quinta-feira, maio 08, 2008

Do melhorio: Policiais franceses

Esqueçam os Bruce Willies e os Nicolas Cages aos berros num rouco falsete irritante com altas pistolaças cobertos de suor e restos de vidro. O verdadeiro policial, o policial adulto, negro, inovador, é desde há alguns anos o policial francês. Aqui vão algumas sugestões:

- MR 73 de Olivier Marchal (a estrear)
- Golpe a golpe de Costa Gavras
- A Caixa Negra de Richard Berry
- Romance de Gare de Claude Lelouch (a estrear)
- Sob o Signo da Morte de Régis Wargnier
- A Serpente de Eric Barbier
- Não digas a ninguém de Guillaume Canet

PS- Os filmes que ainda não estrearam em Portugal vi no cinema quando viajo e em canais estrangeiros, sou contra a pirataria que no caso dos filmes de autor ainda é mais grave e tem um impacto directo na continuidade destas obras.

quarta-feira, maio 07, 2008

Futuro Comprometido

Futuro Comprometido é um interessante blogue, bem informado, sobre as grandes questões planetárias na ordem do dia da autoria do José Sousa.

segunda-feira, maio 05, 2008

Órfãos do salazarismo, do franquismo, da URSS...

O teor deste artigo de Maria José Nogueira Pinto (MJNP) não difere muito do teor dos artigos dos estalinistas e saudosistas russos sempre que se comemora o fim da ditadura soviética, não difere dos saudosistas checos que apoiaram a invasão da Checoslováquia pelos tanques russos, dos franquistas espanhóis, dos saudosistas dos regimes militares chilenos, argentinos, brasileiros e bolivianos por ocasião das datas que celebram o fim das respectivas ditaduras. É um artigo fraquinho e pobrezinho, à imagem do regime que tenta branquear, do regime com as piores e menos frequentadas escolas e universidades da Europa, do regime em que um terço da população nunca tinha metido os pés num hospital e do regime com uma mortalidade infantil assustadora no contexto europeu. Neste tipo de artigos que lamentam revoluções contra regimes despóticos, é muito típica a retórica onde se admitem pequenas melhorias (como a democratização...), mas a tese é sempre a mesma: "somos livres mas estamos pior". Se compilarmos a tese de MJNP com a restante internacional saudosista chegamos à conclusão que da Rússia ao Chile, passando por toda a Europa de Leste e por toda a América Latina estamos todos pior; dos Urais à Terra do Fogo, estávamos bem era no tempo da repressão e do atraso civilizacional.
E como não podia deixar de ser este tipo de artigos são sempre servidos com doses várias de niilismo, denuncia-se frequentemente uma suposta "história oficial" das democracias que deturpa algumas virtudes dos regimes depostos. Obviamente, como todos sabemos a história oficial do Portugal de Salazar, da URSS, da Espanha de Franco e dos regimes militares da América do Sul, essa história é que era a verdadeira, era tudo verdade, verdadinha, verdadeira...

domingo, maio 04, 2008

Em Competição no Festival de Cannes

Na Competição Oficial de Cannes deste ano temos um Wim Wenders, um Dardenne, um Clint Eastwood (lá vão os nossos críticos sacar as 5 estrelas, querem uma aposta? 5 ou 6...), um Atom Egoyan, um Walter Salles, um Soderbergh, entre outros menos conhecidos, mas não menos favoritos, como é tradição em Cannes. Nada mau! A abertura do festival ocorrerá dia 16 deste mês.

quarta-feira, abril 30, 2008

A influência do ultraliberalismo no preço dos cereais

A crise financeira desencadeada pelos empréstimos imobiliários de alto risco nos EUA tem produzido um efeito de bola de neve nos restantes mercados, cujos estragos se estendem aos preços dos cereais. Muitos dos investidores dos mercados imobiliário e financeiro em crise, transferiram em massa os seus fundos para o mercado dos cereais, mais seguro e com uma tendência de subida pelos factores que já aqui foram explicados antes. O resultado é que a especulação dos mercados de cereais e de outros produtos de primeira necessidade nunca foi tão alta, com os preços a subirem desmesuradamente e os países mais pobres, aqueles cuja dieta depende quase exclusivamente dos cereais a entrarem numa situação de penúria ainda mais acentuada.
É mais um facto que vem dar razão ao artigo de 25 de Março de Martin Wolf publicado no Financial Times que sustenta que o liberalismo económico atingiu os seus limites.

terça-feira, abril 29, 2008

Bernard-Henri Lévy sobre o 25 de Abril II

"Moi encore au Portugal, été 1974, chaleurs plombées mais glorieuses, combustion lente de la lumière, le soir, sur la place du marquis de Pombal, où une foule fervente mais calme, résolue mais apaisée, enterre les mauvais esprits du salazarisme.
Le Portugal encore, l'été suivant; jeunes capitaines courage; Otelo de Carvalho en acteur baroque et shakespearien; levées de vie; soulèvements sans colère ni passion triste; fin du commerce de la haine; (...) Paris, par exemple, ravalé au rang de lointaine province d'un cinquième empire révolutionnaire dont la capitale était ici; Dominique le Roux hissé au rang de grand conspirateur rouge offrant Technique du coup d'Etat à l'un, les Ecrits militaires de Trotski à l'autre, et, un autre encore, courant les kiosques à journaux de la ville pour racheter tous les exemplaires de Libération, qui était, avec Le Nouvel Observateur de Jean Daniel, le journal fétiche des jeunes capitaines et qui publiait, ce matin-là, une enquête sur son passé extrémiste de l'autre bord; nous ne savons pas encore ressusciter les corps, disait Malraux qu'il n'aimait pas, mais nous commençons à savoir ressusciter les songes."
Bernard-Henri Lévy, "Ce grand cadavre à la renverse", 2007, Grasset, pag. 34

Narcotraficantes mexicanos aderem ao Euro

Este fim-de-semana, um amigo mexicano advogado, com um sorriso maroto, informou-me que os narcotraficantes mexicanos começaram a fazer as suas transacções em euros...
Do ponto de vista psicológico esta notícia é bem pior do que a troca das reservas em dólares por euros nos países asiáticos. Até o tráfico de droga, que é um dos mercados mais fiéis à ideologia ultraliberal, trai a moeda verde e adere ao euro-social. Não havia necessidade.

segunda-feira, abril 28, 2008

O segundo passo do sistema Galileo

Foi o tema do meu artigo deste fim-de-semana no portal Esquerda.net:

Hoje, os utilizadores europeus de sistemas de navegação não têm outra alternativa para além do uso de sistemas de satélites controlados por hierarquias militares de países terceiros. Os responsáveis militares do sistema americano GPS e do sistema russo GLONASS não dão qualquer garantia de serviço ininterrupto aos seus clientes europeus. Dada a banalização actual do uso de sistemas de navegação por satélite, se o sinal proveniente destes sistemas fosse desligado, numerosos navios e aeronaves poderiam correr sérios riscos ao voltar a operar com os sistemas de navegação tradicionais. Tal cenário colocaria em perigo vidas humanas e perturbaria fortemente a eficiência do fluxo de mercadorias e de pessoas através das redes europeias de transporte.

De forma a garantir a segurança e a eficiência dos transportes europeus, a União Europeia decidiu implementar o seu próprio sistema de navegação, o sistema Galileo. O Galileo será o sistema de navegação civil mais preciso, com uma precisão da ordem do metro. Este sistema de navegação será também o mais seguro, o mais imune a anomalias e transmitirá em poucos segundos um alerta aos seus clientes caso ocorra uma anomalia num dos seus satélites, melhorando a segurança da circulação automóvel, composições ferroviárias e sobretudo a segurança de aviões em fase de aterragem.

Este fim-de-semana, às 23:16 de sábado é lançado o GIOVE-B, o segundo satélite de teste do programa Galileo. O GIOVE-B transporta dois relógios atómicos de rubídio com uma estabilidade de 10 nanossegundos por dia, tal como o primeiro satélite de teste GIOVE-A. No entanto, a grande novidade do GIOVE-B é o envio para o espaço de um relógio PHM (Passive Hydrogen Maser) com uma estabilidade de 1 nanossegundo por dia, que será o primeiro relógio deste tipo a funcionar no espaço. Os relógios principais previstos para coordenar a constelação final dos satélites Galileo serão dois PHM e dois relógios de rubídio de reserva no caso de falha dos PHM. O GIOVE-B também transportará um detector de radiação para estudar o ambiente espacial à altitude de voo dos satélites da constelação Galileo e terá como missão adicional garantir a manutenção das frequências de transmissão do sistema Galileo.

