia dar uma valiosa ajuda nesse difícil combate interno, sobretudo depois da eleição de um presidente dos EUA de "esquerda". Convém relembrar que foi justamente com um presidente americano de "esquerda" que Rabin e Arafat assinaram os acordos de Oslo.

sábado, dezembro 27, 2008

Prazeres de 2008: filmes

[REC] Regista o medo de Paco Plaza e Jaume Balaguero


Sendo um cliente muito difícil do género filme de terror fantástico fiquei completamente rendido a este "[REC] Regista o medo" de Paco Plaza e Jaume Balaguero. Muito bem filmado, com um argumento bem articulado que consegue manter quase na perfeição a intensidade do filme até ao último minuto. Sublinho intensidade do filme e não suspense, é na intensidade que este filme espanhol se destaca dos demais no género fantástico.

Loft de Erik Van Looy


"Loft" do belga Erik Van Looy é um filme que ainda nao vos apresentei aqui na Klepsýdra (nao tardará muito). Loft é um policial negro imperdível que confronta uma série de personagens altamente sofisticadas num jogo entre amigos em que predomina o lado mais animal do comportamento humano...

quarta-feira, dezembro 24, 2008

O 1910

Reza a lenda que o bar 1910 é o único bar de Coimbra que está aberto na noite da Natal,

reza a lenda que é o último reduto de resistentes, de sem-família, de almas perdidas, de putas e de aleijados,

reza a lenda que é abrigo de gente mal amada, de gente que nunca soube amar, de mimados e de almas ingénuas que amaram demais.

Nosso Senhor Jesus Cristo, esse de que rezam as lendas, passaria certamente o Natal no 1910.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Deux choses qui méritent d'être vécues

"... il y a deux choses - pas trois, pas quatre, deux - qui m'ont paru mériter d´être vécus: aimer, d'abord; je veux dire aimer au sens strict; aimer au sens d'aimer les femmes; et puis écrire, juste écrire, passer des nuits, des jours, encore des nuits, sur mon établi de mots, à faire que pâte lève, que la forme vienne et que mes petites colonnes de signes tiennent à peu près debout (...) Pourquoi écrivez-vous? Parce qu'on ne peut pas faire l'amour toute la journée. Pourquoi faites-vous l'amour? Parce qu'on ne peut pas écrire toute la journée."

"Ennemis publics", Bernard-Henri Lévy, Flammarion, pag. 251

Jeremy Rifkin sobre os automóveis eléctricos

É o tema da minha crónica deste fim-de-semana no portal Esquerda.net.

sábado, dezembro 20, 2008

Sábado em Coimbra XLII: o blogue do Tó Zé

Para muitos dos meus leitores de Coimbra o Tó Zé dispensa apresentações. O Tó Zé é um dos poucos conimbricenses que trata a cidade por tu, conhece-lhe as manhas, os delírios, sabe de cor o programa das festas e os recantos onde ocorrem performances maradas.
O Tó Zé tem um blogue: Por Mão Própria.

Sábado em Coimbra XLI

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Dióxido de carbono descoberto num exoplaneta



Graças ao Telescópio Espacial Hubble foi possível detectar pela primeira vez dióxido de carbono na atmosfera de um exoplaneta. O exoplaneta HD 189733b, de tamanho comparável a Júpiter, é demasiado quente para permitir a existência de vida como a conhecemos na Terra. No entanto, esta descoberta constitui um excelente exercício para detectar compostos químicos como o CO2 que poderão estar associados à existência de vida noutros planetas.

Prisão perpétua para Theoneste Bagosora

Pouco a pouco se vai fazendo alguma justiça às vítimas do genocídio do Ruanda. Theoneste Bagosora foi condenado a prisão perpétua, mas entre os principais responsáveis do genocídio ainda são muitos os que escapam à justiça.
Apesar tudo, este caso demonstra a diferença considerável entre os tribunais da ONU e a justiça texana, ilustrada por esse espectáculo degradante e pouco pacificador que foi o julgamento de Saddam ou por esse processo medieval que ainda decorre em Guantanamo.

quinta-feira, dezembro 18, 2008

Revolução verde para combater a crise

(Publicado no Cinco Dias)
Jeremy Rifkin, presidente da Foundation on Economic Trends e autor do livro "O Sonho Europeu" que ganhou actualidade com a presente crise, apela neste artigo a uma revolução verde para combater a actual crise. A solução proposta por Rifkin tem a virtude de responder igualmente ao problema levantado pelo Relatório Stern, que alerta para os custos consideráveis para a economia resultantes dos efeitos directos e indirectos do aquecimento global. Rifkin propõe a massificação da utilização de novas tecnologias mais limpas no sector automóvel, em particular a banalização da utilização de tomadas para veículos eléctricos nas paragens das auto-estradas e nos parques de estacionamento, onde a associação estratégica entre empresas do sector automóvel e a indústria de produção de electricidade poderia ter um papel importante na aceleração do processo. Rifkin ilustra o seu discurso citando os exemplos actuais de associação entre a Toyota e a EDF e a Daimler e RWE.
Relembro que o insucesso de anteriores projectos de automóveis eléctricos se deveu em grande parte à diversidade e à incompatibilidade de sistemas utilizados, bem como à rapidez com que os referidos sistemas se tornavam obsoletos, desvalorizando os automóveis eléctricos usados a níveis preços que impossibilitavam a sua revenda por parte dos particulares.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Das pirâmides de Gizé à pirâmide de Madoff

As Pirâmides de Gizé foram construídas por milhares de escravos, sob o estalar de chicotes e de vergastadas. A beleza da Pirâmide de Madoff é que foi construída por ricos, por muito ricos, por homens livres e informados, pelos faraós do nosso tempo. Acho que a Pirâmide de Madoff deveria ser promovida imediatamente a maravilha do mundo.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

O Mestre

Le Maître. Era desta forma que o director do cinema Odyssée de Estrasburgo - cidade onde vivi quatro anos - se referia a Manoel de Oliveira. O Odyssée fazia questão de apresentar as estreias nacionais do Mestre, convidava actores, realizadores, críticos e a première de um Oliveira era sempre uma soirée especial. Foi nessa altura que percebi a verdadeira dimensão internacional da obra de Manoel de Oliveira, que só tinha paralelo entre os autores portugueses no cinema de João César Monteiro. Na prática, para o resto do mundo estes são os únicos realizadores portugueses que existem. É uma pena, mas espero que as carreiras de João Botelho, de Joaquim Sapinho ou de Pedro Costa me desmintam um dia.



Para além da qualidade do cinema de Manoel de Oliveira, há outra característica que aprecio no autor: a sua permanente capacidade de deslumbramento. Num país que é diariamente bombardeado pelas crónicas da escola de Vasco Pulido Valente, o narrador omnisciente enfadado, que já sabe tudo o que aconteceu, o que acontece e o que acontecerá, dá-me um gozo bestial este jovem de 100 anos que faz um manguito a esse estado de espírito e que continua a entusiasmar-se com o que extrai da literatura, das vidas das jovens mulheres e de gandas malucos como o Pedro Abrunhosa. Este vídeo em que Wim Wenders filma Oliveira a imitar o Charlot é um exemplo perfeito desse jovem Oliveira entusiasta, humorado, que continua a apreciar cada segundo de vida.

