terça-feira, setembro 25, 2007

Roman de Gare

"Roman de Gare" passou a ser o meu filme preferido de Claude Lelouch ("Uns e Outros"). Gostei deste policial que se constrói em torno da escrita de um livro. Esse livro intitula-se "Roman de Gare" e foi encomendado a um "escravo" (Dominique Pinon) pela escritora Judith Ralitzer (Fanny Ardant). Desde a primeira cena começamos a antecipar um crime (ou vários) que parece estar ligado à escrita livro. Será esta uma escrita maldita? A escrita de um assassínio em directo? A trama deste filme vai tomando contornos imprevistos à medida que as personagens oscilam entre uma confrangedora inocência e uma sofisticada perversão. Lelouch alimenta deliciosamente o suspense através do enquadramento de um copo de vinho, um olhar ao espelho e uma manhã de nevoeiro a bordo de um barco. Lelouche prescinde de revólveres e objectos cortantes. A arma do crime é a sofisticação...

"Roman de Gare" é uma oportunidade para apreciar dois dos meus actores preferidos: a grande diva do cinema Fanny Ardant e Dominique Pinon (excelente interpretação). A actriz Audrey Dana é uma bela revelação.

Ler ainda o David Luz sobre Roman de Gare cuja opinião é negativa.

segunda-feira, setembro 24, 2007

A ciência e a sociedade

Este texto do Prof. Carlos Fiolhais aborda um dos maiores desafios da ciência dos nossos dias: a sua interacção com a sociedade. Saber analisar os problemas em função de probabilidades e de incerteza é fundamental na complexidade do mundo de hoje. O texto dá o exemplo do caso Madeleine, dos transgénicos e da nova barragem no Alto Sabor, mas muitas outras questões se levantam quotidianamente. O dramático é que a generalidade dos portugueses não está habituado a formular os problemas dessa maneira. A importância do método científico, da matemática e da estatística tem que ser realçada na escola, sob a pena das sociedades modernas formarem cidadãos inadaptados e hostis à complexidade dos novos tempos.

domingo, setembro 23, 2007

Aprende a manipular e não serás manipulado!

Esta semana foi lançado em França o filme "99 francos", baseado no romance do mesmo nome de Frédéric Beigbeder. Depois de anos a trabalhar na arte de manipular os hábitos de consumo dos franceses, Beigbeder deixou a profissão de publicitário para divulgar a filosofia empregada pelas grandes empresas na manipulação dos consumidores desde os corredores dos supermercado até aos écrãs de televisão.

Com um percurso profissional semelhante ao de Beigbeder, o espanhol Carlos Ballesteros Garcia criou o site "Consome até morrer", onde as mesmas técnicas empregadas no mundo da publicidade são aplicadas para combater o consumismo.

sexta-feira, setembro 21, 2007

BedZED: o bairro ecológico do sul de Londres



BedZED é um curioso bairro ecológico experimental construído em Wallington no sul de Londres cuja concepção permite atingir impressionantes taxas de economia nos consumos domésticos. O BedZED atinge taxas de redução de 88% no aquecimento, 57% na utilização de água quente e 25% no consumo de electricidade, em relação à habitação média britânica. A sua construção foi
realizada utilizando materiais existentes num raio de 50 km, diminuindo substancialmente a emissão de gases de efeito de estufa durante essa fase. 15% dos materiais utilizados na construção são reutilizáveis ou recicláveis.
O bairro começou a ser habitado desde 2002, seguindo uma filosofia de composição heterogénea dos seus residentes: cerca de 1/3 dos habitantes pertence às classes mais desfavorecidas, 1/3 pertence à classe média e o outro terço à classe alta, entre os quais se encontram alguns dos que projectaram e financiaram o BedZED. Os resultados têm sido muito bons, com as populações mais desfavorecidas a assimilarem em pleno a vida social e a filosofia ecológica do bairro.

Rentrée literária francesa



O programa "Esprits Libres" (TV5 quintas às 22:30 ou France 2 sextas às 22:30) apresentado por Guillaume Durand abriu a rentrée literária francesa com um grande debate sobre o Choque de Civilizações e sobre a rentrée literária nos EUA. O debate entre os autores foi animadíssimo com crises de raiva, muita saliva nos cantos da boca e sorrisos amarelos, enfim um debate como deve ser! "La querelle de l’école" de Alain Finkielkraut e "Le rendez-vous des civilisations" de Emmanuel Todd foram os livros e os autores no centro do debate.

A emissão integral pode ser vista aqui.
Aconselho vivamente todos os que gostam de literatura a passarem os olhos pelo programa. Reparem como é perfeitamente possível fazer um programa televisivo literário interessante, vivo, variado, esteticamente atractivo e que não se destina apenas a elites.

quarta-feira, setembro 19, 2007

A condescendência da direita com o Salazarismo

Não dei muita importância ao facto de os resquícios da extrema-direita em Portugal terem gasto rios de dinheiro a comprar cartões de telemóvel e a ligar de tudo o que era aparelho telefónico para eleger Salazar a grande português. Se isto é o melhor que conseguem fazer em democracia, estamos nós muito bem. Também não dei muita importância ao facto de os antigos bufos (eram mais de 100 mil), ultras, militantes da União Nacional e todos os que comiam do tacho e viviam dos privilégios do Estado Novo terem acompanhado a iniciativa. Tal como já esperava que votassem no ditador todos os que ainda acham que Angola deveria ser nossa, muitos saudosistas, muita gente inadaptada à sociedade aberta em que vivemos hoje.

O que não acho irrelevante é Maria José Nogueira Pinto (MJNP) ter votado em Salazar. MJNP teve um acesso privilegiado à educação, cresceu em berço de ouro, não tem propriamente o perfil intelectual de um bufo reformado do regime ou de um hooligan de extrema-direita. No entanto, considero que perante aquele concurso, e apesar de ser apenas um concurso, o voto de MJNP é do ponto de vista intelectual, um acto de hooliganismo histórico. Perante um leque de ilustres figuras da nossa história, de Camões ao Infante D. Henrique, MJNP preferiu uma personagem senil que contribuiu fortemente para que em 1974 fossemos o país com a maior taxa de analfabetismo, com a pior escola, a pior universidade e uma das taxas de mortalidade infantil mais elevadas da Europa. É um acto de hooliganismo histórico tão potente do ponto de vista simbólico como queimar "Os Lusíadas" ou colocar uma bomba na Torre de Belém. Para além disso é um acto revela alguma ignorância, pois Salazar sempre venerou algumas das figuras do concurso que MJNP desprezou. Um dos ex-libris do Estado Novo, o Padrão dos Descobrimento, dá todo o destaque ao Infante D. Henrique e não ao próprio Salazar. E não é por modéstia de Salazar, é porque Salazar sabia que não chegava aos calcanhares do Infante. Só um salazarista trapalhão (que é a maior parte dos que restam) é que envereda pelo contra-senso de votar em Salazar contra as figuras que o próprio sempre glorificou como exemplares para a pátria.

A dificuldade que a direita tem em sublimar a pesada herança do passado salazarista explica muitas fugas para a frente no debate político, uma das mais representativas é a deste texto de Pacheco Pereira, muito bem desmontada pelo Rui Tavares. O atraso do nosso país deve-se sobretudo ao falhanço de uma ideologia de direita e isso é incómodo mesmo para os políticos de direita mais críticos do Estado Novo, como é o caso de Pacheco Pereira. Ora, o resultado das referidas fugas para frente, mais não fazem do que transmitir uma mensagem de condescendência em relação ao salazarismo, colocam no mesmo plano, valores que não estão no mesmo plano: a tolerância e a xenofobia, o autoritarismo e a democracia, o provincianismo e o multiculturalismo, etc. Ao colocar tudo no mesmo plano, tal como se pode ler no referido artigo de Pacheco Pereira, cria-se uma falsa ideia de que todos partem da mesma base para fazer política, sem que a difícil relação com o passado salazarista se resolva definitivamente. É por isso que MJNP não tem problemas em votar em Salazar, para ela é tudo igual, ou quase igual: autoritarismo e democracia.

PS- Este simpático texto de Pacheco Pereira sobre o hooligan Mário Machado (chamar-lhe skinhead é simpático, dá-lhe o estatuto cultural que ele não tem) é mais uma acha para a mesma fogueira.

terça-feira, setembro 18, 2007

Bélgica à venda no eBay

O humor belga não é muito conhecido na Europa, mas o bizarro episódio ocorrido este fim-de-semana ilustra bem a boa disposição deste povo mesmo quando o assunto é de caixão à cova. Perante a profunda crise institucional em que mergulhou a Bélgica, incapaz de formar governo há mais de 4 meses, acompanhada de inúmeras ameaças de divisão do país em dois ou três estados (Valónia, Flandres e Bruxelas), o belga Gerrit Six, ex-jornalista, decidiu pôr a Bélgica à venda no eBay. O valor da licitação chegou a atingir os 10 milhões de euros. Quem estiver já a pensar comprar o país onde se fazem os melhores pralinés e a melhor cerveja do mundo, tire o cavalinho da chuva, infelizmente a eBay já bloqueou o leilão.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Sobre Michel Houellebecq

Via caixa de comentários:
"Conheci agora o Michel Houellebecq via leitura do livro: Plataforma, é curioso comparar e assinalar as semelhanças e as diferenças deste autor com os anglo-saxónicos: Bret Easton Ellis, Irvine Welsh e mesmo Douglas Coupland, ambos escritores que retratam a vida nas sociedades actuais na sua solidão, vazio e também alegrias. "
Observador

Novo projecto de fusão a laser


O HiPER (High Power laser Energy Research) é o mais recente projecto de investigação cujo o objectivo é a produção de energia por fusão nuclear. O que distingue o HiPER do seu projecto concorrente, o projecto ITER, é o método utilizado para desencadear a fusão. Enquanto no ITER será tentada a realização de fusão através do confinamento magnético de um plasma de baixa densidade durante intervalos de tempo da ordem do segundo, no HiPER o confinamento será realizado por um conjunto de lasers sobre um plasma de alta densidade, durante intervalos de tempo da ordem dos nanossegundos.
O HiPER é um projecto de investigação conjunto de 9 países, entre os quais se conta Portugal. Caso sejam obtidos resultados positivos, abrir-se-á caminho à produção de energia praticamente limpa e inesgotável e contribuir significativamente para a redução da emissão de gases de efeito de estufa e da dependência dos combustíveis fósseis.

quinta-feira, setembro 13, 2007

Caso Dalai Lama faz lembrar o caso Massoud

Em Abril de 2001 o Comandante Massoud, das forças da Aliança do Norte que combatia a Al Qaeda de Ben Laden, foi recebido pelo Parlamento Europeu em Estrasburgo. As várias televisões francesas aproveitaram a oportunidade para entrevistar Massoud, tendo a exposição da situação do Afeganistão dirigido pelos talibãs indignado toda a França. O governo francês não se indignou e desprezou por completo a presença de Massoud em França. Passados 5 meses a Al Qaeda iniciou a sua vaga de atentados assassinando cobardemente o Comandante Massoud a 9 de Setembro de 2001. Dois dias depois, a 11 de Setembro, o governo francês já vociferava contra os talibãs...

