segunda-feira, agosto 21, 2006

O Médio Oriente e a Europa

Tinha este post entalado há três semanas.
Recomendado também pelo Bruno do Avatares, um bom texto crítico de Tomothy Ash sobre as responsabilidades da Europa em Israel e no Médio Oriente.

Resposta a JPP: Israel ganhou todas as guerras...

No Abrupto é colocada a seguinte questão:

QUEM “GANHOU” A GUERRA ENTRE ISRAEL E O HEZBOLLAH?

A minha resposta é: Israel ganhou todas as guerras em que participou até hoje, inclusive esta. E se nos lembrarmos bem, no passado Israel ganhou guerras de uma forma ainda mais categórica do que desta vez. E qual é o resultado dessas vitórias militares? Será que se traduziram sempre em vitórias políticas? Não, claro que não. A experiência mostra que ganhar guerras naquela região do mundo não basta e isso já muita gente neste planeta percebeu, inclusive em Israel. Os protestos em Israel contra a intervenção no Líbano não são tanto contra os ataques ao Hezbollah ou contra os danos colaterais, os protestos surgem porque aqueles israelitas, que conseguem manter o sangue frio para fazer uma leitura política moderada, sabem que mesmo ganhando ao Hezbollah, essa vitória não se traduz numa vitória política, sobretudo quando se bombardeia o Líbano a eito, como se o país de norte a sul fosse um feudo de terroristas. Esses Israelitas sabem bem que no rescaldo desta guerra o Hezbollah se reforçou em simpatizantes, militantes e activistas e mais cedo ou mais tarde tudo poderá recomeçar. Esta sim é a verdadeira vitória do Hezbollah. E este é um facto independente do sucesso ou insucesso da força internacional que será colocada no sul do Líbano. É isso que o texto de JPP deixa de fora, é de certa forma um erro semelhante ao que se está a pagar no Iraque.


Reparos à forma como JPP analisa o papel da França no conflito
JPP postula que a vitória de Israel vai depender "do modo como for aplicada a resolução da ONU, em particular do modo como for constituída a força internacional que controlará o sul do Líbano e o modo como esta actuará". Isto é quase sinónimo de afirmar que se tudo correr bem a vitória será mais da França do que Israel, se for a França o país responsável pela força da ONU. Eu sei que JPP não queria ir tão longe, mas é onde o seu raciocínio nos leva.

Depois vale a pena analisar este parágrafo:
"...pode ser uma rara oportunidade para a França (e por interposta França para a UE) assumir um papel positivo na região, onde só tem tido um papel muito negativo, em particular pelas ambiguidades da sua política face ao conflito iraquiano."

Os Franceses e todos os que estão minimamente atentos às manobras internacionais que pretendem fazer da União Europeia um cão de companhia dos EUA, sabem que o sul do Líbano poderá ser aproveitado para preparar uma armadilha à França. Não será difícil fazê-lo, o historial de terrorismo dos EUA no Líbano é reputado - no caso do Líbano o sentido da palavra é realmente adequado, os EUA organizaram atentados à bomba que mataram dezenas de civis nos anos 80. Por isso quando se refere "por interposta França para a UE" está-se a dizer duas coisas: 1) o fracasso de um país membro, é o fracasso de toda a UE. O que levanta uma pergunta: o fracasso do Reino Unido ou da Polónia no Iraque serão também um fracasso da UE? 2) a política externa francesa é igual à da UE. O que é falso, infelizmente. Não seria uma política perfeita mas seria bem melhor do que a actual política da UE.
Finalmente, quando JPP refere que a França "só tem tido um papel muito negativo" na região "pelas ambiguidades da sua política face ao conflito iraquiano", JPP está a falar para os devotos da religião USA, para a tribuna dos fanáticos, tenho a certeza que o próprio JPP não acredita no que escreveu. Se não seria muito estranho que os países da região sugerissem a França para formar a força da ONU. Porque é que os ingleses e os americanos não vão para lá? Não é por problemas logísticos, certamente. Sabemos o que aconteceria: Iraque II.

sexta-feira, agosto 18, 2006

"Não espiamos os Sauditas. São nossos amigos"

Quem assistiu ao documentário "CIA, guerres secrètes" emitido pelo canal ARTE (pode ser adquirido aqui em DVD ou aqui em VOD) e ouviu as declarações de dezenas de ex-agentes da CIA e do FBI percebeu claramente dois factos relevantes que condicionaram fortemente a política americana de combate ao terrorismo nos últimos anos:

1- A ligação entre a Administração Bush e a família real Saudita.
Ainda antes do 11 de Setembro, mas depois de elementos da CIA descobrirem que o atentado de 1993 na garagem do World Trade Center tinha sido financiado pela família real Saudita, bem como outras tentativas e planos de atentados nos EUA, a resposta da administração Bush foi: "Não espiamos os sauditas. São nossos amigos". Relembro que na altura os EUA espiavam fortemente os seus "amigos" europeus, por exemplo tentando benificiar os negócios em que a Boeing competia com a Airbus (aqui a lista de empresas europeias que foram objecto de espionagem, secção 10.7).
Obviamente, todos nos perguntamos porque é que a família real saudita não é considerada terrorista, tal como a Al-Qaeda, o Irão, a Síria, o Hamas, o Hezbollah e Saddam. O problema é que tal como explicaram estes ex-agentes a Administração Bush está enterrada até às orelhas em petróleo saudita: Bush pai, Bush filho, Cheney e muitas das outras figurinhas secundárias de extrema-direita desta Administração. Todos estiveram ou estão envolvidos em negociatas envolvendo empresas petrolíferas com ligações a financiamento de campanhas e negócios de armas. Podemos pois concluir que só são considerados terroristas aqueles que não fazem negócios com a Administração Bush.

2 - A degradação dramática da CIA após o fim da Guerra Fria.
Os ex-agentes da CIA e da FBI foram unânimes na forte degradação que sofreram as respectivas agências depois do fim da Guerra Fria. A informação não circulava entre as duas agências, Clinton não simpatizava muito com os serviços secretos e a velha rivalidade entre a CIA e o FBI ainda piorava as coisas. Não é de estranhar que o aviso de que o 11 de Setembro estava a ser preparado tenha vindo de fora, de outros serviços secretos: da Alemanha, da França, do Egipto e de Israel. Por exemplo o dossier de Zacarias Moussaoui que os serviços secretos franceses transmitiram à delegação do FBI em Paris no início de 2001 nunca chegou às mãos do FBI nos EUA.

Nota sobre Vasco Graça Moura
Quem viu este excelente documentário ficou suficientemente informado para perceber que este artigo de Vasco Graça Moura é um chorrilho de asneiras de uma ponta à outra, não se aproveita nada.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Relembrando as tretas de V. G. Moura

V.G. Moura escreveu dia 2 de Agosto:
"A Europa não está em condições de se defender eficazmente contra o terrorismo. (...) Quando muito, a Europa consegue prevenir algumas acções e lá vai identificando e capturando ex-post uns responsáveis pelos atentados de Madrid e de Londres"

Bastaram 10 dias para a realidade liquidar as tretas que V.G. Moura vai escrevendo cronicamente sobre este assunto. Como já tinha referido antes, foi na Europa, ainda em 2000, que o primeiro atentado da Al-Qaeda foi desmantelado pelas polícias alemã e francesa em Estrasburgo. A probabilidade de V.G. Moura sofrer com o atentado de Estrasburgo estava longe de ser nula, visto que na altura já era eurodeputado e frequentava a cidade regularmente...

segunda-feira, agosto 14, 2006

Bons (mas raros) programas na RTP

Estas últimas semanas registei alguma boa programação na RTP, nomeadamente as séries Dresden e Tempestade, ambas alemãs, bem como uma série documentário sobre a corrida para espaço entre Korolev e Von Braun e uma interessante série sobre a emigração portuguesa. Julgo até, que esta série em vez de ser transmitida na Dois tarde e a más horas, deveria passar em horário nobre na RTP1 dada a importância da emigração na nossa história recente. Alguns portugueses muito incomodados com a recente vaga imigrantes chegados Portugal (cerca de 300 mil) ficariam certamente melhor informados sobre a dimensão da nossa emigração (cerca de 5 milhões de portugueses), sobre os distúrbios e problemas que originou nos países de acolhimento e sobre a componente fortemente ilegal da nosso tipo de emigração, especialmente para a França, a Suiça e a Alemanha.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Alinhamento de leitura de jornais

Com todo o tempo do mundo para ler, durante as últimas semanas alinhei assim as minhas leituras de jornais:

Segunda: DN
Terça: Público
Quarta: Público
Quinta: Público
Sexta: Correio Internacional
Sábado: DN

Houve um dia em que troquei o Público pelo DN, irritou-me o aproveitamento do Público da morte de Jorge de Brito para fazer a primeira página.

quinta-feira, agosto 03, 2006

A polícia alemã salvou o coiro de V.G. Moura e ele não sabe

No final do ano 2000 a polícia alemã em conjunto com a polícia francesa desmantelaram uma célula da Al Qaeda que se preparava para fazer um atentado no mercado de natal e na sinagoga de Estrasburgo locais habituais de passagem de eurodeputados, tal como V.G. Moura, na altura a cumprirem mandato no PE. O agradecimento do referido eurodeputado às polícias referidas é este.

quarta-feira, agosto 02, 2006

A angústia de um bloguista longe da internet

Longe da internet resta-me imaginar posts que nunca escreverei. Todos os dias passo largos minutos a escrevê-los e até a corrigi-los na minha RAM cerebral. Escrevo sobre um estudo trapalhão publicado no DN sobre o nuclear, sobre Israel e o Líbano, sobre a Maria João Pires, sobre bons livros cronicamente não traduzidos para português, sobre o caos urbanístico do Algarve, sobre as aldeias do litoral alentejano, ainda relativamente intactas, mas viradas de costas para o mar, preferindo o porco ao fresquíssimo peixe do atlântico, preferindo o alcatrão da estrada nacional à excepcional natureza da região, enfim sobre esta democracia Kitsch que é Portugal.

PS- Um grande abraço a todos os que piscaram o olho aos 3 anos da Klepsýdra.

sexta-feira, julho 21, 2006

Três anos de delírios

A Klepsýdra agradece aos seus leitores três anos de visitas, de comentários, de reclamações, de irritações, de crítica, de aplausos e até de publicidade e de anúncios nas caixas de comentários. Estão à vontade para se servirem delas para encontrar o cão perdido, vender aquela máquina de lavar ferrugenta ou para anúncios coquins.

Klepsýdra Club House

06.00-06.30 - Monsieur Philippe Corti
05.30-06.00 - Oskar DJ
04.45-05.30 - Paul Van Dyk
03.00-04.45 - Plastikman (Richie Hawtin)
02.45-03.00 - Plastikman Warm Up - DJ Muxaxo
01.45-02.45 - Monika Kruse
00.45-01.45 - DJ Vibe
00.15-00.45 - Warm Up - Jack de Marseille


Abertura solene

00.00-00.15 - Discurso de Manoel de Oliveira, Mestre de Cerimónias das comemorações deste ano, intitulado: "Aos três anos já mergulhava de cabeça do tabuleiro superior da ponte D. Luís" .

