quinta-feira, outubro 13, 2005

Feiticeiros e Cientistas

Georges Charpak (prémio Nobel da Física em 1992) e Henri Broch (director do Laboratório de Zetética, Nice) são os autores deste interessantíssimo livro "Feiticeiros e Cientistas" que aborda do avesso o tema da charlatanice científica. Em geral, o tema é abordado partindo de uma base científica, seguindo-se o desmontar, um por um, dos argumentos do charlatão. No entanto, Charpack e Broch colocam-nos primeiro na pele do charlatão, ensinam-nos as bases de qualquer aprendiz de feiticeiro, percebendo como agem, como actuam para obter o efeito desejado e depois de nos terem atribuído o "diploma" de feiticeiro podemos perceber como a ciência pode ser utilizada para as piores causas, o que melhora a percepção das artimanhas.
Este é um livro que considero essencial para todos os tipos de leitores, é um livro que nos ajuda a apurar o cepticismo. Muitos das ideias e artimanhas analisadas fazem parte do nosso quotidiano quando desempenhamos o papel de consumidores, de alunos, de eleitores, de espectadores, de ouvintes, de leitores, de cidadãos, etc.

Os sonhos premonitórios
Ao longo do "curso de feiticeiro" de Charpak e Broch assimilamos uma série de truques recorrentemente utilizados pelos que mais praticam a charlatanice nos dias que correm (astrólogos, numerologistas, gurus de seitas exóticas, alguns políticos, alguns meios de comunicação, etc.). Um dos truques mais importantes é a excessiva valorização de acontecimentos positivos (ou o desprezo excessivo pelos acontecimentos negativos). Um exemplo muito comum é o dos sonhos premonitórios. Já toda a gente conheceu alguém que acha que tem um dom especial só porque previu um ou outro acontecimento importante durante um sonho. Ora acontece que sonhamos sempre que dormirmos bem. Se contarmos todas as noites dormidas desde os 6 anos de idade (altura em que já nos lembramos do que fizemos) até aos 70 anos de idade (idade perto da esperança média de vida) obtemos 23360 noites. Mesmo que não tenhamos dormido bem muitas noites, uma pessoa de 70 anos deve ter tido cerca de 20 mil sonhos e uma de 35 anos cerca de metade (~10 mil sonhos). Ora, o que é de facto improvável ao fim de cerca de 10 mil sonhos de um trintão é que nenhum desses sonhos tenha sido premonitório. Sonhamos tantas vezes sobre factos importantes do nosso quotidiano que é muito pouco provável que por uma vez o conteúdo do sonho não coincidir com um ou outro detalhe da nossa vida. Ou seja, é mais provável ter um ou vários sonhos premonitórios na vida que ter zero sonhos premonitórios. O problema é que o nosso narcisismo é mais forte do que nós e valorizamos mais um sonho em 10 mil em que acertámos numa previsão do que os outros 9 999 em que não acertámos em nada.
Eu próprio já tive sonhos que coincidiram com acontecimentos posteriores (o leitor muito provavelmente também) e não é por isso que considero os meus sonhos premonitórios. Até já me aconteceu algo mais engraçado. Quando era estudante, após uma noite a resolver problemas, deitei-me cansado deixando um problema a meio. Durante o sonho voltei ao problema e ocorreu-me um detalhe que ajudava a chegar à solução. Assim que acordei, resolvi o problema... Até hoje ainda não comprei um chapéu à Merlin!

quarta-feira, outubro 12, 2005

A fiabilidade dos foguetões

A foto ao lado (sítio ESA) mostra o lançamento do Cryosat pelo foguetão Rockot. A queda do Rockot alguns momentos depois representou o primeiro falhanço deste tipo de lançador. Eis a fiabilidade dos foguetões:

Atlas 2 (EUA): 100%
Delta 2 (EUA): 98%
Ariane 4 (F): 97%
Soyouz-U (RUS): 97%
Rockot (RUS): 88%
Ariane 5 (F): 82%

terça-feira, outubro 11, 2005

As consequências da Mão Invisível no Lago Vitória

O filme (documentário) "Darwin's Nightmare" conta a história da exploração da perca do Nilo no Lago Vitória na Tanzânia. Na cidade retratada no filme onde se desenvolve a indústria de pesca da Perca do Nilo não existe socialismo, não existe rendimento mínimo garantido, não existe protecção social de qualquer tipo. Mas, existe criação de riqueza, economia de mercado totalmente livre, portanto o Estado Mínimo e o liberalismo mais radical no seu esplendor. Ironicamente, neste lugar onde circulam por dia centenas de toneladas de peixe, onde existe uma indústria próspera de produção de peixe, existe também a fome, a miséria, a SIDA, a prostituição, a toxicodependência, a corrupção e onde existe ainda, a mistura do antigo com o novo e do tradicional com o moderno feita da pior maneira possível e um desequilíbrio ecológico de proporções gigantescas nas águas do lago. O filme mostra ainda que os mesmos aviões que transportam o peixe para a Europa, para um supermercado perto de si, são os mesmos que transportam armas para o Lago Vitória e para outros destinos de passagem por ali. Ficamos a perceber que a Mão Invisível trouxe riqueza aos Indianos que exploram as fábricas de peixe, aos Russos que transportam a Perca nos seus aviões, aos Europeus que vendem a Perca do Nilo nos seus supermercados, mas para quem mora ali à beira do Lago Vitória não se passa da cepa torta. A única riqueza que fica por ali são os magros salários de alguns pescadores e dos empregados das fábricas de transformação de peixe e os dólares gastos nas prostitutas pelos pilotos dos aviões.

Este "Darwin's Nightmare" é apenas um exemplo dos efeitos nefastos da Mão Invisível, tal como afirma o seu realizador, o austríaco Hubert Sauper, "I could make the same kind of movie in Sierra Leone, only the fish would be diamonds, in Honduras, bananas, and in Libya, Nigeria or Angola, crude oil"

São Karol Wojtyla?
Para os admiradores de Karol Wojtyla, os que acham que ele deveria ter sido prémio Nobel da Paz ou Santo, recomendo especialmente a cena de "Darwin's Nightmare" em que um pastor católico que lida com as populações do Lago profere algumas palavras sobre a SIDA, o uso de preservativo e o pecado...

sábado, outubro 08, 2005

Palancas!!


(foto do sítio da FIFA)

Grandes Palancas Negras! O golo do Akwa, um ex-jogador aqui da nossa Académica, deve ter tido o efeito de uma bomba de alegria esfuziante. Eu imagino a festa de arromba em Angola...
Agora já tenho uma selecção para apoiar no Mundial, enquanto o Pinochet Scolari & sus muchachos (Ricardo e Quim) continuarem a resgatar aquilo que já foi a selecção nacional, ou seja o grupo de melhores jogadores nacionais.

quinta-feira, outubro 06, 2005

Amigos socialistas não votem em Vítor Batista

Tenho pena pelos meus amigos socialistas de Coimbra, mas o candidato que o PS lhes propôs para estas autárquicas é demasiado mau para ser verdade. O candidato Vítor Batista é daqueles homens que não deveria estar na política, deveria estar a fazer outra coisa qualquer, menos política! É confrangedor para o PS Coimbra que tem tantos académicos brilhantes, profissionais liberais, empresários e artistas de valor na cidade, apresentar um cromo como Vítor Batista. Um cromo, repito-o. Cromo é a melhor palavra que me ocorre para definir uma pessoa como Vítor Batista, porque os cromos quando são medíocres não se dão conta que são medíocres e até se julgam bons, é caso de Vítor Batista, o homem não se toca. O homem tem graves lacunas no português falado, na articulação de um discurso de ideias, tem uma fraca cultura geral, ignora muita, muita coisa, é mal educado e violento e o pior é que tudo isto acumula com muita arrogância e um péssimo sentido de humor. Ouvi-o num debate a gozar com um estudante que o interpelou sobre um assunto dizendo que ele deveria ter tido um "dezito na Específica". Eu tenho a certeza que se o Vítor Batista fizesse as específicas como elas são hoje não conseguiria 10 nem numa escala de 0 a 100.

Infelizmente, através de candidatura de Vítor Batista percebemos que este cocktail de mediocridade funciona na política interna dos partidos em Portugal. Os políticos mais violentos e mais mal educados, à custa de "empurrões" e do nojo que causam aos outros militantes do partido acabam por conseguir frequentemente lugar de destaque.

Amigos socialistas, lembram-se do exemplo recente dado por uma boa parte dos simpatizantes do PSD? Muitos deles conscientes de uma vitória do PS, preferiram não votar ou votar noutro partido que votar em Santana Lopes. Em Coimbra deveria passar-se a mesma coisa. À vossa esquerda têm aquela que é melhor candidata (apesar de não ter hipóteses de ganhar), a Marisa Matias do BE. Para os socialistas que se sentem mais próximos do PSD que do BE, porque não votar em Encarnação (votar CDU em Coimbra é basicamente o mesmo que votar PSD)? Um péssimo resultado de Vítor Batista seria uma boa forma de mostrar que Coimbra rejeita candidaturas de proto-caciques de muito baixo nível.

terça-feira, outubro 04, 2005

Comme beaucoup de messieurs

N: Quand je t'ai connu
V: Tu citais Boris Vian, Camus
V: Le nez dans tes songbooks
N: Et toi qui te prenais pour Zouc
N V: Ensuite on a vielli
V: Tu t'es durci
N: J'ai vu Alfie
N: Je sais c'est quelque peu brutal
N V: Mais la nature est animale...
N: Et pourtant
N V: Qui ne dit mot consent a la chair
N V: Comme ces couverts offerts dans les Stations Shell
N: Et plus je les caresse plus je me dis que
V: Tu es comme beaucoup de messieurs

V: Neil, t'en souvient-il?
V: Tu disais savoir faire la cour
V: Mais moi
N: Quoi toujours toi?
V: Tu m'enivrais de mots d'amour
N: Plus maintenant car j'ai cede
N: Au style de vie que je lassais
V: A d'autres hommes moins chic que toi
N: Ce genres de types qui suscitent chez les filles des emois
N: Et pourtant
N V: Qui ne dit mot consent a la chair
N V: Comme ces couverts offerts dans les Stations Shell
N: Et plus je les caresse plus je me dis que
N V: Je suis comme beaucoup de messieurs.


Divine Comedy
N- Neil Hannon, V- Valérie Lemercier

Tu cá tu lá com o Nobel da Física

Hoje, depois do anúncio do Nobel da Física, vive-se um ambiente especial aqui no laboratório. Um dos Nobel deste ano, o alemão Theodor Hänsch, colabora com o nosso grupo num projecto de estudo do hidrogénio muónico, tendo publicado 6 trabalhos com alguns dos colegas do laboratório (mas nenhum comigo, buuuáá!!!).