Certamente, o governo português também não receberia Massoud, tal como não recebeu o Dalai Lama, mas estará sempre pronto para chorar lágrimas de crocodilo pelo 11 de Setembro. É a escola Kissinger...

Para além de Massoud, o Parlamento Europeu já recebeu o Dalai Lama. Convém ter factos como este em mente, sobretudo quando se fazem críticas cheias de fervor nacionalista à democraticidade das instituições europeias, em particular ao Parlamento Europeu.

Prefiro a música cigana à música pimba

quarta-feira, setembro 12, 2007

Excelente



A primeira vez que a nossa selecção de basquetebol participa num campeonato europeu, fica entre as 12 melhores e vence Israel, um dos gigantes do basquetebol europeu. Perde com a Grécia, a campeã da Europa, apenas por 18 pontos, com a dificuldade acrescida de o nome do jogador número 4 da Grécia ter contribuido fortemente para a desconcentração dos jogadores nacionais. O resultado é histórico e muito se deve ao trabalho da escola da ex-URSS do técnico Valentyn Melnychuk.

terça-feira, setembro 11, 2007

Propinas, Nível Educacional e Abandono Escolar

Portugal é o país europeu com o nível educacional mais baixo da Europa (excluindo Malta): apenas cerca de 26% dos portugueses concluíram o 12º ano, a percentagem da população com o ensino superior é a mais baixa e as taxas de analfabetismo e de abandono escolar são as mais elevadas da Europa. O país europeu cujo nível educacional está a seguir ao nosso é Espanha com cerca de 40% da população com o 12º ano concluído, quase o dobro de Portugal. Há muito que aqui defendo que o combate a este flagelo deveria ser a prioridade número 1 nacional. Por esta razão, à luz dos referidos dados considero que o último parágrafo desta contribuição de Vital Moreira para o debate não traz nada de positivo ao combate do problema. E para não entrarmos em esquemas de pescadinha de rabo na boca respondendo à oposição às propinas afirmando que com mais propinas há mais apoio social escolar, convém ter uma ideia do nível a partir do qual um estudante português tem acesso a esse apoio social e do nível de investimento que os outros países da UE consagram ao apoio social escolar. Os números lançados pelo Pedro Sales são muito significativos. As diferenças negativas de todos os indicadores de apoio escolar não são uns meros 2 ou 3% em relação à média dos restantes países, são cerca de 20% ou mais. Estes números para um país que precisa de recuperar um atraso educacional enorme são uma vergonha. Se o Vital Moreira entregar estes números aos seus pares europeus trocando o nome dos países por letras (Portugal=A, Espanha=B, França=C, etc.), tenho a certeza que lhe responderão que o país A (Portugal) é um país rico, com um alto nível educacional, abandono escolar residual e analfabetismo inexistente. Convido-o vivamente a fazer a experiência via email com os seus ex-colegas da Comissão de Veneza, por exemplo.

O "contra" do Pedro Sales é muito bem fundamentado, está muito longe de ser um "Porque Sim". O "a favor" do Vital Moreira é que é justificado de uma forma muito fraquinha e não é apenas do ponto de vista quantitativo, como demonstram os números lançados pelo Pedro. Do ponto de vista qualitativo gostaria que o Vital Moreira me respondesse objectivamente qual é a racionalidade de, num país que tem de recuperar um enorme atraso educacional, pedir o esforço de investimento a uma larga fracção (já excluindo os ricos) dos que deveriam ser o alvo desse mesmo investimento, pelos custos acrescidos que já comportam? Se há alguma causa pela qual vale a pena pagar impostos em Portugal é a causa da recuperação do nosso atraso educacional, essa sim é verdadeiramente uma CAUSA NOSSA. Para além disso, o Vital Moreira acha que os estudantes deslocados cujos rendimentos familiares ficam um pouco acima do nível para beneficiar do apoio escolar - que é uma grande percentagem dos estudantes nas zonas mais pobres do país - se sentem ou são encorajados para estudar na Universidade com o nível de propinas que é praticado? Sobretudo quando na família e na terrinha ninguém fez esse percurso, não há hábitos de estudo, de leitura e ainda se olha com desconfiança quem estuda.

sábado, setembro 08, 2007

Sábado em Coimbra XXXVII: a serenata

Muita da canção de Coimbra, incluindo aquilo a que se chama Fado de Coimbra, são variações da época em que o Bel Canto e as trovas italianas estavam na moda (meados do séc. XIX). Na altura as serenatas popularizaram-se entre os estudantes tendo atravessado as décadas e as modas até aos dias de hoje.

Coimbra é uma das poucas cidades da Europa do século XXI cujos habitantes têm o privilégio de assistir a uma serenata espontânea. Ela à janela, ele cá em baixo, de guitarra ao peito ou acompanhado por amigos. Aprecio a coragem dos trovadores (eu não me atreveria a tal iniciativa sob o risco de levar com uma arca frigorífica em cima). E aprecio esta resistência romântica da cidade à era do mp3 e do sofá-televisão, uma era interpassiva, como a apelida Žižek por oposição à efectiva interactividade.

Sábado em Coimbra XXXVI

Clooney para as leitoras Klepsýdra

Atendendo a múltiplos pedidos das leitoras da Klepsýdra, alguns acompanhados de protestos e até de ameaças de morte e de amputação de órgãos, decidi abrir uma excepção e fazer-lhes a vontade. Deliciai-vos sem moderação com este spot comercial do Jorge (não sei o que é que vêem neste tipo, o que é que ele tem a mais do que eu, mas enfim...):

quinta-feira, setembro 06, 2007

O Sonho Europeu em português

Graças a um fiel leitor descubro que "O Sonho Europeu" de Jeremy Rifkin foi finalmente traduzido para português (editora ?). É uma obra fundamental para percebermos a especificidade da Projecto Europeu no contexto mundial. Uma obra que recomendo vivamente aos meus leitores, sobretudo para aqueles estão mais à esquerda no espectro político.

Livro Klepsýdra ***** (5 estrelas)

quarta-feira, setembro 05, 2007

Princípio da precaução: UE vs EUA II

"...had the precautionary principle been invoked in the past, many of the adverse effects of new scientific and technological introductions might have been prevented, or at least mitigated, and they cite the introduction of halocarbons, and the tear in the ozone hole in the Earth's upper atmosphere, the outbreak of BSE in cattle, growing antibiotic-resistant strains of bacteria caused by the over-administering of antibiotics to farm animals, and the widespread deaths caused by asbestos, benzene and PCBs."

"The REACH system requires companies to conduct safety and environmental tests to prove that the products they are producing are safe. If they can't, the products will be banned from the market. (...) In America, newly introduced chemicals are generally assessed to be safe, and the burden is primarily put on the consumer and the public at large or the government to prove they cause harm. (...) In the US, regulation is designed, for the most part, to address environmental problems once they occur. (...) The vast majority of non-pesticide chemicals are not screened or tested at all before introduction into the market."

"... the US has integrated aspects of the precautionary principle into some of its environmental regulations, for the most part America's approach and standards are far more lax than the EU's, while still arguably better than those of many other countries."

"For example, in the USA, the Animal and Plant Health Inspection Service, of the United States Department of Agriculture (USDA), is responsible for monitoring health problems in the nation's farm animals and plants. But the USDA is also charged with the responsability of promoting American agricultural products. In countless instances, the department has been less then rigorous in the pursuit of potential adverse environmental and health effects caused by existing agricultural practices"

"What the US didn't understand is that Europe's opposition to the introduction of GMO's was not just a political maneuver to gain a bargaining chip with the US on trade, but something far more important. (...) Europeans argue that because GMOs are alive, reproduce, mutate, proliferate, and can contaminate and create ireeversible niches, they pose potential threats that are global in scale and therefore require a different level of oversight."

"The European Dream: How Europe’s Vision of the Future is Quietly Eclipsing the American Dream", Jeremy Rifkin, ed. Polity, 2004, pag. 321-331

Paul Haggis em Veneza

Paul Haggis, o autor do excelente "Colisão" está presente no Festival de Veneza com o filme "In the Valley of Elah". O filme narra a história do pai de um soldado americano no Iraque que tenta encontrar o paradeiro do seu filho, desaparecido depois de ter regressado aos EUA.

terça-feira, setembro 04, 2007

Princípio da precaução: UE vs EUA

O americano Jeremy Rifkin, um profundo conhecedor da UE (foi conselheiro de Prodi na Comissão Europeia), na sua obra "The European Dream" exprime-se sobre as diferença de filosofia entre a UE e os EUA sobre a introdução de novas tecnologias e de produtos no mercado e na sociedade:

"The European Union is forging ahead on a wide regulatory front, changing the very conditions and terms governing how new scientific and technological pursuits and products are introduced into the marketplace, society, and the environment. Its bold iniciatives put the European Union far ahead of the United States, and the rest of the world in procedures and protocols overseeing scientific and technological endeavors. Behind all of its newfound regulatory zeal is the looming question of how best to model global risks and create a sustainable and transparent approach to economic development."

