domingo, outubro 01, 2006

Armas de destruição em massa: Big King XXL

866 kcal
13% do peso em gordura
3 % do peso em açúcar

Menu Monster:
Big King XXL +
Coca-cola XXL +
Batatas fritas XXL
= 1648 kcal

Necessidades diárias:
homem - 2200 kcal
mulher - 1800 kcal

Armas de destruição em massa: Fanta

sexta-feira, setembro 29, 2006

American Vertigo: Fukuyama contra guerra do Iraque

Em American Vertigo, Bernard-Henri Lévy (BHL) interpela Francis Fukuyama sobre a intervenção americana no Iraque - questão sobre a qual o Fukuyama se pronunciou negativamente - obtendo o seguinte comentário:

"Ces gens sont curieux, m'explique-t-il en substance. Ils ont passé leur existence à plaider contre le fait de donner des pouvoirs exorbitants à'Etat. Ils nous ont mis en garde contre la naïveté des spécialistes du social engineering prétendant éradiquer, d'un coup de baguette politique, la misère américaine. Et voilà qu'ils perdent toute mesure dès lors qu'il est question d'aller extirper cette misère, ainsi que les racines du despotisme, à six mille kilomètres de chez eux.
(...) Le problème des néoconservateurs ce n'est pas comment croient les Européens, leur immoralisme et leur cynisme. C'est l'excès, au contraire, de la morale. C'est la victoire de la mystique sur la politique.
"

"American Vertigo", Bernard-Henry Lévy, Grasset, 2006, pag. 323-325.


Da leitura de "American Vertigo", da opinião de diversos intelectuais da direita americana e da comparação com a realidade nacional, fica-se com a certeza que Portugal existem algumas das opiniões mais radicais e mais fanáticas na defesa da Administração Bush. Pelo prisma nacional até um direitista duro com Fukuyama passaria por perigoso anti-americano. Perante o espectro da direita abordada por BHL, as opiniões da direita portuguesa andam muito mais próximas de radicais como Huntington. A entrevista de BHL a Huntington será aqui abordada proximamente.

Selecção? Desliguei

Já não há pachorra para isto. A minha opinião é que um macaco a treinar a selecção portuguesa teria uma grande probabilidade de ter o mesmo sucesso que Scolari. A partir de agora desliguei.
Conselho para Quaresma: naturaliza-te espanhol, romeno ou qualquer coisa, eu apoio-te!

ESA para professores

Para professores de áreas científicas a ESA oferece uma série de serviços úteis para o início do ano lectivo: software, materiais, formação, viagens aois centros ESA, etc. Clicar aqui.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Porque gosto de Colombo

Moja laska, já te tinha tentado explicar (sem sucesso) porque gosto da série Colombo. Para além da gabardina encardida e do Peugeot, uma das razões é explicada por um elemento da tua tribo:

"Le succès de Colombo témoigne ainsi du fait que le véritable motif d'intérêt d'une oeuvre policière tient au processus de déchiffrement lui-même et non à sa résolution (la révélation finale triomphante: "Et l'assassin est..." est complètement absente ici puisque nous le savons dès le début)."

Slavoj Žižek
, "La subjectivité à venir", Flammarion, 2006, pag. 24


Resulta do prazer da exploração e da descoberta que nos acompanha desde dos tempos em que éramos macacos (mas macacos com charme, claro) e saltámos da floresta para a savana. Nesses tempos éramos mais ou menos da mesma tribo.

segunda-feira, setembro 25, 2006

"Bubble" ou retratos do trabalho nos EUA



Bastam 73 minutos de filme para dar um retrato exacto do mundo laboral dos EUA no seu nível médio e médio baixo. É esse o grande mérito de "Bubble" do americano Steven Soderbergh. Está lá tudo: o mundo do duplo emprego; a ausência de vida familiar; a precariedade social; a organização da vida íntima e afectiva em função do trabalho e não o contrário; a obsessão de produtividade de produtos banais, rascas e foleiros, bem mais supérfluos que champanhe ou uma pulseira de tornozelo; as roulottes como dormitório de conveniência; a fast-food e a TV como recompensas maiores após uma jornada de trabalho; a ausência de cultura e de horizontes intelectuais; o exercício intelectual reduzido ao cálculo das economias para comprar o próximo electrodoméstico ou o próximo carro em segunda mão.

"Bubble" apresenta tudo isto e muito mais, economizando em diálogos. "Bubble" é filme em que o silêncio tem a língua solta. A narrativa, simples mas complexa nos detalhes chave, funciona como elegante espinha dorsal deste filmo-erectus da Dogme 95, sem dúvida num estado evolutivo superior ao do típico Hollywoodopitecus.


Os retratos do trabalho no Abrupto



Os retratos do trabalho exibidos até hoje no Abrupto, e que com certeza JPP continuará a publicar no seu blogue, são de certa forma o lado cor-de-rosa dos retratos de Soderbergh. Chamo-lhes retratos cor-de-rosa porque apelam ao imaginário do trabalhador-modelo visto pelo prisma liberal dos neo-conservadores. Através desses retratos, desses instantes, que apesar de representarem gestos repetitivos, não deixam de ser instantes, podemos contemplar um trabalhador em poses simples mas dignas, em poses humildes mas dignas, um trabalhador sujo mas digno, um trabalhador suado mas digno, ali não há lugar para palhaçadas sindicalistas ou artistas plásticos (que não são considerados trabalhadores nesse imaginário), nada de cow parades que um verdadeiro trabalhador é um homem sério e só se diverte em dia de casamento dos filhos ou dos netos. É curiosa a semelhança com o trabalhador-modelo soviético. Todos estes retratos do Abrupto servem para projectar a imagem de uma sociedade que só vive bem quando tolera a exploração e a precariedade. É esta mesma entrada do Abrupto que o denuncia, sobre aqueles coreanos do Starbucks que pelo menos ganham dinheiro "certamente pouco, mas algum", tal como os personagens de "Bubble", certamente pouco, mas algum. ..
No meio neo-conservador o fantasma do trabalhador-modelo explorado, mas digno e obviamente feliz, serve de consolo moral para que se possa beber tranquilamente um whisky de manhã e outro pela tarde no aconchego de um gabinete onde não cheira a suor e onde não entram botas cagadas de lama. Nalguns desses gabinetes até existem umas miniaturas de vacas das cow parades que um amigo trouxe de Londres ou de Varsóvia, mas ali não se corre perigo algum, ali está-se ao abrigo da ira do desempregado de Pevidém.

sábado, setembro 23, 2006

Autorização para matar

"Hoje já fiquei siderada numa escola dos filhotes: alguns pais estão a passar autorizações para os filhos sairem nos intervalos, para poderem ir comprar ao café da esquina aquilo que deixou de haver no bar da escola [fritos, refrigerantes açucarados e doces]"

Eva Lima
(na caixa de comentários de "Aplauso para o Ministério da Educação")

quinta-feira, setembro 21, 2006

American Vertigo e a negação do darwinismo

Sobre sinais que revelam a desregulação dos mecanismos de memória:

"Comment le même pays peut-il être à la fois le lieu d'un Mémorial de la Shoah aussi exceptionnel et celui, sur le bord d'une autoroute du Sud Dakota, d'une exposition permanente de fossiles censée révoquer en doute les hypothèses du darwinisme?"

"American Vertigo", Bernard-Henry Lévy, Grasset, 2006, pag. 387.

Aplauso para o Ministério da Educação

Pela medida que visa a proibição de venda de refrigerantes sem fruta, fritos e doces nas máquinas e nos bares das escolas.

Num país que ficou histérico por uma baliza de andebol ter caído numa ocasião sobre uma criança, parece-me no mínimo doentio a calma e a tranquilidade com que se tem encarado o crescimento assustador do número de crianças obesas ou com excesso de peso (actualmente cerca de 1/3). Estas crianças correm sérios riscos de contrair diabetes desde muito cedo e de morrer precocemente.

Para a medida ser perfeita faltaria apenas complementá-la com mais exercício físico nas escolas e uma cultura de informação para pais e educadores sobre nutricionismo e consumo.

quarta-feira, setembro 20, 2006

O mapa de Buracos Negros do Universo



Graças ao telescópio espacial de raios gama da ESA, o telescópio INTEGRAL, foi elaborado o primeiro mapa de buracos negros do Universo. A representação da Terra no mapa, serve para ilustrar o papel do nosso planeta na ocultação de fontes de radiação mais intensas capazes de ofuscar a observação da radiação emitida pelos buracos negros.

terça-feira, setembro 19, 2006

American Vertigo - o retrato de uma América doente

Bernard-Henri Lévy foi convidado pela revista cultural e literária Atlantic Monthly para percorrer e estudar a América seguindo os mesmos passos de Alexis de Tocqueville aquando da sua viagem pela jovem democracia americana em 1831. O propósito do périplo de Tocqueville pelos EUA foi o de estudar o sistema prisional americano, tendo publicado as conclusões da sua viagem na obra "Democracy in America".

"American Vertigo" de Bernard-Henri Lévy (BHL) é muito mais do que um estudo sobre o sistema prisional americano (aconselho-o vivamente ao caríssimo Zé Amaral), é um diagnóstico de um país que não é um país qualquer, quer o amemos quer o detestemos, trata-se do país mais influente do mundo.

O diagnóstico de BHL é claro, BHL encontra um país visivelmente doente, nas palavras do autor "une nation plus incertaine de ce qu'elle est, mal assurée de ce qu'elle devient, indéterminée quant à la valeur des valeurs, c'est-à-dire des mythes, qui l'ont fondée; c'est un trouble; c'est un malaise; c'est un vacillement des repères et des certitudes, un vertige" (pag.385). BHL justifica a sua tese de uma América doente recorrendo a quatro séries de sinais:

1) A desregulação dos mecanismos de memória. Exemplos de BHL: a negação do evolucionismo, a história fictícia do baseball contada no Hall of Fame de Cooperstown, os múltiplos museus onde o imaginário disney se substitui à história, a deturpação da nacionalidade dos piratas do ar do 11 de Setembro identificados como iraquianos nas sondagens, etc;

2) A obesidade económica, financeira e política: os giga-centros comerciais, as mega-igrejas, os ultra-parques de estacionamento (cliquem a apreciem o contraste), etc. Curiosamente BHL não dá importância à obesidade física dos Americanos;

3) As fracturas no espaço político e social. Basicamente, BHL anuncia o fim do melting pot e faz uma leitura de uma tribalização, de uma balcanização e de uma desintegração da sociedade;

4) A pobreza, a exclusão e as prisões. Para caracterizar estes sinais BHL chega a citar Pierre Bourdieu, embora não concordando totalmente com o autor: "[l'Amérique] a choisi d'opposer l'Etat pénal à l'Etat social, le modèle l'Etat-pénitence à celui de l'Etat providence, le filet des contrôles policiers puis carcéraux à celui du revenu minimal et des soins médicaux garantis" (pag. 396).