Como o ano passado deixo-vos com uma faceta mais discreta deste vosso escriba: as noitadas. Para mim a dança é para aí o terceiro prazer da vida. A música electrónica está longe de ser o único tipo de música que me faz dançar, mas às horas a que a Klepsýdra faz anos não me resta alternativa.


Um abraço especial para os leitores da diáspora, de todos esses países onde se lê o que por aqui vai escorrendo na Klepsýdra:

2. Brazil 6636 6.4 %
3. Belgium 5392 5.2 %
4. United States 3807 3.7 %
5. France 1391 1.3 %
6. United Kingdom 1298 1.3 %
7. Germany 1296 1.3 %
8. Spain 1082 1.0 %
9. Switzerland 925 0.9 %
10. Italy 560 0.5 %
11. Netherlands, The 483 0.5 %
12. Luxembourg 401 0.4 %
13. Poland 312 0.3 %
14. Finland 287 0.3 %
15. Mozambique 248 0.2 %
16. Slovakia 153 0.1 %

quinta-feira, julho 20, 2006

Quadratura do Círculo: do melhor ao pior em 5 segundos

Cito de cor uma passagem do programa Quadratura do Círculo de ontem:

Jorge Coelho desabafava - Que saudades de Rabin!
Lobo Xavier - Eu diria antes, que saudades de Sharon! Foi ele que descolonizou a faixa de Gaza
Pacheco Pereira - Este [Ehud Olmert] também está a fazer um bom trabalho.
Lobo Xavier - Pois está!

Jorge Coelho não respondeu. Carlos Andrade devia estar distraído ou a contar os minutos e os segundos do alinhamento do programa, duvido que no seu estado normal deixasse passar este encadeamento bizarro de elogios que colocam no mesmo plano Rabin e indivíduos como Sharon ou Ehud Olmert.



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A Klepsýdra faz três anos dentro de algumas horas.
Vai haver bolachas com tulicreme e sumos Fruto Real com caricas do Homem-Aranha.

Israel a aumentar a popularidade do Hezbollah II

"Mesmo na zona da noite - que aqui não pára – dominada por jovens estilosos e raparigas de cabelo destapado e com roupa tão provocante como a de qualquer ocidental e no bairro cristão as bandeiras amarelas do grupo libanes [Hezbollah] dominam a paisagem. (...) Mas se um jovem laico e semi-ocidentalizado de uma cidade cosmopolita e multi-religiosa como Damasco tem neste momento como heróis os lideres do "Partido de Deus", imagine-se o que se passa em mais sombrias paragens."

Lido no Arrastão, escrito em Damasco pelo Daniel Oliveira

terça-feira, julho 18, 2006

sobre Israel

Fico enjoado de ler tanta crónica repetida, sem nada de novo, sobre a situação em Israel e no Líbano. Aconselho a leitura deste texto do Luís Januário. Não concordo com tudo, especialmente a última frase, mas tem o mérito de ser um comentário muito interessante e escrito da sua própria cabeça.

Ver este cartoon (não é dinamarquês) sobre o mesmo assunto.

segunda-feira, julho 17, 2006

The Road to Guantanamo

Não acredito na justificação para a viagem ao Afeganistão dada pelo grupo de britânicos de origem paquistanesa que fazem a história de "The Road to Guantanamo". A desculpa do casamento ainda escapa, mas o resto... poupem-me! Tenho em mim que a ideia inicial de Shafiq e companhia era no mínimo mandar uns pedregulhos contra uns blindados americanos que lhes aparecessem pela frente, mas a coisa correu muito mal. O Afeganistão é bastante diferente da sua Birmingham natal e rapidamente foram apanhados num turbilhão de refugiados e de combatentes que ultrapassava a sua compreensão. O seu desespero era tal que a sua captura pelo exército americano constituiu um efémero momento de alívio.

Mesmo que esta fosse a verdadeira justificação da sua viagem ao Afeganistão, isto nunca faria de Shafiq e companhia um grupo de terroristas e muito menos justificaria o tratamento animalesco que sofreram em Guantanamo.

Em Guantanamo tudo é chocante. E o mais chocante nem é essa tortura animalesca, humilhante, desproporcionadamente ridícula, sádica, vingativa, sobretudo vingativa, que despe homens da sua intimidade, expondo a sua mente e os seus corpos aos olhares de todos os presentes e às picadas dos escorpiões venenosos que por ali vagueavam. O sádico nome atribuído ao primeiro dos campos de prisioneiros designado X-Ray (já encerrado), era isso mesmo, era um raios X completo ao corpo e ao espírito. Um em cada seis detidos de Guantanamo sofre de graves problemas psicológicos. O mais chocante de Guantanamo é percebermos que a administração que governa hoje um país que foi um dos pioneiros da democracia como a conhecemos hoje, demonstrar, ali naquele lugar, que não acredita nessa mesmo democracia, que confunde vingança com justiça, que faz chacota do estado de direito. Em X-ray, Iguana, Camp Delta e Camp 4 a tortura é um modo de vida e não apenas quaisquer duas horas de pancadaria diária num gabinete escuro de um regime policial ou militar, ali a tortura é permanente, é a incerteza de saber se algum dia se será julgado, se algum se será condenado, , se algum dia será preciso cumprir uma pena de prisão, é aquilo a que Bernard-Henri Lévy chamou muito acertadamente de Incerteza Metódica. A inquietude permanente provocada pela ausência de horizontes aliada à frieza de uma tortura meticulosamente organizada é uma velha fórmula conhecida para matar por dentro aqueles que não se podem matar de formas mais convencionais.

domingo, julho 16, 2006

Israel a aumentar a popularidade do Hezbollah

O resultado prático de maior impacto da resposta musculada de Israel em Beirute é o de aumentar imensamente a popularidade do Hezbollah, numa zona do Médio Oriente ainda relativamente moderada e aberta. Parece que já se esqueceram dos grandes sucessos eleitorais recentes dos partidos islâmicos em toda a região.

quinta-feira, julho 13, 2006

O Mito do "Grupo" de Scolari

Na minha opinião só faz sentido falar em grupo, quando as prestações do conjunto de jogadores são superiores à soma das prestações individuais de cada um desses jogadores. Um exemplo típico é a selecção da Grécia, campeã europeia pelas mãos de Otto Rehhagel. Com um conjunto de valores futebolísticos secundários a nível europeu (onde estão a jogar os campeões europeus do Euro2004?), Otto construiu uma equipa campeã.
A maior virtude apontada a Scolari é a capacidade de formar um grupo (já que a estratégia e a táctica enfim...). Eu discordo. Acho que o caso de Scolari é o contrário do caso de Rehhagel. Scolari durante o europeu tinha o melhor conjunto de individualidades e nas duas partidas contra a Grécia, a soma dessas individualidades foi inferior a uma equipa de pés quadrados. Acabado o Mundial, pareceu-me existirem apenas duas equipas mais bem recheadas de valores individuais que Portugal: a França e o Brasil. A Itália, a Argentina e a Inglaterra eram as equipas do nosso pelotão. De todos estas equipas apenas a Itália conseguiu fazer render a equipa para lá dos seus valores individuais, e é isso que eu entendo como um verdadeiro grupo. Outras selecções com conjuntos acima das suas individualidades foram a Austrália, a Alemanha e a Suiça (que não sofreu nenhum golo).

Se houveram treinadores nos últimos 20 anos que formaram verdadeiros grupos eles foram: José Maria Pedroto, Carlos Queiroz e José Mourinho. O trabalho de Carlos Queiroz nas camadas jovens foi brilhante, partindo literalmente do zero, Queiroz descobriu talentos dispersos pelo país, numa altura em que não existia qualquer tradição de trabalho no futebol juvenil e em que pouca atenção se dava à selecção. O grupo de Queiroz, campeão do mundo júnior por duas vezes, foi apelidado mundialmente como a Geração de Ouro.

Pedroto tirou o FC Porto de um jejum de vitórias de 20 anos e construiu um grupo que se viria a sagrar Campeão Europeu de clubes pelas mãos de Artur Jorge.

O trabalho de Mourinho ainda está fresco na memória dos portugueses, Mourinho construiu um grupo repescando Maniche à equipa B do Benfica, Nuno Valente e Derlei ao União de Leiria, Paulo Ferreira ao Setúbal, recuperando o capitão Jorge Costa - já não prestava para Octávio - colocando Baía de novo no topo do futebol mundial e aproveitando a qualidade já existente no plantel do Porto: Ricardo Carvalho, Deco, Costinha e McCarthy. As duas vitórias consecutivas em competições europeias foram o corolário de um excelente trabalho, bem estruturado e sistemático.

A mim parece-me evidente que o trabalho mais positivo de Scolari foi em larga medida surfar neste grupo que lhe foi oferecido por Mourinho. Digo surfar; apanhar a onda e não trabalhar ou desenvolver. Mas, curiosamente Scolari só começou a surfar neste grupo após a primeira derrota com a Grécia, acabando depois por seguir aquela que era a opinião de 95% dos comentadores de futebol. O verdadeiro grupo de Scolari, aquele que Scolari constituiu de mau resultado em mau resultado até essa primeira derrota com a Grécia, está imprimido nos números das camisolas da selecção, que ele atribuiu meticulosamente de 1 a 11 tal como tinha feito com a selecção brasileira campeã do mundo: 1- Ricardo; 2- Paulo Ferreira; 3- Rui Jorge; 4- Jorge Andrade; 5- Fernando Couto; 6- Costinha; 7-Figo; 8- Petit; 9- Pauleta; 10- Rui Costa; 11- Simão. Era este grupo de Scolari. Ricardo Carvalho era o 16, Miguel o 13, Nuno Valente o 14, Deco o 20, Cristiano o 17 e Maniche o 18. A vergonha da derrota no jogo inaugural fê-lo tomar a atitude mais inteligente que teve durante os 4 anos de seleccionador e mudou tudo, mudou para a estrutura de Mourinho à qual foram adicionadas as estrelas da companhia. No entanto aqueles números que vão do 13 ao 20 ficarão na história como um amargo sapo que Scolari teve que engolir e o fim do genuino grupo de Scolari.