Aqui ficam as referências dos trabalhos para os mais curiosos:
"Powerful fast triggerable 6 mu m laser for the muonic hydrogen 2S-Lamb shift experiment", Optics Communications 253 (4-6): 362-374, 2005

"The muonic hydrogen Lamb-shift experiment" Canadian Journal of Physics 83 (4): 339-349, 2005

"Planar LAAPDs: temperature dependence, performance, and application in low-energy X-ray spectroscopy", Nuclear Instruments & Methods A, 540 (1): 169-179, 2005

"The muonic hydrogen Lamb shift experiment at PSI", Hyperfine Interactions 138 (1-4): 55-60 2001

"Experiment to measure the Lamb shift in muonic hydrogen", Hyperfine Interactions 127 (1-4): 161-166 2000

"Laser spectroscopy of the Lamb shift in muonic hydrogen", Hyperfine Interactions 119 (1-4): 311-315 1999

segunda-feira, outubro 03, 2005

Bragança ida e volta: fogos e catazes foleiros

Durante os mais de 700 km que fiz para ir e voltar de Bragança, para ver o eclipse, assisti sem exagero a 10 fogos, 3 dos quais me deixaram num estado de semi-intoxicação tal era a proximidade.

Quando não eram os fogos que me intoxicavam era a proliferação de cartazes foleiros em tudo o que é freguesia. As novas tecnologias permitem ao mais humilde candidato a descoberta da arte da fotomontagem, no entanto à medida que ía entrando pelas zonas mais inóspitas do país, entre Viseu e V.N. Foz Côa e entre Foz Côa e Bragança, a qualidade da fotomontagem era absolutamente patética (poses dos candidatos tipo equipa de futebol, tipo Três Duques, tipo Men in Black, tipo aparição em Fátima) onde as noções de perspectiva são uma autêntica vergonha comparadas com as obras dos nativos pré-históricos do Vale do Côa. A quantidade de cartazes à beira das estradas era absolutamente pornográfica, destruindo o pouco que restava da paisagem que ainda não tinha sido destruída pelo fogo.

domingo, outubro 02, 2005

Todos os caminhos vão dar a Bragança

Enquanto vou a Bragança e venho, aqui fica o sítio do NUCLIO que reúne informações sobre as actividades que se vão realizar por lá em torno do eclipse e que inclui ligações para sítios que cobrem o evento.

sexta-feira, setembro 30, 2005

Óculos para o eclipse

Desta vez as farmácias não vão distribuir nem vender óculos para o eclipse. Uma das oportunidades para adquirir óculos para o eclipse é comprar a Visão desta semana. Uma alternativa válida aos óculos são os vidros para óculos de soldador nº 14 que se vendem na maior parte das lojas de ferragens. Os negativos, as radiografias, o vidro fumado, etc. são perigosos.


Durante o eclipse total de 11 de Agosto de 1999, Place Kléber, Estrasburgo, França

quinta-feira, setembro 29, 2005

Modelos Climáticos e Quioto (comentários)

"Os modelos climaticos tem como base equacoes fisicas e de dinamica de fluidos que tem um grau de certeza elevado. Assim, como o da maca a desprender-se da arvore cair na tola do Newton. Ha empirismos, porque ha problemas de escala: ha fenomenos com uma escala inferior a menor escala de resolucao do modelo. Mas isto e testado ate a exaustao (...) No IPCC as maiores incertezas nao sao os resultados dos modelos climaticos, mas as variaveis dependentes do homem: qual sera o aumento populacional? A que nivel de vida aspirarao? Que novos recursos energeticos serao utilizados? Que novos metodos de mitigacao (conseguiremos encapsular CO2 no subsolo? p. ex.) Que tipo de presidente estara a governar os paises mais poluidores?"
Gabriela

"O que eu acho muito engracado nesta discussao toda e quando se avanca com o argumento de que assinar Quioto e irrelevante porque o acordo e insuficiente para resolver o problema se esquecem dos motivos pelos quais o protocolo e tao timido.
Os EUA na altura liderados pelo Clinton tambem estavam nas negociacoes, bem como nacoes em desenvolvimento como China e India. A China e India exigiram defender o seu direito a poluir porque eram pobres e os Eua exigiram dilatar prazos de cumprimento E (muito importante) deixar de fora do tratado as emissoes resultantes do transporte aereo (12.5% do total mundial de emissoes humanas se nao estou em erro), isto foram exigencias para que os respectivos negociadores considerassem a assinatura do dito protocolo!
"
Lowlander

quarta-feira, setembro 28, 2005

Comunas ou fachos, eles andem aí!


A primeira vez que vi "Invasion of the Body Snatchers" devia ter uns 12 anos. Lembro-me que era uma noite de chuva e estava sozinho na sala, enroscado numa manta no sofá. Adorei aquele estilo de ficção científica com doses bem ponderadas de suspense (vulgo terror), que intimidam o espectador, sem os clichés dos entediantes filmes de "terror", na altura já não tinha pachorra para as moto-serras, os personagens góticos a escorrer sangue ou os dráculas de voz rouca a falar inglês. Fruto talvez desse clima excepcional em que assisti ao filme, "Invasion of the Body Snatchers" bateu que nem dose cavalar e é até hoje um dos meus filmes fetiche. Outro coisa que adoro no filme são aqueles efeitos especiais rudimentares dos anos 70, uma delícia.

Curiosamente este "Invasion of the Body Snatchers" de 1978 é uma versão mais recente de um outro "Invasion of the Body Snatchers" de 1956. Mas o que é ainda mais curioso é que apesar de ambos os filmes possuírem um enredo semelhante, a conotação política de cada um deles é perfeitamente antagónica. Se na película de 1956 os invasores são conotados com um invasor vermelho (portanto comunas) e a acção decorre à volta de Los Angeles, já na versão de 1978 a opressão dos invasores é associada ao fim das liberdades, a um estado para-militar e ao pensamento único, desenrolando-se a trama numa cidade bem simbólica: São Francisco.
É quase inacreditável como a mesma história sirva campos políticos tão opostos, mas os dois filmes são uma prova de como essa proeza é possível.

terça-feira, setembro 27, 2005

Aquecimento Global: seguimos para Bingo!

Em entrada anterior, em Agosto, já tinha referido que as temperaturas médias mensais do planeta deste 2005 indicam que provavelmente este ano entrará directamente para o top dos 4 anos mais quentes de sempre. Saiu agora o valor para o mês de Agosto de 2005: foi "só" o 3º Agosto mais quente desde que se mede a temperatura da superfície do planeta, desde 1880. Vamos bem...

segunda-feira, setembro 26, 2005

Dica de acção inteligente para Cavaco e Soares

Uma coisa inteligente que tanto Cavaco como Soares poderiam fazer pelo país - em vez da entediante campanha presidencial centrada no passado que se antevê (espero estar enganado) - seria uma ida a Felgueiras, a Gondomar, a Oeiras e a Amarante, para lançar apelos à lucidez política. É absolutamente chocante e desprestigiante para o nosso país a onda de populismo rasca que assola estas quatro concelhias. O pior é que perante o calibre de caciques bastante violentos como Fátima Felgueiras ou como Valentim Loureiro, os nossos políticos temem a confrontação política. Temem o atoleiro. É verdade, sabemos que há esse risco, mas se os combatermos só de cima, apenas confiando na nossa superioridade moral, corremos um risco ainda maior, o risco de lhes oferecer a vitória de mão beijada. Recordo que recentemente dois grandes populistas foram derrotados nas urnas: Santana Lopes e Vale e Azevedo (este num terreno muito mais propício ao populismo, o do futebol). E foram derrotados porque houve quem se expôs, quem não temeu o lamaçal do populismo. Santana Lopes foi duramente criticado pelos seus pares Pacheco Pereira e Leonor Beleza, e foram estes que tiveram o mérito de desencadear uma onda de descredibilização de Santana que a par do desastre governativo, apagaram para sempre a aura messiânica de Santana perante os eleitores. Vilarinho fez o mesmo perante um adversário muito mais feroz, como era Vale e Azevedo, e só a sua persistência trouxe Eusébio para o seu campo o que conduziu ao afastamento definitivo do mais populista dos presidentes do Benfica.

Soares e Cavaco poderiam prestar o mesmo serviço ao país, eles têm o poder de serem vozes de peso, sempre ouvidas pelos mais simples e pelos mais susceptíveis ao populismo. Esse seria um excelente serviço à nação que até poderia ser acompanhado pelos restantes partidos, criando um abrangente movimento democrático contra o populismo rasca.

Ler: "Santos da casa fazem milagres" da Joana Amaral Dias no DN

sexta-feira, setembro 23, 2005

O Vaticano...

O Vaticano continua em forma, as velhas artimanhas nunca se esquecem.

Ler: "Um papão que virou papinha" na Linha dos Nodos

Campeã!

Perante a indiferença quase generalizada dos nossos meios de comunicação, a Ticha (à esquerda da taça, sítio Monarchs) conquistou o título máximo a que pode aspirar uma basquetebolista portuguesa: campeã da WNBA. A sua equipa, os Monarchs, bateu na final os Sun por 62-59.
Fica um belo exemplo de trabalho sério e árduo da Ticha, do seu pai João Penicheiro (referido em entrada anterior) e de alguns anónimos treinadores portugueses que recolhem os frutos de sacrifícios de anos. Tenho a certeza que há muita gente na Figueira da Foz muito orgulhosa, principalmente o pessoal que jogava nas traseiras das Abadias, mas também gente do Ginásio Figueirense e da Naval.

Equações da minha vida: Bethe-Bloch (act.)



A equação de Bethe-Bloch é uma das equações da minha vida, pois foi graças a ela que me iniciei verdadeiramente na instrumentação nuclear. A minha primeira experiência a sério de física nuclear foi determinar o alcance das partículas alfa no ar. É uma experiência bastante simples. Basta colocar uma fonte radioactiva que emita partículas alfa à frente um detector (no meu caso foi um detector de silício) e ir registando a intensidade das partículas alfa que chegam ao detector à medida que o vamos afastando da fonte radioactiva, até o detector deixar de dar sinais e só dar ruído. A fórmula de Bethe-Bloch dá a taxa de energia perdida (E) pela partículas carregadas (alfa) em função da distância (x) que percorrem num determinado meio (neste caso o ar). Ao contrário da prática científica não vou aqui explicar todos os outros símbolos, mas deixo uma ligação para os interessados e corajosos.
Os autores da equação são o alsaciano Hans Bethe, Prémio Nobel da Física em 1967, e o suíço Felix Bloch, Prémio Nobel da Física em 1952.

quinta-feira, setembro 22, 2005

Eleições alemãs: uma equação para Einstein

É deliciosa esta capa do Die Tageszeitung (22 de Setembro de 2005). Face à crise alemã para formar governo, o jornal propõe o génio de Einstein para resolver a difícil equação que resultou das últimas eleições.

terça-feira, setembro 20, 2005

Prémio Nobel para o João Miranda!

Num documento assinado pelas principais academias das ciências do mundo (EUA, Rússia, Japão, Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Brasil, Índia, China) aquando do último G8 podemos ler:

"There will always be uncertainty in understanding a system as complex as the world’s climate. However there is now strong evidence that significant global warming is occurring. (...) The scientific understanding of climate change is now sufficiently clear to justify nations taking prompt action."