Agustina e Leonor
Estas são as duas grandes mulheres que contribuíram em parte para o sucesso do Mestre. A qualidade dos romances da Agustina Bessa-Luís e a interpretação de Leonor Silveira, que na minha opinião é de longe a melhor actriz portuguesa, são a base do melhor que Oliveira produziu para a sétima arte.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

Sobre a tolerância à asneira

(Publicado no Cinco Dias)
Este fim-de-semana o nosso serviço público radiofónico transmitiu durante quase uma hora a entrevista de Fernando Alvim a Alexandra Solnado, autora do livro "Mais Luz". Dentro do género a entrevista nem foi das piores, o tom jocoso do apresentador tentou transmitir algum cepticismo sobre a cavaqueira que Alexandra Solnado entretém com Nosso Senhor Jesus Cristo. No entanto, o problema reside na frequência com que personagens como a dita entrevistada aparecem no nosso espaço público e pior é quando se atribui a essas personagens absoluta credibilidade por defeito. Lembram-se da astróloga do programa Praça da Alegria da RTP?

Vivi em países em que existe algum espírito crítico no espaço público e por isso habituei-me a ver essas personagens que contactam com o além restringidas às prateleiras das livrarias dedicadas ao esoterismo, aos yogas e às medicinas placebo. Quando muito tinham o seu espaço mais mediático em canais de televisão especializados onde vendiam diariamente a sua banha da cobra. Geralmente, nas ocasiões em que essas personagens tentavam conquistar o espaço público eram cilindradas imediatamente por especialistas (médicos, astrónomos, psicólogos, historiadores, etc.), davam meia volta e regressavam ao seu habitat natural! Em Portugal raramente é assim. Estamos mal habituados, estamos habituados a tolerar a asneira, toda a asneira, desde a asneira do astrólogo até à asneira do típico xico-esperto lusitano.

Desde há longos anos que assumi entre as minhas obrigações de investigador divulgar ciência e combater a desinformação científica no espaço público. Fazer divulgação científica é um trabalho muito gratificante, um trabalho em que transmitimos uma imagem simpática. Combater a desinformação é um trabalho em que poucos dos meus colegas se aventuram, porque é trabalho sujo, em que é preciso estar disposto a vestir o fato de macaco e a calçar um par de luvas. Recordo as vivas discussões que tivemos na SPA sobre se deveríamos intervir contra este ou aquele charlatão. Cada vez que me empenhei no combate à desinformação estava perfeitamente consciente de que não iria ser bonito. Já se sabe que em boa parte dos casos não se vai lá com falinhas mansas, é preciso ir à bruta. Nesses casos os visados e os seus procuradores acusaram-me de muita coisa: cartesiano, fundamentalista, dogmático, mau feitio, inquisidor, fascista, comunista, "perigoso cientista dos átomos", etc. Enfim, fiz muitas amizades para o resto da vida como devem imaginar, mas a minha carapaça é dura, pode bem com esse espernear nervoso e garanto-vos que valeu quase sempre a pena intervir. Da mesma forma, posso bem com esses coros de virgens que se levantaram na sequência da minha entrada anterior e que outrora se divertiam à brava no respeitável, educado e nada fulanizante blogue Anacleto (lembram-se da economia anacleta?).

A pseudociência com motivações económicas, espirituais ou ideológicas fazem parte do meu reportório desde as primeiras linhas do Klepsýdra e dada a abundância do assunto no nosso país serão aqui objecto de escrita sempre que se apresente uma boa ocasião. Stay tuned.

terça-feira, dezembro 09, 2008

A Turma

Vencedor da Palma de Ouro de 2008, "A Turma" de Laurent Cantet é um filme em registo cru, quase documentário, sobre as escolas francesas dos subúrbios das grandes cidades. Quando vivi em França conheci aquela realidade, via aqueles putos na rua, vê-los representados dentro da sala de aula não mudou muito o que penso sobre o assunto. O grande mérito de "A Turma" é o de mostrar como é complexo lidar com aquela indisciplina mesmo quando se tem boa vontade, fazendo-o Cantet sem cair na tentação do maniqueísmo. Fiquei com a sensação que o filme interpela quer um professor que prefere métodos mais tradicionais como o que pratica métodos mais actuais, ambos certamente se questionaram no fundo deles próprios sobre a eficácia da escola quando o problema vem de fora. Um problema que é resultado da profunda guetização instalada nas cités, do desemprego, dos maus exemplos que os putos vêem na rua, da falta de referências "normais" e do desalinhamento com pais profundamente alheados do frenesim da vida moderna, sem capacidade para lidar com os putos, nem de dar respostas eficazes para os colocar ao abrigo de confusões.

domingo, dezembro 07, 2008

Novos limites de emissões de CO2

(Publicado no portal Esquerda.net)
Segundo as novas regras aprovadas esta semana pela União Europeia mais de 65% dos automóveis deverão emitir menos de 130 g/km até 2012, aumentando essa exigência para 75% do parque automóvel em 2013, 80% em 2014 e deverá atingir os 100% em 2015.

A partir de 2012 será implementado um sistema de multas que penalizará os construtores automóveis em 5€ pela primeira grama de CO2 por carro acima do limite estabelecido, 15€ para a segunda grama, 25€ para a terceira e 95€ para cada grama adicional. A partir de 2019 cada grama acima do limite de emissão será taxada em 95€ por carro produzido. A partir de 2020 o limite de emissão por quilómetro deverá ser reduzido para 95g de CO2.

No entanto, este acordo resultou de um suavizar de objectivos inicialmente traçados que em conjunto com os vários regimes de excepção geraram o protesto dos eurodeputados verdes e dos liberais - os liberais europeus distribuem-se entre esquerda e direita - contra os socialistas europeus e o Partido Popular Europeu. Os regimes de excepção aprovados incluem um crédito que pode ir até 7g/km no caso dos construtores introduzirem novas tecnologias amigas do ambiente, um super-crédito para marcas que produzam viaturas que emitam menos de 50g/km e uma redução de apenas 25% do nível de emissão de 2007 para construtores que produzam menos de 300 mil carros por ano. Como se deve imaginar neste segmento estarão incluídas algumas marcas de luxo.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Orelhas de Burro

(Publicado no Cinco Dias)
Como se pode verificar neste comunicado da NASA, o Sol entrou no seu novo ciclo de aproximadamente 11 anos, o ciclo 24, em Janeiro quando foram detectadas as primeiras manchas solares com polaridade invertida em relação à polaridade das manchas do ciclo 23. Apesar deste mínimo ter sido um dos mais calmos registados, os mínimos de 1933, 1954 tiveram um número de dias sem manchas que será comparável ao do corrente ano e o mínimo de 1913 foi bem mais tranquilo com mais de 300 dias sem manchas solares. O corrente ciclo 24 é um ciclo normal que já registou cerca de 18 manchas solares com a nova polaridade, um valor normal em ano de mínimo, e cujo fluxo de radiação emitida tem sido também o esperado. Aqui algumas imagens do Sol que registei no Observatório de Coimbra durante um eclipse parcial de 96, ano de mínimo, onde apenas se observam duas pequenas manchas. Como é hábito em anos de mínimos e máximos a comunidade científica reuniu-se para debater os dados resultantes das observações e curiosamente já em Julho deste ano a NASA deu-se ao trabalho de prevenir o público contra as habituais especulações pseudo-científicas, explicando porque não havia nada de errado na actividade do Sol.