Últimas de Vénus


Clicar na imagem (Sítio ESA)

segunda-feira, julho 10, 2006

Scolari: dar voz à reacção (caixa de comentários)

"Tens razão quando apontas alguns erros do Scolari. É óbvio que o treinador não é nenhum grande teórico da bola e aqueles que como eu acompanham seu desempenho desde os tempos do Palmeiras, sabem que as suas equipas tem sempre o mesmo estilo: Futebol feio, duro a roçar a violência, muita manha em campo e acima de tudo uma entrega quase total dos jogadores.
Mas sejamos claros: O homem é um vencedor e a sorte não pode explicar tudo. Por onde passa triunfa e se há quatro anos podemos atribuir à excelência dos jogadores brasileiros o título, o mesmo não pode ser feito com a actual selecção nacional.
Com qualquer outro treinador - à excepção de Mourinho - Portugal teria chegado quando muito às oitavas-de-final. Basta nos lembrarmos do que se passou há quatro anos, quando com uma equipa individualmente mais forte, a selecção naufragou.
Por mais que nos custe, a psicologia de almanaque de Filipão funciona. O homem consegue convencer até os pernas-de-pau que são grandes jogadores e que podem vencer. E os tipos superam-se.
Não gosto desta forma de encarar o futebol - sou um fã de Telê Santana! - mas rendo-me às evidências. No caso de um futebol mediocre como português não há alternativas.
Ou jogamos assim e ganhamos umas coisinhas, ou vamos para o tete-a-tete e levamos ensaboadelas como em 1986 ou 2002!
"
Alexandre Monteiro

A reacção azul (ao que isto chegou...)
"Estou de acordo com algumas coisas... Mas outras estou em completo desacordo...
Não acredito que se possa ter tanta sorte... Alguma coisa há-de o Scolari saber...
2º O comentário apesar de ser lógico e objectivo não tem em conta em evolução do futebol... nos últimos anos.
3º Não vi a França e a Alemanha a fazerem melhor!!! A vitória da Alemanha contra Portugal foi devida à inspiração de um jogador..."

Homem das Neves

Scolari: 365 minutos sem marcar um golo até ao 4° lugar

Aviso à navegação antes de lerem o texto que se segue:
1- Não nutro qualquer simpatia por Pinto da Costa, qualquer comentário que me ligue a essa figura será pura e simplesmente ignorado;
2- Considero um 4° lugar num campeonato do mundo um resultado muito bom;
3- O futebol é um jogo, não é uma catástrofe natural, nem uma guerra, nem um despedimento colectivo, por isso aviso já que não respondo a comentários raivosos.



Joguei mais de uma dezena de anos basquetebol, tive grandes treinadores e também tive maus treinadores, por isso não é um trapalhão como Scolari que me vai deslumbrar.

Erros Básicos de Scolari
- Um treinador que não é capaz de formar uma equipa com os melhores jogadores, não deve ser treinador, deve fazer outra coisa qualquer.

- Fazer jogos de preparação apenas contra equipas modestas (Cabo Verde e Luxemburgo), não só é redundante como não permite qualquer treino táctico e estratégico para defrontar equipas do mesmo nível ou superior. Quem praticou desportos colectivos sabe perfeitamente que estes jogos são aproveitados para dar asas ao individualismo, para fazer aquela jogada de sonho, para se bater aquele record pessoal e a recompensa de motivação colectiva que proporcionam pode por vezes traduzir-se num perigoso excesso de confiança.

- A disciplina trabalha-se no início da época e não no decorrer da fase final de uma competição, quando existe já um clima de excitação. O mau comportamento na selecção já vem dos Jogos Olímpicos onde Cristiano já apresentara mau comportamento, onde Boa Morte e Hugo Viana foram expulsos, ficando a expulsão deste último a dever-se a Ricardo Costa. Como desde então nada foi feito para disciplinar estes jogadores, assim que começaram as primeiras provocações ao Cristiano, não houve capacidade para travar a onda de indisciplina.

- Não se deve divulgar a formação de uma equipa um dia antes da partida durante uma grande competição como um campeonato da Europa. Scolari fê-lo duas vezes, e as duas vezes saiu derrotado contra a Grécia. Isto não quer dizer que perdemos exclusivamente por esse motivo, quer dizer sim que a probabilidade de se perder um jogo aumenta quando se oferece a composição da equipa ao adversário.

Os números mais significativos deste Mundial
- 4° lugar.

- Balanço de golos: 7-5 em 7 jogos
Na péssima campanha de 2002 foi de 6-4 em 3 jogos. No Mundial de 1966 de 17-8 em 6 jogos. Reparem que a prestação da equipa de Scolari está muito próxima da desastrosa campanha de 2002 que durou apenas 3 jogos e está a léguas da brilhante campanha de 66. Aliás o vergonhoso Holanda-Portugal parecia tirado a papel químico do Coreia-Portugal: duas expulsões, muita indisciplina (um Figo com atitudes nunca vistas), bolas no ferro decisivas (a de Sérgio Conceição correu mal e a de Kuyt correu bem para nós) e o erro de esgotar as substituições tirando Pauleta ficando Portugal sem pontas-de-lança para um possível prolongamento.

- Portugal bateu o record de 365 minutos sem marcar golos (Maniche aos 23' contra a Holanda até Nuno Gomes aos 88') e de cerca de 250 minutos sem uma ocasião perigosa.

A análise destes números não resiste à conclusão de que o resultado foi muito melhor do que o trabalho desenvolvido. O futebol é um desporto que possui uma componente aleatória importante, essa incerteza contribui em muito para a sua beleza. O trabalho principal de um treinador é diminuir tanto quanto possível essa componente aleatória e controlar o máximo possível os outros aspectos do jogo. Estes números mostram claramente que Scolari andou a jogar à roleta russa com a selecção. A roleta foi-nos favorável até às meias-finais. Mas se é um jogador de roleta que se pretende para dirigir a selecção podemos ir buscar o treinador dos Dragões Sandinenses, na Taça de Portugal o homem tem tido mais sorte e não tem estrelas na equipa como o Figo ou o Cristiano.

Trapalhada Estratégica e Táctica
A estratégia de Portugal na campanha para este mundial mostrou a bizarria de uma equipa que joga no mesmo esquema 4-5-1 (com os laterais a subirem) quer o adversário seja o Lieschtenstein, quer seja a França! Portugal nunca ensaiou a utilização de dois pontas-de-lança, excepto a 10 minutos do fim contra a França (Postiga e Meira avançado) quando perdíamos 1-0 e a 20 minutos do fim contra a Alemanha (Pauleta e N. Gomes) durante apenas 8 minutos quando perdíamos 2-0. Como esta situação nunca foi antes ensaiada não deu qualquer resultado.
Em termos tácticos vimos duas estrelas como Figo e Ronaldo serem colocados em autênticos beco-sem-saída, a correrem das pontas para o meio, mas sem ligação ao ponta-de-lança Pauleta, que se encontrava tão isolado como a ilha do Corvo. Scolari foi o principal responsável pelo seu fraco rendimento. Ao Cristiano restava o remate muito raramente efectuado em boas condições. Foi o 4° mais rematador, os 21 remates para zero concretizações diz bem do seu estatuto de beco-sem-saída na equipa de Scolari.
As substituições de Scolari foram surrealistas. Duas vezes Pauleta saiu para dar lugar a Simão (Inglaterra e França), passando o Cristiano a ponta-de-lança, para 10 a 15 minutos mais tarde, e sem qualquer resultado, entrar uma das cunhas de Scolari: Hélder Postiga. Pior só a já referida substituição de Pauleta contra Holanda, onde corremos o risco de ir para prolongamento sem ponta-de-lança e em desvantagem numérica.

(Continua com o Mito do "Grupo")

domingo, julho 09, 2006

75% pela Itália e 25% pela França

Adorava ver o Luca Toni a fazer aquele gesto "Avete capito?" várias vezes. Canavarro, Zambrotta, Pirlo e Gattuso estão a jogar um futebol de campeões e não acho nada que o futebol que a Itália tem apresentado seja feio ou cínico, note-se bem que os italianos já fizeram abanar as redes adversárias por 11 vezes. No entanto, durante a final de hoje poderei ceder o meu apoio à selecção francesa, no caso do Thierry Henry estar num daqueles dias infernais. Se jogarem, Govou e Trezeguet também me poderão fazer mudar de campo, tal como Ribery, se comemorar um golo da mesma forma como o fez contra a Espanha (o homem parecia possesso).

Do ponto de vista pessoal tenho dificuldade em apoiar uma ou outra selecção. Vivi e tenho bons amigos nos dois países, de Itália gosto da simpatia das pessoas, da gastronomia e do culto da beleza e da estética, de França gosto daquele serviço público que é apenas o melhor do mundo - excelentes universidades e hospitais quase gratuitos - gosto da escolha e da produção cultural sem paralelo no resto do planeta e gosto do papel de guardiã da independência política da Europa. Em Itália acho pouca piada à desorganização geral e à forma como conduzem nas estradas, em França acho ainda menos piada ao clima social das grandes cidades e o desleixo político (tanto da esquerda como da direita) com que se tem gerido o problema.

PS- Escreverei muito em breve as prometidas linhas sobre Scolari

sábado, julho 08, 2006

O fim do melhor talk show do mundo

De "Tout le Monde en Parle" (Sábado 21:50, France 2) disse aqui várias vezes que seria provavelmente o melhor talk show do mundo. Hoje por decreto Klepsýdra saca-se o provavelmente. E porquê? Porque é o único talk show de verdadeira dimensão mundial, onde foi possível a confrontação entre neo-conservadores americanos e esquerditas franceses, entre conservadores franceses e progressistas americanos, onde a banlieu se esgrimiu de argumentos com alguns dos mais notáveis políticos franceses, onde grandes figuras pertencentes a instituições internacionais como a ONU, a UE, a AIEA debateram com activistas das mais variadas áreas desde o Greenpeace à Opus Dei, passando por organizações gay ou associações de vítimas de atentados terroristas. Passaram pelo plateau de "Tout le Monde en Parle" ex-agentes da Mossad, da CIA, do KGB, astronautas e cosmonautas, estrelas da indústria pornográfica, muitos prémios Nobel, impostores e sobretudo muitos escritores e muitos realizadores, o que há de melhor no mundo do livro e do cinema passou pelo crivo dos questionários de Thierry Ardisson.

Numa golpada a roçar a canalhice, muito ao estilo do que sucedeu ao programa Acontece de Carlos Pinto Coelho, uma decisão política mascarada de decisão administrativa expulsa Ardisson da France 2 a partir do corrente mês de Julho.

Todos sabemos o que se irá passar. Ardisson vai provavelmente descansar uns meses, mas quando voltar, onde Bernard-Henry Lévy ou Christine Angot apresentarão os seus novos livros, o primeiro plateau de televisão onde Jodie Foster ou 50 Cent colocarão os pés assim que chegarem à Europa, onde os maiores neo-conservadores americanos virão esconjurar a Europa, onde os mais progressistas escritores do Magrebe virão gozar da liberdade de expressão que lhes é negada, onde Ovidie virá fazer a apologia da filmografia pornográfica para mulheres será no novo programa de Thierry Ardisson, independentemente do canal ou da hora.

