quarta-feira, maio 18, 2005

O açúcar que bebemos

Sou um consumidor habitual de bebidas energéticas durante as minhas saídas nocturnas. Uma destas noites, à falta do habitual Red Bull, foi-me proposto o Red Bull light (sem açúcar), que aceitei. Olhei para a informação inscrita na lata desta bebida e nem queria acreditar no que os meus olhos viam: 8 kcal! Uma normal lata de 250 ml de Red Bull possui 110 kcal. No dia seguinte fui à pagina da Red Bull para ver as diferenças. Em relação aos ingredientes de base, um Red Bull light é igual a um normal Red Bull excepto no conteúdo de sacarose e glucose (açúcar), que é zero! Apesar do Red Bull light possuir dois adoçantes extra (acesulfame K e aspartame) que não são inofensivos, a quantidade de açúcar que se adiciona ao Red Bull normal, tal como à generalidade dos refrigerantes, é obscena. Uma lata de Coca-cola tem 140 kcal e a sua versão light tem cerca de 1,2 kcal! Uma garrafa de 1,5l de Fanta contem o equivalente a 23 colheres de açúcar!

Esta semana foi divulgada a notícia de que uma em cada três crianças portuguesas sofre de excesso de peso ou obesidade, um número escandaloso diga-se. E que tal limitar ou interditar o acesso das crianças a bebidas açucaradas pelo menos nas escolas primárias e secundárias?

terça-feira, maio 17, 2005

O Sonho Europeu II

Aqui, mais uma análise ao livro de Rifkin, "The European Dream", e não só. Recomendo especialmente ao Paulo César. Agradeço a referência ao leitor MP, nos EUA. Aqui fica um aperitivo:

"Consider a mug of American coffee. It is found everywhere. It can be made by anyone. It is cheap—and refills are free. Being largely without flavor it can be diluted to taste. What it lacks in allure it makes up in size. It is the most democratic method ever devised for introducing caffeine into human beings. Now take a cup of Italian espresso. It requires expensive equipment. Price-to-volume ratio is outrageous, suggesting indifference to the consumer and ignorance of the market. The aesthetic satisfaction accessory to the beverage far outweighs its metabolic impact. It is not a drink; it is an artifact."

Para um Europeu que vai aos EUA quase todas as coisas que encontra e que podem ser produzidas como artefactos (não falo de computadores, nem de mísseis), como é o caso dos alimentos, dão a sensação de serem de "plástico", de baixa qualidade, até os fast-food em geral têm um aspecto manhoso, cheiram mal e a comida é bem pior do que a das suas filiais europeias. Aqui vai a minha pergunta de economista leigo: será que esta diferença de qualidade não terá influência na desvalorização do Dólar face ao Euro, à medida que os dois mercados se vão ligando cada vez mais?

segunda-feira, maio 16, 2005

Casa Pia: depois da pedofilia, a astrologia!

Este artigo do Nuno Crato publicado no Expresso que relata um curso de formação de professores dado por astrólogos na Casa Pia denuncia uma prática bastante grave que deveria ter consequências disciplinares à altura para todos os envolvidos na história, em particular a Pró-Ordem dos Professores. Para quem não consegue aceder à edição do Expresso, deixo aqui algum extratos do texto bem elucidativos:

"...o que acabou de se passar numa acção de formação de professores ontem em Lisboa, na Casa Pia.

Duas senhoras fizeram uma análise astral dos presentes e chegaram à conclusão que havia uma falta de «elementos terrenos». Então, para compensar essa evidente deficiência e criar «energias positivas» na sala, pediram aos professores que se descalçassem, de forma a ficarem em contacto mais directo com o solo. No escuro, aumentando o efeito de comunhão com «a Terra», os formandos, de olhos fechados, foram incitados a gritar, com os braços erguidos, para criar energias positivas que se propagassem pelo grupo.

As monitoras explicaram, imperturbáveis, que essa técnica podia ser aplicada nas aulas e ser benéfica para os alunos. Explicaram outras coisas, também. Uma senhora «graduada em astropsicologia», em simbiose com uma outra, que se apresentava como «terapeuta holística e energética», deram várias «dicas» para melhorar o ambiente da sala de aula. Explicaram que, nos exames, seria bom que os alunos vissem objectos de cores azuis e vermelhas. E discutiram as cores que são mais benéficas às diversas aprendizagens. Azul e amarelo para língua materna, como toda a gente sabe, e verde para as ciências. Pois claro...

Explicaram também como se podia fazer a «leitura e limpeza da aura» e mostraram gestos que se podiam praticar nas costas dos alunos, sem lhes tocar e sem eles repararem, mas que teriam um impacto extraordinário na sua «aura». Como isso é importante para o sucesso no ensino! Que estranho que não seja mais usado...

Custa a crer, mas tudo isto se passou num seminário que se intitulava «Dicas para ser melhor professor(a)» e que foi promovido pela Pró-Ordem dos Professores. É um dos «seminários alternativos que têm todo o cabimento», como o defendeu o presidente da dita Pró-Ordem, que disse estar assim a contribuir «indubitavelmente para a melhoria do desempenho da profissão docente».
"
Nuno Crato, Expresso, 12 de Maio de 2005

Obesidade (caixa de comentários)

"Não me parece que a Europa esteja assim tanto melhor, infelizmente e pior a tendência é para o crescimento (das cinturas). O fenomeno é já visivel no R.Unido e nos próximos anos tenderá a alastrar se não se tomarem medidas." "...a Europa é bem mais heterogénea e diversificada que os EUA, a obesidade é uma praga dos países ricos (..) 30% dos miudos espanhois têm excesso de peso."
Homem das Neves

"Eu nao sei se o fenomeno tende, ou nao, a alastrar-se 'a Europa. Posso, isso sim, confirmar que ao caminhar pelas ruas de cidades americanas cruzo-me com pessoas obesas (...) todos os cinco minutos. E, acreditem, nao e' nada bonito.
O mais misterioso para mim: qual e' a psicologia/sociologia por detras deste fenomeno. Se as pessoas sao indiferentes ao seu proprio aspecto exterior mesmo quando este atinge aspectos caricatos, como e' que isso se reflectira' na sua etica de cidadaos? Ou sera' que estas pessoas obesas sao aquelas que mal conseguem "to make the ends meet"? E' que tambem se nota a olho nu uma correlacao negativa entre obesidade e "status" social. Os mais ricos sao menos obesos.
"
MP, leitor nos EUA

domingo, maio 15, 2005

O sindroma Charisteas


Amigos sportinguistas, antes achava sinceramente que vocês mereciam ganhar o campeonato, mas depois de ver golo de Luisão percorreu-me uma colerazinha que me fez mudar radicalmente de opinião. Este golo fez-me lembrar o amargo golo da final do Europeu (fotos Jornal Record e sítio UEFA). Na altura, após ter passado por alguns segundos de perplexidade ao reparar na manhosa simulação de falta ensaiada pelo nosso guarda-redes, comunguei com aquela alegria grega. Aquela rapaziada veio lá do outro lado da Europa, com uma equipa de formiguinhas modestas e deram uma lição à cigarra na sua própria casa.
Ontem ao ver a forma como o golo do Benfica foi consentido não fui indiferente às semelhanças entre os dois grandes momentos. Desejei que as bancadas gritassem golo em grego, que Luisão se transformasse em Charisteas e que Peseiro se transformasse em Scolari da Cunha. Trappa merece ganhar, ele foi o gestor de uma equipa de formigas modestas e trabalhadoras. Quanto a Ricardo da Cunha, como é habitual, pode queixar-se mais uma vez de mau olhado, das entrevistas de Vítor Baía e prometer mais umas idas a Fátima. Mas se na próxima quarta-feira nos quiser dar uma grande alegria o melhor é treinar muito os cruzamentos ou...ficar no banco.
Quanto à minha equipa, a das cigarras do FCP, mesmo que ganhe o campeonato acho que não será mereceido pela acumulação de asneiras que aconteceram este ano, para além do mais seria aquilo que se designa por uma "grande vaca"!

sábado, maio 14, 2005

Super size me

Filme Klepsýdra da semana, "Super size me" é um excelente filme de denúncia, filme classificado em Portugal como documentário, como se todos os filmes tivessem que ter uma estrutura clássica de um romance. Morgan Spurlock, o realizador e cobaia do filme, apresenta-nos as consequências de uma dieta diária à base de fast-food durante um mês. A primeira vez que fui aos EUA tinha pouco dinheiro e o dólar estava caro, pelo que passei por uma experiência parecida com a de Morgan quando descobri que comer num restaurante normal era caríssimo e comprar legumes e frutas frescas saía mais caro que comer fast-food. Apenas ao fim de alguns dias já me sentia muito esquisito. A maior parte dos alimentos que comia eram bastante artificiais, especialmente uns queques (muffins) colossais de consistência borracha de camião. A semelhança dos meus sintomas com os do filme não são fruto do acaso.
Actualmente nos EUA, entre as causas de morte que podem ser evitadas, a obesidade é a causa principal tendo ultrapassado recentemente o tabagismo. Este facto faz de "Super size me" um filme de grande actualidade e, coincidência ou não, desde que o filme saiu algumas companhias de fast-food iniciaram campanhas com mais saladas e produtos mais saudáveis. Morgan apresenta uma série de factos perturbantes, como os menus escolares à base de snacks e comida pré-processada de 1200 kcal e diversas estatísticas chocantes. Deixo aqui algumas em jeito de aperitivo ao filme:

- You would have to walk for seven hours straight to burn off a Super Sized Coke, fry and Big Mac.
- 60 % of all Americans are either overweight or obese.
- One in every three children born in the year 2000 will develop diabetes in their lifetime.
- Each day, 1 in 4 Americans visits a fast food restaurant.
- French fries are the most eaten vegetable in America.
- McDonald's distributes more toys per year than Toys-R-Us.

Para quem estiver interessado eis a ligação para o blogue de Morgan Spurlock.


A foto mostra um diabético que se prepara para fazer uma operação de redução do volume estomacal. O sr. bebia dois "baldes" de refrigerante por dia semelhantes ao que segura Morgan.

quinta-feira, maio 12, 2005

A obesidade faz aumentar o PIB

"When I'm in Europe, I rarely come across multitudes of fat and obese people. Sometimes, I can walk an entire day without encountering a single overweight person. In America,by contrast, it seems everyone is grossly overweight and, even more shocking, unaware or unconcerned about their appearance.", pag. 74-75

"The GDP and nation's health intersects in many interesting ways that are seldom discussed by economists. For example, obesity in U.S. has now reached epidemic proportions, with more than 30% of all Americans now considered chronically obese. (...) Much of the growth in girth is attributable to junk food and a snacking culture promoted in the U.S. and now being exported (...) In E.U. countries the percentage of people obese is 11.3%. The more obese the American population, the bigger the GDP. (...) The margins on fast foods, junk foods and processed foods are much higher than unprepared, unprocessed, raw foods. All of this jacks up the GDP still further. And then there are medical costs. The World Health Organization estimates that obesity alone increases health-care by as much as 7% in some countries. So the U.S. GDP continues to expand along with our waistlines, but our quality of life continues to diminish.", pag. 80-81
"The European Dream", Jeremy Rifkin, Polity, 2004.