Seguir-se-ão lançamentos de novos satélites do programa Galileo, estando previsto o lançamento de quatro satélites que terão a missão de validar o funcionamento do sistema em órbita e nas estações terrestres em 2010. Só depois de efectuada esta validação serão lançados os restantes satélites da constelação Galileo, num total de 30 até 2013.

sexta-feira, abril 25, 2008

Bernard-Henri Lévy sobre o 25 de Abril

"Cette révolution portugaise dont je veux dire maintenant qu'elle a (...) puissamment contribué à ce changement d'âge. Je repense à Otelo de Carvalho, dans les derniers jours d'un été brulant qui fut aussi le dernier été, avant son déclin, du vieux leader stalinien Alvaro Cunhal, me confiant que les capitaines rebelles du Mouvement des forces armées avaient volé son emploi au Parti et qu'ils n'avaient fomenté cette conspiration, programmé cette révolution à la technique sans précédent dans l'histoire des coups d'Etat, doublé sur sa gauche (...) Crépuscule du socialisme. Commencement de la fin du communisme. Tout le vieux théâtre révolutionnaire qui, en quelques semaines, volait en éclats. Le ciel, toujours, mais dépeuplé de ses dieux et tolérant, pour qui voulait, un petit coin de néant. Tell fut, en ce siècle, la grande leçon portugaise."
Bernard-Henri Lévy, "Ce grand cadavre à la renverse", 2007, Grasset, pag. 118

A confiança na mão invisível

Publicado há seis dias, mas vale bem a pena ler o artigo de 19 de Abril de Vital Moreira no Diário Económico:
"A confiança na "mão invisível" do mercado livre dificilmente poderia ser mais baixa do que é neste momento" (continuar a ler aqui)

quinta-feira, abril 24, 2008

O Testa de Ferro

"O Testa de Ferro" de Martin Ritt é uma obra prima do cinema dos anos 70, com a irreverência típica da vaga de cinema de intervenção política que se seguiu à contestação da Guerra do Vietname e ao Maio de 68.
Em "O Testa de Ferro", Woody Allen é Howard Prince, um empregado de um restaurante que serve de cobertura de um grupo de esquerdistas perseguido pelo McCartismo, vendendo guiões de televisão escritos por estes sob a sua autoria. Ao contrário dos seus amigos esquerdistas, Prince tem um conhecimento vago da política e opiniões ingénuas. No entanto o início do seu relacionamento com Florence, que integra o grupo de intelectuais de esquerda, vai mudar a visão política de Howard Prince...
Na minha opinião em "O Testa de Ferro", Woody Allen tem a melhor interpretação da sua carreira, sobretudo pela excelente e credível transformação de uma personagem ingénua num indivíduo que se forja uma sólida consciência política. É essa transformação que dá muita força à memorável cena final do filme.



Filme Klepsýdra ***** (5 estrelas)

quarta-feira, abril 23, 2008

Por linhas tortas...

Já aqui manifestei o meu apoio ao Tratado Simplificado (ou de Lisboa para quem gosta de folclore), mas a aprovação do Tratado sem consulta nos países em que houve referendos com resultados negativos ou em países em que foi prometido um referendo, como em Portugal, pode ter consequências negativas no futuro. Nestes países, os cidadãos poderão numa próxima ocasião exprimir um voto negativo de protesto que poderá ter consequências muito negativas para a União Europeia.

Como já aqui demonstrei, do ponto de vista matemático a realização de referendos na totalidade dos 27 países da UE impossibilita praticamente a aprovação do Tratado, mesmo quando o voto no SIM é largamente superior ao NÃO se somarmos os votos de todos os países, tal como aconteceu com o Tratado Constitucional. Por isso, em parte, a vitimização de alguns que defendem 27 referendos é muito pouco séria. A UE precisa de aprovar os seus tratados através de uma eleição única que decorra em simultâneo em todos os países, essa é a fórmula que mais se aproxima da verdadeira vontade do conjunto dos europeus. Para isso, alguns países deverão alterar a sua constituição. É chato, mas não é impossível, e é sobretudo muito mais democrático.

Petição Reserva Ecológica Nacional

Certamente movido por apetites de grupos de pressão ligados à construção civil, o governo prepara-se para apresentar um diploma para passar as competências da delimitação da Reserva Ecológica Nacional do Ministério do Ambiente para os Municípios. Estão mesmo a ver o que vai acontecer não estão?
Há já uma petição em linha contra o diploma que o governo pretende apresentar.

segunda-feira, abril 21, 2008

A fé na desregulação, aprendendo com a ENRON

Em desespero, os mais puristas ultraliberais vêm-nos dizer que a actual crise financeira resulta de uma insuficiente desregulação dos mercados, segundo os mesmos é preciso desregular ainda mais para tudo funcionar na perfeição. Para interpretar este e outro folclore da crise actual nada melhor do que aprender com o escândalo ENRON.

Depois do falhanço rotundo da desregulação do mercado da energia, implementado na Califórnia a pedido da ENRON, serviu de desculpa exactamente a mesma argumentação purista que ouvimos agora. A desregulação não tinha ido suficientemente longe, segundo a empresa e por isso tudo falhou. No entanto, na altura a cidade que foi mais longe no processo de desregulação, San Diego, viu os preços da energia duplicarem em apenas 3 meses. Houve escolas e empresas que ficaram sem ar condicionado e que eram obrigadas a fechar ao pôr-do-sol porque não podiam pagar as facturas da electricidade. Alguns meses depois, em Janeiro de 2001, numa sondagem organizada pelo San Francisco Chronicle, 92% dos Californianos manifestaram-se contra a desregulação do mercado da energia. Mas, o mais interessante, foi a reacção dos mais puristas da desregulação. Como vingança, alguns dos quadros mais fanáticos da ENRON desencadearam deliberadamente uma série de manobras especulativas e de esquemas ilegais para contornar os escassos mecanismos legais que davam algum poder de controlo ao Estado da Califórnia. O efeito foi agravar ainda mais a situação da Califórnia e aumentar o ódio dos cidadãos em relação à desregulação. Ironicamente, a vingança acabou por arruinar ainda mais as teorias sobre o mercado que estes estavam a tentar provar.
Ler o cap XVII, "Gaming California", do livro "The smartest guys in the room".

sábado, abril 19, 2008

Os bancos que se seguem...

O RBS (Royal Bank of Scotland), o segundo maior banco europeu, e o Citibank, o maior banco americano, são os bancos que se seguem no anúncio de pesados prejuízos resultantes da crise do crédito imobiliário nos EUA. Segundo o Financial Times, o RBS está prestes a anunciar um prejuízo de 5 mil milhões de euros. O Citibank anunciou ontem um prejuízo de cerca de 3,2 mil milhões de euros.

quinta-feira, abril 17, 2008

O Circo Europa de Sarkozy e de Berlusconi

Na passada segunda-feira imaginei o circo que vão ser os Conselhos Europeus com Sarkozy e Berlusconi, pelos vistos não fui o único a ter essa inquietação. Ler o editorial de hoje do Courrier Internacional da autoria de Philippe Thureau-Dangin :

"A quoi va ressembler une Europe où siégeront à la fois Berlusconi et Sarkozy ? C’est ce que se demande, un peu inquiet, Die Zeit (vous trouverez l’article en page XXIV de notre cahier spécial consacré à la première année du président français). De fait, les Allemands se méfient des sautes d’humeur des deux hommes. Angela Merkel ne disait-elle pas, en aparté, de son ami Nicolas : “Tant qu’il est dans mon bureau, ça va. C’est quand il est loin que je ne le maîtrise plus…” ? La France va prendre pour six mois la présidence de l’Europe. Et ses vingt-six partenaires s’attendent à quelques surprises."

Maio de 68 no canal ARTE

O canal ARTE iniciou uma série de documentários, filmes e debates dedicada aos 40 anos do Maio de 68. A primeira noite temática, transmitida na passada terça, ofereceu a habitual qualidade ARTE: dois documentários sobre algumas utopias delirantes, outro documentário que percorria 1967, 1968 e 1969 de uma forma seca mas com os pés mais assentes na Terra e um interessante debate entre Philipe Val, o editor do Charlie Hebdo e Bettina Röhl, filha de um casal de terroristas alemães de extrema-esquerda.

segunda-feira, abril 14, 2008

O próximo Conselho Europeu vai ser um circo

Imaginem o próximo Conselho Europeu com Berlusconi e Sarkozy juntos, ensemble, insieme, insieme, unite, unite, Europe, como rezava a música de Toto Cutugno. A competição pela migliore bugia ou pela meilleure cascade em frente aos jornalistas vai ser cerrada.

sábado, abril 12, 2008

A subida do preço dos cereais e os biocombustíveis

O meu artigo de hoje no portal Esquerda.net:

Desde há algumas semanas que têm ocorrido protestos em vários países do mundo - os casos mais violentos aconteceram nos Camarões, no Egipto e no Haiti - contra a subida dos preços dos produtos de primeira necessidade, em particular contra o preço dos cereais e dos seus derivados.

A subida de preço destes produtos resulta essencialmente da conjugação de três factores: 1) nos últimos dois anos o volume de colheitas agrícolas teve uma quebra acentuada (ver gráfico da FAO); 2) a China e a Índia estão a mudar os seus hábitos alimentares, estão a consumir mais carne sendo necessária maior quantidade cereais para a sua produção; 3) a percentagem relativa de solos dedicados à produção de biocombustíveis tem aumentado consideravelmente.

Na maior parte dos países desenvolvidos, os biocombustíveis foram adoptados inicialmente com boas intenções, com o intuito de substituir a utilização de combustíveis fósseis, dado que as emissões de dióxido de carbono associadas ao consumo de biocombustíveis são em média cerca de um terço mais baixas que as emissões dos resultantes da combustão e da produção dos combustíveis fósseis. A adopção deste tipo de políticas, supostamente ecológicas, teve como consequência um aumento exponencial da superfície de cultivo de cereais dedicada à produção de biocombustíveis dado que na perspectiva dos agricultores é muito mais rentável vender a sua produção para biocombustíveis do que para a alimentação. No caso dos países mais pobres isso significa vender quase toda sua produção para o consumo dos países mais ricos. Em certos países o furor para aumentar a superfície de cultivo dedicada aos biocombustíveis teve como consequência o abate de extensas áreas de floresta, o exemplo mais dramático é o caso do Brasil.