Sou suspeito para avaliar BHL, mas na minha opinião este é o livro do ano (não acredito em milagres até 31 de Dezembro de 2006) por razões que vão desde a forma ao conteúdo. "American Vertigo" é também o livro mais bem escrito entre todos os que li do autor. Continuarei a comentar "American Vertigo" em próximas entradas.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Blasfémias: o nosso Loose Change

Entradas como esta fazem com que a credibilidade do blogue Blasfémias seja a mesma de uma coluna de astrologia ou do filme Loose Change. Ignorância pimba e fuga para frente justificam tudo; tudo pode ser ciência, desde o Loose Change ao niilismo do Holocausto.

Colin Powell, esse anti-americano primário...

"The world is beginning to doubt the moral basis of our fight against terrorism" - frase de Collin Powell contida numa carta enviada ao senador John McCain.

Esta frase revela não apenas até que ponto já se percebeu nos EUA o descalabro a que chegou a política externa americana, como revela ainda, a nível nacional, o radicalismo - nalguns casos fanatismo - daqueles que continuam a defender todas as barbaridades cometidas a nível internacional pela Administração Bush.
Portugal já contava com alguns dos comunistas mais ortodoxos da Europa, mas agora conta também com alguns dos apoiantes de Bush mais fanáticos e mais radicais à face da Terra.

PS- Aqui a resposta de Bush a Powell. Aquele engasgar é revelador...

domingo, setembro 17, 2006

Começou a Rentrée Literária Francesa

A Rentrée Literária Francesa já mexe, em Portugal é possível assistir aos interessantes debates e entrevistas na TV5 ou na France 2 (depende do pacote de canais do serviço de TV cabo ou satélite). Aqui ficam as sugestões desta semana: o programa "Esprits libres" de Guillaume Durand e "On n'est pas couché" de Laurent Ruquier. Em "Esprits libres" a seguir a apresentação dos livros de Maurice G. Dantec e de Jean-François Kahn, o primeiro define-se como autor de direita cyber-punk e o segundo como autor de esquerda-centrista revolucionária... O programa de Laurent Ruquier começa em grande com a apresentação do novo livro de Christine Angot, "Rendez-vous".

sábado, setembro 16, 2006

Desmentir Loose Change 2

O segundo grande argumento (ver antepenúltima entrada) da teoria da conspiração lançada pelo filme "Loose Change" retoma as teorias de Meyssan sobre a derrocada das Torres Gémeas. Entre os múltiplos delírios de Meyssan sobre o 11 de Setembro de Nova Iorque (ex: Meyssan afirma que os aviões eram telecomandados...), no seu livro "L'Effroyable Imposture" é explicada a derrocada das torres gémeas pela colocação de bombas no interior do edifício, justificando Meyssan que duas torres modernas e bem equipadas não deveriam cair após um impacto com um avião. E exemplifica invocando um acidente em que um pequeno avião chocou contra o Empire State Building, sem que o edifício tivesse corrido risco de derrocada. Isto até parece lógico, mas o problema é que Meyssan ignorava que a estrutura que suporta as Torres Gémeas é completamente diferente da estrutura do Empire State Building (existem 300 mil reportagens de TV que explicam detalhadamente estas diferenças).

O que suporta o peso das Torres Gémeas é a estrutura externa em aço, visível na foto. No caso do Empire State Building (ESB) a mesma função é desempenhada por uma "gaiola" de colunas internas e externas de betão armado. A grande vantagem da estrutura externa das Torres é a de permitir maximizar a superfície dedicada aos gabinetes das empresas, dada a ausência de colunas interiores. Deste modo, cada andar das Torres Gémeas consistia de amplos espaços de gabinetes separados por placas de gesso com uma cavidade central para os elevadores, suportada por uma estrutura metálica mais ligeira. Apesar das Torres terem sido concebidas para aguentar um choque de um avião de linha a uma velocidade normal, a ausência de colunas internas (como as do ESB) e a velocidade bastante elevada a que os aviões (de tanques cheios) se projectaram contra as Torres, resultaram na destruição irreversível da estrutura interna - que não suportava o peso do edifício - e na fusão dos pisos directamente tocados. Progressivamente alguns dos pisos superiores começaram a cair fazendo cair por sua vez o piso logo abaixo até formar uma avalanche impossível de ser contida pela estrutura externa do edifício, provocando a derrocada das Torres. Obviamente que isto nunca poderia acontecer no ESB. No caso da Torre 2, o facto de o avião ter entrado junto a uma das arestas do edifício, fez com que esta Torre, apesar de ter sido atingida mais tarde, se tivesse desmoronado mais rapidamente, dada a distribuição assimétrica do peso dos pisos superiores sobre os pisos inferiores.

Analisando o atentado às Torres à distância de 5 anos percebe-se que acidentalmente a coisa correu demasiado bem para a malta da Al-Qaeda. Certamente ninguém deve ter analisado estas particularidades arquitectónicas que contribuiram para o sucesso da operação.

A teoria ucraniana sobre a ideia do 11 de Setembro
Uma teoria que eu considero mais provável sobre a ideia de lançar aviões de linha sobre as Torres Gémeas é lançada por Nima Zamar, ex-agente da Mossad, no seu livro "Je devais aussi tuer". Segundo a autora, tanto a URSS como os EUA durante a Guerra Fria possuíam planos para se atacar mutuamente caso as forças militares convencionais ficassem inoperacionais. Por exemplo, se os EUA lançassem um ataque de mísseis que destruísse por completo o arsenal militar da URSS, os agentes soviéticos infiltrados nos EUA estavam encarregues de organizar ataques com o que houvesse à "mão". Uma maneira de o fazerem, seria utilizando aviões de linha como cocktails molotov contra o Pentágono, a Casa Branca, o Capitólio, etc. Segundo Nima Zamar depois do fim da Guerra Fria alguns destes planos teriam sido vendidos por um ucraniano à Al-Qaeda. Nima reforça esta hipótese relembrando o avião de linha abatido por um míssil da marinha ucraniana pouco tempo depois do 11 de Setembro. Segundo Nima o lançamento do míssil não se tratou de um acidente, mas de um ajusto de contas com o ucraniano que vendeu os planos à Al-Qaeda. O acidente foi investigado pela Mossad, dado que se encontravam a bordo israelitas. O referido avião tinha partido de Israel com destino à Siberia.

sexta-feira, setembro 15, 2006

Desmentir Loose Change 1

Para desmentir o ponto 1) (ver entrada anterior) bastariam as mais de duas mil testemunhas que observaram o avião a colidir contra o Pentágono (algumas dezenas passaram nos canais de TV franceses). Quem conhece Washington sabe que existe uma auto-estrada multi-vias que passa mesmo ao lado do Pentágono e que permite observar em perfeitas condições (do camarote) ao longo de cerca de 3 km o choque de um avião contra o referido edifício. Meyssan deve ter julgado certamente que o Pentágono ficava situado entre ruelas do tipo arrondissement de Paris... Como se isso não bastasse foi divulgado recentemente o vídeo do parque de estacionamento do Pentágono em que se pode observar a colisão do avião com o edifício.
No entanto, resta a questão dos destroços do avião. Fazia uma certa confusão a Meyssan o facto de não serem visíveis destroços de dimensões consideráveis nas imagens divulgadas e de o Pentágono apresentar apenas um "pequeno" buraco. Meyssan não é físico, mas se ele lançasse um cocktail molotov contra um muro de tijolo, Meyssan iria compreender tudo. Depois da gasolina da garrafa arder completamente, Meyssan não iria conseguir distinguir os destroços da garrafa que sobrassem, da mesma maneira o muro de tijolo provavelmente iria apresentar apenas um pequeno buraco. Os aviões foram projectados para transportar seres humanos, mas se lhes derem aquele tipo de utilização são autênticos cocktails molotov voadores, objectivamente: um frágil recipiente cheio de gasolina.

(falta escrever sobre o ponto 2)

Loose Change: um big mac de vaca louca

Na mesma linha da astrologia, do niilismo do aquecimento global, do "atentado" a Sá Carneiro, das aparições de Fátima e da negação do Darwinismo, o filme "Loose Change" parte de alguns factos reais e científicos para forjar uma charlatanice atractiva e popular, contribuindo para a estupidificação global.

Em 2002, estava em França, e assisti em directo à apresentação do livro de "Effroyable Imposture" de Thierry Meyssan no programa "Tout le Monde en Parle" que narra uma mirabolante teoria da conspiração segundo a qual teria sido a própria administração Bush a autora dos ataques do 11 de Setembro. Toda a sua teoria é apoiada em informações retiradas da internet, praticamente Meyssan não levantou o traseiro da sua cadeirinha de computador, para chegar àquelas impressionantes conclusões. No início do programa pensei para comigo: "bem, mais um cromo profissional em teorias da conspiração, ninguém vai ligar a isto". Mas logo a reacção dos convidados do programa deu a entender que aquela teoria era demasiado popular para a coisa ficar por ali. Um dia depois a TF1 e vários jornais franceses desmontavam os pontos basilares da teoria de Meyssan. No entanto, passadas duas semanas, o livro de Meyssan era o primeiro lugar do top de vendas em França. Passado muito pouco tempo Jean Guisnel e Guillaume Dasquié - duas das pessoas mais bem informadas deste planeta sobre serviços secretos e afins - desmontaram o delírio de Meyssan através do livro "L'imposture démontée". Desde então Thierry Meyssan passou à categoria de cromo público, com uma quota de credibilidade abaixo de zero, levando infelizmente por tabela o interessante Reseau Voltaire, ao qual ainda preside.

O que se faz em Loose Change é uma espécie de enlatado das teorias de Thierry Meyssan, um big mac feito a partir de um filet mignon de vaca louca, feito a pensar no americano médio. Os dois grandes argumentos de Loose Change retomam duas teorias de Thierry Meyssan sobre o 11 de Setembro:

1) Não foi um avião que chocou contra o Pentágono;
2) O colapso das Torres Gémeas não se deveu ao choque e explosão dos aviões.

quinta-feira, setembro 14, 2006

O que é o capitalismo selvagem?

É isto:

"It is ridiculous to call this an industry. This is not. This is rat eat rat, dog eat dog. I'll kill'em, and I'm going to kill'em before they kill me. You're talking about the American way - of survival of the fittest."

Ray Kroc proprietário e verdadeiro impulsionador da cadeia McDonalds entre 1961 e 1984.

quarta-feira, setembro 13, 2006

A coca é o ópio das FARC

Ivan Rios, um graduado das FARC, em entrevista a Bernard-Henri Lévy (em "Réflexions sur la Guerre, le Mal et la Fin de l´Histoire"):

"est-ce que c'est normal de voir des petits propiétaires qui, non contents de travailler comme des mules, se font racheter leurs lopins pour une bouchée de pain par les latifundiaires? Réponse: non; on ne va pas accepter, sans réagir, la progression, à la faveur de la coca, du grand capital dans la campagne colombienne. (...) On taxe. On prélève un impôt sur les latifundiaires. Et, accesoirement, on empêche que les énormes flux de richesse générés par le commerce de la pâte à coca aillent finir dans les paradis fiscaux."

