domingo, abril 08, 2007

Inland Empire - A woman in trouble

"Inland Empire" de David Lynch é de longe o filme mais experimental e mais original do autor. A particularidade desta obra de Lynch consiste na representação sistemática do imaginário dos personagens, dos seus fantasmas, das suas angústias, traumas, etc., em simultâneo com a própria realidade. Ao contrário de Mulholland Drive, nesta obra Lynch não faz cedências ao espectador introduzindo pistas triviais que permitam distinguir entre a representação do real e do imaginário. Ambos se fundem e confundem, tal como acontece nas reflexões que condicionam os nossos actos. É esta a a grande dificuldade mas também o grande interesse deste filme.

Quando Lynch iniciou as filmagens de "Inland Empire", o guião do filme estava em grande parte por definir e isso é perceptível ao longo do filme. A trama segue as angústias de Nikki Grace - a woman in trouble tal como a define o subtítulo - recuperando alguns dos temas centrais de Mulholland Drive como o fascínio destrutivo que exerce a indústria cinematográfica e os sacrifícios e as angústias que os aspirantes a actores estão dispostos a tolerar para conseguir um lugar ao sol. Inland Empire é a zona de Los Angeles onde residem os actores que ainda não são suficientemente ricos ou famosos para morar em Bevery Hills. Inland Empire é pois o limbo entre o anonimato e o estrelato em Hollywood. Grace (Laura Dern) tem como parceiro de primeiro filme Devon Derk. Após a rodagem de algumas cenas, Grace inicia um relacionamento amoroso extraconjugal com Derk. A partir desse momento o personagem Derk desaparece do filme e iniciamos uma viagem intensa através dos mini-universos interiores de uma Grace que entra num processo de culpabilização doloroso. Em cada mudança de cena Grace salta para uma nova caixa simbólica, um novo mini-universo, que se confunde com a realidade. De tal modo é baralhada a realidade com o imaginário de Grace que a relação com Derk parece uma sofisticada construção justificativa para o dilema de Grace: "ser puta ou não ser puta". A ideia é repetida várias vezes ao longo do filme através da representação de um grupo de mulheres de comportamento suspeito que interpelam Grace de uma forma sugestiva.
Mais do que tentar descodificar aqui o significado complexo de cada um dos elementos simbólicos que compõem a trama deste Inland Empire, convido vivamente o leitor a ver esta nova obra de David Lynch. O filme de Lynch vale mais pela originalidade e pela ousadia experimental do que pela estética e pelo tema abordado. Este Inland Empire é um filme que deve ser visto e revisto, no entanto as cerca de três horas de filme e uma estética por vezes pouco cuidada na transposição entre algumas cenas mais experimentais são pouco convidativas a revisionamentos integrais desta interessante obra cinematográfica.

Vive la France!
"Inland Empire" é o segundo filme francês (com algum financiamento americano e polaco) de David Lynch, depois de "Mulholland Drive", e a prova de que a excepção cultural francesa é actualmente o abono de família de algum do melhor cinema de autor que se vai fazendo nos EUA, em contraponto com o deserto criativo que a "mão invisível" de Hollywood inflinge ao cinema americano.

segunda-feira, abril 02, 2007

Bússola para Inland Empire: Žižek

Žižek recorre frequentemente à obra de David Lynch para ilustrar as suas reflexões sobre o real e o imaginário. Na filmografia de Lynch ambos os aspectos se fundem em filmes como "Lost Highway" ou "Mulholland Drive", tal como se fundem nos nossos cérebros. O problema é que não estamos habituados a ver a representação dessa fusão fora do nosso mundo interior, especialmente numa tela cinematográfica. A obra intitulada "The Art of the Ridiculous Sublime: On David Lynch's Lost Highway" de Žižek poderá ser uma boa bússola para orientar o espectador ao longo das quase três horas do novíssimo filme de David Lynch, "Inland Empire".

Parabéns Ticha



Mais um título para a Ticha Penicheiro (segunda a contar da direita), desta vez foi o Campeonato Europeu de Clubes, pelo Spartak de Moscovo. Continua a deslumbrar-me a carreira daquela menina que em tempos acompanhava o pai, meu treinador de iniciados, aos treinos e aos jogos e andava lá pelos cantos do pavilhão a driblar a bola e a resmungar sozinha.

sábado, março 31, 2007

Sábado em Coimbra XXXIV: Requiem pela Rua Direita

Rua Direita, Rua Direita, essa rua torta,
que vai do Terreiro da Erva à Igreja de Sta. Cruz
onde se confessa a via romana da ex-Aeminium,
os pecados por ali sempre se pagaram, mas nunca se apagaram.

...eis que chegam os bulldozers,
essas borrachas rotring da santíssima trindade.
Em nome da Câmara, da Académica e do Grupo Amorim, Ámen!

Sábado em Coimbra XXXIII

quinta-feira, março 29, 2007

A esquerda e a Europa

Ler extractos da entrevista de Mário Soares ao Público sobre a Europa, via O Avesso do Avesso. Destaco:

"Eu costumo dizer que não há ninguém de esquerda que não seja também europeu. Se a esquerda não é europeia não é nada."

Desconfio que Mário Soares está carregadinho de razão. O que é certo, é que a esquerda anti-europeísta existe. Existe e é de uma tristeza política confrangedora. É triste esquerda rimar com populismo, com desconfianças nacionalistas, com masturbações patrioteiras, com saudosismos pseudo-revolucionários, com negacionismos históricos, etc. Refiro-me a quem? Ao PCP, PCF, PCdI, Links Partei, PC Checo e ao PS de Fabius.

terça-feira, março 27, 2007

Excelente documentário de António Barreto

Já aqui malhei forte e feio em António Barreto, e não me arrependo, porque acho que Barreto errou, e errou muito, sobre o que escreveu sobre a educação, o ensino superior e a investigação científica. Mas, depois de ter assistido ao primeiro episódio da série "Portugal - um retrato social", não posso deixar de aplaudir com muita satisfação o excelente trabalho por ele realizado na produção desta série. Uma coisa é vociferar e entrar em histeria inconsequente contra o Salazarismo, outra é mostrar, quase sem grandes comentários, o país de merda que era Portugal antes do 25 de Abril.

50 anos depois (caixa de comentários)

Recortes da caixa decomentários da entrada "50 anos depois":

"É um projecto que terá as suas dificuldades próprias, mas se a Europa se pacificou e se desenvolveu, foi graças à superação de paradigmas passados. É uma aventura que vale a pena. Muitos dos problemas que apontou resolvem-se com mais e melhor Europa. Não posso, aliás, deixar de recordar o contributo das teses federalistas para a Europa. Kant é uma boa leitura para estes dias. Tomara, nos quatro anos de invasão do Iraque, que fosse um pouco mais considerado." Sérgio

"Juntar 25 países com culturas e hábitos diferentes, criar uma moeda única, um parlamento e regras únicas é um feito de saudar." Papalagui

"Não creio que a UE seja subserviente face aos EUA. Enquanto o RU é fortemente atlantista, a França é muito céptica face à América. Repara que se algum dos países for atacado, a NATO, como aliança é obrigada a intervir. É ela, portanto, e não a UE, que tem garantido a paz na Europa." David Luz (Linha dos Nodos)

sábado, março 24, 2007

50 anos depois

A Europa ainda tem muita coisa a melhorar, mas é preciso não esquecer que em nenhuma outra região do mundo se foi tão longe na ecologia, na redução do horário de trabalho, no tempo de férias, na cobertura social, na aposta da diplomacia internacional, na luta contra a exclusão, na sexualidade, na paridade, na laicidade, na integração de países vizinhos mais pobres (da Irlanda à Bulgária) por países mais ricos, na qualidade de vida e no desenvolvimento sustentável. Tudo isto aconteceu num quadro de diversidade impressionante de tendências e de pensamento político (do Parlamento Europeu aos parlamentos nacionais), diversidade cultural, linguística e espiritual. É um património assinalável que não se deve desbaratar em nome de tácticas políticas efémeras.

No entanto, a imigração, as relações de comércio externo com os países em vias de desenvolvimento, a exploração da mão-de-obra nesses países, a fraca transposição da produção científica para a tecnologia ao serviço da sociedade e a subserviência à NATO/EUA, continuam como os pontos negros da UE. Cabe-nos a nós construir a Europa dos próximos decénios revolucionando o necessário da política para eliminar estes pontos negros. Isso não se faz a olhar para o umbigo de cada país, nem a olhar para os outros povos como corpos estranhos. A força da UE é fazer melhor em conjunto do que o resultado da soma das partes separadas. É nesta espírito que identifico com a Europa e me considero Europeísta, e não porque ache que a Europa é um continente especial ou que o continente tenha sido iluminado pelas pontas dos dedos do Altíssimo quando este criou os animaizinhos, as arvorezinhas e os homenzinhos.

quinta-feira, março 22, 2007

Como o planeta "respira" o CO2



Esta extraordinária animação construída com os dados do satélite Envisat da ESA, mostra a variação da concentração de dióxido carbono na atmosfera terrestre entre 2003 e 2005. É impressionante verificar como a sua quantidade diminui significativamente na Primavera e no Verão à medida que a vegetação do hemisfério norte vai crescendo - o hemisfério sul tem menos área continental e por isso menos vegetação - e o efeito inverso no Outono e no Inverno.
Abaixo a concentração de metano no mesmo período.

Críticos de cinema do Público (comentários)

"Era interessante procurar uma correlação estatística entre o número de estrelas dadas aos filmes e as distribuidoras, e depois procurar verificar se os jornais e as distribuidoras têm interesses comuns", David Luz.

Pois era...

"Realmente é espantosa a quantidade de filmes que só são vistos por um ou dois críticos. Conheço cinéfilos que vêem mais filmes que certos críticos!", David Luz.

Eu também.

quarta-feira, março 21, 2007

Críticos de cinema do Público vão juntos ao WC?