Embora os biocombustíveis não sejam os únicos responsáveis pela recente escassez mundial de alimentos - o número de pessoas com fome no mundo aumentou pela primeira vez em décadas - o aumento da sua produção tem sem dúvida uma significativa quota-parte de responsabilidade no actual cenário de escassez alimentar. As vantagens dos biocombustíveis para a resolução do problema do aquecimento global não são significativas e sobretudo contribuem muito pouco para a mudança de comportamentos. Os biocombustíveis permitem ao cidadão dos países desenvolvidos continuar a utilizar o automóvel, reduzindo em apenas um terço as suas emissões, mas ao preço de o seu veículo estar a competir com a alimentação de base dos países mais pobres.

Contudo, espera-se que uma segunda geração de tecnologia de biocombustíveis mais eficiente, que transformará em etanol os restos de matéria orgânica actualmente não utilizados nas plantações, faça a sua aparição comercial daqui a cerca de 5 anos.

quinta-feira, abril 10, 2008

Bancos reconhecem culpas na crise mundial

Ler no Financial Times. Destaco:
"The Institute of International Finance, meanwhile, representing more than 375 of the world’s largest financial companies, acknowledged “major points of weaknesses in business practices”, including bankers’ pay and the management of risk"

including bankers’ pay
Em Portugal, país iluminado, acha-se que não, que os exagerados salários dos quadros no sector privado, banca incluída, não são um problema, apesar de termos a mais baixa produtividade da Europa dos 15. Deste modo, estamos a desacoplar os salários dos quadros das empresas da produtividade, o que significa premiar apenas o estatuto, a poltrona, independentemente de mexerem ou não a bunda da poltrona. Enfim coisas típicas do terceiro-mundo.

quarta-feira, abril 09, 2008

Tecnologia espacial em casa e na cidade

Frequentemente, quando explico a alguém que trabalho na área da astronomia, astrofísica e espaço, sou confrontado com questões do tipo: "Mas isso serve para alguma coisa?" ou "vocês gastam tanto dinheiro e quais são os benefícios para o contribuinte?".
Respondendo a estas e a muitas outras questões, a NASA criou um excelente sítio de divulgação das principais tecnologias utilizadas regularmente nas nossas casas e cidades que tiveram origem no trabalho de investigação espacial. A lista é longa e muito interessante.

segunda-feira, abril 07, 2008

Remodelação da Ciel & Espace

A revista Ciel & Espace foi remodelada, segundo as palavras do editor, para que a publicação se possa adaptar aos novos tempos marcados pela velocidade da internet. A revista sofreu uma remodelação gráfica, mas as novidades mais significativas foram a remodelação do sítio internet, agora com notícias diárias e funcionalidades multimédia (fotos, radio, etc.), e a celebração de um novo partenariado com a revista americana Sky and Telescope.

Leituras 68

40 anos depois, as livrarias francesas fervilham de livros sobre o Maio de 68. Destaco:

Mai 68 com prefácio da autoria de Cohn-Bendit
Mai 68 expliqué à Nicolas Sarkozy de André e Raphael Gluksmann
Forget 68
de Daniel Cohn-Bendit
Mai de 68, le pavé

como já sei que não posso ter mais olhos que barriga, vou-me atirar assim que puder ao Forget 68 do Bendit.

sexta-feira, abril 04, 2008

Supositórios contra o voyeurismo e a falta de memória

"Toda a gente na comunicação social sabe que não deve entrevistar uma criança que foi vítima de um pedófilo (como o de Loures), mas entrevista; toda a gente sabe que não deve repetir à exaustão as imagens do vídeo do telemóvel, mas repete; toda a gente sabe que não deve ir para as portas do Carolina Michaelis entrevistar alunos menores sobre o que se passou, mas vai; toda a gente sabe tudo, mas faz de conta que não sabe."
Pacheco Pereira no Abrupto


E ler o artigo todo da Joana Amaral Dias, "Vá lá. Juizinho", publicado no semário Sexta de 28 de Março. Destaco:
"Entre a fisga do Tom Sawyer e o telemóvel existem mais semelhanças que diferenças. Há uns anos, quando os opinadores eram alunos, participavam nas réplicas do Maio de 68 exigindo o fim da escola, berrando «proibido proibir» e sonhando com bombas pelas escadarias. Basta ver o La Chinoise, do Godard, para lhes tirar a pinta. Depois, havia quem entrasse na aula pela janela. Retalhavam-se os pneus dos carros dos professores, arranjava-se droga nos pátios e destruía-se o mobiliário escolar «pró gozo». Hoje, os seus filhos, os filhos dos revolucionários, devem estar quietinhos e caladinhos."

quarta-feira, abril 02, 2008

Breves do Universo

As últimas semanas foram profícuas para a astronomia e a astrofísica. O Hubble, os nossos olhos no espaço, viu as primeiras moléculas orgânicas num planeta de outro sistema solar (representação artística ao lado, fonte ESA) e os primeiros instantes de uma supernova numa galáxia de espiral. A sonda Cassini alertou-nos para a possível existência de um oceano subterrâneo em Titã.

segunda-feira, março 31, 2008

Natureza pré-metacínica

Ler o Luís Januário.

Encomendei as faixas na 2ª jornada

Depois de ter apreciado a habilidade dos artistas na 1ª e na 2ª jornada, informei um amigo sportinguista que já tinha encomendado as faixas de campeão 2007-2008. Ele resmungou as coisas do costume que qualquer fiel adepto do FCP está habituado a ouvir. Acrescentei: "Vamos ser campeões, e vamos ganhar com 647 pontos de vantagem para o segundo". Estamos quase lá!

domingo, março 30, 2008

Investigação sobre o clima recebe Prémio Descartes

O consórcio europeu EPICA (European Project for Ice Coring in Antárctica), cujo trabalho de investigação se centra nas alterações do clima terrestre através da análise dos gelos da Antártida, foi um dos co-vencedores do Prémio Descartes, o principal galardão dos Prémios Científicos Europeus atribuídos este mês em Bruxelas. O Prémio Descartes recompensa cada ano o melhor trabalho científico europeu realizado por parcerias transnacionais.

Os membros do consórcio EPICA pertencem a 10 países europeus (Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Itália, Holanda, Noruega, Suécia, Suiça e Reino Unido) que financiam os seus trabalhos de investigação em pareceria com a Comissão Europeia. O seu trabalho de investigação centra-se na análise de amostras de blocos de gelo com cerca de um milhão de anos - recolhidas a mais de 3000 metros de profundidade na Antártida - através do estudo da concentração de vários gases, de compostos e de isótopos. Estes parâmetros permitem reconstruir o clima na Terra como ele era há centenas de milhares de anos atrás, os seus ciclos de temperatura, a taxa de precipitação e a composição atmosférica, em particular a dos gases de efeito de estufa. Através da recolha de mais 3000 amostra o consórcio EPICA reconstruiu até à presente data o clima da Antártida até há 800 mil anos atrás. O seu trabalho revelou importantíssimos resultados que permitem conhecer melhor os ciclos do clima terrestre e a relação entre a concentração de dióxido de carbono e a temperatura média do planeta e revelou ainda que as concentrações actuais de dióxido de carbono e de metano - os dois gases de efeito de estufa mais importantes - atingem os valores mais elevados dos últimos 800 mil anos, ou seja de todo o período estudado. O valor de concentração de CO2 é hoje 30% mais elevado do que o valor mais alto registado nos 800 mil anos precedentes. A concentração de metano é mais do dobro do valor mais alto encontrado no mesmo período. O trabalho de investigação do EPICA tem sido publicado nas mais prestigiadas revistas científicas, como a revista Nature (vol. 429, pag. 623-628, 2004 e vol. 444, pag.195-198, 2006) ou a revista Science (vol. 310, nº 5752, pag. 1317 - 1321, 2005).

A equipa de investigadores do EPICA irá continuar o seu trabalho de investigação na Antártida, estendendo a sua análise de amostras de gelo a épocas mais remotas, propondo-se analisar amostras com cerca de um milhão e meio de anos, de modo a compreender melhor uma importante mudança do clima terrestre que ocorreu há cerca de 900 mil anos e que alterou a duração dos ciclos climáticos.

Texto publicado no portal Esquerda.net

sexta-feira, março 28, 2008

Vaclav Havel prefere Hillary Clinton

Não deixa de ser significativo que Václav Havel (ler VaTSlav e não VaKlav), um dos subscritores da carta dos oito governantes europeus que em 2003 apoiaram a intervenção no Iraque, tenha declarado esta semana à principal cadeia de televisão pública da República Checa que a sua preferência entre os candidatos à Casa Branca vai para Hillary Clinton. Significa isto que Havel se coloca no campo dos democratas no que toca à política de ocupação do Iraque, afastando-se definitivamente da sua posição de 2003.

quinta-feira, março 27, 2008

Sobre a crise do capitalismo financeiro

Ler este texto do João Rodrigues no Ladrões de Bicicletas e de Vital Moreira no Causa Nossa.

"A crise do sub prime pode ver-se como uma gigantesca burla em que o resto do mundo (leia-se, os aforradores que aplicaram as suas poupanças em activos denominados em dólares) se viu envolvido e que serviu para canalizar recursos para os EUA a troco de nada. É a forma pós-moderna de saque! Só que em vez do pirata com perna de pau, são uns tipos janotas com ar muito respeitável!"
José Sousa em comentário à entrada "Peculiar matemática ultraliberal"

quarta-feira, março 26, 2008

Os custos do ultraliberalismo

Já todos ouvimos uma boa catequese sobre o despesismo do Estado e as grandes vantagens para os "bolsos do contribuinte" de tudo privatizar, pois supostamente as empresas e o mercado sabem o que é melhor para contribuinte. Ora, esta catequese esquece os imensos custos para os "bolsos do contribuinte" das grandes crises financeiras, que nos últimos 30 anos não têm sido tão raras como isso. Os exemplos apresentados no artigo "History Lesson" na The Economist desta semana são bem representativos:

"Crises in poorer countries tend to be deeper and more costly, often because they are twinned with collapsing currencies. According to a 1996 survey of insolvencies by economists at the World Bank, the bail-out of Argentina's banking system in the early 1980s cost a stunning 55% of GDP to fix.