No entanto, João Miranda do Blasfémias afirma:

"O que há neste momento são hipóteses e teorias, baseadas quer em relações estatísticas pouco significativas."

A distância que vai da "strong evidence" às relações "estatísticas pouco significativas por falta de eventos, quer em modelos computacionais pouco fiáveis por falta de validação" corresponde quase a um prémio Nobel.

Mas João Miranda insiste nesta entrada:

"a qualidade dos modelos [que descrevem o clima terrestre] não está garantida porque eles não se baseiam em princípios básicos da física consensuais mas em teorias simplificadas baseadas em dados empíricos"

Daqui podemos extrair duas conclusões: 1) As 11 academias erram quando declaram que "understanding of climate change is now sufficiently clear"; 2) As maçãs não caem das árvores porque não existe consenso sobre as ondas gravitacionais e algumas "teorias" sobre a gravitação são simplificadas e baseadas em dados empíricos.

Se o João Miranda tiver razão na sua Teoria Liberal do Aquecimento Global (quase tão brilhante como a Teoria Sociológica dos Electrões do Prof. Boaventura) merece o Prémio Nobel de caretas!

Já agora
Para ajudar o João Miranda a actualizar a sua biblioteca de gráficos, aqui vai o gráfico que serve de referência à NASA e ao IPPC que sugere uma variação da temperatura do planeta que vai de 1,4 a 5,8°C em 2100. O que mostra o "rigor" da curva do business-as-usual e da curva de Kyoto.

Respondendo ao João: quando Blair refere o seu "disagreement over Kyoto" com os EUA será que é porque considera que o Protocolo não serve para nada? Está-se mesmo a ver... Aliás muitos dos "proponentes" acham que se deveria ir mais longe do que Quioto, tanto que se fala já em Quioto II. O problema é que Bush prefere ficar pelo Quioto Zero.

segunda-feira, setembro 19, 2005

Continua a asneirada anti-Quioto

Os últimos tempos têm sido duros para os defensores das formas mais radicais de liberalismo económico (mas é liberalismo só na economia, na vida privada é mais o "liberalismo" da Opus Dei). Pois é, os podres que o Katrina deixou à vista são difíceis de justificar. Por exemplo, só alguma angústia explica a invocação do tetra-desmentido Bjørn Lomborg, mais conhecido por Ecologista Céptico, para justificar as asneiras da ideologia neo-liberal que andam a tornar o mundo mais perigoso. Lomborg que foi desacreditado e desmentido pela Danish Ecological Association, pela Scientific American e pelos maiores especialistas mundiais de climatologia numa série de artigos publicados nas revistas Nature e Science, continua a ser recomendado pelo João Miranda como se fosse alguém com alguma credibilidade para se pronunciar sobre o Protocolo de Quioto. A asneirada no Blasfémias (que é um bom blogue) continuou numa série de entradas onde se pode ler esta pérola de João Miranda:

"até os proponentes do Protocolo de Quioto reconhecem que ele tem um efeito mínimo no clima e de qualquer das formas, muitos dos países que o assinaram, não o estão a cumprir. Este comentário do ministro alemão, para além de demonstrar o habitual anti-americanismo de muitos europeus, demonstra também a falta de seriedade dos proponentes do protocolo de Quioto"

O Protocolo de Quioto é um documento que vincula Estados, e não "proponentes", a uma série de acções. Os Estados de países democráticos mudam regularmente de governo e por isso mudam os "proponentes", mas o Protocolo é sempre válido para os Estados. Quer se considere Estados ou "proponentes" é falso que os seus signatários considerem que o Protocolo de Quioto tem um efeito mínimo no clima. Basta ler os documentos que foram publicados durante o último G8 na Escócia, nomeadamente esta crítica bem ilustrativa de Blair (deve ser anti-americano...) aos EUA:

"We were never going to be able at this G8 to resolve the disagreement over Kyoto, nor to renegotiate a set of targets for countries in place of the Kyoto Protocol, that was never going to happen and I have to be very blunt with you about that. But I tell you my fear on climate change, which is why I put this on the G8 agenda. If it is impossible to bring America into the consensus on tackling the issue of climate change, we will never ensure that the huge emerging economies, particularly those of China and India, who are going to consume more energy than any other part of the world, we will never ensure that they are part of a dialogue, and if we cannot have America as part of the dialogue on climate change, and we can't have India and China as part of the dialogue, there is no possibility of us succeeding in resolving this issue."

Portugal, de facto, é um dos países que não cumpre o Protocolo. As entradas do João Miranda são bem ilustrativas das razões que levam ao não cumprimento do Protocolo: em Portugal a ciência não é levada a sério. Isso percebe-se logo na mesma entrada onde lemos:

"Sempre existiram furacões como o Katrina, não está demonstrada nenhuma relação entre furacões e aquecimento global"

Não há rigor quando se afirma "nenhuma". Esta entrada do David Luz na Linha dos Nodos cita três artigos (um na Nature e dois no Journal of Climate) relativos a trabalhos científicos de peso que relacionam os furacões com o aquecimento global.

Ler também: "Blasfémias: Primeira e última" no Quinta do Sargaçal

domingo, setembro 18, 2005

Land of Plenty

O fascínio do realizador alemão Wim Wenders pela América é tal que este escolheu os EUA para viver e para trabalhar. Porém esse seu amor pela América não o impede de criticar o país onde escolheu viver. Wim Wenders tinha afirmado sobre as recentes obras de Michael Moore que este estava a realizar um bom trabalho ao denunciar a deriva do país para uma ideologia conservadora associada a um liberalismo económico radical. Mas Wenders não se ficou pelas palavras e à sua maneira juntou-se a Michael Moore na luta contra o apodrecimento social dos EUA, realizando "Land of Plenty".

"Land of Plenty" mostra de uma forma chocante como uma parte da América vive mergulhada numa paranóia securitária para protecção ilusória de uns quantos, esquecendo os mais de 40 milhões de americanos que não possuem qualquer protecção social ou acesso a saúde preventiva vivendo mais de metade destes numa completa exclusão social. Wenders conta-nos uma parábola sobre a América actual. A América dividida entre uma América multicultural, a América da aventureira Lana, que cultiva o prazer da descoberta da geografia terrestre, mas também da geografia interior, e uma outra América, a América esquizofrénica de Paul que deixa o medo dominar o quotidiano, essa América que olha para a cor da pele e para a origem do nome de família, utilizando a tecnologia, ironicamente uma das suas melhores contribuições para a humanidade.
O resultado do confronto entre estas duas américas será determinante para o futuro do planeta, daí a importância do filme. A importância de perceber até que ponto a América está doente e a capacidade que uma América mais fresca e mais aberta terá de impedir a deriva do país.

sábado, setembro 17, 2005

Iraque: a utilização propagandística da Ilíada II

"(...) Todavia não concordo nada quando afirmas que a "Ilíada, apesar do seu interesse é claramente uma obra menor comparada com a Odisseia." É que quase todos os críticos literários (por ex. o Frederico Lourenço) consideram que a Íliada tem um papel mais importante na formação das epistemologias ocidentais que a Odisseia"

Francisco Curate (Daedalus)

Iraque: a utilização propagandística da Ilíada I

sexta-feira, setembro 16, 2005

Klepsýdra por um canudo


Foi uma semana na Córsega, quase sem internet, a pôr equações em dia com os meus colegas italianos. Agora é preciso pôr a Klepsýdra em dia.

domingo, setembro 11, 2005

História de Massoud com amor

Passaram 4 anos desde o cobarde atentado que vitimou a 9 de Setembro de 2001 o Comandante Massoud da Aliança do Norte, a única força que se batia na altura contra o obscurantismo dos talibãs no Afeganistão. Em homenagem a este marcante combatente que admirava De Gaulle e que sonhava com um Afeganistão democrático - numa parte do mundo em que os radicalismos religiosos e ideológicos eram muito mais populares - foi lançado um livro que recolhe o testemunho da esposa de Massoud, Sediqa Massoud. O livro intitula-se "Pour l'amour de Massoud" e poderá fornecer mais pedacinhos de história interessantes sobre a Era Talibã no Afeganistão.

sexta-feira, setembro 09, 2005

Anti-americanismo: a desculpa do liberalismo radical

A ideologia do "Estado Mínimo" radical tem sempre uma desculpa na manga. Pelos vistos, todos os que têm criticado a administração Bush como Jeremy Rifkin, Richard Clarke, Bernard-Henri Levy, Wim Wenders, Hans Blix e até o born in the USA Bruce Springsteen são todos anti-americanos. O que dizer então dos "maniqueístas" e "panfletários" Michael Moore ou Morgan Spurlock?

Aqui fica então este interessante texto do "anti-americano" Jeremy Rifkin sobre o Katrina.

Tempo de astronomia: eclipse e Venus Express

Até ao final do mês de Outubro a astronomia e a exploração espacial vão viver tempos de grandes acontecimentos. Dia 3 de Outubro ocorrerá um eclipse anelar cuja linha central do seu percurso passa no norte Portugal. Dia 26 de Outubro será lançada a sonda Europeia Venus Express (na imagem, sítio ESA) que terá como objectivo o estudo do planeta Vénus.
Em cima do acontecimento o NUCLIO organiza uma série de actividades e palestras. Eu darei também o meu contributo, dia 23 estarei no Instítuto Geográfico do Exército em Lisboa, a falar sobre os telescópios espaciais que nos ajudam a ver o Universo que é invisível aos nossos olhos. O NUCLIO organiza também uma viagem a Bragança para a observação do eclipse acompanhada de especialistas.

quinta-feira, setembro 08, 2005

Iraque: a utilização propagandística da Ilíada

A Ilíada tem sido indirectamente utilizada (felizmente sem sucesso) como elemento justificativo da intervenção no Iraque. A carga histórica de um épico milenar que descreve a guerra entre Gregos e Troianos serve como aparente exemplo de sabedoria igualmente milenar que justifica o presente. E se na Ilíada se fazia a guerra por caprichos dos nobres, então hoje pode justificar-se a guerra pelo petróleo à pala da democracia. Para além do mais o autor tem a virtude de ser absolutamente imparcial relativamente aos tempos que correm. No entanto, os fracos hábitos de leitura e o desinteresse dos portugueses por este tipo de obras inviabilizaram o sucesso desta estratégia. Nem a recente edição de uma nova tradução, nem a estreia do filme Tróia (que muitos ignoram a relação com a Ilíada) mudaram o desinteresse pela obra. Consciente ou não do facto, apenas esta entrada do Blasfémias do José Pedro Lopes Nunes aborda em parte a Ilíada pelo mesmo ângulo. Podemos ler:

"A guerra, no tempo de Homero, parece ter sido algo de particularmente importante, na perspectiva do autor, que lhe consagrou, em larga medida, a obra em análise. Passados bastantes anos, o que podemos concluir é que a guerra se mantém tema actual, pela sua continuada importância."