Ocorreu-me esta pergunta ao apreciar esta página de cinema do Público de nome sugestivo: topFilmz. Na página topFilmz encontramos as estrelinhas dadas pelos críticos de cinema do Público. Passem os olhos pela página, vale a pena... Reparem que o acaso faz que os quatro críticos do Público só atribuam 5 estrelas ao mesmo filme, a película "Cartas de Iwo Jima" de Clint Eastwood. Se passarem os olhos pelo resto, mais estrela menos estrela, os críticos do Público estão basicamente de acordo. O filme Babel é a prova dos nove sobre o que estes críticos odeiam em cinema (eu percebo-os, andar de autocarro sem ar condicionado em Marrocos no meio de terroristas perigosíssimos é chato). Fica a sensação que a crítica de cinema do Público é feita por um grupo de amigos. Mas não, é mais forte do que isso. Pensando bem, se juntarem os vossos três melhores amigos que gostam de cinema muito dificilmente conseguiriam uma tabela de estrelinhas tão bem comportada como esta. A comunhão de gostos dos críticos do Público é tal que só pode ser explicada, ou por uma formatação e uniformização cerebral colectiva resultado de anos e anos a ver o mesmo tipo de filmes, ou por "exigências maiores" da indústria de distribuição cinematográfica. Acredito mais na primeira hipótese.

Conclusão
O Público não precisa de pagar a 4 críticos de cinema. Poderia despedir três e pagar apenas a um crítico. Ao Jorge Mourinha, por exemplo, que é o único que se dá ao trabalho de levantar o traseiro para ir ao cinema. Este assinaria a atribuição de estrelas juntamente com três nomes fictícios diferentes, tirava uma estrela aqui, adicionava outra ali e o resultado para o leitor seria exactamente o mesmo.

terça-feira, março 20, 2007

Sobre o filme As Vidas dos Outros

Ler o comentário do Luís ao filme As Vidas dos Outros na Natureza do Mal. Destaco:

"Estranhamente, não chega conquistar um Óscar, um êxito razoável de bilheteira no Reino Unido para escapar a uma exibição discreta em salas secundárias da capital de um Império que também já foi. O fascismo nunca existiu, já se sabe. E aquele comunismo, camaradas, também não."

Broches a uma ideologia que é contra a ciência

O programa e os painéis do colóquio "Darwinismo versus Criacionismo - Onde começa e onde acaba uma teoria científica" (via Causa Nossa), organizado pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, deixam entender que se vai explicar porque é que o Darwinismo é ciência e o Criacionismo (desenho inteligente incluído) não é ciência nenhuma. No entanto, há dois reparos importantes a fazer.

Primeiro, o título lança desnecessariamente alguma confusão sobre o assunto, pois o Darwinismo não pode ser comparado com o Criacionismo à luz da ciência. Compará-los tem tanto significado como comparar batatas com sereias. O Darwinismo é perfeitamente fundamentado pela ciência - há poucas teorias para as quais tenham sido reunidas tantas provas que as validem - enquanto o Criacionismo (e a sua última moda do desenho inteligente) não tem qualquer base científica, não existe qualquer trabalho científico válido que verifique as hipóteses de base criacionista.

O segundo reparo a fazer a este colóquio é que se trata de mais um broche à ideologia neoconservadora com origem nos EUA, que é a única ideologia hoje em dia que alimenta este tipo de pseudociência. Quem conhece um bocadinho os manobrismos que os neoconservadores ensaiam na Europa, sabe muito bem de onde surgem este delírios. Fundaçõezinhas e fundaçõezecas, do tipo da fundação do mafioso George Soros, multiplicam-se pelo continente europeu, principalmente na Europa de Leste com o objectivo de evangelizar os europeus aos maiores delírios do neoconsevadorismo americano. O menu neoconservador é composto por uma catequese espiritual e outra materialista. A catequese materialista baseia-se no ultraliberalismo do Estado Mínimo contra o Modelo Social Europeu. A catequese espiritual baseia-se no combate cerrado à ciência, através do negacionismo do Darwinismo, do Big Bang e do Aquecimento Global. Os recentes desenvolvimentos científicos sobre as alterações climáticas desferiram um rude golpe à ideologia neoconservadora, mas o dinheiro dos poços de petróleo continua a jorrar para alimentar os delírios pseudo-científicos. Infelizmente, este colóquio tem tudo para ser considerado mais um broche à ideologia neoconservadora do que propriamente uma oportunidade para esclarecer o grande público sobre a importância do método científico na complexidade das sociedades actuais.

segunda-feira, março 19, 2007

Depois digam que a culpa é da Europa...

É escandalosa a situação dos ex-trabalhadores da Companhia Portuguesa do Cobre que continuam com verbas avultadas para receber por o Estado ter aplicado só em 2000 a directiva comunitária dos anos 80 que obriga à criação do Fundo de Reserva de Garantia Salarial. A legislação vigente em 1996, na altura da falência, dava prioridade às dívidas aos bancos. Os bancos receberam, os trabalhadores também não...

domingo, março 18, 2007

Taxi Driver

"Taxi Driver" é o meu filme preferido de Martin Scorsese - não vi o premiado "Entre Inimigos", o remake de "Infernal Affairs" de Wai Keung Lau. Em "Taxi Driver", Scorsese explora até ao absurdo a diferença entre a justiça e o justiceiro da selva urbana. É de certo modo uma recriação do tema de "Fury" realizado em 1936 por Fritz Lang, adaptando o tema da justiça pelas próprias mãos aos anos 70, ao ambiente urbano de uma grande cidade e à desumanização das sociedades modernas. Em "Taxi Driver", Robert de Niro interpreta o excelente papel de Travis Bickle, um taxista solitário e desequilibrado que decide fazer justiça pelas suas próprias mãos para purificar a cidade, fazendo uso da força das armas e da moral de pacotilha. Jodie Foster (com apenas 14 anos) interpreta uma prostituta a quem Travis vai convencer a deixar a "má vida".

Apesar de "Taxi Driver" levar ao absurdo a fúria justiceira, é um filme sempre actual, sobretudo porque as grandes cidades das democracias modernas, só são modernas até à profundidade da primeira camada de verniz. Daí para baixo, ainda não se percebeu como funcionam os mais básicos pilares da justiça, não se distingue entre justiça e vingança e aplaude-se com frequência os Travis deste mundo.

sexta-feira, março 16, 2007

Mares nunca antes navegados

A sonda Cassini da NASA descobriu a existência de mares no planeta Titã. Quem estiver a pensar ir lá mandar em mergulho pode tirar o cavalinho da chuva, são mares de etano ou de metano líquido.

quarta-feira, março 14, 2007

Verdades do Iraque como azeite em copo de água

Para quem tinha lido o livro "Disarming Iraq" de Hans Blix, as suas declarações de manipulação por parte dos governos britânico e americano do relatório sobre as armas de destruição em massa (ADM) não são grande novidade. Em "Disarming Iraq" já está lá tudo, num livro muito interessante nunca traduzido para português, vá-se lá saber porquê...

Aqui fica uma entrada de 11 de Outubro de 2004 em que comento as denúncias de Hans Blix em "Disarming Iraq" sobre o processo de inspecções de ADM.

segunda-feira, março 12, 2007

O negacionismo da teoria da evolução na ARTE

Hoje no canal ARTE, pela 21h20 de Portugal, é transmitido um documentário intitulado "La Science en Guerre" sobre o delírio negacionista da teoria da evolução de Darwin que grassa nos EUA.

O secundário mal feito de Helena Matos

Esta crónica do Rui Tavares publicada no Público sobre um texto de Helena Matos (suponho publicado no dia anterior no mesmo jornal) deixou-me com os cabelos em pé tal é o grau de ignorância científica (nível escola secundária) que Helena Matos evidencia. Não tenho o texto completo da Helena Matos, por isso corro algum risco de ser injusto, no entanto o parágrafo abaixo transcrito e as citações entre aspas são suficientes para perceber que a Helena Matos não domina nem de perto nem de longe uma das matérias essenciais do ensino secundário: o Método Científico. Eis o referido parágrafo:

Haverá alguma correspondência, como sugeriu ontem Helena Matos, entre os profetas religiosos que declaravam que as catástrofes naturais eram provocadas pelo pecado e aqueles que hoje identificam causas humanas nas alterações climáticas? Poderá considerar-se que a crença numa e na outra coisa é “uma atitude igualmente supersticiosa”? Será legítimo concluir que “onde uns colocavam a vontade de Deus coloca-se agora o equilíbrio da Terra”? Rui Tavares

Qualquer estudo científico moderno está sujeita aos critérios rigorosos e absolutamente cépticos do método científico. De uma forma simplificada podemos dividir o Método Científico em quatro passos:

1- Observação
2- Hipótese
3- Previsão
4- Experimentação

Só depois de um fenómeno ter sido estudado rigorosamente através deste método é que os cientistas produzem uma conclusão fundamentada, conclusão essa que tem sempre um determinado grau de certeza. No caso do aquecimento global, os 1000 melhores investigadores do mundo (de 130 países) em climatologia, depois de 6 anos de trabalho, determinaram um grau de certeza superior a 90% para a origem humana do fenómeno. Ora os profetas religiosos, a superstição, "a vontade de Deus" e o próprio raciocínio da Helena Matos não passam por este processo rigoroso de estudo e por isso mesmo não são ciência, são palpites muito pobrezinhos.

