segunda-feira, abril 25, 2005

O livro da década

O livro "The European Dream" de Jeremy Rifkin é na minha opinião o livro de ciência política (semi-académica) da década. Está para esta nossa década como o "O fim da história e o último homem" de Francis Fukuyama esteve para a década de 90, quer concordemos ou não com as opiniões dos respectivos autores. Aliás, à medida que vamos desfolhando a obra de Jeremy Rifkin ficamos com a sensação de que o conteúdo da obra de Fukuyama é hoje profundamente obsoleto. Rifkin desactualiza Fukuyama sem sequer necessitar de fazer muitas referências (duas ou três) ao mesmo, ao contrário de outros que tentaram desconstruir a teoria de Fukuyama com pouco sucesso.
Há algo de novo no pensamento político mundial que desponta na Europa e Rifkin de uma forma perspicaz organiza esse novo pensamento nesta obra. É um pensamento que se debate e desenvolve sobretudo num terreno de esquerda. Portugal tem andado arredado deste debate que fervilha na Europa nos sectores ambientalistas e socialistas.
Há algum tempo o Paulo César da Aba de Heisenberg confessava-me que já não se debatiam novas ideias à esquerda depois do Maio de 68. Julgo que o desabafo do Paulo César tem alguma pertinência a nível nacional, mas a nível europeu, as novas ideias que fervilham estão compiladas neste texto. Resta saber quanto tempo é que vai ainda decorrer até ser traduzido.

Jeremy Rifkin é presidente da Foundation on Economic Trends em Washington e é um americano que conhece muito bem a Europa. O seu livro, que dissecarei aqui na Klepsýdra em próximas entradas, termina com as seguintes palavras:

"These are tumultuous times. (...) The European Dream is a beacon of light in a troubled world. It beckons us to a new age of inclusivity, diversity, quality of life, deep play, sustainability, universal human rights, the rights of nature and peace on Earth. We Americans used to say that the American Dream is worth dying for. The new European Dream is worth living for."

quinta-feira, abril 21, 2005

Mundo de Aventuras XXVI


(Catedral de Salamanca, Castela e Leão, Espanha, 2003)

Mundo de Aventuras XXV

Vertigo

"Vertigo", com a belíssima Kim Novak, é o meu filme preferido de Hitchcock e a minha sugestão cinematográfica desta semana. Este é um filme que tem a rara capacidade de dar a volta ao espectador, logo na altura em que este acha que já está a perceber todo o desenrolar da trama e quiçá até capaz de prever o que se irá passar até final do filme. Mas não, nesse momento a história desliza de vertigem em vertigem até à vertigem final! Outra coisa que me fascina neste filme é forma inovadora para a época com que Hitchcock brinca com as semelhanças físicas das personagens. Só nos últimos anos voltámos a encontrar autores que se arrojaram a ludibriar o espectador com este tipo de técnica, como o faz David Lynch de uma forma mais sofisticada em "Mulholland Drive".

segunda-feira, abril 18, 2005

O Homem do século XX

Há exactamente 50 anos morria Albert Einstein, aquele que foi na minha opinião o homem que mais preencheu o século XX. Einstein mudou profundamente a nossa percepção do Universo e o seu trabalho científico teve ampla repercussão na história do século passado, desde a II Guerra Mundial às domésticas células fotoeléctricas. Mas as repercussões do seu trabalho científico ainda estão longe do fim, sonhamos ainda com as tecnologias que poderão nascer da teoria da relatividade geral.
Einstein foi também um daqueles universalistas praticantes. Einstein estudou na Suíça, trabalhou na Alemanha e nos EUA e chegou a ser convidado para ser presidente de Israel (se tivesse aceitado talvez hoje o Médio Oriente estivesse em paz). Mas Einstein foi também um homem com uma vida conjugal errática e um cientista que teve muita dificuldade em aceitar a mecânica quântica, o que o elimina da galeria dos perfeitos, condição essencial para ser o Homem do século XX na minha opinião.

Ler ainda: Linha dos Nodos, Rua da Judiaria e Físicos de Lisboa

domingo, abril 17, 2005

Portugal país de emigrantes e de ignorantes

A Márcia faz muito bem em nos chamar a atenção para a forma de que uma boa parte dos Portugueses fazem uso quando falam dos imigrantes. Os Portugueses, esse povo que se divide entre 10 milhões de almas no território nacional e 5 milhões lá por fora, pelo mundo.

quarta-feira, abril 13, 2005

Das estrelas para olho humano

A óptica adaptativa é uma técnica em que os espelhos de um telescópio podem mudar de forma para corrigir deformações na imagem. Esta técnica que foi inicialmente desenvolvida para observar as estrelas será agora aplicada à medicina através de um projecto inédito intitulado OEIL, onde esta tecnologia será utilizada para melhorar a tomografia óptica coerente na área da oftalmologia. É mais um excelente exemplo de transferência de tecnologia desenvolvida para a astrofísica que é absorvida pela indústria, como foi o caso das máquinas fotográficas digitais.