"Europe's new sensitivity to global risks has led it to champion the Kyoto Protocol on climate change, the Biodiversity Treaty, the Chemical Weapons Convention, and many other treaties and accords designed to reduce global, environmental, and health risks. The US government has refused, to date, to ratify any of the above agreements"

"In November 2002, the European Commission adopted a communication on the use of the precautionary principle in the regulatory oversight of science and technology innovations and the introduction of new products into the marketplace, society, and environment. (...) The first use of the precautionary principle in public policy came in the 1970s in Germany. (...) The precautionary principle «was to be used in situations of potentially serious or irreversible threats to health or the environment, where there is a need to act to reduce potential hazards before there is strong proof of harm, taking into account the likely costs and benefits os action and inaction»"

"The European Dream: How Europe’s Vision of the Future is Quietly Eclipsing the American Dream", Jeremy Rifkin, ed. Polity, 2004, pag. 322-329

domingo, setembro 02, 2007

DOC o belo restaurante de Rui Paula

Era fim-de-semana de Páscoa. Pela manhã, em Pinhão, no coração da região vinícola do Douro dou-me conta de uma triste realidade. Eu e alguns turistas estrangeiros percorríamos a vila como baratas tontas à procura de uma garrafeira ou uma loja de produtos vinícolas. Havia uma garrafeira de jeito, mas estava fechada. Confirmo a minha ideia das minhas mini-férias no Douro. A população local serve feudalmente os produtores das grandes caves e vive completamente desligada do turismo vinícola, ao contrário de outras regiões vinícolas europeias que visitei: Mosela Alemã, Alsácia e Champanhe. Subsiste a cultura dos senhores, dos capatazes e dos miseráveis servos. Chocou-me! O Douro tem a paisagem natural mais bem conservada e mais bonita entre as regiões vinícolas que conheço, mas é de longe a região em que a população local menos aproveita o turismo vinícola, e é por isso que é muito pobre.

À tarde, todas as caves por onde passo estão fechadas. Na maior parte da vilas domina a misturada de estilos, a manhosice arquitectónica típica do nosso país, o Peso da Régua é uma cidade horrível. Já desmoralizado e de partida, paro junto a um belo restaurante na Folgosa. Surpresa! O DOC é um excelente restaurante, com bons vinhos, onde o preço condiz com a oferta. O proprietário, Rui Paula, vem à minha mesa verificar se está tudo bem. Diz-me que abriu o negócio há dois dias. Gabei-lhe a casa e disse-lhe que era uma excepção, no deserto com que tinha deparado naquele dia. As minhas palavras foram música para os ouvidos Rui Paula que se queixa da falta de oferta do Douro, do autismo das caves e do desprezo que têm pelos turistas, da manhosice geral, enfim, encetámos ali uma saudável cavaqueira de corte e costura sobre a miséria turística do Douro que exorcizou as respectivas frustrações.

A Revista de Vinhos de Julho dedica-lhe 4 páginas que recomendo aos meus leitores. Para os que visitarem o Douro, parem na Folgosa, no DOC.

sexta-feira, agosto 31, 2007

quinta-feira, agosto 30, 2007

A Escola Berlusconi no caso Somague/PSD

Umberto Eco descreve-nos em detalhe no seu livro "A Passo di Gambero" ("A Passo de Caranguejo" ed. port. Difel) as técnicas da gloriosa Era Berlusconi para distrair os cidadãos das notícias que poderiam ser incómodas para o Presidente do Conselho fazendo uso de notícias com maior potencial mediático:

"Un caso tipico di effeto bomba è stata la sparata sul kapò seguita dalla sparata di rinforzo del leghista Stefani contro i turisti tedeschi beoni e schimazzatori. Gaffe incomprensibile, dato che suscitava un incidente internazionale e proprio all'inizio del semestre italiano? Niente affatto. Non solo (ma questo è stato un effeto collaterale) perché sollecitava lo sciovinismo latente di gran parte dell'opinione pubblica, ma perché in quelli stessi giorni si discuteva in parlamento la legge Gasparri, con la quale Mediaset affossava definitivamente la RAI e moltiplicava i dividendi". (...) I giornali dedicavano pagine e pagine a Berlusconi gaffeur (...) L'effeto bomba ha funzionato alla perfezione." Ed. italiana Bompiani, 2006, pag. 131-132.

Neste episódio Berlusconi recorre a um pequeno tiro no pé (a gaffe), para distrair o povo do grande tiro de canhão que desfere sobre a RAI.
As manobras à volta do caso Somague/PSD vêm da mesma escola, mas são mais convencionais. Esta última semana tem sido fértil em notícias para nos distrair da negociata Somague/PSD, o monopólio da direita das TVs privadas e dos jornais diários aliado aos cronistas de serviço têm-se esforçado para esticar as notícias mais espectaculares até à exaustão, até os sucessos desportivos têm ajudado. Mas convém que saibam que não andamos a dormir. Este caso não tem 30 mil explicações, é bastante simples. As leis votadas em democracia são para ser cumpridas por todos e prevêem sanções para quem não as cumpre. Esperaremos pacientemente justas sanções.

A Melhor Juventude

"A Melhor Juventude" de Tullio Giordana pode ser visto como uma parábola da história de Itália desde o pós-guerra até aos nossos dias, através da vida de dois irmãos, Matteo e Nicola, e da bela Giorgia, uma jovem doente mental (será ela a Itália?). Nicola é um psiquiatra que se vai dedicar a tentar curar Giorgia e Matteo entra nas fileiras da polícia tentando à sua maneira curar uma Itália enferma pelas actividades das máfias regionais e empresariais. Durante os 383 minutos de filme (dividido em duas partes), acompanhamos os principais acontecimentos da história recente de Itália que vão servindo de pano de fundo ao desenrolar das vidas de Nicola e Matteo, das cheias de Florença à luta contra as máfias sicilianas, passando pelas inevitáveis Brigadas Vermelhas. No episódio das Brigadas Vermelhas, o filme tem a virtude de mostrar a capacidade do marxismo para mergulhar num estado de profunda estupidez e de ódio pessoas dóceis e inteligentes.
A narrativa do filme não é meiga para o polícia Matteo, talvez porque a luta contra a criminalidade organizada seja uma luta inglória, luta essa em que a polícia em vez de controlar parece ser ela controlada pelas grandes redes mafiosas empresariais.

"A Melhor Juventude" é uma obra-prima do cinema italiano, com excelentes interpretações, entre as quais destaco a de Alessio Boni (Matteo) e é sobretudo uma obra que ajuda a combater um dos males resultante do imediatismo das nossas sociedades actuais: a memória curta.

Curiosidade mórbida: este excelente filme foi transmitido pela RTP cerca da uma e meia da manhã...

quarta-feira, agosto 29, 2007

A má ecologia

Em geral, a má ecologia é uma ecologia desinformada e hostil à ciência e aos cientistas. A má ecologia resulta de um activismo que ignora a importância do método científico e que envereda facilmente pelo disparate, por meias verdades e por lendas pseudo-científicas. No entanto, convém sublinhar que a hostilidade à ciência é muito mais intensa da parte do activismo anti-ecológico. Estão ainda frescos nas nossas memórias os fortíssimos ataques à ciência e aos cientista da parte dos grupos de pressão que negam o aquecimento global.

Foi apenas há algumas décadas que surgiu o activismo ecológico internacional (ex: Greenpeace foi fundado em 1971), numa época em que a produção científica era modesta e o número de investigadores era baixo comparativamente aos dias de hoje. A incerteza associada ao estudo de certas questões ecológicas era considerável, o que proporcionava que surgissem correntes de opinião sobre alguns assuntos que se verificaram mais tarde absolutamente erradas, quando surgiram novos dados científicos.
Nesses primórdios, o Greenpeace e outras organizações ambientalistas cometeram muitos erros, embora alguns não fossem bem aquele tipo de erros que são tão comuns em ciência, eram mais erros de cálculo ideológico. No entanto, com a proliferação progressiva da investigação científica a quase todas as disciplinas da ecologia (clima, energia, transportes, etc.), o Greenpeace tal como a maior parte das associações ambientalistas percebeu melhor a importância da ciência para o seu activismo, integrando cada vez mais investigadores especializados e muito bem informados. O activismo ecológico de hoje é em geral muito mais bem informado e preocupa-se em seguir aquilo que é a vanguarda do conhecimento científico. O Greenpeace de 2007 é muito melhor que o Greenpeace de 1971. Os casos de Nicolas Hulot e de Yann Arthus-Bertrand são dois excelentes exemplos recentes de um ambientalismo generoso, empenhado, muito bem informado e que não faz broches ao marxismo. Curiosamente, o activismo anti-ecológico tem percorrido o mesmo caminho mas em sentido inverso, abraçando as mais anedóticas teses pseudo-científicas e disferindo ataques patéticos à comunidade científica. O fiasco da Global Climate Coalition (o sítio internet foi encerrado como se pode verificar) é talvez o melhor exemplo desse tipo de activismo.

Considero o caso dos Eufémios um típico exemplo de má ecologia, sobretudo pela razão invocada pelo Filipe Moura no Cinco Dias: "tenho realmente pena que os activistas, com tantos crimes ecológicos que se cometem pelo Algarve e por Portugal fora, se concentrem exclusivamente no milho transgénico". Em Portugal existem milhares de hectares de lixo e de atentados ecológicos de bradar aos céus, bem mais perigosos do que 51 hectares de milho transgénico, mas que quase toda a gente e os Eufémios acham normal (ex: o centro de Lisboa é borrifado pelos produtos resultantes da combustão de cerca de 80 toneladas diárias de combustível emitido pela aviação comercial).
Sobre os transgénicos concordo com quase tudo o que escreveu o Tiago Almeida nos comentários do Sem Muros e convido o leitor a comparar o nível do texto do Tiago, um biólogo licenciado em Coimbra, com as bojardas simplórias e trapalhonas do João Miranda (mas ele não percebe porquê), supostamente um investigador em biotecnologia...

segunda-feira, agosto 27, 2007

Estou pasmo


Sítio IAAF


Se há uma semana atrás alguém me dissesse que Portugal ganharia uma medalha de ouro no triplo salto, aconselharia internamento hospitalar urgente. Sempre julguei que este tipo de medalhas estaria reservado às grandes escolas mundiais das disciplinas de salto: EUA, Cuba, Reino Unido ou Rússia. Tanto quanto me ocorre, este é o melhor contributo que o Benfica deu para o desporto nacional nos últimos 20 anos. Estão de parabéns os técnicos do Benfica e o Nelson Évora.