O problema é que a ignorância do que é o método científico tem sido recorrente entre os textos negacionistas do aquecimento global, não é só Helena Matos, são também as toneladas de textos do Blasfémias (todos sobre o criacionismo), do Insurgente, do Mitos Climáticos e do Luciano Amaral no DN a evidenciar o mesmo problema.
Não é por uma falha no programa das escolas secundárias que este flagelo intelectual grassa no país, lembro-me de ter dado o método científico em duas disciplinas: filosofia e física&química. A raiz do problema está na fraquíssima cultura científica do nosso país. Este défice científico da nossa sociedade impede que a maior parte dos cidadãos não perceba que saber o método científico é tão importante como saber a gramática ou história de Portugal.

sábado, março 10, 2007

20% de energias renováveis na UE até 2020

A decisão de ontem do Conselho Europeu em estabelecer uma meta de consumo de 20% de energias renováveis no horizonte de 2020 no espaço geográfico abrangido pela UE, é uma decisão histórica, que vai no sentido das boas políticas de combate ao aquecimento global, no entanto as respectivas negociações foram ensombradas por dois detalhes não desprezáveis. O primeiro foi a intransigência da França e de alguns países de leste onde o consumo de energia de origem nuclear é maioritário, em aceitar a meta de 20% como uma meta individual, para cada país. A decisão de 20% ficou assim estabelecida como uma média de consumo energético de toda a UE, quer isto dizer que alguns países vão fazer um esforço maior no sentido do consumo de energias renováveis para compensar a aposta nuclear da França e dos referidos países de leste. O segundo detalhe negativo, é a indiferença dos EUA em relação à decisão. Na minha opinião está na altura da UE interpelar seriamente os EUA sobre a essência da palavra aliado. Não se pode ter a pretensão de ser um aliado de armas e depois pela calada do fumos das chaminés contribuir para destruir o planeta, destruindo tudo a eito, aliados e inimigos, não faz sentido.

quinta-feira, março 08, 2007

Serviço público...

A RTP continua na sua senda de canal pimba, seguindo o estilo SIC/TVI. Hoje a soirée da RTP internacional é dedicada à Gala dos 103 anos do Benfica. No próximo dia 1 de Maio, espero que sejam coerentes e não se esqueçam de transmitir o Monumental Digestivo directamente do Café Nau que se segue à jantarada comemorativa dos 114 anos da Naval.
A RTP poderia até tornar-se um canal especializado em aniversários de clubes, ou mesmo em baptizados ou casamentos de dirigentes, de associados e de massagistas...

terça-feira, março 06, 2007

Melhores momentos das presidenciais francesas

Sem dúvida, os melhores momentos destas presidenciais francesas são dois grandes momentos de participação cidadã:

- O Pacto Ecológico proposto por Nicolas Hulot aos candidatos presidenciais. Um pacto que compromete o futuro presidente francês a uma série de medidas para a protecção do ambiente.

- O Contrato Social e de Cidadania apresentado pelo colectivo AC Le Feu, constituído por jovens das cités fartos de carros queimados e de políticos autistas.

sábado, março 03, 2007

Aquecimento Global Hoje

A ler o texto do David Luz na Linha dos Nodos sobre a importância do estudo dos polos no estudo do aquecimento global.

Ler este texto do Alexandre Andrade no Um Blog sobre Kleist relembrando a verdadeira natureza sobre o sítio Junk Science (já faltou menos para o Blasfémias promover a astrologia a ciência exacta), já aqui denunciado numa entrada anterior. E um grande parabéns para o Alexandre e para o seu excelente e delicioso blogue.

O Nuno Ferreira do Aba de Heisenberg tem esta entrada que ilustra com clareza o fundamento científico das opiniões dos negacionistas do aquecimento global.

Aniversários

O Avesso do Avesso foi uma grande aquisição para a blogosfera nacional, está de parabéns o Filipe Moura.

Apesar de traulitada que chove às vezes daqui para lá e de lá para cá, os meus parabéns à malta do Blasfémias, sobretudo ao desportivismo de alguns dos seus escribas.

sexta-feira, março 02, 2007

As Vidas dos Outros

"As Vidas dos Outros" é na minha opinião um dos melhores filmes de 2006. O grande interesse desta obra de Florian Henckel von Donnersmarck - Filme Europeu do Ano e Oscar para o Melhor Filme Estrangeiro - é o de mostrar até que ponto a polícia política da ex-RDA era capaz de corromper a alma dos cidadãos, mesmo dos que se esforçavam para não pactuar com o regime. O filme abre com um interrogatório a um preso político que evidencia dois aspectos tenebrosos. Primeiro, é difícil não associar o efeito produzido pela farda de Gerd Wiesler e o ambiente de interrogatório, às fardas e aos interrogatórios do período nazi. Para muitos Stasis o fim da Segunda Guerra Mundial constituiu apenas uma pequena mudança de adereço da farda, onde a suástica foi substituída pela foice e o martelo. Em segundo lugar, o interrogatório em si, acompanhado pela sua explicação académica apresentada numa sala de aula, mostra a verdadeira essência da perseguição política. Curiosamente, outro alemão, o padre jesuíta Friedrich von Spee já tinha escrito em 1631 a propósito da inquisição e da caça às bruxas, na obra Cautio Criminalis, algo que ilustra na perfeição a natureza destes interrogatórios:

"[A acusada de bruxaria] ou levou uma vida de pecado e indigna, ou levou uma vida boa e respeitável. No primeiro caso, deve ser considerada culpada. Por outro lado, se levou uma vida boa, também deverá ser condenada, pois as bruxas são dissimuladas e tentam parecer particularmente virtuosas"

Preso por ter cão e por não ter, assim foram as perseguições políticas tanto na comunista RDA como no Portugal fascista de Salazar e Caetano. Aliás o filme mostra isso mesmo, mostra que os métodos das ditaduras comunistas eram muito parecidos com os das ditaduras fascistas.



A narrativa de "As Vidas dos Outros" segue o trabalho do stasi Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) que tinha por missão escutar e investigar a vida privada de Dreyman, um intelectual objecto de suspeita do regime. Seguimos primeiro as suas certezas, depois as suas dúvidas, enquanto isso as vidas dos outros, de Dreyman e da sua companheira Christa-Maria (Martina Gedeck) vão-se degradando. O efeito corrosivo do regime é tal que atinge as mais sólidas relações amorosas.

Martina Gedeck tem neste filme mais uma das suas grandes interpretações do ano, depois de "Partículas Elementares". Aqui na Klepsýdra é já considerada uma das melhores actrizes deste nosso planeta azul.

quinta-feira, março 01, 2007

Leituras: Luísa Schmidt e Stephen Cohen

Muito bom o artigo "Alterações Cirúrgicas" de Luísa Schmidt publicado no Expresso desta semana na revista Única que denuncia as medidas de cosmética ambiental lançadas por Sócrates que muito pouco fazem por um real combate ao aquecimento global.
(voltei a pesar o Expresso e anotei um quilo e meio a menos que há 3 meses atrás)

Muito bom o artigo "A Nova Guerra Fria Americana" de Stephen Cohen no dossier da na Courrier International (CI) desta semana dedicado às relações Rússia-EUA (publicado no The Nation em Julho de 2006). Referindo-se às relações dos EUA com Rússia depois do fim da Guerra Fria, Stephen enuncia uma série de factos que parecem demonstrar que os EUA continuaram a avançar em direcção à Rússia mesmo depois da Guerra Fria ter findado.
Aqui fica a conclusão da versão curta publicada na CI:

"The extraordinarily anti-Russian nature of these policies casts serious doubt on two American official and media axioms: that the recent "chill" in US-Russian relations has been caused by Putin's behavior at home and abroad, and that the cold war ended fifteen years ago. The first axiom is false, the second only half true: The cold war ended in Moscow, but not in Washington, as is clear from a brief look back."

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Choque de preconceitos

Caroline Fourest lança este "Choc de Prejugés" um livro que é apresentado (ver os 6 primeiros minutos deste clip) com um discurso que bate forte nas correntes políticas francesas que tentam tirar proveito próprio do mau estar gerado nas cités. Por um lado Fourest dirige-se à política securitária de Sarkozy, Le Pen e De Villiers, cada um apostando em diferentes variantes da política do bastão, e por outro Fourest não poupa a vitimização do integrismo velado representado por Tariq Ramadan, cujo comunitarismo isola ainda mais a própria comunidade e desencadeia acções comunitaristas igualmente integristas entre as restantes comunidades religiosas. Vai ser certamente uma das minhas próximas leituras, parece-me ser um livro que toca onde dói e uma das raras reflexões que decifra uma boa parte do problema das cités francesas. Aconselho vivamente este livro a todos aqueles que discutiram recentemente o problema do véu na blogosfera.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Ano Internacional do Sol em Coimbra



As primeiras iniciativas realizadas no âmbito do Ano Internacional do Sol ocorrerão durante a IX Semanal Cultural da Universidade de Coimbra cujo lema será: "Estou vivo e escrevo Sol". Estão previstos um workshop, duas exposições, três palestras e actividades para alunos dos ensinos básico e secundário. Informações para a inscrição nos diferentes eventos podem ser encontradas aqui.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Onde é que estão as televisões de esquerda?

Ler este certeiro texto do Paulo Querido sobre esse vício do cronista luso que consiste em afirmar que a comunicação social é dominada pela esquerda.

Onde é que estão as televisões de esquerda?

PS- Estou plenamente convencido que haveria espaço para um projecto televisivo em canal aberto com qualidade e com audiências razoáveis coordenado por gente de esquerda e pela nova direita intelectual. Desconfio que esta direita também não tem pachorra para o circo kitsch da TVI e da SIC generalista.

sábado, fevereiro 24, 2007

Sábado em Coimbra XXXIII: sombras de Pessoa

Nas ruas da baixa ainda há leitarias, tasquinhas, serve-se mau vinho,
por ali encalhados no tempo vagueiam muitos personagens singulares.
Chamo-lhes sombras de Pessoa, são alcoólicos da leitura, bêbados da retórica,
recriam a baixa de Lisboa do início do século XX, na Coimbra do século XXI.
Marxistas esclarecidos (dizem eles), DJs franco-atiradores, cyber-alfarrabistas,
"jovens" dos anos 80 encalhados entre o punk e o gótico, a fauna é variada.
Talvez avariada...
Parecem-me relíquias do Universo de Pessoa a cavalo em Gagarine e Carl Cox

Sábado em Coimbra XXXII

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Klepsýdras de Ouro 2006

Melhor Filme

"Partículas Elementares" de Oskar Roehler.
Ler comentário na rubrica Klepcinema.