O meu domínio são as ciências, por isso abstenho-me da interpretação literária. No entanto, lembro que a importância de Homero se deve sobretudo à Odisseia, basta lembrar as obras importantes inspiradas no carácter desta obra: Eneida, Divina Comédia, Lusíadas, etc. A Ilíada, apesar do seu interesse é claramente uma obra menor comparada com a Odisseia.
Os meus reparos a esta visão neo-bélica da Ilíada são sobretudo de carácter científico, fazendo uso da excelente obra de Desmond Morris, "O Macaco Nu":

- A guerra, no sentido da eliminação física do adversário, é uma situação excepcional dentro da espécie humana, não é normal. O que não é sinónimo de afirmar que o ser humano é pacifista. Os humanos, como quase todas as outras espécies que tiveram sucesso, não têm por hábito matar membros da mesma espécie. Nas palavras do zoólogo Desmond Morris em caso de conflito: "Qualquer animal quer a derrota, não o assassínio" (pag. 184, Europa-América, ed. 1997). Ora, a Ilíada é a descrição de uma guerra em que a derrota não basta e onde o assassínio é enaltecido como forma última da honra individual. A importância da guerra deve-se apenas ao seu carácter excepcional. A derrota é muito mais importante e para se obter uma derrota a guerra não é condição necessária, nem suficiente.

- No conflito mais básico e mais primário entre membros da mesma espécie existem mecanismos "diplomáticos" gestuais e vocais de reconhecimento rápido do vencedor e do vencido, sem que o vencedor tenha necessidade de matar o vencido (cap. V - "A agressão", idem). A guerra "aconteceu por causa da associação viciosa do ataque à distância (...) os indivíduos deixaram de ver o objectivo inicial. Actualmente, quase não há possibilidade de reagir perante o [mecanismo diplomático de] apaziguamento directo" (pag. 185, idem). A guerra que descreve a Ilíada nada tem a ver com a guerra dos tempos modernos, em que o contacto entre agressor e agredido em grande parte dos casos é nulo. O agressor não assiste ao sofrimento, nem ao sangue, nem à morte do adversário.

Por estas razões, é um exercício fraco e perigoso invocar a Ilíada para justificar parcialmente as guerras actuais, como temos lido em recentes artigos de conhecidos cronistas. Desmond Morris vai mais longe em relação à perigosidade da guerra: "Esta infeliz evolução pode acabar por ser a nossa ruína e conduzir à rápida extinção da nossa espécie" (pag. 185, idem).
Numa visão mais actual sobre os temas da perigosidade da guerra e da "extinção da espécie" chamo a atenção dos meus caros leitores para o artigo "Apocalypse Soon" pelo perito de armas nucleares Robert McNamara na revista Foreign Policy de Maio e Junho de 2005. McNamara explica preto no branco porque é que estamos actualmente a brincar com o fogo ao guardar um arsenal nuclear projectado para a Guerra Fria num tempo em que o mundo é mais complexo e em que houve uma redistribuição aliados e inimigos.

terça-feira, setembro 06, 2005

Katrina: cerca de 20% sem segurança social

Cito o americano Jeremy Rifkin:

"Sadly, the U.S. and South Africa are the only two developed countries in the world that do not provide health care for all their citizens. More than 46 million people in America are currently uninsured and unable to pay for their own health care (...) because so many millions of Americans are uninsured, they cannot afford preventive care..."

"The European Dream", Jeremy Rifkin, Polity, 2004, pag. 80.

46 Milhões de americanos sem qualquer tipo de segurança social e assistência médica corresponde a mais de 20% da população. Imaginem agora cerca de 20% da população de Nova Orleães sem qualquer cobertura social depois do que se passou. Para além da ajuda de emergência que já começaram a receber grande parte dessas pessoas necessitará de cuidados médicos durante um longo período, isto para além de um tecto, comida, etc. Estão a ver o filme não estão? Em Nova Iorque, desde o 11 de Setembro muitas vítimas e corporações de bombeiros nunca chegaram a receber qualquer ajuda posterior à catástrofe.

Ler: "O falhanço do Estado Mínimo" no Causa Nossa

segunda-feira, setembro 05, 2005

Svadba

"Svadba" (A Boda) de Pavel Lungin narra os preparativos e a boda de um jovem casal russo. A Boda decorre numa pequena cidade mineira nos arredores de Moscovo onde é visível alguma depressão social causada pelas dificuldes económicas e a falta de adaptação ao sistema emergente do fim da União Soviética. O filme mostra o que de melhor e de pior o russo médio é capaz para ultrapassar a depressão. Por um lado estão sempre prontos para farras de uma alegria contagiante - muitas vezes no limite da degeneração e por vezes bem regadas com vodka - que vão fazendo esquecer as mazelas da vida. Por outro lado a dureza da nova sociedade regida pelos rublos e pelas máfias misturada com os resquícios de autoritarismo do passado são os ingredientes do fel que invade a boda.
"Svadba" é um filme deliciosamente frenético, bem disposto e inteligente, a fazer lembrar o estilo Kusturica.

domingo, setembro 04, 2005

Notas do México: souvenires do Sub-Comandante

Umas das impressões positivas do meu périplo pelo México, é a forma saudável (dentro do possível) com que o governo mexicano gere a crise dos Zapatistas de Chiapas. É certo que comparados com os restantes grupos rebeldes da América Latina, os Zapatistas são um grupo altamente moderado, mas tanto quanto pude perceber a actuação pública do governo mexicano tem uma resposta igualmente moderada, o que é raro no continente americano. O governo mexicano limita-se a colocar check-points ligeiros em pontos estratégicos para evitar o trânsito de armas para o interior do Estado de Chiapas. Em Chiapas a presença militar é bastante reduzida e discreta para evitar fricções e reacções alérgicas. A fórmula parece resultar. Os Zapatistas continuam activos em Chiapas, mas sem criar grandes crispações e até agora não existiram derrames de sangue inúteis a lamentar. É a antítese da política Aznar.
Quando cheguei a Chiapas foi com agradável espanto que descobri o humor político mexicano e a boa capacidade de encaixe das autoridades. O boneco da fotografia é um dos inúmeros souvenires do Sub-comandante Marcos que se vendem com a maior liberdade por todo Chiapas e estados vizinhos. Há de tudo: porta-chaves, esferográficas, miniaturas, postais, t-shirts, etc.

sábado, setembro 03, 2005

Michael Moore tinha paletes de razão

Sobre os estragos causados pelo Katrina e a rapidez dos socorros não tenho reparos especiais a fazer, não sei se era possível fazer mais ou mais rápido. Catástrofes naturais destas dimensões não são propriamente previsíveis, nem ensaiáveis pela protecção civil. No entanto, há algo de tenebroso que ficou bem patente depois desta catástrofe. É a América das armas e dos grupos de civis armados, a América de "Bowling for Columbine" de Michael Moore. Muitas vezes acusado de ser maniqueísta e panfletário, Michael Moore tem o grande mérito de ter sido o primeiro a chamar a atenção de uma forma bem visível para o problema da posse de armas de fogo nos EUA. É por isso que o Oscar atribuído a Moore foi bem merecido.
Os grupos armados que aterrorizam Nova Orleães são uma aberração social difícil de encontrar em cenários de catástrofe semelhantes no resto do mundo. É um fenómeno só explicável pela mistura explosiva que Moore denuncia no seu filme: fácil acesso a armas, exclusão social fomentada por políticas económicas liberais radicais e moralismo ideológico inspirado no cowboy armado que estendia a fronteira para Oeste (quando a Oeste já só há o Oceano Pacífico).
Há três anos atrás, depois da vaga de inundações na Europa Central, alguém se lembra de haver acontecimentos violentos semelhantes? Ou mesmo depois do tsunami na Ásia, lembram-se de haver violência armada da parte de milícias civis? Neste caso até existiu uma onda de solidariedade entre guerrilhas militares e governos que resultaram num processo de paz na região de Aceh na Indonésia e num cessar-fogo no Sri Lanka.

A culpa é da RTP
Já se sabe, no Abrupto a culpa é da RTP. Ali podemos ler que o noticiário das 13.00 tudo fez "para transformar o que aconteceu em Nova Orleães num panfleto contra a guerra do Iraque". Eu vi o Jornal das 13. O trabalho dos jornalistas não me pareceu muito diferente do realizado aquando de outras catástrofes, muito adjectivo e falta de objectividade. Vi a CNN. Embora mais profissional, os adjectivos eram mais fortes. Além do mais passam em contínuo as declarações inflamadas do Mayor de Nova Orleães. Comentam e corroboram as suas declarações com adjectivos. Compara-se em contínuo com a eficiência da intervenção no Iraque...
Quando o Reino Unido inviabilizou a Orçamento da União Europeia, o Abrupto acusou os jornais portugueses. Quando algo corria mal na invasão do Iraque a culpa era de Carlos Fino. Já percebemos a lógica: quando algo não corre bem ao campo dos EUA e respectivos aliados, a notícia é sempre sectária.

Ler também: "Sectarismo" no Causa Nossa

Sapatos sobre a ponte

Milhares de sapatos sobre a ponte de Aimma em Bagdade.
Sapato vem do árabe familiar: sabbat.
Deram-nos os sapatos. Agora estão descalços.

sexta-feira, setembro 02, 2005

Matemática vista por um escritor

Descobri em "Pourquoi le Brésil?" de Christine Angot, o delicioso livro que me serviu de banda sonora nas praias e nas águas do Caribe, uma definição rara e bela da matemática feita por alguém do mundo literário. Trata-se do escritor Pierre Angot, o pai de Christine, que numa remota carta dirigida à sua filha lhe explicava o seguinte:

"Les maths sont beaucoup moins difficiles qu'elles n'en ont l'air. Voici pourquoi. En realité, les mathématiques ne sont qu'un langage parmi beaucoup d'autres. Il suffit donc d'apprendre le vocabulaire des mathématiques pour les comprendre. Si tu es bonne en allemand, tu dois aussi réussir en maths, parce que c'est aussi une façon d'exprimer la réalité. Simplement, les maths visent une seule chose: la rapidité d'expression, alors que le français ou l'allemand recherchent aussi l'élégance, le pittoresque, etc. Il suffit donc de bien connaître le sens des signes pour découvrir une realité qu'on aurait aussi pu découvrir par tâtonnements, mais beaucoup plus lentement."

A definição é elegante e sobretudo demonstra um total respeito por uma disciplina que frequentemente é mal amada ou desprezada no mundo literário. Em particular no nosso país há muito desprezo pela matemática. Desvaloriza-se muito a importância das estatísticas, do rigor das contas, das classificações (rankings), etc.

Ler reflexão sobre assunto relacionado no Conta Natura.

quarta-feira, agosto 31, 2005

Iraque: já chega!

Perante a pior catástrofe dos últimos anos e à beira da guerra civil, o Iraque precisa mais do que nunca do apoio de uma comunidade internacional verdadeiramente solidária e descomprometida com as ambições petrolíferas dos EUA. Está na hora da Europa, e outras regiões do mundo que não se envolveram no desastre da invasão anglo-americana, actuarem. Portugal e o Presidente da Comissão não deveriam deixar passar em branco este terrível desastre causado pela confusão gerada pela ocupação americana.

terça-feira, agosto 30, 2005

Hoje soirée Thema na ARTE: Gays e Lésbicas

Hoje na ARTE das 19.50 às 21.45, a soirée Thema é dedicada ao tema: "Gays, lesbiennes et fiers de l’être!". Duas reportagens "Au bout de l'arc-en-ciel" e "Être Turc et gay", servirão de base para o habitual debate final.