Transgénicos: certeza proporcional à ignorância

É curioso verificar que o grau de certeza com que se escreve sobre os transgénicos (para os defender ou para os rejeitar) é proporcional à ignorância e à arrogância dos autores. O cuidado dos textos escritos por quem conhece o mundo científico contrasta fortemente com os textos dos curiosos e dos pseudo-investigadores. Enquanto os primeiros enquadram os seus textos por expressões cautelosas advertindo o leitor para o seu grau de conhecimento sobre o assunto e para o grau de certeza da ciência sobre o estado da investigação na área, os segundos escrevem sobre transgénicos como se estivessem a proclamar os 10 mandamentos acabadinhos de chegar das mãos do Altíssimo, fazendo uso de um tom omnipotente e ameaçando castigos e pragas para os opositores e traidores.

domingo, agosto 26, 2007

Livros de ciência

No Rerum Natura, o prof. Carlos Fiolhais divulga os 10 livros de ciência mais importantes segundo Ernst Peter Fischer, professor de história da ciência da Universidade de Konstanz.

Das minhas leituras, mais modestas e sobretudo mais recentes, formaria uma lista de 7 maravilhas da divulgação científica assim ordenadas:

"Cosmos", Carl Sagan
"Macaco Nu", Desmond Morris
"The God Delusion", Richard Dawkins
"Feiticeiros e Cientistas", Georges Charpak e Henri Broch
"Os Descobridores", Daniel Boorstin
"Uma Breve História do Tempo", Stephen Hawking
"De Tchernobyl en Tchernobyls", George Charpak, Richard Garwin e Venance Journé

O livro de Boorstin e o livro de Charpak e Garwin não são livros convencionais de divulgação científica. "Os Descobridores" é um magnífico livro que narra a história do conhecimento desde os tempos das primeiras civilizações mesopotâmicas até aos dias de hoje. É um livro essencial para qualquer cientista e para todos aqueles que se interessam ciência. O livro "De Tchernobyl en Tchernobyls" é um exemplo de como os cientistas podem contribuir muito positivamente para esclarecer as grandes questões e as grandes escolhas do nosso. Este é um livro de divulgação muito completo e muito rigoroso sobre todos os aspectos da tecnologia e da investigação nuclear.

quinta-feira, agosto 23, 2007

O céu no Google Earth

A nova versão (4.2) do Google Earth inclui uma interessantíssima opção que permite explorar o céu. Tal como na versão convencional pode-se fazer uma aproximação a certas regiões e ver com algum detalhe estrelas, nebulosas, galáxias, etc. As imagens dos diferentes objectos celestes foram fornecidas pelos arquivos de imagens da ESA e da NASA das observações efectuadas através do telescópio Hubble.

quarta-feira, agosto 22, 2007

Rapidinhas sobre os transgénicos

1- Não se pode fazer ecologia à revelia da ciência, senão entramos na pseudo-ecologia, operando na mesma base intelectual que a pseudo-ciência que nega o aquecimento global, o evolucionismo, o Big Bang, etc.

2- Será que o princípio da precaução está a ser correctamente aplicado em Portugal?

L'égoïste romantique

Ler "L'égoïste romantique" de Frédéric Beigbeder é como mergulhar de cabeça numa piscina de champanhe rosé, onde um borbulhar com a potência de um verdadeiro jacuzzi nos envolve no turbilhão da vida mundana e alucinada do seu pseudónimo das horas vagas: Oscar Dufresne. Deixo-vos um extrato da descrição do personagem:

"Oscar Dufresne a 34 ans. C'est un écrivain fictif, comme il y a des malades imaginaires. Il tient son journal dans la presse pour que sa vie devienne passionnante. Il est égoïste, lâche, cynique et obsédé sexuel - bref c'est un homme comme les autres"

Obviamente, este livro não foi traduzido para português e duvido muito que alguma vez o seja, a não ser que Beigbeder ganhe o Nobel (coisa pouco provável). Compreende-se, os tradutores têm mais que fazer, há que traduzir mais um calhamaço do Harry Poter e mais de 300 códigos e fórmulas de Deus, de Da Vinci, da irmã Lúcia e do pastor Tadeu.

terça-feira, agosto 21, 2007

Ninive, Iraque: cerca de 200 mortos

Pois é Bruno, os atentados não aconteceram no "mundo ocidental", aconteceram no Iraque. Os solenes discursos sobre os atentados de Londres e de Madrid tão apelativos à lágrima de crocodilo perdem a espontaniedade no caso dos atentados da província iraquina de Ninive. Percebe-se bem o quanto o Iraque preocupa quem apoiou a sua invasão.

segunda-feira, agosto 20, 2007

Os Descobridores de Boorstin

Em tempo de férias, a RTP andou a emitir a série "Os Descobridores", baseada no excelente livro do historiador Daniel Boorstin. A série foi transmitida aos sábados de manhã, por volta das 10 horas, esta que é uma série que toda a gente deveria ver, que é serviço público puro, foi vista por muito poucos...

terça-feira, agosto 14, 2007

La Bonne Maison: a casa ecológica



Sob a iniciativa de Yann Arthus Bertrand, uma agência de arquitectura e uma empresa de construção civil conceberam uma casa modelo de 120 m2 (La Bonne Maison) capaz de economizar energia até 85% em relação aos consumos médios das habitações equivalentes. Este resultado deve-se a um rigoroso isolamento térmico e à utilização da energia solar e de soluções económicas para o consumo energético. O preço proposto pela agência de arquitectura é de 125000 euros por 100m2.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Grau de confianca do Aquecimento Global

A Scientific American deste mes publica um artigo muito interessante onde os melhores investigadores em climatologia do planeta explicam porque e' que os seus resultados apresentam o grau de confianca divulgado: mais de 90% de certeza que o aquecimento global e' provocado pelo homem.

quarta-feira, agosto 01, 2007

Cinema Paraíso

Gosto muito de Michelangelo Antonioni (Blow Up é um filme sublime) e faço a minha vénia a Ingmar Bergman, mas as mortes de ambos são de quem já deu mais ao cinema do que os seus espectadores merecem. No entanto a morte do actor alemão Ulrich Mühe (melhor actor europeu de 2006), com 54 anos, priva o cinema de um dos seus melhores actores do momento, um dos que ainda tinha muito para dar à 7ª arte. Fica a sua grande actuação em "As Vidas dos Outros" e um curriculum onde figuram grandes obras como "Funny Games" de Haneke ou "Amen" de Costa-Gavras, bem como excelentes séries televisivas emitidas pelo canal ARTE.

segunda-feira, julho 30, 2007

Armar o Médio Oriente até aos dentes

Os EUA continuam a encher de armas uma das mais sinistras ditaduras do mundo: a Arábia Saudita (já aqui escrevi que a Arábia Saudita faz parte do top ten mundial de orçamentos militares). 20 mil milhões de dólares em armas é o que consta nos contratos que envolvem ainda outros regimes ditatoriais e teocráticos: Emiratos Árabes Unidos, Kuwait, Qatar, Bahrein e Omã.

A notícia gerou protestos em Israel, que na minha opinião são absolutamente compreensíveis. Se perguntarem a um Saudita contra quem aquelas armas deveriam ser utilizadas ou a um Israelita para adivinhar para onde elas serão apontadas a resposta é a mesma: Israel. Para compensar o governo americano decidiu aumentar a ajuda militar a Israel para 3 mil milhões de dólares por ano... Estão a ver o mesmo filme que eu, não estão? Assim que forem assinados os contratos, a cotação das acções das empresas americanas produtoras de armas terão todas as condições para subir tipo Amstrong no Col do Turini. À próxima escaramuça que venha a acontecer no Médio Oriente adivinha-se um saudável incremento de vendas de casa com piscina e de carros de luxo aos investidores e aos quadros das empresas de armamento envolvidas no negócio.

É este o verdadeiro modo de vida que Bush deseja exportar para o Médio Oriente, é o fanatismo religioso de basooka ao ombro ao serviço do ultraliberalismo económico. Exportar democracia não produz adrenalina nos mercados, nem pó para os narizes dos investidores das bolsas.

American Taliban

Recomendado por Richard Dawkins, American Taliban é uma recolha de gloriosas citações pronunciadas pelos maiores fanáticos religiosos americanos. A minha preferida é a de James Watt, Secretário de Estado da administração Reagan:

"We don't have to protect the environment, the Second Coming is at hand"

Para quem não sabe: Second Coming é segunda aparição de Cristo na Terra, que ocorrerá quando o mundo estiver para acabar, obviamente...

domingo, julho 29, 2007

Segurança da Portela

Enquanto estive ausente, o acidente aéreo de São Paulo veio ilustrar da pior maneira tudo o que aqui escrevi sobre a Portela. Qualquer estudo sobre a continuidade da Portela que não contemple um detalhado e rigoroso estudo sobre a segurança (cálculo de riscos, quem assume a responsabilidade em caso de acidente, indemnização de vítimas, etc.) pode ir directamente para o lixo.

quinta-feira, julho 26, 2007

Delos

De onde escrevo avisto Delos. A ilha sagrada onde nasceu Apolo.
Fecho os olhos e mergulho no mar Egeu.
Assim que venho 'a tona avisto uma frota de naus helenicas.
Salto para dentro da nau de Aquiles, de Ajax e de Ulisses de grande prudencia.
Garanto que Aquiles nao se parece minimamente com o Brad Pitt!
Nao sei para onde rumam estas velozes naus, mas nao e' para Troia, dizem-me.
A unica certeza que tenho e' que no fim da viagem retornaremos a Itaka.
Ao chegarmos faremos generosas oferendas aos deuses,
o vinho sera preparado em grandes crateras, libaremos ao Olimpo,
enquanto arvores inteiras serao queimadas em soberbas fogueiras,
os maiores animais da ilha serao sacrificados pelo fogo e partilhados por todos,
trataremos mal as mulheres e trocaremos escravos por anforas cheias de vinho,
e' assim a Grecia antiga...

sábado, julho 21, 2007

4 anos, sempre a mesma febre

A Klepsydra faz hoje 4 anos. A febre mantem-se, como se de o primeiro dia se tratasse. Estes 4 anos nao seriam 4 anos se nao organizasse, com algo atraso, a habitual festa:

Abertura solene

00.00-00.15 - Discurso de Spike Lee, Mestre de Cerimónias das comemorações deste ano, intitulado: "No Harlem, a febre da Klepsydra vende-se na tabacaria do Turturro, vai para 4 anos!" .