Melhor Actriz

Martina Gedeck pela sua interpretação nos filmes "Partículas Elementares" e "As Vidas dos Outros"

Melhor Actor

Denzel Washington pela interpretação no filme "Infiltrado".


Melhor Filme Fantástico
"Perfume" de Tom Tykwer

Melhor Filme Político
"As Vidas dos Outros" de Florian Henckel von Donnersmarck

Melhor Diálogo
O diálogo entre Keith Frazier (Denzel Washington) e um polícia branco no filme "Infiltrado" de Spike Lee. Frazier pergunta ao polícia se já foi alguma vez ferido em serviço e este responde-lhe que sim, por um indivíduo negro. Após algum mau estar entre os dois, Frazier insiste para que o polícia descreva como é que esse negro o feriu... A troca de palavras que se segue é Spike Lee puro.
Este é apenas um entre uma série de diálogos memoráveis que abundam neste filme.

Melhor Cena de Dança
A subversiva dança da Olive no concurso de Miss em "Little Miss Sunshine" de Jonathan Dayton e Valerie Faris. Ver aqui no You Tube.

Klepsýdras de Ouro 2006 às 12:30

A terceira edição das Klepsýdras de Ouro que recompensam o cinema realizado no ano de 2006 terá lugar pelas 12:30. Podem começar a montar as tendas junto à passadeira de veludo azul, mas peço-vos pela Nossa Senhora de Fátima que não se empurrem, nem atirem papéis para o chão, senão tenho que soltar os pit bull.

Palmarés

Melhor Filme 2005:"L'Enfer" de Danis Tanovic
Melhor Filme 2004:"A Queda" de Oliver Hirschbiegel

Melhor Actriz 2005: Isabelle Carré pelo filme "Entre ses Mains"
e Cécile De France pelo filme "As Bonecas Russas"
Melhor Actor 2005: José Garcia pelos filmes "A Caixa Negra" e "Golpe a Golpe"

Melhor Ficção Científica 2005: "A Ilha" de Michael Bay
Melhor Filme Fantástico 2005: "A Caixa Negra" de Richard Berry
Melhor Diálogo 2005: "ENRON" de Alex Gibney
Melhor Cena de Dança 2005: "Entre ses Mains" de Anne Fontaine
Melhor Filme Político 2005: "ENRON: The Smartest Guys in the Room" de Alex Gibney

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Conversa Aquecimento Global em Coimbra

Para os interessados, hoje no café Santa Cruz em Coimbra pelas 21:30, haverá uma conversa sobre aquecimento global onde estarei presente na mesa acompanhado do João Gabriel da Quercus e da deputada Alda Macedo.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Amen ou o valor da vida

O filme "Amen" de Costa-Gavras fala muito sobre o valor da vida na óptica do Vaticano. As vidas de que se fala em "Amen" não são espermatozóides, fetos ou embriões, são as vidas de adultos e crianças, na sua grande maioria judeus, mas também ciganos, homossexuais e outras minorias que encontraram a morte nos campos de extermínio do regime nazi. A obra de Gavras ilustra muito bem o papel dúbio do Vaticano durante a Segunda Guerra Mundial, sobretudo a tolerância perante os excessos nazis, é que apesar de tudo para a Igreja os nazis combatiam os comunistas.
"Amen" conta o combate intransigente do padre Riccardo Fontana - interpretado muito bem por Mathieu Kassovitz - pelos valores autênticos do cristianismo contra a hipocrisia do Vaticano que se manteve indiferente às informações crescentes da realidade dos campos de concentração nazis. Fontana consegue o apoio de Kurt Gerstein, um graduado alemão que vive atormentado com os crimes praticados nos campos de concentração, mas a luta de ambos será sabotada pela política do Papa Pio XII. Maior ajuda obterão numerosos nazis que conseguem escapar ao fim da guerra fugindo para a América do Sul através de uma preciosa colaboração do Vaticano.

Fim das lâmpadas incandescentes na Austrália

Via Aba de Heisenberg, a notícia da interdição de lâmpadas incandescentes na Austrália. Um passo corajoso e útil para poupar energia que poderia ser seguido por cá.

domingo, fevereiro 18, 2007

...Then it's the Bomb that will bring us together

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, que surgiram no meio militar dos EUA tendências securitárias esquizofrénicas que cedo geraram a oposição do meio científico ao mais alto nível, onde figuras como Einstein ou Oppenheimmer - o director do Projecto Manhattan - tiveram um papel importante para a alertar para o perigo que representava o desenvolvimento de armas nucleares cada vez mais potentes. Para cada alerta da comunidade científica havia sempre uma teoria justificativa militar para que a próxima arma mais potente fosse a solução de todos os problemas. O resultado desta política é o que se sabe, a URSS ficou com o record da arma mais potente jamais construída (a Tsar Bomba com 50 Mt de potência), e mesmo depois dos EUA terem ganho a Guerra Fria, os seus actuais governantes não se sentem seguros, ao ponto de continuarem a propor projectos "defensivos" megalómanos, como a defesa antimísseis que pretendem agora instalar na Europa de Leste.

Um dos grandes responsáveis pelas teorias justificativas securitárias - que no fundo são muito semelhantes à teoria de que estamos mais seguros se fizermos a Guerra contra o Terrorismo - é Edward Teller, mais conhecido no meio científico como o Dr. Estranho Amor. Teller possui um reportório para a utilização de explosões nucleares para fins "pacíficos" que faria furor em pleno Inferno de Dante: para abrir canais, construir portos, arrasar montanhas, produzir energia, para estudar a composição química da Lua e provar a teoria da relatividade de Einstein fazendo explodir uma bomba na face mais afastada do Sol. Teller defendeu sempre que as bombas nucleares promoviam a paz e opôs-se ao tratado de supressão de testes nucleares de superfície. Para quem não sabe, os testes nucleares de superfície são a maior tragédia da era nuclear após Hiroshima, tendo morrido cerca de 170 mil pessoas como consequência dos produtos de fissão altamente radioactivos espalhados na atmosfera aquando de cada ensaio.

No blogue Cinco Dias, a Joana Amaral Dias chamou muito bem a atenção para mais uma dessas teorias justificativas esquizofrénicas da autoria de John Bolton, segundo o qual correu mal a negociação que levou ao fecho do seu principal reactor nuclear da Coreia do Norte porque passou a mensagem de que "portar mal compensa". Isto é discurso Dr. Estranho Amor puro e duro. E o problema é que o mundo tem vindo a ser dominado pelo espírito Dr. Estranho Amor em grande medida através dessa brilhante ideia da Guerra contra o Terrorismo. A contabilização dos mortos já vai bem longa sem que se vejam indícios de acalmia do terrorismo islâmico. O recente alerta dos físicos nucleares para o grande aumento de probabilidade de autodestruição da humanidade é para ser bem levado a sério e se não for a via diplomática que resultou com a Líbia e com a Coreia do Norte, corremos o risco de proporcionar um futuro cataclísmico às próximas gerações que faria bem as delícias do Dr. Estranho Amor.

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

A importância que se dá à ciência

A Suiça e a Noruega são dois países de média dimensão europeia, como Portugal, mas são muito mais ricos do que nós. Os Noruegueses e os Suíços também gostam de futebol, como os Portugueses. Os Suíços até vão organizar o próximo Europeu da especialidade, em conjunto com a Áustria. Os Noruegueses adoram desporto, não apenas futebol, e praticam-no, são uma nação de desportistas. Os Noruegueses e os Suíços também vêem telenovelas e programas de variedades da vida real, mas vêem muito menos do que os Portugueses, tal como vêem muito menos futebol do que os Portugueses. Mas, os Noruegueses e os Suíços dão muito mais importância à cultura e à ciência do que os Portugueses. Talvez isso contribua muito para que sejam mais ricos (ignorando o petróleo norueguês do Mar do Norte). Durante a semana que passei no Acelerador Europeu de Radiação de Sincrotrão, constatei que uma das 40 linhas de saída do feixe gerado no Sincrotrão é propriedade conjunta da Noruega e da Suiça, para utilização exclusiva dos investigadores destes países. Também gostava de ter um país assim...

Berlinale

Seguir os interessantes comentários do José Mário Silva em directo da Berlinale no blogue A Invenção de Morel.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

História de O em dia de São Valentim

Dominique Aury amava Jean Paulhan, mas Paulhan era um típico coureur de jupons, como dizem os franceses, um homem que fazia da infidelidade amorosa a regra e não a excepção. Determinada a cativá-lo definitivamente, Dominique escreve em apenas algumas noites a "História de O" e oferece-a a Jean Paulhan. Este livro que é uma das maiores declarações públicas de amor foi publicado em 1954 sobre o pseudónimo de Pauline Réage. Inicialmente, pensava-se que a "História de O" fosse obra de um homem. À luz do pudor da época era impensável que uma mulher fosse capaz de tais escritos. Só em 1994, Dominique Aury admite a autoria da obra numa entrevista à revista New Yorker.

Quando derem por vós num espaço comercial, em plena fúria consumista de São Valentim, lembrem-se de Dominique Aury. Basta um papel, um lápis e algumas palavras para se atingir o objectivo.

Relacionados:
"Dominique Aury, biographie", Angie David, Editions Léo Scheer, 2006.
"Autour de Dominique Aury", canal ARTE, Abril de 2006.
"Histoire d'O" (banda desenhada), Guido Crepax, Franco Maria Ricci Editore, 1975.