The rich world's banking troubles have not been cheap either. The bill for bolstering Finland's banks in the early 1990s came to 8% of GDP; Sweden's bail-out was scarcely less dear. America spent more than 3% of GDP cleaning up the savings-and-loan crisis, its priciest to date."

Curiosamente, o mesmo artigo dá alguns exemplos de como o intervencionismo do estado em épocas de crise se poderá saldar em lucro para o contribuinte.

terça-feira, março 25, 2008

O Escafandro e a Borboleta



"O Escafandro e a Borboleta" de Julien Schnabel é um filme baseado na auto-biografia dos últimos meses de vida de Jean-Dominique Bauby (Jean-Do), editor da revista Elle, após um acidente vascular cerebral que o remeteu para um estado de paralisia apelidado de «locked-in syndrome». Jean-Do continuava a ter uma actividade cerebral normal, mas sofria de uma paralisia motora quase total.
Com ajuda de duas enfermeiras e de um medico, Jean-Do consegue estabelecer contacto com o mundo, fazendo uso de um dos poucos movimentos que lhe restaram, o piscar de olho. Ao contrario da maior parte das películas que narram tragédias pessoais, este não é um filme de vitimização lamechas, é sim um filme cheio de bom humor, ironia e sarcasmo, bem à imagem do carácter de Jean-Do que goza frequentemente com o seu próprio estado e com os comentários depressivos de algumas das suas visitas. No entanto, à medida que vamos conhecendo Jean-Do, este vai-se revelando uma personagem sensível, mais interessante, um homem que explora as fronteiras da imaginação como uma criança, que se relaciona com os filhos com um carinho invulgar e que faz uma penitência de tempos passados de profundo individualismo.

"O Escafandro e a Borboleta" de Julien Schnabel é um dos grandes filmes de 2007 que conta com uma excelente interpretação de Mathieu Amalric. Um filme fortemente recomendado aqui na Klepsýdra.

segunda-feira, março 24, 2008

Peculiar matematica ultraliberal

A esmagadora maioria das pessoas nao faz a minima ideia de o quao grosseira pode ser a matematica que domina alguns sectores da alta financa, e muitos tem tirado proveito disso. E' por essa razao que a edicao desta semana da "The Economist" e' incontornavel. Por exemplo no artigo "What went wrong" podemos ler:

"In a recent study Martin Barnes of BCA Research, a Canadian economic-research firm, traces the rise of the American financial-services industry's share of total corporate profits, from 10% in the early 1980s to 40% at its peak last year (see chart 1). Its share of stockmarket value grew from 6% to 19%. These proportions look all the more striking—even unsustainable—when you note that financial services account for only 15% of corporate America's gross value added and a mere 5% of private-sector jobs."


Uma passagem muito certeira que resume bem a falta de rigor em que vive a industria financeira:
"The industry has defied gravity by using debt, securitisation and proprietary trading to boost fee income and profits."

sábado, março 22, 2008

quinta-feira, março 20, 2008

Sir Arthur Clarke

Arthur Charles Clarke foi um dos responsaveis pelo meu gosto pela astrofisica e pelo espaco li todas as suas odisseias, vi os dois filmes que lhe foram consagrados, 2001 de Kubrick e 2010 de Peter Hyams, e esperava com ansiedade pelo dia em que era transmitida a serie "O Misterioso Mundo de Arthur Clarke" onde eram dissecados os chamados fenomenos paranormais. Para alem da sua obra literaria, Arthur Clarke teve um contributo importante para a adopcao de satelites em orbita geoestacionaria no dominio das telecomunicacoes.
A morte de Arthur Clarke fez-me rever velhas memorias de escola primaria. Enquanto esperava que os meus colegas terminassem os exercicios, eu viajava ate' 'as estrelas na minha carteira, sobrevoava o monolito na Lua, ultrapassava a Discovery One e comunicava com o computador Hal 9000, os meus lapis, afiadeiras e borrachas, representavam, cada um, uma nave diferente que congestionava o ceu de Jupiter e de Europa.
Obrigado Sir Arthur!

quarta-feira, março 19, 2008

A charlatanice climática no blogue Atlântico

O blogue Atlântico, pela mão de Paulo Pinto Mascarenhas, adere à moda da pseudociência negacionista das alterações climáticas. Há algum artigo científico publicado numa revista científica com arbitragem pelos pares que fundamente o teor do livro de Marlo Lewis Jr.? Em particular que fundamentem isto:

"a convicção de que o ser humano não é responsável pelas alterações climáticas e a inutilidade das acções em curso para as combater."

"Marlo Lewis Jr. contraria neste livro a corrente alarmista do aquecimento global e tem a coragem de pôr em causa, de forma sistemática e minuciosamente documentada"

Que trabalho científico, publicado numa revista da especialidade, fundamenta estas afirmações? Já que há tanta minúcia e tanta convicção isso daria no mínimo um artigo na Nature, já para não falar num Nobel. Onde está esse trabalho?
Pelo contrário a compilação de milhares de artigos científicos da autoria dos melhores investigadores do clima que foram revistos até à equação pelos pares nas melhores revistas da especialidade deram como resultado uma probabilidade superior a 90% de que a actividade humana tem influência no aquecimento global observado.

Figura TS5 (b) da pag.32 do "Technical Summary" do IPCC:



Se Marlo Lewis Jr. tem alguma coisa a opor às conclusões do IPCC, só tem uma coisa a fazer, é trabalhar e trabalhar muito, muito mesmo. Produzir pelo menos trabalho científico comparável ao que deu origem ao relatório do IPCC, estamos a falar de milhares de artigos validados para publicação nas melhores revistas científicas, Nature, Science, etc. O problema é que os cálculos que ilustram as teses negacionistas não resistem à primeira correcção dos especialistas que revêem os trabalhos, nas raras ocasiões em que há um autor que tenta a sua sorte em revistas muito modestas. Este sítio internet escrito por alguns dos melhores investigadores do clima está cheio de revisões das principais teses negacionistas, a maior parte delas cheias de erros de palmatória, de gente que não domina bem a física, a estatística e a matemática.

PS- Sinceramente, já me falta a paciência para ler tanto disparate sobre o aquecimento global é tanta asneira tanta, tanta, tanta, que eu já deixei de fazer ligações para corrigir os autores que revelam níveis de ignorância ao nível da escola secundária, a maior parte nem se apercebe das asneiras que escreve, é no fundo um retrato triste da educação deste país.

terça-feira, março 18, 2008

A actualidade do livro sobre a ENRON

Porque é que a ENRON faliu da forma como faliu? E o que significa a sua falência no contexto dos mercados mundiais? Eis as principais perguntas a que se propõe responder esta obra da autoria de Bethany McLean e Peter Elkind sobre a empresa que apostou forte na desregulação do mercado de energia. No entanto "The Smartest Guys in The Room" é muito mais do que uma obra sobre política empresarial, é um romance apaixonante forjado pela realidade que narra a impressionante história da ascensão e queda da ENRON, as vidas dos seus quadros, a sua relação com parceiros comerciais, com clientes, com a imprensa e com a política. É deste modo que em jeito de romance vamos seguindo a história dos principais actores, Jeff Skilling (CEO), Ken Lay (Presidente) e Rebecca Mark (sector internacional), desde os tempos de dificuldades vividos no seio de famílias modestas, os dois últimos tendo nascido no Midwest eram a encarnação do sucesso idealizado pelos teóricos do ultraliberalismo puro e duro. Aí estavam os grandes exemplos de que o esforço, o trabalho, o sacrifício, aliado à desregulação e ao ultraliberalismo forjavam o que havia de melhor entre as empresas americanas. Praticamente todos caíram que nem patinhos, a imprensa, os comentadores, os políticos e as principais escolas de economia. Sobre o verdadeiro significado de esforço, de trabalho e de sacrifício, ficamos inteiramente esclarecidos na obra de McLean e Elkin. Durante largos períodos o trabalho dos principais quadros da ENRON pouco os distinguia dos viciados de jogo de um casino, e a se a ENRON era alguma coisa, era sobretudo um casino onde se jogava forte e feio, contra as probabilidades mais desfavoráveis, frequentemente por puro narcisismo e megalomania. E esta é uma das principais interpelações que o livro faz ao leitor. Aceita que a sua fornecedora de internet, de energia ou o seu banco jogue no mercado financeiro a um nível de risco comparado ao jogo de casino? Com a agravante de muitos dos intervenientes, jovenzitos ultraliberais, profundamente crentes nos benefícios sociais do darwinismo de mercado, fazerem uso do mais profundo cinismo, instalando o caos na rede de abastecimento de energia da Califórnia, provocando desemprego, mortes, prejuízo, falências, demissões políticas, em troca de ganhos imediatos de milhões de dólares, ganhos sem esforço, sem produtividade que justificasse os ganhos. Esta foi a permanente história da ENRON, a história de como ganhar milhares de milhões sem produzir, ou produzindo pouco, sem servir os clientes, aproveitando a dimensão e a complexidade da empresa para escapar ao controlo financeiro. Foi assim que foram possíveis grandes manobras através de contas em paraísos fiscais, a criação de fundos de investimento ilegais e especulação bolsista do mais cínico e agressivo que se possa imaginar.
A melhor definição do que era na realidade a ENRON é dada por Rebecca Mark respondendo a um colega céptico em relação às contas da ENRON: "sometimes pigs do fly!"