Mas, o João Miranda como nem a NASA ouve, não resistiu e debitou um texto de pura desinformação, errado de uma ponta à outra, onde reina a especulação ignorante e pseudo-científica com o único intuito de tentar negar o aquecimento global, uma obsessão ideológica recorrente do autor. Mas a melhor passagem é aquela em que o autor insinua que se deveria especular sobre um novo mínimo de Maunder.

terça-feira, dezembro 02, 2008

Salade pour tout le monde

Le seul souvenir que je garde du prestigieux dirigeant d'enterprise, c'est au restaurant d'altitude, quand les membres du groupe ont commencé à hésiter un peu trop longtemps sur le choix de la garniture de légumes associé à leur plat (frites, ou pommes vapeur, ou riz, enfin n'importe quoi). Je vois son regard agacé, son adresse brutale et suffisante au serveur: "Salade pour tout le monde!"
Un grand dirigeant d'enterprise, le souvenir que j'en ai, est celui qui sait dire "Salada pour tout le monde!" au bon moment.

"Ennemis publics", Michel Houellebecq, Flammarion, pag.64

segunda-feira, dezembro 01, 2008

80 génios da astronomia

Para todos os viciados em astronomia, a não perder este número especial da Ciel&Espace dedicada aos 80 nomes mais importantes da história da astronomia. A selecção dos 80 nomes é cuidada, não é euro-cêntrica, ali encontramos nomes menos conhecidos da Pérsia e do mundo Árabe.

sexta-feira, novembro 28, 2008

10 milhões de euros para a ESA

O resultado do Conselho de Ministros da ESA foi surpreendentemente excelente, tendo sido aprovado o aumento do orçamento para 10 mil milhões de euros.

Entre os pontos mais importantes que foram aprovados conta-se a evolução do Ariane 5 e um programa de preparação de futuros lançadores, uma nova iniciativa de alterações climáticas "Climate Change Initiative" relativa à provisão de variáveis climáticas essenciais, novos estudos de definição relativamente à evolução de um veículo de transferência retornável, o sistema Iris, um satélite de gestão de tráfego aéreo e o início do programa "Space Situational Awareness" que fornecerá as informações necessárias para ajudar a proteger os sistemas espaciais europeus contra resíduos espaciais e a influência de clima espacial adverso.

quarta-feira, novembro 26, 2008

Coimbra no feminino

Duas escritas no feminino que estão entre os blogues de Coimbra que vou seguindo com regularidade são o Coisas Poucas e o Socialarte. O primeiro é escrito pela Isabel, a mesma do velhinho Aba de Heisenberg, e é preenchido por uma escrita interventiva e crítica que não alinha em manadas. Por vezes o estado das coisas é tal que leio a Isabel só para não me sentir um extra-terrestre. O segundo é da autoria da Carla Gonçalves e é um blogue onde mesmo as etiquetas são interessantes. No blogue da Carla andamos mais no domínio do espaço sideral, fazendo parte das minhas leituras quando dou ordens aos meus pés para não tocar na crosta terrestre.

terça-feira, novembro 25, 2008

De Cartão de Sócio no Conselho da ESA

Teve hoje início o Conselho de Ministros da Agência Espacial Europeia que deverá decidir qual será o orçamento para os próximos anos. Temo muito que a actual crise financeira contribua para que o orçamento da ESA continue a encolher, até porque esta seria uma má resposta à crise. A Europa é hoje líder em vários sectores da tecnologia espacial, temos a melhor rede de observatórios terrestres e espaciais, do rádio aos raios gama, temos o melhor veículo de lançamento de satélites, o foguetão Ariane, e em breve o melhor sistema de posicionamento global será europeu, o sistema Galileu. Apesar do PIB dos EUA não diferir muito do PIB da Europa, actualmente a NASA tem um orçamento cinco vezes superior ao da ESA. A Europa arrisca-se assim a perder liderança nas áreas mencionadas e isso não deixará de ter impacto na nossa economia. Apostar na expansão da ESA garantiria essa liderança e abriria a porta a áreas como as missões tripuladas, sector em que temos andado sistematicamente à boleia de russos e de americanos, numa altura em que até a China já tem as suas próprias missões. Apostar mais no espaço é também uma forma eficaz de combater a crise, dado que este é um domínio que gera sub-produtos de alta tecnologia que estimulam a indústria dos países que os inventam e cujos lucros frequentemente ultrapassam em muito os custos de investigação e desenvolvimento, gerando riqueza e emprego.

Levamos o Cartão de Sócio
O nosso Ministro leva o cartão de sócio da ESA para o Conselho e é só por isso que o deixam participar. Portugal paga uma quota anual de cerca de 10 milhões de euros para pertencer à ESA e a única maneira de reaver esta soma é participando em projectos e missões da Agência. Escusado será dizer que o retorno das verbas da ESA para o nosso país é um dos mais baixos entre os países membros. Até 2005 existia um Programa Dinamizador das Ciências e Tecnologias para o Espaço que servia para garantir o co-financiamento de instituições nacionais caso um dos seus projectos fosse aprovado pela ESA. Sublinho que este é um tipo de garantia importantíssima para participar em consórcios europeus que propõem missões à ESA. A partir de 2006, ao contrário da esmagadora maioria dos países da ESA, os investigadores portugueses só poderão contar com os seus orçamentos correntes, não existindo qualquer esforço nacional a nível institucional para combatermos o nosso défice no retorno da verba que pagamos à ESA. Passamos por vergonhas grandes em reuniões de consórcios da ESA onde apenas podemos garantir uma contribuição em função dos trocos que ainda nos restam em caixa...

domingo, novembro 23, 2008

O Homem-Betoneira

(Publicado no Cinco Dias)
Referi aqui na passada semana a fúria da câmara da Figueira da Foz, cujo presidente Duarte Silva foi constituído arguido no processo do Vale do Galante, para tentar passar a revisão de um plano de urbanização que é mais um atentado ao ordenamento do território. Um dos principais beneficiados das políticas de urbanização do executivo de Duarte Silva tem sido o empresário Aprígio Santos, proprietário da empresa de construção civil Imoholding e presidente do Naval 1° de Maio. Estão a ver o filme não estão? Agora vejam este. Não, não é o Ezequiel Valadas do Gato Fedorento, aqui a personagem é real.

sexta-feira, novembro 21, 2008

Todos querem o Euro

(Publicado no Cinco Dias)
Neste interessante artigo publicado no Financial Times é realçado o euro-entusiasmo emergente fora da zona euro após o desespero gerado pela actual crise financeira. Na Polónia, o mais atlantista dos países europeus, o euro é agora considerado como uma forma de protecção contra a crise financeira, cerca de 70% dos islandeses desejam a adesão ao euro, em recente sondagem realizada na Suécia 47% dos cidadãos declararam-se favoráveis à moeda única contra os 42% do SIM no último referendo e na Dinamarca pela primeira vez a maioria da população deseja o euro. Neste país discute-se já a organização de um referendo após um ataque especulativo sofrido pela coroa dinamarquesa em Outubro que obrigou o banco central a aumentar as taxas de juro de 5 para 5,5% (1,75% acima do valor da eurozona) para evitar futuros ataques.