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Roleta Russa vs Aquecimento Global

Imagine que está no Texas com o Luciano Amaral, o João Miranda, o Rui Moura e George W. Bush. Estes convidam-no para uma salutar sessão de roleta russa. Como é o convidado especial dão-lhe a honra de abrir o jogo e passam-lhe para as mãos uma pistola carregada com cinco balas e uma câmara vazia. A probabilidade de espalhar parte da sua massa cerebral pelas paredes após um disparo é de 83,3%.
A probabilidade que o aquecimento global seja provocado pelo homem é superior a 90%.
Aceitaria jogar com os referidos convivas?


Ler também "Sem surpresas" na Linha dos Nodos.

Passar a pressão para a Polónia e Irlanda

Ler esta acertada entrada do António Figueira no blogue Cinco Dias sobre o aborto na Polónia e na Irlanda.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Grandes verdades

de José Medeiros Ferreira:
"em Portugal a direita política é incapaz de resolver qualquer assunto que requeira um pouco de nervo. Não democratizaram, não descolonizaram",

não despenalizaram o aborto e desconfio que também não vão descentralizar o país, acrescento eu.

Não deixar arrastar a IVG e apoiar já quem precisa

O que interessa agora é que a IVG possa começar a ser aplicada com a maior rapidez possível. Existem mulheres em situação difícil que nas próximas semanas vão precisar de ajuda, mesmo que a IVG ainda não possa ser realizada em certas regiões do país seria importantíssimo dar já apoio através de consultas especializadas a quem se encontra nessa situação, até porque uma boa parte dos casos se resolve com recurso a uma simples pílula abortiva.
Do que conheço deste país, não me admiraria nada que por uma picuinhice administrativa (ou política) qualquer a aplicação da IVG se arrastasse por mais de um ano.

domingo, fevereiro 11, 2007

Simular estrelas e galáxias para as poder ver melhor

Na minha última crónica "3,2,1...Descolagem!" para o Portal do Astrónomo descrevo o trabalho realizado durante a semana que passei no Acelerador Europeu de Radiação de Sincrotrão em Grenoble.

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Importante é a mobilização dos votantes SIM

O mais importante para o SIM será conseguir mobilizar os seus potenciais votantes e não repetir o erro do referendo de 1998. O debate foi bem esclarecedor, convém não deixar mais vez o destino das mulheres entregues à bicharada e passarmos a outra fase do nosso desenvolvimento.

Reportagem sobre aborto na ARTE
Os europeus que viram a pequena reportagem emitida pelo canal ARTE sobre o referendo ao Aborto, devem ter ficado estupefactos com as declarações do Bastonário da Ordem dos Médicos declarando-se de uma forma quase militante (e primária também) a favor do NÃO. Pergunto-me se um representante máximo de uma Ordem deve fazer declarações deste teor como Bastonário. Quando fiz parte da direcção da Sociedade Portuguesa de Astronomia (SPA) tínhamos o cuidado de catalogar bem as declarações de teor político como declarações individuais que não representavam a opinião da SPA. Será a opinião do Bastonário igual à opinião dos médicos? Parece-me que não. Será que este país anda a dormir? Tudo se faz com a maior das latas.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Depuis qu'Otar est parti

"Depuis qu'Otar est parti" é uma obra-prima da realizadora francesa Julie Bertucceli que venceu o César para a Primeira Obra e o Grande Prémio da Crítica em Cannes em 2003, entre muitos outros prémios. Este filme narra a história de três mulheres geórgias que representam cada uma, a sua geração. Eka é uma avozinha marxista e saudosista. Marina é uma mulher criada no comunismo soviético que se sente perdida no capitalismo desregulado da nova Geórgia independente. Ada, a sua filha, faz parte da geração que não conheceu o comunismo, repelindo os vestígios do passado como se de peste se tratasse. Otar, irmão de Marina, é emigrante em Paris. Um dia as suas cartas deixam de chegar. Otar morre e Marina pede a Ada para esconder a notícia a Eka...
"Depuis qu'Otar est parti" pode ser visto como uma deliciosa parábola sobre orfandade da sociedade geórgia do paternalismo comunista, com um final particularmente delicioso e inteligente, onde a esperança rima com risco, mas Ada é jovem e está disposta a assumir riscos por conta própria.

Fous ta cagoule

"eu próprio trabalho um pouco com estatísticas e previsões, conhecendo portanto a falibilidade do método. A boa previsão científica é aquela que se faz de forma cautelosa, rodeada de qualificações. Por isso me custa ouvir tantas sentenças definitivas a partir de instrumentos tão falíveis." Luciano Amaral no DN.

Lendo o artigo desta semana do Luciano Amaral fica a sensação de que ele não percebe alguns dos conceitos básicos que envolvem o estudo do aquecimento global. O Luciano "trabalha um pouco com estatísticas", os cientistas do IPCC trabalham a fundo em estatística, e durante os últimos seis anos trabalharam só em estatística climática. Todas as idades do gelo e variações significativas foram estudadas até ao horizonte de 400 mil anos atrás, inclusivamente a pequena idade do gelo do sec. XVI que pelos vistos só agora o Luciano descobriu. E baseados nesses estudos que cobrem um período nunca antes estudado concluíram com 90% de certeza que o aquecimento global é provocado pelo homem. A afirmação "90% de certeza" é em si uma afirmação cautelosa (a maior parte das vezes dizemos que temos a certeza absoluta quando temos apenas 70 ou 80 % de certeza) e de modo nenhum uma "sentença definitiva", sentença definitiva seria dizer 100% de certeza. Só uma amarga sensação de derrota ideológica que o Luciano deve estar a sentir explica este erro grosseiro (será erro?). No fundo, no fundo, o artigo do Luciano trata é de ideologia, a sua ideologia é ameaçada pela política necessária para combater o aquecimento global. O liberalismo selvagem baseado na produção ilimitada de bens tem os seus dias contados, o Estado vai ter que intervir onde as empresas falharam. Ironicamente, as experiências marxistas, o alvo do artigo do Luciano, no que toca à produtividade desmesurada e à poluição produziram resultados muito semelhantes ao liberalismo económico selvagem. Quem conhece bem os EUA e a Europa de Leste sabe que existem zonas industriais americanas que parecem tiradas a papel químico de zonas industriais dos ex-regimes comunistas. Ambas reflectem o mesmo problema: a demissão completa do Estado na regulação da poluição industrial. Na URSS isso acontecia porque o Estado não exigia responsabilidades aos seus funcionários, nos EUA o mesmo acontece porque o Estado não exige responsabilidades às empresas privadas.


quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Aborto no canal ARTE

Hoje às 20:35, no programa Zoom Europa do canal ARTE, será transmitida uma reportagem sobre os movimentos anti-aborto em Portugal. O fundamentalismo católico luso não deixa indiferente resto da Europa.

terça-feira, fevereiro 06, 2007

SIM, por vergonha

No primeiro referendo à Despenalização do Aborto votei SIM por razões científicas e por achar que o Estado deve respeitar as convicções espirituais e éticas de cada um. Mas desta vez, voto SIM por vergonha.

Estava fora do país quando ocorreu o primeiro julgamento de mulheres em Portugal. Lembro-me como se fosse hoje das imagens divulgadas pela Euronews, os rostos dos meus colegas estrangeiros reflectiam uma estupefacção silenciosa. Vivi aquele momento como se tivesse vários autocolantes colados na testa: selvagem, troglodita, macho de pacotilha, etc. Alguns colegas tentaram reconfortar-me dizendo que cada país tem os seus podres e que as coisas iriam mudar, mas um colega escocês, muito franco, disse-me: "é a vossa vertente terceiro-mundista...".

Em conversas que tive sobretudo com mulheres de outros países, sempre que referia que em Portugal o aborto era crime até às 10 primeiras semanas, gerava-se um silêncio glacial, a simpatia que o nosso país desperta ao estrangeiro que não nos conhece bem desvanecia-se naquele momento. Portugal já um país que tem fama de ser desorganizado, raramente pontual e pouco credível, o circo da condenação das mulheres que abortam é mais uma camada de terceiro-mundismo que se junta às outras. Os engraçadinhos que andaram a invocar razões económicas para votar NÃO deveriam equacionar nas suas contas não só os custos dos tribunais que julgam mulheres mas também todos os empresários que não escolhem Portugal para investir pela nossa imagem retrógada (não são poucos), em que a condenação de mulheres que abortam só funciona para nos enterrar ainda mais.

Por estas razões tenho tido muito pouca paciência discutir o aborto com o lado do NÃO, desta vez defendido por alguns dos sectores mais fanáticos da sociedade portuguesa. Quando nos apercebemos que um dos grandes arautos do NÃO é João César das Neves, um cristão que tem uma tribuna num jornal intitulada "não há almoços grátis", percebe-se que estamos a discutir ao nível da anedota.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Prazeres científicos

Aquela "cruzinha" mais acima, amarela e branca, é o prazer científico da semana passada no Acelerador Europeu de Sincrotrão. Quando se perde o tino aos dias e às noites, estas coisas recompensam o espírito e fazem esquecer a decrepitude do corpo.

sábado, fevereiro 03, 2007

Como funciona um acelerador de sincrotrão?

Aqui uma animação para leigos.
A radiação gama emitida por aqueles electrõezinhos é conduzida até às linhas de serviço (beamlines) onde instalámos amostras dos elementos principais do telescópio espacial de raios gama que estamos a desenvolver.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Ponto da situação sobre Aquecimento Global

O relatório que será divulgado daqui a algumas horas pelo Painel Governamental Internacional para as Alterações Climáticas foi revisto por cerca de 2500 cientistas especialistas em climatologia e teve a contribuição escrita de mais de 1000 investigadores de 130 países. O relatório que será dividido em 4 volumes representa mais de 6 anos de trabalho. Durante todo este tempo, os investigadores envolvidos neste extenso trabalho científico levantaram-se todos os dias para ir trabalhar em assuntos complicados - em frequentes casos bem mais do que as 8 horas diárias - publicando e confrontando continuadamente as suas teorias e os seus resultados científicos com os seus pares espalhados pelo mundo. Porque é que estes investigadores continuam a ser alvo de ataques idiotas da parte de grupos de charlatães organizados, alguns bem pagos, que não investigam e que não sabem o que é a ciência? Nos dias que correm a resposta reside no fanatismo político, há uma ideologia que não está nada contente com isto, há muita coisa que cai por terra e eles sabem bem que assim é.

