sábado, abril 29, 2006

Sábado em Coimbra XXVIII: mais um mamarracho!

A localização, o estilo e o colorido do novo centro comercial Fórum em Coimbra, bem como a javardice urbana e o caos rodoviário que rodeiam já este edifício ainda agora acabado de estrear são um escândalo, uma obra terceiro-mundista que só encontra justificação na cegueira e na voracidade financeira do actual executivo camarário da cidade.

Sábado em Coimbra XXVII

sexta-feira, abril 28, 2006

Sobre o Pesadelo de Darwin

Apareceu-me em sonhos o Jesus do Lago
era um peixe enorme com cabeça, posta e rabo
um Jesus transmutado em alimento
predador e presa
o milagre!
os sonhos são insondáveis,
mais do que o fundo dos lagos
depois do milagre, mostra-me o sonho
o peixe outrora inteiro
dilacerado
filetes que seguem de avião
espinhas e vísceras de camião
continuo oniricamente a passear
tropeço em caixas desfeitas em cola
esbarro com prostitutas sonhadoras
escorrego no desespero mudo das mãos
descanso ao lado de um pintor naïf
que há muito se esqueceu de sorrir
aproximo-me do epílogo, sinto-o
sinto a urgência de acordar
o peixe transmutou-se de novo
é agora um gordo e possante avião
traz armas e leva o pão
traz armas e leva o pão
-Darwin, NÃO!

Ana Saraiva

O "Pesadelo de Darwin" passa dia 1 de Maio às 23.50 na ARTE e inclui entrevista ao realizador Hubert Sauper.

quarta-feira, abril 26, 2006

Os erros de Chernobyl


O Reactor 4 alguns dias depois do acidente (foto Chernobyl International)

O acidente que ocorreu em Chernobyl deveu-se a um acumular de negligências e de erros que começaram logo pela construção da própria central. Se a central tivesse sido construída de acordo com os planos, se o mesmo acidente se tivesse produzido o reactor teria cessado o seu funcionamento sem ser precisa qualquer intervenção humana. Mas o reactor n°4 nunca funcionou bem e funcionava continuamente em sub-regime.

Ironicamente o acidente produziu-se após um teste ao reactor que visava determinar a resposta dos sistemas a um corte de energia. A equipa responsável pela segurança da central nem sequer sabia que o teste ia ser realizado. Se o teste tivesse sido feito na presença dos responsáveis dos sistemas de segurança o acidente seria facilmente evitado. O problema é que estávamos em plena decadência da União Soviética, época em que o tráfico de influências e em que as amizades e os ódios estavam acima de qualquer ética. A União Soviética tinha dos melhores técnicos e engenheiros nucleares do mundo, era líder em várias áreas da tecnologia e da teoria nuclear (tal como ainda hoje o é a Rússia), mas a falta de dinheiro e a sobreposição da lógica do Partido sobre a lógica do mérito fizeram com que em Chernobyl se tenham concentrado uma série de indivíduos que no meio científico se costumam apelidar de nulidades. Estas nulidades também deram o seu valioso contributo para a catástrofe.
Outro factor importante para que a catástrofe tivesse acontecido foi o excesso de confiança. A lei do segredo que reinava nos programas nucleares soviético e americano impedia que não apenas um país desconhecesse os acidentes que ocorriam no outro, como dentro do próprio país qualquer acidente por pequeno que fosse era prontamente abafado. Assim, os engenheiros soviéticos não tinham qualquer informação dos problemas que iam acontecendo nas outras centrais, o que para todos os efeitos representava uma estatística de acidentes enganadora e próxima de zero. Criou-se deste modo um mito de segurança das centrais que ajudou a cultivar o excesso de confiança e o desleixo.

No dia 26 de Abril de 1986 cerca da uma e meia da manhã, na sequência do teste ao reactor 4 de Chernobyl, uma fuga num tubo do líquido de arrefecimento provocou um sobreaquecimento que estoirou os tubos que continham o combustível nuclear. Este material extremamente quente ao entrar em contacto com a água do circuito de arrefecimento produziu instantaneamente uma quantidade brutal de vapor, originando uma explosão que fez ir pelos ares as 1000 toneladas da cúpula do reactor. Faço notar que não houve qualquer explosão nuclear em Chernobyl. Pelo buraco resultante da explosão foram expelidos o combustível nuclear do reactor e a grafite que servia de moderador, ambos altamente radioactivos e que foram os responsáveis pela contaminação provocada pelo acidente.