A ENRON foi ao fundo e levou consigo a Arthur Andersen a empresa de consultadoria que fechava os olhos às manobras mais fraudulentas, juntas produziram dezenas de milhares de desempregados, arruinaram fundos de pensões acumulados durante toda a vida por milhares de trabalhadores e deixaram para a posteridade uma mega-central eléctrica em Dabhol na Índia, que continua parada, e que foi praticamente toda paga pelos contribuintes indianos. Jeff Skilling, o cérebro da ENRON foi condenado a 24 anos de prisão, Ken Lay morreu antes da sentença e a maioria dos quadros envolvidos nas fraudes foram condenados com penas pesadas, à excepção dos que colaboraram com a justiça.

segunda-feira, março 17, 2008

Viver com menos petróleo e menos tubo de escape


Fotografia do sítio Amsterdam Bicycles.

Texto da autoria do caríssimo Mário Alves, especialista em transportes:

Este conjunto de imagens e comentários convidam à reflexão. Recentemente tive a oportunidade de debater em público a questão da obrigatoriedade dos capacetes para ciclistas. Sempre a mesma ratoeira. Ao olhar para estas fotografias, parece-me óbvio que temos sempre duas hipóteses para aumentar a segurança dos mais vulneráveis: a) colocar a responsabilidade de protecção nos mais fracos, obrigando-os a usar capacetes ou negando-lhes a possibilidade de usar em plenitude as ruas que lhes deviam pertencer; b) reduzindo o número e a velocidade dos automóveis. O primeiro tipo de intenções, apesar de na maior parte das vezes bem intencionadas, continuará a espiral absurda de olhar para o problema pelo paradigma estafado que nos fez chegar até aqui. O segundo caminho, mais difícil, implica visão, participação, concertação, liderança.

Um pouco de história: em Março de 1992 foi realizado um referendo, o primeiro em Amesterdão, sobre a necessidade de restrições ao automóvel. Apesar do elevado nível de abstenção, 53% dos votantes escolheu o cenário que incluía uma drástica redução dos automóveis no centro da cidade. Depois de alguma hesitação, devido ao nível de abstenção, a câmara de representantes decidiu avançar com um polémico plano para reduzir 35% das viagens de automóvel no centro. O controlo do estacionamento foi o instrumento principal escolhido. Passado anos de restrição aos pendulares - já nos anos 90 era praticamente impossível um trabalhador encontrar estacionamento de longa duração no centro - a politica de restrição de estacionamento tentou encontrar um balanço entre o estacionamento de curta duração (considerado essencial aos serviços e comércios da cidade) e o estacionamento reservado a residentes. Depois de muita consulta e participação pública, onde a população estava muito dividida, os planos avançaram. Entre as medidas mais dolorosas, a redução de 3,000 lugares de estacionamento, num momento em que muitos clamavam por mais lugares. Nas áreas mais comerciais os lugares para residentes foram reduzidos. Neste momento, pode levar mais de 5 anos a fila de espera para ter um cartão de residente para estacionar - um cartão por fogo obviamente. Contrariamente ao que se afirmava na altura, Amesterdão continua a ter as rendas e o preço por metro quadrado mais altos da Holanda - tanto para espaço residencial, serviços ou comércio. De facto o problema é o oposto: como evitar a gentrificação do centro, apesar de existir uma politica de rendas controladas que, apesar dos seus problemas, consegue manter pessoas de baixos rendimentos no centro.

Parte desta história foi contada há mais de dez anos em Lemmers, L., 1995, ' *How Amsterdam plans to reduce car traffic*', World Transport Policy and Practice', 1 (1), pp25-28. Leo Lemmers finda o seu artigo da seguinte forma:

"To see the real effect [da politica de restrição ao estacionamento], some patience will be required. It will certainly take another ten years to see whether Amsterdam really has set an example for the rest of Europe."

Talvez agora valha a pena voltar a ver as fotografias e procurar os capacetes, as ciclovias e os lugares de estacionamento.

Mário Alves (Mestre em Transportes pelo Imperial College London e consultor de transportes e gestão da mobilidade)

Subida do preço do petróleo e o futuro energético

É o tema do meu artigo deste fim-de-semana publicado no portal Esquerda.net.

sexta-feira, março 14, 2008

Reservas Mundiais de Combustíveis Primários

As reservas estimadas em milhares de quads (1 quad=1018 joules):

Petróleo - 10
Gás Natural -10
Urânio -10
Carvão - 140

Fonte: Jeffrey P. Freidberg, MIT

Se continuarmos a consumir petróleo ao ritmo actual as reservas estimadas serão esgotadas lá para o final do século com duas consequências muito negativas: vamos poluir mais dado que a alternativa mais abundante é o carvão, mais poluente, e vamos prolongar o aquecimento global, dado que o excesso de CO2 que não é absorvido por mecanismos naturais permanece na atmosfera durante mais de 100 anos.

Aproveito para informar os caríssimos leitores que este vai ser o assunto do meu artigo no portal Esquerda.net deste fim-de-semana.

quinta-feira, março 13, 2008

Barril de petróleo a 110 dólares

O barril de petróleo a 110 dólares deveria colocar sérias questões sobre o nosso modo de vida, mas não, à parte uma ou outra reacção mais esclarecida, continuamos para bingo, como se o petróleo fosse infinito e barato para sempre.

Casino Générale II

Foi ontem revelada a cumplicidade de Moussa Bakir com Jérome Kerviel, no caso de fraude da Société Générale. A lista de cúmplices poderá não ficar por aqui, o que compromete a tese de uma acção isolada. Tal como compromete este tese a indiferença dos superiores Jérome Kerviel em relação ao seu trabalho e tal como compromete a queixa em nome colectivo apresentada em Nova Iorque pelo gabinete de advogados Cohen Milstein Hausfeld & Toll contra a Société Générale por lacunas no controlo interno do Banco.

terça-feira, março 11, 2008

A esquerda segundo Negri, Žižek e Bensaïd

A nova revista "La Revue Internationale des Livres et des Idées" publicou no seu número 3 a crítica literária de Negri, Žižek, Bensaïd, entre outros, a obras que reflectem sobre o pensamento de esquerda.

segunda-feira, março 10, 2008

Uma Grande Vitória da Laicidade

No contexto de forte apelo ao voto contra o PSOE por parte de importantes figuras do clero espanhol, como foi o caso do bispo Antonio Maria Rouco, por parte da Opus Dei e de outras organizações órfãs da Santa Inquisição e por parte ainda de grupos pró-franquistas, a vitória de Zapatero é também uma grande vitória do conceito de laicidade num país profundamente católico. Os espanhóis perceberam bem a diferença entre a prática religiosa, que se quer privada, e a prática política, que deve ser universal, para todos, para crentes e não crentes.

A má imagem que parte do clero espanhol transmitiu ao resto da Europa, durante as semanas da campanha eleitoral, uma imagem retrógrada, preconceituosa e de intromissão em assuntos públicos, ficou registada e servirá de exemplo futuro de como o clero não se deve comportar em sociedades modernas e laicas.

domingo, março 09, 2008

África responde a Sarkozy



Um conjunto de intelectuais africanos respondem ao discurso de Nicolas Sarkozy proferido em Dakar no passado 26 de Julho. O discurso de Sakozy foi amplamente classificado de revisionista, tendo Bernard Henri-Lévy classificado de racista o autor do texto lido por Sarkozy, Henri Guaino.
Isto é o resultado desse patrulhamento ao politicamente correcto, tão na moda, que confunde franqueza com falta de respeito, o discurso de Guaino lido por Sarkozy não é um discurso franco é um discurso ofensivo que se esconde atrás daquela pretensão infantil de se ser politicamente incorrecto.

sexta-feira, março 07, 2008

Reia, o primeiro satélite com anéis



Tudo indica que foi detectado pelo menos um anel em torno de Reia, um dos satélites de Saturno, por um dos instrumentos da sonda Cassini concebido para estudar as atmosferas e as partículas em torno do planeta e das suas luas.

quarta-feira, março 05, 2008

O Árctico, o Antárctico e o aquecimento global

Publicado no portal Esquerda.net:

As regiões polares do nosso planeta reagem de forma diversa às alterações do clima provocadas pelo aquecimento global. A calote polar do Árctico é consideravelmente mais sensível à variação da temperatura média da Terra, enquanto o Antárctico responde de uma forma muito mais lenta às mesmas variações de temperatura. Um artigo de Spencer Weart, especialista em história da ciência, publicado no sítio RealClimate descreve com rigor as diferenças entre as duas regiões polares.