Alguns dos ilustres convidados da última emissão:
Frédéric Beigbeder, Charlotte Gainsbourg, Yvan Attal, Jamel Debbouze, Bernard Tapie, Jean-Marc Lavoine e ... (só para clientes habituais) o DJ, o grande, o mega-banco: Monsieur Philippe Corti!

quinta-feira, julho 06, 2006

Dedicar o golo à mãe, essa instituição italiana

A forma como Fabio Grosso comemorou o golo contra a Alemanha (foto FIFA) fez lembrar em tudo, o mesmo gesto aquando do golo de Tardelli contra a mesma Alemanha na final de 82. O José Mário Silva também topou a semelhança. Na altura, em plena euforia, enquanto comemorava o golo, Tardelli berrou "maammaaa maammaaa", ensaiando uma expressão facial que fazia lembrar um bebé chorão a precisar de colo urgentemente. Não consegui perceber se Fabio Grosso também gritou pela mãe quando marcou o golo de passada terça, mas o gesto foi tão semelhante que desconfio que havia ali uma figura feminina para o colo da qual Fabio corria. Outro grande jogador que grita pela mãe que nem um perdido ao comemorar um golo é Filippo Inzaghi. Quem observa a forma como Inzaghi vive os jogos, com aquele fervor fora de comum, entrando a fundo em todas as jogadas, percebe que há uma figura feminia forte na mente do jogador, que o faz jogar mais do que as pernas deixam. Embora Inzaghi seja o expoente máximo desta forma de viver o jogo, uma boa parte dos grandes jogadores italianos jogam para a mãe, ou para a namorada, ou para uma bella donna que os observa na bancada ou na televisão. Aprecio o charme desta forma quase primitiva de viver o futebol, esse moderno e popular substituto da caça dos tempos em que errávamos na estepe. Nesses tempos também caçávamos para elas, sobretudo para elas.

quarta-feira, julho 05, 2006

Move On... mas nada broches!

"Je suis au siège de ce fameux MoveOn.org (...) Or cela veut dire quoi "moveon"? Et cela fait, concrètement allusion à quoi? C'est simple me répond Joan Blades. Nous sommes em 1999. En pleine affaire Lewinsky. Et nous sommes tellement choqués (...) que nous consacrons toutes nos forces, notre temps, nos ressources, à lancer le slogan dont l'énonce complet est, non pas "Move On", mais "Censure and Move On" - soit, si vous préférez, "censurez" le Président Clinton et "avancez" vers les vrais problèmes urgents auxquels la nation doit faire face...

J'ai bien entendu. Je fais répéter mais j'ai parfaitement entendu. L'idée, à ce moment-là, est de briser le piège républicain mais de censurer aussi dans le même mouvement, le Président démocrate. (...) Je suis dans le temple du radicalisme américain. Je suis au contact de ce qui se fait de plus avancé en matière de nouvelle gauche. (...) Or ce qu'ils nous disent, ces militants, ce qu'ils affichent dans l'intitulé même de leur mouvement, c'est que Clinton fut à peine moins coupable que ses persécuteurs; c'est que la péché les a, à l'époque, autant choqués que l'impeachment; ils auraient pu, ces esprits éclairés, estimer que cette affaire de "tache" était une non-affaire; ils auraient pu clamer que la sexualité d'un Président relevait de sa seule vie privée; mais non; ils ont choisi d'en appeler dans le même geste à "avancer" et "censurer" le Président libertin (...) - et cela, pour un Européen est proprement stupéfiant. (...) Moralisme... Puritanisme... Confusion de règnes, qu'une démocratie digne de ce nom sépare, de la politique et de l'éthique... Volonté de pureté... Rigorisme et transparence érigés en impératifs catégoriques..."


"American Vertigo", Bernard-Henry Lévy, Grasset, pag 141-143, 2006.

Eyes wide shut

A ler no 1BsK esta excelente análise daquele que eu considero ser o melhor filme de Kubrick depois de "Dr. Estranho-Amor", o sublime "Eyes Wide Shut".

terça-feira, julho 04, 2006

Aq. Global: a teoria dos triângulos de estabilização

Uma das teorias mais interessantes para controlar as alterações climáticas a médio/longo prazo (~ 2050), é a teoria dos triângulos de estabilização. Esta teoria desenvolvida por Pacala e Socolow da Universidade de Princeton já faz parte de uma iniciativa apelidada de Carbon Mitigation Initiative, patrocinada pela Ford e pela BP. O objectivo dos autores é propor uma série de medidas capazes de controlar as alterações climáticas em curso utilizando apenas soluções baseadas em tecnologias existentes. De modo a que em 2050 as emissões de gases de efeito de estufa se mantenham a níveis actuais, Pacala e Socolow enunciam que basta subtrair 7 triângulos de estabilização entre os 15 que propõem para se atingir esse objectivo. A linha acima da área a verde é a curva estimada pelos autores no cenário do "deixa andar". No gráfico B, são subtraídos sete triângulos a essa curva obtendo-se aproximadamente a curva que delimita a área a azul e que corresponde aos níveis de emissões actuais. Cada um dos triângulos corresponde a cada uma das medidas que poderão ser aplicadas utilizando apenas tecnologias actuais. A tabela 1 enumera os 15 potenciais triângulos que vão desde a utilização de veículos de transporte mais eficientes até a uma prática agricula que minimize o lavrar da terra (o que liberta uma quantidade considerável de carbono para a atmosfera).

Na prática o que Pacala e Socolow nos dão a entender é que temos de mudar radicalmente o nosso modo de vida se não quisermos pagar uma pesadíssima factura tanto do ponto de vista económico, como em vidas humanas, se a nossa atitude perante as alterações climáticas for a do "deixa andar".

segunda-feira, julho 03, 2006

Azevedo n°1 da Volta à França

Um interlúdio velocipédico no delírio futebolístico que tomou de assalto nosso país:

O nosso José Azevedo partiu com o honroso dorsal n°1 da mais prestigiosa prova de ciclismo do mundo. Como andam na moda os "records" e os feitos inéditos desde há não sei quantos anos, aproveito para informar que este é um feito que não acontecia no nosso país há quase 900 anos...

La femme d'à côté

Quando François Truffaut assistiu a um encontro entre Gerard Depardieu e Fanny Ardant, exclamou: "voilà les amants qu’il me faut". Foi assim pura obra do acaso a escolha de dois actores sem os quais "La femme d'à côté" nunca seria a obra-prima que é.
A história de "La femme d'à côté" centra-se sobre as personagens de Bernard (Depardieu) e de Mathilde (Fanny Ardant), personagens essas que viveram no passado uma história de amor muito intensa que findou numa separação violenta. O destino quis que se encontrassem mais tarde, quando Mathilde e o novo marido vão viver para a casa mesmo ao lado da casa onde vive Bernard e a sua mulher. O clima de tensão resultante de uma separação mal resolvida instala-se rapidamente. Entre o medo e o desejo, entre a moral e a transgressão, a sensual voz de Fanny parece um presságio para tudo o que vai ocorrer a seguir...

domingo, julho 02, 2006

O frenesim anti-europeísta de Luciano Amaral

Leiam primeiro este artigo do Luciano Amaral.

O anti-europeísmo do autor já era sobejamente conhecido, mas desta vez a ansiedade e o frenesim de atacar a Europa a qualquer custo fez o autor espalhar-se ao comprido como já não se via há muito em artigos publicados na imprensa nacional. É verdade que o articulista teve azar. Mal o artigo saiu para as bancas, o Supremo Tribunal dos EUA tomou uma decisão que se poderia classificar no mínimo como irresponsáveis atitudes europeias face aos EUA, isto utilizando palavras do próprio autor. Obviamente que estamos todos a imaginar os 5 magistrados americanos que votaram a decisão equipados de keffieh e de boina à Che. O problema é que os EUA são um país mais democrático do que o Luciano Amaral e George W. Bush gostariam.

Depois o artigo tem passagens como esta:
"Bush afirmou não se importar de fechar Guantánamo, embora antes fosse preciso saber o que fazer com aqueles 500 prisioneiros, que ninguém quer propriamente ver por aí à solta."

Claro, só Guantánamo pode reter 500 prisioneiros daqueles. Estes Jordanos, Paquistaneses, Tunisinos, etc. do piorio, piores que o supervilão magneto da Marvel, são tipos para dobrar as barras de aço de uma prisão de um regime democrático só com o poder da mente, realmente só Guantánamo é que os impede de andar aí solta. Até porque os 0,7% da população americana que se encontra a cumprir pena de prisão é tudo malta branda, os cerca de 10 mil assassínios com armas de fogo anuais nos EUA é coisa sem significado.

Este é provavelmente o pior artigo do ano. Porquê? Leiam esta:
"Não se pode evidentemente dizer que tudo o que os EUA fazem é bem feito. Mas o que fazem tem a vantagem de corresponder a uma tentativa de utilizar os meios apropriados para aplicar uma política."

Este tipo de argumentos justificam tudo, desde o Gulag à Santa Inquisição.


Magneto, um dos 500 perigosíssimos prisioneiros de Guantánamo, dobra barras de metal com o pensamento e faz bolinhas com a boca. Não percam o próximo número: os super-heróis Luciano Amaral e George W. Bush vão parti-los todos!

sábado, julho 01, 2006

O gesto que faltava no Mundial



A comemoração de golo à moda do Luca Toni (foto FIFA). O significado do gesto é "Avete capito?" e resulta de uma brincadeira que fazia com um amigo de infância nos tempos em que jogava futebol na rua.
Outro comemorador de golos que aprecio é Thierry Henry. O homem marca golos dos mais empolgantes que se possam imaginar, com grandes arranques, mudanças de velocidade estonteantes e remates fulminantes e quando surge o momento de comemorar do golo Henry limita-se a apreciar o delírio do público através um olhar simultaneamente sério e sarcástico. É um senhor!

sexta-feira, junho 30, 2006

Os índios americanos em contraste com Espanha

O reverso da moeda das fricções autonómicas em Espanha é a situação dos cerca de 2 milhões de índios norte-americanos, muitos a viverem em auto-caravanas e rulotes.
Bernard-Henri Lévy (BHL) recolheu algumas anotações curiosas sobre os índios americanos na américa de hoje. BHL entrevista uma trabalhadora índia de Lower Brule:

"...on fait un Mémorial pour signifier que la guerre est finie; or, cette guerre n'est pas finie; regardez les expropriations qui continuent, les traités rompus, le génocide qui se poursuit; la guerre n'est pas finie, et le Mémorial n'a pas lieu d'être."

pag. 105. BHL acrescenta mais à frente:

"Comment ne pas songer à Wounded Knee et à la fin de Sitting Bull? Comment ne pas avoir à l'esprit ces milliers d'Indiens massacrés parce qu'ils s'adonnaient à ces danses que singe aujourd'hui Tom Daschle [sénateur indien] et sa famille? Quand je dis mascarade je pense aussi aux Indiens qui se consentent à cette singerie; je pense au Chef qui, ensuite, deboux aux côtés du sénateur, pérora que le peuple lakota a pris le drapeau des mains de Custer et que maintenant, le drapeau est à lui; je pense à la distribution de soupe, par les majorettes du sénateur, en t-shirt et casquette orange, à la fin de la cérémonie."

pag. 107

"American Vertigo", Bernard-Henry Lévy, Grasset, 2006.

quinta-feira, junho 29, 2006

Benedito e o relativismo


Fotografia White Night

Esticando a conversa para a paranóia do terrorismo:
A próxima vez que passarem a mala de mão no detector de raios X do aeroporto lembrem-se que, mesmo se os detectores não existissem, a probabilidade do vosso avião sofrer um atentado é largamente inferior à probabilidade de contrair SIDA em Portugal durante uma relação sexual.