Taxas... Está-se mesmo a ver...
As FARC embriagadas pelos milhões da coca que servem para financiar o seu apetite insaciável por armas, com toda a lata do mundo, introduzem-se na cadeia da negociata da coca que vai desde o pequeno produtor até ao paraíso fiscal. As FARC são uma espécie de proxeneta do pequeno produtor e de dealer do grande capital, utilizando os métodos típicos de banais traficantes, queimando, violando e torturando, como o fizeram no campo de Los Pozos, ou recrutando crianças-soldado, ou ainda recorrendo aos raptos em massa.
Em linguagem marxista poderíamos de dizer que a coca é o ópio das FARC.

terça-feira, setembro 12, 2006

O impacto da SMART 1

Ao lado um mini-filme do impacto da SMART 1 com a superfície lunar (sítio ESA), a partir das observações realizadas pelo Canada-France-Hawaii Telescope.

Aqui a simulação do impacto da SMART 1 com a Lua realizada em laboratório na Universdade de Kent no Reino Unido.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Mais um atentado no Iraque...

Já se tornaram tão banais os atentados no Iraque, que foram raros os telejornais ocidentais que noticiaram hoje a morte de mais 13 iraquianos num atentado à bomba. Hoje, as vítimas foram novos recrutas do exército iraquiano que supostamente é aliado da coligação que ocupa o Iraque. Será que os aliados da coligação renderam também a estes 13 soldados a homenagem devida?

Estou fora do país e o Prós e Contras de hoje só é transmitido às quartas na RTPi. No entanto, duvido muito que o ilustre convidado do programa que vai tomar o partido da Administração Bush faça alguma referência à morte no dia de hoje destes 13 "aliados".

Esquerda conservadora? Não obrigado!

Caro Miguel Madeira,

A minha crítica à Ruptura pouco tem a ver com radicalismo. O radicalismo não tem cor política. Radical pode ser a extrema-direita, os No Name Boys ou os Super-Dragões, uma associação pró-vida, uma mensagem papal contra o preservativo ou os artigos do João César das Neves e do José Manuel Fernandes.

O que critico na Ruptura é sobretudo seu conservadorismo e, em parte, a pobreza e a simplicidade dos seus textos e das suas reflexões políticas. Este segundo ponto pode ser verificado através de uma rápida visita ao sítio internet da Ruptura.

O conservadorismo da Ruptura baseia-se numa visão hermética da esquerda e numa leitura dogmática do marxismo que culmina na cristalização ideológica do movimento. É um conservadorismo que recupera muito do imaginário e dos tiques autoritários que caracterizavam grande parte da esquerda do final do século XIX e do início do século XX. Nesses tempos em que o mundo era dominado pela direita e em que a democracia, os sindicatos e a cidadania eram uma miragem, o crescimento da esquerda usou das mesmas formas de violência que a direita (era normal naqueles tempos).

A Ruptura não simpatiza com as "causas fracturantes" (inclusivamente o aborto), é contra a paridade e cada vez que se pronunciam sobre a sexualidade nota-se muito desconforto nas entre-linhas.

A Ruptura é contra instituições internacionais como a ONU e a UE, encontrando-se assim na prática mais próxima dos neo-conservadores quando estes defendem a primazia do belicismo internacional (guerrilha internacional na versão Ruptura), do que propriamente da esquerda que defende a primazia do direito internacional e que privilegia a razão ao som das botas a marchar.

A Ruptura não gosta do Maio de 68, não gosta da esquerda que questiona e que se questiona e não gosta do pós-modernismo.

Acontecimentos como o fim do regime soviético, a Primavera de Praga e a revolta húngara contra a invasão soviética são analisados telegraficamente nos textos da Ruptura.

A Ruptura enfeita o seu discurso com as palavras "revolução" e "trabalhador" como quem distribuiu bolinhas vermelhas numa árvore de Natal. As revoluções não se fazem com conteúdos conservadores, fazem-se com conteúdos inovadores e vanguardistas, algo inexistente no discurso da Ruptura. Os membros da Ruptura continuam a pronunciar as palavras "trabalhador", "operário", "camponês", etc., como se a composição actual das nossa sociedade fosse ainda dominada pelos sectores primário e secundário, tal como início do século XX.

Caro Miguel Madeira, quanto à questão das alas esquerda ou direita do BE, no que me toca a resposta está dada. Vejo o autoritarismo e o conservadorismo da Ruptura do lado do MRPP e do PCP, vejo-os a clonar a direita, como se fazia (erradamente) no início do século XX. Nesse cruzamento, eu guino à esquerda!

quinta-feira, setembro 07, 2006

Česky Sen (Sonho Checo) no canal Arte

"O Sonho Checo", um filme fortemente recomendado pela Klepsýdra no canal ARTE, é transmitido amanhã às 22.50 (hora de Portugal). Ler comentário Klepcinema sobre "O Sonho Checo".

quarta-feira, setembro 06, 2006

Para a esquerda do Não ao Tratado Constitucional

Depois da crise do Líbano e depois deste abuso dos aviões da CIA que acumula com abuso do programa de espionagem ECHELON, pergunto aos meus amigos de esquerda que defendem o Não ao Tratado Constitucional, se sinceramente acham que estamos melhor assim? Será esta a nossa Europa? Uma Europa com uma política internacional confusa, fraca, sujeita aos caprichos da Polónia (por sua vez condicionada pelos dólares de Fundações George Soros e afins) ou do Reino Unido; uma Europa cuja política externa está sujeita ao calendário das eleições francesas, italianas, alemãs ou britânicas; uma Europa vergada ao poder dos Conselhos de Ministros em que o Parlamento Europeu tem um papel de figurante. É isto que realmente queremos?

Entretanto, a Administração Bush e os que defendem o liberalismo económico mais selvagem (basta ler os nosso blogues) agradecem tanto o Não francês como o Não holandês...

terça-feira, setembro 05, 2006

Gata Preta*, Gato Branco



"Gato Preto Gato Branco" é uma comédia maravilhosa, uma pérola cinematográfica de Emir Kusturica. Todos os detalhes que nos são revelados pelo enquadramento da câmara de filmar são deliciosos, fazendo lembrar aquelas bandas desenhadas em que personagens minúsculas desenvolvem múltiplas histórias paralelas à história principal, nos cantos de cada quadradinho. "Gato Preto Gato Branco" também pode ser isso, uma banda desenhada de carne e osso, e nesse caso seria na minha opinião a melhor banda desenhada transposta para o cinema. "Gato Preto Gato Branco" também pode ser visto como um conto de fadas balcânico, um atestado de incompetência aos milhões da Disney, um conto fadas como deve de ser, com ciganos, meninos virgens (gatos brancos), meninas desinibidas (gatas pretas) e famílias assanhadas de navalha em riste. É o mundo encantado dos balcãs!

Como é habitual nos filmes de Kusturica, o elenco de actores é excelente. Srdjan Todorovic está absolutamente intratável neste filme no papel do mafioso Dadan. O grande Miki Manojlovic assume um papel secundário desta vez, mas para mim é sempre um prazer vê-lo no écran. Fico cada vez mais convencido que alguns dos melhores actores do planeta andam ali pelos balcãs, só é pena não chegarem até nós mais filmes daquela zona da Europa.

Tenho a doce memória de rir às gargalhadas vendo este filme acompanhado da minha avó paterna que é analfabeta (eu bem tentei formar uma brigada de alfabetização da minha avó, mas não tive sucesso). Constatei como "Gato Preto Gato Branco" tem o raro dom de recorrer a uma linguagem universal, compreensível mesmo para quem nem lê legendas, nem percebe sérvio.



* A Eva Lima chamou-me a atenção, e com razão, para o facto da tradução directa do título original "Crna macka, beli macor" ser "Gata Preta, Gato Branco", o que está mais de acordo com os "gatos" e as "gatas" do filme. Desconfio que o título português do filme deva ter sido traduzido do título inglês (cat é gata e gato...) ou do francês. Em francês chatte pode significar muito mais do que uma simples gata...

segunda-feira, setembro 04, 2006

Concordo II

Concordo em absoluto com o texto "Política imberbe" da Joana Amaral Dias sobre um certo tom de machismo de pacotilha que está a marcar os preparativos das presidenciais francesas. Aliás, recentemente escrevi aqui um texto (meio delirante, admito) que aborda o mesmo assunto pelo prisma dos temíveis segredos da casa de banho para cavalheiros.

Concordo I

Concordo inteiramente com o texto "Baby-boom, Papy-boom" do David Luz.

domingo, setembro 03, 2006

SMART 1: ciência kamikaze



Depois de uma missão marcada pelo sucesso da utilização de um motor iónico e pela análise detalhada da superfície lunar, a a sonda SMART-1 chegou ao fim da sua missão de uma forma espectacular, estatelando-se como previsto na superfície lunar! Os fragmentos do solo e do subsolo lunar projectados pela colisão foram prontamente analisados por instrumentos baseados na Terra e serviram para produzir ainda mais ciência.

As fotografias aqui apresentadas foram obtidas pelo Canada-France-Hawaii Telescope instalado no cimo do vulcão Mauna Kea, a 4200m de altitude.

sábado, setembro 02, 2006

Sábado em Coimbra XXX: cidades universitárias

Enquanto contemplava o Mondego, lá de cima da Couraça, dei por mim a pensar na minha cidade tipo. Gosto dessas cidadezinhas, nem muito grandes nem muito pequenas, que fervilham ao ritmo de uma universidade. Freiburg, Tübingen, Pádua, Ferrara, Bolonha, Olomouc, Salamanca, Leuven, Würsburg, Louvain-la-Neuve ou Leicester são tudo cidades que rimam com o meu modo de vida. Oxford, Santiago de Compostela e Heidelberg são cidades que já admiro antes mesmo de lá ter metido os pés (aceito convites). Também gosto de cidades grandes que parecem pequenas, como Bruxelas, ou cidades grandes que não parecem grandes, como Munique. Mas não gosto de cidades grandes como Lisboa, Londres, Hong Kong ou Los Angeles, não gosto do reino do tubo de escape, do alcatrão e do betão.
É a maldição de Coimbra... mas é uma boa maldição.

Sábado em Coimbra XXIX

Filhos de uma grande Helena!