Coisas complicadas


Junto à Base Militar Americana de Baumholder, Renânia-Palatinado, Alemanha, 2005.

Nota: o título desta entrada não é original na blogosfera, mas enquadra-se no espírito desta entrada do mesmo nome do CVM.

segunda-feira, agosto 29, 2005

O destino do Islão

Filme Klepsýdra da semana, transformado em filme do mês por força das férias, "O Destino" do realizador egípcio Youssef Chahine propõe uma explicação para a decadência e mergulho do Islão numa espécie de idade média, depois do período áureo em que a sua influência cultural se estendia desde Córdoba até Bagdade. A explicação de Chahine para o declínio é relativamente simples: a destruição dos livros, da música e de toda a cultura de um povo que possa servir de alavanca para a liberdade. Os acontecimentos têm como pano de fundo uma Andaluzia multicultural e multirracial, onde se misturam com bastante liberdade a cultura cigana, a cultura árabe, berbere e latina.
O filme possui momentos de encenação assumida em que decorrem deliciosos momentos musicais e de dança, em que se misturam sonoridades da música cigana peninsular e sonoridades árabes.
A importância de "O Destino" é a de ser uma rara crítica e uma livre reflexão sobre a evolução do Islão feitas com qualidade e vindas de dentro.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Abre-Surdo

O Abre-Surdo é um blogue em que a posta é aromática e refrescante. É escrito por uma portuguesa e três angolanos a viver em Portugal, que é coisa dura (a ultima vez que fui ao SEF saí de lá aos berros com os funcionários...e sou portugues). A visitar.

"Temos que fazer como na Europa"

Durante a minha estadia no México tive o raro privilégio de assistir aos programas da cadeia de televisão Fox News, uma cadeia de televisão como já não se faz. É uma espécie de televisão soviética para regimes democráticos. Diverti-me à brava a ver reportagens propagandísticas a seguir ao jornal das 20 sobre as vitórias militares americanas do passado, Guadalcanal, Pearl Harbor, etc. Mas numa ocasião, estava eu já quase a adormecer, quando ouvi algo que me atingiu como um raio. Discutia-se a subida do preço do petróleo e as consequências negativas na economia americana. Às tantas um comentador bem ousado profere as seguintes palavras: "temos que mudar, temos que fazer como os Europeus! Na Europa a gasolina custa quase o dobro do custo nos EUA, nós temos que fazer o mesmo. Os Europeus utilizam os transportes públicos e as bicicletas [neste aspecto Portugal é solidário com os EUA], nós temos que fazer o mesmo." Fiquei pasmo! O Fox-moderador estava com os olhos esbugalhados! Heresia! Heresia! O programa acabou passado meio minuto, por entre anúncios de programas de tragédias humanas e de perseguições policiais.

quarta-feira, agosto 24, 2005

Vamos ter mais anos de seca e...mais incêndios!



A evolução da temperatura média da superfície terrestre (sítio da NASA) não deixa dúvidas que a actividade humana, através da emissão de gases de efeito de estufa, está a provocar o aquecimento global do planeta. Como estes gases permanecem durante muitos anos na atmosfera, o que nos espera é que a temperatura média do planeta continue a aumentar nos próximos anos, pois não é previsível uma redução destes gases nos próximos 20 a 30 anos. Uma das consequências imediatas em climas mediterrânicos ou em climas de transição para temperados é o aumento de anos de seca, e associados a longos períodos de seca acontecem os inevitáveis fogos. O ano de 2005 é disso um exemplo.
Enquanto o aquecimento global continuar o potencial de ignição e de propagação de incêndios no nosso país vai continuar a aumentar, visto que estamos numa região do mundo com tendência para a desertificação. A par das asneiras irreversíveis que já infligimos à nossa floresta, se não se levar a sério este perigo real vamos continuar a pedir meios aos outros de ano para ano, até não existir mais floresta. Esta passagem do documento preparado pelas academias das ciências dos principais países do mundo para a recente cimeira do G8 diz tudo:

"Major parts of the climate system respond slowly to changes in greenhouse gas concentrations. Even if greenhouse gas emissions were stabilised instantly at today’s levels, the climate would still continue to change as it adapts to the increased emission of recent decades. Further changes in climate are therefore unavoidable. Nations must prepare for them."

segunda-feira, agosto 22, 2005

Isto vai aquecer ainda mais...

Este lindo panorama do aquecimento global pode ser consultado aqui:
July 2005: 1.08°F above the 1880-2004 long-term mean. The 2nd warmest July on record.
June 2005: 1.08°F above the 1880-2004 long-term mean. The 2nd warmest June on record.
May 2005: 0.97°F above the 1880-2004 long-term mean. The 2nd warmest May on record.
April 2005: 1.21°F above the 1880-2004 long-term mean. The 2nd warmest April on record.
March 2005: 1.21°F above the 1880-2004 long-term mean. The 3rd warmest March on record.
February 2005: 0.72°F above the 1880-2004 long-term mean. The 9th warmest February on record.
January 2005: 1.17°F above the 1880-2004 long-term mean. The 2nd warmest January on record.

Como podem ver na mesma página, o ano de 2004 foi o quarto ano mais quente desde que se resgista a temperatura da superfície terrestre (on record). Pelo andar da carruagem das temperaturas mensais deste ano, 2005 vai entrar para este sinistro top four elaborado pela NASA:

Os coloridos templos maias

Embora hoje os grandes templos e restantes construções maias, astecas, olmecas, etc. não apresentem qualquer coloração exterior especial, quando foram construídos esses edifícios possuíam uma camada exterior de gesso colorida. Por exemplo, a cor original da Pirâmide do Mágico de Uxmal e do El Castillo de Chichen Itzá era o vermelho vivo. Escusado será dizer que perdi uns deliciosos momentos a imaginar aqueles magníficos com as cores originais.

domingo, agosto 21, 2005

Conta Natura

Tinha-me escapado o Conta Natura, um excelente blogue sobre ciência (e não só), escrito por gente que faz ciência. Ainda por cima, há ali uns autores cujos nomes não me são nada estranhos.

sexta-feira, agosto 19, 2005

Don't eat this blog!

"Don't eat this book" é o sugestivo título do novo livro de Morgan Spurlock, o realizador do filme "Supersize me". O livro tem como ponto de partida as experiências realizadas por Spurlock durante a produção do filme, mas "Don't eat this book" é um trabalho mais rigoroso, que vai bem mais além do que o filme, apresentando uma série de análises à comida fornecida nas escolas, nos hospitais e nos lares americanos e desenvolvendo uma reflexão sobre a educação física praticada nos estabelecimentos de ensino.
Apesar do tom do livro, o assunto é muito sério. Nos EUA as doenças provocadas pela obesidade são neste momento a principal causa de morte, superando o tabaco. Morrem cerca de 400 mil pessoas (cerca de 120 vezes as mortes do 11 de Setembro) por ano de doenças relacionadas com a obesidade. Em Portugal, embora estejamos longe da amplitude do flagelo americano, os números da nossa obesidade infantil indicam que para lá caminhamos.

As fotografias que não tirei

Durante o meu périplo por terras Maias, Astecas, Olmecas e Zapatecas deixei muitas fotografias por tirar, andei mais preguiçoso, mas também foram muitas horas com as mãos ocupadas a conduzir um burrito vermelho que nunca se cansou. Os índios da Serra Madre também não gostam de ser fotografados, receiam perder a alma, e respeitei a sua vontade. No entanto, na minha memória ficaram registadas aquelas tranças negras que assentavam em mantos azuis, de um azul muito escuro, com motivos dourados. Registei o tom de pele, um tom de alta montanha, lindo dentro daqueles mantos. Registei uma igreja em San Juan de Chamula com palha espalhada pelo chão em vez de bancos, recheada de velas e muitos santos, onde as tranças oravam e tocavam a palha.
Ao longo da estrada a retina substituiu a minha Minolta, "fotografei" todas as nuances de verde da floresta tropical, da savana, das montanhas, "fotografei" uma cobrazorra que se atravessou na estrada e que assassinei barbaramente (não tive hipótese de me desviar), foram meia dúzia de cratrapuns debaixo do carro e o retrovisor deu-me o instantâneo final: torcida num oito e imóvel. "Fotografei" muitos burros selvagens e os cães, muitos cães, que ladeavam os "topes" (bandas sonoras rodoviárias enormes), parecia até que faziam a guarda policial desses locais. "Fotografei" no escuro duas tartarugas gigantes a desovar nas praias do Caribe e a cria, recém saída do ovo, que se lançou que nem um tiro para o meio das ondas. "Fotografei" também muita pobreza, o pudor impediu-me de sacar a Minolta. Sobre a pobreza escreverei depois.

segunda-feira, agosto 15, 2005

Posts que nao escrevi

Nao tenho tido acesso a internet. Acumulo na memoria posts que nao escrevi. Li alguns comentarios, responderei. Ja volto, esta quase.

sexta-feira, agosto 05, 2005

Caso nao reparem: aumentou probabilidade de incendio

Os dez anos mais quentes de sempre (desde que ha registo) ocorreram desde 1990, é o que se chama o aquecimento global. Quer ocorram por causas naturais, por acidente ou por fogo posto, a probabilidade de haver incendios florestais aumentou bastante. E vai continuar a aumentar, pois todos os estudos indicam que os proximos 20 anos vao ser ainda mais quentes que os 20 anos precedentes. O fogo vai ter que ser encarado pelo nosso pais como uma "guerra", e por isso os meios terao que ser serios. Para além disso Portugal vai ter que dar uns murros na mesa de negociacoes internacional sobre problemas climaticos. Se nao se implementarem medidas urgentes para a reducao da emissão de gases de efeito de estufa, Portugal corre o serio risco de se tornar um deserto dentro de 30 anos.
É por esta ultima razao que sou pouco sensivel a umas lagrimas de crocodilo que andam por ai de alguns que sempre fingiram que o aquecimento global nao existia.

quarta-feira, agosto 03, 2005

A cumprir em terras Maias

A Klepsýdra anda meio dormente porque aqui o vosso escriba anda a cumprir um sonho de infância: Chichen Itzá -> Uxmal -> Edzná -> Palenque segue-se Monte Albán -> Tenochtitlán (Cidade do México) -> Teotihuacán -> Tikal -> Tulum.

quinta-feira, julho 28, 2005

Ainda sobre o ecologista céptico (comentários)