quarta-feira, junho 28, 2006

Portugal corrido à pedrada

Quando me referi na entrada anterior que Portugal estava a ser escavacado, também estava a pensar em todos esses autarcas reféns dos construtores civis. A Fernando Ruas fugiu-lhe a boca para a verdade. Há de facto lugares do nosso país, alguns históricos, que dá a sensação que foram destruidos à pedrada... pelos próprios autarcas!

terça-feira, junho 27, 2006

Espanha/Portugal: o contrário do Abrupto

Façam uma experiência. Num destes fins-de-semana façam um dos seguintes trajectos:

Léon->Bragança
Salamanca->Guarda
Sevilha->Beja
Cádiz->Faro

E parem nas aldeias e nas cidades dos dois países que ficam pelo meio. Mas aconselho vivamente a fazerem a viagem no sentido indicado, que é para o choque ser maior. Reparem também na quantidade de lixo e no caos que abunda do lado de cá. A diferença entre as regiões mais pobres de Espanhas e as mais pobres de Portugal é evidente, mas o que é mais interessante é que o bom exemplo de desenvolvimento, nomeadamente o ordenamento do território, que se verifica do outro lado da fronteira tem influenciado o muito pouco de positivo que se faz do lado de cá no interior do país, mais em certos casos do que as "ajudas" (ler portagens) vindas de Lisboa. Ou seja, as autonomias espanholas acabam por ter um efeito que é exactamente o contrário do que se refere no Abrupto. O que se escreve no Abrupto ainda faz menos sentido pois os portugueses não têm a mínima noção do que é viver num país constituído por povos diferentes e onde se falam diferentes línguas. O problema é que os Portugueses apesar de falarem a mesma língua e de partilharem a mesma base religiosa são muitos mais nocivos ao próprio país do que qualquer separatismo ibérico no caso espanhol. Os efeitos negativos duma qualquer progressiva fragmentação de Espanha não se compara com o que o nosso centralismo destrói e escavaca. E o que está escavacado em Portugal vai desde o ambiente ao património e vai desde a cultura à dinâmica económica. Quantos emigrantes portugueses trabalham no País Basco ou na Catalunha? O melhor era olharmos mais para o nosso cancro em estado avançado (centralismo) do que para os arranhões dos outros...

Ler o Paulo Querido sobre o mesmo assunto

sábado, junho 24, 2006

Orçamentos militares em 2004

( × mil milhões de dólares)

1- EUA - 455
2- Reino Unido - 47
3- França - 46
4- Japão - 42
5- China - 35
6- Alemanha - 34
7- Itália - 28
8- Rússia - 19,4
9- Arábia Saudita - 19,3
10- Coreia do Sul - 15,5

Pergunta: Quem é que anda a vender tanta arma à Arábia Saudita?
Resposta: O grande amante da liberdade da entrada anterior.

Espero estar muito enganado, mas tenho impressão que aqueles 19,3 mil milhões de dólares anuais de material militar não vão ficar eternamente em exposição no meio do deserto saudita. Um dia, um príncipe suficientemente maluco vai dar uso àquele arsenal todo. E até adivinhamos quem será o alvo. Depois não venham novamente com lágrimas de crocodilo...

sexta-feira, junho 23, 2006

Lágrimas de crocodilo na Hungria

A administração Bush, fervorosa adepta da real politik, não deixa escapar a ocasião para um belo momento de sentimentalismo agudo e montam o teatro adequado à situação. Desta vez foi na Hungria. A visita do presidente Bush ao monumento dedicado aos cerca de 2500 húngaros que morreram há 50 anos atrás na revolta contra a ocupação soviética (aproveito a ocasião para lembrar que o PCP nunca condenou este acontecimento) é uma infeliz homenagem à memória dos revoltosos. E é uma homenagem infeliz pois estes revoltosos lutaram com coragem contra uma ditadura asfixiante, coragem essa referida no discurso de Bush, mas é também a mesma coragem que falta a Bush para deixar de vender armas (em troca do petróleo) ao país com a pior e a mais asfixiante ditadura do mundo: a Arábia Saudita. A Arábia Saudita possui neste momento um dos 10 maiores arsenais militares do mundo! Não se pode andar a depositar coroas de flores e a chorar os mortos de um lado do mundo e do outro lado da Terra a beber chá com alguns dos maiores ditadores e criminosos do planeta.

Para cúmulo todo este teatro tem como pano de fundo a questão dos vistos obrigatórios de entrada nos EUA para os novos países da UE. A Administração Bush tem discutido o critério alucinante de facilitar mais os vistos aos países que enviaram mais de um certo número de tropas para o Iraque. Claro que os húngaros não são parvos, tirando meia dúzia que vivem à custa de fundações e fundaçõezinhas americanas de lavagem ao cérebro profissional instaladas na Hungria, o resto da população já não vê os EUA como salvadores e uma parte parece cultivar um anti-americanismo mais agudo.

quinta-feira, junho 22, 2006

Cenas de uma prisão de Queens

À atenção do Zé Amaral do Memórias do Cárcere transcrevo aqui duas cenas passadas no New York City Correction Department, em Queens, faço notar que se trata de uma prisão com o estatuto de jail, ou seja uma prisão para penas curtas e presos preventivos:

"...il a fallu inventer un système de passe-plats sécurisé car ils profitaient du moment où on leur glissait leur pitance pour mordre au sang la main du gardien."

"...dans l'unes des trois cellules douches, ouvertes sur la coursive, le spectacle de ce colosse barbu et nu en train de se branler en face d'une autre matonne, impassible, à qui il hurle d'une voix de dément: viens me chercher, salope! viens!"

"American Vertigo", Bernard-Henry Lévy, pag. 43-44, Grasset, 2006.

quarta-feira, junho 21, 2006

Mais rápido que a luz

"Mais rápido que a luz" de João Magueijo é um grande livro! Afirmo-o confessando que não dava nada por ele quando me veio parar às mãos. A designação do livro como "biografia de uma especulação científica" é absolutamente correcta, e ilustra de certo modo o que é o trabalho de um cientista, tentar verificar aquilo que começa por ser em certo sentido uma especulação. O João explica de uma forma bastante clara o significado do seu trabalho de investigação, atribuindo-lhe a importância que de facto esse trabalho comporta, sem exageros e sem falsas modéstias. Tal como o João afirma ao longo do livro, se a sua teoria se verificar completamente errada, pelo menos já sabemos que aquela via não leva a lado nenhum, e isso é também fazer ciência e por vezes é fazer ciência bem mais áspera do que a ciência em que se obtém o resultado desejado.

Apesar de achar que o João Magueijo exagera nalgumas das suas críticas ao mundo académico e científico (ao editor da Nature ou aos professores da sua namorada por exemplo), devo dizer que prefiro 50 Magueijos à carneirada que existe neste momento em Portugal, que aceita tudo e que acha tudo normal no meio científico nacional. Uma das críticas mais viperinas de Magueijo em que mais me revejo é a do conceito de prostitutas e proxenetas no meio Universitário. Na verdade existe toda uma panóplia de proxenetas científicos improdutivos, burocráticos, cansados de dar aulas, que já não investiga e que se arroga ainda o poder de mandar para a "esquina" trabalhar os bolseiros e os investigadores mais jovens, muitas vezes ameaçando do alto dos seus poderes burocráticos. Na Universidade manda quem tem o carimbo.
João Magueijo descreve com piada alguns dos abusos de poder mais bacocos do sistema britânico, nomeadamente aquele caso da sala que tem um estrado mais alto que é interdito aos alunos, para que os docentes possam estar sempre acima do nível dos mesmos alunos.

Outra faceta que me apraz no livro é a descrição dos momentos em que o João Magueijo realiza a sempre saudável limpeza cerebral após um período intenso de trabalho. Identifico-me com o prazer das raves, embora seja mais adepto das parties, mais softs, com menos drogas e muito menos homens que as raves. Aquela equação de Klein-Nishina para radiação polarizada que tratei por tu durante os 4 anos passados em Estrasburgo, saía cristalina depois de uma noitada a sério num velho antro da cidade chamado "Sous-sol" ou depois de uma noite em branco passada nos grandes festivais Got Milk ao som de Carl Cox ou de Plastic Man.

terça-feira, junho 20, 2006

Volver

A ler a crítica do David Luz (Linha dos Nodos) ao filme "Volver" de Almodovar. É uma outra perspectiva apesar de não concordar muito (essa do complexo de Édipo não resolvido é forte ;) ).

domingo, junho 18, 2006

Sobre a bandeirite aguda, um exemplo americano

Acho espantoso os rios de tinta que se gastam a escrever sobre o assunto das bandeiras à janela, cuja importância me parece quase irrelevante, dada a banalidade do mesmo fenómeno nos restantes países da Europa e do Mundo. Mas enfim, os jornais portugueses gostam de pagar a colunistas que repetem o que 30 mil outros colunistas já escreveram. Não tarda muito, assim que acabar o campeonato do mundo, começará nos jornais a praga dos artigos intitulados "silly season".

Sobre o assunto das bandeiras deixo-vos uma passagem curiosa do último livro de Bernard-Henry Lévy que foi escrito ao longo de um interessante périplo pelos EUA:

" [le drapeau] l'objet qui est là chaque fois que paraît le Président américain. C'est le drapeau chéri, presque un être vivant, dont je lis, dans la documentation fournie par l'Atlantic, que l'usage est soumi à des règles, que dis-je? une étiquette d'une précision extrême - ne pas salir, ne pas singer, ne pas tatouer sur le corps, ne jamais laisser tomber à terre ni suspendre à l'envers, ne pas insulter, ne pas brûler ou, s'il est trop vieux, hors usage, et n'est plus en état de flotter, le brûler au contraire, ne pas jeter, ne pas chiffoner, mieux vaut encore le brûler, oui, que l'abandonner dans une décharge."

"American Vertigo", Bernard-Henry Lévy, pag. 39, Grasset, 2006.

sexta-feira, junho 16, 2006

Portugal a rimar com lixo

Este texto do Miguel Vale de Almeida traduz muito daquilo que me passa pela cabeça em cada regresso a Portugal. Destaco em particular as seguintes passagens:

"...ao andar hoje por Lisboa, não encontrei nada que me agradasse ou fizesse sentir em casa. Desde logo, a sujidade. Depois, o caos urbanístico. Por fim, a desorganização completa."

"A sujidade sente-se nas ruas e passeios, no próprio ar, com um vago cheiro a lixo, acompanhado por muito barulho. O caos urbanístico sente-se com os olhos e a caminhar, dos monturos de terras aos matagais que crescem por toda a parte, à feiura da arquitectura."