Os filhos de Helena, esses mediterrânicos(as) peludos(as) a quem devemos a Odisseia, a filosofia, os primeiros rudimentos científicos (com Ptolomeu, Pitágoras e Arquimedes) e os jogos olímpicos, voltaram a fazer das deles. Já não bastava a estrondosa vitória contra a Troia de Heitor ou o surpreendente título no Euro 2004, desta vez foram só os EUA nas meias-finais do campeonato do mundo de basquete adecorrer no Japão. Sabemos que esta equipa dos EUA não é a verdadeira constelação, mesmo assim é obra.
Na final segue-se a Espanha. Estou com os filhos de Helena e tal qual um verdadeiro épico grego vou manipular Zeus e todo Olimpo, usar de todas as artimanhas próprias do Olimpo para dar a vitória à Grécia. ΣΛΛΑΔΑ!!

quinta-feira, agosto 31, 2006

Um amigo libanês e a popularidade do Hezbollah

Um amigo libanês com o qual almocei diariamente durante os quatro anos que passei em França, descrevia-nos com orgulho a vida da sua irmã a viver em Beirute, uma rapariga dinâmica nas palavras dele, que trabalhava numa rádio, se vestia bem e até escolhia os namorados. No entanto, quando o motivo de conversa era Israel, ele não escondia a sua simpatia pelo Hezbollah, justificando que era o único movimento que fazia frente a Israel, que na altura ainda ocupava o sul do Líbano. Perante a sua simpatia pelo Hezbollah, juntamente com um colega francês, fizemos-lhe notar que se o Hezbollah alguma vez fosse governo no Líbano a sua irmã seria obrigada a cobrir o cabelo, deixaria de trabalhar na rádio e passaria os dias em casa à mercê de um marido que muito provavelmente não iria escolher.
As nossas palavras não lhe foram indiferentes, sem o referir directamente, deu-nos a entender que só tolerava o lado fascista do Hezbollah enquanto Israel ocupasse ou ameaçasse o sul do Líbano.

Este amigo libanês não é um caso isolado, grande parte do apoio ao Hezbollah possui este cariz. No fundo é um apoio que não partilha da doutrina do movimento, mas que o considera fundamental no conflito permanente contra Israel. E é aqui que discordo (apenas parcialmente) do Luís.

Não são os ataques de Israel ao Hezbollah que me incomodaram - pelos quais não verti a menor lágrima - o que me incomodou foi ver o Líbano bombardeado a eito, o que me incomodou foi o ataque ao Líbano país e não ao Hezbollah no Líbano, foi ver pontes destruidas, o aeroporto esburacado, uma maré negra de dezenas de quilómetros e ver libaneses muçulmanos, judeus e cristãos com a casa às costas perdidos no seu próprio país. Isto vai ter o seu preço e será um preço alto: o reforço do Hezbollah em simpatizantes, militantes e activistas. A próxima geração de vingança e de ódio está já na forja. Não será surpresa nenhuma se o Hezbollah aderir à moda dos atentados suicida.

A justificação do ataque ao Líbano país, às suas infrastruturas e às suas vias de comunicação, segundo a qual era necessário para impedir o fornecimento de armas ao Hezbollah é muito manhosa. E é manhosa por duas razões:

1 - Porque este ataque constituiu de facto um castigo (vingança diria o P. Varela Gomes) ao Estado Libanês, por não desarmar o Hezbollah. Para um país que viveu longos anos de guerra civil, desarmar o Hezbollah poderia significar o reacender dos velhos ódios e mergulhar de novo o país na guerra. As manifestações de apoio ao Hezbollah depois da saída das tropas Sírias são disso um indicador.

2 - Porque grande parte do circuito de fornecimento de armas ao Hezbollah passa por território de países "amigos" dos EUA. Actualmente, o Qatar é uma das maiores placas giratórias do tráfico de armas destinadas a grupos políticos como o Hezbollah. Diariamente, aterram e levantam voo Antonovs carregados de armas. A CIA sabe-o e até sabe mais ou menos para onde voam. Ora, será certamente mais eficaz para Israel - que já controla o espaço aéreo e marítimo do Líbano - pedir aos EUA para lhe dar uma ajuda no nó do tráfico de armas baseado no Qatar do que esburacar o aeroporto e escavacar os portos marítimos libaneses. Só que isso acarreta uma dificuldade. O negócio faraónico de armas em troca de petróleo entre os EUA e o Qatar poderia sofrer um abalo e a administração Bush não está disposta a isso. É mais fácil esburacar o aeroporto de Beirute...

Assim que o Líbano começou a ser bombardeado de alto a baixo enviei um email ao meu amigo libanês. Recebi resposta há poucos dias. Afinal ainda estava em França. Disse-me que a família no Líbano estava bem. O que me escreveu a seguir confirma os meus piores receios. O Hezbollah vai ter sem dúvida um vertiginoso acréscimo de popularidade e de simpatia. Infelizmente, é esta a verdadeira vitória do Hezbollah, é a vitória de um reforço político, do reforço de um fascismo alimentado pelo desejo de vingança e pelo ódio.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Armas de destruição em massa: Fanta

Cada garrafa de 1,5l contém:
- o equivalente a mais de 40 colheres-de-chá de açucar
- cerca de 700 kcal

Necessidades diárias:
homem - 2200 kcal
mulher - 1800 kcal

domingo, agosto 27, 2006

Charlie e a fábrica de chocolate: o original

Para os cinéfilos:
Hoje, no canal ARTE às 19.40 (uma boa hora para boicotar os telejornais kitsh das nossas televisões) será transmitido o filme original "Charlie e a fábrica de chocolate" realizado por Mel Stuart
35 anos antes da versão de Tim Burton.

Vasco Graça Moura invertendo a realidade

Na resposta de Vasco Graça Moura (edição de 3 de Agosto do DN) a um desinteressante comentário de um leitor podemos ler o seguinte:

"na verdade, a esquerda tem defendido o terrorismo ao longo das décadas: (...) fê-lo na defesa do Hamas, da Al-Qaeda, ou do Hezbollah..."

Esfreguem bem os olhos. Leram bem Al-Qaeda, não leram?
Ora, se Vasco Graça Moura se desse ao trabalho de ler as páginas 48 à 54 da obra "Against all enemies" de Richard Clarke - coordenador da Security Infrastructure Protection and Counterterrorism entre 1998 e 2003 - poderia poupar-nos de mais uma estrondosa bojarda. Ao longo dessas 7 páginas Richard Clarke explica detalhadamente como a CIA escolheu, formou e apoiou Ben Laden e os talibãs. Clarke descreve detalhadamente o apoio dado aos grupos armados constituídos por aqueles que viriam a ser os talibãs, nomeadamente através do fornecimento de mísseis Stinger, mísseis esses que foram essenciais para aniquilar os helicópteros soviéticos Hind-D. Podemos ler como o falcão Richard Perle teve a brilhante ideia de criar campos de treino para mujahedines no Paquistão (tão uteis que foram depois para Ben Laden). E podemos ainda ler o processo de recrutamento de Ben Laden seguindo a sugestão dos serviços secretos sauditas.

Esta forma de inverter a realidade, de dar cambalhotas à história, de transmutar o agredido em agressor e vice-versa tem sido uma arma frequentemente utilizada pelos mais radicais defensores da administração Bush. Não espanta pois o resultado da famosa sondagem em que os americanos designaram maioritariamente como sendo iraquiana a nacionalidade dos autores do 11 de Setembro e não a nacionalidade dominante: a Saudita.

quinta-feira, agosto 24, 2006

Plutão perdeu o estatuto planeta

A partir de agora é assim:



Depois do voto sobre a nova definição de planeta ocorrido na sessão de hoje da Assembleia Geral da União Astronómica Internacional em Praga, a nova catalogação dos corpos principais do sistema solar divide-se entre planeta e planeta-anão. Plutão passa a pertencer a esta última categoria. A frequência crescente a que estavam a ser descobertos corpos semelhantes a Plutão para lá da órbita deste ex-planeta foi a gota que fez transbordar o copo para que uma nova definição de planeta fosse estabelecida.

Hezbollah: vantagem simbólica do fascismo fashionable

Nos últimos tempos, poucos blogues me têm dado tanto prazer a ler como o Natureza do Mal. Apesar de não concordar com tudo o que o Luís tem escrito sobre o conflito entre Israel e o Hezbollah - mais tarde me explicarei sobre isso - gosto da forma autónoma como tem abordado o assunto, bem como a sua valiosa contribuição para o enriquecimento do debate à esquerda na blogosfera. Bem melhor e bem longe do habitual e seco ping-pong ideológico de duas partes que não cedem nem um passo que caracterizaram muitos debates anteriores da blogosfera.

Sobre a entrada do Luís "Hezbollah fashionable", independentemente de não subscrever tudo o que escreveu, destaco a passagem em que o Luís faz referência ao "grafismo poderoso do Hezbollah, uma mistura de orientalismo com fascismo fashionable". Ora esse mesmo fascismo fashionable, essa sedução, esse prestígio transmitido pelas diversas representações simbólicas do Hezbollah é abordado de uma forma interessante por Bernard-Henri Lévy nas suas respostas ao New York Times (registo gratuito):

"...the eternal rivalry between what in France we call the Girodins and the Montagnards, the moderates and the hardliners, the partisans of compromise and the apostles of violence or simply of radicality. We have known since 1789 that it is the latter who most often defeat the former. We know that there is a frightful prestige associated with the radical spirit. More precisely: we know that there is a terrible seductiveness, an ideologial and symbolic advantage, that goes with the Montagnard spirit. That, I think, is what is happening in the Muslim world today."

No passado esse deslumbramento pelo fascismo fashionable passou pelo barulho das botas dos desfiles da Juventude Hitleriana, do Exército Vermelho e da Mocidade Portuguesa, entre outros...

quarta-feira, agosto 23, 2006

A crise mundial de água potável

O relatório World Water Development de 2006 da ONU faz o ponto da situação sobre a crise mundial de água potável - ou água doce se quisermos ser mais abrangentes - e a conclusão deste relatório é que estamos bem pior do que se pensava. A penúria de água potável já afecta cerca de um terço da população mundial, cenário que se julgava ocorrer somente dentro de duas décadas. Os números sobre a utilização da água são muito preocupantes. Exemplos (ver resumo elaborado pela WWF):

- O consumo diário de água nas zonas urbanas da América do Norte é de 350 l/pessoa, 200 l/pessoa na Europa e 20 l/pessoa na África Subsariana;

- Para produzir um copo de leite são necessários cerca de 200 litros de água, um ovo cerca de 135 litros de água, um hambúrguer cerca de 2400 l, uma t-shirt cerca de 4100 l e um par de sapatos cerca de 8000 l.

- A Austrália é o continente mais seco e perdeu cerca de 15% da sua taxa de pluviosidade desde 1970. Convém referir que a Austrália é o maior emissor de gases de efeito de estufa per capita. Os EUA são o maior emissor em termos absolutos (cerca de 25% das emissões globais).

Na Semana Mundial da Água a decorrer em Estocolmo está a ser discutido o impacto planetário da actividade humana nos recursos naturais, as políticas a adoptar e o estudo dos complexos sistemas naturais.
Parece evidente que a forma como estão organizadas as nossas sociedades, sobretudo a "ocidental", vai ter que mudar muito. As nossas noções de produtividade, de consumo, de propriedade, etc., vão ter que mudar muito sob pena de pagarmos o preço forte causado por penúrias extremas de água potável em certas zonas do planeta (a península Ibérica é uma das de maior risco): migrações incontroláveis, conflitos, concentrações excessivas de populações, epidemias, mortes em massa, etc.