"O que é diferente, o que se distingue do resto, chama a atenção. É falado, noticiado, discutido, o que chama ainda mais a atenção. Quanto mais atenção tem, mais atenção chama e vice-versa. Mesmo que seja diferente pelas piores razões. Esta parece ser uma espécie de "lei social" com bastante aplicabilidade e que está na base de fenómenos de popularidade como a "Quinta das Celebridades" ou o "Big Brother". Suspeito que seja também o caso de Lomborg, embora para ter a certeza absoluta tivesse de ler e compreender toneladas de bibliografia, o que pessoalmente dispenso. Prefiro confiar no pouco que li, na minha intuição e em quem me parece ter mais credibilidade.
Parece-me que sim, Lomborg é uma treta.
"

Nuno, Aba de Heisenberg

"Uma pequena correcção, o livro de Lomborg é de 2001 (Cambridge University Press). Há um livro muito interessante da Danish Ecological Association, chamado "Sceptical Questions and Sustainable Answers", que pode ser obtido gratuitamente em pdf: http://ecocouncil.dk/english/ (link do lado direito). Este e outros recursos interessantes, além de numerosas correcções e desmistificações, podem-se encontrar no interessante http://www.lomborg-errors.dk/"

V.P.

terça-feira, julho 26, 2005

Regresso ao passado: Cavaco & Soares

A confrontação entre a candidatura presidencial de Cavaco e a de Soares é tudo aquilo que Portugal não precisa neste momento. Previsivelmente, será um debate conjugado no passado. Está-se mesmo a ver que haverá um ajuste de contas sobre o período em que Soares era Presidente e Cavaco era Primeiro Ministro. O lavar de roupa suja já começou, basta ler os comentadores do costume para o constatar. O debate será também retrógrado no conteúdo, pois tanto Cavaco como Soares andam alheados de grandes temas internacionais que marcarão os próximos anos: a política europeia, o aquecimento global, a penúria no planeta de água potável e de energia e a inevitabilidade de grandes movimentos migratórios para evitar o colapso do tandem trabalho-reforma. Em relação aos temas nacionais que merecem a intervenção presidencial, dificilmente qualquer um dos candidatos produzirá um discurso centrado em políticas que aliam a modernidade ao desenvolvimento, como a ecologia, a tecnologia, a ciência, a formação contínua dos trabalhadores e dos empresários, etc.
Além do mais, julgo que Cavaco não tem perfil para Presidente, possui sim um perfil claramente de Primeiro Ministro de direita. Julgo também que Soares cometeu um erro grave relacionado com o seu último mandato. Na altura, Soares teve a excelente iniciativa de realizar uma presidência aberta que denunciava as assimetrias e a excessiva centralização do país, o problema é que passados alguns meses Soares foi um dos que se manifestou contra a Regionalização. Se for eleito Presidente, Soares poderá voltar a realizar uma presidência aberta sobre as assimetrias e a excessiva centralização. O tema continua actual...

domingo, julho 24, 2005

Abre los Ojos

"Abre los Ojos" é na minha opinião um dos melhores filmes de ficção científica e o meu filme preferido de Amenábar, o realizador de "Mar Adentro". O filme baseia-se numa reflexão futurista sobre a possibilidade de podermos exercer o controlo do decorrer das nossas vidas recorrendo à tecnologia. Estamos habituados no cinema de Hollywood a ver este tema ser tratado de uma forma linear e desinteressante (ex: a série "Back to the Future"). No entanto, Amenábar introduz uma forte dimensão emocional ao tema, fazendo uso da cruel angústia do irreversível como detonador para um enredo cheio de suspense, onde o evoluir da história progressivamente nos vai fazendo duvidar sobre o que é real e sobre o que é a fantasia de César, o personagem principal. "Abre los Ojos" é ficção científica 5 estrelas, tendo sido este filme realizado sem grandes meios e quase sem recorrer a efeitos especiais, o que só abona a favor do talento de Amenábar.
Produzido em Hollywood, "Vanilla Sky" com Tom Cruise, é, segundo consta, um remake simpático deste filme.

quinta-feira, julho 21, 2005

Dois anos de Klepsýdra

Agradecimentos
Nuno Vargas, Escrita Aleatória, Isabel, António Baeta Oliveira, Rui MCB, Paulo César, Nelson Lourenço, Homem das Neves (autêntico Timo Rautiainen a ditar notas), Alexandre Monteiro (é esse o espírito Alexandre), António da Vila Dianteira, Eva Lima (boa ideia essa do puzzle), Contra-Indicado, Joaquim (adoro a Raia), José Pimentel Teixeira, Bruno Martins, Sofia...
Um abraço especial para os meus leitores da diáspora (cerca de 20%), que andam lá fora a lutar pela vida: no Brasil, na Bélgica, nos EUA, Espanha, França, Suiça, Reino Unido, Luxemburgo, Alemanha, Finlândia, Polónia, Holanda, Moçambique, Israel, Formosa, Canadá, Rep. Checa, Dinamarca, Austrália, etc.

Programa de festas

22.00-23.59 - E o grande final (koniec) com:
Kapela ze wsi Warsawa (Warsaw Village Band)

20.00-21.30 Piquenique junto ao Mondego, de preferência com os pés de molho, a contemplar a mancha verde do outro lado, em Santa Clara, que ainda não dizimada pela especulação imobiliária.

Cinema
18.00-19.52 - Sessão Especial no Cinema Avenida: "Le Goût des Autres" de Agnès Jaoui

Debate
17.00-18.00 - "A Política Comum de Pescas". Participantes: Corto Maltese, Capitão Haddock, Atum Toneca e o Comissário Europeu para as pescas Joe Borg

Hora Homem Objecto
16.00-17.00 - Eleição do guarda-redes T-shirt suada
Vitor Baía (SMS para Klep 01); Petr Cech (Klep 02); Dida (Klep 03)

Choupal Radical
15.30-16.00 - Concurso de caça a uma boa história: TVI vs Jornal 24 Horas
15.00-15.30 - Bungee jumping: Deficit nacional vs Assinatura da internet de banda larga
14.30-15.00 - Corridas de Submarinos (3 participantes): Tiago Monteiro, Paulo Portas e o primo de Isaltino que é taxista na Suiça.
14.00-14.30 - Final do concurso de lançamentos dos 3 pontos:
Manoel de Oliveira vs Michael Jordan

Palestras digestivas
13.30-14.00 - "O Fim da Klepsýdra e o último blogue", Francis Fukuyama
13.00-13.30 - "A solução para a pobreza no mundo é cortar os subsídios à Klepsýdra", Paul Wolfowitz

Almoço
12.00-13.00 - No Zé Manel dos Ossos ao som da Fanfare Ciocarlia

Rally Paper
08.30-12.00 - A cada dupla de concorrentes foi fornecido um canivete suiço e um citröen dois cavalos. O objectivo é somar o máximo de pontos desmontando (através da técnica José Bové) algumas das obras mais marcantes do nosso país:
Estádio Nacional - 1000 pontos
Túnel do Marquês - 500 pontos
Campo de golfe da Quinta das Lágrimas - 250 pontos
Repuxo de Oeiras - 100 pontos
Campo de golfe de Marvão -100 pontos
Arco de boas-vindas da Figueira da Foz - 50 pontos
Vendas de fornos, tijolos, mármores e estátuas gesso de leões,
águias e dragões à beira da EN 1 - 50 pontos cada
Casas do Benfica, Porto ou Sporting - 50 pontos cada
Rotundas de Viseu - 10 pontos cada

Desayuno
06.30-08.30 - Algures numa cafeteria de um parque de campismo de Castela e Leão (não digo onde é nem que me dêem choques electricos nos testículos com dois electrodos), onde o cliente tem o raro privilégio de lhe ser servido o pequeno almoço ao som de bom e estimulante jazz. Até parece que estou a ver o Samsa a pedir um bocadillo de jamón "sin mantequilla".

Klepsýdra Club House
05.15-06.30 - Expander
03.30-05.15 - Carl Cox
03.15-03.30 - Carl Cox Warm Up - DJ Muxaxo
02.45-03.15 - Monika Kruse
02.15-02.45 - Claudio Coccoluto
01.45-02.15 - DJ Vibe
01.30-01.45 - Warm Up - Jack de Marseille

Sessão de palestras científicas
01.15-01.30 - "O Raio da Klepsýdra", Niels Bohr
01.00-01.15 - "KED - Klepsýdra Electrodynamics", Richard Feynman
00.45-01.00 - "A Klepsýdra não joga aos dados, mas é bem capaz de jogar Civilization 17 horas seguidas", Tio Alberto
00.30-00.45 - "Será a Klepsýdra radioactiva?... Tem dias que sim", Maria Sklodowska (Madame Curie)

Abertura solene
00.00-00.30 - Discurso "A importância da Klepsýdra na minha vida" pelo Mestre de Cerimónias das comemorações deste ano, Goran Bregovic.

O fiel leitor deve estar a pensar que Bregovic tem uma klepsýdra lá em casa que funciona a slivovica, ou ainda que Klepsýdra é o nome da enfermeira que salvou Bregovic de uma cirrose, ou ainda que Klepsýdra é o nome de uma casa de alterne sérvia ou de uma simpática ovelhinha que pastava lá para os lados dos Balcãs. Nah, nada disso!

quarta-feira, julho 20, 2005

'Tá quase...

Faltam duas horas para a Klepsýdra fazer dois anos.
Está quase a sair o programa de festas ;)

Quando for grande quero ser diabético

Na praia a Eva Lima constatou a veracidade do recente relatório sobre obesidade infantil em Portugal. Nas minhas infelizmente fugazes escapadas pelos areais da Costa de Prata tenho constatado exactamente o mesmo. Em cerca de um terço das famílias que observo existe uma rapariguinha ou um rapazito obesos, com muitas banhas seguras por pernitas frágeis. Já aqui disse que não tenho nada contra os adultos que livremente escolhem ser obesos, nem acho que haja ideais de beleza que excluam os obesos ou os anorécticos, mas as crianças devem estar ao abrigo das consequências irreversíveis da obesidade e da anorexia. É que eu não acredito que a resposta à questão "o que queres ser quando fores grande?" seja: "quero ser diabético".

terça-feira, julho 19, 2005

O obsceno parque automóvel americano

Na entrada anterior referi que os EUA são o maior emissor de gases de efeito de estufa do planeta, mas bastariam as emissões produzidas pelas pickup e pelos automóveis citadinos americanos para colocar os EUA entre os 20 maiores poluidores do mundo. O pior é que não existe justificação para que os fabricantes americanos continuem a produzir carros com motores enormes (a regra é 2000 ou 3000 cm3 no mínimo) com consumos de combustível obscenos (>12l/100km em cidade) quando motores bem menores chegariam perfeitamente para as necessidades do americano médio. Um motor de 1600 cm3 é mais do que suficiente para um espaçoso carro familiar e um 2000 cm3 chega perfeitamente para um generoso monovolume. Sabemos que o parque automóvel europeu é radicalmente diferente, é bem menos poluidor e actualmente segue a tendência dos veículos citadinos de reduzidas dimensões do tipo SMART. A moda "SMART" pegou desde às marcas económicas, como o Fiat Panda (1200cm3-5,6l/100km), até aos mais luxuosos, como os classe A da Mercedes (1500cm3-6,2l/100km).