Europeísta
O Filipe Moura apresentou-me como sendo europeísta. No entanto convém esclarecer que sou europeísta, não porque considere que exista algo especial ou transcendental no continente europeu, mas sim porque considero que a soma da Europa unida é bem superior à soma das paroquiazinhas separadas. Poderia do mesmo modo ser africanista, bolivarista ou oceanista, desde que os mesmos princípios fossem implementados nas respectivas zonas do planeta. Dito isto, estive desde a primeira hora entre aqueles que à esquerda consideraram o euro como um instrumento que iria contribuir para unir mais a Europa e tornar a União bem mais imune a ataques especulativos, como os que ajudaram a destruir as economias de alguns dos "tigres" asiáticos nos anos 90. Apesar de ainda muitas coisas poderem correr mal, o mínimo que se pode dizer é que o euro cumpriu na perfeição a função para a qual foi criado e, permitam-me a ousadia, acho mesmo que nas últimas semanas acabou de se pagar. Façam uma estimativa dos custos adicionais que a crise provocou fora da Eurozona e apliquem-nos aos 15 países onde circula o euro e chegarão certamente a um valor bem superior aos custos da sua implementação.

quinta-feira, novembro 20, 2008

Betoneira da Foz

A betonização da Figueira da Foz prossegue o seu curso, parece que não há limites para destruir, isto é tanto mais grave quanto estas iniciativas partem de um executivo em sérios problemas com a justiça, relembro que o actual presidente Duarte Silva foi constituído arguido no processo do Vale do Galante.
Da parte do meu caríssimo amigo João Vaz recebi a lista de atentados que se preparam no âmbito da revisão do plano de urbanização que será concluído dia 24:

- Projecta-se uma redução das áreas verdes e aumento do edificado, apesar do actual excesso de habitação (em 2001 estimavam-se cerca de 12.000 fogos sem residentes permanentes só nas seguintes freguesias: São Julião, Tavarede, Gala, Vila Verde e São Pedro;

- Planeia-se construção em altura, em geral para a cidade com o extremo de (até) 18 pisos se for um Hotel de 4/5 estrelas em qualquer ponto das freguesias envolvidas;

- Urbanização do campo de treinos municipal (usado pela Naval) para dar lugar a habitação e comércio com 6 pisos numa zona rodeada de escolas e equipamentos desportivos;

- A área projectada para o Parque Urbano irá diminuir em 25% - sendo esta percentagem afecta à construção;

- Projecta-se uma grande urbanização a menos de 300 metros da praia com prédios até 7 pisos na zona da Gala confinante com o Parque de Campismo da Orbitur, destoando da paisagem envolvente e correndo-se o risco da criação de mais um Foz Village (Bairro Fantasma...);

- Projecta-se construção junto à duna, em frente ao campo de futebol na Cova (Gala) a menos de 100 metros do mar apesar de um parecer negativo emitido pelo INAG;

- Avança-se com a possibilidade de edificar o espaço do antigo terminal rodoviário com construção em altura, até 18 metros;

- Não há estudos sobre a mobilidade, a carta de ruído foi mal executada (opinião da CCDR plasmada num documento disponível na Internet - ver endereço abaixo) e o parecer ambiental é muito pobre e baseia-se em dados errados.

terça-feira, novembro 18, 2008

Put your hands up for Detroit!

As três marcas de Detroit (GM, Ford e Chrysler) estão neste momento no Congresso Americano a tentar obter 25 mil milhões de dólares de ajuda dos 700 mil milhões de dólares do programa de salvação das instituições financeiras (Troubled Asset Relief Program) aprovado em Outubro.
É a segunda vaga da crise a atingir empresas que dependem de crédito directo e do crédito ao consumo dos seus clientes. A crise de Detroit não é brincadeira nenhuma, sem esta ajuda calcula-se em cerca de dois milhões e meio o número de empregos em risco se a produção das três empresas fosse reduzida para metade - a solução equacionada para evitar falências.

Repete-se a história, agora na indústria automóvel, perante a ameaça de falência de empresas-chave a mão invisível passa a ser um conceito apenas útil à retórica de crentes, enquanto no terreno é à mão socialista que calha o trabalho sujo. Além do mais, convém neste caso evitar a vergonha que seria a invasão das estradas americanas por viaturas europeias, após décadas do proteccionismo agressivo praticado no mercado automóvel americano.


segunda-feira, novembro 17, 2008

Miguel Portas em Coimbra sobre a crise

Hoje, segunda-feira, dia 17 de Novembro, na FEUC o meu caríssimo amigo Miguel Portas apresentará "A crise económica e financeira: causas e prioridades”", pelas 15 horas no auditório da FEUC. O debate será moderado por Vítor Neves, Professor da FEUC e Investigador do CES.

sexta-feira, novembro 14, 2008

A primeira fotografia de um exoplaneta


(foto do sítio da ESA)

A foto acima mostra a primeira observação directa de um exoplaneta obtida pelo Telescópio Espacial Hubble. Até hoje, mais de 200 exoplanetas foram descobertos através de medidas indirectas recorrendo à variação da órbita e à variação do brilho das estrelas mais próximas dos planetas.

quinta-feira, novembro 13, 2008

É desesperante ser adorado por idiotas

"É desesperante ser adorado por idiotas" é a minha tradução do título do filme "C'est dur d'être aimé par des cons" de Daniel Leconte que ainda não estreou entre nós. Este filme conta o processo que envolveu o jornal francês Charlie Hebdo após a publicação de algumas das caricaturas de Maomé e de uma edição em que era representada na capa a figura de Maomé em desespero com os protestos dos integristas contra a publicação das mesmas caricaturas. O processo contra o Charlie Hebdo foi da iniciativa das elites religiosas muçulmanas, mais preocupadas em dar um peso muito maior a figurinhas de Maomé do que aos problemas sociais, sobretudo desemprego e guetização, que grassam nas diversas comunidades muçulmanas francesas.
"É desesperante ser adorado por idiotas" é uma expressão colocada na boca de Maomé, mas é na verdade uma expressão muito mais universal, poderia ser utilizada com o mesmo significado se substituíssemos Maomé por Cristo ou David quando pensamos nos cristãos evangélicos americanos, na Opus Dei ou nos judeus ortodoxos. Durante o processo, Philippe Val, o editor do jornal, não se cansou de fazer passar esta ideia e a presença de autoridades católicas ao lado das elites religiosas muçulmanas durante o processo só a veio reforçar.
Apesar da liberdade de expressão ter saído vitoriosa deste processo, este documentário mostra como este valor é frágil e está sujeito a ataques poderosos e violentos de grupos de pressão com pretensões muito próximas do totalitarismo.

Um filme dentro do filme
Vi este filme em Bruxelas no dia da sua estreia, numa sala onde um grupo de quatro jovens muito bem vestidos, certamente vindos directamente de uma mesquita sofisticada, tentaram realizar um número muito mal ensaiado contra a projecção do filme. Após alguns berros dos espectadores presentes na sala, acabaram por sair, não dispensado um sonoro estrondo ao fechar a porta da sala. Vive la liberté!

terça-feira, novembro 11, 2008

segunda-feira, novembro 10, 2008

Björk sobre o descalabro da Islândia

No The Times a cantora Björk desabafa sobre a crise financeira e sobre as pobres ideias para sair do buraco financeiro propostas pelos mesmo políticos que afundaram o país. O genial plano de salvação nacional propõe a transformação do país numa gigantesca metalurgia em regime de "monocultura" de produção de alumínio. Björk teme o pior pela paisagem, pelo ambiente e pela economia do país, caso haja uma crise no mercado do alummínio (déjà vu).

domingo, novembro 09, 2008

Yes!