terça-feira, abril 12, 2005

Contacto

Em Ano Internacional da Física deixarei aqui algumas sugestões cinematográficas de ficção científica, género do qual sou um voraz consumidor. Vejo o lixo todo! Até vi "O Dia da Independência", o pior filme de sempre. Vi aquela magnífica cena em que o pERsidente dos EUA abate heroicamente várias naves marcianas. Nem Ed Wood nos seus momentos de maior delírio faria um filme tão mau.
"Contacto" é o meu filme preferido de ficção científica. O rigor científico do livro de Carl Sagan, no qual se baseia o filme, é excepcional. Alguns dos seus colegas foram-lhe fornecendo resultados científicos fresquinhos ainda por publicar, à medida que Sagan ia escrevendo a história, como foi o caso da teoria dos buracos minhoca. Infelizemente, no filme o final da história foi alterado (e adulterado) em relação à história original, o que o amputa de um dos seus elementos mais interessantes. Mas o nível educacional do americano médio oblige, se não cerca de 95% dos americanos não teriam percebido um boi do final do filme. Apesar de tudo, em Portugal seria ligeiramente melhor. Afirmo-o baseado na experiência de colegas que estudaram no secundário nos EUA e que eram lá considerados super-génios, passavam três anos em um e depois ao voltar a Portugal já não sabiam resolver uma equação das mais simples.

domingo, abril 10, 2005

O nosso sector privado...

L- 90,7%;
S- 71,9%;
FIN- 69,5%; IRL- 67,2%; D- 65,5%; B- 64,3%; DK- 61,5%; SLO- 60,0%;
UE25- 55,4%; CZ -53,7%; SK- 53,6%; F- 52,1%; NL- 51,8%;
E- 48,9%; GB- 46,7; A- 41,8%;
P- 31,5%;; PL- 31,0%;
H- 29,7%; GR- 29,7%; EE- 29,2%; LT- 27,9%; LV- 21,7%;
CY- 17,4%;

Estes números de Março do Eurostat representam a percentagem de investimento na investigação científica praticado pelo sector privado em cada país da UE. Entre 25 países Portugal aparece à frente de sete. Curiosamente esses sete países, são países menos desenvolvidos que Portugal.
Ouvimos tantas vezes aquela lenga-lenga a diabolizar os funcionários públicos e o mau funcionamento do estado que nos esquecemos da miséria que é o nosso sector privado. Entre todos os países europeus a média de anos de estudo dos nossos empresários é de longe a mais baixa. Depois não espanta que a maior parte dos nossos empresários se esqueça de investir na formação, em tecnologia e na investigação. É mais fácil enveredar pelo facilitismo de empregar mão-de-obra barata, pedinchar por impostos mais baixos (ou não os pagar), criticar as "benesses" sociais dos trabalhadores (em Portugal são miseráveis comparadas com o resto da UE), controlar as idas às casas de banho das trabalhadoras (sublinho o feminino), aproveitar os fundos comunitários para comprar piscinas e automóveis vistosos, desprezar as suas obrigações ambientais e de protecção da saúde pública, enfim...

sexta-feira, abril 08, 2005

Comentário de espada à cinta

O Almocreve sai-se com esta entrada maravilhosa e fotografia a matar, sobre esse comentário de espada à cinta que se faz acompanhar de dois conhecidos guarda-costas: o moralismo estóico e a moca de Rio Maior.
Gosto das pulgas dos cães e gosto dessas frases que acusam, julgam e condenam através de um míope e fugaz olhar para o passado dos homens. Até guardo no meu bacio de estimação essas colagens plásticas do iluminismo, do racionalismo e até da construção Europeia "às ideologias que mais mortos fizeram" por parte de grandes subscritores da moral católica e do neo-liberalismo. Todos sabemos que tanto a Igreja Católica como o neo-liberalismo nunca mataram ninguém, até dão saúde e fazem crescer...

quinta-feira, abril 07, 2005

A Física em Banda Desenhada

Larry Gonick, um matemático licenciado em Harvard, é o autor desta belíssima banda desenhada em que todos os temas da física, incluindo a física moderna, não escapam à sua ironia e ao seu humor bem informado. Gonick tem um sítio na internet, onde se apresenta como um autor de BD com habilitações a mais, pois Gonick tem também um mestrado em Harvard e foi ainda investigador e professor. A qualidade reflecte-se nos quadradinhos. Gonick já publicou várias BD sobre outros temas científicos: genética, estatística, computadores e... sexo! Entre as suas publicações mais conhecidas figura o "Cartoon Guide to the Universe" com um prefácio de Carl Sagan, onde Gonick conta a história da Universo desde o Big Bang até aos nossos dias.

quarta-feira, abril 06, 2005

Pourquoi les intellectuels n´aiment pas le libéralisme?