Klepsydra Club Session

00.15-00.45 - Warm Up - Monika Kruse
00.45-01.45 - Kuffdam & Plant
01.45-02.45 - David Morales
02.45-03.00 - Jeff Mills Warm Up - DJ Muxaxo
03.00-04.45 - Jeff Mills
04.45-05.30 - DJ Guga
05.30-06.00 - Expander DJ
06.00-06.30 - Monsieur Philippe Corti

quinta-feira, julho 12, 2007

Bolseira descobre água fora do sistema solar

Ler aqui a grande descoberta de Giovanna Tinetti, uma bolseira da ESA no Institute d’Astrophysique de Paris. Tinetti descobriu evidências da existência de água no exoplaneta HD 189733b (ao lado representação artística da ESA), que se encontra a 63 anos-luz do nosso sistema solar, na constelação Vulpecula, a partir dos dados do Telescópio Espacial Spitzer da NASA.

Esta descoberta suscita-me as seguintes questões: para quando a primeira Universidade com um reitor bolseiro? para quando juízes bolseiros a julgar nos tribunais? para quando generais do exército bolseiros? para quando um primeiro-ministro bolseiro ou um presidente da república a recibos verdes?...

quarta-feira, julho 11, 2007

Ideologia neoconservadora contra a ciência

Há uns meses escrevi este texto para o blogue Cinco Dias em que dava conta da ofensiva neoconservadora contra a ciência em várias frentes negacionistas: do aquecimento global, do big-bang e do darwinismo. No mesmo texto dei conta da publicação do novo livro de Richard Dawkins, "The God Delusion", mal eu sabia que o próprio Dawkins descrevia quase nos mesmos termos a origem destas ofensivas à ciência:

"In parts of the United States, science is under attack from well-organized, politically well-connected and, above all, well-financed opposition, and the teaching of evolution is in the front line trench."
"The God Delusion", Richard Dawkins, Bantam Press, 2006, pag. 66.

terça-feira, julho 10, 2007

O futuro sem petróleo

A ler o ensaio "O futuro sem petróleo" do capitão Armando Dias Correia publicado pelo Paulo Querido.

A escassez do petróleo colocará uma série de desafios importantes a médio prazo. No sector do transporte aéreo, por exemplo, já se discute na UE sobre a possibilidade de limitar o número de voos para distâncias inferiores a 1000 km, substituindo o avião pelo transporte ferroviário de alta velocidade, que tem ainda a vantagem de ser menos poluente e de ser mais rápido numa grande parte dos percursos de curta distância. O eldorado dos voos de baixo custo está também a ser posto em causa, dado que o turismo de fim de semana em que se fazem dois mil quilómetros a uma sexta-feira para ir a uma praia ou visitar uma cidade para se voltar na segunda-feira seguinte ao trabalho, não é sustentável do ponto de vista ambiental.

O pão nosso de cada dia (caixa de comentários)

O direito ao contraditório do meu leitor que assina sob o nome de Lowlander à entrada "O pão nosso de cada dia":

1 - Qualidade nutritiva. Com que base e que o Rui afirma existir alguma diferenca na qualidade nutritiva dos animais produzidos em intensivo dos outros? E essencial nao confundir diferentes pontos da cadeia alimentar. Os problemas nutricionais actualmente existentes nas populacoes sao consequencias do processamento terciario de alimentos (que ocorre nas cozinhas) e nao da materia prima em si.

2 - Sabor. Mais uma vez, nao esta demonstrado convenientemente. Se comparar melhores praticas com melhores praticas de producao entre diferentes sistemas de producao e colocar consumidores de olhos vendados a testar produtos nao sao detectadas diferencas.

3 - Custo/beneficio da producao intensiva na sociedade Ocidental. Caro Rui, a producao intensiva de alimentos comecou com a revolucao industrial na agricultura e chegou a pecuaria na Europa e EUA no principio do sec. XX. Os beneficios sao indiscutiveis: o cidadao medio actual gasta menos de 10% do seu rendimento disponivel na sua alimentacao enquanto que no incio do sec. essa figura andava na casa dos 30 ou 40%. O que isto significa e que sobram recursos para as pessoas se poderem dedicar a outras actividades. A sociedade pos-industrial que actualmente procura a qualidade de vida so se pode debrucar sobre tais temas porque nao tem outras preocupacoes em mente.
Todos os indicadores que avaliam bem-estar de uma sociedade indicam claros progressos DESDE a intrudocao da agro-industria intensiva. Nao foram os avancos da medicina que impulsionaram a melhoria da qualidade de vida das sociedades, eles intensificaram tendencias ja instaladas. Os primers foram a industrializacao e massificacao da producao de todos os bens de consumo essencias entre os quais e notavelmente os bens alimentares.
Concordo que o sistema induza desperdicio e excedente, no entanto, com o sistema economico actualmente em vigor, a unica forma de voce garantir as classes medias alimentos acessiveis e portanto libertar recursos para se poderem dedicar a ouras actividades e precisamente inundando o mercado.

Os sistemas de producao intensivos devem ser regulados e enquadrados. Isto e perfeitamente possivel e desejavel, as politicas da Uniao Europeia sao prova disso mesmo. No entanto esta onda de odio, ressentimento ou desdem, nao sei bem que actualmente se faz sentir em relacao aos alimentos produzidos em larga escala e mais demonstracao de ignorancia que de avanco civilizacional e pior que isso, completamente irrealista nos seus objectivos.


Caríssimo Lowlander, obviamente que estas questões não são lineares, as coisas não são a preto e branco, por isso me preocupei mais em colocar questões do que dar respostas. Alguns especialistas na área pronunciam-se de uma forma muito negativa neste trabalho ,"We feed the world", sobre a qualidade nutritiva e o sabor dos alimentos. Quanto ao ponto 3, são conhecidos todos esses milagres da revolução agrícola e industrial e eu não estou contra esses avanços, o que eu pergunto é se esses "milagres" não estão a ir longe demais e a tornar-se absurdos tendo em conta as reais necessidades de consumo, tal como aconteceu com a PAC. O objectivo inicial da PAC era acabar com a escassez de produção na Europa do pós-guerra. Esse objectivo foi rapidamente atingido, mas a PAC nos dias de hoje é obsoleta e prejudicial sobretudo para muitos produtores fora do espaço europeu.
Quanto à regulação e enquadramento, estou totalmente de acordo.

domingo, julho 08, 2007

Londres de Camisola Amarela

Em dia de final de Wimbledon e de Grande Prémio de Inglaterra, os ingleses aderiram em massa ao Tour do velho rival (foto BBC, AP). Ao longo dos 200 km da etapa de hoje, os ingleses formaram um cordão humano nas estradas percorridas pelo Tour, como é raro ver-se em França. O entusiasmo chegou ao ponto de se organizar um passeio de bicicleta em que todos os participantes vestiam de camisola amarela. Esta é uma amostra da Europa espontânea que interage intensamente há décadas, que emigra, que viaja, que pratica sem preconceitos o comércio, a ciência, o lazer e a cultura juntamente com os outros povos. Esta Europa tem muito pouco a ver com a visão da Europa pintada pelo que resta das elites nacionalistas europeias, bem fechadas nas suas minúsculas capelinhas nacionais, sempre prontas a fomentar a desconfiança e o cinismo entre os povos. Algumas dos nossos cronistas anti-europeístas nunca entenderão estes novos tempos de fusão de culturas, um certo provincianismo crónico turva-lhes o raciocínio.

Ler relacionado: "A Babilónia Europeia" de Marta Rebelo no Cinco Dias.

sábado, julho 07, 2007

7 Novas Maravilhas

É preciso viajar muito, mesmo muito, para se poder votar com algum fundamento nas novas maravilhas do mundo, é preciso ver, tocar, sentir o ambiente e ler a história de cada monumento. Com uma grande margem de erro, aqui vão as minhas escolhas (*: as que vi):

Acrópole, Grécia
Chichen Itza, México*
Grande Muralha, China*
Petra, Jordânia
Pirâmides de Gizé, Egipto
Taj Mahal, Índia
Torre Eiffel, França* (destoa, mas é a mais representativa da nova era industrial)

quinta-feira, julho 05, 2007

As minhas 7

As minhas 7 maravilhas de Portugal, por ordem:

1- Convento de Cristo
2- Torre de Belém
3- Mosteiro da Batalha
4- Mosteiro dos Jerónimos
5- Convento de Mafra
6- Universidade de Coimbra
7- Casa de Mateus


Já anda por a aí circular um concurso dos 7 Horrores de Portugal. As meus 7 horrores preferidos são:

1- Estrada Nacional nº1 (uma espécie de feira da ladra com 300 km onde se vende everything including the girl)
2- Santuário de Fátima
3- 2ª Circular (podiam construir ali mais 10 centros comerciais, 5 estádios de futebol, 19 torres eiffel e 47 aeroportos... bem apertadinho cabe tudo)
4- Aeroporto da Portela (a organização dos corredores das Chegadas rivaliza com o Labirinto de Creta)
5- Fórum Cidade de Coimbra (aquela torre vermelha fica ali a matar)
6- Estádio Nacional (ouvi dizer que esta obra fascizóide agora é monumento nacional...)
7- ex-aequo: Leça da Palmeira, Estarreja, Armação de Pêra, S. Domingos de Rana e Maia (se isto fosse como nos desenhos animados, a coisa resolvia-se com 5 bombas atómicas)

quarta-feira, julho 04, 2007

A estupidez matemática de 27 referendos nacionais

Sou da opinião que todos os tratados europeus deveriam ser aprovados por via referendária, mas se todos os tratados europeus forem submetidos a referendos individuais em cada país, isso é matematicamente uma estupidez. E é uma estupidez porque este é um sistema onde um NÃO num dos países da UE é suficiente para anular o efeito de todos os SIM dos outros países. O NÃO funciona neste caso como um elemento absorvente, tal como o zero na multiplicação.