O folclore habitual destas coisas
Obviamente, já sabemos que os João Miranda e os engenheiros (atenção não se esqueçam que o homem é engenheiro) Rui Moura deste mundo vão ler nisto mais uma campanha contra a sacro-santa administração Bush e consequentemente contra toda a sua catequese de liberalismo selvagem num contexto neo-conservador. Mas até tem a sua piada, faz parte do folclore que rodeia a história da ciência, como a célebre história dos monges que gozaram com Galileu agarrando-se a colunas para não caírem quando este lhes anunciou que a Terra se movia.

terça-feira, agosto 22, 2006

Bernard-Henri Lévy sobre Israel

Mais um post atrasado:

Aqui, ensaio de Bernard-Henri Lévy (BHL) sobre Israel no New York Times (o registo é gratuito).

Questões a BHL sobre o mesmo ensaio.

No dia em que saiu o ensaio lembro-me de BHL ser capa de alguns jornais alemães à venda em Portugal. No mesmo dia, nos nossos jornais (DN e Público), nada encontrei sobre o ensaio de BHL. O Correio da Manhã, o jornal do Portugal kitsch, vendia-se às molhadas. Do ponto de vista intelectual foi um dia deprimente, mas foi também um excelente dia de férias, entre pinheiros mansos, dunas e generosas ondas do Oceano Atlântico.

segunda-feira, agosto 21, 2006

O Médio Oriente e a Europa

Tinha este post entalado há três semanas.
Recomendado também pelo Bruno do Avatares, um bom texto crítico de Tomothy Ash sobre as responsabilidades da Europa em Israel e no Médio Oriente.

Resposta a JPP: Israel ganhou todas as guerras...

No Abrupto é colocada a seguinte questão:

QUEM “GANHOU” A GUERRA ENTRE ISRAEL E O HEZBOLLAH?

A minha resposta é: Israel ganhou todas as guerras em que participou até hoje, inclusive esta. E se nos lembrarmos bem, no passado Israel ganhou guerras de uma forma ainda mais categórica do que desta vez. E qual é o resultado dessas vitórias militares? Será que se traduziram sempre em vitórias políticas? Não, claro que não. A experiência mostra que ganhar guerras naquela região do mundo não basta e isso já muita gente neste planeta percebeu, inclusive em Israel. Os protestos em Israel contra a intervenção no Líbano não são tanto contra os ataques ao Hezbollah ou contra os danos colaterais, os protestos surgem porque aqueles israelitas, que conseguem manter o sangue frio para fazer uma leitura política moderada, sabem que mesmo ganhando ao Hezbollah, essa vitória não se traduz numa vitória política, sobretudo quando se bombardeia o Líbano a eito, como se o país de norte a sul fosse um feudo de terroristas. Esses Israelitas sabem bem que no rescaldo desta guerra o Hezbollah se reforçou em simpatizantes, militantes e activistas e mais cedo ou mais tarde tudo poderá recomeçar. Esta sim é a verdadeira vitória do Hezbollah. E este é um facto independente do sucesso ou insucesso da força internacional que será colocada no sul do Líbano. É isso que o texto de JPP deixa de fora, é de certa forma um erro semelhante ao que se está a pagar no Iraque.


Reparos à forma como JPP analisa o papel da França no conflito
JPP postula que a vitória de Israel vai depender "do modo como for aplicada a resolução da ONU, em particular do modo como for constituída a força internacional que controlará o sul do Líbano e o modo como esta actuará". Isto é quase sinónimo de afirmar que se tudo correr bem a vitória será mais da França do que Israel, se for a França o país responsável pela força da ONU. Eu sei que JPP não queria ir tão longe, mas é onde o seu raciocínio nos leva.

Depois vale a pena analisar este parágrafo:
"...pode ser uma rara oportunidade para a França (e por interposta França para a UE) assumir um papel positivo na região, onde só tem tido um papel muito negativo, em particular pelas ambiguidades da sua política face ao conflito iraquiano."

Os Franceses e todos os que estão minimamente atentos às manobras internacionais que pretendem fazer da União Europeia um cão de companhia dos EUA, sabem que o sul do Líbano poderá ser aproveitado para preparar uma armadilha à França. Não será difícil fazê-lo, o historial de terrorismo dos EUA no Líbano é reputado - no caso do Líbano o sentido da palavra é realmente adequado, os EUA organizaram atentados à bomba que mataram dezenas de civis nos anos 80. Por isso quando se refere "por interposta França para a UE" está-se a dizer duas coisas: 1) o fracasso de um país membro, é o fracasso de toda a UE. O que levanta uma pergunta: o fracasso do Reino Unido ou da Polónia no Iraque serão também um fracasso da UE? 2) a política externa francesa é igual à da UE. O que é falso, infelizmente. Não seria uma política perfeita mas seria bem melhor do que a actual política da UE.
Finalmente, quando JPP refere que a França "só tem tido um papel muito negativo" na região "pelas ambiguidades da sua política face ao conflito iraquiano", JPP está a falar para os devotos da religião USA, para a tribuna dos fanáticos, tenho a certeza que o próprio JPP não acredita no que escreveu. Se não seria muito estranho que os países da região sugerissem a França para formar a força da ONU. Porque é que os ingleses e os americanos não vão para lá? Não é por problemas logísticos, certamente. Sabemos o que aconteceria: Iraque II.

sexta-feira, agosto 18, 2006

"Não espiamos os Sauditas. São nossos amigos"

Quem assistiu ao documentário "CIA, guerres secrètes" emitido pelo canal ARTE (pode ser adquirido aqui em DVD ou aqui em VOD) e ouviu as declarações de dezenas de ex-agentes da CIA e do FBI percebeu claramente dois factos relevantes que condicionaram fortemente a política americana de combate ao terrorismo nos últimos anos:

1- A ligação entre a Administração Bush e a família real Saudita.
Ainda antes do 11 de Setembro, mas depois de elementos da CIA descobrirem que o atentado de 1993 na garagem do World Trade Center tinha sido financiado pela família real Saudita, bem como outras tentativas e planos de atentados nos EUA, a resposta da administração Bush foi: "Não espiamos os sauditas. São nossos amigos". Relembro que na altura os EUA espiavam fortemente os seus "amigos" europeus, por exemplo tentando benificiar os negócios em que a Boeing competia com a Airbus (aqui a lista de empresas europeias que foram objecto de espionagem, secção 10.7).
Obviamente, todos nos perguntamos porque é que a família real saudita não é considerada terrorista, tal como a Al-Qaeda, o Irão, a Síria, o Hamas, o Hezbollah e Saddam. O problema é que tal como explicaram estes ex-agentes a Administração Bush está enterrada até às orelhas em petróleo saudita: Bush pai, Bush filho, Cheney e muitas das outras figurinhas secundárias de extrema-direita desta Administração. Todos estiveram ou estão envolvidos em negociatas envolvendo empresas petrolíferas com ligações a financiamento de campanhas e negócios de armas. Podemos pois concluir que só são considerados terroristas aqueles que não fazem negócios com a Administração Bush.

2 - A degradação dramática da CIA após o fim da Guerra Fria.
Os ex-agentes da CIA e da FBI foram unânimes na forte degradação que sofreram as respectivas agências depois do fim da Guerra Fria. A informação não circulava entre as duas agências, Clinton não simpatizava muito com os serviços secretos e a velha rivalidade entre a CIA e o FBI ainda piorava as coisas. Não é de estranhar que o aviso de que o 11 de Setembro estava a ser preparado tenha vindo de fora, de outros serviços secretos: da Alemanha, da França, do Egipto e de Israel. Por exemplo o dossier de Zacarias Moussaoui que os serviços secretos franceses transmitiram à delegação do FBI em Paris no início de 2001 nunca chegou às mãos do FBI nos EUA.

Nota sobre Vasco Graça Moura
Quem viu este excelente documentário ficou suficientemente informado para perceber que este artigo de Vasco Graça Moura é um chorrilho de asneiras de uma ponta à outra, não se aproveita nada.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Relembrando as tretas de V. G. Moura

V.G. Moura escreveu dia 2 de Agosto:
"A Europa não está em condições de se defender eficazmente contra o terrorismo. (...) Quando muito, a Europa consegue prevenir algumas acções e lá vai identificando e capturando ex-post uns responsáveis pelos atentados de Madrid e de Londres"

Bastaram 10 dias para a realidade liquidar as tretas que V.G. Moura vai escrevendo cronicamente sobre este assunto. Como já tinha referido antes, foi na Europa, ainda em 2000, que o primeiro atentado da Al-Qaeda foi desmantelado pelas polícias alemã e francesa em Estrasburgo. A probabilidade de V.G. Moura sofrer com o atentado de Estrasburgo estava longe de ser nula, visto que na altura já era eurodeputado e frequentava a cidade regularmente...

segunda-feira, agosto 14, 2006

Bons (mas raros) programas na RTP

Estas últimas semanas registei alguma boa programação na RTP, nomeadamente as séries Dresden e Tempestade, ambas alemãs, bem como uma série documentário sobre a corrida para espaço entre Korolev e Von Braun e uma interessante série sobre a emigração portuguesa. Julgo até, que esta série em vez de ser transmitida na Dois tarde e a más horas, deveria passar em horário nobre na RTP1 dada a importância da emigração na nossa história recente. Alguns portugueses muito incomodados com a recente vaga imigrantes chegados Portugal (cerca de 300 mil) ficariam certamente melhor informados sobre a dimensão da nossa emigração (cerca de 5 milhões de portugueses), sobre os distúrbios e problemas que originou nos países de acolhimento e sobre a componente fortemente ilegal da nosso tipo de emigração, especialmente para a França, a Suiça e a Alemanha.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Alinhamento de leitura de jornais

Com todo o tempo do mundo para ler, durante as últimas semanas alinhei assim as minhas leituras de jornais:

Segunda: DN
Terça: Público
Quarta: Público
Quinta: Público
Sexta: Correio Internacional
Sábado: DN

Houve um dia em que troquei o Público pelo DN, irritou-me o aproveitamento do Público da morte de Jorge de Brito para fazer a primeira página.

quinta-feira, agosto 03, 2006

A polícia alemã salvou o coiro de V.G. Moura e ele não sabe

No final do ano 2000 a polícia alemã em conjunto com a polícia francesa desmantelaram uma célula da Al Qaeda que se preparava para fazer um atentado no mercado de natal e na sinagoga de Estrasburgo locais habituais de passagem de eurodeputados, tal como V.G. Moura, na altura a cumprirem mandato no PE. O agradecimento do referido eurodeputado às polícias referidas é este.

quarta-feira, agosto 02, 2006

A angústia de um bloguista longe da internet

Longe da internet resta-me imaginar posts que nunca escreverei. Todos os dias passo largos minutos a escrevê-los e até a corrigi-los na minha RAM cerebral. Escrevo sobre um estudo trapalhão publicado no DN sobre o nuclear, sobre Israel e o Líbano, sobre a Maria João Pires, sobre bons livros cronicamente não traduzidos para português, sobre o caos urbanístico do Algarve, sobre as aldeias do litoral alentejano, ainda relativamente intactas, mas viradas de costas para o mar, preferindo o porco ao fresquíssimo peixe do atlântico, preferindo o alcatrão da estrada nacional à excepcional natureza da região, enfim sobre esta democracia Kitsch que é Portugal.