Desde há cerca de 25 anos que os modelos que descrevem a evolução do Antárctico em função do aquecimento global, prevêem correctamente que a região do Pólo Sul se mantenha fria. Fundamentalmente, esta conclusão decorre da capacidade calorífica da imensa calote polar e da gigantesca massa oceânica que envolve a Antárctida. O aumento da temperatura originado na atmosfera pelos gases de efeito de estufa tem, numa primeira fase, impacto directo apenas sobre as camadas oceânicas mais externas, dado que são estas as primeiras a absorver o excesso de energia capturada pelo planeta. À medida que a concentração dos gases de efeito de estufa aumenta, a dispersão do calor nos oceanos vai progredindo até profundidades sucessivamente superiores, mascarando temporariamente a percepção do aquecimento global. O modelo de Schneider e Thompson1 mostra que o superior volume oceânico do Hemisfério Sul se traduz numa resposta ao aquecimento global desfasada de alguns decénios à posteriori em relação à resposta das massas oceânicas do hemisfério norte, bem menos abundantes. Adicionalmente, a mistura de águas quentes e frias que ocorre a profundidades consideravelmente superiores no Hemisfério Sul em comparação com o Hemisfério Norte, explica também que os mais recentes modelos do clima da Antárctida indiquem que este continente não aqueça perceptivelmente antes de o clima no resto do planeta ter sido alterado radicalmente. Se pelo contrário se verificasse um aquecimento regular e generalizado da Antárctida num curto período de tempo isso significaria que o clima nas restantes regiões da Terra teria entrado numa fase de alterações radicais e consideravelmente perigosas para a humanidade.

Recentemente, o estudo das massas polares tem progredido bastante graças à observação por satélite. O ENVISAT é actualmente o satélite meteorológico da ESA que mais tem contribuído para o conhecimento das alterações climática nos pólos do nosso planeta. Esta animação da NASA composta por imagens de satélite mostra o rápido degelo a que tem estado sujeito o Árctico entre 1979 e 2006, tendo o ENVISAT registando no passado Setembro de 2007 a menor cobertura de gelo do Árctico registada até hoje2 (imagem ESA) em trabalho publicado recentemente da autoria de Comiso e Parkinson.

1- Stephen H. Schneider and S.L. Thompson, J. Geophysical Research 86: 3135-3147 (1981).
2- Josefino Comiso and Claire Parkinson, Geophys. Res. Lett. 35, L01703 (2008)

segunda-feira, março 03, 2008

Klepsýdras de Ouro 2007

Melhor Filme

"Conversas com o meu Jardineiro" de Jean Becker, o meu prémio à simplicidade.
Ler comentário na rubrica Klepcinema.


Melhor Actriz

Romola Garai pela sua interpretação no filme Angel

Melhor Actor

Dominique Pinon pela sua interpretação no filme Romance de Gare


Melhor Filme Fantástico
"Inland Empire" de David Lynch
(neste caso fantástico num sentido mais lato)

Melhor Filme Político
"Our Daily Bread" de Nikolaus Geyrhalter

Melhor Diálogo
"99 Francos" de Jan Kounen
Octave e Charlie trabalharam durante semanas num anúncio publicitário sofisticado para um empresário de iogurtes. O empresário, um básico, chumba o anúncio. Num acesso de raiva Octave e Charlie esboçam um novo anúncio publicitário para o empresário do iogurte em menos de um minuto, em tom jocoso e cínico, ao som de uma musiquita publicitária leve e fresca (ver cena no Daily Motion). Este é uma entre muitas cenas deste filme onde os diálogos e a voz off debitam jogos de palavras cheios de ironia e de um cinismo bem humorado bem ao estilo da obra de Beigbeder que deu origem ao filme.

domingo, março 02, 2008

Klepsýdras de Ouro (Palmarés)

A atribuição das Klepsýdras de Ouro está por horas. Já sabem que têm autorização para montar as tendas, no máximo dos máximos a 2 metros e meio da passadeira de veludo azul. Como é habitual apelo ao civismo não se empurrem, nem atirem papéis para o chão e sobretudo não fumem! Este é um blogue onde não se fuma!! Os transgressores serão fustigados com uma chibata de vime (dói? ah pois dói!). Para já deixo-vos o palmarés deste prestigiadíssimo prémio.


Palmarés
Melhor Filme
2006:"Partículas Elementares" de Oskar Roehler
2005:"L'Enfer" de Danis Tanovic
2004:"A Queda" de Oliver Hirschbiegel

Melhor Actriz
2006: Martina Gedeck pelos filmes "Partículas Elementares" e "As Vidas dos Outros"
2005: Isabelle Carré pelo filme "Entre ses Mains" e Cécile De France pelo filme "As Bonecas Russas"

Melhor Actor
2006: Denzel Washington pelo filme "Infiltrado".
2005: José Garcia pelos filmes "A Caixa Negra" e "Golpe a Golpe"

Melhor Filme Fantástico
2006: "Perfume" de Tom Tykwer
2005: "A Caixa Negra" de Richard Berry

Melhor Filme Político
2006: "As Vidas dos Outros" de Florian Henckel von Donnersmarck
2005: "ENRON: The Smartest Guys in the Room" de Alex Gibney

Melhor Diálogo:
2006: "Infiltrado" de Spike Lee
2005: "ENRON" de Alex Gibney

Cartões de crédito só para maus pagadores

O Egg e o Goldfish são alguns dos bancos britânicos acusados de anular ou limitar o uso de cartões de crédito aos bons clientes, aos que pagam a sua conta a tempo e horas. Os clientes que pagam tarde, pagam juros, e mais juros pagam quanto mais tarde pagarem, são esses os clientes que dão mais lucro à banca nos serviços de cartão de crédito.
Esta notícia da BBC é um exemplo perfeito da ilusão da crença na bondade da mão invisível de Adam Smith, a crença de que o mercado é que sabe o que é melhor para o cidadão.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

No Vale de Elah



Entre os realizadores de Hollywood, o canadiano Paul Haggis é provavelmente o melhor realizador em exercício. As personagens dos filmes de Haggis têm densidade, têm nuance, não são estereotipadas, nem categóricas, nem infantis como é tão habitual no cinema de Hollywood. "No Vale de Elah" é apenas o segundo filme de Paul Haggis realizado para cinema. Depois desta obra e do premiado "Colisão", Haggis ainda não desiludiu e deixou a fasquia muito alta para o seu próximo filme.
Tommy Lee Jones interpreta, Hank Deerfield, o pai de um soldado americano que foi assassinado após o seu regresso do Iraque. Deerfield é um veterano de guerra, familiar com o meio militar, que ajudado pela detective Emily Sanders (Charlize Theron) vai reconstruir parte do percurso do seu filho no Iraque e nas suas desventuras nos EUA, já depois do seu regresso. Esta obra mostra o lado chocante da fase de ocupação do Iraque, mostra jovens que largaram as consolas e os jogos de computador há pouco tempo e se encontram num terreno hostil com as mesmas armas, os mesmos veículos, os mesmos objectos, só que desta vez são reais, ferem, matam e mutilam. O cenário dos jogos mistura-se com o real, os telemóveis registam imagens cruéis que depois vistas à posteriori, já arrancadas do seu contexto real, passam a ser banais. A alienação e uma certa infantilidade dos soldados é muito bem caracterizada por Haggis e contrastam com a formação militar de Deerfield. Fica a sensação que esta guerra é feita, mais do que em outras ocasiões, por rapazitos imaturos, contudo mais arrogantes e em posse de armas muito mais eficazes.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Estrelas de Klepcinema

As estrelas Klepcinema de 2007:

No Vale de Elah (Paul Haggis) ****
O Escafandro e a Borboleta (Julian Schnabel) ****
A Guide to Recognizing Your Saints (Dito Montiel) ****
99 Francos (Jan Kounen) ****
4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (Cristian Mungiu) ****
Conversas com o meu Jardineiro (Jean Becker) ****
Romance de Gare (Claude Lelouch) ****
Our Daily Bread (Nikolaus Geyrhalter) ****
Angel (François Ozon) ****
Michael Clayton (Tony Gilroy) ***
Le Serpent (Eric Barbier) ***
Jesus Camp (Heidi Ewing e Rachel Grady) ***
Izgnanie (Andrei Zvyagintsev) ***
Os Fantasmas de Goya (Milos Forman) ***
La Sconosciuta (Giuseppe Tornatore) ***
We Feed the World (Erwin Wagenhofer) ***
O Lado Selvagem (Sean Penn) ***
Não Digas a Ninguém (Guillaume Canet) ***
Inland Empire (David Lynch)***
Leões e Cordeiros (Robert Redford) ***
Este País não é para Velhos (Ethan e Joel Cohen) **
Zodiac (David Fincher) **
Promessas Perigosas (David Cronenberg) *
A Invasão (Oliver Hirschbiegel) *

Este ano não há cinco estrelas.
Como é habitual vão ser atribuidas as Klepsýdras de Ouro referentes a 2007. Lá para o final da semana o júri tornará pública a sua decisão.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Sobre o Carneirismo Atlantista

Assim que saiu no Expresso já tinha tentado sem sucesso encontrar uma ligação para este excelente texto da Ana Gomes, agora publicado na Aba da Causa. É um texto muito pertinente sobre esse atlantismo acrítico, um carneirismo que tudo aceita, que fecha os olhos Guantanamo, que reage com um encolher de ombros às provas falsas de armas de destruição em massa no Iraque. É por causa desse carneirismo atlantista, dessa forma acrítica de gerir a nossa política de alianças que sou a favor (provavelmente como a esmagadora maioria dos europeus) da nossa saída da NATO.