Vejamos primeiro a probabilidade um tratado europeu ser aprovado por dois países fictícios, no esquema actual de um referendo por país:
Caso 1- Vamos admitir que na República da Galescócia a probabilidade de NÃO e SIM vencerem é de 50% (50/100 ou 1/2) e no Pontificado Varsoshington a probabilidade de NÃO e SIM vencerem é igualmente de 50%. Existem 4 resultados possíveis: SIM+SIM, SIM+NÃO, NÃO+SIM e NÃO+NÃO. Todos com a mesma probabilidade: 25%. Como o NÃO é elemento absorvente, a probabilidade do tratado ser aprovado é apenas de 25%, correspondente à probabilidade de obtenção de SIM+SIM. A operação que fazemos para obter a probabilidade de 25% para que o tratado seja aprovado é a multiplicação simples da probabilidade do SIM vencer em cada país, ou seja: (1/2)*(1/2)=1/4=0,25 -> 25%

Vejamos agora a probabilidade de aprovação de um tratado europeu por 27 países:
Caso 2- Admitindo de novo uma probabilidade de 50% (50/100 ou 1/2) de o SIM ou o NÃO vencerem em cada país, obtemos 1/2 multiplicado por si próprio 27 vezes! Ora (1/2)27=0,0000000075 -> 0,00000075%, obtemos uma probabilidade insignificante para a aprovação do tratado!

Mas a coisa não é assim tão simples, porque os tratados são definidos nas cimeiras de chefes de estado e cada um deles opta por um tratado que reúna um amplo consenso no respectivo país, englobando o máximo de formações políticas. Por esta razão, em geral a probabilidade de um tratado obter um SIM em cada país é elevada. Pode ser superior a 90% no caso de um forte consenso nacional. No entanto vejamos a probabilidade de um tratado ser aprovado num contexto de fortes consensos nacionais:
Caso 3- Admitindo uma probabilidade de 90% (90/100) de o SIM vencer em cada um dos países, a probabilidade do tratado ser aprovado em toda a UE é de (90/100)27=0,058 -> 5,8%! Mas se a probabilidade do SIM vencer em cada país for de 97% (97/100) obtemos: (97/100)27=0,439 -> 43,9% de probabilidade de aprovação... Só quando a probabilidade de o SIM vencer em cada país for superior a 98% é que a probabilidade de aprovação sobe acima dos 50%: (98/100)27=0,580 -> 58,0%

A conclusão destes cálculos é que o actual sistema de referendos atribui um peso excessivo ao NÃO e torna quase impossível a vitória do SIM se os 27 países decidirem realizar um referendo para aprovação do tratado. As hipóteses de vitória do SIM só são realistas quando um conjunto de países aprovam o novo tratado por via parlamentar em vez da via referendária, opção esta obviamente menos democrática. A outra conclusão é que a matemática não é o forte dos participantes das cimeiras, pudera o carreirismo nas jotas partidárias não é lá muito compatível com o estudo da matemática...


Referendo em todos os países no mesmo dia
A solução de organizar um referendo europeu no mesmo dia em que os votos de todos os países são somados - essa soma poderia obedecer a um factor de ponderação para os países mais populosos não serem beneficiados - apresenta duas grandes vantagens:
1- Acaba com o falseamento democrático que se verifica actualmente. Somados os votos do NÃO em todos os países provavelmente não obtemos mais do que 30 a 35%.
2- Votando no mesmo dia em toda a UE, assistindo ao escrutínio das urnas, aos resultados, às reacções políticas nos vários países, os diferentes povos europeus cultivariam um sentimento de que vivemos numa casa comum, com um destino comum, em vez do habitual sentimento de que tudo se passa "lá em Bruxelas", "nos gabinetes", "nos corredores", etc.

Esta solução tem no entanto dois obstáculos:
1- A maior parte das constituições nacionais não permite este tipo de processo. Será preciso mudá-las.
2- A oposição feroz dos anti-europeístas (ler JPP no Abrupto 2/6/2005). Estes perceberam bem que o sistema actual os favorece largamente, citando JPP no Abrupto a 15/9/2003: "Basta um país não a ratificar [a Constituição] e não existe". Depois escrevem-se toalhas de textos queixando-se de que não há democracia na UE...

segunda-feira, julho 02, 2007

Sem Muros - o blogue de Miguel Portas

O meu caríssimo amigo Miguel Portas abriu finalmente um blogue, intitulado Sem Muros. Já não era sem tempo! Sempre achei que o Miguel é uma daquelas pessoas que deveria mergulhar na blogosfera. A forma como o Miguel lê o mundo, de uma forma simultaneamente apaixonada e crítica, merece leitura diária.

O pão nosso de cada dia



"Our daily bread" de Nikolaus Geyrhalter é uma sucessão de imagens sobre a produção agrícola e pecuária em massa praticada em vários países europeus que não deixa indiferente o espectador. Ao longo dos 80 minutos de filme somos interpelados sobre a nossa forma de produzir, de consumir e de trabalhar no sector primário na Europa. Depois de "Our daily bread", a ida a um supermercado é certamente encarada de outra forma. É impossível ficar indiferente a tomates e legumes produzidos em massa sem qualquer contacto com a natureza, criados em estufas de cimento, onde cada tomateiro é depositado sobre um extracto de fibra carbónica. Também não se fica indiferente ao nascimento, vida e morte de porcos e de frangos, em clausura absoluta em fábricas onde pintos são projectados de estrado para estrado rolante formando compactos jactos amarelos como se de milho se tratasse e onde são simulados dois dias e duas noites, durante as 24 horas de um dia, recorrendo à iluminação artificial.

Será que vale a pena este tipo de produção massificada, num continente com problemas de produção excedentária? A nossa qualidade de vida é ameaçada em que medida pelo desaparecimento do sabor genuíno dos alimentos, pela ausência de contacto com a natureza e pela utilização em massa de pesticidas? Será que devemos tratar os animais desta forma cínica e cruel, chegando ao ponto de lhes trocar as voltas dos dias e das noites para que cresçam rapidamente? Quais são as consequências sociais do trabalho praticado nestas explorações, um trabalho mal pago, deprimente, desumanizado e por vezes no limite da escravidão? Vale a pena esta alienação da produção para termos os supermercados cheios de produtos baratos, mas sem sabor e com qualidade nutritiva duvidosa, para depois queimarmos quantidades industriais de excedentes?

sexta-feira, junho 29, 2007

A Portela e o forcado que há em nós

Sempre que faço a aproximação à Portela pelo corredor aéreo que passa sobre a Ponte 25 de Abril, sobre o centro de Lisboa, a rasar prédios, estádios de futebol e a Segunda Circular cheia de carros, lembro-me do Rally de Portugal de 1986. Vem-me à memória aquela imagem de centenas de portugueses que se comportavam como autênticos forcados à passagem de carros com mais de 400 cavalos (passem os olhos pelo filme abaixo).



Ao sobrevoar o centro de Lisboa, leio nas expressões faciais dos meus companheiros de viagem oriundos de outras paragens, tal como a Isabel do Aba de Heisenberg, qualquer coisa como "a que país do terceiro mundo vim eu parar?". Eu respondo-lhes com o pensamento: "bem-vindos ao país dos forcados e da inconsciência ao volante".

Sabemos que a probabilidade de um acidente aéreo é muito baixa, mas a probabilidade de ocorrer um acidente com muitas vítimas - as vítimas do avião mais as vítimas atingidas no solo - é muito maior na Portela do que na generalidade dos aeroportos do mundo. Aliás, o aeroporto de Lisboa já tem um acidente grave na conta, o de Sá Carneiro (foto RTP), que só não fez vítimas no solo porque se tratava de um pequeno avião particular. Fosse o caso de se ter despenhado no mesmo local um normal avião de linha e a tragédia seria bem mais grave entre os habitantes de Camarate.
Por esta razão, o estudo "Portela + 1" encomendado pela Associação Comercial do Porto vai ter que ser muito claro sobre quais os riscos desta opção, vai ter que comparar a probabilidade de ocorrer um acidente com muitas vítimas no solo na zona da Portela com a probabilidade de um acidente semelhante ocorrer nos outros aeroportos europeus. Para além disso, o estudo deve indicar quem é que será o responsável político e financeiro se acontecer um acidente da gravidade descrita, ou outros tipos de acidente bem mais frequentes, como uma peça ou uma roda que se solta de um avião em zonas de grande densidade populacional. É que não pode voltar a acontecer um caso de irresponsabilidade pública em que se demite um ministro para "a culpa não morrer solteira". Obviamente, que a segurança é quase irrelevante para os que defendem o estado mínimo, desde que o "contribuinte" (pelos visto só contribuímos, não usufruímos...) possa economizar uns cobres. Já o sabemos dos célebres exemplos mórbidos da indústria automóvel de Detroit, onde valia a pena poupar nos custos de substituir peças defeituosas dos automóveis em detrimento da segurança dos condutores.

Desconfio que se acontecer um susto ali para os lados da Portela, no dia seguinte a ideia da "Portela + 1" é completamente riscada do mapa e os que a defendem ficarão caladinhos que nem ratos. Até lá a irresponsabilidade fala com voz grossa.


PS- O comentador inglês no filme do Rally de 1986: "é o temperamento dos portugueses, eles são um povo latino, claro está", "isto faz lembrar uma tourada mecanizada". Aos 2:30 min o célebre acidente do Joaquim Santos.

quarta-feira, junho 27, 2007

Lusíadas em checo - Lusovci

A Eva Lima apresenta-nos no seu blogue uma edição checa dos Lusíadas, comprada em Praga. A qualidade da tradução, de 1958, vê-se logo na primeira estrofe, onde a rima em checo respeita a ordem da rima da estrofe original salvaguardando o sentido do texto. Tal qual as nossas traduções de 1958... Estou-me a lembrar particularmente de umas edições antigas da Odisseia (Europa América) e de Fausto (Relógio de água) cujas traduções são de fugir.

terça-feira, junho 26, 2007

A fúria dos estudos

"A questão dos estudos é uma falsa questão porque, como bem dizes, o objectivo é fazer deles arma de arremesso político. O verdadeiro problema é que a qualidade dos estudos nunca é aferida. Mais do que multiplicar os estudos, o importante seria garantir a qualidade e a isenção deles. A primeira tarefa seria encontrar um grupo de peritos, não participantes dos referidos estudos, capazes de agirem como avaliadores. Isto é, aliás, prática comum em certos projectos na Europa."
David Luz, Linha dos Nodos (na caixa de comentários de TGV e aeroporto).

PS- Tal como referi em entrada anterior defendo que todas as obras públicas de grande dimensão deveriam ser SEMPRE objecto de estudos rigorosos.

De Rerum Natura

De Rerum Natura é um blogue que vale a pena ler na integralidade. É escrito por pessoas da ciência, mas que gostam muito de divulgar essa ciência. É com gosto que volto a ler o Prof. Carlos Fiolhais, meu professor de Física Nuclear em Coimbra, e a Sofia Araújo, colega de andanças académicas.