"A desorganização completa vive-se assim que se regressa ao local de trabalho e se começa a entrar numa aterrador limbo burocrático, na dificuldade em encontrar com quem falar numa semana de três feriados"

quinta-feira, junho 15, 2006

O nuclear, o PCP e os Verdes

A duvidosa coligação entre Verdes e PCP tem na questão do nuclear uma das suas facetas mais cómicas. Eu ainda me lembro do tempo em que o PCP distribuía auto-colantes do "Nuclear Não" com o solzinho a sorrir. Mas durante um dos debates para as últimas presidenciais o camarada Jerónimo surpreendido com a pergunta do moderador sobre qual a posição do PCP sobre o nuclear, lá se deve ter lembrado que a União Soviética possuía muitas centrais nucleares e respondeu que o Partido iria estudar essa hipótese. Foi a partir deste momento que o PCP aderiu ao nuclear (corrijam-se se estiver errado, se houver documentos anteriores ao debate) e foi também a partir desta altura que começaram as divergências com os Verdes. A simultaneidade destes dois acontecimentos não me parece ser pura coincidência.

A questão do nuclear para os Verdes não pode ser uma questão de simples divergência com o PCP, quanto a mim é no mínimo uma questão de ruptura com o PCP e poucas soluções restam aos Verdes para que não percam mais a pouca credibilidade ainda têm.

1) Podem sair da coligação do PCP e
a) concorrer sozinhos às eleições com o apoio dos Verdes Europeus;
b) aliar-se ao BE com o apoio dos Verdes Europeus (opção mais lógica);

2) ou simplesmente dissolver o partido e acabar com a farsa, deixando espaço para que surja um verdadeiro partido ecologista dentro da filosofia dos Verdes Europeus;

3) ou continuar a empatar na aliança com PCP e assim continuar prejudicar a defesa das causas ecológicas em Portugal.

quarta-feira, junho 14, 2006

O Tawny e as cervejas "portuguesas"

Os protestos e o choradinho que se gerou entre alguns produtores portugueses por causa da generalização das designações "Tawny", "Ruby" e "Vintage" a outros vinhos é pouco credível quando Portugal faz exactamente o mesmo em relação a produtos de outros países. O facto de terem sido escoceses a inventar o vinho Porto e a designá-lo assim (e não vinho do Douro como alguns raivosos anti-Porto gostam de afirmar) é apenas um detalhe desta história. Já nem vou às salsichas "tipo Frankfurt" (tal e qual!), fico-me apenas pelas cervejas portuguesas que usam e abusam do copianço. Por exemplo ao ler esta entrada do FJV na Origem das Espécies sobre cervejas portuguesas detecto logo ali quatro copianços descarados, nem vou aos mais subtis, porque também os há. 1) A Chopp é uma designação óbvia da cerveja que produzem os nossos irmãos do Brasil. 2) Bohemia é uma das regiões da Rep. Checa, uma das pátrias da boa cerveja, da pilsner (originária da cidade de Plzen). 3) A Super Bock Abadia é uma péssima imitação das cervejas belgas de Abadia, como a Leffe. 4) A Sagres 1835 é uma imitação cómica da Kronenbourg 1664.
O que mais resulta na venda deste tipo de produtos não é saber se o tawny ou a abadia são designações utilizadas na Tailândia ou em Portugal, o que interessa é que se possa escolher entre um tawny português ou tailandês ou entre uma Abadia belga ou portuguesa. O apreciador não compra nem o tawny tailandês nem a abadia portuguesa, prefere beber água.

terça-feira, junho 13, 2006

Retalhos (deliciosos) da vida de um cientista

Há momentos, como o de ontem, em que um tipo se sente realmente um cientista, muito mais do que quando ando pelo laboratório a desapertar os parafusos dos detectores. Ao entrar no edifício da RAS (Royal Astronomical Society) fiz uma vénia imaginária a todos aqueles monstros sagrados que passaram por aquela instituição. A cadeira onde se sentou em 1820 William Herschel, o primeiro presidente da RAS, estava ali mesmo à minha frente. Quando nos reunimos numa sala ao lado, ficámos com a sensação que de certa forma fazíamos parte do clube, até pelo olhar sério e austero com que nos miravam os centenários retratos.

Checos entre o champanhe e o Red Bull


O futebol Checo é verdadeiramente fantástico, é uma espécie de futebol champanhe movido a Red Bull, que tem em Rosicky (pronuncia-se rositsqui) o maior criativo, o champanhe, e em Pavel Nedved um exemplo de pujança física, o Red Bull. A Rep. Checa é uma daquelas equipas mais do que apta a desafiar os grandes, como poderia ser o caso de Portugal, se não houvesse certos aspectos importantes que nos distinguem. A Rep. Checa tem um treinador (Karel Bruckner) lúcido e pragmático e Portugal tem um treinador caprichoso e troca-tintas. Karel Bruckner convocou os melhores jogadores e Scolari convocou os amigos. O primeiro aposta na estratégia e na forma física o segundo aposta na sorte e na virgem Maria.

Podem continuar a assinar a Petição Basta de Scolari.

domingo, junho 11, 2006

Volver

"Volver" de Pedro Alomodóvar é belo um filme sobre mulheres simples que se desenrascam e enfrentam com determinação as dificuldades de uma vida cujos trilhos agrestes foram forjados pelos maridos. Curiosamente, "Volver" tem muito a ver com o que escrevi na minha última entrada "Sábado em Coimbra: a paridade explicada aos cegos". Esta película é mais um exemplo de que em sociedades conservadoras existe uma engenharia social muito particular onde a fava calha sempre às mulheres.
Outro aspecto interessante deste filme é o confronto muito actual que Alomodóvar nos propõe entre a Espanha urbana, moderna e mediática com a Espanha tradicionalista, rural e contemplativa. Muito daquilo faz lembrar Portugal, principalmente as velhinhas, com a pequena diferença que o nível educacional das velhinhas espanholas é bem superior ao das nossas (as espanholas que concluíram o 12° ano são o dobro).

Petição: Basta de Scolari

Podem continuar a assinar aqui.
A exibição contra Angola foi um festival de miséria e de erros estratégicos e tácticos. A falta forma física e a indisciplina continuam presentes. Os assobios (a Scolari) não foram estranhos a isso.
Angola estava bem preparada e sobretudo bem fisicamente. Oliveira Gonçalves fez um bom trabalho com apenas uma dezena de jogadores profissionais, percebeu-se a intenção de explorar a auto-estrada Nuno Valente, a exibição foi muito honesta apesar da derrota.

PS- Uma dica para Madaíl: telefonar a Mourinho até sexta-feira o mais tardar.

sexta-feira, junho 09, 2006

Ciclos climáticos e o CO2 (caixa de comentários)

"Limitando-me ao gráfico que se apresenta, os últimos estudos inferem que o que mais afectou os níveis de CO2 nos ciclos glacial/interglacial foi a estratificação a grande profundidade no Oceano do Sul, modificações nas taxas de sedimentação/dissolução do carbonato de cálcio e a fertilização de ferro. Para compreender como isto pode afectar o CO2 é preciso ter umas luzes de química e do Ciclo do Carbono na Terra."

Gabriela (Contemplamento)

quinta-feira, junho 08, 2006

Bolseiros de investigação no Senado da UC

A ideia começa a circular. Nalguns dos centros de investigação da Universidade de Coimbra os bolseiros são responsáveis por mais de 50% da produção científica. No senado da Universidade todos estão representados desde o funcionário que troca o papel higiénico das casas de banho passando pelos alunos até aos professores catedráticos, excepto os investigadores bolseiros, que em abono da verdade, são quem mais trabalha na Universidade.
Em breve serão revistos os estatutos do Senado, vamos lá ver se é desta.

terça-feira, junho 06, 2006

Gráficos que não deixam dúvidas (actualização)


Gráfico do sítio do UNEP


Julgo que depois da publicação destes resultados mais ninguém no seu perfeito juízo terá a coragem de afirmar que não existe qualquer relação entre a concentração de CO2 na atmosfera e a temperatura média do planeta. Os gráficos acima representados mostram a evolução até 1950. Até esse ano a concentração máxima de CO2 registada foi cerca de 300 ppmv tendo ocorrido há 320 mil anos, o que originou um dos maiores picos de temperatura. Em 2004 a concentração de CO2 é o valor record de 378 ppm e prevê-se que em 2050 a concentração se eleve até valores entre os 450 e os 500 ppm (ver gráfico em baixo). A temperatura vai acompanhar este aumento...


Um post que merecia o Nobel (no mínimo!)

Esta rapaziada que acha que as alterações climáticas são uma conspiração mundial contra os EUA continua de fuga para frente em fuga para frente. Leiam esta entrada de Rui Oliveira no Insurgente.
Merecia o Nobel, não merecia?
Se quiserem fazer lá em casa um post semelhante utilizem a mesma fórmula e troquem a história do paraíso subtropical por outro episódio semelhante da história da formação do planeta Terra. Por exemplo:

"Há mais de 5 mil milhões de anos a Terra era uma bola meio incandescente que fazia parte de um disco protoplanetário.
Agora, é o que é. Terá sido o efeito de estufa? O buraco de ozono? O aquecimento tropical? Procuram-se culpados.

PS- Post scriptum. É favor excluir qualquer factor antropogénico. O homem ainda não existia.
"

A seguir bebam um bagaço!

sábado, junho 03, 2006

Sábado em Coimbra XXIX: a paridade explicada aos cegos

Ontem, sexta-feira (desta vez faço batota ao Sábado em Coimbra) cerca das 18.30, o suburbano com destino à Figueira da Foz estava, como é habitual, apinhado de mulheres. São mulheres que trabalham no pequeno comércio da cidade, nalguns serviços mal remunerados e nalgumas pequenas empresas que se situam ali no centro de Coimbra. Estas mulheres moram em pequenas vilas e aldeias dos arredores, não têm carro, ou se têm carro esse está com o marido, mas a maior parte nem sequer carta de condução tem. À minha frente uma senhora lê um jornal russo, é a única que está a ler no comboio. Uma placa informa que a carruagem tem 80 lugares. A carruagem está cheia e a cena é cavalheiresca. Somos 5 homens a viajar de pé e apenas dois viajam sentados. No total somos 85 passageiros, entre os quais apenas 7 homens, menos de 10% portanto.
No dia anterior ao entrar atrasado no avião que me trouxe de volta para Portugal, atravesso a zona da business class que contava uns 15 passageiros, era só homens!
Provavelmente nenhuma daquelas 78 mulheres teve os recursos, a oportunidade ou o ambiente familiar para estudar nas mesmas escolas e nas mesmas universidades onde estudaram aqueles 15 homens da business class. Numa sociedade conservadora é assim, a engenharia social pratica-se intramuros no seio familiar, quando se vai ao domingo à igreja ou quando se procura um emprego. Numa sociedade conservadora as leis que ditam uma paridade ao contrário não se publicam, não são palpáveis, mas estão lá, apesar de ser mais fácil fingirmos que somos cegos.

Sábado em Coimbra XXVIII

sexta-feira, junho 02, 2006

12 caças F16 que nunca voaram... uma ninharia!