A não perder a edição da Courrier International desta semana que inclui um dossier especial sobre a vitória de Obama com as reacções registadas na imprensa de todo o mundo.

sábado, novembro 08, 2008

General Motors vende Hummer

A minha crónica deste fim-de-semana no portal Esquerda.net:

Depois de uma quebra de vendas de 47% desde 2007 e cansada da imagem negativa difundida por um dos veículos automóveis mais gastadores do parque automóvel americano, a marca Hummer foi posta à venda pela direcção da General Motors. Até ao momento, apenas a marca indiana Mahindra & Mahindra mostrou interesse público pela compra da Hummer.

O Hummer é a versão civil de um todo-o-terreno militar designado Humvee (High Mobility Multipurpose Wheeled Vehicle) concebido pela AM General para o exército americano. A marca Hummer foi lançada em 1992, através da comercialização do Hummer H1, que teve como primeiro cliente o actor Arnold Schwarzenegger. Na altura, o modelo adquirido por Schwarzenegger pesava cerca de três toneladas e estava equipado com um motor de 6500 cm3 V8 turbodiesel cujo consumo era de 22 litros aos 100 km. Este valor violava as leis que regulavam o consumo de combustível nos EUA em 1992. Mais tarde, durante o seu mandato de governador do Estado da Califórnia, Schwarzenegger implementou importantes medidas ambientais, acabando por converter um dos seus Hummer ao consumo de hidrogénio.

Em 2003 foi lançado o modelo Hummer H2, equipado com um motor de 6000 cm3 e um reservatório de 121 litros para um consumo de 19,5 litros aos 100 km. A última série da Hummer, a H3, começou a ser produzida em 2005 tendo sido equipada com motores mais modestos, sendo o mais económico o motor de 3700 cm3 cujo consumo é de 10,6 litros aos 100 km. Como termo de comparação interessa reter que os modelos mais vendidos na Europa, o VW Golf e o Ford Focus, são equipados com motores cuja capacidade oscila entre os 1400 e os 2000 cm3 e cujos consumos vão dos 7 aos 11 litros aos 100 km.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Graça Moura e o secretário de Estado da Defesa Merrywhistler

O texto a seguir foi publicado por Vasco Graça Moura na edição do Diário de Notícias de 19 de Fevereiro de 2003 e está disponível neste sítio do autor. Leiam-no até à parte do secretário de Estado da Defesa John K. Merrywhistler. Eu prefiro não comentar, tirem as vossas próprias conclusões… São textos como este que fazem da vitória de Obama uma vitória tão deliciosa (publicado no Cinco Dias).


Europa, 17 de Fevereiro de 2033

Paris. O presidente Moustapha Ahmed Ibn Dupont aprovou várias medidas de apoio à alta costura francesa para a promoção do chador no mundo. Os oculistas protestam e afirmam que os óculos é que dão mais valor às mulheres, quando elas só mostram os olhos. No Centre Pompidou abriu uma exposição pós-pós-moderna de sapatos acumulados à entrada de Notre-Dame. Um crítico de arte imprudente que falou de souliers de Satan foi defenestrado por blasfémia do alto de um minarete em Montparnasse. Só depois se verificou tratar-se de uma gralha tipográfica. O revisor responsável foi lapidado.

Berlim. O chanceler Abdul Klaus von Rundfunk interditou a Nona Sinfonia de Beethoven em audições públicas ou privadas. A simples detenção de partituras ou discos implicará o corte das orelhas dos prevaricadores. Vai ser intensificada a investigação sobre tecnologia dos altos fornos. Altos responsáveis desmentem quaisquer preocupações étnicas na matéria.

Bruxelas. O rei Babadur-al-Alrun de Hohenlohe convocou o primeiro-ministro Abu-Akhbar Desfôrets e o ministro francófono Hassan Ibn Cocasse com vista à preparação de mais uma acção de sensibilização da opinião pública contra a separação entre a religião e o estado, uma vez que ou o estado se conforma com os preceitos da religião e é dispensável, ou diverge deles e é nefasto. O aiatola Eustache Ibn Gamal, reitor da Universidade Aladdin de Lovaina, falou do “eixo do mel” na abertura do seminário internacional sobre o papel da apicultura intensiva na redução do choque das civilizações. Confirma-se o achado de documentação relativa à extinta União Europeia num bunker da Rue de la Loi: foi nomeada uma comissão de expurgo, presidida pelo ministro flamengo Mohamed van der Roeckwaerts.

Vaticano. O papa Omar I relatou pormenorizadamente ao colégio dos cardeais a sua última peregrinação a Meca, explicando as razões atendíveis por que não foi autorizado a entrar no santuário. Foi aprovada a substituição do tratamento de “Sua Santidade” pelo de “Sua Obediência” e a exportação de vacinas de água-benta para os territórios em que ainda se detecte a presença do vírus da varíola, em consequência da última jihad de libertação da Europa, ocorrida há 30 anos. O consistório, como prova de boa vontade e tolerância, mandou revestir os frescos da Capela Sixtina com azulejos sobrantes da casa de banho de um dos palácios de Saddam Hussein.

Córdova. O rei Tarik II incumbiu o conde Julian Al-Barabi de Mora y Moro das obras de construção da nova e esplendorosa capital da Ibéria. O mulá Osama Extchgandiarra manifestou a sua preferência por Bilbao para sede do califado.

Lisboa. O ministro da educação, Sheik Al-Nefzaouí da Silva Pimentel, declarou não valer a pena mandar queimar Os Lusíadas pelo seu teor anti-islâmico, uma vez que a obra está fora do mercado e completamente esquecida. Mantém-se todavia a sanção do arrancamento dos olhos para quem os ler. Yassib Neca, presidente do F. C. da Merdaleja, denunciou como “cão infiel” o Dr. Samir Getúlio, presidente da Liga de Clubes. O Dr. Samir recolheu ao Aljube. Depois da remoção das vinhas, o vale do Douro vai passar a produzir sémola em socalcos, com vista à exportação de cuscus. Figuras da meiga esquerda lusitana foram condecoradas a título póstumo com a Ordem do Crescente Suave, por serviços prestados à causa de Bagdad.

Washington. O secretário de Estado da Defesa, John K. Merrywhistler, resumiu em quatro palavras a posição do seu país quanto à presente situação da Europa: “Let them fuck themselves”.

Vasco Graça Moura

quarta-feira, novembro 05, 2008

I Have a Dream


Washington DC, EUA (Outubro de 2002)

Quando fotografei estes putos cheios de energia, ali nas escadas do Lincoln Memorial, no mesmo local de onde Martin Luther King proferiu a 28 de Agosto de 1963 o seu famoso discurso "I Have a Dream" estava longe de imaginar que seis anos mais tarde os EUA se aproximassem vertiginosamente do sonho de Luther King. Ainda há muitas arestas a limar, mas o resultado das eleições de ontem foi uma página que se virou na América. Nunca mais as coisas serão como eram. Podemos agora passar a outros assuntos mais importantes.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Sinais dos tempos: Hummer à venda

Depois de uma quebra nas vendas de cerca de 47% desde 2007 e cansados da imagem negativa que transmite o veículo mais gastador do parque automóvel americano, a marca Hummer foi finalmente colocada à venda pela General Motors. Até agora apenas a marca indiana Mahindra & Mahindra mostrou interesse público pela compra da Hummer.