Durante as minhas viagens aos EUA reparei na chocante realidade descrita por Rifkin. Muito antes de ler o seu livro tinha ficado com a sensação de que as empresas americanas tinham conseguido transformar com sucesso o povo americano em máquinas de consumir. As pessoas pareciam pesar uma vez e meia o peso dos Europeus, na altura em jeito de gozo lembrei-me que aquilo deveria ter influência no PIB, mal sabia eu que Rifkin andava a escrever sobre o mesmo. No entanto, quero deixar bem claro que não defendo ideais de beleza de capas de revistas de moda, existem obesa(o)s bonita(o)s, mas quando deparamos com uma epidemia de obesidade como nos EUA, garanto-vos que não é nada bonito.
Mais sobre "The European Dream" de Jeremy Rifkin.

quarta-feira, maio 11, 2005

Estou de cara à banda

"Em breve, Luís Nobre Guedes, dará uma resposta que deixará os críticos de cara à banda, como diz o povo".
Paulo Portas respondendo às críticas à nomeação de Nobre Guedes para ministro do ambiente, 21 de Julho de 2004.

Paulo Portas tinha razão, estou de cara à banda...2600 sobreiros arrancados para construir um empreendimento turístico, que visão, que patriotismo, que decisão inteligente! Tráfico de influências? Deixem-se de miudezas, só a decisão de arrancar 2600 sobreiros, sendo o sobreiro uma espécie protegida, deveria dar cana directa. O único facto positivo desta notícia é este tipo de acontecimentos já serem objecto de investigação neste país que despreza cronicamente o ambiente.

De debate francês a debate europeu

Já se sabe que os franceses são "raleurs", como eles próprios se intitulam, e sempre que há um bom debate a coisa toma proporções imprevisíveis. Muito graças a esse espírito "raleur" o debate sobre Tratado Constitucional saltou as fronteiras francesas e é agora debatido em toda a Europa. Isto chegou mesmo ao ponto de eu andar a receber emails de amigos franceses a perguntarem-me qual a minha opinião sobre o Tratado Constitucional. Pergunto, onde estão os nossos comentadores esclarecidos que apelidam frequentemente os franceses de jacobinos ou de serem politicamente correctos? Quem lhes desse ouvidos há uns meses atrás diria que em França o Sim ganharia com 101%.

Se o Não ganhar...
Segui o debate francês de segunda-feira na TF1. Do lado do Não estavam a extrema-direita (Le Pen), nacionalistas, ultra-liberais e Besancenot (LCR)... Se o Não ganhar e o Tratado tiver que ser reescrito, Besancenot, os que defendem o Não do PS francês e português e o BE vão negociar o novo texto com quem? Com a extrema-direita de Le Pen e do Partido da Independência Britânica? Com os nacionalistas ou com os neo-liberais de toda a Europa? Ou será com os conservadores dinamarqueses e britânicos? Temo que se o Não ganhar, o novo texto do Tratado possa resultar em algo bem mais à direita do que o actual, um texto mais nacionalista, mais conservador e mais neo-liberal.

terça-feira, maio 10, 2005

Mulheres cientistas

Foi criada a Associação Portuguesa de Mulheres Cientistas. A apresentação pública decorrerá no próximo dia 19 de Maio na Universidade Nova de Lisboa.
Num país tacanho como o nosso já estou imaginar os comentários "ena, agora até já há associações de mulheres cientistas! Qualquer dia ainda criam a associação dos cientistas de bigode!". Eu acho muito bem que as mulheres cientistas se organizem desta forma. Desde há milhares de anos, desde que existe civilização na península Ibérica fomos sempre governados pela força física, logo governados por homens, com a excepção dos últimos 31 anos. Só desde há 31 anos para cá é que as mulheres adquiriram os mesmos direitos que os homens e só há 29 anos é que puderam votar pela primeira vez. Numa cultura como a nossa altamente forjada e formatada por homens vejo com muito bons olhos este tipo de associações para transformar ou até mesmo subverter o excesso de masculinidade, sobretudo marialva, que existe neste país.

sexta-feira, maio 06, 2005

Vassalagem: da Macedónia a Paulo Portas

Prestar vassalagem ao Imperador dá frutos, que o diga a Macedónia. O nome oficial deste país encontra-se ainda encalhado na extensa designação Antiga República Jugoslava da Macedónia por causa do conflito com o nome Macedónia referente à região do norte da Grécia. Actualmente, continuam as negociações entre Gregos, Macedónios e a comunidade internacional para se chegar a uma solução que satisfaça as duas partes. Ora, os nossos amigos fanáticos do Partido Republicano que governam o Texas e desgovernam os EUA e o mundo tiveram a brilhante ideia de se antecipar às negociações e reconhecer, em 2004, o nome de Macedónia como nome oficial para o país em causa, por serviços prestados pelas forças armadas macedónias no Iraque... Se os nossos amigos de Olivença sabem desta vão já pegar numas carabinas e vão para o Iraque guardar o Ministério do Petróleo (onde se está bem) e lá vai Bush "pedir" ao Zapatero para devolver Olivença a Portugal.
A condecoração a Paulo Portas é mais uma história caricata, de uma longa lista, de reconhecimento de lambe-botismo e de vassalagem ao Imperador, ou como lhe chama o Luís da Natureza: "broches a Bush".

Dois anos, o Leão e o Crocodilo

"...Aproxima-se o por do Sol sobre as ilhas, e sempre posso falar com o Leao e o Crocodilo", JPP, Abrupto: 1/10/2004


(Praça de São Marcos, Sereníssima República de Veneza, Julho de 2004)

quinta-feira, maio 05, 2005

Um filme que todos deveriam ver

Baseado numa história real, "Hotel Ruanda" é um filme que toda a gente deveria ver. Digo-o nem tanto pela velha e gasta polémica sobre se ocidente tem culpa ou não, por não ter dado uma resposta a tempo de evitar a tragédia. Digo-o mais pelo alcance da loucura humana, aquilo de que o homem é capaz de fazer pela defesa do grupo. No Ruanda essa defesa do grupo foi praticada à flor da pele, os agressores sentiam o cheiro do suor, ouviam os lamentos e viam as lágrimas das vítimas, não foi uma matança fria e impessoal, não foi industrial, não se mataram à base de zyklon B, escondendo a barbárie dos olhares dos outros. Não é por isso que é mais ou menos terrível que outras matanças, mas é humanamente mais sofrida.
Alguma da angústia adicional que senti ao ver o filme foi causada pelo sentimento de tudo aquilo me ser muito próximo, não pelo contexto geográfico ou pela cultura hutu ou tutsi que me são distantes, mas pela contemporaneidade. A tragédia do Ruanda ocorreu em 1994. Enquanto decorria a matança estava eu em Itália como estudante Erasmus num ambiente de antítese completa à xenofobia assassina que dizimava o Ruanda. Lembro-me como se fosse hoje, quem me chamou a atenção para a notícia no jornal que denunciava a tragédia, foi um colega alemão. À roda da mesa em que me encontrava perfazíamos umas 6 ou 7 nacionalidades diferentes, divertíamo-nos a escrever um dicionário de palavrões em todas as línguas...
O que torna esta matança entre Hutus e Tutsis ainda mais mórbida é que a distinção entre os dois povos é mais artificial do que real. Essa distinção teve origem durante o período colonial belga, período durante o qual estes se divertiram a separar os povos dos grandes lagos segundo características puramente físicas. Os Tutsis foram escolhidos entre os mais dotados fisicamente segundo os belgas, sendo classificados como raça superior e os Hutus como uma raça inferior que precisava de ser liderada.



Do ponto de vista técnico, "Hotel Ruanda" é um filme com um formato clássico, produzido sem grandes meios. Os actores não foram muito ajudados pela errada escolha da língua inglesa para todos os diálogos do filme. Já começo a ter pouca pachorra para ver filmes em que Romanos, Árabes, Japoneses e Mexicanos falam inglês entre si. Um dos maiores atentados a que assisti ultimamente foi a série "Napoleão" e a série "Casanova" que a RTP teve a brilhante ideia de passar na versão inglesa em vez de passar na versão original. Os diálogos foram dizimados. Em Hotel Ruanda, fiquei com a mesma sensação. Diálogos que poderiam ter sido interessantes falados em francês, em kinyarwanda ou em swahili foram dizimados pela simplicidade do inglês. Seria para vender? A Paixão de Cristo também vendeu falada em latim, hebreu e aramaico.

domingo, maio 01, 2005

Naval 1º de Maio na Primeira Divisão

Como figueirense e como ex-atleta de basquetebol da Naval 1º de Maio deveria estar contente. Ainda por cima a Naval faz hoje 112 anos. Mas não estou contente. As comemorações da Naval deveriam ser acompanhadas pela banda sonora do "Padrinho"...

sexta-feira, abril 29, 2005

A importância da visão raios X

Este interessante gif animado da ESA mostra-nos a importância de olhar para o Universo utilizando diferentes tipos "óculos". O que a luz visível muitas vezes nos revela é apenas uma pequena parte de tudo aquilo que nos oculta. É por isso que os astrónomos têm a mania de encomendar "pares de óculos" para ver o invisível aos engenheiros que trabalham em astrofísica. O satélite XMM é um desses "pares de óculos"; trata-se de um telescópio espacial que nos permite ver a radiação X emitida em todo o Universo. Quando sobrepomos uma imagem obtida (com cores falsas) pelo XMM de uma determinada região do céu a outra imagem obtida por um telescópio destinado a observar luz visível obtemos por vezes uma composição semelhante ao gif aqui apresentado. Trata-se de um aglomerado de galáxias que podemos identificar através daquelas pequenas manchazinhas vermelhas, cuja luz foi captada pelo VLT do ESO. O gás quente que rodeia este aglomerado de galáxias é-nos revelado pelo XMM (laranja intermitente) graças a emissões de raios X que são invisíveis aos nossos olhos.

quarta-feira, abril 27, 2005

Já voa!

Está lá tudo: liderança de mercado, preocupações ecológicas, qualidade de vida e bons salários para os trabalhadores, regime de 35 horas laborais, a melhor segurança social do mundo, tecnologia europeia, multiculturalismo, parcerias entre Estado e empresas privadas. É isto o sonho europeu!


(foto Le Fígaro)

terça-feira, abril 26, 2005

Deprimidos do 25 de Abril e do Muro de Berlim: Mesmo combate

Esta entrada do Rui A. dos Blasfémias é o exemplo de algum mau estar que causam os aniversários do 25 de Abril entre algumas pessoas que se relacionam mal com o fim da ditadura. O ano passado tivemos o festival de Vasco Pulido Valente (VPV). Entre muita argumentação que visava minimizar a importância do 25 de Abril, VPV referiu factos tão pertinentes como o livro "Portugal e o Futuro" do ignorante (nas suas palavras) Spínola ter sido de facto escrito por oficiais sob a sua orientação. Logo, das duas, três: se Spínola fosse um bom escriba, a revolução poderia realizar-se a 25 de Abril, se não seria preferível nada mudar e a elite a que pertencia VPV poderia manter as suas mordomias numa sociedade dividida entre rotos e remendados.