Uma das ocasiões em que aluguei um carro nos EUA pedi à empresa de aluguer via telefone um carro pequeno, "o mais pequeno de todos", disse-lhes que era Europeu e estava habituado a carros pequenos (um carro pequeno para um americano é um Toyota Corolla com três volumes). Trouxeram-me este exemplar que vos mostro na foto que tirei na altura. Trata-se, nada mais nada menos, de um Chrysler Intrepid ES com um motor de "apenas" 3500 cm3 (V6) e com consumo de 13l/100km em percurso citadino. Recebi uma bomba desportiva pelo preço da classe mais económica... é tudo à bruta naquele país!

segunda-feira, julho 18, 2005

Ainda sobre o G8 e as alterações climáticas

Sete dos oito países participantes no G8 de Gleneagles fazem parte do grupo dos 10 maiores emissores de gases de efeito de estufa, a excepção é a França que aposta forte no seu programa de produção de energia nuclear, com todos os riscos e desvantagens que esta opção comporta. No total, estes oito países são responsáveis por mais de 47 % das emissões de gases de efeito de estufa de todo o planeta. Os EUA são o maior poluidor do mundo em valor absoluto – o maior emissor de gases poluentes per capita é a Austrália – emitindo mais 5500 milhões de toneladas de CO2 por ano, representando este valor cerca de 25% do total das emissões poluentes do planeta.
Ao contrário dos restantes países do G8, os EUA ainda não ratificaram o Protocolo de Quioto. Esta situação deve-se em grande parte à influência que têm sobre a Administração Bush a companhia petrolífera Exxon e o grupo de pressão anti-Quioto Global Climate Coalition liderado por um representante da indústria americana, Glenn Kelly. Por muita cosmética política que se faça às conclusões do G8, enquanto este problema não for resolvido com os EUA, o G8 do ponto vista ambiental será sempre um fracasso. Estamos a comprometer gravemente o futuro e a correr um sério risco de deixar uma herança de desastres ambientais de consequências apocalípticas que as armas utilizadas até hoje pelo homem ainda não foram capazes de simular.

quinta-feira, julho 14, 2005

Livros que passaram à categoria de treta

Numa altura em que as principais revistas científicas, como a Science ou a Nature, publicavam artigos dando conta da relação entre a actividade humana e o aquecimento global, Bjørn Lomborg - que nunca publicou em nenhuma dessas revistas - publicava "O Ambientalista Céptico", uma obra de divulgação crítica da tese do aquecimento global provocado pelo homem. O livro serviu de conforto para muita gente, apesar de o Comité Dinamarquês de Ética na Investigação ter considerado a obra de Lomborg desonesta do ponto de vista científico ou de o editor da Scientific American ter escrito o seguinte sobre o livro: "O pensamento crítico e os dados objectivos são as pedras basilares de toda a boa ciência. [...] O livro 'The Skeptical Environmentalist', por Bjørn Lomborg, um estatístico e cientista político da Universidade de Aarhus na Dinamarca, deveria constituir por isso uma análise crítica bem vinda. Mas infelizmente não o é.". Neste sítio da Scientific American podemos encontrar alguns detalhes sobre alguns dos muitos erros cometidos por Bjørn Lomborg. Também as revistas Science e Nature publicaram artigos que denunciaram os numerosos erros de Lomborg.
Outro livro da treta que nega a influência da actividade humana no aquecimento global é "A Obsessão Antiamericana" de Jean-François Revel. Este é mesmo um livro da treta, pois ao contrário de Lomborg, Revel nem sequer se deu ao trabalho de fazer contas. Consultou a literatura que lhe convinha, independentemente de ter solidez científica ou não, e destilou o seu conhecido ódio antieuropeísta. A Europa, o aquecimento global e o Protocolo de Quioto, todos levaram por tabela. Algumas passagens do livro de Revel possuem mesmo requintes da melhor metodologia astrológica, por exemplo Revel acha que o aquecimento global não existe, mas depois mais à frente refere que seria demasiado caro travá-lo, portanto pelos vistos já existe, se é quantificável...

Apenas a polarização causada pelo conflito do Iraque entre apoiantes de Bush, que rejeita o Protocolo de Quioto, e os contestatários da intervenção explica o sucesso destas fraudes científicas publicadas em 2002 e 2003. Este documento emitido pelas academias das ciências dos países do G8 juntamente com as suas congéneres do Brasil, da China e da Índia são o tiro final na treta de Revel e de Lomborg.

quarta-feira, julho 13, 2005

Conclusões do G8 sobre as alterações climáticas

Da declaração final conjunta do G8 o que há de realmente novo é:

"All of us agreed that climate change is happening now, that human activity is contributing to it, and that it could affect every part of the globe."

Quer isto dizer que finalmente acabou a criancice de insinuar que o aquecimento global era um problema inventado pela Europa para a economia europeia se aproximar da economia americana. É um progresso significativo...

Blair acrescentou:

"It is combined, in addition, with a specific plan of action in respect of all the main issues, and that plan of action and the dialogue together will then be reported on, first of all at a meeting that will be held here in Britain on 1 November, and then in successive G8 Presidencies"

Óptimo!
No entanto, como já se esperarava, a questão do Protocolo de Quito ficou na mesma como a lesma. O que é péssimo e bastante perigoso para o futuro do planeta, aliás a seguinte passagem é suficientemente clara:

"We were never going to be able at this G8 to resolve the disagreement over Kyoto, nor to renegotiate a set of targets for countries in place of the Kyoto Protocol (...) If it is impossible to bring America into the consensus on tackling the issue of climate change, we will never ensure that the huge emerging economies, particularly those of China and India, who are going to consume more energy than any other part of the world, we will never ensure that they are part of a dialogue, and if we cannot have America as part of the dialogue on climate change, and we can't have India and China as part of the dialogue, there is no possibility of us succeeding in resolving this issue."

segunda-feira, julho 11, 2005

O arrastão florestal

O verdadeiro arrastão que grassa em Portugal é o arrastão do fogo nas nossas florestas, é todos os anos a mesma coisa, mas como não são cabo-verdianos ou brasileiros a praticar esse arrastão não vale a pena fazer policiamento ou sequer a vigia de todas as zonas de maior risco do país (foto TSF). Ainda se fosse para mandar umas bastonadas, mas agora elaborar planos e estratégias de prevenção, isso está quieto, o Portuga não se sente suficientemente motivado.
Já agora pergunto para que serve o orçamento atribuído à defesa do país, é para nos defender de quê? A marinha e a força aérea ainda justificam os investimentos, mas para que serve tanto quartel militar para o exército? Estão à espera que venham por aí acima os Marroquinos? Se há algo que nos está a causar danos irreparáveis neste momento são os fogos florestais, esse é o nosso maior inimigo, não é o Bin Laden, nem os Castelhanos, nem o Napoleão. Estamos à espera de quê para ter uma força de prevenção e de combate a incêndios com uma estrutura e um orçamento equiparados às forças armadas?

O aquecimento global e a probabilidade de incêndio
Os dez anos mais quentes jamais registados ocorreram todos desde 1990. Quer isto dizer que a probabilidade de existirem incêndios em Portugal tem aumentado bastante nos últimos anos e vai continuar a aumentar se o aquecimento global continuar.

É longe, não são ocidentais...

Eu sei, é longe, não são ocidentais, nem cristãos, mas o que é certo é que todas as semanas no Iraque ocorrem atentados de graves consequências, por exemplo ontem morreram "só" 34 pessoas (semelhante ao balanço oficial calculado por baixo dos atentados de Londres) num conjunto de sete explosões no Iraque. Compreende-se que o atentado de Londres mereça um bocadinho mais de atenção na Europa, mas as grandes declarações de horror e de choro internacional já não se compreendem tanto perante a indiferença do que está a acontecer no Iraque. Será isto também porque no Iraque se asneirou e convém fingir que não está a acontecer nada? Esta notícia de 10 linhas do DN foi a maior que encontrei nas edições internet dos jornais sobre os atentados de ontem no Iraque, enquanto os atentados Londres continua a encher páginas e a ajudar a vender jornais...

domingo, julho 10, 2005

Va, Vis et Deviens

Agora é a minha vez de recomendar à atenção do Francisco do Aviz, e já agora do Nuno Guerreiro, o filme "Vas, vis et deviens" de Radi Mihaileanu que aborda o assunto da migração dramática dos judeus da Etiópia, os Falasha, para Israel durante os anos 80. Só durante a primeira fase de migração dos 12000 Falashas que tentaram chegar a Isreal, cerca de 4000 morreram.
Curiosamente a personagem principal é um rapaz cristão que, para fugir à fome e às doenças dos campos de refugiados do Sudão, se faz passar por judeu sob a identidade de Schlomo de modo a poder ser transferido para Israel. O filme aborda a complexa questão de se ser estrangeiro, mas neste caso de um estrangeiro ao quadrado, um estrangeiro entre estrangeiros e um estrangeiro em todos os seus estados: nacionalidade, cor de pele, religião, língua, etc. A própria família de acolhimento é estrangeira, são "judeus-ateus" franceses de esquerda. Tudo isto se passa em Israel que em si é já considerado um país estrangeiro naquela região e cujos governantes (alguns) tratam os seus vizinhos como se fossem também estrangeiros. Enfim, a salada que nos serve este filme é muito boa e recomenda-se. Não sei quando o filme será estreado em Portugal, se é que será estreado, porque em Portugal todos os filmes que não sejam falados em "americano" é uma complicação.

sábado, julho 09, 2005

Memória curta IV: Bernad-Henry Lévy tinha razão

"Si ce livre commence au début de l'année 2002, le fait est qu'il se termine en avril 2003, en pleine guerre anglo-américaine en Irak. Et je comprends mieux, en l'achevant, pourquoi cette guerre, depuis ses prémices, m'inspirait un si vif sentiment de malaise. (...) Je rentrais de cet autre monde [Pakistan]. Tout le temps qu'a duré le débat sur la question de savoir si renverser Saddam était la priorité du moment et si le sort de la planète se jouait, ou non, à Bagdad, j'étais dans le trou noir de Karachi. Et je ne pouvais pas, je ne peux toujours pas, ne pas songer que cette guerre irakienne, par-delà même son coût politique et humain, par delà ses morts civils et le nouveau tour qu'elle ne manquera pas de donner à la roue mauvaise de la guerre de civilisations, témoignait d'une singulière erreur de calcul historique."

Bernard-Henri Lévy, "Qui a tué Daniel Pearl", Editions Grasset, 2003, pag. 13.

sexta-feira, julho 08, 2005

Memória curta III: Richard Clarke tinha razão

"I have a disturbing image of him [George W. Bush] sitting by a warm White House fireplace drawing a dozen red Xs on the faces of the former Al Qaeda coporate board, and soon perhaps on Usama Bin Laden, while new clones of Al Qaeda are working the back alleys and dark warrens of Bagdad, Cairo, Jakarta, Karachi, Detroit and Newark, using the scenes from Iraq to stoke the hatred of America even further, recruiting thousands whose names we will never know, whose faces will never be on President Bush's little charts, not until it is again too late."