A Vigarice das Entradas

"O último hábito, o de impingir entradas nos restaurantes, é particularmente significativo. Só quem já foi ao restaurante com estrangeiros em Portugal (eu já fui muitas vezes) sabe como isto é confrangedor. Não se sabe se se lhes há-de explicar (e não os deixar à vontade) ou não dizer nada (e explicar no fim, quando vem a conta). A explicação para esta pequena vigarice ser tão generalizada é que ela traduz-se num lucro certo para o restaurante. Se o cliente for estrangeiro não sabe e é enganado (e dificilmente reclama num país estrangeiro onde nada funciona)."
Filipe Moura no Cinco Dias

Também eu Filipe, já passei por essas vergonhas na presença de estrangeiros. E quando eles me contam que foram a restaurante X e que foi caro não sabem porquê, eu a imaginar a parcela das entradas...
Só uma pequeno reparo Filipe, não confundas liberais com ultra-conservadores. ;)

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Um Cohen fraco e um Bardem pobre

Sou um fã dos irmãos Cohen (grande Barton Fink) e de Javier Bardem (excelente em Em Carne Viva, Às Segundas ao Sol e em Mar Adentro), por isso não perdi "Este país não é para velhos". A decepção foi grande. O filme de facto apresenta grandes momentos de verdadeiro cinema, excelentes enquadramentos, deliciosos diálogos cheios de ironia, acção e violência implícita que resulta bem melhor do que a explicita (poupa-nos a cena de tiroteio no deserto). Mas este filme, que chega a ter momentos empolgantes, mergulha em lado nenhum numa retórica de "moral da história" em estilo de velho cowboy, em diálogos que oscilam entre a resignação e o irritante categórico tão típico do mau cinema da hollywood e que culmina numa cena arrancada a ferros, de um aleatório exagerado, só para justificar a "moral da história".
Moral da história: 2 estrelas em 5.
A personagem de Bardem poderia ter sido interpretada por Schwarzenegger que não se perdia nada. Bardem, volta para Espanha por favor!

sábado, fevereiro 23, 2008

Ferrero Garden



Só para fazer inveja à malta em Portugal, aproveito a oportunidade para apresentar os novíssimos Ferro-Roché à venda em Itália, chamados Ferrero Garden. Nham, nham!

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Produtividade Baixa, Salários Altos e Pasmaceira

Um país que tem uma das taxas de produtividade mais baixas da UE, cujos os empresários apresentam as qualificações mais baixas e cujos salários são acima dos salários de empresários de países ricos, altamente qualificados, com taxas de produtividade das mais elevadas do mundo, este país, é um país pouco sério. Mas o pior, o que é mais deprimente, é uma parte da oposição, da oposição crítica, não dar importância ao facto, é ouvirmos uma Quadratura do Círculo onde são condenadas as palavras de Cavaco quando este advertiu que os rendimentos de altos dirigentes de empresas são "injustificados e desproporcionados, face aos salários médios dos seus trabalhadores". Que raio de país é este, que raio de oposição crítica é esta, que raio de sentido crítico é este?!

Vivemos centrados na oposição ao superficial, às gravatas e ao fato de Sócrates, aos cartazes da West Coast, à banalidade sobre o primeiro-ministro nos media e esquecemos questões importantíssimas, esquecemos os roubos gigantescos que passam através de paraísos fiscais, esquecemos o abandono escolar, esquecemos o baixíssimo nível educacional e pior que tudo, tapamos os olhos às disfuncões terríveis das nossas empresas, aos "rendimentos" desproporcionados. Esses "rendimentos" que não são pequenas percentagens, que não são limitados a um ou a outro empresário, que se estendem a uma boa fatia de quadros das empresas cotadas em bolsa, que são "rendimentos" vestidos de acções, de títulos, de bónus, de viagens e de contas bancárias e investimentos semi-informais.

Este estado de pasmaceira crítica em que vivemos teve o seu ponto alto nesta entrevista realizada pelo Expresso a António Barreto e a Pacheco Pereira (lá iremos). Aquela que deveria ser A análise crítica do ano, é um momento político deprimente em que os intervenientes se perdem nas inevitáveis banalidades sobre Sócrates. Dá vontade de sair do país, de deixar isto entregue à bicharada. Se esta oposição é representativa de uma parte da oposição crítica que temos, isto mete medo!

Bolonha dos sabores

Tortellini, tortelloni,
alla ricotta o al ragù,
Tortellini, tortelloni,
con zucca e senza zucca,
Tortellini, tortelloni,
a nadar de costas, crawl e bruços no prato.

Uma piscina, duas piscinas, três piscinas, no Mercatto delle Erbe,
cores, cheiros, mais cores e intensos cheiros,
beringela, rúcula, san giovese, pasta fresca,
tomate que sabe a tomate, azeite em garrafa escura e parmesão de 24 meses.
Os olhos já transmitiram o estímulo ao estômago...
Um Campari-laranja e buon appetito da Bologna!

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Eclipse Total da Lua



Aqui o horário em CET para ver o eclipse da próxima madrugada. Acima o mapa de visibilidade para os caríssimos leitores que estão espalhados pelo mundo.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Debate: Cultura e Coimbra



Um apelo a todos os conimbricenses que puderem comparecer a este debate sobre a cultura na nossa cidade. Uma cidade que alberga a melhor Universidade do país e que possui um tecido intelectual invejável na nossa pobre Lusitânia não pode contentar-se com uma vida cultural digna de uma aldeola alemã ou francesa. A Câmara Municipal tem culpa no impasse que vive a cidade, efectivamente a filosofia da cultura exclusivamente financiada por ricos, apresenta resultados miseráveis, praticamente nulos, e continua a excluir a periferia e a baixinha da cidade. Mas a massa intelectual de Coimbra tem que se consciencializar definitivamente que deverá ter mais iniciativa, iniciativa não só para denunciar a inacção do executivo de Carlos Encarnação, mas iniciativa para debatermos mais, com mais regularidade, para debatermos livros, filmes, política, ciência, arte, debatermos a cidade, o rio, os arredores e a região. Contem comigo para o que for possível.

A Nacionalização do Northern Rock

A nacionalização do Northern Rock é um acontecimento extraordinário, mais extraordinário ainda por ocorrer no país que alberga a maior praça financeira do mundo, num dos mais sagrados templos do ultraliberalismo. O que está a acontecer é uma heresia tão grande como vender coca-colas na sede do partido comunista da Coreia do Norte.
Esta crise económica até pode ser cíclica, mas está a revelar bizarrias que há muito não se viam e quando são públicas coisas bizarras e humilhantes na alta finança é porque o que se esconde provavelmente deve ser bem pior. É neste capítulo que a UE deveria intervir de uma forma importante para se determinar até onde é que o o casco do barco está podre, usando de todo o seu poder e influência, no Banco Mundial e na OMC, deixando de lado por uma vez o carneirismo atlantista.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

50 Anos de Conquista do Espaço

A Science&Vie lançou um número especial dedicado aos 50 história de exploração espacial, desde o Sputnik até aos dias de hoje. Esta edição apresenta um formato de grande revista que permite apreciar em todo o seu esplendor fotografias em grande formato, são 150 fotos, entre as quais variadíssimas fotografias do Universo tiradas pelo Hubble, as fotos dos primeiros cosmonautas russos, de Cabo Canaveral ou dos primeiros homens na Lua. Para os aficionados destas coisas é uma edição a não perder.

O Terrorismo Islâmico na Bósnia e no Kosovo

Vale a pena passar os olhos por esta obra de Jürgen Elsässer, numa semana em que a Administração Bush através do seu apoio cínico à independência do Kosovo conseguiu com sucesso fomentar mais uma dose de confusão na Europa. A obra de Elsässer descreve com rigor como a CIA esteve envolvida no recrutamento e no treino de grupos islâmicos que lutaram na Bósnia e no Kosovo e mostra a extensão da hipocrisia, da realpolitik de Washington, mostra como para os EUA há terroristas bons e há terroristas maus (tens toda a razão Daniel).
Mas... a grande ironia da investigação de Elsässer é a revelação que alguns dos operacionais que foram generosamente treinados pela CIA na Bósnia estiveram activamente envolvidos na preparação do 11 de Setembro. Será isto um gigantesco boomerang assente bem no meio da cabeça ou não, caro Pacheco Pereira?

domingo, fevereiro 17, 2008

Não há Pacheco Pereirismo Moderado

Assim que ouvi a notícia do pedido de perdão do governo australiano aos arborígenes, esperava a indignação de Pacheco Pereira, esperava um daqueles artigos amargos e esperava, obviamente, um texto cheio de referências obsessivas ao "politicamente correcto". O texto surgiu, não me enganei. Qualitativamente resume-se em três pontos:

1) Muito bem documentado sobre a história recente da Austrália;
2) Fraco e diria até escorregadio na sua conclusão política, na teoria do boomerang;
3) Radical na sua linha política.


Sobre o ponto 2), na conclusão do texto podemos ler:
"Há certas ideias que funcionam como o boomerang, a gente atira-as convencidos das nossas melhores intenções e elas voltam para nos bater na cabeça."

Sobre este caso não há um único indício no texto que fundamente que esteja eminente qualquer efeito boomerang na Austrália. Pior ainda, alguns de nós ainda se recordam certamente dos distúrbios racistas ocorridos em Cronulla em 2005. É certo que não ocorreram contra australianos arborígenes, mas ocorreram contra outros australianos, australianos "estrangeiros", quase arborígenes, quiçá entre eles alguns luso-descendentes. No entanto, em Cronulla o boomerang bateu mesmo. E em que cabeça bateu? Será que bateu ou não em todas as cabeças que defendem os pilares fundamentais da democracia?