Há 20 anos em Chernobyl

Preparavam-se as festas do 1º de Maio, as flores, as faixas e os retratos dos camaradas do partido estavam a ser ultimados (foto RFE). As faixas e os retratos ainda lá estão, nas sedes dos sindicatos e do partido, como há 20 anos, como se de um museu se tratasse, aliás toda a cidade de Pripyat, a cidade mais próxima da central, é como um museu da URSS de há 20 anos atrás.

A evacuação decretada apenas três dias depois do desastre decorreu rapidamente e não houve tempo para levar muita coisa. Ficaram os cães e os gatos que correram até à exaustão atrás dos autocarros que transportavam os donos. Seguiu-se um concerto de uivos e miadelas. Os cães formaram matilhas, eram matilhas de caniches, terriers, buldogues, pastores alemães, etc. Quando a fome apertou começaram a caçar os gatos já radioactivos. Depois começaram a mostrar os dentes aos soldados e aos bombeiros que por ali passavam. Veio uma patrulha e abateu-os a todos.

terça-feira, abril 25, 2006

Chernobyl e outras catástrofes

Peste Negra (1347-51), Europa: 25 milhões de mortos
Segunda Guerra Mundial (1939-45): 40 milhões de mortos
Bomba Atómica, Hiroshima (1945): 200 mil mortos
Fábrica de pesticidas Union Carbide, Bhopal, India (1984): 22 mil a 37 mil mortos
Chernobyl, URSS (1986): cerca de 30 mil mortos

Depois de Hiroshima houve outra catástrofe nuclear bem pior que Chernobyl, mas esta foi uma catástrofe quase invisível, pouco conhecida, mas bem real e que fez muitos mortos um pouco por todo o planeta, refiro-me os ensaios nucleares realizados na atmosfera até 1963. Estima-se que tenham morrido cerca de 170 mil pessoas como consequência dos produtos de fissão altamente radioactivos espalhados na atmosfera aquando de cada ensaio.

Dados publicados em:
"De Tchernobyl en tchernobyls", Georges Charpak, Odile Jacob, pag. 94, 2005.

Chernobyl 20 anos depois

Pacificação da Irlanda do Norte financiada pela UE

Pouco conhecido entre os Europeus, o programa PEACE II é um programa da União Europeia cujo objectivo é o de contribuir para a pacificação e a reconciliação da Irlanda do Norte. Durante o período compreendido entre 2000 e 2006 foram investidos neste território do Reino Unido cerca de 796 milhões de euros pagos pelo contribuinte europeu (sobretudo alemães, franceses e nórdicos).

A pergunta óbvia: o que faz no Iraque um país que recebe subsídios da União Europeia para pacificar e para reconciliar uma parte importante do seu território?

Dossier sobre o levantamento de Dublin de 1916 no Irish Times

Michael Collins 90 anos depois

O filme "Michael Collins" de Neil Jordan trata-se de um documento histórico razoavelmente conseguido sobre a sequência de episódios desde 1916 que levaram à independência de parte da Irlanda (a República) e a manutenção do território da chamada Irlanda Norte integrado no Reino Unido. A eventual independência deste território deveria ter sido renegociada posteriormente, mas à boa maneira imperialista ficou para dia de São Nunca. O filme começa com um episódio cujos 90 anos se comemoram esta semana, o levantamento de Páscoa de Dublin iniciado a 24 de Abril de 1916 em que os militares britânicos fizeram uso de uma violência bélica apreciável para controlar os rebeldes irlandeses entrincheirados no edifício do posto central dos correios (ler dossier sobre o levantamento no Irish Times).
Um dos grandes factores de interesse deste filme é mostrar que 90 anos depois uma história de colonialismo mal resolvida continua a marcar com alguma violência a agenda política britânica, apesar de se tratar de dois povos ocidentais (ingleses e irlandeses) e cristãos (uns católicos e outros protestantes) de grande proximidade geográfica. Ora, sabemos que 90 anos depois a milhares de quilómetros de distância, no Iraque, num país que é um retalho de povos e de religiões, os mesmos ingleses pretendem fazer aquilo que nunca conseguiram fazer na ilha irlandesa: a pacificação pela ocupação.

domingo, abril 23, 2006

Charpak sobre as fugas em centrais nucleares

"Les pionniers de l'industrie nucléaire étaient bien conscients de ces problèmes (...) il est plus qu'inquiétant de se rendre compte que l'industrie nucléaire semble maintenant se comporter comme toute autre industrie: non-respect des procédures, coupes diverses dans les budgets, et manques d'intégrité. Pensons à ENRON et d'autres encore.

