sexta-feira, fevereiro 10, 2006

ENRON: quando a mão invisível produz luz invisível

O filme "ENRON" descreve cruamente o fraudulento processo de construção de uma mega-central de produção de energia eléctrica em Dabhol na Índia. O mais interessante e sórdido desta história é que o objectivo principal da construção desta central não era iluminar bondosamente a casa dos indianos ou levar a electricidade aos sítios mais pobres da Índia, mas sim e apenas fazer subir as acções da ENRON na bolsa de valores através do anúncio do projecto e da construção da central na Índia, um país populoso e com carências energéticas. O projecto foi apresentado com pompa e circunstância com a ambição de iluminar toda a Índia. O efeito que este anúncio teve em Wall Street deu para cobrir largamente o que se gastou na construção da central na Índia. Hoje em Dabhol existe uma central eléctrica gigantesca, que se encontra fechada e que nunca funcionou, ocupando uma superfície considerável de terrenos expropriada à força a milhares de indianos. Ficou uma obra que faz lembrar os mais megalómanos projectos estalinistas, mas construída pelo liberalismo mais selvagem. Como tudo isto foi possível? A ENRON limitou-se a comprar alguns dos principais responsáveis pela energia do governo indiano, que deram carta verde a tudo. Outro dos pormenores sórdidos desta história é que o preço da electricidade a pagar caso esta central alguma vez funcionasse seria um dos preços mais caros do mundo. Para a ENRON seria tudo lucro.

Mais sobre o filme "ENRON: The Smartest Guys in the Room"

ENRON: contraditório (caixa de comentários)

Apesar da liberdade de expressão estar em saldos, aqui publicou-se com regularidade opiniões interessantes que eram deixadas nas caixas de comentários. Aqui vai a do JCD em jeito de contraditório à minha anterior entrada da ENRON:

"Admitindo que tudo isso seja verdade, o que está em causa é a regulação de mercado e não a desregulação. Num mercado desregulado, se a ENRON abusasse do preço, outros players pareceriam. Estas coisas só podem acontecer quando o estado está no caminho."

terça-feira, fevereiro 07, 2006

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Bola na rede

Comungo inteiramente da opinião da Joana Amaral Dias sobre o filme "Macth Point". De facto, a fórmula "pessoas bonitas a fazerem coisas horríveis umas às outras dá bilheteira". Mas há outra fórmula no filme que também dá bilheteira. É o fantasma do matador e da "bomba nuclear". Este é um fantasma masculino muito comum que podemos ver representado na cena de engate na sala de bilhar. O matador avista a "bomba nuclear", aproxima-se, electriza-a com um olhar fulminante, balbucia duas ou três frases fatais, e como ele é obviamente irresistível, ela entrega-se completamente ao matador. Ora, a probabilidade disto acontecer é muito baixa, quando muito apenas um famoso artista da rádio-tv-e-disco como o Woody Allen, poderia ter uma taxa de sucesso razoável utilizando a técnica do matador. É por isso que para o comum dos mortais a cena não passa da categoria de fantasma. Pelas razões do costume, este é um tipo de fantasma muito popular em países latinos (para não ir mais longe).

Exceptuando duas ou três cenas interessantes, também sou um dos que acha que o filme não é nada de especial, tem mais o mérito de quebrar um ciclo cinematográfico algo repetitivo de Woody Allen.

domingo, fevereiro 05, 2006

ENRON ou a mão invisível no seu melhor

"ENRON: The Smartest Guys in the Room" é um dos filmes incontornáveis de 2005. Eu diria mais, acho que toda a gente deveria ver este filme. Todos nós deveríamos ter a percepção das limitações e da impotência real dos trabalhadores, dos cidadãos, das cidades, dos estados, da política e até mesmo da justiça perante mercados sem regulação e sem intervenção das instituições que representam os cidadãos. Na história da gigantesca sucessão de fraudes perpetradas pela ENRON, houve um acontecimento fulcral que abriu via verde para o sucesso e o perpetuar das fraudes grosseiras da ENRON. Esse acontecimento foi o Estado da Califórnia deixar de regular o seu mercado da energia. A partir daí a mão invisível fez aquilo que faz melhor, que é concentrar a riqueza junto dos que estão mais bem colocados para o fazer (seja de forma racional ou irracional, legal ou ilegal, sustentável ou não sustentável, produzindo bens ou produzindo simplesmente vácuo). Com uma posição dominante no mercado da Califórnia, a ENRON fez disparar o preço da electricidade à custa de apagões intencionais inventando uma crise energética. Lembram-se da crise energética nos EUA em 2001? Pois bem, essa crise nunca existiu, foi tudo jogada da ENRON. Vale a pena ver o filme só para ouvir o nível das conversas telefónicas dos traders - jovens entre os 25 e os 35 anos - que gozavam e riam a bandeiras despregadas, como se tivessem a jogar numa playstation, enquanto ordenavam às centrais para cortar a electricidade, provocando apagões na Califórnia, apagões esses que causaram mortes, falências, desempregados, acidentes, demissões políticas e... a vitória de Schwarznegger, um caro amigo da ENRON.

(Farei mais comentários sobre este filme nos próximos dias)

sábado, fevereiro 04, 2006

Sábado em Coimbra XXVI: muros e muretes floridos

Se há algo que esta cidade tem de particular são os múltiplos muros e muretes, alguns floridos, que em vez de servir para separar servem para suster o relevo acidentado de Coimbra e que convidam os putos a saltá-los, os namorados a entrelaçar as pernas enquanto se beijam e as flores e as plantas a praticar rapel do mais radical. Do mercado municipal à Sé Nova, da Rua da Sofia à Cruz de Celas, da Portagem ao Departamento de Física, podemos desfrutar de muros de todos os tipos e feitios. Gosto particularmente do muro que serpenteia a Couraça de Lisboa, gosto do panorama para o rio e dos inúmeros quintais e escadarias estreitas que se escondem por detrás.
Um dia, um tipo muito provinciano que por aqui passou, chamado António Oliveira decidiu destruir uma das sequências mais poéticas de muros, muretes e pequenas escadas enfeitadas de árvores e flores, para deixar no seu lugar uma desértica e austera escada, apelidada de Monumental...


Sábado em Coimbra XXV

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

VPV vai acabar com o google e viver numa cabana

Esta entrada de Vasco Pulido Valente (VPV) contra o novo cartão do cidadão é um espelho da nossa incapacidade e do nosso atraso em acompanhar as rápidas transformações do mundo de hoje. VPV argumenta penosamente contra o novo cartão como se viesse aí um novo perigo para os direitos e as liberdades dos cidadãos. Vejamos:

1 - Este "rectângulo de plástico" NÃO reúne "quase tudo o que há a saber de relevante sobre um indivíduo". Existem outros rectângulo de plástico, chips electrónicos e códigos de barras que dão muito mais a conhecer do que é relevante sobre um indivíduo, tais como o cartão de crédito, o cartão do telemóvel, as máquinas dos parques de estacionamento ou o identificador de Via Verde.

2 - Ao contrário do que refere VPV não "basta carregar em meia dúzia de botões e uma pessoa fica instantaneamente nua". Cada serviço terá apenas acesso à informação a que tem direito. Não haverá nenhum serviço que possa ter informação a todos os dados simultaneamente. Para além disso, geralmente este tipo de cartões só permite o acesso aos dados mediante um código do conhecimento exclusivo do proprietário do cartão.

3 - Como o próprio VPV admite, o Estado não vai aceder a nenhuma nova informação sobre o cidadão. Outros cartões possuem já de forma directa ou indirecta parte das informações do cartão do cidadão. Através de um simples cartão de débito ou de crédito, um empregado bancário poderá saber não só alguns dos nossos dados pessoais, datas, moradas, nº de telefone, etc., como também a nossa actividade pessoal mais privada, se temos um leitor de DVD, se o comprámos em Andorra ou no Colombo, se transferimos dinheiro para um primo taxista que está na Suiça (quem trabalhou no Independente sabe bem que é assim), se pagámos uns vodkas no Elefante Branco às 4 da matina ou se somos assinantes do sítio internet da revista Hustler. O cartão do cidadão também não vai registar quem são os meus amigos, quando me contactaram e de onde me contactaram, dados esses registados pelo cartão do telemóvel e pelas inúmeras antenas dos operadores.

4 - O programa de espionagem americano ECHELON (e o seu sucessor) registaram e registam dados bem mais graves, como a actividade política, e ninguém parece importar-se em Portugal. Lembram-se de uma cidadã portuguesa que foi impedida de entrar nos EUA só porque foi arguida (e não condenada) no processo das FP25?

5 - Depois vê-se que VPV anda alheado da realidade: "Na América e na Inglaterra, ainda não existem documentos de identificação universal". Ora, o cartão do cidadão já foi anunciado por Tony Blair, logo tal como em Portugal ainda não existe, mas existirá. Hoje cada viagem aos EUA vale no mínimo uma fotografia e duas impressões digitais nos serviços de fronteira. E em breve será necessário um passaporte com mais dados biológicos do que a simples impressão digital.

6 - Neste país fala-se tanto em mobilidade e de versatilidade no mundo do emprego, mas quando chega a hora de facilitar a vida às pessoas mais dinâmicas e móveis deste país, arranja-se logo uma piconhice qualquer para manter o monólito burocrático que gangrena o serviço público e inferniza a vida dos cidadãos. Por exemplo, desde que voltei a Portugal em 2002 o tempo que perdi para actualizar e renovar documentos, pedir certidões e autorizações para me passarem certidões (!!!), equivale a cerca de um mês de trabalho. Só para legalizar o meu carro foram precisos 17 documentos e mais de um ano de idas estéreis de Coimbra ao serviço de Alfândega de Aveiro!!!

7 - No entanto, "basta carregar em meia dúzia de botões" e o google diz-nos coisas fantásticas sobre VPV (cerca de 28500 respostas!!!), coisa de fazer inveja a qualquer ambicioso cartão do cidadão.

A minha conclusão:
Hoje são tantos os sensores e câmaras que registam a nossa actividade que é impossível passar completamente anónimo no meio urbano. Se VPV teme assim tanto dispositivos do género do cartão do cidadão, o melhor que tem a fazer é abandonar as cidades. Talvez uma vida tranquila numa cabana no meio de uma floresta bem densa o coloque ao abrigo das novas tecnologias, mesmo assim é preciso ter cuidado com os satélites de observação. Não faltarão certamente muitos anos até um google Earth qualquer nos mostrar todas as cabanas deste planeta...