Não é nacionalização, é compra!

"Não é nacionalização, é compra de um banco pelo Estado". Disse o porta-voz do PSD sobre a nacionalização do BPN. É "compra", é... É duro engolir sapos, isso é que é. A radicalização recente do PSD em direcção à ideologia do Estado Mínimo é a responsável por este niilismo trapalhão. Há pessoas que deveriam tirar algumas conclusões muito sérias sobre o que andaram a escrever nos últimos anos sobre as maravilhas do mercado, mas andam a esquivar-se...

sábado, novembro 01, 2008

Passagens sobre o casino ENRON

Passagens do livro “The smartest guys in the room” (publicado no Cinco Dias):

market participants could see prices on a screen (…) “It was free, it was easy, and it was addictive”, says a former ENRON executive” pag. 221.

Because market rewarded every new move they made, ENRON’s employees started to think they couldn’t make mistakes. One top executive says, “We got to the point where we thought we were bulletproof“. pag. 230

On August 23, 2000, ENRON’s stock closed at $90 - its all-time high (…) When people asked Skilling about the chances of the stock tumbling, he had a ready answer: “I can’t worry about comets hitting the building” pag. 244

Vince Kaminski, ENRON’s probability guru, used to warn Skilling that he shouldn’t have earnings expectations when it came to the trading business; in any given year, profits were as likely to go down as to go up. Skilling would respond that people always told him that, but the traders had always come through. And he assumed they’d keep coming through. So every year, trading was handed a budget that was substantially higher than the year before.” pag. 228.

quinta-feira, outubro 30, 2008

O Modelo Social Europeu em Dresden


Dresden, Saxónia, Alemanha (Outubro de 2008)

Este ano o Nuclear Science Symposium decorreu em Dresden, em território da ex-RDA. O ano passado participei na edição de 2007 do mesmo congresso que decorreu no Havai. Algumas recordações tristes ficaram, como aquelas dezenas de velhinhos a invadir um jardim público no centro de Honolulu disputando este e aquele canto para ali passarem a noite, ou a gigantesca cidade de tendas e rulotes a norte de Pearl Harbor ou ainda famílias inteiras a utilizar os balneários das praias como se fosse uma casa de banho privada. Estava num país da OCDE, mas aquilo parecia o terceiro mundo.

Este ano em Dresden, ex-RDA, ex-território do socialismo real, apesar de aqui e ali se verem alguns vestígios do passado, alguns prédios standard do socialismo, dos que se vêem de Bratislava até Pequim, deparei com uma cidade equilibrada, sem a ostentação novo-riquista e sem bolsas de pobreza visíveis a olho nu. Foi para ali que foi uma parte do PIB da UE durante os últimos 15 anos, para as pessoas, para o concreto, enquanto nos EUA o PIB servia para engordar Wall Street e o Lehman Brothers. O desemprego na Saxónia é elevado, bem acima dos 10%, mas os habitantes de Dresden têm hoje a sua cidade finalmente reconstruída da II Guerra Mundial e, mais importante ainda, sabem o que os espera quando tiverem 65 anos. Uma coisa é quase certa, não vão terminar os seus dias a disputar um lugar num jardim público, mesmo que a vida não corra lá muito bem.

quarta-feira, outubro 29, 2008

Houellebecq e BHL no Café Littéraire




Michel Houellebecq e Bernard-Henri Lévy tiveram honras de uma emissão especial do excelente programa de literatura Café Littéraire dedicado em exclusivo ao livro que publicaram a duas mãos, "Ennemis publics". Para os meus fiéis leitores aqui fica o programa na integra, dividido em dois vídeos Daily Motion .

Um programa de literatura dedicado a apenas um livro, escrito por dois dos maiores escritores da actualidade é certo, com 20 minutos de publicidade ininterrupta antes do início da emissão é algo de verdadeiramente extraordinário que só acontece em França. Estavam ali jornalistas de vários países europeus que atestaram esta fabulosa singularidade francesa.



terça-feira, outubro 28, 2008

O caos fora da zona euro

Até ver os países da zona euro, com mais ou menos dificuldades, mais ou menos nacionalizações, têm aguentado o impacto da crise. Fora da zona euro, depois da falência técnica da Islândia, seguiu-se agora a Hungria e a Ucrânia. O FMI acabou de aprovar uma ajuda substancial à Hungria, depois das ajudas à Islândia e à Ucrânia. No entanto, existem mais países em séria dificuldades onde as respectivas moedas entraram num processo de desvalorização e de desestabilização preocupante como é o caso da Polónia e da República Checa.
Não sou especialista em economia, mas parece-me que o euro está a servir para aquilo foi criado. Uma moeda única europeia é mais forte e resiste melhor que as moedas nacionais à especulação e à instabilidade dos mercados financeiros, para além de servir de chapéu-de-chuva a países que a ela estão fortemente ligados como são os casos do Reino Unido e da Eslováquia (entrará no euro em 2009).

O Forint (Hungria) em Euros:

segunda-feira, outubro 27, 2008

A Primeira Missão Lunar da Índia



A minha crónica deste fim-de-semana no portal Esquerda.net:

Foi lançada esta semana do Satish Dhawan Space Centre em Sriharikota, a primeira missão lunar da Índia. Entre os principais objectivos desta missão não tripulada estão a análise da composição geológica da Lua, dos processos de formação de crateras e do seu campo magnético, bem como a busca de vestígios de gelo nos pólos.
Artigo de Rui Curado Silva, investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra.

O satélite Chandrayaan-1 (Chandrayaan significa "expedição à Lua") entrará na órbita lunar dentro de duas semanas, baixando de seguida a sua altitude até atingir uma órbita circular a 100 km da superfície da Lua. A partir dessa órbita será ejectada uma sonda com uma massa de 29 kg em direcção à superfície lunar, que permitirá estudar vários aspectos do solo da Lua durante e após o impacto. Entretanto o Chandrayaan-1 continuará a estudar a Lua a partir da sua órbita utilizando 11 instrumentos científicos, entre os quais três pertencem à ESA.

A ESA e a Índia, através da sua agência ISRO (Indian Space Research Organisation), têm vindo a colaborar desde 1978 em várias missões espaciais, tendo sido lançados até hoje mais de uma dezena de satélites indianos a bordo de foguetões Ariane. Nesta missão recorreu-se a uma versão melhorada do Polar Satellite Launch Vehicle (PSLV) para lançar o Chandrayaan-1, denominada PSLV-C11, cuja concepção é integralmente indiana.