A resposta mais simples a esta pergunta é dada no Abrupto, ler "Público em linha pago":

"o Público custa dinheiro a fazer, devo pagar por ele. No entanto, o jornal deve pensar noutro valor, valor económico ponderável e real, que é o da sua autoridade pela influência (não coincidem necessariamente, mas relacionam-se)"

A pergunta que serve de título ao livro Raymond Boudon é manhosa, porque o autor exclui a sua corrente política da área da intelectualidade, o que pode ser intelectualmente desonesto. Mas a resposta a esta pergunta é tão simples que se pode escrever entre parêntesis numa frase, como o fez Pacheco Pereira, se calhar involuntariamente: "[os valores] não coincidem necessariamente, mas relacionam-se". Quem já reflectiu a sério sobre as razões pelas quais muitas utopias falharam (refiro-me àquelas receitas políticas que servem para tudo), chega rapidamente à conclusão que a sua decadência ocorre quando os valores inerentes à receita não coincidem com os valores que determinam o percurso de uma sociedade, essencialmente aqueles valores que determinam a qualidade de vida. Com o liberalismo passa-se exactamente o mesmo. Pelo menos com o liberalismo defendido por Raymond Boudon. A dura realidade é que os valores que regem os mercados nem sempre coincidem com aquilo que definimos como sendo a nossa qualidade de vida. É uma discrepância simples, mas que pode ter consequências irrelevantes, como pode ter consequências desastrosas mesmo quando esses valores estão relacionados. As consequências podem ser tão graves como as que aconteceram nos regimes comunistas. A América Latina e a Ásia fornecem-nos alguns dos exemplos mais catastróficos (ex: Argentina e Tailândia), quando o liberalismo é implementado na base do dogmatismo cego.
É por causa da referida "não coincidência de valores" que uma parte dos intelectuais não gostam do liberalismo (o de Raimond). E eu desconfio que têm razão. Para quem trabalha em física, descobrir buracos nas ideologias pode ser um passatempo divertido, trabalhamos com coisas bem mais concretas que de vez em quando são assoladas por descobertas que obrigam a reformular, a alterar ou a destruir teorias inteiras escritas por muitas mentes brilhantes. Por isso, é que desconfio de receitas ideológicas puristas, prefiro a minha dieta pós-moderna à base de muito cepticismo.

Há uma grande confusão sobre a ideologia liberal, em Portugal e não só. É por isso que o autor se lança num esforço sofrível para desculpar algumas "falhas" (onde é que eu já ouvi isto?) do liberalismo, na linha da teoria "o mau liberalismo expulsa o bom liberalismo". Neste mundo temos liberais de esquerda (Michael Moore, uma boa parte do partido Democrata, inúmeros partidos europeus) e de direita. Em Portugal estamos habituados a ouvir falar de liberalismo dentro de uma linha política que nos EUA se chama neo-conservadora. Aqueles que defendem um liberalismo apenas económico (em geral radical) e no restante defendem um moralismo de base católica. É destes intelectuais que Raimond não fala. Se calhar são estes os que estão a expulsar os outros liberais...

segunda-feira, abril 04, 2005

Como é o Bem e o Mal em 3D?

Sobre o filme "A Queda", podemos ler no Murcon:

"li que muitos protestam por ele ser retratado de forma "excessivamente humana". Sempre esta tentativa inconsciente de projectar "o mal" para dentro de outros que não partilhariam connosco a (boa) essência do ser humano... Não partilho este optimismo acerca da dita "natureza humana", considero que luz e sombra se acotovelam cá dentro. Não reconhecer a maldade de que somos capazes, através da crença em "extraterrestres", humanos geneticamente diversos ou reconfortantes psicóticos passeando entre nós, afastará, sem remissão, a análise objectiva dos problemas."

Partilho por inteiro destas reflexões de Júlio Machado Vaz. Preocupam-me as certezas dos que têm esse poder sobrenatural de distinguir inequivocamente o "bem" do "mal". Costumo pensar que não existe o "bem" e o "mal", penso que existem soluções, umas mais eficazes e outras menos. Também se pode pensar no "bem" e no "mal" como as duas extremidades de uma escala unidimensional, tal como um termómetro, com a solução óptima numa ponta e a pior das soluções na outra. Na nossa vida, tal como nos termómetros comuns, nunca vemos o nível de mercúrio a tocar nas extremidades do termómetro. Andamos sempre ali pelo meio da escala. Mas as escalas têm problemas, podem não ser lineares. E se o espaço das soluções não é unidemensional? Se é bidimensional, ou tri?...

domingo, abril 03, 2005

Amarcord

Aqui na coluna da direita há uma nova rubrica da Klepsýdra, uma sugestão cinematográfica semanal. Depois de "A Queda", que está para estrear em Portugal, sugere-se agora "Amarcord" realizado por Federico Fellini em 1974, o filme preferido do nosso Nuno Camarneiro Mendes que anda lá fora a lutar pela vida. É um filme sobre o colorido universo de Fellini quando este era ainda uma criança que dava vida às ruas de Rimini. Amarcord significa mi ricordo no dialecto da Emilia-Romagna.