PS- Um grande abraço a todos os que piscaram o olho aos 3 anos da Klepsýdra.

sexta-feira, julho 21, 2006

Três anos de delírios

A Klepsýdra agradece aos seus leitores três anos de visitas, de comentários, de reclamações, de irritações, de crítica, de aplausos e até de publicidade e de anúncios nas caixas de comentários. Estão à vontade para se servirem delas para encontrar o cão perdido, vender aquela máquina de lavar ferrugenta ou para anúncios coquins.

Klepsýdra Club House

06.00-06.30 - Monsieur Philippe Corti
05.30-06.00 - Oskar DJ
04.45-05.30 - Paul Van Dyk
03.00-04.45 - Plastikman (Richie Hawtin)
02.45-03.00 - Plastikman Warm Up - DJ Muxaxo
01.45-02.45 - Monika Kruse
00.45-01.45 - DJ Vibe
00.15-00.45 - Warm Up - Jack de Marseille


Abertura solene

00.00-00.15 - Discurso de Manoel de Oliveira, Mestre de Cerimónias das comemorações deste ano, intitulado: "Aos três anos já mergulhava de cabeça do tabuleiro superior da ponte D. Luís" .

Como o ano passado deixo-vos com uma faceta mais discreta deste vosso escriba: as noitadas. Para mim a dança é para aí o terceiro prazer da vida. A música electrónica está longe de ser o único tipo de música que me faz dançar, mas às horas a que a Klepsýdra faz anos não me resta alternativa.


Um abraço especial para os leitores da diáspora, de todos esses países onde se lê o que por aqui vai escorrendo na Klepsýdra:

2. Brazil 6636 6.4 %
3. Belgium 5392 5.2 %
4. United States 3807 3.7 %
5. France 1391 1.3 %
6. United Kingdom 1298 1.3 %
7. Germany 1296 1.3 %
8. Spain 1082 1.0 %
9. Switzerland 925 0.9 %
10. Italy 560 0.5 %
11. Netherlands, The 483 0.5 %
12. Luxembourg 401 0.4 %
13. Poland 312 0.3 %
14. Finland 287 0.3 %
15. Mozambique 248 0.2 %
16. Slovakia 153 0.1 %

quinta-feira, julho 20, 2006

Quadratura do Círculo: do melhor ao pior em 5 segundos

Cito de cor uma passagem do programa Quadratura do Círculo de ontem:

Jorge Coelho desabafava - Que saudades de Rabin!
Lobo Xavier - Eu diria antes, que saudades de Sharon! Foi ele que descolonizou a faixa de Gaza
Pacheco Pereira - Este [Ehud Olmert] também está a fazer um bom trabalho.
Lobo Xavier - Pois está!

Jorge Coelho não respondeu. Carlos Andrade devia estar distraído ou a contar os minutos e os segundos do alinhamento do programa, duvido que no seu estado normal deixasse passar este encadeamento bizarro de elogios que colocam no mesmo plano Rabin e indivíduos como Sharon ou Ehud Olmert.



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A Klepsýdra faz três anos dentro de algumas horas.
Vai haver bolachas com tulicreme e sumos Fruto Real com caricas do Homem-Aranha.

Israel a aumentar a popularidade do Hezbollah II

"Mesmo na zona da noite - que aqui não pára – dominada por jovens estilosos e raparigas de cabelo destapado e com roupa tão provocante como a de qualquer ocidental e no bairro cristão as bandeiras amarelas do grupo libanes [Hezbollah] dominam a paisagem. (...) Mas se um jovem laico e semi-ocidentalizado de uma cidade cosmopolita e multi-religiosa como Damasco tem neste momento como heróis os lideres do "Partido de Deus", imagine-se o que se passa em mais sombrias paragens."

Lido no Arrastão, escrito em Damasco pelo Daniel Oliveira

terça-feira, julho 18, 2006

sobre Israel

Fico enjoado de ler tanta crónica repetida, sem nada de novo, sobre a situação em Israel e no Líbano. Aconselho a leitura deste texto do Luís Januário. Não concordo com tudo, especialmente a última frase, mas tem o mérito de ser um comentário muito interessante e escrito da sua própria cabeça.

Ver este cartoon (não é dinamarquês) sobre o mesmo assunto.

segunda-feira, julho 17, 2006

The Road to Guantanamo

Não acredito na justificação para a viagem ao Afeganistão dada pelo grupo de britânicos de origem paquistanesa que fazem a história de "The Road to Guantanamo". A desculpa do casamento ainda escapa, mas o resto... poupem-me! Tenho em mim que a ideia inicial de Shafiq e companhia era no mínimo mandar uns pedregulhos contra uns blindados americanos que lhes aparecessem pela frente, mas a coisa correu muito mal. O Afeganistão é bastante diferente da sua Birmingham natal e rapidamente foram apanhados num turbilhão de refugiados e de combatentes que ultrapassava a sua compreensão. O seu desespero era tal que a sua captura pelo exército americano constituiu um efémero momento de alívio.

Mesmo que esta fosse a verdadeira justificação da sua viagem ao Afeganistão, isto nunca faria de Shafiq e companhia um grupo de terroristas e muito menos justificaria o tratamento animalesco que sofreram em Guantanamo.

Em Guantanamo tudo é chocante. E o mais chocante nem é essa tortura animalesca, humilhante, desproporcionadamente ridícula, sádica, vingativa, sobretudo vingativa, que despe homens da sua intimidade, expondo a sua mente e os seus corpos aos olhares de todos os presentes e às picadas dos escorpiões venenosos que por ali vagueavam. O sádico nome atribuído ao primeiro dos campos de prisioneiros designado X-Ray (já encerrado), era isso mesmo, era um raios X completo ao corpo e ao espírito. Um em cada seis detidos de Guantanamo sofre de graves problemas psicológicos. O mais chocante de Guantanamo é percebermos que a administração que governa hoje um país que foi um dos pioneiros da democracia como a conhecemos hoje, demonstrar, ali naquele lugar, que não acredita nessa mesmo democracia, que confunde vingança com justiça, que faz chacota do estado de direito. Em X-ray, Iguana, Camp Delta e Camp 4 a tortura é um modo de vida e não apenas quaisquer duas horas de pancadaria diária num gabinete escuro de um regime policial ou militar, ali a tortura é permanente, é a incerteza de saber se algum dia se será julgado, se algum se será condenado, , se algum dia será preciso cumprir uma pena de prisão, é aquilo a que Bernard-Henri Lévy chamou muito acertadamente de Incerteza Metódica. A inquietude permanente provocada pela ausência de horizontes aliada à frieza de uma tortura meticulosamente organizada é uma velha fórmula conhecida para matar por dentro aqueles que não se podem matar de formas mais convencionais.

domingo, julho 16, 2006

Israel a aumentar a popularidade do Hezbollah

O resultado prático de maior impacto da resposta musculada de Israel em Beirute é o de aumentar imensamente a popularidade do Hezbollah, numa zona do Médio Oriente ainda relativamente moderada e aberta. Parece que já se esqueceram dos grandes sucessos eleitorais recentes dos partidos islâmicos em toda a região.

quinta-feira, julho 13, 2006

O Mito do "Grupo" de Scolari

Na minha opinião só faz sentido falar em grupo, quando as prestações do conjunto de jogadores são superiores à soma das prestações individuais de cada um desses jogadores. Um exemplo típico é a selecção da Grécia, campeã europeia pelas mãos de Otto Rehhagel. Com um conjunto de valores futebolísticos secundários a nível europeu (onde estão a jogar os campeões europeus do Euro2004?), Otto construiu uma equipa campeã.
A maior virtude apontada a Scolari é a capacidade de formar um grupo (já que a estratégia e a táctica enfim...). Eu discordo. Acho que o caso de Scolari é o contrário do caso de Rehhagel. Scolari durante o europeu tinha o melhor conjunto de individualidades e nas duas partidas contra a Grécia, a soma dessas individualidades foi inferior a uma equipa de pés quadrados. Acabado o Mundial, pareceu-me existirem apenas duas equipas mais bem recheadas de valores individuais que Portugal: a França e o Brasil. A Itália, a Argentina e a Inglaterra eram as equipas do nosso pelotão. De todos estas equipas apenas a Itália conseguiu fazer render a equipa para lá dos seus valores individuais, e é isso que eu entendo como um verdadeiro grupo. Outras selecções com conjuntos acima das suas individualidades foram a Austrália, a Alemanha e a Suiça (que não sofreu nenhum golo).

Se houveram treinadores nos últimos 20 anos que formaram verdadeiros grupos eles foram: José Maria Pedroto, Carlos Queiroz e José Mourinho. O trabalho de Carlos Queiroz nas camadas jovens foi brilhante, partindo literalmente do zero, Queiroz descobriu talentos dispersos pelo país, numa altura em que não existia qualquer tradição de trabalho no futebol juvenil e em que pouca atenção se dava à selecção. O grupo de Queiroz, campeão do mundo júnior por duas vezes, foi apelidado mundialmente como a Geração de Ouro.

Pedroto tirou o FC Porto de um jejum de vitórias de 20 anos e construiu um grupo que se viria a sagrar Campeão Europeu de clubes pelas mãos de Artur Jorge.

O trabalho de Mourinho ainda está fresco na memória dos portugueses, Mourinho construiu um grupo repescando Maniche à equipa B do Benfica, Nuno Valente e Derlei ao União de Leiria, Paulo Ferreira ao Setúbal, recuperando o capitão Jorge Costa - já não prestava para Octávio - colocando Baía de novo no topo do futebol mundial e aproveitando a qualidade já existente no plantel do Porto: Ricardo Carvalho, Deco, Costinha e McCarthy. As duas vitórias consecutivas em competições europeias foram o corolário de um excelente trabalho, bem estruturado e sistemático.