A aposta de países em vias de desenvolvimento como a Índia na exploração espacial é um estímulo muito positivo para a indústria, para a investigação e para o ensino nestes países e não é de modo nenhum incompatível com o esforço económico necessário para melhorar o nível de vida das suas populações. Se dúvidas existem, basta recordar o impacto incalculável do ponto de vista económico e social dos programas espaciais dos países mais desenvolvidos nas respectivas sociedades (ver este sítio da NASA sobre o impacto das tecnologias espaciais nas nossas casas e cidades).

domingo, outubro 26, 2008

quinta-feira, outubro 23, 2008

Petição por Roberto Saviano

Seis prémios Nobel (Dario Fo, Mikhail Gorbachov, Gunter Grass, Rita Levi Montalcini, Orhan Pamuk e Desmond Tutu) lançaram no jornal La Repubblica uma petição de apoio a Roberto Saviano, o autor de Gomorra, ameaçado de morte pela Camorra que vive sobre protecção permanente da polícia. Nos dois primeiros dias foram recolhidas cerca de 110 mil assinaturas. Para quem quiser juntar o seu nome a esta longa lista, eis o sítio da petição.

quarta-feira, outubro 22, 2008

A Índia vai à Lua



Foi lancado esta manha com sucesso do Satish Dhawan Space Centre em Sriharikota, a primeira missao lunar da Índia. Aqui ligacao à página da ESA sobre o Chandrayaan-1 e aqui a ligacao à página da ISRO (Indian Space Research Organisation).

terça-feira, outubro 21, 2008

Pacheco Pereira em Dezembro de 2007



Neste balanço e perspectivas organizado pelo Expresso em Dezembro de 2007, Pacheco Pereira afirmou categoricamente (aos 2:30 do filme acima) que o preço maior que os portugueses iriam pagar em 2008 adviria do carácter ideológico da política inspirada no Modelo Social Europeu; da universalidade e gratuitidade da saúde, da educação e da segurança social . Ora, pelo contrário, estamos em Outubro de 2008 e os portugueses já perceberam muito bem que vão pagar ao longo dos próximos anos, a preço forte, precisamente a ideologia que Pacheco Pereira tem vindo a defender, essa ideologia do Estado Mínimo, a mesma ideologia que deixou milhares de pessoas idosas sem reformas nos EUA, que obrigou milhares de pessoas modestas a devolver a sua habitação, a mesma ideologia que afundou um país rico e próspero como a Islândia e a mesma ideologia que ofereceu salários e lucros colossais a pessoas sem qualquer actividade produtiva. Por muitos defeitos que possa ter o Modelo Social Europeu, nunca uma catástrofe destas proporções se abateu sobre algum país por oferecer educação, saúde e segurança social de qualidade e quase gratuita aos seus cidadãos.

É arriscado fazer astrologia política. E foi esse o registo no qual Barreto e Pacheco Pereira se dirigiram ao país quando se pronunciaram sobre o futuro de uma forma categórica e arrogante (foi esse o tom). Rever esta entrevista 10 meses depois, rever aqueles semblantes austeros a pronunciar sentenças erradíssimas com uma precisão milimétrica sobre o ano de 2008 acompanhadas de risinhos e bocas marialvistas dos jornalistas, é um exercício que nos faz mergulhar no ridículo na sua forma mais pura.

segunda-feira, outubro 20, 2008

Voltaire e Schuman na rentrée literária francesa

A rentrée literária francesa oferece-nos este ano as biografias de dois europeus incontornáveis: Voltaire e Schuman. Max Gallo é o autor de "Moi, j’écris pour agir", Vie de Voltaire e François Roth assina "Robert Schuman".

terça-feira, outubro 14, 2008

The Economist de Junho de 2005

A The Economist já tinha escrito tudo sobre a actual crise do imobiliário, na sua edição de 18 de Junho de 2005!!!

O José Sousa do blogue Fututo Comprometido estava atento e escreveu um post acertadíssimo lido três anos depois.

segunda-feira, outubro 13, 2008

Gomorra



"Gomorra" é um filme de Matteo Garrone baseado na obra do mesmo nome do jornalista napolitano Roberto Saviano. Saviano está sob ameaça de morte desde 2006, residindo em local secreto e vigiado por uma escolta policial permanente. "Gomorra" é uma ficção construída a partir de investigações realizadas por Saviano sobre a rede económica da Camorra em Nápoles, em particular sobre as negociatas que envolvem o tráfico de droga, o tráfico de lixo tóxico e a exploração na industria têxtil.
Tendo em conta a actual situação da Itália, onde a criminalidade é indecentemente imputada aos ciganos e aos estrangeiros, "Gomorra" é um filme oportuno que refresca a memória dos mais distraídos, aqueles para quem os crimes da mafia passaram a ser matéria corrente e por isso esquecidos. Tal como o demonstra "Gomorra", a violência da Camorra não é comparável aos pequenos crimes que são imputados aos ciganos, é uma violência brutal e permanente que não tem paralelo em toda a Europa, é uma violência de uma cidade que em grande parte é terra de ninguém. Ali em Nápoles, tal como na Sicília, Berlusconi não tem tomates para tomar o mesmo tipo de medidas securitárias que tem implementado no resto do país contra os ciganos.
"Gomorra" é composto por quatro histórias paralelas, cada uma abordando diferentes sectores de influência da Camorra e diferentes níveis de actuação, do pequeno bandido que trabalha por conta própria ao baronato que gere as redes locais. "Gomorra" representa a violência com muita crueza a par com as ilhas de dignidade que algumas mulheres e homens tentam manter no meio do caos social, embora pagando por isso o preço mais elevado. O filme é falado em dialecto napolitano, opção que lhe confere mais autenticidade, mas obriga a ler as legendas mesmo quem fala italiano.
"Gomorra" é um dos grandes filmes de 2008, a não perder!

domingo, outubro 12, 2008

Medir o Kilimanjaro II

A minha crónica deste fim-de-semana no portal Esquerda.net:

Uma expedição internacional liderada pelo investigador Rui Fernandes do Centro de Geofísica da Universidade de Lisboa tem por objectivo medir a altura do Monte Kilimanjaro, na Tanzânia, com uma precisão de alguns centímetros. A medida actual de 5895 m correspondente à altura do Pico Uhuru foi determinada com uma margem de erro da ordem do metro.

A técnica inovadora utilizada pela equipa de investigadores envolvidos nesta expedição combina a utilização de dados fornecidos pelo sistema GPS (Global Positioning System) e observações gravimétricas. Sabendo que a força da gravidade apresenta pequenas variações de valor em função da altitude e do relevo terrestre, as medidas gravimétricas fornecerão um parâmetro de observação complementar e crucial para determinar com maior precisão da altura do Kilimanjaro.

A expedição divide-se em três grupos que percorrem diferentes trilhos desde o sopé ao cume do Monte Kilimanjaro. A tarefa de dois destes grupos foi a de estabelecer uma densa grelha de pontos (distanciados entre 3 km e 5 km), em torno e sobre o Kilimanjaro, onde serão realizadas observações gravimétricas. Obtém-se deste modo um volume aproximado do relevo do Monte onde a cada vértice é associado a força gravítica medida nesse ponto, cujo valor difere muito ligeiramente dos outros valores medidos. O terceiro grupo é responsável pela realização de observações GPS e pela instalação de uma estação GPS permanente que será ligada ao sistema de referência global ITRS2005 (International Terrestrial Reference System 2005).