Sobre o ponto 3) esta passagem do texto é bem ilustrativa:
"se tomarmos à letra o significado profundo destes pedidos de perdão pela História, ainda acabamos por dar razão à Al-Qaeda, que nos considera como "cruzados", logo um alvo a abater pelo novo Saladino"

Estamos no mesmo registo do "não há Islão moderado", bem denunciado pelo FNV do Mar Salgado. Estamos no registo de um mundo muito simples, de um mundo onde os maus e os bons são marcados a tinta fluorescente de cor diferente, onde não há Islão moderado, que no fundo é o mesmo tipo de mundo dos que consideram que todos os Israelitas são ortodoxos e gananciosos, todos os Mexicanos são malandros e que todos os negros são pouco inteligentes. É um mundo sem gente moderada, ou são bons ou são maus. E se por acaso alguns de nós, dos bons, brancos, católicos, ocidentais, tal como o Primeiro-Ministro australiano, adoptarmos um gesto de respeito (aqui trata-se apenas e só de respeito, ler "Sul Politically Correct", em "A Passo de Caranguejo" de Umberto Ecco) em favor de um dos que está marcado com tinta fluorescente de uma cor diferente da nossa, automaticamente "acabamos por dar razão à Al-Qaeda". Grande conclusão, uma conclusão moderada, sem dúvida moderada...

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

A Nacionalização da Alta Finança

Ainda em 2007 o FMI publicou um relatório em que os fundos soberanos eram estimados em cerca de 10 % dos activos controlados pelos investidores ou seja cerca de 53 biliões de dólares. A taxa de crescimento destes fundos no mercado internacional é estimada a cerca entre 800 e 900 mil milhões de dólares por ano. Em jeito de provocação, pode-se concluir que a sobrevivência do ultraliberalismo está a depender cada vez mais da sua nacionalização.
Ler artigo de Alexandre Kokcharov, Expert

Moeda de reserva Euro vs Dólar
Em 1997, mais de 80% das reservas de divisas do planeta eram em dólares. Em 2006 eram apenas 66,5% eram em dólares e no terceiro trimestre de 2007 cerca de 63,8%. No mesmo período o euro cresceu de 24,4% para 26,4% da proporção de reservas (ler mesmo artigo).

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Os Fundos Soberanos em Números

Ironia das ironias, os monstros sagrados do ultraliberalismo, a banca e as grandes instituições financeiras, estão a recorrer em massa aos fundos de investimento dos Estados (fundos soberanos) para salvar as pratas e as porcelanas. E os Estados a que recorrem não são Estados quaisquer, é cada um melhor que o outro, vejamos alguns exemplos:

Citigroup: 7,5 mil milhões de dólares (5,2 mil milhões de euros) da Abu Dhabi Investment + 6,8 mil milhões de dólares de Singapura;

Morgan Stanley: 5 mil milhões de dólares da China Investment Corporation (CIC);

Merrill Lynch: 5 mil milhões de dólares de Singapura + 6,5 mil milhões de dólares do Kuwait + 2 mil milhões de dólares do Korean Investment Corporation;

Bear Stearns: Mil milhões de dólares da CIC;

UBS: 10 mil milhões de dólares de Singapura.


Acho espantosa a relativa indiferença com que os nossos media têm tratado este assunto. A crise financeira internacional que atravessamos é gravíssima, também toca o nosso sistema financeiro, há gente a roubar à grande, ou a tentar esconder à pressa o que andou a roubar à grande durante anos e os nossos media continua focados em banalidades sobre a ASAE, banalidades sobre Sócrates, banalidades sobre se se pode fumar numa cabine telefónica ou no cu de Judas e, como sempre, focada sobre o pequeno delito, o roubo de bairro, a habitual histeria em frente ao microfone.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Hirsi Ali pede nacionalidade francesa

Hirsi Ali, que realizou com Theo Van Gogh o filme Submission, pediu a nacionalidade francesa após uma campanha de apoio em seu favor lançada por Carolin e Fourest e Bernard-Henri Lévy depois da sua expulsão da Holanda. A miserável vida de Hirsi Ali, em fuga constante das ameaças do islamismo radical, deveria envorgonhar a Europa, a Europa das liberdades. É em ocasiões como esta que um hipotético estatuto de cidadania europeia seria muito bem-vindo, poderia contribuir para resolver situações de profunda injustiça e de atentado às liberdades que notoriamente os estados individualmente são incapazes de resolver.

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Acertar contas com Bush e os neocons

Excelente a crónica deste sábado do Nicolau Santos sobre as prestações dos presidentes Bush-pai, Bush-filho e Bill Clinton. Destaco as seguintes passagens que desmontam muitos dos mitos políticos que são criados por lá e engolidos inteirinhos por cá, sobre politica social e económica:

"Bill Clinton foi, de muito longe, melhor presidente que os Bush pai e filho. O crescimento nos oito anos em que viveu na Casa Branca foi, em média, de 3,7375% contra 2,275% de Bush filho durante um período idêntico e de 2,075% nos quatro anos que o pai Bush passou em Washington."

"...enquanto Clinton introduziu maior justiça na sociedade americana, criando os programas de saúde Medicare e Medicaid, Bush vai sair com um orçamento onde propõe cortes significativos nestes programas e um aumento das despesas familiares em 7,5%."

"...os neoconservadores que apoiaram George W. Bush estão confrontados com a sua herança: um país à beira da recessão, perdendo peso no contexto internacional para as novas potências emergentes, com um aumento substancial do fosso entre a minoria dos mais ricos e todos os outros, com uma enorme crise no sistema financeiro, como resultado do processo de desregulamentação que defenderam, com grandes bancos americanos a ter de aceitar a humilhante entrada de fundos soberanos de países asiáticos no seu capital para evitar a falência e com o dólar a perder posição, enquanto moeda da pagamento internacional, para o euro."

A Primeira Noite



"A Primeira Noite", realizado em 1967 Mike Nichols é um dos filmes que melhor representam o ambiente de contestação do flower power, da condenação da guerra do Vietname nos EUA e que culminou com o Maio de 68 em França. Todos os elementos fundamentais dessa que foi a revolução mais genuína e mais bem conseguida do século XX estão representados nesta obra de Nichols. A cisão com o autoritarismo, com a sociedade consumista de sorriso colgate e com o moralismo religioso é aqui representada através do percurso e das peripécias amorosas de Benjamin Braddock (Dustin Hoffman), um recém licenciado, após o encontro com Mrs. Robinson (essa mesmo, a do tema de Simon e Garfunkel). A mesma Mrs. Robinson que representa a hipocrisia moralista da época, lança Benjamin numa espiral de questões sobre o seu futuro, sobre a superficialidade da sociedade que o rodeia e que o enche de tédio. Apesar da forte componente política, "A Primeira Noite" é um filme romântico, no melhor do que o flower power teve para oferecer.
Dustin Hoffman tem nesta obra uma das suas mais interessantes interpretações, naquele que foi apenas o segundo filme da sua carreira.
É fortemente aconselhado o aluguer deste filme no vosso video-clube.

Mrs. Robinson

We'd like to know a little bit about you
for our files we'd like to help you to learn to
help yourself
look around you all
you see are sympathetic eyes stroll around the
grounds
untill you feel at home

and here's to you Mrs. Robinson
Jesus loves you more than you will know
god bless you please Mrs. Robinson
heaven holds a place for those who pray

hide it in a hideing place where no one ever goes
put it in your pantry with with your cupcakes
It's a little secret just the Robinsons' affair
most of all you got to hide it from the kids
and coo coo cachoo

Mrs. Robinson
Jesus loves you more than you will know
god bless you please Mrs. Robinson
heaven holds a place for those who pray

sitting on a sofa on a Sunday
afternoon going to the canidtaes debate laugh
about it shout about it when you got to choose
every way you look at it you loose
where have you gone Joe DiMaggio
a nation turns It's lonely eyes to you whats that
you say

Mrs. Robinson Joltin' Joe has left and gone away

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

O início da destruição da Costa Alentejana

Há anos que a destruição da Costa Alentejana estava anunciada, esta notícia do Público dá-nos a data do seu início.

O Bruno Sena sobre Sócrates

Abstraindo-me de polémicas frescas, concordo completamente com a análise a José Sócrates feita pelo Bruno, sobretudo com as seguintes passagens: "Para uma agenda ideológica em fundo falta-lhe ideologia" e "A presidência da União Europeia deixou perceber alguns sinais de deslumbramento infantil".

PS- Ainda gosto mais do texto do Bruno quando penso na abundante banalidade que se escreve sobre Sócrates. A mais engraçada é a acusação de que Sócrates controla os jornalistas, da parte de quem tem inúmeras tribunas nos jornais, na TV e está presente mais vezes nos media do que o próprio Primeiro Ministro.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Daily Motion, o you tube francês

Criado por uma empresa francesa, Daily Motion é um serviço muito similar ao You Tube. A grande diferença é a qualidade do seu conteúdo, tem menos palhaçada e mais assuntos sérios. Por exemplo, quem gosta de debates pode encontrar com facilidade alguns dos grandes clássicos do debate político francês, algo quase inexistente no You Tube.

sábado, fevereiro 02, 2008

Sábado em Coimbra XXXVIII: O Emanuel

O Emanuel é um ciganito romeno, talvez dos seus 10 anos,
O Emanuel costuma cravar-me na esplanada do Santa Cruz,
ele já sabe a resposta: "oh Emanuel tens que ir para a escola",
se fosse um dos outros miúdos ali da Baixa, mandava-me logo para o caralho.
Mas o Emanuel não, faz um ar triste, os pais destinaram-lhe a rua.

Diariamente, Carlos Encarnação, o Presidente da Câmara, passa por ali a pé,
não é cego, vê o Emanuel e outras crianças por ali a pedir.
Observo a sua cara de preocupado.
Para o Emanuel, a escola bem pode esperar...

Sábado em Coimbra XXXVII