La fuite [de Sellafield], non détectée pendant plusieurs mois et quasiment inaperçue dans la presse, a conduit à la fermeture, pour nombreux mois, de l'usine de retraitement de Sellafield et à des pertes finacières colossales dont le contribuable fera les frais.

(...) le même esprit d'irresponsabilité qui a causé Tchernobyl est en train de se répandre, malgré l'existance d'un système qui a été conçu pour rendre Tchernobyl impossible, à cause d'une avidité aveugle à l'égard de l'argent."


Georges Charpak, "De Tchernobyl en tchernobyls", Odile Jacob, pp. 8-9, 2005.


Quando leio Charpak (que trabalha na indústria nuclear civil francesa) a queixar-se de irresponsabilidade e de avidez cega pelo dinheiro não posso deixar de pensar em Patrick Monteiro e no conjunto de patos bravos que o rodeiam.

Chernobyl 20 anos depois

sexta-feira, abril 21, 2006

FootBendit hoje na ARTE

Cohn-Bendit, um grande aficionado de futebol, é o moderador da soirée Thema "Fous du ballon rond" dedicada ao futebol (hoje às 21.50 hora de Portugal). Directamente de Berlim na Alemanha onde decorrerá o próximo Mundial, Bendit juntamente com um painel de convidados onde se destaca Michel Platini debatem as paixões e os ódios gerados pelo futebol, onde estarão em cima da mesa temas de actualidade como os negócios à margem do futebol e os recentes casos de insultos racistas nos estádios da Europa.
Este será o primeiro de uma série de programas que o canal ARTE dedicará ao futebol até ao início do mundial.

quarta-feira, abril 19, 2006

Massacre de Lisboa e todos os autos-de-fé

Ao oportuno apelo do Nuno Guerreiro à memória dos 500 anos do massacre de Lisboa de 19 de Abril de 1506, acrescento a memória de todos os autos-de-fé que durante quase três séculos tornaram a cidade de Lisboa mundialmente famosa por esta prática selvagem que partilhava da mesma lógica do massacre de Lisboa, essa lógica do obscurantismo e da intolerância extrema contra tudo o que pudesse por em causa os dogmas da Igreja Católica.

Bound


"Bound" é uma obra-prima dos irmãos Wachowski (e a única na minha opinião*) vencedora da edição de 1997 do Fantasporto. "Bound" é uma deliciosa história de cumplicidade feminina contra o mini-universo machista que inunda de tédio o quotidiano de Violet. No entanto a revolta que ambas planeiam resulta numa ligação muito mais forte entre as duas personagens do que aquilo que estava inicialmente planeado...
"Bound" vale também a pena pela estética; a composição da luz, da cor e dos enquadramentos ajuda a contar a história de Bound, dispensando diálogos desnecessários. Jennifer Tilly e Gina Gershon interpretam quase na perfeição a discreta mas fortemente ligada sensualidade que se desenvolve entre Corky e Violet. Para os apreciadores de Gina Gershon este é um filme a não perder.


* Consta que depois de "Bound", o Andy e o Larry foram vítimas de um brutal acidente cerebral quando o cheiro a fritos que inalaram num Jack in the Box entrou em ressonância com a prosa de um artigo do João César das Neves que servia para embrulhar as batatas fritas e com um documentário propagandístico sobre a guerra da Coreia que passava naquele momento na Fox. O resultado foi catastrófico e os irmãos Wachowski passaram mais de 5 anos das suas vidas a fazer umas películas sobre um rapazola chamado Neo que sob a desculpa de ser O Escolhido (o narcisismo é fórmula que resulta sempre) se divertia a correr sobre clones de óculos escuros. Paz às suas almas!

terça-feira, abril 18, 2006

Duas fugas em centrais nucleares em menos de um ano

Embora abafada 'a boa maneira britanica, ocorreu há cerca de um ano em Sellafield no Reino Unido uma das piores fugas de sempre de material radioactivo: 20 toneladas de plutónio e de uranio diluídos em ácido nítrico. O acontecimento foi acompanhado de um relatório apresentado no Parlamento Britanico que indicava que a energia nuclear por fissao nao era a solucao, no entanto Blair pretende relancar o programa nuclear civil. No passado dia 12 ocorreu a segunda fuga em centrais nucleares em menos de um ano. Desta vez foram 40 litros de água contendo plutónio que foram vertidos pela central nuclear de Rokkasho no Japao. Aqui podemos ler o historial de acidentes em centrais nucleares ocorridos no Japao.