Espera-se que nas próximas semanas já se possam conhecer alguns resultados preliminares e se tudo correr bem a altura do Monte Kilimanjaro poderá ficar determinada ao centímetro.

sexta-feira, outubro 10, 2008

Medir o Kilimanjaro



O meu amigo J., ex-escriba deste blogue (Samsa), integra uma expedição para medir com maior precisão a altura do Kilimanjaro. A precisão actual é da ordem do metro, se tudo correr bem, a precisão poderá passar para a ordem dos cm. Boa sorte!

quinta-feira, outubro 09, 2008

Se a Islândia tivesse aderido ao euro...

Se a Islândia tivesse aderido ao euro certamente não estaria a passar pelos problemas gravíssimos que estão a provocar um caos económico no país como já não se via na Europa desde o fim da União Soviética, em particular uma inflação de 15% e a desvalorização em 60% da coroa islandesa em apenas um ano. Se a Islândia tivesse aderido ao euro tal como outros pequenos países da Europa que não pertencem à UE (San Marino, Andorra, Mónaco e Vaticano) estaria sem dúvida a passar por graves problemas decorrentes da crise financeira, mas a protecção que lhe garantiria a moeda europeia impediria certamente o estado de falência técnica em que se encontra o país. Aliás o "chapéu de chuva" do euro está a proteger outras moedas em grandes dificuldades dentro da UE. A Islândia que era uma das mais saudáveis e ricas democracias da Europa entrou num tal estado de retrocesso que necessitará provavelmente pelo menos uma década para sair do fundo do buraco onde se encontra.

Este é o momento ideal para ler os delírios escritos pelo economista João Ferreira do Amaral contra o euro em Outubro de 2000.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Um oportuno Nobel da Física

Tal como refere o Prof. Carlos Fiolhais este Nobel não poderia ser mais oportuno, tendo em conta a inauguração do LHC do CERN há menos de um mês. Ora, curiosamente o trabalho de investigação de dois dos três japoneses laureados (um deles de nacionalidade americana) com o prémio Nobel da Física depende directamente de experiências realizadas em grandes aceleradores de partículas como os do CERN. Makoto Kobayashi é investigador do KEK, Japão, onde operam diversos aceleradores de partículas e Yoichiro Nambu pertence ao Instituto Fermi cujos aceleradores integram o Fermilab, EUA.

Um dos resultados esperados do novíssimo LHC do CERN é que possa oferecer vários contributos da maior importância para a ciência e que daqui a uma dezena de anos possam surgir alguns prémios Nobel resultantes da investigação ali realizada. Só à conta dos aceleradores mais antigos, o CERN já produziu oito prémios Nobel. Nada mau!

terça-feira, outubro 07, 2008

Dominó financeiro vai chegar às empresas

Esta crise que atingiu directamente o serviço de crédito bancário, vai ter consequências graves muito em breve sobre todas as empresas que dependiam do crédito bancário para financiar os seus projectos, cobrir as suas dívidas e algumas inclusivamente para pagar os seus salários. É muito provável que em breve novas falências e desemprego venham afectar outros sectores para lá do sector financeiro.

segunda-feira, outubro 06, 2008

Houellebecq e Bernard-Henri Lévy

Michel Houellebecq, autor de "Partículas Elementares" e o filósofo Bernard-Henri Lévy acabam de lançar "Ennemis publics" um livro de recolha de correspondência trocada entre os dois autores entre Janeiro e Julho deste ano, ao longo da qual partilharam as suas principais obsessões, análises políticas e reflexões sobre temas sociais caros a cada deles.

domingo, outubro 05, 2008

Dominó da crise da Alemanha para a Bélgica

O grupo alemão Hypo Real Estate está à beira da falência, correndo o risco de levar consigo o grupo belga Dexia, que se pensava já estar ao abrigo de problemas depois do plano de emergência implementado pelo governo belga na passada sexta-feira. Tudo depende do acordo de Merkel para a injecção de 50 mil milhões de euros.
Imaginem, nestas horas que vão decorrendo, acólitos convictos da mão invisível, grandes seguidores do ultra-liberalismo à americana a pedincharem esta módica quantia à mão socialista, ao bolso do contribuinte alemão...

Rentrée literária francesa

Aqui a primeira selecção do Prix Goncourt de 2008.
Aqui a primeira selecção do Grand Prix du Roman de l’Académie française de 2008.

sexta-feira, outubro 03, 2008

Afinal o Aquecimento Global existe mesmo...

Foi delicioso assistir ao momento do debate em que a candidata Palin admitiu que as alterações do clima existem, que no seu Alasca são bem visíveis e que se devem também à actividade humana. Ela disse aquilo com a voz embargada é certo, tropeçou numa ou noutra palavra, mas engoliu o sapinho todo, perninhas e tudo! Os conselheiros de McCain não brincam em serviço e controlaram magistralmente os delírios do fanatismo religioso-político de Palin.

Depois desta, o Rui Moura, o João Miranda e o A. Azevedo Alves são a nossa reserva protegida de exotismo niilista na sua heróica missão contra a grande conspiração planetária dos "alarmistas" do aquecimento global. À falta de raridades tão extravagantes como a Sociedade da Terra Plana, temos todo o interesse em proteger com carinho estes nichos de exotismo pseudo-científico.

Os custos do centralismo

Figueira de Castelo Rodrigo decidiu atribuir prémios de 500 a 750 euros para cada criança que nasça na vila ou para cada casal que decida fixar-se no concelho (via Origem das Espécies).
Um dos argumentos que pegou na altura do referendo à Regionalização era que esta seria cara para o contribuinte, que iria implicar mais custos administrativos, etc. Aqui temos mais um exemplo (entre outros cada vez mais frequentes) que mostra como o centralismo pode ser caro.

quinta-feira, outubro 02, 2008

5 cartões de crédito para Nick Leeson

Nick Leeson foi condenado a seis anos e meio de prisão em Singapura por ter sido considerado responsável pela falência em 1995 do mais antigo banco de investimento britânico, o banco Barings. Após ter cumprido a sua pena (reduzida por bom comportamento), de regresso a Inglaterra, foram-lhe propostos 5 cartões de crédito só na primeira semana. Nas suas palavras:

"I returned from Singapore in 1999, responsible for £862m worth of losses that brought down Britain's oldest investment bank, personally liable through an injunction for £100m, and yet within the space of a week had been offered five different credit cards. Ridiculous! Any central bank will tell you that the system exists on the premise of "responsible lending"; but the experiences of the past few years clearly show this is utter rubbish."

Ler aqui o seu testemunho completo sobre a actual crise dos mercados financeiros e sobre a impunidade de que gozam os actuais responsáveis.

quarta-feira, outubro 01, 2008

O PSD vai introduzir o criacionismo nas escolas?

É a pergunta natural que nos interpela depois do apoio oficial do PSD à candidatura do Partido Republicano. Se os fanáticos que estão representados na candidatura de McCain chegarem ao poder, o que vai o PSD dizer sobre as pressões que vão surgir para introduzir o criacionismo no ensino nos EUA? E será Manuela Ferreira Leite a responder ou serão os atlantistas radicais que estão nos bastidores da presidente do PSD a responder?

Faço notar que não estou a pedir para que o PSD apoie Obama, mas suponho que uma direita séria não apoia uma candidatura apinhada de fanáticos, tal como acho que uma esquerda com o mínimo sentido crítico não deve apoiar Chavez, nem Fico (primeiro minstro da Eslováquia).