Um momento de humor às 5 da matina

Adoro as calinadas negacionistas do Insurgente. Esta é fabulosa:

Título irónico: "O aquecimento global não perdoa"
Entrada: "Caiu neve em Lisboa"

Conclusão: Lisboa=global, logo local=global.
O link para o Portugal Diário parece-me que ajuda a reforçar ideia.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Turno das 0 às 8

Uma maçã bem roída no fresquinho da noite de Grenoble sob o luar reflectido pelas montanhas sem neve. Observo três ou quatro coelhos que fazem sprints na relva à volta do acelerador de partículas, coelhos acelerados portanto, e eis que inicio o turno da meia-noite às 8. No cardápio que me espera constam: cálculos, parafusos, radiação e discussão, sob o síndroma da falta de sono.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Aquecimento Global hoje

Textos a não perder sobre o aquecimento global:
- Do David Luz na Linha dos Nodos: "A França face ao ambientalismo global" sobre o grande assunto de actualidade da campanha eleitoral francesa, o Pacto Ecológico de Nicolas Hulot.
- Do Nuno Ferreira na Aba de Heisenberg:"A mão humana no aquecimento global" e "O ártico sem gelo, brevemente, rapidamente..."

terça-feira, janeiro 30, 2007

Directamente de Grenoble

Durante uma semana a Klepsýdra será alimentada a partir do Acelerador Europeu de Sincrotrão, da cidade sobre a qual um dia Stendhal escreveu: "au bout de chaque rue, une montagne..."

Espero ter um bocadinho de tempo para divulgar os mistérios científicos que por aqui tentaremos desvendar.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Desnuclearização do Médio Oriente

O recente livro de Miguel Portas sobre o Líbano, "No Labirinto", que aqui comentei, lança uma ideia que defendo há muito e que pode dar um contributo importante para pacificar o Médio Oriente. Na página 196 o Miguel refere que as potências nucleares poderiam fazer uma "proposta que seguramente seduziria Teerão: a desnuclearização do Médio e do Próximo Oriente." Como é sabido Israel, a Índia e o Paquistão são os três países da região que possuem armas nucleares. No passado, dois países (a Ucrânia e a África do Sul) desmantelaram com sucesso a totalidade dos seus arsenais nucleares, logo não seria nada de extraordinário desmantelar os arsenais nucleares dos três países referidos. Dado o carácter simbólico que a acção representaria - um passo atrás do ponto de vista militar - a desnuclearização poderia aliviar um pouco a tensão política do Médio Oriente e retirar a vontade do Irão a prosseguir os seus avanços no desenvolvimento de tecnologia nuclear, sem recorrer a ameaças que só têm tido o efeito contrário ao desejado.

Grandes Momentos da 7ª Arte

A seguir no Mar Salgado grandes momentos da 7ª arte escolhidos pelo Nuno Mota Pinto.

sábado, janeiro 27, 2007

Dicas para o Não sobre julgamentos de mulheres

Registo que os defensores do Não andam muito preocupados com a vertente económica do aborto. Como já aqui tinha escrito em Março de 2005, presume-se que o João Miranda, entre outros, estão dispostos a pagar os julgamentos de mulheres acusadas de aborto. Eu acho que isso é chato. Para evitar este incómodo financeiro, basta ir ao baú das velhas e boas práticas da Igreja:

"[O Papa] Inocêncio desancadeou um movimento de acusação, tortura e execução sistemáticas de inúmeras "bruxas" em toda a Europa (...) [segundo Thomas Ady em "A Candle in the Dark"] se uma mulher for acusada de bruxaria, é uma bruxa. A tortura é um meio infalível de demonstrar a validade da acusação. A ré não tem quaisquer direitos. Não há oportunidade de um confronto com os acusadores. Dá-se pouca atenção à possibilidade de as acusações poderem ser feitas com objectivos ímpios - por ciúme, por exemplo, ou por vingança, ou pela cupidez dos inquisidores, que costumavam fiscar em seu proveito os bens da acusada. (...) [a tortura] inclui métodos de sevícias concebidos para libertar os demónios do corpo da vítima antes desta ser mortas (...) Isto tornou-se rapidamente um sistema de fraude financeira. Todos os custos da investigação, julgamento e execução ficavam a cargo da acusada e seus familiares - incluindo as diárias pagas aos investigadores privados contratados para espiar a ré, vinho para os guardas, banquetes para os juízes, as despesas de viagem de um mensageiro enviado para ir buscar um torturador mais experiente a outra cidade, bem como lenha para a fogueira, o alcatrão e a corda para o enforcamento. E havia ainda um bónus para os membros do tribunal por cada bruxa queimada. O remanescente dos bens da bruxa condenada, se ainda houvesse algum, era dividido entre a Igreja e o estado."

"Um Mundo Infestado de Demónios", Carl Sagan, Gradiva, 2002, pp. 127-129.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Bola preta para os críticos de cinema

A propósito do filme "Babel", três entradas em blogues diferentes (Almareios, Arrastão e A Natureza do Mal) coincidem na crítica aos próprios críticos de cinema nacionais. Junto-me a essas crítica. A minha crítica começa logo pela falta de exigência dos jornais na escolha dos críticos de cinema. Quem escreve sobre cinema em jornais com dezenas ou centenas de milhares de leitores e é pago por isso tem que oferecer ao leitor algo mais do que uma conversa de café ou algo mais do que se escreve nos blogues. O que se verifica é que a maior parte dos críticos de cinema não vê muito cinema. Vêm aquele cinemazeco de algibeira de Hollywood, as lamechices da Disney e pouco mais. Provavelmente, menos de 25% dos críticos saem deste perfil e vão um bocadinho mais longe, já vêm uns David Lynchs, uns Tim Burtons ou uns Cronenbergs, mas muitos ficam-se por aqui. São muito poucos os que vêm todo o tipo de cinema, que vão à Cinemateca, que frequentam cine-clubes, que alugam filmes antigos, que vêm filmes em canais de TV que passam bom cinema (o canal ARTE por exemplo). Obviamente, depois a qualidade da crítica reflecte muito a qualidade e amplitude do cinema que se vê.

Lembro-me de ler críticas sucintas de um ou dois parágrafos que espremidos se resumiam a: "este filme é maniqueísta" ou "este filme é politicamente correcto", sem fundamentação da opinião expressa. Frequentemente, as críticas não enquadram o filme no contexto da obra dos autores, não se pesquisa sobre o local e sobre o contexto histórico da acção, não se citam os filmes que estiveram na origem de remakes, mas escreve-se demais sobre os milhões que custou filme A, B ou C, sobre a receita de bilheteira e fazem-se primeiras páginas muito generosas e simpáticas de filmes fraquíssimos produzidos por grandes companhias (serão essas primeiras páginas de borla?). Para completar o ramalhete de misérias, acho ridícula a mania dos ódios de estimação. Parece que para se ser crítico de cinema é preciso ter ódios de estimação. Um odeia o cinema francês, outro odeia o Michael Moore, outro o Woody Allen, outro a Barbra Streisand (os que têm falta de imaginação), e julgam-se muito engraçadinhos porque cortam rente cada vez que aparece um filme ligado ao seu ódio de estimação.

As consequências do baixo nível dos críticos é que muito cinema de qualidade nem sequer passa nas salas portuguesas ("Karakter" por exemplo) ou então passa, mas passa despercebido, como foi o caso caricato da primeira ronda de exibições do filme "Crash" de Paul Haggis, que só depois de vencer o Oscar é que foi exibido nas salas principais do país.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Babel

Durante as primeiras cenas de "Babel" em que interagem personagens de diferentes culturas pensei para comigo: "já vi isto, já me aconteceram cenas destas". O filme seguia e ía revendo mais pormenores das minhas viagens, alguns nos mesmos locais, EUA, Tijuana e México, outros ocorreram em locais diferentes mas onde as reacções das pessoas foram muito parecidas às reacções das personagens de "Babel" de Alejandro Iñárritu. O mérito de Iñárritu é o de nos mostrar os habitantes deste mundo sem filtro. Todas as personagens receiam o encontro com o outro, o fosso entre códigos de comunicação e de códigos de vida é tão profundo, que se equipara ao que separa Yasujiro , uma surda-muda japonesa, do mundo "exterior". A coca-cola light sem gelo, a náusea dos turistas na aldeia marroquina ou a matança da galinha na festa mexicana, rimam com o mundo, o mundo das encruzilhadas dos povos.
Em "Babel", o medo faz a acção, faz descarrilar uma personagem para as armadilhas lançadas pelos fantasmas de outra personagem de uma cultura diversa. Mas "Babel" mostra também como as relações de dominação continuam bem presentes, apesar da abolição da escravatura e das cartas dos direitos humanos. Essa dominação está bem patente na forma como Richard nega a autorização para que a empregada mexicana compareça no casamento do seu filho ou como a polícia marroquina lida com os pastores.
"Babel" representa um mundo frágil, como o mundo da parábola da borboleta que bate as asas no pacífico e desencadeia uma tempestade noutra parte do mundo. Em "Babel", não é bem uma borboleta que desencadeia a tempestade, é uma carabina japonesa levada para Marrocos.

Filme Klepsýdra ***** (5 estrelas)

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Lisboa-Dakar em plena cidade

Gosto de rallies e acho que os rallies são muito importantes (numa futura entrada explicarei porquê), mas a proliferação de veículos todo-o-terreno (TT) com que me deparo no trânsito das nossas cidades, tanto em Portugal como no resto da Europa, é absolutamente escandalosa, por vezes parece que estamos no meio do pelotão do Lisboa-Dakar. Os TT em geral são bonitos, também gosto de TT, gosto de conduzi-los, mas conduzir TT's em cidade é um desperdício, não só porque todo o prazer de conduzir um TT é castrado em ambiente urbano mas acima de tudo porque os consumos dos TT atingem níveis absurdos para as tarefas que desempenham nas cidades.