O irónico da argumentação tanto de Rui A. como de VPV é que recorre a um género de fundamentação que parece tirada a papel químico de escritos produzidos a cada aniversário da queda do muro de Berlim por uma elite deprimida que vivia bem do partido nos tempos áureos do bloco de leste. Com alguma regularidade, muitos dos ex-PCUS e dos ex-quadros dos partidos comunistas dos restantes países de leste saem-se com artigos da mesma índole: Yeltsin não sabia falar e era bêbado, a destruição do muro de Berlim não partiu de uma decisão democrática do povo, os novos políticos são oportunistas e os do antigamente pelo menos eram honestos, etc. Enfim, o mesmo tipo de tontices que podemos ler todos os 25 de Abril aqui nesta esclarecida e serena Lusitânia.

segunda-feira, abril 25, 2005

O livro da década

O livro "The European Dream" de Jeremy Rifkin é na minha opinião o livro de ciência política (semi-académica) da década. Está para esta nossa década como o "O fim da história e o último homem" de Francis Fukuyama esteve para a década de 90, quer concordemos ou não com as opiniões dos respectivos autores. Aliás, à medida que vamos desfolhando a obra de Jeremy Rifkin ficamos com a sensação de que o conteúdo da obra de Fukuyama é hoje profundamente obsoleto. Rifkin desactualiza Fukuyama sem sequer necessitar de fazer muitas referências (duas ou três) ao mesmo, ao contrário de outros que tentaram desconstruir a teoria de Fukuyama com pouco sucesso.
Há algo de novo no pensamento político mundial que desponta na Europa e Rifkin de uma forma perspicaz organiza esse novo pensamento nesta obra. É um pensamento que se debate e desenvolve sobretudo num terreno de esquerda. Portugal tem andado arredado deste debate que fervilha na Europa nos sectores ambientalistas e socialistas.
Há algum tempo o Paulo César da Aba de Heisenberg confessava-me que já não se debatiam novas ideias à esquerda depois do Maio de 68. Julgo que o desabafo do Paulo César tem alguma pertinência a nível nacional, mas a nível europeu, as novas ideias que fervilham estão compiladas neste texto. Resta saber quanto tempo é que vai ainda decorrer até ser traduzido.

Jeremy Rifkin é presidente da Foundation on Economic Trends em Washington e é um americano que conhece muito bem a Europa. O seu livro, que dissecarei aqui na Klepsýdra em próximas entradas, termina com as seguintes palavras:

"These are tumultuous times. (...) The European Dream is a beacon of light in a troubled world. It beckons us to a new age of inclusivity, diversity, quality of life, deep play, sustainability, universal human rights, the rights of nature and peace on Earth. We Americans used to say that the American Dream is worth dying for. The new European Dream is worth living for."

quinta-feira, abril 21, 2005

Mundo de Aventuras XXVI


(Catedral de Salamanca, Castela e Leão, Espanha, 2003)

Mundo de Aventuras XXV

Vertigo

"Vertigo", com a belíssima Kim Novak, é o meu filme preferido de Hitchcock e a minha sugestão cinematográfica desta semana. Este é um filme que tem a rara capacidade de dar a volta ao espectador, logo na altura em que este acha que já está a perceber todo o desenrolar da trama e quiçá até capaz de prever o que se irá passar até final do filme. Mas não, nesse momento a história desliza de vertigem em vertigem até à vertigem final! Outra coisa que me fascina neste filme é forma inovadora para a época com que Hitchcock brinca com as semelhanças físicas das personagens. Só nos últimos anos voltámos a encontrar autores que se arrojaram a ludibriar o espectador com este tipo de técnica, como o faz David Lynch de uma forma mais sofisticada em "Mulholland Drive".

segunda-feira, abril 18, 2005

O Homem do século XX

Há exactamente 50 anos morria Albert Einstein, aquele que foi na minha opinião o homem que mais preencheu o século XX. Einstein mudou profundamente a nossa percepção do Universo e o seu trabalho científico teve ampla repercussão na história do século passado, desde a II Guerra Mundial às domésticas células fotoeléctricas. Mas as repercussões do seu trabalho científico ainda estão longe do fim, sonhamos ainda com as tecnologias que poderão nascer da teoria da relatividade geral.
Einstein foi também um daqueles universalistas praticantes. Einstein estudou na Suíça, trabalhou na Alemanha e nos EUA e chegou a ser convidado para ser presidente de Israel (se tivesse aceitado talvez hoje o Médio Oriente estivesse em paz). Mas Einstein foi também um homem com uma vida conjugal errática e um cientista que teve muita dificuldade em aceitar a mecânica quântica, o que o elimina da galeria dos perfeitos, condição essencial para ser o Homem do século XX na minha opinião.

Ler ainda: Linha dos Nodos, Rua da Judiaria e Físicos de Lisboa

domingo, abril 17, 2005

Portugal país de emigrantes e de ignorantes

A Márcia faz muito bem em nos chamar a atenção para a forma de que uma boa parte dos Portugueses fazem uso quando falam dos imigrantes. Os Portugueses, esse povo que se divide entre 10 milhões de almas no território nacional e 5 milhões lá por fora, pelo mundo.

quarta-feira, abril 13, 2005

Das estrelas para olho humano

A óptica adaptativa é uma técnica em que os espelhos de um telescópio podem mudar de forma para corrigir deformações na imagem. Esta técnica que foi inicialmente desenvolvida para observar as estrelas será agora aplicada à medicina através de um projecto inédito intitulado OEIL, onde esta tecnologia será utilizada para melhorar a tomografia óptica coerente na área da oftalmologia. É mais um excelente exemplo de transferência de tecnologia desenvolvida para a astrofísica que é absorvida pela indústria, como foi o caso das máquinas fotográficas digitais.

terça-feira, abril 12, 2005

Contacto

Em Ano Internacional da Física deixarei aqui algumas sugestões cinematográficas de ficção científica, género do qual sou um voraz consumidor. Vejo o lixo todo! Até vi "O Dia da Independência", o pior filme de sempre. Vi aquela magnífica cena em que o pERsidente dos EUA abate heroicamente várias naves marcianas. Nem Ed Wood nos seus momentos de maior delírio faria um filme tão mau.
"Contacto" é o meu filme preferido de ficção científica. O rigor científico do livro de Carl Sagan, no qual se baseia o filme, é excepcional. Alguns dos seus colegas foram-lhe fornecendo resultados científicos fresquinhos ainda por publicar, à medida que Sagan ia escrevendo a história, como foi o caso da teoria dos buracos minhoca. Infelizemente, no filme o final da história foi alterado (e adulterado) em relação à história original, o que o amputa de um dos seus elementos mais interessantes. Mas o nível educacional do americano médio oblige, se não cerca de 95% dos americanos não teriam percebido um boi do final do filme. Apesar de tudo, em Portugal seria ligeiramente melhor. Afirmo-o baseado na experiência de colegas que estudaram no secundário nos EUA e que eram lá considerados super-génios, passavam três anos em um e depois ao voltar a Portugal já não sabiam resolver uma equação das mais simples.

domingo, abril 10, 2005

O nosso sector privado...

L- 90,7%;
S- 71,9%;
FIN- 69,5%; IRL- 67,2%; D- 65,5%; B- 64,3%; DK- 61,5%; SLO- 60,0%;
UE25- 55,4%; CZ -53,7%; SK- 53,6%; F- 52,1%; NL- 51,8%;
E- 48,9%; GB- 46,7; A- 41,8%;
P- 31,5%;; PL- 31,0%;
H- 29,7%; GR- 29,7%; EE- 29,2%; LT- 27,9%; LV- 21,7%;
CY- 17,4%;

Estes números de Março do Eurostat representam a percentagem de investimento na investigação científica praticado pelo sector privado em cada país da UE. Entre 25 países Portugal aparece à frente de sete. Curiosamente esses sete países, são países menos desenvolvidos que Portugal.
Ouvimos tantas vezes aquela lenga-lenga a diabolizar os funcionários públicos e o mau funcionamento do estado que nos esquecemos da miséria que é o nosso sector privado. Entre todos os países europeus a média de anos de estudo dos nossos empresários é de longe a mais baixa. Depois não espanta que a maior parte dos nossos empresários se esqueça de investir na formação, em tecnologia e na investigação. É mais fácil enveredar pelo facilitismo de empregar mão-de-obra barata, pedinchar por impostos mais baixos (ou não os pagar), criticar as "benesses" sociais dos trabalhadores (em Portugal são miseráveis comparadas com o resto da UE), controlar as idas às casas de banho das trabalhadoras (sublinho o feminino), aproveitar os fundos comunitários para comprar piscinas e automóveis vistosos, desprezar as suas obrigações ambientais e de protecção da saúde pública, enfim...

sexta-feira, abril 08, 2005

Comentário de espada à cinta

O Almocreve sai-se com esta entrada maravilhosa e fotografia a matar, sobre esse comentário de espada à cinta que se faz acompanhar de dois conhecidos guarda-costas: o moralismo estóico e a moca de Rio Maior.
Gosto das pulgas dos cães e gosto dessas frases que acusam, julgam e condenam através de um míope e fugaz olhar para o passado dos homens. Até guardo no meu bacio de estimação essas colagens plásticas do iluminismo, do racionalismo e até da construção Europeia "às ideologias que mais mortos fizeram" por parte de grandes subscritores da moral católica e do neo-liberalismo. Todos sabemos que tanto a Igreja Católica como o neo-liberalismo nunca mataram ninguém, até dão saúde e fazem crescer...

quinta-feira, abril 07, 2005

A Física em Banda Desenhada

Larry Gonick, um matemático licenciado em Harvard, é o autor desta belíssima banda desenhada em que todos os temas da física, incluindo a física moderna, não escapam à sua ironia e ao seu humor bem informado. Gonick tem um sítio na internet, onde se apresenta como um autor de BD com habilitações a mais, pois Gonick tem também um mestrado em Harvard e foi ainda investigador e professor. A qualidade reflecte-se nos quadradinhos. Gonick já publicou várias BD sobre outros temas científicos: genética, estatística, computadores e... sexo! Entre as suas publicações mais conhecidas figura o "Cartoon Guide to the Universe" com um prefácio de Carl Sagan, onde Gonick conta a história da Universo desde o Big Bang até aos nossos dias.

quarta-feira, abril 06, 2005

Pourquoi les intellectuels n´aiment pas le libéralisme?