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

10 melhores filmes de 2005 no UbsK

A seguir no "Um blog sobre Kleist" os 10 melhores filmes de 2005. É uma tarefa que exige tempo, mas como o UbsK é um dos poucos blogues que vê muito mais do que apenas aquele cinema que está ali mesmo à frente do nariz, aqui haverá paciência para esperar.

terça-feira, janeiro 31, 2006

A face xenófoba do Islamismo

A face mais xenófoba do Islamismo (movimento político baseado numa interpretação radical do Islão, não confundir com a religião islâmica) revela-se no episódio que envolve a publicação de 12 caricaturas do profeta Maomé (ao lado: caricatura de Rasmus Sand Hoyer) pelo jornal dinamarquês Jyllands-Posten seguido do boicote de produtos dinamarqueses, ameaças de expulsão de diplomatas da Dinamarca de países islâmicos como a Arábia Saudita e de protestos dos movimentos islamistas mais radicais presentes na Europa. Ora, sabemos muito bem que na Arábia Saudita praticar outro culto que não seja o Islão dá direito a cadeia. Sabemos também que na Europa dezenas de famosos artistas de origem muçulmana (ex: Jamel Debbouze e Ramzy Bedia) caricaturam com toda a liberdade personagens ligadas a outras religiões como o Pai Natal, o Papa ou os Rabis, e ainda bem que o fazem. Logo, o que resta de todos estes protestos é a típica xenofobia do Islamismo que tem vindo a ser fortemente encorajado e apoiado pela Arábia Saudita. Além deste episódio existem outros da mesma índole que têm vindo a multiplicar-se. Há mais de 10 anos e muito antes dos recentes acontecimentos em França, todas as noites de Natal e Passagem de Ano são incendiados carros em grandes quantidades nas cités francesas. O que revela uma atitude claramente xenófoba da parte dos autores, visto o Natal e a Passagem de Ano não serem festas de tradição muçulmana. Outro conhecido episódio foi o hediondo assassinato de Theo Van Gogh que tem seguimento na perseguição da deputada holandesa Ayaan Hirsi Ali, co-autora do argumento do filme "Submission" que valeu a sentença de morte a Van Gogh, que a obriga a viver escondida sob constantes ameaças de morte.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Munich: o melhor e o mais europeu de Spielberg

Decorrida mais ou menos uma hora de filme e depois de perceber que estava até àquele momento a assistir a um Spielberg quase sem mácula, comecei a suar das mãos à espera daquele momento em que Steven Spielberg arruína totalmente o filme através de uma infantilidade qualquer só para agradar ao espectador americano mais básico. Lembrei-me da cena infantil e de mau gosto da pistola encravada em "A Lista de Schindler" ou do final absolutamente pateta do "Soldado Ryan" depois de mais de duas horas de reprodução histórica notável da II Guerra Mundial. Em "Munich" esse momento não aconteceu e Spielberg realizou finalmente um grande filme. "Munich" é um filme à europeia, que aliás conta com a participação de bons actores europeus (Yvan Attal, Mathieu Kassovitz, Daniel Craig, etc.), onde não há espaço para as habituais lições de moral tão típicas das películas políticas de Hollywood. Em "Munich", Spielberg interpela intencionalmente o espectador sobre o mundo de hoje tendo como referência os acontecimentos dos Jogos Olímpicos de Munique de 1972 e o seu impacto na política entre Israel e a Palestina. Será que mesmo quando temos a certeza absoluta de defendermos uma causa justa isso nos dá direito a praticar os actos mais ignóbeis em nome dessa causa? Até que ponto podemos menosprezar as consequências desses actos? Não serão as soluções utilizadas hoje na luta contra o terrorismo uma repetição em mais larga escala de soluções tentadas e falhadas no passado? É o próprio Avner que nos formula esta pergunta quando interpela o seu superior da Mossad sobre o sucesso da operação "A Ira de Deus". Em dois segundos de filme Avner faz-nos viajar vertiginosamente no tempo, de 72 até hoje, até à eleição do Hamas...

Relacionado: "Histoire secrète du Mossad", um livro muito suspeito do jornalista Gordon Thomas que desmente algumas cenas de Munich, muito provavelmente escrito por encomenda.

domingo, janeiro 29, 2006

Porque é que o Islamismo triunfa por todo lado?

É a pergunta colocada pela edição francesa da Courrier International. Nas últimas eleições realizadas no Egipto, Iraque, Irão, Turquia e Palestina registaram-se vitórias ou subidas significativas dos movimentos islamistas. Só para termos uma dimensão da escalada destes movimentos, aqui ficam os números dos representantes islamistas presentes nos vários parlamentos:

- Turquia: 357 deputados do AKP em 546 eleitos;
- Irão: 190 deputados em 290;
- Iraque: 203 deputados em 275;
- Jordânia: 17 da Frente de Acção Islâmica em 110;
- Líbano: 12 deputados do Hezbollah em 128 ;
- Israel: 2 em 10 na minoria árabe para um total de 120 deputados;
- Egipto: 88 deputados dos Irmãos Muçulmanos em 444;
- Koweit: 16 deputados em 50.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

A democratização do Médio Oriente e arredores

Desde que a Administração Bush começou a planear a estratégia da democratização do Médio Oriente através da libertação do Iraque, as coisas não têm cessado de melhorar. Começou logo pela Turquia. O povo Turco certamente inspirado pela boa nova do aliado Americano elegeu um dos governos mais democráticos dos últimos anos. A seguir foi o Irão a dar o exemplo. A eleição desse grande democrata Mahmoud Ahmadnejad teve indubitavelmente a preciosa ajuda da nova estratégia de democratização do mundo. Esta semana coube a vez à Palestina escolher mais um campeão da democracia, do Hamas. Até a Arábia Saudita, o top da democracia do planeta, decidiu brincar às eleições, mas é tudo a brincar e a seguir fica tudo como era dantes, não se vá perder algum valor democrático.

Quando se discutiu a libertação do Iraque, muita gente que conhece o mundo avisou para o perigo da estratégia de democratização do Médio Oriente causar o efeito contrário. Na altura, tinha dois colegas libaneses no laboratório onde trabalhava que me diziam exactamente a mesma coisa. Mas, grandes comentadores (sem dúvida nenhuma conhecedores do Médio Oriente) logo ripostaram dizendo que os avisos eram muito pretenciosos, eram próprios de quem tinha a mania de que sabia como os árabes pensavam e que a realidade era outra. Eu calei-me logo, que a pretensão é um pecado semi-mortal. Hoje só lhes posso dar razão, de facto aquilo é que é democracia exemplar ali para os lados do Médio Oriente.

Andei à procura da definição de democracia
Encontrei-a aqui logo na primeira frase desta crónica do Abrupto. E confere. A frase diz-nos que em Portugal excepto aqueles três partidos (CDS, PSD e PS), todos os outros não são democráticos, o que vai do BE ao PPM. É exactamente esta a democracia dos partidos que governam o Irão e a Turquia. Os representantes desses partidos chegam a uma tribuna e proclamam "este, este e aquele partido são democráticos. Os outros não!".

Diplomata britânico sobre a tortura de prisioneiros pela CIA

Neste artigo do Le Monde podemos ler algumas das declarações de Craig Murray, ex-diplomata britânico no Uzbequistão entre 2002 e 2004, sobre a transferência e a tortura de prisioneiros por parte da CIA:

"j'ai eu la preuve que les Etats-Unis avaient transféré vers l'Ouzbékistan, pour qu'ils y soient interrogés, des prisonniers en provenance de la base de Bagram en Afghanistan."

"Lorsque j'exerçais mes fonctions au Foreign Office, j'ai vu des documents de la CIA dont le contenu provenait pour la plupart de dépositions de prisonniers torturés. Ces documents étaient intitulés "From Detainee Briefing " (Provenant d'une déclaration de détenu) sans que les conditions dans lesquelles cela avait été fait ne soient précisées (...) [Ceci] permet à des gens comme Condoleeza Rice ou Jack Straw de prétendre que, à leur connaissance, ils n'ont jamais fait usage d'informations recueillies sous la torture. En réalité, c'est faux. Au niveau opérationnel, au niveau du travail sur le terrain, chacun sait très bien comment ces information sont obtenues"

quinta-feira, janeiro 26, 2006

E a culpa da derrota da esquerda vai para...

... não sei, não tenho a certeza, nem tenho qualquer tipo de poder divino que me permite identificar O culpado ou OS culpados.
A certeza que tenho é que faltou conteúdo político à esquerda nestas eleições e essa lacuna pode explicar em parte o resultado. Faltaram sobretudo ideias novas à esquerda e faltou diversidade política em relação a recentes eleições. A esquerda apresentou, nada mais, nada menos, que três candidatos repetentes: Soares, Jerónimo e Garcia Pereira. Como temi no momento em que foram anunciadas estas candidaturas, daqui não veio nada de novo. Soares foi o mesmo dos últimos anos, desde o seu mandato de eurodeputado, é um político que acompanha pouco o que de interessante vai acontecendo na política, repete ideias batidas, foi a um Fórum Social, foi a Davos e voltou de lá com o discurso da mediana. O meu hipotético presidente de esquerda tem que surfar mais perto da crista da onda, porque este país já é atrasado que baste. De Jerónimo e de Garcia Pereira veio o habitual zero de novidade política.

Quanto a Louçã, apesar de não ser repetente vinha de duas voltas ao país em outras tantas campanhas. É certo que Louçã foi o que esteve melhor nos debates a dois, isto porque é um dos poucos políticos nacionais que leva a sério a sua preparação política, Louçã estuda, é disciplinado e é rigoroso. Aquilo não é dos treinos nas "reuniões trotskistas em que se debate até à exaustão" como fantasiou Pacheco Pereira no Público. Muitas das reuniões trotskistas em Portugal até são bem fraquinhas, discute-se mais a vírgula do estatuto X e o terceiro suplente da lista Y. Mas os bons debates de Louçã não conseguiram eliminar uma sensação de déjà vu que se instalou entre algum do eleitorado do Bloco. Uma parte do eleitorado BE gosta de diversidade e de plasticidade política. Por muito que se goste de Louçã, muitos preferiam ver a área do Bloco representada por outros personagens, talvez com menos brilhantismo que Louçã, mas que trilhassem novos canais de debate político. Depois pesou em tudo isto o profundo conhecimento mútuo do discurso e do passado de Louçã, dos candidatos repetentes de esquerda e do repetente de direita. Restava a novidade Alegre...

A candidatura de Alegre poderia ter um efeito refrescante nestas eleições, mas não teve. Foi uma desilusão. Foi um retrato do que há de mais conservador no PS. Uma esquerda com tiques anti-europeus e de um nacionalismo inconsequente. Domingo, antes de saírem os resultados, já tinha decidido que não iria às urnas se houvesse segunda volta. Não voto em políticos de esquerda que proferem o que Alegre profere sobre a Europa. É sinal de que não percebe nada do que é hoje o mundo, e um político que não percebe minimamente o que se passa no mundo não pode ser presidente de um país.