Alguns países europeus já começaram a alterar a fiscalidade para penalizar a circulação dos TT nas cidades, em Portugal o debate nem sequer começou. Aqui ligação para o 4x4 Info, um sítio activista belga sobre a proliferação de TT com informação técnica relevante sobre o assunto.

Memória curta: Madrid, 11 de Março

Serve esta entrada só para relembrar que o pior atentado ocorrido em Espanha desde o fim da Guerra Civil, foi o atentado de 11 de Março e foi consequência directa da política anti-terrorista de Aznar.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

80 mortos em Bagdade não são para comentar?

O atentado ocorrido esta manhã em Bagdade matou cerca de 80 pessoas e feriu cerca de 160. Será que aqueles que fugosamente comentaram o recente atentado no aeroporto de Madrid e que condenaram duramente a política de Zapatero, não têm nada a dizer sobre o atentado de hoje? Seria interessante ler umas linhazitas sobre o atentado de hoje e já agora sobre os atentados ocorridos na passada semana no Iraque que fizeram dezenas de mortos. E seria ainda mais interessante que fossem coerentes na análise e que usassem a mesma bitola que usaram para avaliar Zapatero.

domingo, janeiro 21, 2007

Ver rostos em todo lado

"... o pai ou a mãe sorri à criança, esta devolve o sorriso e cria-se ou reforça-seum laço. Mal a criança vê, reconhece rostos e agora sabemos que esta aptidão está impressa no nosso cérebro. As crianças que há um milhão de anos eram incapazes de reconhecer um rosto devolviam menos sorrisos, era menos provável que cativassem os pais e que medrassem. Hoje em dia, quase todas as crianças identificam rapidamente um rosto humano e respondem com um esboço de sorriso.

Como efeito secundário inesperado, o maquinismo de reconhecimento de padrões do nosso cérebro é tão eficaz em isolar um rosto de um amontoado de outros pormenores que por vezes vemos rostos onde estes não existem.
"

"Um Mundo Infestado de Demónios", Carl Sagan, Gradiva, 2002, pag. 58
(Imagem do "rosto de Marte" visto pela sonda Viking 1 em 1976)

sábado, janeiro 20, 2007

Deus existe!

Nunca pensei escrever um dia um post com este título, mas a cerveja Deus, esse divino líquido belga, é a prova indiscutível da existência do altíssimo. A cerveja Deus é numa primeira fase fermentada por processos tradicionais em solo Bélgica, sendo de seguida transportada em camiões até à região de Champanhe, em França. Em Champanhe, a cerveja Deus é engarrafada e maturada em caves como se se tratasse de um comum champanhe, sendo adicionada a mesma levedura responsável pela estrutura do famoso vinho gaseificado francês. O resultado é uma cerveja com uma estrutura de champanhe. É indescritível, é incomparável, pudera estamos na presença de Deus!

À atenção do Francisco: 100 + 1 é a conta que DEUS fez ;)

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Malena, uma mulher ameaçadora



Sei que para muitos é uma heresia escrever isto, mas na minha opinião "Malena" é o melhor filme de Giuseppe Tornatore. Se tiver paciência um dia escreverei aqui o que acho de "Cinema Paraíso". Em "Malena", Tornatore mostra como é fácil e como é apetecível para uma comunidade condenar a mulher com alguma qualidade que não se submete aos códigos tradicionais. Pode ser o caso de uma mulher muito bonita que desperta desconfianças femininas ou que provoca mau estar entre os homens incapazes de ganhar a sua intimidade. Pode ser também o caso de uma mulher muito inteligente que ameaça o território intelectual masculino, em domínios habitualmente interditos a mulheres. Se uma mulher reunir estas duas qualidades o caso torna-se muito mais bicudo. A relação entre a comunidade e Malena (Monica Bellucci) faz-se em função da ameaça que esta representa ou não aos códigos estabelecidos. A cena de vingança popular sobre Malena por esta ter sido uma das prostitutas do bordel nazi aí instalado, é apenas um pretexto para castigar Malena, castigá-la por ser muito bonita, castigá-la pelo efeito que provoca entre os maridos, castigá-la porque não foi suficientemente amável para alguns homens e castigá-la por não se render à penitência moralista que a comunidade inflige a si mesma.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Sério Alarme dos Físicos Nucleares



Clicar na imagem para ler a mais recente comunicação dos investigadores em tecnologia atómica e nuclear responsáveis pela publicação do Bulletin of the Atomic Scientist. Este boletim foi fundado pelos investigadores envolvidos no Manhattan Project preocupados com a utilização da tecnologia nuclear para fins militares depois do lançamento das bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki. Desde 1945, a revista teve ilustres colaboradores como Albert Einstein, Hans Bethe, Max Born, Oppenheimer, Bertrand Russell, Leo Szilarde ou Paul Weiss.


PS- No blogue Mitos Climáticos continua o habitual Tsunami de asneiras

segunda-feira, janeiro 15, 2007

Grandes Portugueses + IVA



Adoro a estética kitsch do nosso país, principalmente a das televisões.
Quando acedi à página da RTP e deparei com o banner daquele que seria o meu escolhido se votasse (não gosto de "votar + IVA") não fiquei indiferente à composição. A imagem do Infante com um ar angelical ao lado de um número de telefone e do preço da chamada + IVA, com pormenor das mãos em posição de oração ali pelo meio, é uma obra-prima da RTP. Só falta um rodapé com um sms romântico da Sónia Vanessa dirigido ao Bernardo da linha.

Porquê o Infante? (um momento de incontenção verbal)
Na minha opinião um grande qualquer-coisa (Português, Espanhol, Basco, Chinês, Zulu, etc.) tem que obedecer a três critérios básicos: 1) A contribuição para a sua tribo deve comportar um esforço (intelectual e/ou físico) construtivo considerável; 2) Deve existir um antes e um depois do grande personagem; 3) Inovação. (Isto parece um formulário da FCT)

O extenso e exigente trabalho multidisciplinar (científico, tecnológico, humano, etc.) de planificação das descobertas bem sucedidas na costa de África dirigido pelo Infante merece toda a minha vénia. Acresce o mérito de as descobertas terem sido envolvidas em grande secretismo e em alguma competição com países bem mais apetrechados e bem mais poderosos do que Portugal.

Sem querer minimizar a brilhante obra de Camões, não escolheria o poeta por uma razão que é frequentemente desprezada quando se dá Camões na escola secundária. A principal obra de Camões, Os Lusíadas, segue uma receita que foi utilizada com frequência na Europa, que é a receita da Odisseia (o pormenor dos deuses que manipulam Vasco da Gama vai mais longe que outras obras na colagem à Odisseia), e nesse aspecto não é uma obra tão inovadora como possa parecer. O que nos enche de orgulho e que atribui uma dimensão simbólica muito poderosa aos Lusíadas é que o nosso Ulisses (Vasco da Gama) era real, existiu mesmo e foi lá ao fim do mundo e voltou!

10 anos mais quentes e previsão para 2007

1998
2005
2003
2002
2004
2006
2001
1997
1995
1999

Repare-se que os 10 anos mais quentes desde que há registo ocorreram nos últimos 12 anos...
O British Meteorological Office estima com uma probabilidade de 60% que o ano de 2007 pode ser o ano mais quente de sempre.

O actual cenário do aquecimento global está gerar algum alarme entre a comunidade científica, a evolução climática do planeta começa a seguir as tendências das previsões mais pessimistas. É agora mais do que óbvio que é necessário começar a agir em larga escala e já, mas pelos vistos a classe política continua adormecida, inclusivamente a europeia, que tem sido mais activa no estudo e no combate do problema.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

No Labirinto: o Líbano entre guerras, política e religião

Aquando da sua apresentação em Coimbra, Vital Moreira disse deste livro que revelava o melhor Miguel Portas, o Miguel Portas das Viagens. Subscrevo inteiramente. É o Miguel conta com entusiasmo as suas viagens pelo Líbano e regiões vizinhas, descreve com paixão lugares, ruínas, pedras e mezzés. É o Miguel que lê nos olhos e nos gestos das gentes e nos transmite sem rodeios as suas impressões sobre aquelas micro-sociedades, a importância dos clãs familiares, a ostentação que convive com a miséria e a pobreza, a religião que separa, mas que é praticamente a única instituição solidária num país deslumbrado pela banca e pela bolsa.

A Parte I do livro intitulada "O nascimento de uma nação" é de leitura obrigatória para todos aqueles que se interessam pela política do Médio e Próximo Oriente. Muito bem documentada, esta Parte I faz-nos um resumo da história recente do Líbano e da região - o Líbano como país só existe desde 1941 - ligando as divisões étnicas, religiosas e políticas à efervescência e ao trânsito de povos que houve naquela região desde há mais de dois mil anos. "Nunca um país tão pequeno acolheu tanta diferença" (pag. 29) é a frase de Miguel Portas que melhor ilustra a equação libanesa. É esta concentração de povos e religiões numa região onde se disputam intensamente territórios há dezenas de séculos que torna tudo tão complexo de se realizar no Líbano, mesmo quando a tarefa em si parece simples. Ao lermos esta Parte I damo-nos conta da imensa quantidade de asneiras que foram escritas por comentadores e cronistas políticos durante o ataque ao Líbano no passado Verão, nomeadamente o apoio aos pedidos irrealistas de Israel para que o governo libanês eliminasse o Hezbollah. Era o mesmo que pedir a alguém para fumar num paiol de armas.