A resposta mais simples a esta pergunta é dada no Abrupto, ler "Público em linha pago":

"o Público custa dinheiro a fazer, devo pagar por ele. No entanto, o jornal deve pensar noutro valor, valor económico ponderável e real, que é o da sua autoridade pela influência (não coincidem necessariamente, mas relacionam-se)"

A pergunta que serve de título ao livro Raymond Boudon é manhosa, porque o autor exclui a sua corrente política da área da intelectualidade, o que pode ser intelectualmente desonesto. Mas a resposta a esta pergunta é tão simples que se pode escrever entre parêntesis numa frase, como o fez Pacheco Pereira, se calhar involuntariamente: "[os valores] não coincidem necessariamente, mas relacionam-se". Quem já reflectiu a sério sobre as razões pelas quais muitas utopias falharam (refiro-me àquelas receitas políticas que servem para tudo), chega rapidamente à conclusão que a sua decadência ocorre quando os valores inerentes à receita não coincidem com os valores que determinam o percurso de uma sociedade, essencialmente aqueles valores que determinam a qualidade de vida. Com o liberalismo passa-se exactamente o mesmo. Pelo menos com o liberalismo defendido por Raymond Boudon. A dura realidade é que os valores que regem os mercados nem sempre coincidem com aquilo que definimos como sendo a nossa qualidade de vida. É uma discrepância simples, mas que pode ter consequências irrelevantes, como pode ter consequências desastrosas mesmo quando esses valores estão relacionados. As consequências podem ser tão graves como as que aconteceram nos regimes comunistas. A América Latina e a Ásia fornecem-nos alguns dos exemplos mais catastróficos (ex: Argentina e Tailândia), quando o liberalismo é implementado na base do dogmatismo cego.
É por causa da referida "não coincidência de valores" que uma parte dos intelectuais não gostam do liberalismo (o de Raimond). E eu desconfio que têm razão. Para quem trabalha em física, descobrir buracos nas ideologias pode ser um passatempo divertido, trabalhamos com coisas bem mais concretas que de vez em quando são assoladas por descobertas que obrigam a reformular, a alterar ou a destruir teorias inteiras escritas por muitas mentes brilhantes. Por isso, é que desconfio de receitas ideológicas puristas, prefiro a minha dieta pós-moderna à base de muito cepticismo.

Há uma grande confusão sobre a ideologia liberal, em Portugal e não só. É por isso que o autor se lança num esforço sofrível para desculpar algumas "falhas" (onde é que eu já ouvi isto?) do liberalismo, na linha da teoria "o mau liberalismo expulsa o bom liberalismo". Neste mundo temos liberais de esquerda (Michael Moore, uma boa parte do partido Democrata, inúmeros partidos europeus) e de direita. Em Portugal estamos habituados a ouvir falar de liberalismo dentro de uma linha política que nos EUA se chama neo-conservadora. Aqueles que defendem um liberalismo apenas económico (em geral radical) e no restante defendem um moralismo de base católica. É destes intelectuais que Raimond não fala. Se calhar são estes os que estão a expulsar os outros liberais...

segunda-feira, abril 04, 2005

Como é o Bem e o Mal em 3D?

Sobre o filme "A Queda", podemos ler no Murcon:

"li que muitos protestam por ele ser retratado de forma "excessivamente humana". Sempre esta tentativa inconsciente de projectar "o mal" para dentro de outros que não partilhariam connosco a (boa) essência do ser humano... Não partilho este optimismo acerca da dita "natureza humana", considero que luz e sombra se acotovelam cá dentro. Não reconhecer a maldade de que somos capazes, através da crença em "extraterrestres", humanos geneticamente diversos ou reconfortantes psicóticos passeando entre nós, afastará, sem remissão, a análise objectiva dos problemas."

Partilho por inteiro destas reflexões de Júlio Machado Vaz. Preocupam-me as certezas dos que têm esse poder sobrenatural de distinguir inequivocamente o "bem" do "mal". Costumo pensar que não existe o "bem" e o "mal", penso que existem soluções, umas mais eficazes e outras menos. Também se pode pensar no "bem" e no "mal" como as duas extremidades de uma escala unidimensional, tal como um termómetro, com a solução óptima numa ponta e a pior das soluções na outra. Na nossa vida, tal como nos termómetros comuns, nunca vemos o nível de mercúrio a tocar nas extremidades do termómetro. Andamos sempre ali pelo meio da escala. Mas as escalas têm problemas, podem não ser lineares. E se o espaço das soluções não é unidemensional? Se é bidimensional, ou tri?...

domingo, abril 03, 2005

Amarcord

Aqui na coluna da direita há uma nova rubrica da Klepsýdra, uma sugestão cinematográfica semanal. Depois de "A Queda", que está para estrear em Portugal, sugere-se agora "Amarcord" realizado por Federico Fellini em 1974, o filme preferido do nosso Nuno Camarneiro Mendes que anda lá fora a lutar pela vida. É um filme sobre o colorido universo de Fellini quando este era ainda uma criança que dava vida às ruas de Rimini. Amarcord significa mi ricordo no dialecto da Emilia-Romagna.

sábado, abril 02, 2005

Um bom comentário de esquerda na hora da morte

Antevendo a morte do Papa, Miguel Portas ensaia uma síntese do seu pontificado que é um exemplo pela sua raridade no equilíbrio da análise. Num tempo em que os comentadores políticos se batem num frenesim classificativo dos homens que forjaram os séculos entre o epíteto de terrorista e o de herói, o Miguel dá o exemplo de como se pode respeitar, criticar e elogiar, com a devida ponderação, figuras longe do seu campo político na delicada hora da sua morte. É raro nos dias que correm. A recente morte de Arafat mostrou essa mórbida competição do comentário político entre o herói e o terrorista. Vivemos em tempos em que alguém que tenha morto mais do que uma pessoa é facilmente catalogada como terrorista (claro, se os mortos forem ocidentais branquinhos, as mortes na América latina ou em África pouco contam). De Arafat a Massoud muito terrorista apareceu por aí nas bocas dos comentadores. Até Massoud vejam só...aquele que andava a lutar sozinho contra o regime talibã, na altura em que empresários e políticos receberam no Texas uma delegação de talibãs para tratar de negócios.
O mais fácil era um esquerdista alinhar pela mesma bitola de algum comentário de direita, ensaiar uma contabilidade baseada numa estimativa de mortes por SIDA registada nas regiões onde existem missões católicas em África onde se rejeita distribuir o preservativo e daí extrapolar um adjectivo: terrorista (por comparação com o número de mortes de Arafat, por exemplo). Ou então, ao bom estilo de José Manuel Fernandes, seria fácil a um esquerdista invocar o passado da igreja, comparar com o número de mortes provocadas por Hitler e Estaline.
A boa diferença do comentário de Miguel Portas é que podemos ler um texto crítico de quem está distante da igreja, do "homem que vive como se Deus não existisse", sem levar em cima com todo o lixo do frenesim do comentário político de diabolização do personagem.

Coisas que não se podem esquecer sobre Karol Wojtyla
Sobre a orientação do pontificado de Karol Wojtyla, Miguel Portas chama a atenção para algo muito importante que será talvez esquecido intencionalmente por muitos comentadores políticos nos próximos dias: "um programa evangélico e político. O fio invisível que liga o seu anticomunismo dos primórdios à actual recusa da guerra preventiva"
(texto também disponível na página pessoal do Miguel Portas)

Começou o maior espectáculo do mundo
Nas televisões portuguesas:
É p'ró menino e p´rá menina! Aprocheguem-se caros amigos! A TVI dá mais sangue! A SIC mostra o Papamóvel a sacar piões! Na RTP sãoooo láááágrimaaaaas!!! É pegar ou largar! À dúzia é mais barato! E as entrevistas de rua, meu Deus, as entrevistas de rua, ao pai, à tia, ao primo, à freira, à vizinha, ao canário, ao cão...

quinta-feira, março 31, 2005

O País do Meio tem que estar no meio!

"L'indignation de la cour impériale devant une carte jésuite où la Chine était figurée sur le bord droit de l'image donne un bon aperçu du géocentrisme chinois: que faisait donc l'empire du Milieu sur la périphérie du monde? Le père Matteo Ricci eut l'intelligence de modifier la présentation de la carte, en plaçant l'Empire céleste en plein milieu, avec l'Europe loin à l'ouest."

Paul Theroux, L'Atalas des Atlas, Hors-série Courrier International, 2005

quarta-feira, março 30, 2005

Júlio Verne, 100 anos

Quando descobri Júlio Verne não descansei enquanto não comprei todos os romances que havia à venda. Fazia-o à custa dos tostões que me iam oferecendo alguns familiares em ocasiões especiais (Páscoa, Natal, aniversário, etc.). Dediquei uma secção na minha estante só a Júlio Verne. A minha mãe olhava desconfiada para o volume de livros que não parava de aumentar e dizia-me: "em vez de guardares o dinheirinho que te dão, andas a estoirá-lo em livros". Numa família sem tradições académicas ouve-se destas de vez em quando. Os 100 anos da morte de Júlio Verne, que agora se comemoram, evocam-me esses tempos de longas e deliciosas horas a fio passadas a ler e a imaginar todas aquelas aventuras. O que mais impressiona na obra de Júlio Verne é o seu carácter visionário. Ainda hoje, algumas das ideias mais incríveis imaginadas por Júlio Verne são objecto de estudo sério, como é o caso de um elevador capaz de levar os passageiros da Terra até à Lua.
Apesar de ser um grande fã de ficção científica, a obra de Júlio Verne de que mais gostei na altura foi "Miguel Strogoff" (ver ilustração). Não larguei o livro enquanto Miguel Strogoff não cumpriu a sua longa viagem até Yakutsk, uma viagem cheia de duras provas aos seus limites físicos. Muitos consideram ter sido estas duras provas de Miguel Strogoff a fonte inspiração do Barão Pierre de Coubertin para a criação do Pentatlo Moderno, o desporto do atleta perfeito para o Barão.

segunda-feira, março 28, 2005

Patetices

Vital Moreira desmonta com o seu habitual rigor os delírios anti-francófonos e a análise troca-tintas sobre o PEC de Marcelo Rebelo de Sousa. Para quem conhece um bocadinho a Europa e a sua história, a orientação do discurso de Marcelo mete dó e é avaliado como um discurso pateta pelos outros europeus que o ouvem (e já não são poucos em Portugal). O passado recente de Portugal deve tudo à França. A notícia sobre as remessas dos emigrantes que faz hoje a capa dos jornais refere-se sobretudo a emigrantes que estão em que país? É por isso que os exageros nas críticas à França caem pior do que a qualquer outro país do mundo. Somos pobres e mal agradecidos. Mas Marcelo não é o único em Portugal a alinhar neste tipo de exageros.

sábado, março 26, 2005

Atlas dos atlas

Esta hors-série da Courrier International do 2º trimestre do ano é uma delícia. Todos aqueles que gostam de cartografia e de geopolítica têm aqui uma guloseima que vale bem o preço (12€). A revista para além de fazer uma actualização muito completa do mapa das fronteiras e dos conflitos do nosso planeta, possui várias secções dignas de um jornalismo de alto nível: visões do mundo (cartografia técnica e mapas mundo centrados em países específico), história (vias romanas, geografia árabe, Europa medieval, mapas dos descobrimentos, etc.), futuro (demografia, urbanização, água potável, clima, religião, etc.) e imaginário (filosofia, mapas inventados, jogos, mapas artísticos, etc.). Deixo aqui em jeito de aperitivo alguns dos mapas:

- um mapa mundo centrado na Austrália em que o hemisfério sul aparece no topo do mapa. O editor australiano faz questão de não pedir desculpas por o mapa ser assim e passa a culpa para os do hemisfério norte que impuseram a sua visão mundo.
- mapas de Oz, de Utopia e da Ilha do Tesouro
- mapa mundo em chinês e outro em japonês
- a deformação dos vários tipos de planisférios, onde podemos ver que o mais corrente, o Mercator, possui já uma deformação considerável a partir de latitudes acima dos 60º.

sexta-feira, março 25, 2005

João Miranda vai pagar julgamento de aborto em Setúbal!