O Prof. Carlos Fiolhais é um daqueles professores que ficam na galeria dos nossos professores inesquecíveis. Lembro-me das suas aulas em que de uma forma humorada fazíamos contas de decaimentos radioactivos com muitas casas decimais, tudo de cabeça, sem usar a caneta e a máquina de calcular. Raramente nos enganávamos na ordem de grandeza do resultado, mas todos tínhamos muitas dúvidas (não éramos tão bons como o primeiro-ministro da altura e actual Presidente da República). Foi um bom treino que ficou para muitos de nós que seguimos uma carreira na área da física nuclear. As aulas do Prof. Fiolhais eram a antítese do método de ensino seminarista que é o dominante em Portugal, do ensino na base da força bruta, da repetição ad infinitum do mesmo raciocínio, do respeitinho é muito lindo e do "dantes é que era bom". A destreza e descontracção que empregava no ensino das matérias combinada com o humor era uma fórmula infalível para conquistar o respeito absoluto da parte dos alunos. O que o ensino seminarista conquista com trombas, reguadas e ameaças, Fiolhais conquistava com conhecimento, confiança e boa disposição.

domingo, junho 24, 2007

Fabius chuta contra o Tratado eee... auto-golo!

A táctica de Laurent Fabius no seio do PSF ancorada às suas ambições presidenciais foi a estratégia política que mais contribuiu - mais do que qualquer estratégia racional - para o Não de esquerda no referendo francês ao Tratado Constitucional. No primeiro jornal televisivo em que participou após a vitória do Não, a primeira pergunta feita pelo jornalista a Fabius foi qualquer coisa como "Qual o significado desta vitória?", a que este respondeu: "François Hollande deve deixar a presidência do PS"... Se alguém tinha dúvidas, neste momento ficou claro que Fabius se estava a borrifar para a Europa! Simultaneamente, os maiores neo-liberais da Europa - que sempre foram fervorosamente contra o Tratado - agradeciam o auto-golo de um Fabius que tinha apelado ao Não em nome do combate ao neo-liberalismo! Bem visto, da parte de Fabius...

O resultado deste "tiro no pé" da esquerda francesa é que o Tratado recém alinhavado em Bruxelas que substituirá o Tratado de Nice, será um tratado mais à direita do que o Tratado Constitucional, será mais conformista, mais conservador e que agradará mais a todos aqueles que preferem uma Europa bem comportadinha, muito obediente aos EUA e a todos os caprichos do mercado mundial. Basta ler algum regozijo dos que entre nós defendem esse modelo. Os mais radicais anti-europeístas, como Pacheco Pereira, vão continuar a boicotar todas as versões reduzidas do Tratado que venham a ser apresentadas, interessa-lhes mais uma Europa tecnicamente impotente.

À atenção do MIC e do BE
A Esquerda Europeia perdeu e só pode perder ainda mais se continuar com um programa político de carácter pavloviano, resumindo a sua participação europeia a uma reacção permanente a estímulos políticos pontuais, sobretudo quando estes são mal avaliados como foi o caso do Tratado Constitucional. E são frequentemente mal avaliados porque infelizmente uma parte da Esquerda Europeia não tem um verdadeiro programa político europeu. É o caso da facção do PSF de Fabius e é também o caso da Esquerda Unitária Europeia. Ora, o dever da Esquerda Europeia é um dever de iniciativa. A Europa é actualmente líder nalguns dos principais desafios do planeta: combate às alterações climáticas, moderação de conflitos regionais (no Líbano foi evidente), respeito pelos direitos humanos, da sexualidade, da laicidade e da paridade. Estes são desafios muito caros à esquerda, mas se os erros da esquerda retirarem à Europa a sua capacidade de iniciativa esta caberá aos EUA e à China e todos sabemos muito bem a leviandade com que cada um destes países trata estes assuntos. A responsabilidade da Esquerda Europeia estende-se à aproximação da UE aos cidadãos. Neste particular, o actual formato de realização de 27 referendos dispersos no tempo não faz qualquer sentido do ponto de vista democrático e matemático (explicarei porquê). Deste modo, um NÃO tem um peso excessivo, que favorece claramente a generalidade das posições anti-europeístas. Um referendo a nível europeu, realizado no mesmo dia, de uma forma clara e simples para todo o cidadão europeu, não só reforçaria o sentimento que vivemos numa casa comum, com um destino comum, como evitaria o falseamento democrático dos resultados e das reais escolhas dos europeus. Somados os votos de todos os referendos ao Tratado Constitucional, qual foi a percentagem de voto NÃO? 20%? 30%? E entre os votos NÃO havia mais esquerda ou mais direita? Havia certamente muito mais direita, e havia direita da piorzinha...

sexta-feira, junho 22, 2007

TGV e aeroporto: um debate que apodrece

Quando Marques Mendes lançou o ataque à OTA e ao TGV, estava com a corda ao pescoço, as críticas internas ao seu trabalho na oposição eram implacáveis. No entanto, apesar do risco de mais críticas internas, dada a contradição que esse ataque representava em relação à anterior política Durão-Santana, Marques Mendes sabia que o ataque à OTA e ao TGV comportava dois pontos fortes:

1- A questão da territorialidade: o local do novo aeroporto e o trajecto do TGV comportam um potencial de conflito regional impressionante (que é bem evidente). Um bom demagogo sabe que lançando duas ou três larachas bem dirigidas é suficiente para pôr as regiões e as cidades em conflito entre elas.

2- A causa do estado mínimo: os defensores de um estado que não deve investir em transportes públicos, os que não se ralam minimamente que o transporte individual poluente e caro seja em muitos casos a única opção para o transporte em massa de bens e de pessoas, os que negam o papel do aquecimento global na mudança dos nossos hábitos, os que estão sempre prontos a defender o gigantesco lobby do petróleo, esses Marques Mendes sabia que os ia ter consigo. Foram os primeiros a morder o isco!

Apesar do debate ter começado bem com a exigência de estudos - algo que deveria ser feito SEMPRE - os dois aspectos enunciados tornaram-se dominantes, empobrecendo o debate sobre o novo aeroporto e o comboio de alta velocidade. Nas últimas semanas, a infantilidade que reina nalgumas cabeças dos defensores do estado mínimo e dos que exigem o aeroporto no seu quintal tem vindo a apodrecer e a ridicularizar o debate. A fúria de exigência e elaboração de estudos que se desencadeou recentemente tem muito pouco de sério. Em primeiro lugar, porque um estudo sério não se faz em cima dos joelhos e em segundo lugar porque se percebe muito bem que não é o conteúdo dos estudos que é valorizado, mas sim o seu potencial como arma de arremesso político. Por exemplo, na blogosfera alguns escribas do Blasfémias e do Insurgente são o reflexo dessa histeria à volta dos estudos, o que não deixa de ser curioso visto que são os mesmos escribas que sempre negaram os mais importantes e completos estudos elaborados nos últimos anos: os estudos sobre as alterações climáticas. Os referidos escribas não se coibiram a escrever todos os disparates possíveis e imaginários para descredibilizar esses estudos, para além disso o João Miranda (o recordista dos disparates do Blasfémias) chegou a fazer a apologia cerrada de estudos pseudocientíficos sobre o desenho inteligente, uma infantilidade intelectual carregada de charlatanice barata. Obviamente, depois pouca credibilidade merece o que os mesmos opinam sobre os estudos do aeroporto e do TGV, é uma opinião em sintonia com o quadro descrito, quase sempre no registo do disparate.

É pena
É uma pena, porque esta poderia ser uma oportunidade de pela primeira vez na nossa história projectar uma futura rede de transportes que tivesse em conta o desenvolvimento sustentável do país, debatendo prioritariamente: a maximização do transporte de bens e pessoas através de soluções amigas do ambiente, a optimização do ponto de vista da rapidez, dos custos económicos e ambientais e da descentralização no acesso das cidades do interior e do litoral à rede ferroviária e aeroportuária, a articulação da nossa rede ferroviária com a rede transeuropeia de alta velocidade, a revisão da fiscalidade afecta a cada meio de transporte em função da poluição e da capacidade de transporte e o potencial de desenvolvimento académico, científico e tecnológico que tal projecto representa.
Infelizmente, o que domina o debate é o "quero o aeroporto no meu quintal".

quinta-feira, junho 21, 2007

Deus foi um malandreco com G. W. Bush

"Georg W. Bush says that God told him to invade Iraq (a pity God didn't vouchsafe him a revelation that there were no weapons of mass destruction)."

"The God Delusion", Richard Dawkins, Bantam Press, 2006, pag. 88

quarta-feira, junho 20, 2007

Manuel Tão sobre o novo aeroporto e o TGV

Vale a pena ler todos os textos sobre transportes publicados no blog do Manuel Tão (infelizmente em hibernação), doutorado em economia de transportes pela Universidade de Leeds. O Manuel Tão produziu um raro e valioso trabalho de investigação sobre o impacto de uma rede de comboio de alta velocidade no nosso país.