Ontem, fiquei absolutamente siderado com a notícia do Público que dava conta que o governo se prepara para vender 12 caças F16 comprados durante o governo de António Guterres e que nunca chegaram a voar!
Para quem trabalha em ciência e se esforça constantemente para não comprar equipamentos caros, que tenta fazer omeletas sem ovos, ler uma notícia destas dá-nos cabo da figadeira. Só o dinheiro gasto na compra de um F16 dá para comprar uma série de equipamentos caros e necessários e dá para pagar durante vários anos a uma série de investigadores altamente qualificados. Este país é um desespero!

quinta-feira, junho 01, 2006

Conversa sobre o nuclear e os 20 anos de Chernobyl

Para os conimbricenses (e não só) interessados, estarei hoje às 21:30 na Galeria Santa Clara com a Maria de Lurdes Cravo da Quercus e a Rita Calvário para conversar sobre energia nuclear e os 20 anos do acidente de Chernobyl.

quarta-feira, maio 31, 2006

Dr. Estranho Amor sempre actual

"Dr. Estranho Amor" é o meu filme preferido de Stanley Kubrick e é também um ácido retrato sobre os perigos que representavam os arsenais nucleares desmesurados da URSS e dos EUA nos anos 60, em plena Guerra Fria. "Dr. Estranho Amor" foi estreado em 1964 e dado o conteúdo do filme ser bastante crítico à política militarista americana, considero esta obra um acto corajoso de Kubrick, numa época em que a mínima crítica às opções militares do governo era frequentemente classificada de anti-patriótica e de pro-soviética. Apesar da Guerra Fria ter acabado com o colapso do regime soviético, "Dr. Estranho Amor" continua a ser um filme actual dada a febre nuclear de uns quantos chefes de estado do planeta, alguns dos quais são tão surrealistas que poderiam ser personagens desta obra de Kubrick sem que se notasse diferença. O filme aborda também a importante questão do "telefone vermelho", o telefone que ligava o Presidente dos EUA directamente ao Presidente da URSS. A instalação desta linha de telefone directa que visava diminuir os riscos de um lançamento acidental ou criminoso data de 1963. Hoje esta linha liga Bush a Putin, no entanto as outras potências nucleares (Reino Unido, China, França, Israel, Paquistão, Índia e Coreia do Norte) não dispõem de qualquer dispositivo de segurança deste tipo, o que representa um risco considerável para a segurança do planeta. Por exemplo, durante a guerra do Kargil em 1999 o exército paquistanês mobilizou o seu arsenal nuclear sem que o próprio primeiro ministro Nawaz Sharif tivesse sido informado... Sharif foi informado pelos americanos das manobras das suas forças armadas!

Para quem gosta de Peter Sellers este é um filme a não perder. Sellers representa três personagens: o capitão Lionel Mandrake, o Presidente dos EUA e o Dr. Estranho Amor. Na pele de Dr. Estranho Amor sentimos aquele Sellers delirante e inimitável, mas que encaixa na perfeição na sinistra personagem. No entanto, e apesar de menos extravagantes, sempre existiam homens assim de ambos os lados, homens muito perigosos e com demasiado poder.

terça-feira, maio 30, 2006

Hirsi Ali: Holanda mais eficaz que os islamistas

Considero a expulsão velada da deputada holandesa Hirsi Ali, por esta ter mentido aquando do seu asilo em território holandês, um verdadeiro escândalo. O Estado Holandês conseguiu aquilo que os islamistas holandeses sempre sonharam, mas que nunca conseguiram realizar: despachar a incómoda Hirsi! É esta a verdadeira Holanda do Não à Constituição, é a representante de uma Europa intolerante e muito pouco social.

segunda-feira, maio 29, 2006

Palma de Ouro: a República contra o Império

O inglês Ken Loach, autor de "Terra e Liberdade", foi o vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes com o oportuno filme "The Wind That Shakes The Barley". Quando se comemoram os 90 anos de alguns dos principais acontecimentos que levaram à independência da República da Irlanda, o filme de Loach vem relembrar alguns episódios muito pouco gloriosos de um passado não muito distante da história do Reino Unido.

Ler o João Romão sobre a Palma de Ouro no Almareios

Cumprir ou relatar a pena

"... o tempo que me permite estar no sistema bloguístico já deu para perceber que existem muitas semelhanças entre nós, os cá de dentro, e os outros, os aí de fora. A única diferença é que nós cumprimos pena, enquanto os outros relatam a sua."

Zé Amaral (Memórias do Cárcere)

domingo, maio 28, 2006

Alvo demasiado apetecível/Dar porrada em mortos

Um grande texto do David Luz a ler aqui. Destaco:

"Disse JPP que (cito de memória) "as pessoas podem não perceber algumas coisas, mas têm um faro" que lhes diz se um candidato é de confiança. E nesse momento o público aplaudiu. Este aplauso diz muito. As pessoas reconhecem a sua fraca capacidade interpretativa do mundo em termos analíticos. Têm um sentimento de inferioridade face aos "intelectuais", mas congratulam-se pelo "faro", por julgarem que essa intuição se pode substituir a um pensamento estruturado. Ao mesmo tempo, os intelectuais são olhados com desconfiança. A forma como se fala deles junta frequentemente termos depreciativos com um respeito temeroso, como se fossem considerados um mal necessário a que é necessário recorrer quando falha o tal "faro". Isso viu-se também na forma como muitos blogues se referiram a MMC depois da edição do livro. Uma vez dessacralizado por via da sua queda em desgraça, o intelectual torna-se um alvo demasiado apetecível."

De facto, um dos desportos preferidos dos comentadores portugueses é dar porrada em mortos, nos alvos apetecíveis. A repetição da pancada possui o fascínio da caçada em grupo, do tempo em errávamos na estepe.

quinta-feira, maio 25, 2006

Modelo Social Europeu já começou nos EUA

Recentemente, o Estado do Massachusetts decidiu implementar um plano de saúde quase universal, bem ao estilo do Modelo Social Europeu. São sem dúvida sinais da falência de um modelo social selvagem que faz dos EUA uma bizarria social entre as democracias ocidentais, onde quase 1% da população está atrás das grades, onde a criminalidade é a mais alta da OCDE, onde 20% da população não tem acesso a cuidados de saúde, apesar da fatia do orçamento estatal para a saúde ser dos mais elevados na OCDE. Como Rifkin explica em o "Sonho Europeu", a exclusão de parte significativa da população dos cuidados de saúde impossibilita que esta tenha acesso à medicina preventiva, aumentando a probabilidade de enfermidades e ao recurso à medicina curativa, que é sempre mais cara. São ironias do país da guerra preventiva que esquece a importância da medicina preventiva...

segunda-feira, maio 22, 2006

Spike Lee vs 50 Cent

O debate entre Spike Lee e Curtis James Jackson (50 Cent) é um dos mais interessantes debates da actualidade, embora difícil de seguir nas TV's americanas pouco dadas a debates intelectuais entre afro-americanos, especialmente a Fox, uma TV de brancos para brancos. No entanto, inúmeros fóruns na internet mostram que este debate não deixa indiferente essa América dos bairros de Spike Lee e de 50 Cent.

Apesar de achar pobrezinho o gangsta rap de 50 Cent e merecedor de poucas simpatias da minha parte, há algo que aprecio na personagem. 50 Cent veio de um meio difícil e embora o relembre repetidamente, 50 Cent raramente se arma em vítima. Numa era em que a vitimização é fácil e barata (especialmente nos meios islamistas do Médio Oriente e na América Latina), pelo menos 50 Cent tem a virtude de ser pouco dado a hipocrisias.

50 Cent apresenta-se e representa-se como um gangster, fazendo uso exaustivo de toda a simbologia de poder dos gangsters: o dinheiro, os grandes carros, as piscinas, as gajas, o proxenetismo, os anéis, o ouro e os diamantes. É esta faceta gangster que é o alvo principal dos ataques de Spike Lee. Uma crítica especialmente deliciosa e incisiva de Spike Lee a 50 Cent é aquela interpretada pelo magnífico John Turturro através da personagem Don Angelo Bonasera no filme "Ela odeia-me". Nesta película, o mafioso Bonasera ensaia um discurso delirante no contexto em que decorre a narrativa, mas absolutamente sóbrio sobre os novos tempos da máfia e dos gangsters. Segundo Bonasera os verdadeiros gangsters continuam a pertencer à comunidade italiana e de uma forma jocosa constata as pretensões de 50 Cent e de outros oriundos da comunidade afro-americana à categoria de gangsters. Mas Bonasera lamenta que os seus recrutas mais jovens que cresceram a ouvir Sinatra, tenham acabado a ouvir Snoop Dogg...

sexta-feira, maio 19, 2006

quinta-feira, maio 18, 2006

Uma microscópica correcção sobre um telescópio

Nos jornais da Tarde e da Dois da RTP passaram uma reportagem bem feita sobre a nossa participação num consórcio internacional que se propõe apresentar um telescópio espacial de raios gama ao programa Cosmic Vision da Agência Espacial Europeia. O problema é que os pivots dos respectivos jornais se enganaram e isso pode confundir os interessados na notícia.

1- Não se trata de um microscópio de raios gama como foi referido no Jornal 2, mas sim um telescópio de raios gama.

2- Nós não desenvolvemos as lentes para o telescópio como referiu o pivot do Jornal da Tarde, mas sim os detectores do plano focal, onde se vai formar a imagem dada pelas lentes (que são desenvolvidas em Ferrara).

Acontece! Fica apenas a correcção para não haver confusões. Já me dou por muito satisfeito por a televisão dar alguma atenção a este tipo de assuntos, em vez de transmitir uma jantarada de benfiquistas de bigode em riste ou 5 minutos de treinos do Sporting.

Petição: Basta de Scolari

Eu sei que a asneira já está feita, que já não há volta a dar-lhe e que agora os bons jogadores como o Figo, o Ronaldo ou o R. Carvalho, sobreviventes da razia de cunhas que marcaram a convocatória de Scolari, devem jogar o melhor que puderem sem que Scolari atrapalhe muito o seu desempenho futebolístico. Mas para evitar que alguém tenha a brilhante ideia de renovar com Scolari e porque já não há pachorra para os delírios deste admirador de Pinochet, convido-vos a assinar a petição Basta de Scolari aqui.

quarta-feira, maio 17, 2006

Um ano de bicharada

O Bicho Carpinteiro tem a particularidade de ser um blogue onde a amplitude da esquerda é superior à soma das esquerdas separadas. Num país onde as esquerdas têm tendência a se subtrair, espero que essa virtude não se perca e que os Bichos continuem a dedilhar.

Cannes 2006 com participação portuguesa

O melhor e o mais internacional festival de cinema começa hoje, sendo presidido este ano pelo realizador chinês Wong Kar Wai. Entre os filmes da selecção oficial que vão estar em competição encontramos "Volver" de Almodóvar, "O Caimão" de Nanni Moretti, "Maria Antonieta" de Sofia Coppola e... o português Pedro Costa (realizador de "Ossos") com o seu novo filme "Juventude em Marcha". Acho absolutamente escandaloso o silêncio que reina em Portugal sobre esta prestigiante participação do Pedro Costa na Selecção Oficial.