No próximo dia 31 de Março, Portugal vai voltar a aparecer na Euronews, BBC, TF1, RAI 1, etc., como aquele país atrasado, terceiro mundista e bárbaro que julga as mulheres que cometem abortos. Mas a grande novidade é que quem vai pagar esse julgamento que ocorrerá em Setúbal será, presumo eu, João Miranda do Blasfémias. Estupefactos? Basta ir ao Blasfémias e ler as três postas de João Miranda intituladas "Propostas de pergunta para o referendo ao aborto". Antes de lerem, aconselho um saquinho de vómito daqueles dos aviões aos que se enervam muito com estas questões. A pergunta mais interessante proposta pelo João é a terceira, que curiosamente engloba a segunda:

"Na sua opinião as pessoas que consideram que o aborto causa a morte de um ser humano devem ser forçadas a pagar, via impostos, os abortos daqueles que o fazem nos hospitais públicos por motivos "psicológicos" ou socio-económicos?"

Para os que não vomitaram depois de ler esta questão, julgo que já devem ter tirado a mesma conclusão que eu: 1) ou os julgamentos às mulheres que abortam são de borla 2) ou o João Miranda, pondo em prática todo o seu espírito liberal, num acto louvável e raro de mecenato em Portugal, vai pagar todos os julgamentos de mulheres que praticarem o aborto no nosso país. Como a justiça não é de borla em Portugal e quem paga estes julgamentos são todos os contribuintes, os que votaram Não e Sim no anterior referendo (é assim em democracia somos beneficiados ou prejudicados independentemente do que individualmente colocámos na urna) a hipótese 1) está fora de questão. Resta a hipótese 2), João Miranda vai pagar os julgamentos das mais de 10 mil mulheres que abortam por ano. João Miranda vai pagar os bufos que as denunciam (aconselho a actualização da última tabela da PIDE de 1974), vai pagar os inquéritos judiciários, vai pagar os advogados, vai pagar os juízes, os funcionários das audiências e todos os dias de prisão a cumprir pelas mulheres que forem condenadas. Ah leão!

Este neo-conservadorismo tem escola, não cai do céu. Os EUA são um exemplo deste tipo de cocktail exótico que mistura o liberalismo económico selvagem com um moralismo católico-protestante fanático. Por questões ideológicas, há uns anos os EUA cortaram a eito em despesas sociais. Hoje cerca de 1% dos americanos estão atrás das grades. É isso mesmo que estão a pensar, os mais de 2 milhões de detidos americanos produzem uma despesa incomensuravelmente maior do que as ajudas sociais que eram prestadas anteriormente. Mas o meu exemplo preferido é o do estado da Califórnia. Um dos dogmas da catequese liberal dos neo-conservadores advoga que o ensino deve ser privado. A Califórnia seguiu esse dogma, o investimento público no ensino é minimalista. As prisões da Califórnia estão a abarrotar. Ironia das ironias, hoje o estado da Califórnia gasta nas prisões quase o dobro do dinheiro que é gasto no ensino! Deveria ser ao contrário, não era? Tentem lá explicar isso ao João Miranda...

quarta-feira, março 23, 2005

Irão? Temos 480 ogivas nucleares na Europa

Preocupa-me profundamente o ódio crescente em relação ao "ocidente", embora considere que os EUA e a UE não fazem parte do mesmo ocidente. Questões como o desenvolvimento de tecnologia nuclear no Irão revelam uma hipocrisia pouco oportuna face à gravidade da matéria e só contribuem para aumentar esse ódio.
Apesar de já ter acabado a Guerra Fria há mais de 15 anos e apesar de não existirem ameaças a leste, a Europa conserva cerca de 480 ogivas nucleares no seu território:

Bélgica: 20
Alemanha: 150
Itália: 90
Holanda: 20
Reino Unido: 110
Turquia: 90

Deste grupo de países, apenas o Reino Unido (RU) é reconhecido como potência nuclear nos termos do Tratado de Não Proliferação Nuclear, que reconhece somente mais quatro países para além do RU: EUA, Rússia, França e China. Apesar de a Bélgica, a Alemanha, a Itália, a Holanda e a Turquia não possuírem armas nucleares próprias, estes países possuem cerca de 370 ogivas americanas estacionadas no seu território em bases da NATO. Das 480 ogivas, apenas 300 estão afectadas a aviões americanos, as restantes são controladas por europeus. Por outras palavras, existem cinco países europeus estão a violar o principal objectivo do Tratado. A desculpa de as ogivas serem americanas também não convence. Imaginem que a China coloca umas ogivas em aviões da Coreia do Norte ou do Vietname...

Se a Europa quer ter credibilidade e não entrar no jogo baixo da realpolitik americana tem que começar a fazer uma limpeza das hipocrisias domésticas. Se a Europa quer exigir alguma coisa ao Irão tem primeiro que arrumar a casa. Eis uma boa oportunidade para a Europa convidar os EUA a levarem o seu arsenal nuclear de volta para casa, até porque as ogivas que se encontram nos referidos países, exceptuando a Turquia, poderão apenas atingir países democráticos e livres. Nem sequer serve a desculpa de que poderiam ter poder dissuasor nas regiões que apresentam maiores ameaças para os EUA. Para mudar o alcance dessas ogivas seria necessário cerca de um ano de trabalho e os EUA possuem milhares de mísseis de longo alcance capazes no seu território e a bordo de submarinos que podem perfeitamente cumprir esse papel dissuasor.

segunda-feira, março 21, 2005

Programa EURATOM 2002-2006 em euros

Distribuição de fundos do programa 6ºPQ EURATOM 2002-2006:

Investigação:
Fusão termonuclear controlada - 750 M€
Gestão de resíduos radioactivos- 90 M€
Protecção contra radiações - 50 M€

Outras actividades (tecnologias e segurança) - 50 M€

Deixo aqui estes números para ilustrar o meu texto anterior "Energia Nuclear à Bruta". Se o debate sobre o futuro energético do país não tiver em linha de conta a importância do desenvolvimento da fusão (cerca de 80% do investimento da EURATOM), corremos o risco de protagonizar um debate obsoleto em Portugal, como é infelizmente hábito nestas matérias. Por outras palavras, optar pelo facilitismo da fissão, com o argumento de este ser um assunto tabu dos ambientalistas, é estar a ir mais uma vez pelo caminho errado, em vez de fazermos uma análise séria ao futuro energético do país equacionando seriamente a nossa participação no desenvolvimento da prometedora fusão. E para variar poderíamos estar envolvidos num verdadeiro projecto de vanguarda de que poderão beneficiar bastante os nossos netos.

Entre a pena de morte e a sagrada vida humana

Ontem o presidente Bush abandonou o seu rancho para tentar revogar a decisão dos tribunais da Florida, que considera como um atentado ao direito à vida. Todos conhecemos as convicções religiosas da tendência política de Bush, ele faz parte dos que consideram a vida humana sagrada.
Nos EUA, 36 estados aplicam a pena de morte, entre os quais o do Texas, estado do qual Bush já foi governador.
E agora? A vida humana é sagrada?
É, excepto a dos maus...
Bush sabe muito bem quem são os maus, ele está de consciência tranquila.

quinta-feira, março 17, 2005

Energia nuclear à bruta!

A entrada de Vital Moreira "Interditos" é claramente inspirada num tipo de opiniões que ultimamente têm andado a circular nos meios de comunicação social portugueses sobre a opção nuclear (leia-se fissão nuclear). A maior parte, tratam-se de opiniões verdadeiramente à papo seco sobre as opções energéticas do país, pois não têm em conta nem a dimensão do nosso país, nem o contexto europeu em que nos encontramos, nem qualquer rigor científico.

Portugal não tem capacidade tecnológica nem recursos humanos para nos lançarmos sozinhos na aventura nuclear. Seria por isso não só uma tarefa para as calendas gregas, como teríamos que hipotecar o traseiro para construirmos pelo menos duas centrais nucleares, para que a aventura nuclear pudesse ser viável. Na minha opinião só o poderíamos fazer em conjunto com o plano nuclear espanhol ou outro da mesma dimensão (talvez o da Atlântida).

No contexto europeu, se entrarmos na produção de energia nuclear tradicional (por fissão), na minha opinião isso seria um tremendo erro estratégico. A Europa no seu 6º Programa Quadro no capítulo da energia nuclear, atribui cerca de 80% dos fundos para a investigação e desenvolvimento da produção de energia nuclear por FUSÃO. Teoricamente esta forma de produção de energia não tem subprodutos perigosos e seria de alto rendimento. Apesar da produção de energia por fusão ainda estar longe de ser uma realidade, o que a EURATOM está investir no desenvolvimento da fusão é um sinal inequívoco de que a Europa quer acabar ou reduzir ao máximo a produção de energia nuclear a médio ou a longo prazo. Os alemães estão a fechar todas as centrais nucleares e os italianos estão a reduzir ao mínimo o seu programa de produção por fissão nuclear. Os restantes 20 % da verba da EURATOM para as centrais nucleares destinam-se quase exclusivamente para manutenção e tratamento de resíduos e não para a investigação.

A enveredarmos pela energia nuclear por fissão, manteríamos a nossa tradição de escolhermos sempre as piores opções: em vez de escolhermos as inovações (fusão), escolheríamos as velhas tecnologias (fissão) e em vez de escolhermos tecnologia não poluente (fusão) escolheríamos a opção mais arriscada e poluente (fissão).
Quando Vital Moreira invoca um tabu sobre o assunto, na minha opinião a haver tabu seria mais um tabu sobre a nossa cultura e a nossa mentalidade. O que interessaria saber é a razão pela qual somos uns ases a fazer tudo ao contrário e a repetir os erros dos outros.

Einstein na blogosfera

Bons e interessantes textos sobre a vida e obra de Einstein na blogosfera:
Físicos de Lisboa (abundante informação); Nuno Guerreiro na Rua da Judiaria (reflexões, belas fotos e curiosidades); Filipe Moura no Blog de Esquerda (recomendo ainda este texto sobre Hans Bethe)

quarta-feira, março 16, 2005

Obrigado!