Destaco a seguinte passagem de um dos seus textos:

"Mas vamos uma vez mais tentar perceber o que move o sentimento destas criaturas, um pouco ao jeito de todos aqueles que há século e meio se declaravam frontalmente contra a introdução do caminho de ferro no “país pobre” e de “dimensão reduzida” que era Portugal. Há muitas razões para existir oposição ao TGV. As mais legítimas prendem-se, seguramente, com os interesses ligados ao transporte aéreo de curta e média distância, assim como, claro está, aos de todo o mundo ligado à venda de combustíveis, viaturas automóveis e exploração de rodovias. Da mesma maneira que o comboio destronou os almocreves, também o comboio de “alta velocidade” vai acabar com muitas linhas aéreas (Lisboa-Porto e Lisboa-Madrid serão substituídas pelo novo transporte, isento de emissões poluentes), e ainda abstrair praticamente metade do tráfego das auto-estradas paralelas, como a A1."

segunda-feira, junho 18, 2007

Lucros da Monsanto e o crime do Agente Laranja



São sobejamente conhecidas uma série de histórias macabras sobre a empresa Monsanto, sobre a forma implacável como processam nos tribunais os agricultores americanos que involuntariamente vêem os seus campos infestados por plantas geneticamente modificadas patenteadas pela empresa. Porém, o processo desencadeado hoje por veteranos de guerra americanos e por vítimas vietnamitas contra a Monsanto revela uma história ainda mais macabra. Ler tudo aqui.
Sabemos de antemão que no fim deste processo o lucro do crime compensa largamente a penalização da multa. No fundo, no fundo, é apenas a mão invisível no seu esplendor, é o sacrosanto mercado a velar por nós...

sexta-feira, junho 15, 2007

Mais uma boa razão para ser contra a NATO

O teor do texto "Os Mísseis Russos e a Europa" de José Pacheco Pereira (JPP) constitui, para aqueles que como eu defendem a saída de Portugal da NATO (desconfio que a maioria dos portugueses pensa da mesma maneira), mais um forte motivo para não pertencermos a essa falsa aliança, essencialmente pela exposição de dois tipos de argumentação:

1- Inversão da realidade - Transformar o agressor em agredido e o agredido em agressor. É um argumento típico dos irredutíveis da NATO e de todas as asneiras de G. W. Bush. Já aqui denunciei um texto em que Vasco Graça Moura atribui à esquerda o apoio à Al-Qaeda (não se percebe como), num total branqueamento da iniciativa de Richard Perle, o verdadeiro mentor dos planos de expansão e de reforço da Al-Qaeda. No seu texto, JPP não vê qualquer problema no sistema anti-míssil americano, o problema no seu entender é que os russos estão a reapontar os mísseis para a Europa, mais precisamente, nas palavras de JPP, a admitir que nunca deixaram de apontar. Obviamente, para JPP o sistema anti-míssil americano não está a ameaçar nem a provocar ninguém, nem a desrespeitar tratados internacionais (também incluem estes sistemas), até porque o sistema anti-míssil americano funciona com pombas. As pombas voam até junto dos mísseis russos e transformam-nos em pétalas de rosa (e não em destroços de plutónio e urânio) que caem suavemente sobre os telhados da Europa de Leste...

2- Fantasia geradora de medos - JPP atribui erradamente o perigo atómico a um cenário de uma fantasia geradora de pequenos medos. O grande perigo da proliferação nuclear não é o cenário de fantasia insinuado por JPP, no qual o perigo viria de um Putin que vai apontando e disparando sadicamente, um a um, vários mísseis contra cidades europeias, "um para os Açores, outro para o comando da OTAN de Cascais", "um lote especial para Bruxelas", etc. O grande problema da proliferação nuclear é outro e está muito bem identificado e analisado num grande livro: "De Tchernobyl en tchernobyls" (Odile Jacob, 2005) da autoria do Nobel da Física Georges Charpak e Richard Garwin, físico que trabalhou no programa nuclear americano. O problema da construção de sistemas de defesa foi alvo de vários trabalhos académicos que demonstram que para uma grande potência é mais eficiente e barato construir mais mísseis ofensivos do que construir sistemas de defesa balísticos. A resposta natural dos russos ao sistema de defesa anti-míssil americano é simples: mais mísseis e ainda ficam a ganhar. O verdadeiro problema do sistema anti-míssil é que este contribui para a proliferação nuclear, com todos os grandes perigos que lhe estão associados: a potencial disseminação de materiais utilizados nas bombas por grupos terroristas e o perigo de um lançamento acidental entre as mais de 8000 armas nucleares actualmente espalhadas pelo mundo, das quais cerca de 480 estão na Europa e 90 na Turquia (ler o artigo "Apocalypse Soon" de Robert S. McNamara).

Já agora, para onde estão apontadas as chaminés de CO2 da indústria dos EUA?


Este texto de JPP é radicalmente mais anti-russo do que as palavras do próprio Bush durante o G8: "They're [Russians] not a military threat. They're not what we should be hyperventilating about. What we ought to be doing is figuring out ways to work together". Ora, quando os acérrimos defensores da NATO em Portugal (que não são muitos) são mais papistas que o papa, justificando a aliança atlântica através da manipulação da realidade e do nosso imaginário, todos temos motivos para temer que a aliança em causa seja mais geradora de perigos do que de segurança. Será que não está na altura de um referendo à NATO? Ou será que a NATO está acima do poder democrático?

terça-feira, junho 12, 2007

Vertigem Americana

Os neoconservadores não gostam, já se sabe que não se pode criticar nem a América nem o mercado, e os marxistas dogmáticos esperneiam e praguejam, sentem-se ultrapassados pela esquerda. Oh da guarda, lá vem mais um livro do BHL!

Finalmente, traduzida para português, chegou às nossas livrarias a última e excelente obra do filósofo francês Bernard-Henri Lévy: "Vertigem Americana". Clicar aqui para ler a apresentação e a análise feita em entrada anterior. Este é um livro altamente recomendado aos fiéis leitores da Klepsýdra.

Livro Klepsýdra ***** (5 estrelas)

sábado, junho 09, 2007

Sábado em Coimbra XXXVI: conversas com o Afonso

Sempre que vou ao café Santa Cruz tento ficar no canto da esplanada mais próximo da igreja, mais próximo do Afonso, o Afonso Henriques. Do seu túmulo, que fica a apenas alguns metros da minha mesa, o Afonso saúda-me erguendo ligeiramente a espada pousada sobre o peito. De seguida iniciamos grandes cavaqueiras sobre o estado da nação e do mundo. Ele quer saber tudo. Falamos do passado e falamos destas ruazinhas em frente a nós, quem vivia ali há 800 e tal anos, os episódios passados com os seus servidores, os seus soldados, os clérigos e as mulheres que serviam todos estes homens. Fixo o início da rua direita e começo a percorrê-la de sandálias, sobre a lama amassada pelas montadas, pelos comerciantes, viajantes e locais que vinham à praça de Coimbra recém conquistada para o campo do cristianismo. Toco alguns dos artefactos à venda, bem como as castanhas, as peras e as romãs de há 800 anos, respiro fundo e sinto o cheiro original desta cidade...

Sábado em Coimbra XXXV

quinta-feira, junho 07, 2007

Estado da Ciência nas Universidades e na Sociedade

Em boa hora fui convidado (obrigado T.) a ler este sublime artigo sobre o declínio da ciência na sociedade da autoria de Harry Kroto. O artigo descreve o caso britânico, mas muito do que ali se analisa aplica-se na perfeição ao caso português, aliás entre Blair e Sócrates muita coisa há em comum, infelizmente. Harry Kroto analisa o encerramento de prestigiados cursos de ciência numa altura em que as empresas dependem mais do que nunca da ciência e da tecnologia, ao mesmo tempo que proliferam nas universidades cursos light de comunicação e publicidade. O problema é apresentado como deve ser, realçando a ausência de racionalidade de um sistema universitário unicamente economicista em que as pessoas são reduzidas a contribuintes, sendo dissociadas dos tremendos benefícios sociais produzidos pela ciência e pela tecnologia.
Kroto descreve ainda o flagelo da ignorância do método científico e as suas consequências na proliferação de todas as pseudo-ciências (desenho inteligente, o negacionismo do aquecimento global, etc.) e na implementação de políticas na agricultura, nos negócios e na justiça. Sobre este tema escreverei em breve umas linhas sobre o caso português. Há uma ou duas coisas que devem ser ditas, talvez à bruta...

terça-feira, junho 05, 2007

Sistema de defesa anti-míssil dos EUA na Europa II

Ler o texto da Ana Gomes sobre o sistema de defesa anti-míssil que os EUA estão a tentar impor à Europa.

Construa-se o aeroporto no quintal de V. Pulido Valente!

Este excelente e desgarrado texto da Isabel do Aba de Heisenberg é um verdadeiro murro na mesa contra o discurso centralista e macrocéfalo em torno do novo aeroporto. A vítima é Vasco Pulido Valente - um excelente representante do imobilismo luso - mas o barrete poderia servir a muita gente que só vê Lisboa à frente. Deliciemo-nos com alguns extratos do texto da Isabel:


"Na sua crónica, no Público de hoje, Vasco Pulido Valente (VPV) veste a pele de “O Lisboeta”. O Lisboeta chateado ante a perspectiva de o aeroporto já não lhe ficar ali ao pé da porta, de ter que se levantar cedo para apanhar o avião, que chatice, de ter que apanhar o táxi, que chatice, olhe VPV eu cá apanho os mal-cheirosos expressos da RN, que como a grande maioria dos portugueses não tenho orçamento para grandes viagens de táxi. VPV aborrece-se, mas VPV à boa maneira macrocéfala da capital, faz a figura de Mário Lino, considera que o resto do país é um deserto ou pior ainda, não existe."

"Não sei onde é que o VPV mora em Lisboa, mas certamente não é ali para os lados do Campo Grande, com os aviõezinhos a roçarem-lhe o telhado… Se calhar até é, mas já se habituou. Mas olhe que eu que até acho graça a aterrar em Lisboa, a sobrevoá-la muito baixinho, fico sempre a pensar que pela cabeça do meu vizinho do lado, que não é de cá, deve estar a passar qualquer coisa como, mas a que país do terceiro mundo vim eu parar?"

"E já agora se ainda tiver paciência e bondade para pensar nos 8 milhões de portugueses que vivem fora de Lisboa, veja por exemplo o meu caso, que vivo em Coimbra, que raramente faço viagens de avião que não sejam de trabalho e que por isso, são sempre curtas, não vou à Nova Zelândia, e que raramente saio por mais de 3 ou 4 dias. Para apanhar os primeiros aviões da manhã só me resta ir pernoitar a Lisboa, para um avião lá pelas nove horas, tenho um expresso da RN, desconfortável, perigoso e fedorento, pelo meio do dia já tenho os nossos modernos pendulares , mais táxi ou autocarro a partir do Oriente. Chegadas a partir das nove da noite dão de novo direito a autocarros da RN, que por acaso saem de Sete-Rios. E se chego, por exemplo às 22.30 tenho que esperar pelo autocarro da meia-noite e chegar a Coimbra às 3 da manha. Veja VPV, isto é Portugal."

segunda-feira, junho 04, 2007

Testemunho de Bernard-Henri Lévy sobre o Darfur

Recentemente, Bernard-Henri Lévy (BHL) entrou clandestinamente no Sudão, na região do Darfur. No programa "Ce soir ou Jamais" da France 3, BHL oferece-nos o seu testemunho sobre o genocídio em lume brando ali perpetrado pelo regime sudanês. Ver aqui a entrevista integral.