sábado, abril 02, 2005

Um bom comentário de esquerda na hora da morte

Antevendo a morte do Papa, Miguel Portas ensaia uma síntese do seu pontificado que é um exemplo pela sua raridade no equilíbrio da análise. Num tempo em que os comentadores políticos se batem num frenesim classificativo dos homens que forjaram os séculos entre o epíteto de terrorista e o de herói, o Miguel dá o exemplo de como se pode respeitar, criticar e elogiar, com a devida ponderação, figuras longe do seu campo político na delicada hora da sua morte. É raro nos dias que correm. A recente morte de Arafat mostrou essa mórbida competição do comentário político entre o herói e o terrorista. Vivemos em tempos em que alguém que tenha morto mais do que uma pessoa é facilmente catalogada como terrorista (claro, se os mortos forem ocidentais branquinhos, as mortes na América latina ou em África pouco contam). De Arafat a Massoud muito terrorista apareceu por aí nas bocas dos comentadores. Até Massoud vejam só...aquele que andava a lutar sozinho contra o regime talibã, na altura em que empresários e políticos receberam no Texas uma delegação de talibãs para tratar de negócios.
O mais fácil era um esquerdista alinhar pela mesma bitola de algum comentário de direita, ensaiar uma contabilidade baseada numa estimativa de mortes por SIDA registada nas regiões onde existem missões católicas em África onde se rejeita distribuir o preservativo e daí extrapolar um adjectivo: terrorista (por comparação com o número de mortes de Arafat, por exemplo). Ou então, ao bom estilo de José Manuel Fernandes, seria fácil a um esquerdista invocar o passado da igreja, comparar com o número de mortes provocadas por Hitler e Estaline.
A boa diferença do comentário de Miguel Portas é que podemos ler um texto crítico de quem está distante da igreja, do "homem que vive como se Deus não existisse", sem levar em cima com todo o lixo do frenesim do comentário político de diabolização do personagem.

Coisas que não se podem esquecer sobre Karol Wojtyla
Sobre a orientação do pontificado de Karol Wojtyla, Miguel Portas chama a atenção para algo muito importante que será talvez esquecido intencionalmente por muitos comentadores políticos nos próximos dias: "um programa evangélico e político. O fio invisível que liga o seu anticomunismo dos primórdios à actual recusa da guerra preventiva"
(texto também disponível na página pessoal do Miguel Portas)

Começou o maior espectáculo do mundo
Nas televisões portuguesas:
É p'ró menino e p´rá menina! Aprocheguem-se caros amigos! A TVI dá mais sangue! A SIC mostra o Papamóvel a sacar piões! Na RTP sãoooo láááágrimaaaaas!!! É pegar ou largar! À dúzia é mais barato! E as entrevistas de rua, meu Deus, as entrevistas de rua, ao pai, à tia, ao primo, à freira, à vizinha, ao canário, ao cão...

quinta-feira, março 31, 2005

O País do Meio tem que estar no meio!

"L'indignation de la cour impériale devant une carte jésuite où la Chine était figurée sur le bord droit de l'image donne un bon aperçu du géocentrisme chinois: que faisait donc l'empire du Milieu sur la périphérie du monde? Le père Matteo Ricci eut l'intelligence de modifier la présentation de la carte, en plaçant l'Empire céleste en plein milieu, avec l'Europe loin à l'ouest."

Paul Theroux, L'Atalas des Atlas, Hors-série Courrier International, 2005

quarta-feira, março 30, 2005

Júlio Verne, 100 anos

Quando descobri Júlio Verne não descansei enquanto não comprei todos os romances que havia à venda. Fazia-o à custa dos tostões que me iam oferecendo alguns familiares em ocasiões especiais (Páscoa, Natal, aniversário, etc.). Dediquei uma secção na minha estante só a Júlio Verne. A minha mãe olhava desconfiada para o volume de livros que não parava de aumentar e dizia-me: "em vez de guardares o dinheirinho que te dão, andas a estoirá-lo em livros". Numa família sem tradições académicas ouve-se destas de vez em quando. Os 100 anos da morte de Júlio Verne, que agora se comemoram, evocam-me esses tempos de longas e deliciosas horas a fio passadas a ler e a imaginar todas aquelas aventuras. O que mais impressiona na obra de Júlio Verne é o seu carácter visionário. Ainda hoje, algumas das ideias mais incríveis imaginadas por Júlio Verne são objecto de estudo sério, como é o caso de um elevador capaz de levar os passageiros da Terra até à Lua.
Apesar de ser um grande fã de ficção científica, a obra de Júlio Verne de que mais gostei na altura foi "Miguel Strogoff" (ver ilustração). Não larguei o livro enquanto Miguel Strogoff não cumpriu a sua longa viagem até Yakutsk, uma viagem cheia de duras provas aos seus limites físicos. Muitos consideram ter sido estas duras provas de Miguel Strogoff a fonte inspiração do Barão Pierre de Coubertin para a criação do Pentatlo Moderno, o desporto do atleta perfeito para o Barão.

segunda-feira, março 28, 2005

Patetices

Vital Moreira desmonta com o seu habitual rigor os delírios anti-francófonos e a análise troca-tintas sobre o PEC de Marcelo Rebelo de Sousa. Para quem conhece um bocadinho a Europa e a sua história, a orientação do discurso de Marcelo mete dó e é avaliado como um discurso pateta pelos outros europeus que o ouvem (e já não são poucos em Portugal). O passado recente de Portugal deve tudo à França. A notícia sobre as remessas dos emigrantes que faz hoje a capa dos jornais refere-se sobretudo a emigrantes que estão em que país? É por isso que os exageros nas críticas à França caem pior do que a qualquer outro país do mundo. Somos pobres e mal agradecidos. Mas Marcelo não é o único em Portugal a alinhar neste tipo de exageros.