Obrigado rapaziada! Foram dois anos e meio sem sermos eliminados, muito mais do que aquilo que imaginávamos nos nossos melhores sonhos. Como muitos, comecei a acreditar que algo de especial estava a acontecer depois daquela recuperação e victória em Atenas contra o Panatinaikos em que Vítor Baía venceu por KO o guarda-redes adversário: Nikopolidis (sim, é esse mesmo, o da final aos papéis...). Foi o jogo chave que nos deu a UEFA. O ano passado, aquela sobremesa semi-fria servida por Costinha ao Manchester United abriu-nos as portas da final e o título Europeu era nosso. Depois veio o título Mundial, muito, muito suado.
Sabíamos que um dia tudo isto iria acabar, foi hoje, mas foi a custo. O nosso valoroso capitão ainda nos fez acreditar que o sonho poderia prosseguir. Adriano, esse magnífico avançado, colocou-nos os pés no chão, definitivamente.
Obrigado!

segunda-feira, março 14, 2005

Klepsýdra de Ouro 2004: "Der Untergang"

A qualidade dos filmes de 2004 a que fui assistindo deixou muito a desejar, até ver "Mar Adentro". Mas foi preciso ver "Der Untergang" (ver trailer) para descobrir um daqueles filmes que me vão ficar para sempre na retina.
"Der Untergang" (aguardemos o título em português) é um filme baseado nos relatos de Traudl Junge, secretária de Adolf Hitler, que descrevem os últimos dias passados no bunker onde estavam refugiados Hitler e os seus colaboradores mais próximos. Estes relatos só foram tornados públicos em 2002, daí a pertinência deste filme que revela novas e interessantes informações sobre os últimos dias de Hitler. O realizador Oliver Hirschbiegel apresenta no seu curriculum a popularíssima série de TV "Rex", mas é estranho, muito estranho ver Bruno Ganz, o maravilhoso anjo Damiel do filme "Asas do Desejo", a interpretar Adolf Hitler. O elenco é muito bom e conta ainda com Thomas Kretschmann, o Nikopol do filme "Imortal".
O que mais me impressionou neste magnífico documento da II Guerra Mundial foi a estoicidade ideológica e comportamental dos últimos refugiados no bunker de Hitler. A frieza de Goebbels vai para além da compreensão do comum mortal. As ideias expostas por Goebbels parecem ficção, mas não são, são baseadas nos relatos de quem lá esteve e o ouviu. De Hitler já sabíamos que era um monstro, mas é sempre diferente saber como se comportou um monstro até à hora final e é desconcertante perceber que Goebbels ainda superava Hitler no fanatismo pela causa Nazi. A mulher de Goebbels considerada por Hitler, "a melhor de todas mães alemãs", a certa altura afirma que não consegue imaginar os seus cinco filhos a viverem num mundo sem Nacional-Socialismo. Ela própria os mata um por um, fazendo-os ingerir comprimidos de cianeto. Tal como os generais, os graduados das SS, o casal Hitler e Braun todos se suicidaram metodicamente, com uma disciplina mórbida e doentia, mas o suicídio do casal Goebbels foi o expoente máximo do fanatismo, um suicídio fetichista e implacável.
A importância deste filme é a de nos relembrar que fanatismos e fundamentalismos extremos que grassam agora noutros quadrantes do nosso planeta já estiveram bem enraizados na Europa e não são exclusivo dos lugares onde há miséria e analfabetismo. A II Guerra Mundial não foi uma guerra convencional de puro confronto militar, foi muito mais do que isso, é o que nos diz "Der Untergang".

sexta-feira, março 11, 2005

Problemas insolúveis de geometria

O eixo Paris-Berlim-Madrid (ver última linha) é que nos propõe Teresa de Sousa no seu artigo do Público desta semana. O Luís Januário propõe um Broche a Bush como elemento descodificador deste eixo enigmático. Eu por mim estou aqui há não sei quanto tempo a tentar desenhar um eixo unindo os pontos pela ordem proposta por Teresa de Sousa. Primeiro uno Paris a Berlim, tudo bem, não há nada de estranho. Mas quando uno Berlim a Madrid lá se vai a porra do eixo! Fico assim com dois segmentos de recta mesmo a pedirem um terceiro para formar um triângulo. Depois, se uno Berlim a Madrid pelo o outro lado planeta passo com o traço por cima de Washington, o que dá logo cabo da teoria toda da Teresa. Isto já para não referir que o traço que fica em forma de espiral entre Berlim, Washington e Madrid, com um apêndice entre Berlim e Paris. Até faz lembrar o "eixo" da era Aznar...

Falar claro: Terroristas, Resistentes e o 11 de Março

Li o parágrafo "The battle for clarity of language" publicado no Aviz retirado do texto "The arab street" de Christopher Hitchens. Apesar deste texto globalmente fazer uma crítica oportuna à intoxicação da população árabe pela propaganda islamista (o movimento político-religioso), julgo que o parágrafo em causa não ajuda muito a clarificar a linguagem.

Sabemos que no Iraque há terroristas, os que fazem atentados suicidas, os que colocam bombas no meio da população civil, os que atacam os membros de outros grupos religiosos, aliás desde a intervenção americana o Iraque passou a ser um local de peregrinação de qualquer grupo islâmico radical que se preze. Tal como diz Christopher Hitchens não podemos chamar resistentes a esses terroristas. O problema é que pela mesma "clarity of language" não podemos chamar terroristas a todos os Iraquianos que se opõem à ocupação americana. Existem Iraquianos que são de facto resistentes, uns fazem uso da violência outros não. Uns votaram e outros não. As eleições que houve no Iraque não foram um referendo sobre a presença americana. Depois ainda há os "patos bravos", aqueles que em nome da sobrevivência raptam e vendem a quem der mais. Se queremos de facto ser rigorosos em relação ao Iraque devemos fazer um mapa das resistências e dos terrorismos no Iraque, assim podemos ter uma base sólida para discutir de uma forma séria a questão iraquiana, falando sempre claro.

Quando Christopher Hitchens se coloca do lado dos "opponents of terror" e refere que os que desculpam o terrorismo islâmico são os mesmo que falam na "Arab street", parece-me que está a entrar pela mesma simplificação de linguagem que contribuiu para que o 11 de Março acontecesse há um ano em Espanha.

A banalização da palavra terrorismo e o 11 de Março
Depois do 11 de Setembro Aznar juntou-se a todos aqueles que à pala do ataque ao WTC passaram a meter no mesmo saco das palavras terrorismo e terror, grupos com objectivos e métodos completamente distintos. Aznar meteu a ETA no mesmo saco que a Al-Qaeda, Putin e Yang Zhe Min aproveitaram para fazer o mesmo a todos os grupos separatistas dos respectivos países, Sharon fez o mesmo ao movimento de Arafat, até Fidel Castro mandou fuzilar com o rótulo de terroristas alguns desgraçados que sequestraram um barco para fugir do país. Tudo o que mexia passou a ser terrorista! E não era um terrorista qualquer era o "terror", como o "terror" da Al-Qaeda. Aznar sentiu na altura que tinha encontrado a Via Verde para liquidar a ETA, mas ao juntar-se à aventura iraquiana acabou por conhecer da pior maneira a diferença entre o tradicional terrorismo da ETA e o terrorismo implacável da Al-Qaeda. Foi um banho de sangue ignóbil que poderia não ter acontecido se Aznar ponderasse algo muito simples: para terrorismos diferentes, soluções diferentes. A probabilidade de resolver o problema do terrorismo da ETA é muito maior através de uma solução política que através de uma solução armada. Já em relação à Al-Qaeda a situação é a inversa. Aznar erra a toda a linha ao usar a força para combater a ETA, ilegalizando partidos e fechando assim a porta a algumas soluções políticas, e ao ir atrás da Al-Qaeda para o Iraque, quando na altura a Al-Qaeda estava tranquilamente instalada no Paquistão, na Arábia Saudita, no Dubai, no Qatar, no Sudão e nalguns subúrbios da Europa e dos EUA. Foi tudo ao contrário e quem pagou foram os cidadãos que tiveram o azar de estar no sítio errado na hora errada há um ano atrás em Madrid.

quinta-feira, março 10, 2005

Notas da China: Recibo-Raspadinha



Este é um recibo de um restaurante chinês que premeia o cliente com a quantia de 50 Yuans, mais ou menos 5 €, o que para o nível de vida dos chineses ainda é dinheiro. No canto superior direito aquele quadradinho cinzento escuro é a raspadinha onde sai o prémio. O felizardo foi um dos nossos colaboradores chineses.
Este esquema do recibo-raspadinha serve para incitar o cliente de um serviço a pedir o recibo, na perspectiva de ganhar um prémio na raspadinha. É um método de combate à evasão fiscal. Já conhecia algumas ideias de implementação de lotarias nacionais em que o número do jogador seria o número da sua declaração de IRS ou do IRC, mas confesso que fiquei surpreendido ao encontrar este método na China profunda, nos confins da província do Yunan.
Na China a economia paralela é monstruosa, principalmente fora das grandes cidades ocidentalizadas (Hong Kong, Pequim ou Xangai). Quando se anda por aquelas paragens até dá a sensação que os chineses têm um cromossoma negociador, tudo se vende, tudo se compra. Apesar de medidas como esta julgo que será muito difícil nas próximas duas décadas a China poder controlar mais do que 50% das transacções passíveis de pagar impostos. Só para terem uma ideia, em Janeiro havia DVD's à venda por todo lado de filmes novos (Mar Adentro, Alexandre o Grande, Supersize Me, etc.) a quantias da ordem dos 50, 60 cêntimos...

Mais notas da China: I'm lovin'it / Figo, Yao Ming e o fim da monarquia / Lijiang

quarta-feira, março 09, 2005

Hélas! Falhei o aniversário do Blog sobre Kleist!!

Desde puto que gosto de festas de aniversário, de me alambazar à fartazana com bolos, só os que passavam uma selecção rigorosa, nada de mousses de pacote ou bolos de bolacha feitos com margarina, despejava garrafas de Fri-sumo e de Sumol só para sacar as colecções do homem-aranha e do Tintin que saíam nas respectivas caricas e as fatias de pão com Tulicreme era vê-las a desaparecer.
Mas perdi o aniversário do
Um blog sobre Kleist. É pena deve ter sido uma daquelas festas sofisticadas, champanhe e cerejas, moelleux au chocolat servidos entre duas partidas de xadrez, concursos de arremesso das obras completas de Kleist e de anúncios inventados e galões tirados por um profissional de confeitaria da alta Lisboeta, tudo isto ao som de Smiths, claro.

sexta-feira, março 04, 2005

Mar Adentro

O que é que acontece quando se juntam no mesmo filme um dos vossos realizadores preferidos (Alejandro Amenábar) com um dos vossos actores preferidos (Javier Bardem)? No meu caso é apreensão. As expectativas são demasiado altas e a probabilidade de desilusão é alta. Não foi o caso de "Mar Adentro". Sobre Amenábar tinha escrito aqui na Klepsýdra em Maio do ano passado "Alejandro Amenábar para já está ali no fundo da minha lista, mas considero-o como uma jovem esperança, bastante promissora. Fez poucos filmes, mas de grande profundidade (...) Espero que continue na senda da qualidade". Corresponde. Sobre Bardem tinha escrito em Abril que "é um especialista em personagens de carácter bem vincado". É o caso de Rámon Sanpedro de Mar Adentro. Considero o filme muito bom, muito mais do que um filme sobre a eutanásia, é um filme também sobre as encruzilhadas da vida, as oportunidades que agarramos e as que deixamos partir.
Apesar de tudo, entre todos os filmes de Amenábar continuo a preferir "Abre los ojos", gosto daquela capacidade de fazer um filme excelente com meios da loja dos 300. Além do mais não perdoo duas coisas a "Mar Adentro". Em primeiro lugar, achei escusado a activista do direito à eutanásia ter um filho no momento em que Rámon morre. Parece-me uma resposta directa aos argumentos pró-vida de que quem defende a eutanásia é pela morte. É escusado descer tão baixo. A segunda cena que não apreciei foi a cena final, em que me pareceu haver ali um moralismo activista velado. Talvez me engane, mas o facto de Julia estar a caminhar para a morte sem a memória da existência de Rámon pareceu-me fazer apelo à justeza da decisão que Julia tinha entretanto abandonado de também cometer eutanásia. Cheirou-me a moralismo activista, mas não tenho a certeza.