O que faltou nestas presidenciais?
À esquerda faltou vanguardismo, faltou ambiente, faltou ordenamento do território, faltou regionalização, faltou laicidade e sexualidade, faltou ciência e tecnologia, faltaram as grandes questões internacionais essenciais a uma presidência, faltou Europa, faltou debater o Modelo Social Europeu, faltou ONU, faltou NATO, faltou o debate sobre o Exército Europeu, faltou PALOP e faltou uma campanha assente num programa e não no ataque ao pecadozinho político do adversário.
E faltaram outros candidatos... Arrisco tardiamente estes nomes que poderiam ter tornado o debate bem mais interessante: Assunção Esteves (PSD), Lobo Xavier (CDS), Carlos Amaral Dias (bastava trocar com Soares na respectiva candidatura) e José Manuel Pureza (BE). Há também uns bloguistas que dariam bons candidatos, mas recuso-me por enquanto a engraxar-lhes o ego.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Descoberto planeta similar à Terra

A descrição da descoberta e do exoplaneta OGLE-2005-BLG-390Lb pode ser consultada neste sítio da ESA.

O novo Bernard-Henri Lévy

Acabadinho de sair.
Enquanto não me chega às mãos aqui fica uma parte do comentário do editor:

" What does it mean to be an American, and what can America be today? To answer these questions, celebrated philosopher and journalist Bernard-Henri Lévy spent a year traveling throughout the country in the footsteps of another great Frenchman, Alexis de Tocqueville, whose Democracy in America remains the most influential book ever written about our country.

The result is American Vertigo, a fascinating, wholly fresh look at a country we sometimes only think we know. From Rikers Island to Chicago mega-churches, from Muslim communities in Detroit to an Amish enclave in Iowa, Lévy investigates issues at the heart of our democracy: the special nature of American patriotism, the coexistence of freedom and religion (including the religion of baseball), the prison system, the "return of ideology" and the health of our political institutions, and much more. He revisits and updates Tocqueville’s most important beliefs, such as the dangers posed by "the tyranny of the majority," explores what Europe and America have to learn from each other, and interprets what he sees with a novelist’s eye and a philosopher’s depth."

A guerra preventiva... pelo emprego!

"Préventivement" é a palavra-chave do excelente filme "Le Couperet" de Costa Gavras e que é proferida logo no primeiro diálogo do trailer do sítio oficial deste filme. Bruno é um engenheiro altamente qualificado que se vê subitamente no desemprego. Bruno tenta encontrar uma nova empresa onde possa oferecer os seus préstimos, mas não é fácil, o seu curriculum é muito específico e as vagas nas empresas acontecem a conta-gotas. Mas os concorrentes de Bruno são também muito poucos, tal é o nível de especialização. Bruno tem a ideia de elaborar uma lista de todos aqueles que tal como ele estão no desemprego e que o poderiam bater no confronto directo dos curricula. Inspirado pelos novos tempos, Bruno decide eliminar todos os engenheiros que teoricamente estão à sua frente... preventivamente!

"Le Couperet" é uma espécie de policial-social, de um humor negro refrescante, recheado de cenas surpreendentes e bem pensadas, onde nada é banal e gratuito. José Garcia interpreta brilhantemente Bruno e inicia aqui possivelmente uma nova fase da sua carreira, desta vez marcada pela qualidade que aliás o recente filme "Caixa Negra" parece confirmar. Julgo que este filme ainda não passou em Portugal e temo que não passe (as chachadas da Disney e de Hollywood consomem muita sala), por isso direcciono-vos já para o DVD, ou então chateiem a cabeça ao director do vosso cineclube mais próximo. Seria uma pena perder este filme.

terça-feira, janeiro 24, 2006

A deslocalização da tortura

Dick Marty, relator da Comissão que está a investigar as detenções secretas de presumíveis terroristas na Europa por parte da CIA, apresentou hoje um relatório preliminar que contém passagens muito graves:

"Il a été prouvé, et jamais démenti que des personnes ont été enlevées, privées de leur liberté et transportées […] en Europe, pour être remises à des pays où elles ont été [...] torturées."

"A travers toutes ces informations et ces nombreux témoignages concordants, on peut affirmer qu’il existe de très nombreux indices, cohérents et convergents, qui permettent de conclure à l’existence d’un système de «délocalisation» et de «sous-traitance» de la torture. Les actes de torture, ou d’atteintes graves à la dignité des détenus en leur administrant des traitements inhumains ou dégradants, sont effectués en dehors du territoire national et en dehors de l’autorité des services secrets nationaux."

Se o autor destas violações fosse um banal país europeu ou uma pseudo-potência asiática caía-lhe logo tudo em cima. Como são os EUA vamos ouvir os comentadores do costume a negar ou desculpabilizar tudo, fazendo letra morta das mesmas leis que servem para que eles possam ter uma vida descasada e confortável nos respectivos países.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

On a oublié l'investissement primordial: l'école

O penúltimo parágrafo deste artigo do Figaro sobre as eleições em Portugal faz um resumo certeiro do nosso mal:

"En vingt ans, même si le niveau de vie général a bien augmenté, même si l'on a construit tous les ponts ou autoroutes possibles ici et là, on a bel et bien oublié l'investissement primordial, celui qui fait toute la différence entre le tiers-monde et le monde développé : l'école."

O Borda d'Água Global

Se existisse um Borda d'Água para todo o planeta, seria algo mais ou menos assim. Portanto já sabem, se abrirem o frigorífico e sentirem frio é porque o aquecimento global não existe, é a confirmação inequívoca de que todas as instituições internacionais ligadas à climatologia estão erradas.

domingo, janeiro 22, 2006

Portugal ultrapassado pela República Checa

Segundo a última estatística do PIB per capita (PPC) emitida pelo Eurostat, a Rep. Checa com um resultado de 72,7% da média da UE em 2005 ultrapassou Portugal com apenas 71,1%. Apesar destes números serem apenas previsões, o último PIB per capita calculado em conjunto com a taxa de crescimento do PIB de cada país não deixam espaço a milagres, os valores reais, mais décima menos décima, colocarão Portugal atrás da Rep. Checa. As previsões do Eurostat para 2007 pioram ainda mais o cenário, nesse ano Portugal registaria 68,9% da média da UE e a Rep. Checa 75,9%.
Obviamente que o PIB per capita não é um indicador absoluto da qualidade de vida dos cidadãos de um país, mas neste caso mostra bem o estado de letargia em que nos encontramos. É por estas e por outras que considero que nestas presidenciais se perdeu uma boa oportunidade para debater em profundidade as soluções para ultrapassar a estagnação e o atraso do país. Infelizmente, acha-se mais piada debater as guerras internas do PS com Alegre, se Cavaco fala muito ou pouco de economia e a idade de Soares. Enfim...

Reacções na Rep. Checa
Neste artigo publicado no sítio internet do governo checo dedicado à União Europeia, o autor Vaclav Lavicka constata o feito da economia checa mas alerta que a Rep. Checa não se deve comparar com países como Portugal. Lavicka considera que Portugal se encontra encalhado num fosso económico e aconselha a Rep. Checa a comparar-se com outros países: a Eslovénia, a Áustria ou até a Alemanha.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Presidenciais pobrezinhas II

Exceptuando o período dos debates a dois, o conteúdo do restante debate destas presidenciais foi muito fraquinho. Observei consternado como temas importantes de influência presidencial foram apenas aflorados, sendo o debate fortemente marcado pelos pecados dos candidatos (a traição, a idade, falar de economia, etc.) e pela lavagem de roupa suja do passado. A constelação de "cromos repetidos" que se apresentou às presidenciais deixava antever este tipo de conteúdo político, como aqui tinha alertado. Ainda houve uns frequentes "agora não falo do passado", mas os candidatos não resistiam à pergunta seguinte, era mais forte do que eles, e prontamente no mesmo minuto lembravam um episódio passado.

Considero tudo isto lamentável num país que se encontra estagnado e atrasado. Ficou assim por debater seriamente e com profundidade o papel do Presidente em assuntos importantes como as soluções para combater a estagnação. Vamos continuar a apostar na mão-de-obra barata e na redução de impostos ou vamos apostar na qualificação, na qualidade, na especialização, na ciência e na tecnologia? Vamos continuar a ser um país ultra-centralista ou vamos optar por uma regionalização democrática e efectiva? Sobre as soluções para as grandes questões do nosso atraso falou-se muito pouco. Dá a sensação que achamos normal sermos o país com menores qualificações da Europa (de longe!), o país onde ainda existe um défice de laicidade e de respeito pelas mulheres, onde os imigrantes esperam anos para obter o mais simples documento, onde o ordenamento do território é rigorosamente terceiro-mundista e onde por dois tostões se destrói património histórico ou natural para construir um caixote de 9 andares. Há que juntar a tudo isto as questões internacionais que ficaram por debater. Qual o nosso papel na UE, na ONU, na NATO ou na comunidade PALOP?