A segunda parte descreve os 33 dias em que o Líbano foi atacado por Israel, a envolvente política que deu origem ao conflito e a situação resultante do pós-guerra. A presença do Miguel no Líbano durante o conflito oferece-nos uma visão muito mais rica e precisa das reacções políticas e sociais que acompanharam o conflito, nomeadamente o estatuto e a popularidade que o Hezbollah ganhou à custa das bombas israelitas. Pessoalmente, considero os capítulos "Hezbollah" e "Islamismo" demasiado optimistas e o citado messianismo socialista da autoria de Françoies Thual (pag. 150) parece-me uma longínqua miragem política. Enquanto Israel ameaça, o Hezbollah ganha simpatias, aderentes e muitos votos, mas em tempo de paz, por muito que o Hezbollah tenha evoluído, os resquícios de políticas de extrema-direita religiosa não desaparecem de um dia para o outro. O meu pessimismo é reforçado pelas opiniões das minhas amizades libanesas do sul do país.

A total desorientação e o isolamento da diplomacia americana durante as negociações são muito bem resumidas pelo Miguel e são um exemplo flagrante da falta de estudo e de tacto para lidar com a referida complexidade da equação libanesa. É a mesma complexidade, que o Miguel conhece como poucos no nosso país, que faz do seu apoio ao reforço da FINUL subordinada à autoridade libanesa uma rara opinião credível e sólida sobre o assunto. Contrasta com a reacção pavloviana (parafraseando um amigo bloquista) que classificou a "intervenção da FINUL" (já lá estava antes da guerra) de novo imperialismo. Como refere bem o Miguel, o retirar dessa força funcionaria como um convite para o segundo round de Israel, sem testemunhas, com pontes e estradas por construir a facilitar o assalto.

Apesar de Israel ter mostrado mais uma vez uma superioridade militar brutal, a imagem do país emergiu do conflito enxovalhada como nunca. O Miguel termina bem concluindo que apesar da pesistência e da complexidade dos problemas, o resultado deste conflito mostrou que vale a pena exercer a política contra o primado da guerra.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Revistas







Muito boa a última edição da Courrier International com textos de Umberto Eco e Timoty Ash, entre outros, sobre o recrudescimento de tabus com origem no fanatismo religioso.

A primeira Ciel et Espace do ano traz sempre aquele excelente e indispensável calendário dos eventos astronómicos do ano.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

As minhas actrizes preferidas

Ano novo... altura escolhida para actualizar a minha lista de actrizes preferidas. Entre parenteses o filme em que mais apreciei a actriz e o respectivo realizador. Por ordem:

Fanny Ardant (La femme d'à côté, François Truffaut)
Catherine Deneuve (Belle de Jour, Luis Buñuel)
Isabelle Huppert (A Pianista, Michael Haneke)
Charlotte Rampling (Swimming Pool, François Ozon)
Franka Potente (Corre Lola Corre, Tom Tykwer)
Paprika Steen (Festen, Thomas Vinterberg)
Fernanda Montenegro (Central do Brasil, Walter Salles)
Branka Katic (Gato Preto Gato Branco, Emir Kusturica)
Solveig Dommartin (Asas do Desejo, Wim Wenders)
Jodie Foster (Contacto, Robert Zemeckis)
Hanna Schygulla (Lili Marlene, Rainer Werner Fassbinder)
Ingrid Bergman (Casablanca, Michael Curtiz)
Isabella Rossellini (Blue Velvet, David Lynch)
Cécile de France (As Bonecas Russas, Cédric Klapisch)
Nicole Kidman (Eyes Wide Shut, Stanley Kubrick)
Martina Gedeck (Partículas Elementares, Oskar Roehler)
Maggie Cheung (Disponível para Amar, Kar Wai Wong)

sábado, janeiro 06, 2007

A fuga para a frente de JPP tropeça no Iraque

A isto chama-se fuga para a frente:

"[O atentado da ETA] mostrou a enorme irresponsabilidade do caminho negocial que iniciou com o terrorismo", J. Pacheco Pereira, "A ETA e Zapatero" no Abrupto.

Acho espantoso como é que uma pessoa inteligente que tomou as posições que tomou sobre o conflito iraquiano - onde estoiram bombas quase diariamente que fazem dezenas de vítimas - achar que o atentado do aeroporto de Madrid mostra a enorme irresponsabilidade do caminho negocial. Deveremos concluir que uma escolha responsável é a escolha do caminho bélico que se iniciou no Iraque?
Esta entrada do Abrupto é o exemplo típico da indiferença aos atentados diários no Iraque a que me referi na entrada anterior em contraste com a sobrevalorização excessiva a tudo o que se passa no Ocidente. Vivemos tempos em que uma mochila perdida no metro de Londres ou de Madrid provoca histerias colectivas enquanto uma bomba que explode junto a uma estação de serviço em Bagdade matando 20 pessoas e ferindo 30 provoca um enorme bocejo em frente ao televisor. O sangue branco e ocidental é hipervalorizado, vale muito mais do que o sangue mesopotâmico.

Esta entrada revela também um estilo de crónica grosseira que começa a ser demasiado habitual (V. Graça Moura usa e abusa deste estilo). Parte-se de pressupostos de deturpação grosseira da realidade para depois se atacar o adversário político através de um exercício de retórica inteligente e sofisticado, de interessante leitura, que embala alguns leitores em justificações desejadas, mas longe (ou fora) da realidade. Esta passagem é outro exemplo deste estilo:

"políticas de Aznar que serviam Espanha: (...) uma política de intransigência com o terrorismo basco..."

A política de intransigência com o terrorismo basco foi nada mais nada menos que igualar a ETA à Al Qaeda. Foi afirmar que um grupo terrorista com objectivos sobretudo nacionalistas e territoriais fosse comparado a uma organização de escala quase planetária cujo o objectivo é o de converter todo planeta a uma visão deturpada de uma religião, utilizando para isso os meios que forem necessários. O resultado é conhecido. Aznar atraiu para Espanha a Al Qaeda e foi surpreendido pelo maior atentado vivido em Espanha desde o fim da Guerra Civil. Aznar não poderia ter feito pior, porque era muito difícil fazer pior.

Além do mais não há memória de no tempo de Aznar o Batasuna fazer declarações em que se demarca do núcleo mais violento da ETA (se é que estes ainda se consideram da ETA). Contrariamente a tudo o que escreve JPP, o que este atentado de Madrid revelou foi que a sociedade espanhola passou a perceber muito bem com quem é que não pode negociar: com o núcleo violento que se isola cada vez mais dentro da ETA e com os obcecados do terrorismo do PP, próximos de Aznar.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

A indiferença aos atentados no Iraque

Entre o que mais me choca no conflito iraquiano é essa imperial indiferença aos atentados que abalam diariamente o Iraque. No seu novo livro, o Miguel Portas descreve muito bem essa indiferença:

"[A televisão] mostra-nos a dor que se esconde nos escombros, nos cemitérios ou nas valas comuns. Mas mostrar e sentir estão longe de ser sinónimos. Depois, as câmaras iludem. A morte, a destruição e a miséria são perversamente cenográficas. E ao fim de alguns dias, o que vemos perde significado, é mais uma notícia, a mesma de ontem e de anteontem e, quase certo, a de amanhã. (...) [No Iraque] há muito que já não se somam os dias e perdeu conta aos mortos. "Aquilo" é o dia-a-dia. Quando assim é, as câmaras podem entrar nas ruínas de famílias amputadas, estropiadas e destroçadas, mas são incapazes de nos transportar para dentro dessa realidade. Ficamos de lado, imunizados, aturdidos ou indiferentes."

"No Labirinto: o Líbano entre Guerras, Política e Religião", Miguel Portas, Almedina, 2006, pag. 99.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

quarta-feira, janeiro 03, 2007

2007: Ano Internacional da Física Solar

Este ano comemora-se o Ano Internacional da Física Solar. Consultar aqui a página dedicada aos eventos previstos e à divulgação dos processos físicos que governam a nossa estrela, a respectiva heliosfera e que influenciam a Terra.

terça-feira, janeiro 02, 2007

Doomsday Code

Produzido pelo excelente Tony Robinson, este interessante documentário intitulado "Doomsday Code" (aqui documentário integral) investiga as implicações das manobras dos evangelistas americanos que acreditam ter descodificado o Livro da Revelação, onde se descreve o fim dos tempos e que segundo os mesmos acontecerá muito em breve. O problema é que entre este grupo de fanáticos estão conselheiros do presidente George W. Bush. Estes interpretam como sinais do fim do mundo, acontecimentos como o 11 de Setembro, a invasão do Kuwait, o derrube de Saddam ou a intifada na Palestina. Entre as declarações de Bush sobre estes eventos encontramos expressões como: "axis of evil", "war on terror" ou "the epic struggle of good and evil", expressões estas que vão de encontro às ideias da igreja evangélica de direita, tal como as suas opções políticas e militares.

Quanto tempo falta para o fim do mundo?
Esta página surrealista intitulada Rapture Index tenta dar uma resposta a essa pergunta. Rapture é o nome dado a um acontecimento que segundo os apologistas do fim dos tempos se manifestaria como a elevação aos céus de todos os seguidores de Cristo, e apenas estes, acontecimento esse que ocorreria pouco tempo antes do fim do mundo. Através da contabilidade de uma série de sinais que indicam a chegada da Rapture (coisas banais, como o número de anticristos, falsos Cristos ou o preço do petróleo...) é calculado um índice de probabilidade de este acontecimento ocorrer. Neste momento o índice é de 163. Para este valor os fiéis da seita aconselham-nos a apertar os cintos...

Quem se lixa é o mexilhão
Como não podia deixar de ser, entre as vítimas directas de seitas apocalípticas contam-se pessoas de meios mais modestos e miseráveis, como é o caso de África, nomeadamente do Uganda, onde esta seita tem uma boa implantação. A quantidade de suicídios e homicídios em massa no Uganda tem subido em flecha desde que a seita se começou a espalhar pelas várias regiões do país.