Quanto à história de Rámon Sanpedro tal como é descrita no filme, apresenta-nos um homem cuja dor não é física. Rámon construiu uma imagem dele próprio que está muito perto da fronteira entre o que ele era e o que desejava ser. Rámon estava lá em cima, na torre de um palácio muito alto. O acidente destruiu quase tudo, destruiu até a modesta máxima: "si quieres viajar sin diñero: marinero"! Talvez seja injusto, mas parece-me que depois do acidente Rámon manteve a mesma relação com a sociedade, manteve as mesmas referências formatavam a sua vida antes do acidente. Rámon não tentou criar uma nova ordem na sua vida desde que ficou tetraplégico. Em certo sentido Rámon parece conformista com a forma como a sociedade interage com os deficientes físicos. Um psicólogo poderia dizer melhor do que eu se o caso de Rámon teria solução, a mim parece-me que sim, mas não tenho a certeza.

quinta-feira, março 03, 2005

Cent jours sans convaincre

Cent jours sans convaincre foi a frase mais utilizada ontem para caracterizar os primeiros 100 dias de Durão Barroso à frente da Comissão. Pois é... Quando se vai para o cargo de Presidente da Comissão sem ideias, sem motivação e sem o mínimo de Europeísmo é no que da'. Não estamos propriamente a presidir a câmara da Figueira da Foz ou a junta de freguesia da Merdaleja, em Bruxelas a mediocridade não passa em claro.

quarta-feira, março 02, 2005

O Carteiro entregou a sua ultima encomenda

Não podia deixar passar o fim da carreira de Karl Malone (foto sítio NBA), o carteiro para os amigos, sem lhe dedicar aqui duas linhas.
Malone era o carteiro porque fizesse chuva ou fizesse sol, fossem eles muitos ou fossem eles poucos, com os seus 2,06 m e o seu cabedal de armário era sempre tão fácil levar a bola ao cesto, como quem entrega uma encomenda ao destinatário, não era preciso grande espalhafato, o afundanço era executado com classe e profissionalismo. Ainda tive o privilégio de o ver em acção num jogo contra os Wizzards de Michael Jordan no MCI Center, dois deuses do basquete face a face. Andaram picados como se convinha, cotoveladas, caretas e muita provocação, foi um regalo. Malone abandona a carreira com 41 anos!

hjhkj

terça-feira, março 01, 2005

Bush e a Europa, dois ocidentes bem distintos

Este artigo da Joana Amaral Dias no Diário de Noticias faz uma síntese bastante interessante do bizarro périplo de Bush na Europa. Mas chamo especial atenção para a nota final da Joana, intitulada "Os loucos exemplares". Ali, a Joana desmonta bem o apelo de Bush à Europa para um hipotético património civilizacional comum. Percebemos bem que essa coisa a que chamamos "Ocidente" não passa de uma fantasia para políticos distraídos. Como refere e bem "basta ver como ambas as partes lidam com a religião, homossexualidade, pena de morte, direito internacional, ambiente, interrupção voluntária da gravidez e armas de fogo".

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Barroso & Bush sobre Quioto

Depois da visita de Bush, Durão Barroso foi entrevistado pelo "Grand jury Bel-RTL-Le Soir", sobre o protocolo de Quioto ouvimos o seguinte:

Entrevistador: "N'a-t-on pas battu en retraite sur Kyoto pour le symbole de la réconciliation?"

Durão Barroso: "Il est préférable de souligner les points d'accord que les points de désaccord. C'est la bonne attitude. Sur le changement climatique, les Américains n'acceptent toujours pas Kyoto, mais ils font de progrès. Ils reconnaissent qu'il y a un problème. Ils veulent investir dans les nouvelles technologies. Nous pouvons travailler avec eux, sans renoncer à Kyoto."

Segundo Barroso, o encontro com Bush centrou-se nos assuntos mais importantes: o Médio Oriente e o Iraque. Por este andar, quando resolvermos tudo no Medio Oriente e no Iraque, provavelmente teremos o clima do planeta completamente desregulado e um problema da falta de agua potavel de dimensões verdadeiramente apocalipticas. E' que vai ser um descalabro tão grande que nem todos os Ben Ladens deste planeta conseguiriam provocar uma catastrofe tamanha. De Bush ja não se pode esperar nada, mas de Durão Barroso tanta passividade perante assuntos tão graves, revolta e revolta muito. Eu estou para ver para onde vai este planeta, com tantos irresponsaveis a mandar.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Mar gelado em Marte

A sonda europeia Mars Express descobriu muito provavelmente um mar de gelo coberto por uma camada de poeira (imagem sitio ESA). A certeza sobre esta descoberta ainda ainda nao e' absoluta. Em Marte o gelo e' instavel por causa da baixa pressao atmosferica, sublimando assim que fica em contacto com o ar marciano. Por isso permanece a duvida se a area que mostram as imagens ainda conserva a massa gelada desse mar por baixo dessa camada de poeira e de terra ou se o mar ja evaporou. Hoje a ESA organizara uma comunicacao sobre os resultados da Mars Express onde esta questao podera ser clarificada.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Para onde vai o Bloco?

Alemanha?
Do ponto de vista da sua evolução, dos seus métodos e até da sua ideologia, vejo bem o Bloco como uma formação política muito próxima daquilo que são os Verdes alemães. Até acho que no Parlamento Europeu o Bloco deveria estar no grupo dos Verdes e não no grupo das Esquerdas Unidas que têm para lá muita intolerância à mistura. Se essa for a evolução do Bloco, na mesma direcção dos Verdes alemães, o Bloco pode deixar de ser um partido apenas interessante, para ser um partido interessante e interventivo, capaz de participar de uma forma construtiva na sociedade. Poderá, quando tiver uma representatividade acima dos 10% a 12% participar em coligações governamentais, ocupando ministérios determinados em que o seu contributo poderá marcar a diferença em relação às esquerdas tradicionais, nomeadamente ministérios como os do ambiente, da ciência, dos negócios estrangeiros ou do trabalho e da segurança social. Se esse for o caminho do Bloco, então estarão criadas todas as condições para que se concretizem contributos valiosos e necessários para a política das próximas décadas oriundos de uma esquerda moderna filha do Maio de 68 (pós-moderna), que aprendeu com os erros da velha esquerda, que abandonou o dogmatismo, que se questiona em contínuo e que tem poucas certezas, que é exigente, que é multiculturalista, que é europeísta como poderia ser africanista, que acredita na federação dos povos, que acredita na participação democrática a todos os níveis (bairros, freguesias, regiões, etc.), que é eco-responsável e simultaneamente tecnológica, que é integradora das diferenças e que combate todas as formas de exclusão, que procura a dose equilibrada de feminilidade na política depois de 10 mil anos de governos e de civilização com poucas mulheres, tudo isto sem baixar a fasquia da qualidade de vida dos cidadãos e elevando-a sempre que possível.

Marretas?
Se é para enveredar pelo caminho do Partido dos Dois Velhos Marretas, que só se sente à vontade na oposição, não contem comigo. Na minha opinião isso não é fazer política séria e pior que tudo é dar espaço e futuro à concretização de ideias pouco brilhantes que graçam nos tradicionais governos socialistas e conservadores.

Campo Pequeno?
Felizmente, o crescimento do Bloco tem acontecido quase exclusivamente à custa de pessoas que há muito rejeitaram ou fizeram o luto de ideologias como as que defendeu há 30 anos José Manuel Fernandes, o director do Público, nomeadamente o estalinismo e o maoismo - ideologias essas que só não conseguiram atingir as performances assassinas de Adolf Hitler porque as câmaras de gás já tinham direitos de autor. Para além do mais, grande parte do crescimento actual do BE deve-se a pessoas que nunca tiveram sequer qualquer passado de simpatia política por tais ideologias. Mas, segundo José Manuel Fernandes a direcção do Bloco seria a do Campo Pequeno e disse que até os conhecia, os tais bloquistas que gostariam de fechar uns quantos no Campo Pequeno. Realmente, não admira que José Manuel Fernandes os conheça, afinal em 30 anos conservam-se muitas das boas companhias dos velhos tempos. Só que o Bloco não é isso, nem nada que se pareça. Tal como o PP não é o partido de Adolfo Basílio Horta, nem o PSD é o partido do Marcelo Rebelo de Sousa que afirmou que "o 25 de Abril foi um golpe ilegal, sem legitimidade democrática", nem o PS é o do Mário Soares militante comunista antes da invasão da Hungria. É que se enveredamos por este tipo de argumentação, facilmente estamos a apontar a direcção de todo o espectro partidário para sítios que vão desde o Tarrafal até à Sibéria. É a análise política trauliteira, que tem pouco interesse e alcance, morre depois da traulitada. Morre assim também a teoria do Campo Pequeno...

domingo, fevereiro 20, 2005

O Compromisso Portugal II

"Trabalho por conta d`outrém há mais de 25 anos. Sou jornalista. Nunca, até hoje, algum patrão me deu a oportunidade para melhorar a minha qualificação profissional. O que faço, faço por minha conta e risco em horário pós-laboral. E que sabem eles da minha qualificação, se o que lhes interessa é apenas quantificar o investimento e o lucro? Mesmo em empresas de comunicação social só se ouve falar em produtividade. Ninguém quer saber de qualidade. Em tempos, na SIC, o patrão mandou medir o tempo que os jornalistas levavam para montar uma reportagem... os auditores eram italianos e nem percebiam uma palavra da notícia. Hoje, os jornalistas são bons enquanto forem baratos. Depois, substituem-se. Quanto mais permissivo for o código de trabalho, melhor."

Carlos Narciso

O Compromisso Portugal I

sábado, fevereiro 19, 2005

Sábado em Coimbra XXIII: mastigar o Mondego

O Mondego pela manhã parece de prata,
de pequeno habituei-me a vê-lo na Foz, na Figueira.
Mas em Coimbra o Mondego é mais frio,
possui uma cor de prata mais austera,
o rio parece duro,
dá a sensação que se pode mastigar.

Sábado em Coimbra XXII

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Um hino às 35 horas


Os bons resultados económicos da Airbus e a liderança económica e tecnológica do mercado mundial conseguida nos últimos dois anos - apesar do programa de espionagem americano ECHELON ter servido para lesar gravemente a Airbus em favor da Boeing em vários negócios bilionários - são bem demonstrativos do potencial de sistemas em que se priviligia um trabalho com boas condições, bem remunerado, com boa cobertura social e simultaneamente compatível com a qualidade de vida do trabalhador, tudo isto dentro de um consórcio em que empresas privadas e estado trabalham conjuntamente numa rede em que coexistem várias línguas a até dois sistemas monetários diferentes (o euro e a libra). Este é o perfil típico da construção europeia dos nossos tempos e que se pretende expandir e multiplicar. Estamos bem longe do "todos contra todos" de Hobbes. E ainda mais longe do provincianismo de algumas multinacionais que funcionam em pirâmide autistas às diferenças culturais dos países onde se instalam.