Putas na estrada e a "Europa neo-liberal"
Houve momentos em que fui fulminado pelo conservadorismo do debate, sobretudo à esquerda. Cavaco não me surpreendeu, foi o mesmo de sempre, exceptuando duas ou três tiradas para piscar o olho ao eleitorado de centro-esquerda. Mas as posições dos candidatos de esquerda sobre a prostituição fizeram corar de vergonha aquela pequena bandeira nacional que tenho cá dentro de mim. Tirando Louçã, para o resto da rapaziada de esquerda é "putas à beira da estrada" e não se fala mais em bordéis em nome dos direitos humanos. Está bem... Lembro apenas que esta semana foram legalizadas associações de senhoras que se prostituem no Reino Unido e aumentadas as penas ao proxenetismo. Estamos na crista da onda, tal como na questão do aborto, está visto!
Depois há questão já recorrente de alguma esquerda mal informada que gosta de classificar a UE como neo-liberal. Alegre lembrou-se dessa para se demarcar de Soares e juntou-lhe algumas pitadas de patriotismo que já não se usa na esquerda desde o Maio de 68. Ora, a ser verdade que a UE é neo-liberal, então o planeta é ultra-liberal! Onde é que há direitos sociais, tempo de férias, horários de trabalho e assistência médica como existe na Europa? Será na América do Sul das desigualdades? Será na África da exploração? Será na Ásia das 12 horas diárias de trabalho? Será nos EUA dos 20% de habitantes sem cobertura médica e quase 1% na cadeia? Talvez no Canadá... Ou será no nosso miserável país? Já agora porque é que os maiores neo-liberais da Europa são anti-europeístas e são contra o Tratado Constitucional? Além disso, alguém tem que explicar ao homem que a UE já é federalista há muitos anos - ainda antes da nossa adesão - e que a corrente federalista europeia é a que defende o reforço do Parlamento Europeu (logo da cidadania) ao contrário da corrente soberanista que defende mais o Conselho Europeu (onde estão os neo-liberais e os nacionalistas). À custa destas posições euro-cépticas muito mal informadas, Alegre está a conseguir tirar-me a vontade de ir às urnas na segunda volta, se a desgraça for adiada para essa ocasião obviamente.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

A importância da data de lançamento da New Horizons

Para que a sonda New Horizons leve apenas 10 anos a chegar a Plutão é necessária a assistência gravitacional do planeta Júpiter. Para que tal aconteça é preciso que Júpiter e Plutão se encontrem em posições relativas bem precisas. Assim, a New Horizons deverá ser lançada até ao próximo 27 de Janeiro para poder fazer uma viagem de 10 anos até Pultão. Se passar essa data, chegará um ano mais tarde. E se o lançamento ocorrer depois de 31 de Janeiro, demorará mais dois anos. A partir de dia 3 de Fevereiro, a assistência gravitacional de Júpiter não será mais possível e a sonda só chegará a Plutão lá para 2020.
Há três dias que o lançamento da sonda tem sido adiado, vamos lá ver se é hoje.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Há 4 anos sem aumento

Desde que voltei a Portugal para trabalhar como bolseiro de pós-doutoramento em Coimbra ainda não fui aumentado uma única vez! O montante da bolsa não é mau para o nível de vida de Coimbra (Lisboa já é outra história), mas comparado com o que se paga no resto da Europa (já nem falo dos EUA) temos vindo a perder terreno perigosamente. Volta a existir uma pressão para sair do país, dado que tudo o resto no meio científico nacional é em geral pior e até hostil aos inúmeros investigadores que tentam voltar ao país. Quatro anos depois, compreendo melhor a violência das críticas do João Magueijo à investigação nacional. Ele tem muita razão.

Por isso apoio inteiramente a iniciativa de hoje da ABIC (Associação dos Bolseiros de Investigação Científica) em que se reivindicam 7 medidas urgentes, que não são nada de complicado e melhoram bastante as nossas vidas. No fundo são condições que já se praticam noutros países europeus há alguns anos, mas que em Portugal continuam por actualizar. O exemplo mais caricato é o regime descontos para a Segurança Social a que estamos sujeitos, que é equivalente ao desconto de um trabalhador que ganha o salário mínimo... Já nem falo aqui das mil e uma situações miseráveis e degradantes a que estive sujeito só porque não tenho declaração de IRS, isto porque as bolsas do Ministério não contam para o IRS.

Presidenciais pobrezinhas

Revejo-me no retrato pouco animado e triste do Bruno (Avatares) e da Isabel (Aba de Heisenberg) sobre estas presidenciais. Num momento em que a economia do país está estagnada e em que Portugal continua a ser um país europeu atrasado do ponto de vista cultural, educacional e científico, estas presidenciais eram demasiado importantes para serem deixadas a candidatos que não centrassem o discurso sobre os desafios futuros, a modernização e o desenvolvimento do país, independentemente da área política. Mas aconteceu o contrário. Vão ser cinco anos de travessia do deserto. A estagnação vai ter mais um aliado: o próximo Presidente da República.

terça-feira, janeiro 17, 2006

Se estivéssemos em Plutão...

- Veríamos o Sol do tamanho de Vénus visto da Terra, seria difícil distingui-lo no meio das restantes estrelas.
- Ficaríamos hirtos e firmes, e congelados com os -240°C.
- Ao olhar para o seu satélite Charon, veríamos um corpo no céu sete vezes maior que a Lua vista da Terra.
- Com sorte talvez conseguíssemos avistar as duas luas adicionais que se julga possuir Plutão.

segunda-feira, janeiro 16, 2006

A melhor fotografia de Plutão



A fotografia (tratada) foi obtida pelo Telescópio Espacial Hubble em 1994 e mostra os dois hemisférios do planeta Plutão. Se tudo correr como previsto, daqui a 19 horas a New Horizons iniciará a sua longa viagem até Plutão onde deverá chegar a 14 de Julho de 2015, para captar imagens deste planeta como nunca foi visto.

Esta é uma das imagens iniciais de Plutão, ainda sem tratamento, em bruto (ver sítio da NASA):

domingo, janeiro 15, 2006

Poeira de estrelas e viagens a Plutão

Enquanto se discute se o "deputado" Alegre deveria ou não rasgar o cartão do partido, se Soares usa ou não Viagra, se Louçã deveria ir para padre e se Cavaco só sabe de economia, há coisas importantes a acontecer no mundo:

- Chegaram do espaço duas colheres de café de pequeníssimos fragmentos do cometa Wild 2 e de poeira interestelar;

- Dentro de dois dias será lançada a primeira missão ao planeta Plutão.

sábado, janeiro 14, 2006

Marte Ataca ou a melhor "versão" da Guerra dos Mundos

Costumo classificar "Marte Ataca" de Tim Burton como a melhor versão do romance "A Guerra dos Mundos" de H.G. Wells. Diga-se de passagem que Wells escreveu outros romances e contos de ficção científica bem mais interessantes (ex: "A Máquina do Tempo" ou "A Ilha do Dr. Moreau") do que esta guerra impiedosa em que os marcianos acabam todos fulminados pelas doenças terrestres. Tanta tecnologia bélica e nem sequer tinham feito uma reles análise ao ar terrestre antes de se aventurarem a partir a loiça toda aqui no planeta azul. O mérito de Tim Burton é que em vez de se limitar fazer mais uma pobre versão do referido romance, Burton tomou como ponto de partida o conceito geral do romance e avacalhou-o deliciosamente. Na versão de Burton são os sucessos de Tom Jones que fulminam os marcianos com muito maior eficácia que qualquer gripe das aves. De facto Tom Jones não é uma ave qualquer, é uma ave rara capaz de surpreender qualquer incauto marciano. Além do mais do ponto de vista científico parece-me muito mais consistente que sejam cantores como Tom Jones, Julio Iglesias, Vítor Espadinha, Toto Cotugno, Johnny Halliday, Anton aus Tirol ou Karel Gott (esta é para os checos) a dizimar os marcianos através do planeta do que qualquer miserável vírus ou bactéria como acontecia no romance de H.G. Wells.

It's not unusual to be loved by anyone
It's not unusual to have fun with anyone,
but when I see you hanging about with anyone
It's not unusual to see me cry,
oh I wanna' die!


"It's Not Unusual", Tom Jones

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Calendário Ciel & Espace

Como já vem sendo hábito, a Ciel & Espace oferece a quem compra a sua edição de Janeiro um belo calendário do ano que começa, onde constam também os principais eventos astronómicos. O mês de Janeiro mostra-nos as colinas de Columbia em Marte, fotografadas pelo Spirit. Agora é só escolher uma parede para contemplar Marte, Saturno (Fevereiro) e os astros que vêm a seguir até 2007. A grande vantagem deste calendário em relação ao da Pirelli, é que se pode afixar em todo lado sem fazer corar ninguém.

domingo, janeiro 08, 2006

Eureka - soirée Thema na Arte

A partir das 19.40 a ARTE brinda-nos com uma soirée THEMA intitulada "Eureka" dedicada à descoberta científica. A soirée THEMA inicia com um filme sobre a vida de Marie Curie e termina com um documentário sobre o inventor das lentes de contacto, o checo Otto Wichterle. É mais um exemplo de serviço público do melhorzinho que há. Para quando um canal deste nível em Portugal ou na Península Ibérica?

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Um bom Prós & Contras (actualização)

O último Prós & Contras que teve como participantes Filomena Mónica, Miguel Portas, Pacheco Pereira e o Professor Boaventura foi um bom Prós & Contras, como já não se via há muito. Fez-me lembrar os debates organizados pelas televisões francesas em que o nível anda geralmente no bom. Os debates das presidenciais poderia ser algo deste género, a este nível e debatendo o mesmo tipo de assuntos dentro do âmbito da Presidência da República. Mas foram menos interessantes. Na minha opinião isso explica-se pelo nível médio dos candidatos presidenciais, que no meu entender é mais baixo do que o nível médio dos participantes no último Prós & Contras.

O debate do Prós & Contras valeu pela actualidade e pela qualidade da argumentação, é verdade que houve momentos passíveis de serem considerados demasiado intelectuais para um debate de grande audiência, mas esses momentos são essenciais ao debate público de um país. O problema é estarmos demasiado imersos em retórica bastante superficial. São frequentes os debates nas televisões portuguesas em que predomina a conversa de café, os clichés, a frase feita, o "eu pago e os outros não", o "eu sei e os outros são burros" e a experiência pessoal que se generaliza ao arrepio da estatística mais básica. Fátima Bonifácio, professora universitária, e o seu "dantes é que era bom" é o exemplo típico desta pobreza argumentativa que valoriza três exemplos da vida pessoal em detrimento de estudos académicos. Neste debate também foram citadas experiências pessoais, mas quase sempre enquadradas por resultados de estudos realizados por instituições competentes. Citaram-se também frases isoladas de autores clássicos e modernos, mas foram enquadradas no contexto de épocas e de movimentos precisos. É mais ou menos isto que faz o bom debate. É a ligação consistente entre a argumentação mais abstracta ("intelectual") e os exemplos mais pessoais ou comuns.

Sobre o conteúdo do debate espero ter tempo para lhe dedicar mais umas linhas, pois houve coisas muito importantes que foram ditas e que merecem ser analisadas.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Afonso! Tire a chupeta da boca!

Gosto das pronúncias regionais (do Norte, do Alentejo, do Algarve, de Lisboa, da Madeira, etc.), gosto até desse lisboês com aspirações de ascensão ao jet-set local em que os pais tratam os putos por você. A sério, acho aquilo com muito mais piada que a pronúncia cerrada da Beira Alta e não tenho absolutamente nada contra. Acho que faz parte dos carreiros e das encruzilhadas da evolução da língua.