sábado, março 26, 2005

Atlas dos atlas

Esta hors-série da Courrier International do 2º trimestre do ano é uma delícia. Todos aqueles que gostam de cartografia e de geopolítica têm aqui uma guloseima que vale bem o preço (12€). A revista para além de fazer uma actualização muito completa do mapa das fronteiras e dos conflitos do nosso planeta, possui várias secções dignas de um jornalismo de alto nível: visões do mundo (cartografia técnica e mapas mundo centrados em países específico), história (vias romanas, geografia árabe, Europa medieval, mapas dos descobrimentos, etc.), futuro (demografia, urbanização, água potável, clima, religião, etc.) e imaginário (filosofia, mapas inventados, jogos, mapas artísticos, etc.). Deixo aqui em jeito de aperitivo alguns dos mapas:

- um mapa mundo centrado na Austrália em que o hemisfério sul aparece no topo do mapa. O editor australiano faz questão de não pedir desculpas por o mapa ser assim e passa a culpa para os do hemisfério norte que impuseram a sua visão mundo.
- mapas de Oz, de Utopia e da Ilha do Tesouro
- mapa mundo em chinês e outro em japonês
- a deformação dos vários tipos de planisférios, onde podemos ver que o mais corrente, o Mercator, possui já uma deformação considerável a partir de latitudes acima dos 60º.

sexta-feira, março 25, 2005

João Miranda vai pagar julgamento de aborto em Setúbal!

No próximo dia 31 de Março, Portugal vai voltar a aparecer na Euronews, BBC, TF1, RAI 1, etc., como aquele país atrasado, terceiro mundista e bárbaro que julga as mulheres que cometem abortos. Mas a grande novidade é que quem vai pagar esse julgamento que ocorrerá em Setúbal será, presumo eu, João Miranda do Blasfémias. Estupefactos? Basta ir ao Blasfémias e ler as três postas de João Miranda intituladas "Propostas de pergunta para o referendo ao aborto". Antes de lerem, aconselho um saquinho de vómito daqueles dos aviões aos que se enervam muito com estas questões. A pergunta mais interessante proposta pelo João é a terceira, que curiosamente engloba a segunda:

"Na sua opinião as pessoas que consideram que o aborto causa a morte de um ser humano devem ser forçadas a pagar, via impostos, os abortos daqueles que o fazem nos hospitais públicos por motivos "psicológicos" ou socio-económicos?"

Para os que não vomitaram depois de ler esta questão, julgo que já devem ter tirado a mesma conclusão que eu: 1) ou os julgamentos às mulheres que abortam são de borla 2) ou o João Miranda, pondo em prática todo o seu espírito liberal, num acto louvável e raro de mecenato em Portugal, vai pagar todos os julgamentos de mulheres que praticarem o aborto no nosso país. Como a justiça não é de borla em Portugal e quem paga estes julgamentos são todos os contribuintes, os que votaram Não e Sim no anterior referendo (é assim em democracia somos beneficiados ou prejudicados independentemente do que individualmente colocámos na urna) a hipótese 1) está fora de questão. Resta a hipótese 2), João Miranda vai pagar os julgamentos das mais de 10 mil mulheres que abortam por ano. João Miranda vai pagar os bufos que as denunciam (aconselho a actualização da última tabela da PIDE de 1974), vai pagar os inquéritos judiciários, vai pagar os advogados, vai pagar os juízes, os funcionários das audiências e todos os dias de prisão a cumprir pelas mulheres que forem condenadas. Ah leão!

Este neo-conservadorismo tem escola, não cai do céu. Os EUA são um exemplo deste tipo de cocktail exótico que mistura o liberalismo económico selvagem com um moralismo católico-protestante fanático. Por questões ideológicas, há uns anos os EUA cortaram a eito em despesas sociais. Hoje cerca de 1% dos americanos estão atrás das grades. É isso mesmo que estão a pensar, os mais de 2 milhões de detidos americanos produzem uma despesa incomensuravelmente maior do que as ajudas sociais que eram prestadas anteriormente. Mas o meu exemplo preferido é o do estado da Califórnia. Um dos dogmas da catequese liberal dos neo-conservadores advoga que o ensino deve ser privado. A Califórnia seguiu esse dogma, o investimento público no ensino é minimalista. As prisões da Califórnia estão a abarrotar. Ironia das ironias, hoje o estado da Califórnia gasta nas prisões quase o dobro do dinheiro que é gasto no ensino! Deveria ser ao contrário, não era? Tentem lá explicar isso ao João Miranda...

quarta-feira, março 23, 2005

Irão? Temos 480 ogivas nucleares na Europa

Preocupa-me profundamente o ódio crescente em relação ao "ocidente", embora considere que os EUA e a UE não fazem parte do mesmo ocidente. Questões como o desenvolvimento de tecnologia nuclear no Irão revelam uma hipocrisia pouco oportuna face à gravidade da matéria e só contribuem para aumentar esse ódio.
Apesar de já ter acabado a Guerra Fria há mais de 15 anos e apesar de não existirem ameaças a leste, a Europa conserva cerca de 480 ogivas nucleares no seu território:

Bélgica: 20
Alemanha: 150
Itália: 90
Holanda: 20
Reino Unido: 110
Turquia: 90

Deste grupo de países, apenas o Reino Unido (RU) é reconhecido como potência nuclear nos termos do Tratado de Não Proliferação Nuclear, que reconhece somente mais quatro países para além do RU: EUA, Rússia, França e China. Apesar de a Bélgica, a Alemanha, a Itália, a Holanda e a Turquia não possuírem armas nucleares próprias, estes países possuem cerca de 370 ogivas americanas estacionadas no seu território em bases da NATO. Das 480 ogivas, apenas 300 estão afectadas a aviões americanos, as restantes são controladas por europeus. Por outras palavras, existem cinco países europeus estão a violar o principal objectivo do Tratado. A desculpa de as ogivas serem americanas também não convence. Imaginem que a China coloca umas ogivas em aviões da Coreia do Norte ou do Vietname...

Se a Europa quer ter credibilidade e não entrar no jogo baixo da realpolitik americana tem que começar a fazer uma limpeza das hipocrisias domésticas. Se a Europa quer exigir alguma coisa ao Irão tem primeiro que arrumar a casa. Eis uma boa oportunidade para a Europa convidar os EUA a levarem o seu arsenal nuclear de volta para casa, até porque as ogivas que se encontram nos referidos países, exceptuando a Turquia, poderão apenas atingir países democráticos e livres. Nem sequer serve a desculpa de que poderiam ter poder dissuasor nas regiões que apresentam maiores ameaças para os EUA. Para mudar o alcance dessas ogivas seria necessário cerca de um ano de trabalho e os EUA possuem milhares de mísseis de longo alcance capazes no seu território e a bordo de submarinos que podem perfeitamente cumprir esse papel dissuasor.

segunda-feira, março 21, 2005

Programa EURATOM 2002-2006 em euros

Distribuição de fundos do programa 6ºPQ EURATOM 2002-2006:

Investigação:
Fusão termonuclear controlada - 750 M€
Gestão de resíduos radioactivos- 90 M€
Protecção contra radiações - 50 M€

Outras actividades (tecnologias e segurança) - 50 M€

Deixo aqui estes números para ilustrar o meu texto anterior "Energia Nuclear à Bruta". Se o debate sobre o futuro energético do país não tiver em linha de conta a importância do desenvolvimento da fusão (cerca de 80% do investimento da EURATOM), corremos o risco de protagonizar um debate obsoleto em Portugal, como é infelizmente hábito nestas matérias. Por outras palavras, optar pelo facilitismo da fissão, com o argumento de este ser um assunto tabu dos ambientalistas, é estar a ir mais uma vez pelo caminho errado, em vez de fazermos uma análise séria ao futuro energético do país equacionando seriamente a nossa participação no desenvolvimento da prometedora fusão. E para variar poderíamos estar envolvidos num verdadeiro projecto de vanguarda de que poderão beneficiar bastante os nossos netos.

Entre a pena de morte e a sagrada vida humana

Ontem o presidente Bush abandonou o seu rancho para tentar revogar a decisão dos tribunais da Florida, que considera como um atentado ao direito à vida. Todos conhecemos as convicções religiosas da tendência política de Bush, ele faz parte dos que consideram a vida humana sagrada.
Nos EUA, 36 estados aplicam a pena de morte, entre os quais o do Texas, estado do qual Bush já foi governador.
E agora? A vida humana é sagrada?
É, excepto a dos maus...
Bush sabe muito bem quem são os maus, ele está de consciência tranquila.

quinta-feira, março 17, 2005

Energia nuclear à bruta!

A entrada de Vital Moreira "Interditos" é claramente inspirada num tipo de opiniões que ultimamente têm andado a circular nos meios de comunicação social portugueses sobre a opção nuclear (leia-se fissão nuclear). A maior parte, tratam-se de opiniões verdadeiramente à papo seco sobre as opções energéticas do país, pois não têm em conta nem a dimensão do nosso país, nem o contexto europeu em que nos encontramos, nem qualquer rigor científico.

Portugal não tem capacidade tecnológica nem recursos humanos para nos lançarmos sozinhos na aventura nuclear. Seria por isso não só uma tarefa para as calendas gregas, como teríamos que hipotecar o traseiro para construirmos pelo menos duas centrais nucleares, para que a aventura nuclear pudesse ser viável. Na minha opinião só o poderíamos fazer em conjunto com o plano nuclear espanhol ou outro da mesma dimensão (talvez o da Atlântida).

No contexto europeu, se entrarmos na produção de energia nuclear tradicional (por fissão), na minha opinião isso seria um tremendo erro estratégico. A Europa no seu 6º Programa Quadro no capítulo da energia nuclear, atribui cerca de 80% dos fundos para a investigação e desenvolvimento da produção de energia nuclear por FUSÃO. Teoricamente esta forma de produção de energia não tem subprodutos perigosos e seria de alto rendimento. Apesar da produção de energia por fusão ainda estar longe de ser uma realidade, o que a EURATOM está investir no desenvolvimento da fusão é um sinal inequívoco de que a Europa quer acabar ou reduzir ao máximo a produção de energia nuclear a médio ou a longo prazo. Os alemães estão a fechar todas as centrais nucleares e os italianos estão a reduzir ao mínimo o seu programa de produção por fissão nuclear. Os restantes 20 % da verba da EURATOM para as centrais nucleares destinam-se quase exclusivamente para manutenção e tratamento de resíduos e não para a investigação.