Sítio Cannes 2006

terça-feira, maio 16, 2006

He got game

"He got game" de Spike Lee não é dos filmes mais conhecidos do cineasta, mas é na minha opinião um dos seus melhores filmes. Denzel Washington interpreta a personagem Jake Shuttlesworth (para mim a melhor interpretação da sua carreira) a cumprir uma pena de prisão por um drama familiar traumático. No âmbito dum esquema de corrupção bem ao estilo do apito dourado, são concedidos alguns dias de liberdade a Jake para convencer o seu filho Jesus (que não gosta do nome dado pelo pai) a escolher a equipa da Liga Universitária de Basquetebol do amigo do director da prisão.
A obsessão de Jake pelo jogo e o rigor no treino que este exige a Jesus como meio de contrariar o destino de todos os negros e dos latinos do bairro, são a verdadeira polpa deste filme. Tudo joga contra Jesus, um jovem negro dum bairro pobre, mesmo quando a sua carreira parece propulsionada para o estrelato. As drogas, o álcool, as gajas, os amigos da onça, os empresários e as máfias desportivas são as habituais distracções que destruíram uma mão cheia de outros grandes craques do mesmo bairro de Jesus.
O filme tem a particularidade de contar com a figuração de numerosas estrelas da NBA como Michel Jordan, Shaquille O'Neal, Scottie Pippen, Charles Barkley e ainda da estrela do cinema erótico Jill Kelly. John Turturro tem aqui mais uma das suas mini-interpretações fantásticas no papel de Billy Sunday, um treinador que tem tanto de corrupto como de religioso, que não hesita em fazer uma reza para que Jesus escolha o seu clube.

segunda-feira, maio 15, 2006

O Circo Scolari

Foi uma conferência de imprensa infantil como é habitual e de um ódio velado que mete dó. Obviamente que não vou apoiar Portugal. Sobre Scolari já aqui escrevi o que tinha a escrever.

Chernobyl e o futuro

À custa de milhares de vidas dos chamados liquidadores (as principais vítimas de Chernobyl) foi construído um sarcófago que impediu que o material altamente radioactivo exposto ao ar, após a explosão do reactor 4, continuasse a contaminar a atmosfera. No entanto, as condições em que se efectuou essa construção eram muito precárias dados os perigosíssimos níveis de radioactividade junto à central que limitavam o tempo de trabalho de cada liquidador a uma exposição de cerca de dois minutos sem protecção. Actualmente, o sarcófago de Chernobyl atingiu um estado de degradação tal ao ponto de chover dentro do sarcófago.
De forma a resolver este problema foi criado um fundo pelo Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento com o objectivo de construir um novo sarcófago (na figura) para o reactor 4. Hans Bilx, o líder da equipa de inspectores de armas de destruição em massa no Iraque, é o responsável pela angariação de fundos e de dádivas para a construção do novo sarcófago de Chernobyl.
O acidente de Chernobyl cujos custos contribuíram em muito para a implosão da economia da União Soviética, continua a pesar no orçamento da Ucrânia e continuará durante longos anos a aumentar a factura do acidente. Esta é a outra catástrofe do acidente, para além da catástrofe humana.

Mais sobre Chernobyl

domingo, maio 14, 2006

A minha selecção

Treinador: José Mourinho

11 inicial:
Baía
Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho, Fernando Meira e Miguel
Cristiano Ronaldo, Luís Figo, Tiago e Ricardo Quaresma
Nuno Gomes e Nani

Suplentes:
Paulo Santos e Ricardo
Pedro Emanuel, Caneira, Tonel e Fernando Couto
Simão Sabrosa, Manuel Fernandes, Raúl Meireles e Sérgio Conceição
Hugo Almeida e Pauleta


Não incluí o Deco. Considero ser uma forma de batota naturalizar jogadores seniores só para jogar nas selecções. Se Deco tivesse começado nas camadas jovens em Portugal, tal como alguns jogadores de origem estrangeira da selecção francesa, o problema nem se colocaria.
O Sérgio Conceição e o João Pinto fizeram excelentes épocas. Escolhi o Sérgio, mas o João Pinto também poderia ali estar. O Rui Costa era outro que ainda poderia um contributo valioso à selecção.
O Nani no 11 inicial não se trata de nenhum engano. É um jogador formidável, irrequieto e que nunca perde de vista a baliza adversária. Se não tivéssemos um seleccionador tapadinho, poderíamos ter uma frente de ataque cheia de genica com o Cristiano Ronaldo, o Luís Figo, o Tiago, o Ricardo Quaresma e o Nani a infernizarem completamente as defesas adversárias. Resta-nos esperar melhores dias, sem Scolari.

Despedir Scolari

Scolari, funcionário da FPF paga em parte pelos nossos impostos, é um dos funcionários públicos mais bem pagos do país, senão o mais bem pago. O comportamento de um funcionário público nestas condições excepcionais não é compatível com:

- Cunhas;
- Exclusão fulanizante dos melhores recursos humanos;
- Arrogância e abuso de poder;
- Recorrente uso de insultos e de magicações em sua defesa.


Exmo. Sr. Presidente da FPF, já não há pachorra. Sabe certamente o que tem a fazer...

sexta-feira, maio 12, 2006

Porta-aviões: uma parábola sobre a Europa e os EUA

A saga do desmantelamento do porta-aviões Clemenceau parece uma parábola sobre o que é hoje a diferença de filosofia entre os EUA e a Europa em questões ambientais. Tendo chegado ao fim de vida ao serviço da marinha francesa, em vez de um mais cómodo afundamento foi decidido o desmantelamento do porta-aviões Clemenceau, dado este possuir grandes quantidades de amianto (material perigoso) na sua estrutura. E foi aí que começou a saga do Clemenceau. Como não era viável desmantelar o Clemenceau no porto de Toulon decidiu-se enviá-lo para a Índia para aí ser desmantelado a mais baixo custo e com menos riscos para os franceses, mas com mais riscos para os indianos...
Graças aos protestos de muitos franceses e indianos e numa altura em que o Clemanceau já estava ao largo da Índia, decidiu-se finalmente por desmantelar o Clemenceau na Bretanha, em França. O Clemenceau foi proibido de passar no canal do Suez, pelo que teve de percorrer a rota dos nossos descobrimentos pelo canal da Boa Esperança, encontrando-se curiosamente neste momento ao largo da costa portuguesa.

Enquanto tudo isto se passava, nos EUA chegava ao fim de vida o porta-aviões Oriskany. Sem grandes polémicas em Fevereiro foi decido afundar o Oriskany no Golfo do México...

É por estas e por outras, que não estranhamos que hoje na Europa (até em países atrasados como o nosso) existam caixotes do lixo de triagem de materiais quase em todo o lado, lâmpadas e torneiras em locais públicos que se desligam sozinhas, etc. Nos EUA é ainda raro o local público onde existam este tipo de cuidados. Para a "mão invisível" é muito mais cómodo despejar tudo na mesma retrete e carregar no botão do autoclismo, tal como o Oriskany.

quinta-feira, maio 11, 2006

Calcule a dose de radiação cósmica durante um voo

Neste sítio podemos calcular a dose média de radiação a que somos expostos com origem nos raios cósmicos durante um voo de avião. O resultado é dado em mSv.

Por ano, em média, estamos expostos a:

- 1,5 mSv de radão e de elementos radioactivos que ingerimos;
- 1,3 mSv de origem médica (radiografias por exemplo);
- 0,5 mSv vindos do solo, principalmente do granito;
- 0,4 mSv dos raios cósmicos;
- 0,1 mSv de actividades industriais.

Por exemplo durante um voo de 3 horas entre Bruxelas e Lisboa estamos expostos a uma dose de cerca de 0,01 mSv.

quarta-feira, maio 10, 2006

Pink vs 50 Cent

"...
What happened to the dreams of a girl president
She's dancing in the video next to 50 Cent
...
"

Passagem de Stupid Girls, Pink

Spike Lee vs 50 Cent

Spike Lee sobre 50 Cent:
"whatever you are doing that makes you have to put a bulletproof vest on your 5-year-old son, that's time for some deep introspective shit"

Resposta de 50 Cent:
"Who is Spike Lee? I actually dislike the part in his movies where the character stands still [and the camera pans back] and it looks like [the character] moves. I think that’s the corniest thing on the planet" 2 de Março de 2006

terça-feira, maio 09, 2006

Reconstituição da aterragem em Titã

A não perder aqui duas magníficas animações da aterragem da sonda Huygens da ESA na superfície de Titã, reconstituída a partir dos dados enviados pela sonda durante e depois da aterragem.

Infiltrado

"Infiltrado" não é um Spike Lee como os outros. A receita base é tipo Hollywood mas o cozinheiro, não é um cozinheiro qualquer, é Spike Lee. É como pedir a um grand maître para fazer um simples bife com batatas fritas. "Infiltrado" conta a história de um sofisticado assalto a um banco cujo objectivo vai para além do próprio assalto, onde todos os personagens parecem cúmplices de alguém do lado oposto da barricada. Pelo meio Spike Lee introduz bem ao seu estilo alguns diálogos interessantes sobre as tensões étnicas e sociais do meio nova-iorquino: o polícia branco ameaçado num bairro negro, o contraste entre a linguagem dos nova-iorquinos de berço de ouro e os da periferia, o desconhecimento embaraçoso da Albânia e de Enver Hoxa numa cidade multicultural, etc.

Spike Lee vs 50 Cent
Em "Infiltrado" Spike Lee volta à carga na sua crítica ao rapper 50 Cent. Fiel à máxima de que primeiro é preciso varrer o lixo em frente à sua porta, Spike Lee denuncia a onda 50 Cent através da cena em que um rapazinho joga um violento videojogo de gangsters cuja inspiração vem da obra do rapper, nomeadamente da filosofia de vida "get rich or die or die tryin" (uma das variantes do american dream). Não é por acaso que o verdadeiro gangster do filme, um albanês, chocado com a violência do videojogo diz ao rapazinho que vai ter que conversar seriamente com o seu pai.

quinta-feira, maio 04, 2006

Um velho eclipse

No meio da minha tralha encontrei este velho eclipse parcial (27% talvez) de 12 de Outubro de 1996. As imagens foram tiradas na risca H-alfa do Sol quando trabalhei o espectroheliógrafo do Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra.

quarta-feira, maio 03, 2006

Mostrar Coimbra como se fosse a União Soviética

No âmbito de um encontro científico internacional que estou a organizar em Coimbra, mostro a cidade aos meus parceiros investigadores qual funcionário do PC Soviético. Escondo os podres e mostro as coisas mais belas e mais interessantes. Eles gostam, mas esta cidade está uma lástima. Entregue à "mão invisível", a cultura invisível do povo não resiste às investidas de construtores civis sem escrúpulos.

Peço aos responsáveis pela gestão da cidade que leiam bem as pontas dos meus dedos:
Coimbra está uma javardice!!!

terça-feira, maio 02, 2006

Debate com H. Sauper do "Pesadelo de Darwin"

A ARTE consagrou recentemente grande espaço de debate ao filme "Pesadelo de Darwin" (ontem não transmitiram o filme à hora prevista). Aqui o debate entre Hubert Sauper e o realizador do "Pesadelo de Darwin" e Elikia M'Bokolo, especialista em história africana. Ler a entrevista a Sauper. Aqui o filme pode ser alugado via net.