Vem isto a propósito de um passeio recente por terras alentejanas em que dei por mim enfiado em restaurantes apinhados de famílias lisboetas razoavelmente endinheiradas. O Afonso, o António, o Gonçalo, a Madalena e o Francisco eram putos talvez entre os 3 e os 12 anos de idade que infernizavam um desses restaurantes com berros e correrias, cujos pais tentavam desesperadamente conter, também aos berros, tratando os putos por você. Provavelmente muitos dos meus leitores já assistiram a cenas destas, mas eu confesso que foi a primeira vez. Aquilo é giro que se farta. Mas depois vem a parte mais provinciana da história. Cada vez que os empregados (alentejanos) entravam na sala só se ouvia shotor para aqui e shotora para ali: "O shotor quer mais um bocadinho de molho" ou "Shotora, gostou da baba de camelo?". Aquilo via-se logo que eram mesmo shotores dos autênticos... Olhei para aqueles putos reguilas, para o Afonso e para a Madalena com lula pendurada por cima da chupeta, e imaginei-os daqui a uns anos condenados a serem tratados por shotores e por shotoras assim que entrarem para o primeiro ano de um curso de uma universidade privada qualquer onde se compram exames ao quilo.
O respeitinho é muito lindo e de pequenino é que se torce o pepino.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Mais Ficção Científica (caixa de comentários)

Foram-me deixadas na caixa de comentários da entrada anterior algumas sugestões de ficção científica. Aqui ficam as ligações dos filmes para mais tarde discutir:

"Mulher na Lua" – Fritz Lang
"O Planeta Proibido" - Fred M. Wilcox (nunca o vi do princípio ao fim, mas pareceu-me interessante)
"La Jetée" - Chris Marker
Sugestões do Bruno BD (Projector Lunar)


"The Thing" - John Carpenter
"Code 46" - Michael Winterbottom
"Primer" - Shane Carruth
"Ghost in the shell" - Mamoru Oshii
Sugestões do Nuno Guerreiro

"Strange Days" - Kathryn Bigelow
Sugestão de Hipatia, (Voz em Fuga)

O "Matrix" foi um daqueles filmes que vi e esqueci. Torrou-se ali muito dinheiro em vão. Vi o "Dune" quando era muito jovenzinho, tenho que o rever, é mais um dos essenciais.

terça-feira, dezembro 27, 2005

Os meus filmes preferidos de Ficção Científica

Aproveitando a onda do Ano Internacional da Física fui divulgando na minha rubrica semanal Klepcinema alguns dos filmes de ficção científica que me parecem mais interessantes. O interesse que atribuo a alguns desses filmes não se resume apenas à temática científica em si. O carácter visionário de alguns filmes, a forma como um enredo científico encaixa noutros estilos cinematográficos, o talento do realizador e dos actores e a relação qualidade/custo do filme são aspectos que também foram considerados. Aqui vai a minha lista mais ou menos por ordem de preferência:

Contacto (1997) Robert Zemeckis
Abre os Olhos (1997) Alejandro Amenábar
2001: Odisseia no Espaço (1968) Stanley Kubrick
Planeta dos Macacos (1968) Franklin J. Schaffner
Metrópolis (1927) Fritz Lang
Até ao Fim do Mundo (1991) Wim Wenders
eXistenZ (1999) David Cronenberg
A Ilha (2005) Michael Bay
Sinais (2002) M. Night Shyamalan
Invasion of the Body Snatchers (1978) Philip Kaufman
Marte Ataca (1996) Tim Burton
Minority Report (2002) Steven Spielberg
Alien, o Oitavo Passageiro (1979) Ridley Scott
Encontros Imediatos do 3º Grau (1977) Steven Spielberg
Blade Runner (1982) Ridley Scott

Devo referir que não vi o filme "Solyaris", o original russo de 1972, eu sei que é uma lacuna grave, mas tenho andado a tentar caçá-lo nos clubes vídeo e nas salas de cinema que frequento.

sexta-feira, dezembro 23, 2005

As novas moedas de Euro da Eslováquia

Saiu o resultado do concurso do motivo para as moedas de Euro da Eslováquia que entrarão em circulação em 2008:



A cruz da evangelização da Eslováquia do tempo de Cirilo e Metódio (2 e 1€). O castelo de Bratislava (10, 20 e 50 cêntimos de euro). E o pico de Kriván dos baixos Tatras (1, 2 e 5 cêntimos de euro).

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Obesidade infantil na TSF

Esta reportagem que tem passado na TSF sobre a obesidade infantil é simultaneamente notável e assustadora. É assustadora a irresponsabilidade de pais e avós. Quem paga as favas da falta de cultura e de educação de um povo são os putos, putos diabéticos aos 7, 8 anos de idade...

terça-feira, dezembro 20, 2005

M. Portas sobre JPP sobre Louçã

Este artigo do Miguel Portas sobre a análise de Pacheco Pereira (Publico 15/12/2005) ao desempenho de Louçã nos debates das presidenciais é muito interessante e muito certeiro sobre vários aspectos. De facto, a reconstrução da identidade política dos "jovens dos idos da revolução que percorreram a estrada que os levou da esquerda para o centro e/ou a direita" não é um processo fácil. Por exemplo, os sucessivos equívocos do Abrupto sobre a ETA e Louçã (ler 15:33 e 16:19, 11/3/2004, Abrupto) aquando dos atentados de Madrid ilustram na perfeição a análise de Miguel Portas sobre o carácter da crítica de JPP a Louçã, nomeadamente quando Portas refere os comentários introduzidos a martelo sobre a Venezuela e a Líbia na crítica a Louçã.

O mesmo tipo de análise é aplicável mas com mais pertinência a outros cronistas, talvez José Manuel Fernandes seja o caso de maior visibilidade e cujo o moralismo é o mais radical sempre que confrontado com antigos companheiros de estrada que fizeram outras escolhas perante as mesmas bifurcações políticas.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Planeta dos Macacos

"O Planeta dos Macacos" não é um filme de ficção científica qualquer. Trata-se do primeiro filme importante que confronta o homem com a sua extinção cultural consumada simultaneamente com o seu domínio por outra espécie, os macacos. Apesar de ser explicado ao longo das quatro sequelas do filme as razões do declínio da espécie humana, Taylor (Charlton Heston) nunca saberá como a espécie humana chegou àquele ponto. Os humanos tornaram-se uma sombra do que eram, não há nada a fazer, é irreversível e pior que tudo Taylor não sabe nem como nem porquê. O seu ajoelhar na praia na cena final reflecte tudo isso. Pior que perder, é não saber porque se perde.

A componente científica do filme, nomeadamente a viagem no tempo, não compromete o desenrolar da história, o que nem sempre acontece na ficção científica. Obviamente, o mais recente "Planeta dos Macacos" de Tim Burton é muito mais sofisticado na caracterização do modo de vida dos macacos porque os efeitos especiais modernos o permitem, nomeadamente a arquitectura urbana vertical própria de uma espécie arborícola. Mas Burton peca no excesso de espectacularidade, na sofisticação das armas e nas explosões. O confronto à base de carabinas numa das cenas finais do filme original tem muito mais charme do que as monumentais explosões apresentadas por Burton.

França: após o caos, a mobilização

A primeira reacção importante aos motins das cités é esta campanha de apelo à mobilização para a inscrição nos cadernos eleitorais de todos os jovens em idade de votar. Para que estes jovens possam votar nas próximas presidenciais francesas é necessária a inscrição até ao final de Dezembro. A iniciativa que é apadrinhada por uma série de figuras mediáticas (como Jamel Debbouze, Jean-Pierre Bacri, Lilian Thuram, etc.) está a lançar um debate mais profundo sobre as causas dos motins e sobre as possíveis soluções.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Sobre a avaliação dos manuais escolares

Como investigador sou avaliado a pente fino de três em três anos. Os meus artigos e os meus projectos são avaliados por um júri científico. O meu laboratório é avaliado por uma comissão internacional de três em três anos. A minha Universidade é avaliada. Porque é que os manuais escolares do secundário, que são um instrumento essencial para o acesso ao ensino superior, não hão-de ser avaliados?
Todos nos lembramos dos casos recentes em que publicidade a astrólogos e a programas de televisão-realidade foi indecentemente incluída nos manuais do secundário.

terça-feira, dezembro 13, 2005

Ainda sobre "Caché"

Para os que forem ver "Caché" de Haneke chamo a atenção para a cena em que Georges (Daniel Auteil) apresenta um programa televisivo sobre literatura. Entre os participantes encontra-se Mazarine, a filha escondida de François Miterrand.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

L'enfer: mais uma obra-prima de Danis Tanovic

Em 2002, o bósnio Danis Tanovic ganhou o Óscar do Melhor Filme Estrangeiro com o excelente "No Man's Land", uma obra-prima, sobretudo considerando os parcos meios com que realizou o filme. Nesse ano, no cinema Odyssée em Estrasburgo tive o prazer de ouvir Tanovic contar como percorreu as ruas de Paris à procura de uma produtora, com uma resma de folhas debaixo do braço que continham o argumento do seu futuro filme. Tanovic bateu a muitas portas e levou muitas negas, até alguém ler o seu argumento e o achar extraordinário. Na altura percebi que Tanovic não era um realizador qualquer e que o seu próximo filme seria pelo menos um bom filme. "L'enfer" é um excelente filme! Não vou escrever uma palavra sobre a história, limito-me a aconselhar que vão ver o filme. Para além do mais somos brindados com uma breve mas importante interpretação do excelente Miki Manojlovic (Marko de Underground).

Quando não há nada a dizer...

Diz-se isto:
"Quioto não tem impacto significativo no clima e há uma data de gente a fingir que tem. Quioto não tem viabilidade política após 2012 e há muito gente com ilusões de que tem." João Miranda (Blasfémias)

É uma questão de fé. É um conjunto de frases que não tem qualquer base científica, nem se baseia em nenhuma das posições das mais importantes instituições científicas internacionais.

PS- A gralha sobre a Índia e China foi corrigida. Não muda nada ao sentido do texto (Estado actual do Protocolo de Quioto)

domingo, dezembro 11, 2005

Conclusões da Climate Change Conference

The United Nations Climate Change Conference closed with the adoption of more than forty decisions that will strengthen global efforts to fight climate change. Reflecting on the success of Montreal 2005, the Conference President, Canadian Environment Minister Stéphane Dion said: "Key decisions have been made in several areas. The Kyoto Protocol has been switched on, a dialogue about the future action has begun, parties have moved forward work on adaptation and advanced the implementation of the regular work programme of the Convention and of the Protocol." (Declaração final da Climate Change Conference)

Mais artigos relacionados
U.N. climate talks agree to push Kyoto forward

U.N. talks set road map for Kyoto beyond 2012
(...) Ministers also agreed to launch new, open-ended world talks on ways to fight climate change that will include Kyoto outsiders such as the United States and developing nations. Washington had long resisted taking part in the talks.