A enveredarmos pela energia nuclear por fissão, manteríamos a nossa tradição de escolhermos sempre as piores opções: em vez de escolhermos as inovações (fusão), escolheríamos as velhas tecnologias (fissão) e em vez de escolhermos tecnologia não poluente (fusão) escolheríamos a opção mais arriscada e poluente (fissão).
Quando Vital Moreira invoca um tabu sobre o assunto, na minha opinião a haver tabu seria mais um tabu sobre a nossa cultura e a nossa mentalidade. O que interessaria saber é a razão pela qual somos uns ases a fazer tudo ao contrário e a repetir os erros dos outros.

Einstein na blogosfera

Bons e interessantes textos sobre a vida e obra de Einstein na blogosfera:
Físicos de Lisboa (abundante informação); Nuno Guerreiro na Rua da Judiaria (reflexões, belas fotos e curiosidades); Filipe Moura no Blog de Esquerda (recomendo ainda este texto sobre Hans Bethe)

quarta-feira, março 16, 2005

Obrigado!

Obrigado rapaziada! Foram dois anos e meio sem sermos eliminados, muito mais do que aquilo que imaginávamos nos nossos melhores sonhos. Como muitos, comecei a acreditar que algo de especial estava a acontecer depois daquela recuperação e victória em Atenas contra o Panatinaikos em que Vítor Baía venceu por KO o guarda-redes adversário: Nikopolidis (sim, é esse mesmo, o da final aos papéis...). Foi o jogo chave que nos deu a UEFA. O ano passado, aquela sobremesa semi-fria servida por Costinha ao Manchester United abriu-nos as portas da final e o título Europeu era nosso. Depois veio o título Mundial, muito, muito suado.
Sabíamos que um dia tudo isto iria acabar, foi hoje, mas foi a custo. O nosso valoroso capitão ainda nos fez acreditar que o sonho poderia prosseguir. Adriano, esse magnífico avançado, colocou-nos os pés no chão, definitivamente.
Obrigado!

segunda-feira, março 14, 2005

Klepsýdra de Ouro 2004: "Der Untergang"

A qualidade dos filmes de 2004 a que fui assistindo deixou muito a desejar, até ver "Mar Adentro". Mas foi preciso ver "Der Untergang" (ver trailer) para descobrir um daqueles filmes que me vão ficar para sempre na retina.
"Der Untergang" (aguardemos o título em português) é um filme baseado nos relatos de Traudl Junge, secretária de Adolf Hitler, que descrevem os últimos dias passados no bunker onde estavam refugiados Hitler e os seus colaboradores mais próximos. Estes relatos só foram tornados públicos em 2002, daí a pertinência deste filme que revela novas e interessantes informações sobre os últimos dias de Hitler. O realizador Oliver Hirschbiegel apresenta no seu curriculum a popularíssima série de TV "Rex", mas é estranho, muito estranho ver Bruno Ganz, o maravilhoso anjo Damiel do filme "Asas do Desejo", a interpretar Adolf Hitler. O elenco é muito bom e conta ainda com Thomas Kretschmann, o Nikopol do filme "Imortal".
O que mais me impressionou neste magnífico documento da II Guerra Mundial foi a estoicidade ideológica e comportamental dos últimos refugiados no bunker de Hitler. A frieza de Goebbels vai para além da compreensão do comum mortal. As ideias expostas por Goebbels parecem ficção, mas não são, são baseadas nos relatos de quem lá esteve e o ouviu. De Hitler já sabíamos que era um monstro, mas é sempre diferente saber como se comportou um monstro até à hora final e é desconcertante perceber que Goebbels ainda superava Hitler no fanatismo pela causa Nazi. A mulher de Goebbels considerada por Hitler, "a melhor de todas mães alemãs", a certa altura afirma que não consegue imaginar os seus cinco filhos a viverem num mundo sem Nacional-Socialismo. Ela própria os mata um por um, fazendo-os ingerir comprimidos de cianeto. Tal como os generais, os graduados das SS, o casal Hitler e Braun todos se suicidaram metodicamente, com uma disciplina mórbida e doentia, mas o suicídio do casal Goebbels foi o expoente máximo do fanatismo, um suicídio fetichista e implacável.
A importância deste filme é a de nos relembrar que fanatismos e fundamentalismos extremos que grassam agora noutros quadrantes do nosso planeta já estiveram bem enraizados na Europa e não são exclusivo dos lugares onde há miséria e analfabetismo. A II Guerra Mundial não foi uma guerra convencional de puro confronto militar, foi muito mais do que isso, é o que nos diz "Der Untergang".

sexta-feira, março 11, 2005

Problemas insolúveis de geometria

O eixo Paris-Berlim-Madrid (ver última linha) é que nos propõe Teresa de Sousa no seu artigo do Público desta semana. O Luís Januário propõe um Broche a Bush como elemento descodificador deste eixo enigmático. Eu por mim estou aqui há não sei quanto tempo a tentar desenhar um eixo unindo os pontos pela ordem proposta por Teresa de Sousa. Primeiro uno Paris a Berlim, tudo bem, não há nada de estranho. Mas quando uno Berlim a Madrid lá se vai a porra do eixo! Fico assim com dois segmentos de recta mesmo a pedirem um terceiro para formar um triângulo. Depois, se uno Berlim a Madrid pelo o outro lado planeta passo com o traço por cima de Washington, o que dá logo cabo da teoria toda da Teresa. Isto já para não referir que o traço que fica em forma de espiral entre Berlim, Washington e Madrid, com um apêndice entre Berlim e Paris. Até faz lembrar o "eixo" da era Aznar...