20 anos do acidente de Tchernobyl dia 26 de Abril

segunda-feira, abril 17, 2006

90 anos do levantamento de Dublin

A nao perder este dossier especial sobre os 90 anos do levantamento de Dublin no Irish Times.
O levantamento de Dublin em números aqui.

E´ triste verificar que 90 anos depois deste acontecimento a questao Irlandesa continua por resolver. A mentalidade imperialista ainda entranhada em certo meio político ingles é responsável em muito pelo único caso com contornos de colonialismo dentro do espaco continental da Uniao Europeia.

A Brigada do Reumático no Prós & Contras III

Ler: "Civilizacionistas pseudo-laicos contra clericais" pelo Ricardo Alves no Esquerda Republicana e "Conversa de conta bancária cheia" pelo David Luz no Linha dos Nodos.

sexta-feira, abril 14, 2006

A Brigada do Reumático no Prós & Contras II

Por estar fora do país nao me foi possível assistir ao último Prós e Contras (parece que o site da RTP nao guarda este programa), no entanto o comentário do José Medeiros Ferreira parece confirmar aquilo que aqui antevi sobre o programa, que o Cardeal Saraiva seria o mais progressista do painel...

quinta-feira, abril 13, 2006

A primeira da Venus Express

A primeira imagem enviada pela Venus Express que é também a primeira imagem registada do polo sul do planeta Vénus. A parte esquerda da imagem (preto e branco) mostra a face de Vénus onde é dia e a parte direita mostra a face de Vénus onde é noite. Clicar aqui para mais explicacoes.

Uma boa surpresa do Publico

Ontem de manha a Euronews passou a habitual revista dos principais jornais europeus do dia. Foi uma agradavel surpresa constatar que o Publico foi o único jornal europeu a colocar na primeira página a notícia da chegada da sonda Venus Express ao planeta Vénus. Costumo aqui criticar os meios de comunicacao nacionais por algum alheamento da ciencia, desta vez aqui fica o elogio.

quarta-feira, abril 12, 2006

Há baldes na Morávia 'a espera de voluntários


Foto ČT 24

Ontem passei o dia no sul da Morávia na República Checa, onde pela terceira vez num curto período de 10 anos (1997, 2002 e 2006) os rios transbordaram como nao há memória, destruindo parcialmente algumas vilas, aldeias e cidades da regiao. Pela terceira vez num curto período de 10 anos vai ser preciso reconstruir muita coisa de novo.

Aproveito para fazer um apelo ao espírito voluntaristas de alguns amigos bloguistas, sobretudo aqueles que acham que estes desastres sao simples flutuacoes estatísticas e que o aquecimento global é uma conspiracao europeia para derrotar os EUA, e ainda para todos aqueles que acham que este tipo de catástrofes devem ser resolvidas pelo voluntariado e nao pelo dinheiro do Estado que segundo os mesmo só deve ser gasto em prisoes, nas forcas armadas e para cunhar moeda para ser jogada na bolsa. Na Morávia há baldes com fartura, apenas sao precisos pares de bracos de genuínos voluntários para os carregar.

Questoes a que Venus Express deverá responder

Quais sao as características globais da atmosfera de Vénus?
Como circulam os gases presentes na sua atmosfera?
Como varia a composicao da atmosfera com a altitude?
Como interage a atmosfera com a superfície do planeta?
Como interage a alta atmosfera com o vento solar?

Como se pode adivinhar através deste conjunto de perguntas, a Venus Express vai estudar sobretudo a atmosfera de Vénus. Sendo Vénus um planeta muito parecido com a Terra em muitos aspectos, é muito oportuno no momento actual estudar um planeta onde existe um efeito de estufa extremo e perceber se algo de semelhante poderia ocorrer na Terra.