"Against All Enemies", Richard Clarke, Free Press, 2004, pag. 287.

quinta-feira, julho 07, 2005

Memória curta II: Richard Clarke tinha razão

"Instead of addressing that threat with all necessary attention it required, we went off on a tangent, off after Iraq, off on a path that weakened us and strengthened the next generation of Al-Qaedas. For even as we have been attriting the core Al-Qaeda organization, it has metastasized. It was like a Hydra, growing new heads. There have been far more major terrorist attacks by Al-Qaeda and its regional clones in the thirty months since September 11 than there were in the thirty months prior to that momentous event. I wonder if Bin Laden and his deputies actually planned for September 11 to be like smashing a pod of seeds that spread around the world, allowing them to step back out of the picture and have the regional organizations they created take their generation-long struggle to the next level"

"Against All Enemies", Richard Clarke, Free Press, 2004, pag. 286.

Mais sobre o assunto nos Bicharocos como gráficos e tudo.

Estas entradas intituladas "memória curta" são entradas antigas da Klepsýdra, nada disto é novo...

Memória curta: De Villepin tinha razão

O discurso de Dominique de Villepin, Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, perante a ONU a 19 de Março de 2003, altura em que os EUA estavam na iminência de intervir no Iraque:

"Make no mistake about it: the choice is indeed between two visions of the world. To those who choose to use force and think they can resolve the world's complexity through swift and preventive action, we offer in contrast determined action over time. For today, to ensure our security, all the dimensions of the problem must be taken into account: both manifold crises and their many facets, including cultural and religious. Nothing lasting in international relations can be built therefore without dialogue and respect for the other, without exigency and abiding by principles, especially for the democracies that must set the example. To ignore this is to run the risk of misunderstanding, radicalization and spiraling violence. This is even more true in the Middle East, an area of fractures and ancient conflicts where stability must be a major objective for us."

Ver ponto 2 do discurso de De Villepin

quarta-feira, julho 06, 2005

Sacrificar o planeta para salvar os EUA

"There is now scientific consensus that this warming [global warming] has been brought about by the increase in greenhouse gases in the atmosphere, which in turn has been caused by human activities – primarily the burning of fossil fuels and changes in land use."

Isto está no sítio do G8. Estão a ler o mesmo que eu não estão? Agora leiam isto:

"President Bush said in a Danish TV interview aired Thursday that adhering to the Kyoto treaty on climate change would have "wrecked" the U.S. economy", USA Today, 30 de Junho de 2005.

Ok, vamos então estoirar com o planeta para não tramar a economia dos EUA...

terça-feira, julho 05, 2005

Fissão por conFUSÃO nuclear ou gato por lebre (act.)

Descobri esta vergonha de artigo através do David Luz da Linha dos Nodos. O David Luz desmonta bem o chorrilho de asneiras com que nos brinda o autor. Sugiro mesmo ao DN que não pague este artigo ao autor Luís Miguel Viana (LMV), porque é um artigo tão mau que lança a confusão na opinião pública sobre estas questões que são importantíssimas fazendo recurso de uma argumentação profundamente errada e mal informada. Um jornal não é bem um blogue, a remuneração dos cronistas exige um mínimo de trabalho de pesquisa e se não se está suficientemente informado sobre um assunto o melhor é não escrever.

LMV escreve um artigo desta índole sem perceber que não existe praticamente relação entre um projecto de investigação (e não de comercialização ou de distribuição) para produzir energia nuclear por fusão como o ITER, e as centrais nucleares que produzem energia nuclear por fissão nuclear. O único ponto comum é que a fissão (processo de produção de energia das centrais nucleares) e a fusão (processo de produção de energia estudado no ITER) são explicadas pela mesma disciplina da física: a física nuclear. Também duvido que LMV tenha uma ideia da diferença entre fissão e fusão. LMV deve julgar que lá porque é tudo nuclear deve ser a mesma coisa!

O projecto ITER é um projecto de investigação internacional para estudar métodos e soluções para futuramente ser possível a produção de energia por fusão. Seria excelente um dia conseguir produzir energia através deste método pois teoricamente (sublinho teoricamente) seria um método limpo de produzir energia em quantidades quase inesgotáveis, como seria excelente também se Portugal se associasse a este projecto. Pelo contrário seria péssimo se Portugal desenvolvesse um projecto de construção de centrais nucleares, duvidoso e complicado do ponto de vista económico e perigoso e complicado do ponto de vista ambiental, quando em toda a Europa já não se constrói uma nova central nuclear há cerca de 20 anos. Actualmente, a Alemanha está a pôr termo ao seu programa nuclear e outros países, como a Itália, estão a reduzir bastante o seu programa de produção de energia nuclear por fissão. Como já aqui escrevi, o próprio orçamento da EURATOM para o 6° Programa Quadro da EURATOM 2002 a 2006 não deixa dúvidas ao atribuir cerca de 80% do orçamento ao ITER, dedicando apenas os 20% restantes à manutenção de centrais nucleares. Só uma leitura às avessas ou mal informada desta realidade, como a de LMV, é que pode ver no projecto ITER uma justificação para a construção de uma central nuclear em Portugal.

segunda-feira, julho 04, 2005

Curiosidades sobre a missão Deep Impact

- O projéctil lançado contra a superfície do cometa Tempel 1 consistia essencialmente de 370 kg de cobre.

- O cometa Tempel 1 demora cerca de 5 anos a completar a sua órbita à volta do Sol.

- O cometa Tempel 1 foi descoberto em 1867 no Observatório de Marselha pelo alemão Ernst Tempel.

- A missão Deep Impact foi a quarta de uma série cinco missões escalonadas até ao ano 2014 dedicadas ao estudo de cometas: em 1986 a sonda Giotto observou o cometa Halley, em 2001 a Deep Space One observou o Borelly, em 2004 a Stardust foi ao encontro do Wild 2, hoje a Deep Impact foi ao encontro do Tempel 1 e em 2014 a Rosetta largará uma sonda na superfície do cometa Churyumov-Gerasimenko.

Quase em directo

Ver aqui

domingo, julho 03, 2005

Deep Impact


Em directo na Klepsýdra e na Euronews a partir das 6.30 da matina.

Desde o momento em que a sonda foi lançada em direcção à superfície do cometa Tempel 1, para além da nave-mãe da missão Deep-Impact, outros "olhos" observam o impacto e os fragmentos ejectados pela colisão: a missão Rosetta (que enviará uma sonda até à superfície do cometa Churyumov-Gerasimenko em 2014), o telescópio espacial XMM de raios X e o telescópio Hubble.

sábado, julho 02, 2005

Ganhar menos que uma secretária...

O Francisco do Aviz chamou-me a atenção para o seguinte pormenor de Brida: "o namorado de Brida (que é secretária numa empresa de Dublin) ganha menos do que ela; ele é professor no departamento de Física numa universidade pública irlandesa"

Aproveito já para esclarecer que não sou professor universitário. Em física, os doutorados da minha geração depararam-se com os departamentos saturados de docentes e só entra um novo docente por cada quatro que se reformem ou...morram! Faço parte do grande pelotão de investigadores bolseiros (no meu caso do Ministério da Ciência) que ganha um bocadinho menos que um professor universitário e ainda menos que a secretária Brida. No entanto, não me preocupa nada o facto de uma secretária de uma empresa ganhar mais do que eu, nem o Zé Cabra, nem a Manuela Moura Guedes, nem o Ricardo do Sporting. Mas há outras coisas que me preocupam profundamente:

- Aqueles professores universitários que não investigam, não publicam, não são referidos pelos seus pares, não participam nem em projectos nem em redes nacionais ou internacionais, que passam a sua carreira a apresentar a mesma resma de acetatos. Em Portugal não devem ser nada poucos, arrisco a dizer que são metade e já excluo os que têm excesso de tempo de aulas. Alguns destes professores do acetato chegam ao ponto de escrever artigos em jornais referindo que "dantes é que o ensino era bom". Então não era! Era o tempo em que Portugal tinha o pior sistema de ensino da Europa (pior que países como Chipre ou a Albânia), em que não havia produção científica nas universidades, não havia interacção nem com as empresas nem com a sociedade. Estes professores se ganhassem menos que as secretárias seria da mais profunda justiça.

- Os investigadores bolseiros são responsáveis por cerca de 40% da produção científica nacional e são avaliados como não se faz em mais nenhuma actividade deste país. Ao contrário dos professores universitários não recebem 13° mês, não têm direito a subsídio de férias ou de desemprego e descontam através de um manhoso seguro social voluntário como se recebessem o ordenado mínimo. Os bolseiros não contam para o IRS o que os exclui de muitos procedimentos administrativos e financeiros indispensáveis para se viver com algum conforto, como pedir um simples empréstimo ao banco.

- Não existir uma aposta na ciência e na tecnologia (um plano apenas tecnológico, é como querer andar de mota só com a roda da frente) num país dos que investe apenas 0,8% do seu PIB em investigação quando a meta estabelecida pelos objectivos de Barcelona apontam para 3% em 2010. Ainda mais quando há exemplos na Europa de países que saíram de crises profundas apostando na ciência (Finlândia e Suécia).

- As empresas privadas nacionais praticamente não fazerem investigação (apenas 0,2% do PIB) e apostarem sempre na mão-de-obra barata, na exploração e na precariedade. Por isso não deverão existir muitas Bridas em Portugal.

- Toda a cambada de incompetentes que ocupam lugares em empresas públicas sem terem qualificações para os ocupar, nomeados pelo aparelho partidário do partido no governo. Isso choca-me bem mais que uma secretária ganhar mais que um professor, tal como me choca numa altura de crise o estado pagar a uma astróloga para participar em programas da RTP um salário equivalente ao que ganham 10 investigadores doutorados ou 20 investigadores licenciados.

sexta-feira, julho 01, 2005

UK entre o 51 Estado e a Mesa Europeia

Para não deprimirmos com os 6 longos meses de presidência britânica, aqui vão algumas reflexões interessantes de Jeremy Rifkin no prefácio da edição inglesa de "The European Dream" sobre a relação entre Reino Unido, a Europa e os EUA:

"In the 21st century, no country will be able to go-it-alone in an increasing global economy. Either the U.K. becomes the 51st American state - de facto - or it takes its place at the European table. (...) How does the U.K. expect to maintain its own currency ten years from now when most of the rest of the world is doing business in Euros ans dollars? (...) I can see why the U.K. needs either the U.S. or Europe, but not why either of the other two ultimately need the U.K. So where does this leave the U.K.?
If Great Britain chooses to attach its destiny to that of America, it will ultimately have to accept an American agenda and an American frame of mind as its own. If, however, the U.K. chooses to become an integral part of continental Europe, it will have to accept the duties and obligations that go along with surrendering some measure of sovereignity to become part of transnational political space. But, instead of seeing full membership in the European Union in purely negative terms, as something being forced on them by the flow of global events, the U.K. ought to consider Europeanization as a historic opportunity, with vast potential benefits for the British people.
"

"The European Dream", Jeremy Rifkin, Polity, Prefácio pp. xii-xiii