Comparem o que acabam de ler com mais esta bazófia do blogue Mitos Climáticos citando outra bazófia do Blasfémias a ler notícias do avesso. Sobre a referida entrada do Mitos Climáticos acrescento apenas que os EUA foram os maiores defendores da criação de um mercado de compra e venda de emissões poluentes (coisa que já tinham experimentado a nível nacional) aquando do COP3 ao contrário do que Rui Moura sugere. Além disso, a notícia da LUSA é exacta sobre uma das justificações de Bush sobre a não ratificação do Protocolo tal como se pode ler aqui: "As you know, I oppose the Kyoto Protocol because it exempts 80 percent of the world, including major population centers such as China and India, from compliance, and would cause serious harm to the U.S. economy." George W. Bush, 6 de Março de 2001.

sábado, dezembro 10, 2005

Aquecimento Global, Ártico e Más Intenções

Finally, it is important to re-emphasize that climate and UV radiation changes in the Arctic are likely to affect every aspect of human life in the region and the lives of many living outside the region. While more studies and a better understanding of the expected changes are important, action must begin to be taken to address current and anticipated changes before the scale of changes and impacts further reduces the options available for prevention, mitigation, and adaptation.

Arctic Climate Impact Assessment Scientific Report, 18.6. Conclusions, pag. 1020, Novembro, 2004.

Às vezes é preciso uma paciência de chinês para ler tanta barbaridade sobre os problemas climáticos. Quase tudo o que se pode ler no blogue Mitos Climáticos - que segundo o próprio autor serve para desmontar mitos climáticos - é contra a conclusão que destaquei a negrito do relatório da Arctic Council and the International Arctic Science Committee cujos membros são: Canadá, Dinamarca, Finlândia, Islândia, Noruega, Rússia, Suécia e EUA. Como se pode ler ao longo das várias entradas, Rui Moura o autor deste blogue, frequentemente classifica todos aqueles que fazem avisos do mesmo teor que o texto a negrito deste relatório como ambientalistas fundamentalistas, profetas do abismo, manipuladores, alarmistas, etc. Também podemos perceber que Rui Moura passa uma boa parte do seu tempo a tentar descredibilizar o IPCC, a União Europeia, a ONU (e por tabela a Scientific American e a Nature que servem de referência a estas instituições) e quase todas as instituições internacionais que trabalham sobre problemas ambientais, excepto a Administração Bush...

Na minha rua neva, logo não há fusão de gelo no Árctico
É particularmente infeliz uma entrada em que o autor se congratula com a "excelente saúde" da Gronelândia para tentar concluir que nada está a acontecer no Árctico. Leiam agora o mesmo relatório, página 992, cap. 18.2, onde se pode ler: "Although some regions have cooled slightly the overall trend for the Arctic is a substantial warming over the last few decades." Entre as tais regiões que arrefeceram ligeiramente está a Gronelândia. Esta conclusão do Rui Moura faz-me lembrar a opinião dum famoso filósofo figueirense, o Petinga. Numa ocasião discutia-se entre amigos a explosão demográfica, o Petinga que ouvia a conversa com um ar céptico, retorquiu: "Explosão demográfica? Qual explosão demográfica?... Ainda este sábado fui ao Solário e não estava lá ninguém!" (nota: Solário era uma famosa discoteca que ficava ali para os lados de Buarcos).

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Facínoras globais: um na jaula outro à solta

Ante Gotovina (foto EFE, El Mundo), um ex-general croata responsável por crimes hediondos contra os sérvios da Croácia, foi finalmente preso. Coincidência ou não, esta prisão de Gotovina acontece pouco tempo depois de a União Europeia, durante as negociações de adesão da Croácia, ter demonstrado algum desagrado pela fuga de Gotovina. Agora está à sua espera uma cadeira no Tribunal Penal Internacional de Haia. É assim que se resolvem as coisas em democracia, estamos longe de Guantanamo e das novas definições de tortura sumariamente bem classificadas pelo F.J.V. na Origem das Espécies .

O outro facínora da semana - mas este infelizmente anda à solta - é o presidente do Irão, Mahmoud Ahmadnejad (foto Al-Jazeera). As suas mais recentes declarações sobre Israel falam por si. Este nível de ódio não acontece ao acaso. A merda que outros andam a fazer pelo mundo faz com que facínoras como este sejam ouvidos e admirados no mundo islâmico. Assim não vamos lá.

Sítio da FIFA em Português

A pedido de várias famílias (entre as quais a do vosso escriba) eis o sítio da FIFA em Português. Parecemos os franceses a quebrar a hegemonia do inglês na internet. Não me espantava nada de vir agora aí alguém dizer que isto era anti-americanismo.

terça-feira, dezembro 06, 2005

Ainda sobre a Al-Jazeera

A questão já aqui referida do relatório britânico onde consta a intenção dos EUA de bombardear a Al-Jazeera - que está a ser abafada com sucesso no Reino Unido - é particularmente preocupante pois a Al-Jazeera é a estação de televisão em língua árabe de grande difusão com maior liberdade de opinião e com uma visão mais internacionalista. Significa isto que atacar a Al-Jazeera é sinónimo de dar um tiro num dos embriões de democracia de maior sucesso do mundo árabe. A Al-Jazeera apresenta muitos radicais em antena, passa muitas reportagens tendenciosas, passa até as mensagens de grupos terroristas sendo tudo isto obviamente questionável do ponto de vista jornalístico, mas a Al-Jazeera está muito longe da palhaçada propagandística emitida pelas televisões sauditas, paquistanesas, sírias ou até pelas televisões nacionais do país onde está instalada: o Qatar. Para quem se arroga de espalhar a democracia no mundo como George Bush já é um acto muito grave sugerir o bombardeamento uma estação de televisão. Mas, perante o que representa a Al-Jazeera para a democratização do mundo árabe e conhecendo as amizades da família Bush com o regime mais violento do mundo, o saudita, todas as declarações mais sentidas da Administração Bush sobre democracia soam a treta da mais pura.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

A ciência ao serviço do Prazer

Apesar do nome, a Cantina Vini Perduti é um projecto científico italiano de parcerias entre instituições científicas, empresas privadas e órgãos regionais, cujo objectivo é o de recuperar antiquíssimos vinhos italianos que tinham praticamente desaparecido. O resultado é notável e pode ser admirado neste sítio. Foram recuperados tipos de vinho que começaram a ser produzidos há vários séculos, desde o tempo do Império Romano até à Renascença. Por exemplo, podemos encontrar uma surpreendente Albana Negra (Albana é um vinho branco típico da região da Emília-Romagna) ou um Cristallo Malvasia, um vinho originário do século XIII da Sereníssima República de Veneza. Este é um excelente exemplo de como a ciência pode ajudar a desenvolver produtos regionais de qualidade, criando novos nichos de mercado. Depois os italianos não choram tanto como nós por causa da invasão de produtos chineses ou da junk-alimentação dos EUA.

domingo, dezembro 04, 2005

eXistenZ



O filme "eXistenZ" de David Cronenberg está entre os meus filmes eleitos de ficção científica. O que me atrai no filme é o desenvolvimento da ideia de que a fronteira entre o mundo virtual e o mundo real seja cada vez mais difusa à medida que a tecnologia se vai aperfeiçoando, ao ponto de num futuro próximo ser quase impossível saber onde está exactamente essa fronteira. Uma das características do mundo virtual que conhecemos é que este interage de uma forma limitada com o homem, geralmente apenas através da visão e da audição. Cronenberg propõe-nos o jogo eXistenZ, onde o Metaflesh Game Pod permite um nível de interactividade que vai muito mais longe do que uma simples interacção visual ou auditiva. Num jogo imaginário em que o corpo de cada um dos intervenientes é ligado a uma consola através do umbigo em rede com os adversários, as consequências físicas resultantes do game over deixam de ser irrelevantes. No jogo eXistenZ, o corpo é que paga.

Heneke vence European Film Awards

O filme "Caché" de Michael Haneke foi o grande vencedor dos European Film Academy Awards deste ano. Trata-se de um filme que combina de uma forma interessante o que não se vê, o imaginário e memórias difusas. No entanto já vi Haneke fazer melhor, estou-me a lembrar concretamente de "A Pianista" e de "Funny Games".

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Quioto avança e Portugal marca passo

"The Kyoto Protocol is now fully operational. This is an historic step." Estas foram anteontem as palavras de Stéphane Dion, o Presidente em representação de 157 países da United Nations Climate Change Conference que está a decorrer em Montreal. Concretamente o Presidente congratulava-se com a adopção do chamado "rule book" do Protocolo de Quioto.

Lembram-se desta entrada do Blasfémias? (entre outras, cada uma melhor que a outra):
"... até os proponentes do Protocolo de Quioto reconhecem que ele tem um efeito mínimo no clima e de qualquer das formas, muitos dos países que o assinaram, não o estão a cumprir. Este comentário do ministro alemão, para além de demonstrar o habitual anti-americanismo de muitos europeus, demonstra também a falta de seriedade dos proponentes do protocolo de Quioto" (João Miranda).
Logo os 157 países que participam na Conferência de Montreal não são sérios. Sérios são os governos dos EUA, da Índia e da China que fazem tábua rasa dos avisos dos seus cientistas, sobretudo os EUA que ainda não ratificaram o Protocolo de Quioto.


Entretanto em Portugal...
Enquanto a União Europeia no seu conjunto vai no bom caminho para cumprir as metas do Protocolo de Quioto até 2012, Portugal diverge dessas metas e, pior do que isso, tudo indica que Portugal será o país com pior taxa de emissão de gases de efeito de estufa na referida data.

quarta-feira, novembro 30, 2005

Exportações têxteis (caixa de comentários)

O que desejamos comprar: um produto de qualidade, com design moderno e actual e com imaginação, ou um produto de qualidade, com design atrasado e sem imaginação?
A diferença, entre Portugal e Itália reside aqui e não na qualidade do pano que se fabrica; mas há mais de quinze anos que se sabia que o modelo de produção que usávamos no têxtil estava ultrapassado e a confecção não foi suficientemente apoiada para vingar rapidamente; há dezassete anos que os espanhóis promovem, apoiam, incentivam os seus criadores, entre outras coisas nasceu a Zara, nós continuamos com o têxtil a feição para cliente estrangeiro, e só agora começam a surgir alguns criadores de moda. O que se passou para estarmos nesta situação? O que se passou, se sabíamos há mais de dez anos quais as consequências da entrada dos têxteis chineses no mercado mundial?
Continuamos a elaborar os diagnósticos e a esperar que as soluções cheguem de avião....por alguém...