A mim parece-me evidente que o trabalho mais positivo de Scolari foi em larga medida surfar neste grupo que lhe foi oferecido por Mourinho. Digo surfar; apanhar a onda e não trabalhar ou desenvolver. Mas, curiosamente Scolari só começou a surfar neste grupo após a primeira derrota com a Grécia, acabando depois por seguir aquela que era a opinião de 95% dos comentadores de futebol. O verdadeiro grupo de Scolari, aquele que Scolari constituiu de mau resultado em mau resultado até essa primeira derrota com a Grécia, está imprimido nos números das camisolas da selecção, que ele atribuiu meticulosamente de 1 a 11 tal como tinha feito com a selecção brasileira campeã do mundo: 1- Ricardo; 2- Paulo Ferreira; 3- Rui Jorge; 4- Jorge Andrade; 5- Fernando Couto; 6- Costinha; 7-Figo; 8- Petit; 9- Pauleta; 10- Rui Costa; 11- Simão. Era este grupo de Scolari. Ricardo Carvalho era o 16, Miguel o 13, Nuno Valente o 14, Deco o 20, Cristiano o 17 e Maniche o 18. A vergonha da derrota no jogo inaugural fê-lo tomar a atitude mais inteligente que teve durante os 4 anos de seleccionador e mudou tudo, mudou para a estrutura de Mourinho à qual foram adicionadas as estrelas da companhia. No entanto aqueles números que vão do 13 ao 20 ficarão na história como um amargo sapo que Scolari teve que engolir e o fim do genuino grupo de Scolari.

Últimas de Vénus


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segunda-feira, julho 10, 2006

Scolari: dar voz à reacção (caixa de comentários)

"Tens razão quando apontas alguns erros do Scolari. É óbvio que o treinador não é nenhum grande teórico da bola e aqueles que como eu acompanham seu desempenho desde os tempos do Palmeiras, sabem que as suas equipas tem sempre o mesmo estilo: Futebol feio, duro a roçar a violência, muita manha em campo e acima de tudo uma entrega quase total dos jogadores.
Mas sejamos claros: O homem é um vencedor e a sorte não pode explicar tudo. Por onde passa triunfa e se há quatro anos podemos atribuir à excelência dos jogadores brasileiros o título, o mesmo não pode ser feito com a actual selecção nacional.
Com qualquer outro treinador - à excepção de Mourinho - Portugal teria chegado quando muito às oitavas-de-final. Basta nos lembrarmos do que se passou há quatro anos, quando com uma equipa individualmente mais forte, a selecção naufragou.
Por mais que nos custe, a psicologia de almanaque de Filipão funciona. O homem consegue convencer até os pernas-de-pau que são grandes jogadores e que podem vencer. E os tipos superam-se.
Não gosto desta forma de encarar o futebol - sou um fã de Telê Santana! - mas rendo-me às evidências. No caso de um futebol mediocre como português não há alternativas.
Ou jogamos assim e ganhamos umas coisinhas, ou vamos para o tete-a-tete e levamos ensaboadelas como em 1986 ou 2002!
"
Alexandre Monteiro

A reacção azul (ao que isto chegou...)
"Estou de acordo com algumas coisas... Mas outras estou em completo desacordo...
Não acredito que se possa ter tanta sorte... Alguma coisa há-de o Scolari saber...
2º O comentário apesar de ser lógico e objectivo não tem em conta em evolução do futebol... nos últimos anos.
3º Não vi a França e a Alemanha a fazerem melhor!!! A vitória da Alemanha contra Portugal foi devida à inspiração de um jogador..."

Homem das Neves

Scolari: 365 minutos sem marcar um golo até ao 4° lugar

Aviso à navegação antes de lerem o texto que se segue:
1- Não nutro qualquer simpatia por Pinto da Costa, qualquer comentário que me ligue a essa figura será pura e simplesmente ignorado;
2- Considero um 4° lugar num campeonato do mundo um resultado muito bom;
3- O futebol é um jogo, não é uma catástrofe natural, nem uma guerra, nem um despedimento colectivo, por isso aviso já que não respondo a comentários raivosos.



Joguei mais de uma dezena de anos basquetebol, tive grandes treinadores e também tive maus treinadores, por isso não é um trapalhão como Scolari que me vai deslumbrar.

Erros Básicos de Scolari
- Um treinador que não é capaz de formar uma equipa com os melhores jogadores, não deve ser treinador, deve fazer outra coisa qualquer.

- Fazer jogos de preparação apenas contra equipas modestas (Cabo Verde e Luxemburgo), não só é redundante como não permite qualquer treino táctico e estratégico para defrontar equipas do mesmo nível ou superior. Quem praticou desportos colectivos sabe perfeitamente que estes jogos são aproveitados para dar asas ao individualismo, para fazer aquela jogada de sonho, para se bater aquele record pessoal e a recompensa de motivação colectiva que proporcionam pode por vezes traduzir-se num perigoso excesso de confiança.

- A disciplina trabalha-se no início da época e não no decorrer da fase final de uma competição, quando existe já um clima de excitação. O mau comportamento na selecção já vem dos Jogos Olímpicos onde Cristiano já apresentara mau comportamento, onde Boa Morte e Hugo Viana foram expulsos, ficando a expulsão deste último a dever-se a Ricardo Costa. Como desde então nada foi feito para disciplinar estes jogadores, assim que começaram as primeiras provocações ao Cristiano, não houve capacidade para travar a onda de indisciplina.

- Não se deve divulgar a formação de uma equipa um dia antes da partida durante uma grande competição como um campeonato da Europa. Scolari fê-lo duas vezes, e as duas vezes saiu derrotado contra a Grécia. Isto não quer dizer que perdemos exclusivamente por esse motivo, quer dizer sim que a probabilidade de se perder um jogo aumenta quando se oferece a composição da equipa ao adversário.

Os números mais significativos deste Mundial
- 4° lugar.

- Balanço de golos: 7-5 em 7 jogos
Na péssima campanha de 2002 foi de 6-4 em 3 jogos. No Mundial de 1966 de 17-8 em 6 jogos. Reparem que a prestação da equipa de Scolari está muito próxima da desastrosa campanha de 2002 que durou apenas 3 jogos e está a léguas da brilhante campanha de 66. Aliás o vergonhoso Holanda-Portugal parecia tirado a papel químico do Coreia-Portugal: duas expulsões, muita indisciplina (um Figo com atitudes nunca vistas), bolas no ferro decisivas (a de Sérgio Conceição correu mal e a de Kuyt correu bem para nós) e o erro de esgotar as substituições tirando Pauleta ficando Portugal sem pontas-de-lança para um possível prolongamento.

- Portugal bateu o record de 365 minutos sem marcar golos (Maniche aos 23' contra a Holanda até Nuno Gomes aos 88') e de cerca de 250 minutos sem uma ocasião perigosa.

A análise destes números não resiste à conclusão de que o resultado foi muito melhor do que o trabalho desenvolvido. O futebol é um desporto que possui uma componente aleatória importante, essa incerteza contribui em muito para a sua beleza. O trabalho principal de um treinador é diminuir tanto quanto possível essa componente aleatória e controlar o máximo possível os outros aspectos do jogo. Estes números mostram claramente que Scolari andou a jogar à roleta russa com a selecção. A roleta foi-nos favorável até às meias-finais. Mas se é um jogador de roleta que se pretende para dirigir a selecção podemos ir buscar o treinador dos Dragões Sandinenses, na Taça de Portugal o homem tem tido mais sorte e não tem estrelas na equipa como o Figo ou o Cristiano.

Trapalhada Estratégica e Táctica
A estratégia de Portugal na campanha para este mundial mostrou a bizarria de uma equipa que joga no mesmo esquema 4-5-1 (com os laterais a subirem) quer o adversário seja o Lieschtenstein, quer seja a França! Portugal nunca ensaiou a utilização de dois pontas-de-lança, excepto a 10 minutos do fim contra a França (Postiga e Meira avançado) quando perdíamos 1-0 e a 20 minutos do fim contra a Alemanha (Pauleta e N. Gomes) durante apenas 8 minutos quando perdíamos 2-0. Como esta situação nunca foi antes ensaiada não deu qualquer resultado.
Em termos tácticos vimos duas estrelas como Figo e Ronaldo serem colocados em autênticos beco-sem-saída, a correrem das pontas para o meio, mas sem ligação ao ponta-de-lança Pauleta, que se encontrava tão isolado como a ilha do Corvo. Scolari foi o principal responsável pelo seu fraco rendimento. Ao Cristiano restava o remate muito raramente efectuado em boas condições. Foi o 4° mais rematador, os 21 remates para zero concretizações diz bem do seu estatuto de beco-sem-saída na equipa de Scolari.
As substituições de Scolari foram surrealistas. Duas vezes Pauleta saiu para dar lugar a Simão (Inglaterra e França), passando o Cristiano a ponta-de-lança, para 10 a 15 minutos mais tarde, e sem qualquer resultado, entrar uma das cunhas de Scolari: Hélder Postiga. Pior só a já referida substituição de Pauleta contra Holanda, onde corremos o risco de ir para prolongamento sem ponta-de-lança e em desvantagem numérica.

(Continua com o Mito do "Grupo")

domingo, julho 09, 2006

75% pela Itália e 25% pela França

Adorava ver o Luca Toni a fazer aquele gesto "Avete capito?" várias vezes. Canavarro, Zambrotta, Pirlo e Gattuso estão a jogar um futebol de campeões e não acho nada que o futebol que a Itália tem apresentado seja feio ou cínico, note-se bem que os italianos já fizeram abanar as redes adversárias por 11 vezes. No entanto, durante a final de hoje poderei ceder o meu apoio à selecção francesa, no caso do Thierry Henry estar num daqueles dias infernais. Se jogarem, Govou e Trezeguet também me poderão fazer mudar de campo, tal como Ribery, se comemorar um golo da mesma forma como o fez contra a Espanha (o homem parecia possesso).

Do ponto de vista pessoal tenho dificuldade em apoiar uma ou outra selecção. Vivi e tenho bons amigos nos dois países, de Itália gosto da simpatia das pessoas, da gastronomia e do culto da beleza e da estética, de França gosto daquele serviço público que é apenas o melhor do mundo - excelentes universidades e hospitais quase gratuitos - gosto da escolha e da produção cultural sem paralelo no resto do planeta e gosto do papel de guardiã da independência política da Europa. Em Itália acho pouca piada à desorganização geral e à forma como conduzem nas estradas, em França acho ainda menos piada ao clima social das grandes cidades e o desleixo político (tanto da esquerda como da direita) com que se tem gerido o problema.

PS- Escreverei muito em breve as prometidas linhas sobre Scolari

sábado, julho 08, 2006

O fim do melhor talk show do mundo

De "Tout le Monde en Parle" (Sábado 21:50, France 2) disse aqui várias vezes que seria provavelmente o melhor talk show do mundo. Hoje por decreto Klepsýdra saca-se o provavelmente. E porquê? Porque é o único talk show de verdadeira dimensão mundial, onde foi possível a confrontação entre neo-conservadores americanos e esquerditas franceses, entre conservadores franceses e progressistas americanos, onde a banlieu se esgrimiu de argumentos com alguns dos mais notáveis políticos franceses, onde grandes figuras pertencentes a instituições internacionais como a ONU, a UE, a AIEA debateram com activistas das mais variadas áreas desde o Greenpeace à Opus Dei, passando por organizações gay ou associações de vítimas de atentados terroristas. Passaram pelo plateau de "Tout le Monde en Parle" ex-agentes da Mossad, da CIA, do KGB, astronautas e cosmonautas, estrelas da indústria pornográfica, muitos prémios Nobel, impostores e sobretudo muitos escritores e muitos realizadores, o que há de melhor no mundo do livro e do cinema passou pelo crivo dos questionários de Thierry Ardisson.