Na minha opinião, o pormenor mais delicioso que a construção do Airbus 380 trouxe para a rivalidade com a Boieng é que grande parte da sua construção foi feita por trabalhadores franceses em regime de 35 horas semanais de trabalho. Só por si este pormenor já é aterrador para os gestores da concorrente Boieng, cujos mitos sobre o trabalho ficam à beira da implosão. O pior é que nos últimos anos, vários países europeus têm ultrapassado a produtividade dos EUA e entre esses países temos a França. Por exemplo em 2002, em pleno regime de 35 horas, a França teve uma produtividade de 41.85$/hora e os EUA de 38,83$/hora. Estes resultados desafiam toda a lógica da doutrina dogmática do neo-liberalismo (refiro-me a um liberalismo fundamentalista na componente económica que combina um conservadorismo em todos os outros aspectos da vida). É neste aspecto que o Airbus 380 toma uma dimensão simbólica que vai muito para além do facto de ser um avião, é também o símbolo de que algo de novo está a nascer na Europa. Lá iremos na análise do livro "European Dream" de Jeremy Rifkin, quando tiver tempo para o acabar de ler.

35 horas em Portugal?
Para já sou contra. Antes é necessário resolver graves problemas organizativos e burocráticos no nosso sector público e privado, introduzir novas tecnologias aliadas a boas metodologias de trabalho, só depois estaremos aptos a baixar para as 39, depois 37, 35...

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Os sons de Titã

Os sons gravados durante a descida da sonda Huygens estão disponíveis aqui neste sítio da ESA. Através destes sons é possível ter uma ideia sobre o comportamento da sonda durante a descida até à superfície, nomeadamente os modos de vibração e de rotação da sonda. Estes dados de origem sonora combinados com os dados recolhidos pelos outros instrumentos da sonda permitem conhecer melhor a densidade da atmosfera de Titã.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

O Compromisso Portugal...

Eu estranho um grupo de empresários, como o do Compromisso Portugal, que se apresenta como fresco, dinâmico e com ideias novas para contribuir para o debate político, e depois a cada oportunidade propõe como medidas principais:

- A diminuição de impostos
- A flexibilização dos contratos de trabalho
- A redução da cobertura social
- A moderação salarial
- O aumento das propinas nas universidades

Eu julgava que um grupo de empresários estaria mais preocupado com:

- O investimento (privado ou público) na investigação em ciência fundamental e em novas tecnologias
- Estreitar a cooperação entre empresas e universidades
- A diminuição da burocracia
- Uma aposta acima da média europeia no investimento na educação e na investigação para recuperarmos o nosso imenso atraso
- A formação dos nossos empresários, dado que os empresários nacionais são os que apresentam as qualificações mais baixas da Europa, bem longe dos países com valores mais próximos
- O melhoramento da rede de transportes e telecomunicações
- A regulação do sector da energia, para acabar com situações de cartel e monopólio, permitindo a baixa dos preços

Mas não, disto ouve-se muito pouco. Tudo tresanda a ideologia no discurso do Compromisso Portugal. Aquele verniz de independência partidária estala ao primeiro contacto. Percebe-se que a preocupação genuína não é com o país, não é um compromisso com Portugal, é mais a preocupação de que os empresários se vão safando. Aliás dentro da mesma filosofia da geração de empresários anterior, que se foi sempre safando à custa de mão de obra barata e outras habilidades que não requerem muito esforço.
É por estas e por outras que estamos na cauda.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

10000 dias das Voyager

Talvez ofuscadas pelo sucesso da sonda Huygens, foi esquecida injustamente a data em que as sondas Voyager atingiram 10000 dias de operação, os engenhos construídos pelo homem que mais se afastaram do planeta Terra, cruzando actualmente o limite do Sistema Solar. A Voyger 1 é também o veículo interplanetário construído pelo homem que atingiu maior velocidade ponta: mais de 60000 km/h. Através das câmaras instaladas nas Voyager foram captadas pela primeira vez imagens dos planetas do Sistema Solar exterior: Júpiter, Saturno (Titã também foi fotografada de perto), Urano e Neptuno. As Voyager captaram também fotografias inéditas de grupo do Sistema Solar, com todos os planetas a posarem pela primeira vez para única uma câmara. As Voyager continuam a enviar dados preciosos, magnetómetros e vários tipos de detectores continuam a funcionar, e espera-se que funcionem pelo menos até ao ano 2020.

sábado, fevereiro 12, 2005

Cientista e burocrata

Começo a dar razão ao João Magueijo, um investigador em Portugal a partir de uma certa altura começa a transformar-se num burocrata. São resmas de papel, horas e horas em frente a formulários (e agora é tudo muito mais simples com a internet), escrevo o meu nome dezenas de vezes, o nº de BI, a minha morada, a da instituição e a privada, nº de telefone, fax, email, a cidade, o país, o nº de telemóvel (que raramente ligo). Pergunto-me para quê tanta informação? A maior parte dos casos sabemos que basta o nº de BI para ser identificado e o curriculum para ser avaliado. Mas não, parece vício que herdamos do tempo da catalogação política da PIDE. Só falta a côr das cuecas. Mas essa até seria uma informação que daria com bastante gosto, ao menos quebraria a monotonia cinzentona da burocracia. Venha a porra do cartão do cidadão com uma banda magnética (a única medida anunciada pelo Sócrates que não me faz soltar um bocejo)!
É nestas alturas em que tenho saudades do tempo em que era estudante, quando podia estar livremente até às tantas da manhã a estudar assuntos que me davam gozo, a resolver problemas até o galo cantar, a derreter muita massa cinzenta cheio de satisfação.
Hoje, depois de mais uma candidatura-mais uma viagem a um projecto sinto-me um Joseph K. da ciência, infernizado pela papelada e condenado a não sei muito bem o quê.

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Mundo de Aventuras XXII


(Carnaval de Mainz, Renânia-Palatinado, Alemanha, 2002)

Mundo de Aventuras XXI

Miséria ambiental II

"Cresci por essas bandas, a menos de 10 km da fábrica. Quando era puto, espantava-me sempre com os telhados cinzentos que circundavam a fábrica, e com algumas ruas feitas em cimento, ao invés do alcatrão. Memórias com 20 anos..."

Blitzkrieg (O quarto segredo da Fátima)

Nesse tempo as partículas emitidas pelas chaminés da fábrica polvilhavam Maceira sem qualquer controlo. Há alguns anos foram instalados filtros de manga, que pelo menos impedem a emissão de partículas, sendo emitidos apenas os gases produzidos pelos fornos.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Miséria ambiental

Durante um encontro com trabalhadores da fábrica de cimento de Maceira, perto de Leiria, é com um aperto no coração que oiço as descrições sobre as condições de trabalho na empresa. Para além dos combustíveis convencionais, nos fornos de Maceira queima-se lixo, muito lixo, lixo esse que supostamente deveria ser proveniente de resíduos urbano banais, não deveriam ser queimados ali resíduos tóxicos perigosos. As descrições deixam uma grande dúvida sobre a natureza dos resíduos.
Em Maceira e em pleno sec. XXI, quando os fornos da cimenteira são periodicamente desligados e limpos, o fato que os trabalhadores utilizam para entrar nesses fornos são exactamente os mesmos que os fatos utilizados num dia normal de trabalho. Não há botas, nem roupa, nem equipamento para respiração especial. As queixas de problemas de pele e de respiração após a limpeza dos fornos são frequentes. É o terceiro mundo em plena Europa.

No aterro de Taveiro, perto de Coimbra, existe uma unidade de triagem de lixo para reciclagem. A unidade de reciclagem parece uma casa de um nómada. Vai tudo para o chão, não há separação para contentores estanques, está tudo muito sujo, as trabalhadoras (imigrantes) que separam parte do lixo à mão não têm fatos especiais e duvido muito que tenham tomado as vacinas adequadas àquele tipo de trabalho. Os cães e os gatos andam à vontade lá dentro, sinal de desleixo dos responsáveis. Miguel Almeida, o Rei das nomeações e pau para toda a obra de Santana Lopes, é o administrador desta miséria. É uma empresa à sua imagem.

domingo, fevereiro 06, 2005

Chico Buarque no Tout Le Monde en Parle

Não me canso de escrever isto, o programa "Tout Le Monde en Parle" é provavelmente o melhor talk-show do planeta. Hoje, lá para as 23.45, na TV5 (canal 43), Chico Buarque será entrevistado por Thierry Ardison.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Titã: Água não! Metano!

Na China enquanto seguia o aparecimento das primeiras imagens enviadas pela Huygens (pronuncia-se aijenss, com o som do jota espanhol) com os meus colaboradores, exclamámos "Água!" quase simultaneamente quando vimos esta imagem. E corrigimos logo imediatamente: "Água não! Metano!"


(Foto Huygens, sítio ESA)

Passo a explicar a razão pela qual exclamámos água e depois corrigimos para metano. Inicialmente exclamámos água porque a forma das "pedras" que apareciam na imagem (não são pedras são formações de gelo) fazem lembrar a forma das pedras que encontramos no leito dos rios, com formas arredondadas, sem arestas afiadas. Isso é uma evidência de actividade fluvial, o que nos sugeriu a exclamação primária de "Água!". Mas após um momento de reflexão lembrámo-nos que naquela zona do sistema solar um planeta não pode ter água líquida à superfície, as temperaturas são muito baixas. Os corpos que estão a distâncias do Sol semelhantes à distância entre Saturno e o Sol, têm uma forte probabilidade de possuir metano no estado líquido à superfície. E foi por isso que corrigimos para metano. De facto, apesar de ainda existirem muitos dados por analisar a primeira teoria sobre a morfologia do solo de Titã, é a teoria dos rios de metano.


Estados da água e do metano no sistema solar em função da distância ao Sol
(esquema do livro "Cometa", Carl Sagan, Gradiva)

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Um gráfico espectacular, cheio de rigor...



Este gráfico vem deste blogue. No eixo das ordenadas ficamos sem saber se as unidades correspondem a batatas, peras, eucaliptos, percentagem de votos ou quilos de sabão. Quando olhamos para as abcissas, percebemos logo que o homem é um ás e trata a matemática e a geometria por tu: "há um mês" e "hoje" representados por dois pontos centrados em dois intervalos da mesma dimensão, que se supõe temporal...está bem. A união dos dois pontos por uma recta dão-lhe um toque naif, digna de uma criança da escola primária que acabou de descobrir a magia da representação gráfica. O segmento de recta empoleirado na linha 2 a bater com a cabeçorra na linha 6 demonstram a perícia do autor nas artes do Excel.

Aqui no laboratório já chorámos a rir a olhar para este gráfico, mas infelizmente o caso não é tanto para rir. O que é grave é que o autor, Paulo Portas, é um candidato a primeiro ministro e foi director de uma empresa de sondagens. O gráfico demonstra uma pobreza franciscana no que toca aos seus conhecimentos de matemática e demonstra também que nem sequer sabe trabalhar com um simples programa como é o Excel. E o pior é que este candidato, e o partido deste candidato, são especialistas em passar atestados de incompetência às gerações mais jovens, acusando-os de já não saberem escrever, de já não saberem matemática, etc., fazendo a apologia da autoridade na escola, como ouvimos a semana passada no debate sobre a educação na RTP. Ora, o melhor seria recambiar o candidato Paulo Portas para o liceu repetir as cadeiras de matemática e as de estatística, para junto dos jovens "que não sabem nada". Talvez ele aprendesse alguma coisa com os seus jovens colegas e se habituasse a fazer cadeiras com mais de 10 valores.

Mundo de Aventuras XXI


(Norfolk, Virginia, EUA, Novembro de 2002)

Mundo de Aventuras XX