Adriano Volframista

terça-feira, novembro 29, 2005

Irreversible

"Irreversible" de Gaspar Noé é um filme de enredo em espiral, uma espiral que se desenrola ao contrário para percebermos como a espiral, a da vida, se desenrola por vezes com uma tal vertigem que nos impede de perceber a absurdidade crescente dos nossos actos. Marcus (Vincent Cassel) é espelho da absurdidade fora de controlo. Nas suas acções existe muito do que se designa em França por la haine, que é mais do que simples ódio, é o ódio do próximo, um ódio de punho cerrado. Quem viveu numa grande cidade francesa, quem quotidianamente andou pelos seus transportes públicos, pelos seus lugares de la France d'en bas conhece esse ódio, essa tensão de punho cerrado. A absurdidade de Marcus acaba no Rectum, onde começa o filme. E mais não digo, convido-vos a desenrolar o resto até à Monica Bellucci...

A minha teoria sobre a Monica Bellucci
Eu tinha uma teoria sobre a Monica Belluci, mas foi por água abaixo quando percebi que a Monica tem 41 anos de idade. Alguns amigos acham que a Monica Bellucci é a mais bela actriz de cinema, mas eu sempre contrariei essa teoria. Achava que a Monica tinha que ganhar uns anitos. Dava-lhe entre os 25 e os 30 anos de idade, por isso costumava afirmar que quando a Monica chegasse aos 35 e começasse a ganhar umas rugas ou umas expressões faciais mais características e mais interessantes, aí sim, seria a brincar a mais bonita de todas as actrizes. Afinal já lá vão os anos do primeiro amadurecimento e nem uma marca se vislumbra sobre o rosto da Monica. A minha teoria ficou assim quase reduzida a cinzas. Resta alguma esperança ainda entre os 41 e os 50. Como forma de protesto contra o excesso de cosméticos e de tratamentos de pele, continuo a proclamar a Fanny Ardente como a grande diva da sétima arte.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Os cientistas não engoliram a treta do Iraque

Há dias em que me orgulho de ser cientista, foi o que aconteceu quando descobri esta sondagem realizada nos EUA pelo Pew Research Center e que foi publicada entre nós no Courrier International desta semana. O resultado da sondagem que dá os cientistas e os engenheiros americanos como o grupo mais céptico em relação à decisão e às consequências para o terrorismo da invasão do Iraque (88% e 84% de avaliações negativas), não constitui grande novidade para mim. De facto, todos investigadores americanos com quem tive oportunidade de trocar umas ideias sobre política tratam George W. Bush de asno para baixo. Se fossem europeus eram logo considerados anti-americanos primários, claro está. Todos eles se queixam do caos que se está a gerar no planeta com a intervenção americana no Iraque e de outras burrices de Bush ainda mais perigosas, como o desprezo pelo aquecimento global. Apesar de conhecer apenas este tipo de opiniões julgava não serem amostras representativas. Afinal esta sondagem confirma que aqueles americanos que no seu dia a dia fazem uso frequente do cepticismo, da precaução, da demonstração, da prova e da humildade perante o risco, não engolem a treta trapalhona servida pelos fanáticos que rodeiam Bush. Afinal ainda há esperança do outro lado do Atlântico.

domingo, novembro 27, 2005

10,4 % de baixa nas exportações têxteis

Assim que voltei de Bolonha comprei o Expresso e a sua tonelada de desperdício publicitário (que deveria ser proibido ou fortemente taxado) onde leio um artigo assinado por Margarida Cardoso sobre os efeitos da concorrência chinesa no sector têxtil nacional. Um gráfico mostra um decréscimo de exportações nacionais de 10,4% durante o primeiro semestre do ano. Em igual período as exportações italianas cresceram 6,2%. Voltado de fresco de Itália os números não me espantam absolutamente nada. Em Itália desde a produção até à apresentação do produto existe um nível de cuidado e de preocupação que nada tem a ver com o sector têxtil português. Em Portugal começa logo pela região de produção têxtil que é uma autêntica javardice. Conheço ali uma série de empresas de confecções entre a Maia e Vila do Conde que, exceptuando algumas boas surpresas, é o exemplo da ganância associada à ignorância e da ideologia do Estado Mínimo. Ali vale tudo. Pode-se poluir, construir onde haja um palmo de terreno e explorar tudo e todos. Onde se cria tanta riqueza há décadas vê-se uma pobreza chocante nas caóticas ruas de aldeolas de casas de alumínio e de muretes tortos de tijolo e de cimento feito à pressa. Trabalho qualificado ou salários dignos são coisa interdita em muitas daquelas empresas. Depois deste filme de terror, quando se aterra em Itália tudo parece bonito. As regiões industriais são bonitas e visitáveis. Qualquer empresa que se preze dá uma grande importância à qualificação da sua mão-de-obra, seja a técnica, sejam os designers. Depois o resultado vê-se nas lojas, nas vendas e nas exportações. Apesar da ofensiva chinesa o mercado têxtil italiano resiste aos preços baixos, através da qualidade, da variedade e da originalidade. O excelente catálogo à italiana da Intimissimi que aqui vos deixo é apenas um exemplo de tudo isto que aqui referi. Para além destas grandes cadeias de franchising, o têxtil italiano de qualidade vende-se igualmente nas pequenas lojas locais de comércio tradicional, trazendo para a vida urbana o prazer de fazer compras que se perde nas grandes superfícies, o doce passeio pelas ruas da cidade, a montra que se vê depois de um café numa esplanada, enfim uma outra filosofia que em grande medida nos é alheia.

quinta-feira, novembro 24, 2005

Al-Jazeera e a Bomba Esperta

A intenção de atacar a Al-Jazeera já teve outros episódios menos claros. Leiam esta de uma "bomba inteligente" que acertou nas instalações da Al-Jazeera de Cabul.

Bombardear a Al-Jazeera pela liberdade e pelos valores ocidentais...

Ler esta notícia da CNN. Resposta da Casa Branca: "We are not going to dignify something so outlandish with a response".
Como podem reparar a notícia não foi formalmente desmentida. Para quem conhece a metodologia da Casa Branca sabe que esta resposta significa que a notícia é verdadeira.

quarta-feira, novembro 23, 2005

Mitos culinários: Spaghetti Bolognese

O Spaghetti Bolognese é supostamente um prato italiano, mas que os Italianos só descobrem quando saem do país porque em Itália ninguém designa como Spaghetti Bolognese um prato de esparguete com um refogado de carne de vaca. Os italianos designam-no exactamente desta maneira: massa (esparguete se for o caso) com refogado de carne ou pasta (spaghetti) al ragu di carne (ragu di manzo, di agnello, di vitello, etc.). Curiosamente o que é típico aqui em Bolonha é o refogado de carne acompanhar as massas tagliatelle (lê-se talhiatele) e não o esparguete.

terça-feira, novembro 22, 2005

O Outubro mais quente de sempre

Eu sei que estas entradas já começam a ser repetitivas, mas é só para informar que o mês de Outubro de 2005, tal como aconteceu com Setembro de 2005, foi o Outubro mais quente registado desde que se mede a temperatura da Terra, desde 1880.
Como o aquecimento global não se resolve nem à bastonada nem com bombardeamentos heróicos, continuamos hirtos e firmes a caminhar para um cada vez mais provável suicídio global como se nada se passasse.

Fica também aqui a dica de tema para os candidatos às presidenciais, para os que tiverem interesse em falar de temas importantes e interessantes.

segunda-feira, novembro 21, 2005

Fury (caixa de comentários)

"Esse filme funciona como um símbolo de uma certa postura civilizacional perante a barbárie de uma multidão sedenta de vingança.
No caso de não ter ainda visto o M (provavelmente até já o viu) do mesmo realizador aconselho-o vivamente. Na famosa sequência final, Lang consegue levar o espectador a sentir que mesmo um assassino de crianças tem direitos, não podendo portanto ser sujeito a um julgamento popular, onde estes não estão obviamente salvaguardados.
"

Bruno (Projector Lunar)

Via Aemilia

A Via Aemilia desfila em frente à minha janela, a janela de um pequeno albergo por onde passou Il Duce.

A Klepsýdra recupera o caudal após alguns dias de trabalho e de reuniões onde a internet sem fios não funcionou.

segunda-feira, novembro 14, 2005

Fury

"Fury" é o primeiro filme realizado por Fritz Lang nos EUA depois de ter abandonado a sua Alemanha natal. O que é notável em "Fury" é o vanguardismo do tema tendo em conta a mentalidade vigente na época em que foi realizado. Através de "Fury", Fritz Lang denuncia a ameaça que constituem as milícias e os linchamentos populares para o estado de direito. Isto em 1936 é notável. Mas Lang não se fica por aqui. Na segunda parte do filme Lang confronta-nos com a vingança e o ódio. Vítima de um equívoco judicial e da população em fúria, Joe Wilson consegue provar a sua inocência e a partir daqui desenvolve-se um processo de vingança pessoal alimentado pelo ódio e pelo rancor contra a população. Embora essa vingança seja executada por processos judiciais legítimos, as pessoas que estão mais perto de Joe já não o reconhecem, nomeadamente a sua querida Katherine Grant.

Apesar de ter sido realizado em 1936, infelizmente "Fury" é um filme muito actual, tanto nos próprios EUA, onde as milícias populares armadas são legais em alguns estados, como em Portugal. Quando vejo os noticiários da TVI que retratam casos judiciais bicudos que mostram grupos de pessoas em fúria a gritar insultos e ameaças às portas dos tribunais contra os acusados, lembro-me de logo de "Fury". Passaram 30 anos desde que somos uma democracia mas ainda não interiorizámos certos conceitos básicos de um estado de direito.

sábado, novembro 12, 2005

Sábado em Coimbra XXV: Baía no Municipal

Hoje às 21:15, Baía vai estar no Estádio Municipal. A selecção do ódio e da exclusão de Scolari é que vai aparecer na TV, mas o relvado, a bola, os Croatas e este vosso conimbricense vão ignorá-la e imaginar que Vítor Baía está ali, onde deve estar, na baliza da verdadeira selecção.