Numa golpada a roçar a canalhice, muito ao estilo do que sucedeu ao programa Acontece de Carlos Pinto Coelho, uma decisão política mascarada de decisão administrativa expulsa Ardisson da France 2 a partir do corrente mês de Julho.

Todos sabemos o que se irá passar. Ardisson vai provavelmente descansar uns meses, mas quando voltar, onde Bernard-Henry Lévy ou Christine Angot apresentarão os seus novos livros, o primeiro plateau de televisão onde Jodie Foster ou 50 Cent colocarão os pés assim que chegarem à Europa, onde os maiores neo-conservadores americanos virão esconjurar a Europa, onde os mais progressistas escritores do Magrebe virão gozar da liberdade de expressão que lhes é negada, onde Ovidie virá fazer a apologia da filmografia pornográfica para mulheres será no novo programa de Thierry Ardisson, independentemente do canal ou da hora.

Alguns dos ilustres convidados da última emissão:
Frédéric Beigbeder, Charlotte Gainsbourg, Yvan Attal, Jamel Debbouze, Bernard Tapie, Jean-Marc Lavoine e ... (só para clientes habituais) o DJ, o grande, o mega-banco: Monsieur Philippe Corti!

quinta-feira, julho 06, 2006

Dedicar o golo à mãe, essa instituição italiana

A forma como Fabio Grosso comemorou o golo contra a Alemanha (foto FIFA) fez lembrar em tudo, o mesmo gesto aquando do golo de Tardelli contra a mesma Alemanha na final de 82. O José Mário Silva também topou a semelhança. Na altura, em plena euforia, enquanto comemorava o golo, Tardelli berrou "maammaaa maammaaa", ensaiando uma expressão facial que fazia lembrar um bebé chorão a precisar de colo urgentemente. Não consegui perceber se Fabio Grosso também gritou pela mãe quando marcou o golo de passada terça, mas o gesto foi tão semelhante que desconfio que havia ali uma figura feminina para o colo da qual Fabio corria. Outro grande jogador que grita pela mãe que nem um perdido ao comemorar um golo é Filippo Inzaghi. Quem observa a forma como Inzaghi vive os jogos, com aquele fervor fora de comum, entrando a fundo em todas as jogadas, percebe que há uma figura feminia forte na mente do jogador, que o faz jogar mais do que as pernas deixam. Embora Inzaghi seja o expoente máximo desta forma de viver o jogo, uma boa parte dos grandes jogadores italianos jogam para a mãe, ou para a namorada, ou para uma bella donna que os observa na bancada ou na televisão. Aprecio o charme desta forma quase primitiva de viver o futebol, esse moderno e popular substituto da caça dos tempos em que errávamos na estepe. Nesses tempos também caçávamos para elas, sobretudo para elas.

quarta-feira, julho 05, 2006

Move On... mas nada broches!

"Je suis au siège de ce fameux MoveOn.org (...) Or cela veut dire quoi "moveon"? Et cela fait, concrètement allusion à quoi? C'est simple me répond Joan Blades. Nous sommes em 1999. En pleine affaire Lewinsky. Et nous sommes tellement choqués (...) que nous consacrons toutes nos forces, notre temps, nos ressources, à lancer le slogan dont l'énonce complet est, non pas "Move On", mais "Censure and Move On" - soit, si vous préférez, "censurez" le Président Clinton et "avancez" vers les vrais problèmes urgents auxquels la nation doit faire face...

J'ai bien entendu. Je fais répéter mais j'ai parfaitement entendu. L'idée, à ce moment-là, est de briser le piège républicain mais de censurer aussi dans le même mouvement, le Président démocrate. (...) Je suis dans le temple du radicalisme américain. Je suis au contact de ce qui se fait de plus avancé en matière de nouvelle gauche. (...) Or ce qu'ils nous disent, ces militants, ce qu'ils affichent dans l'intitulé même de leur mouvement, c'est que Clinton fut à peine moins coupable que ses persécuteurs; c'est que la péché les a, à l'époque, autant choqués que l'impeachment; ils auraient pu, ces esprits éclairés, estimer que cette affaire de "tache" était une non-affaire; ils auraient pu clamer que la sexualité d'un Président relevait de sa seule vie privée; mais non; ils ont choisi d'en appeler dans le même geste à "avancer" et "censurer" le Président libertin (...) - et cela, pour un Européen est proprement stupéfiant. (...) Moralisme... Puritanisme... Confusion de règnes, qu'une démocratie digne de ce nom sépare, de la politique et de l'éthique... Volonté de pureté... Rigorisme et transparence érigés en impératifs catégoriques..."


"American Vertigo", Bernard-Henry Lévy, Grasset, pag 141-143, 2006.

Eyes wide shut

A ler no 1BsK esta excelente análise daquele que eu considero ser o melhor filme de Kubrick depois de "Dr. Estranho-Amor", o sublime "Eyes Wide Shut".

terça-feira, julho 04, 2006

Aq. Global: a teoria dos triângulos de estabilização

Uma das teorias mais interessantes para controlar as alterações climáticas a médio/longo prazo (~ 2050), é a teoria dos triângulos de estabilização. Esta teoria desenvolvida por Pacala e Socolow da Universidade de Princeton já faz parte de uma iniciativa apelidada de Carbon Mitigation Initiative, patrocinada pela Ford e pela BP. O objectivo dos autores é propor uma série de medidas capazes de controlar as alterações climáticas em curso utilizando apenas soluções baseadas em tecnologias existentes. De modo a que em 2050 as emissões de gases de efeito de estufa se mantenham a níveis actuais, Pacala e Socolow enunciam que basta subtrair 7 triângulos de estabilização entre os 15 que propõem para se atingir esse objectivo. A linha acima da área a verde é a curva estimada pelos autores no cenário do "deixa andar". No gráfico B, são subtraídos sete triângulos a essa curva obtendo-se aproximadamente a curva que delimita a área a azul e que corresponde aos níveis de emissões actuais. Cada um dos triângulos corresponde a cada uma das medidas que poderão ser aplicadas utilizando apenas tecnologias actuais. A tabela 1 enumera os 15 potenciais triângulos que vão desde a utilização de veículos de transporte mais eficientes até a uma prática agricula que minimize o lavrar da terra (o que liberta uma quantidade considerável de carbono para a atmosfera).

Na prática o que Pacala e Socolow nos dão a entender é que temos de mudar radicalmente o nosso modo de vida se não quisermos pagar uma pesadíssima factura tanto do ponto de vista económico, como em vidas humanas, se a nossa atitude perante as alterações climáticas for a do "deixa andar".

segunda-feira, julho 03, 2006

Azevedo n°1 da Volta à França

Um interlúdio velocipédico no delírio futebolístico que tomou de assalto nosso país:

O nosso José Azevedo partiu com o honroso dorsal n°1 da mais prestigiosa prova de ciclismo do mundo. Como andam na moda os "records" e os feitos inéditos desde há não sei quantos anos, aproveito para informar que este é um feito que não acontecia no nosso país há quase 900 anos...

La femme d'à côté

Quando François Truffaut assistiu a um encontro entre Gerard Depardieu e Fanny Ardant, exclamou: "voilà les amants qu’il me faut". Foi assim pura obra do acaso a escolha de dois actores sem os quais "La femme d'à côté" nunca seria a obra-prima que é.
A história de "La femme d'à côté" centra-se sobre as personagens de Bernard (Depardieu) e de Mathilde (Fanny Ardant), personagens essas que viveram no passado uma história de amor muito intensa que findou numa separação violenta. O destino quis que se encontrassem mais tarde, quando Mathilde e o novo marido vão viver para a casa mesmo ao lado da casa onde vive Bernard e a sua mulher. O clima de tensão resultante de uma separação mal resolvida instala-se rapidamente. Entre o medo e o desejo, entre a moral e a transgressão, a sensual voz de Fanny parece um presságio para tudo o que vai ocorrer a seguir...

domingo, julho 02, 2006

O frenesim anti-europeísta de Luciano Amaral

Leiam primeiro este artigo do Luciano Amaral.

O anti-europeísmo do autor já era sobejamente conhecido, mas desta vez a ansiedade e o frenesim de atacar a Europa a qualquer custo fez o autor espalhar-se ao comprido como já não se via há muito em artigos publicados na imprensa nacional. É verdade que o articulista teve azar. Mal o artigo saiu para as bancas, o Supremo Tribunal dos EUA tomou uma decisão que se poderia classificar no mínimo como irresponsáveis atitudes europeias face aos EUA, isto utilizando palavras do próprio autor. Obviamente que estamos todos a imaginar os 5 magistrados americanos que votaram a decisão equipados de keffieh e de boina à Che. O problema é que os EUA são um país mais democrático do que o Luciano Amaral e George W. Bush gostariam.

Depois o artigo tem passagens como esta:
"Bush afirmou não se importar de fechar Guantánamo, embora antes fosse preciso saber o que fazer com aqueles 500 prisioneiros, que ninguém quer propriamente ver por aí à solta."

Claro, só Guantánamo pode reter 500 prisioneiros daqueles. Estes Jordanos, Paquistaneses, Tunisinos, etc. do piorio, piores que o supervilão magneto da Marvel, são tipos para dobrar as barras de aço de uma prisão de um regime democrático só com o poder da mente, realmente só Guantánamo é que os impede de andar aí solta. Até porque os 0,7% da população americana que se encontra a cumprir pena de prisão é tudo malta branda, os cerca de 10 mil assassínios com armas de fogo anuais nos EUA é coisa sem significado.

Este é provavelmente o pior artigo do ano. Porquê? Leiam esta:
"Não se pode evidentemente dizer que tudo o que os EUA fazem é bem feito. Mas o que fazem tem a vantagem de corresponder a uma tentativa de utilizar os meios apropriados para aplicar uma política."

Este tipo de argumentos justificam tudo, desde o Gulag à Santa Inquisição.


Magneto, um dos 500 perigosíssimos prisioneiros de Guantánamo, dobra barras de metal com o pensamento e faz bolinhas com a boca. Não percam o próximo número: os super-heróis Luciano Amaral e George W. Bush vão parti-los todos!

sábado, julho 01, 2006

O gesto que faltava no Mundial



A comemoração de golo à moda do Luca Toni (foto FIFA). O significado do gesto é "Avete capito?" e resulta de uma brincadeira que fazia com um amigo de infância nos tempos em que jogava futebol na rua.
Outro comemorador de golos que aprecio é Thierry Henry. O homem marca golos dos mais empolgantes que se possam imaginar, com grandes arranques, mudanças de velocidade estonteantes e remates fulminantes e quando surge o momento de comemorar do golo Henry limita-se a apreciar o delírio do público através um olhar simultaneamente sério e sarcástico. É um senhor!