Sábado em Coimbra XXIV

PS- Registei e agradeço a participação entusiasta dos estimados leitores no último "Sábado em Coimbra". Na verdade, eu já calculava que a questão do Tropical era uma questão fundamental e decisiva para vida da cidade. ;)

sexta-feira, novembro 11, 2005

O gueto visto do interior

Rachid Djaidani é um jovem francês das cités, filho de pai marroquino e mãe egípcia (salvo o erro, li o livro há 4 anos), que decidiu descarregar a sua energia para a caneta e para o papel, e posso garantir-vos que o fez com maestria. O seu livro "Boumkoeur" é um romance meio autobiográfico, em que nunca se percebe muito bem onde acaba o romance e onde começam os factos da vida de Rachid Djaidani. Rachid descreve-nos o quotidiano das cités visto por dentro, pelos jovens: a mentalidade vigente, a hierarquia do bairro, o território dos bandos, a merda que fazem diariamente, a relação com os moradores, com a família, com a polícia, com a escola e com os "estrangeiros" ao bairro. Apesar de ser um daqueles jovens qui traine dans les cités, Rachid não tem papas na língua e aponta o dedo aos gremlins, que é como são conhecidos os mais jovens, os putos até aos 14 anos, a quem chamei tiranetes. Rachid é um pouco mais velho e por isso teme-os. Os gremlins toleram-no, mas são xenófobos. Rachid não é nenhum anjo, no entanto descreve-nos como sofre com a vida da cité. Gostava de ser escritor, mas nas cités isso é sinónimo de maricas.
Este romance autobiográfico é muito bom, com um desenrolar muito pouco previsível e espantoso. Só percebi a forma como foi aclamado nos programas de televisão franceses dedicados à leitura (onde se sentia pouco à vontade), quando li o livro. Até aí pensava que estavam apenas a dar uma oportunidade efémera a um jovem de um bairro.
Como sempre em Portugal, estes bons livros que não são escritos na língua de Walt Disney não se traduzem, nem se vendem. É a ditadura cultural anglo-saxónica que temos. Para quem quiser desenferrujar o francês, mas sobretudo para quem quiser perceber o que se passa nas cités francesas, aqui fica a ligação para a Amazon. A escrita tem muito jargão, mas é acessível. Também há o dialecto dos gremlins (uma espécie de françárabe de segunda apanha), mas Rachid fez-nos o favor de traduzir.

quarta-feira, novembro 09, 2005

Venus Express


...3, 2, 1 ...

Agora a Venus Express deverá chegar ao planeta Vénus em Abril de 2006. Fica aqui a ligação para o sítio que descreve as várias etapas da fase de descolgem do foguetão Soyuz-Fregat que transporta a sonda da ESA.

terça-feira, novembro 08, 2005

Lançamento da Venus Express em directo

A partir das 03:10 da manhã pode ser seguido em directo neste sítio (ou na Euronews) o lançamento da sonda europeia Venus Express. O lançamento ocorrerá cerca das 03:33.

segunda-feira, novembro 07, 2005

Ler do avesso os acontecimentos em França

"According to the latest statistics from the U.S. Department of Justice, more than two million men and women are now behind bars in the United States."
Human Rights Watch

No país da OCDE com a maior taxa de criminalidade estão nas prisões quase 1% dos cidadãos (mais de dois milhões). Agora por favor leiam o que escreve o Abrupto sobre os tumultos em França:

"(...) o enorme contraste entre o modo europeu de “receber” e integrar os emigrantes envolvendo-os em subsídios e apoios, centrado no estado e no orçamento, hoje naturalmente em crise; e o modo americano que vive acima de tudo do dinamismo da sociedade que lhes dá oportunidades de emprego e ascensão social"

Conclusões desta leitura do Abrupto:
1) A França é a Europa (os restantes 24 países da UE não contam);
2) Um país com cerca de 1% da população na cadeia, é um país de oportunidade e ascensão social. Tal e qual...

sábado, novembro 05, 2005

França: integração em cinzas

Passei quatro anos da minha vida em França, em Estrasburgo, no bairro de Cronenburg, o bairro que dá nome à famosa cerveja Kronenburg com "K". No bairro de Cronenburg havia uma zona relativamente calma, onde eu morava e onde "apenas" vi arder um carro durante esses quatro anos. Foi na minha rua, podia ser o meu carro, que comprei a custo com os tostões que poupei da minha bolsa. Depois Cronenburg tinha um sector mais pesado, o sector dos guetos de habitação social construídos nos anos 60 com a melhor das intenções, mas que só serviram para juntar pessoas com os mesmos problemas, tendo contribuído para amplificar aquilo que de pior existe na sociedade, e em particular entre os grupos imigrantes. Nesse sector chamado ironicamente de Cité Nucleaire, onde se situava o CNRS, o meu local de trabalho, havia diariamente ocorrências violentas, que poderiam ser muito violentas de quando em vez. Lembro-me de um velhinho barbaramente atropelado por um BMW descapotável conduzido por jovens violentos, lembro-me de um colega que foi espancado quase até à morte por ter saído do seu carro para afastar um caixote de lixo em chamas que lhe barrava a estrada e lembro-me do carro que foi lançado em chamas contra a loja de atendimento da assistência social. No Natal e na Passagem de Ano era certo que se queimavam por ali para cima de 20 carros de pessoas humildes que juntavam as suas economias de anos para comprar uma bagnole em segunda mão. Durante o resto do ano ardiam regularmente uns 5 a 10 carros por mês. Poderia encher o blogue até lá baixo, até ao último post, de historiazinhas de violência da cité e das minhas experiências pessoais de violência verbal e física em que me vi envolvido. No meu caso, os motivos dessas cenas de violência foram causas tão importantes como o comprimento dos meus cabelos, uma rapariga cuspida e agredida em plena Universidade e o meu casaco de Inverno. Neste último caso tive muita sorte, mais sorte que os que me tentaram agredir e muita sorte de não ir para o hospital espancado.

Estes são os motivos típicos da violência das cités em França, não é violência para sacar dinheiro para sobreviver ou para alimentar o vício, é uma busca de confronto bastante reaccionário e intolerante que não tem nada de revolucionário. Quem vê nisto algo de revolucionário aconselho a leitura do livro "La gauche contre le peuple" do jornalista de esquerda Hervé Algalarrondo. Na verdade, as cités são o espaço mais fascista, intolerante, machista e xenófobo que conheci, sendo governadas por pequenos tiranetes entre os 12 e os 17 anos.

Obviamente, não me espanta o que está a acontecer em França, tal como não me espantou o resultado de Le Pen nas últimas presidenciais francesas. Aliás este surto de violência não é novidade nenhuma, já aconteceu em 1992, pouco depois dos acontecimentos de Los Angeles. Os guetos de habitação social povoados de imigrantes continuam lá. As referências culturais de origem paterna continuam a ser fantasiadas pela nova geração da pior maneira e deturpada por algumas organizações religiosas fanáticas instaladas em França. A origem e a especificidade dos povos imigrantes continuam a não ser tomadas em conta na política de imigração. E sobretudo as acções políticas tanto da esquerda (mais social) e da direita (mais policial) são executadas com muita distância, são muito poucos os que se dão ao trabalho de ir às cités. E digo-o com conhecimento de causa. Fiz parte de uma coligação de esquerda para as municipais francesas com ecologistas e ATTAC e na hora de ir às cités para participar em conselhos de política de proximidade, não aparecia lá ninguém. Só os funcionários da câmara que eram obrigados a isso e os moradores que ainda não se tinham cansado do autismo. Por outro lado, quando a direita conquistou a câmara de Estrasburgo, aumentou o policiamento e em apenas 6 meses a violência aumentou mais de 200%...

A solução não é nada simples, mas para transformar os tiranetes em putos normais, com as pancadas e os delírios próprios da idade, se calhar a solução anda entre algo como: acabar com as cités e misturar as populações; envolver as populações nas decisões políticas e orçamentais dos bairros; apostar na polícia de proximidade para impedir a criação de zonas de democracia zero controladas por tiranetes de bairro.

O Blasfémias entre a ingenuidade e a xenofobia



O mapa representado nesta entrada infeliz do João Miranda circula em muitas sítios de extrema-direita da mais fanática. No entanto, aquele mapa não passa de uma pobre ficção, ao contrário do mapa colonial de 1914 que aqui represento. Em 1914, os Europeus estavam mesmo instalados em África e na Ásia com os seus representantes dos reinos e dos imperiozinhos. Em 2015 a Federação Albanesa nunca existirá na península itálica, nem a Nova Turquia, nem os Emiratos Ibéricos do mapa do João Miranda, mas em 1914 nós, os Portugueses, estávamos de facto em Angola e em Moçambique e fazíamos mais estragos e mais mortes que toda a violência urbana junta da população imigrante na Europa de hoje. Obviamente, que o João Miranda não considera os ex-Impérios uma ameaça. Agora os imigrantes, cuidado com eles, vão-nos invadir. Buh!

O suicídio demográfico que teme João Miranda não é novidade em Portugal. No início do sec. XVI também se temeu o "suicídio demográfico" causado pelos judeus. A solução da época foi expulsar, perseguir, converter à força e condenar à fogueira milhares de judeus que viviam no nosso país. Ganharam com isso Holandeses, Suíços, Franceses, etc.; ganharam artesãos, artistas e cientistas de qualidade.

O mapa de João Miranda é particularmente infeliz sabendo que Portugal tem cerca de 5 milhões de emigrantes. Como é que é? Em 2015 no Luxemburgo e no Liechtenstein, onde a população portuguesa ronda os 10%, vamos ter uma espécie de Principado Luso Católico-Apostólico-Romano?

Creio que este infeliz post do João Miranda seja fruto de alguma ingenuidade, não o tenho como xenófobo (escrevo-o sinceramente). Mas considero muito triste encontrar posts deste nível num blogue de referência português. Julgo que de certa forma funciona como um insulto aos 5 milhões de portugueses que estão espalhados pelo mundo, particularmente os nossos colegas bloguistas no estrangeiro que não lhe devem achar piada nenhuma.

O Abrupto...

Apesar das discordâncias políticas, gosto de ler o Abrupto. Mas é insuportável lê-lo quando há um acontecimento internacional importante. A culpa é sempre dos jornalistas... O trabalho dos jornalistas portugueses é diariamente o mesmo, muito americanizado, muitas vezes um copiar-colar dos noticiários de outras estações, principalmente da CNN, mas perante grandes acontecimentos o Abrupto vê sempre ali uma conspiração de esquerda ou anti-americana, o que é particularmente ridículo quando notícias da CNN são integralmente copiadas. É uma forma de pressão legítima, no entanto é facilmente desmontável.

sexta-feira, novembro 04, 2005

Slovenské mamičky

Slovenské mamičky, pekných synov máte,
vychovali ste ich, na vojnu ich dáte, ich dáte.

Vychovali ste ich, ako to vtáčatko
za nimi zaplače, nejedno dievčatko.

Nejedno dievčatko rúčky zalamuje,
škoda ťa, preškoda, na tej krvi vojne bude.

škoda ťa, preškoda, na tej krvi červenej,
ktotá sa vyleje na lučke zelenej.

Na lučke zelenej v zelenom hájičku,
škoda ťa, preškoda, švárny šuhajičku.

terça-feira, novembro 01, 2005

Setembro de 2005, o mais quente de sempre

Desde que é medida a temperatura da superfície da Terra, o que acontece desde 1880, nunca houve um Setembro tão quente como o deste ano.
Aqui fica o aviso para um provável início de 2006 de seca e de falta de água, o terreno propício para os fogos. O melhor é ir prevenindo já.