Falar claro: Terroristas, Resistentes e o 11 de Março

Li o parágrafo "The battle for clarity of language" publicado no Aviz retirado do texto "The arab street" de Christopher Hitchens. Apesar deste texto globalmente fazer uma crítica oportuna à intoxicação da população árabe pela propaganda islamista (o movimento político-religioso), julgo que o parágrafo em causa não ajuda muito a clarificar a linguagem.

Sabemos que no Iraque há terroristas, os que fazem atentados suicidas, os que colocam bombas no meio da população civil, os que atacam os membros de outros grupos religiosos, aliás desde a intervenção americana o Iraque passou a ser um local de peregrinação de qualquer grupo islâmico radical que se preze. Tal como diz Christopher Hitchens não podemos chamar resistentes a esses terroristas. O problema é que pela mesma "clarity of language" não podemos chamar terroristas a todos os Iraquianos que se opõem à ocupação americana. Existem Iraquianos que são de facto resistentes, uns fazem uso da violência outros não. Uns votaram e outros não. As eleições que houve no Iraque não foram um referendo sobre a presença americana. Depois ainda há os "patos bravos", aqueles que em nome da sobrevivência raptam e vendem a quem der mais. Se queremos de facto ser rigorosos em relação ao Iraque devemos fazer um mapa das resistências e dos terrorismos no Iraque, assim podemos ter uma base sólida para discutir de uma forma séria a questão iraquiana, falando sempre claro.

Quando Christopher Hitchens se coloca do lado dos "opponents of terror" e refere que os que desculpam o terrorismo islâmico são os mesmo que falam na "Arab street", parece-me que está a entrar pela mesma simplificação de linguagem que contribuiu para que o 11 de Março acontecesse há um ano em Espanha.

A banalização da palavra terrorismo e o 11 de Março
Depois do 11 de Setembro Aznar juntou-se a todos aqueles que à pala do ataque ao WTC passaram a meter no mesmo saco das palavras terrorismo e terror, grupos com objectivos e métodos completamente distintos. Aznar meteu a ETA no mesmo saco que a Al-Qaeda, Putin e Yang Zhe Min aproveitaram para fazer o mesmo a todos os grupos separatistas dos respectivos países, Sharon fez o mesmo ao movimento de Arafat, até Fidel Castro mandou fuzilar com o rótulo de terroristas alguns desgraçados que sequestraram um barco para fugir do país. Tudo o que mexia passou a ser terrorista! E não era um terrorista qualquer era o "terror", como o "terror" da Al-Qaeda. Aznar sentiu na altura que tinha encontrado a Via Verde para liquidar a ETA, mas ao juntar-se à aventura iraquiana acabou por conhecer da pior maneira a diferença entre o tradicional terrorismo da ETA e o terrorismo implacável da Al-Qaeda. Foi um banho de sangue ignóbil que poderia não ter acontecido se Aznar ponderasse algo muito simples: para terrorismos diferentes, soluções diferentes. A probabilidade de resolver o problema do terrorismo da ETA é muito maior através de uma solução política que através de uma solução armada. Já em relação à Al-Qaeda a situação é a inversa. Aznar erra a toda a linha ao usar a força para combater a ETA, ilegalizando partidos e fechando assim a porta a algumas soluções políticas, e ao ir atrás da Al-Qaeda para o Iraque, quando na altura a Al-Qaeda estava tranquilamente instalada no Paquistão, na Arábia Saudita, no Dubai, no Qatar, no Sudão e nalguns subúrbios da Europa e dos EUA. Foi tudo ao contrário e quem pagou foram os cidadãos que tiveram o azar de estar no sítio errado na hora errada há um ano atrás em Madrid.

quinta-feira, março 10, 2005

Notas da China: Recibo-Raspadinha



Este é um recibo de um restaurante chinês que premeia o cliente com a quantia de 50 Yuans, mais ou menos 5 €, o que para o nível de vida dos chineses ainda é dinheiro. No canto superior direito aquele quadradinho cinzento escuro é a raspadinha onde sai o prémio. O felizardo foi um dos nossos colaboradores chineses.
Este esquema do recibo-raspadinha serve para incitar o cliente de um serviço a pedir o recibo, na perspectiva de ganhar um prémio na raspadinha. É um método de combate à evasão fiscal. Já conhecia algumas ideias de implementação de lotarias nacionais em que o número do jogador seria o número da sua declaração de IRS ou do IRC, mas confesso que fiquei surpreendido ao encontrar este método na China profunda, nos confins da província do Yunan.
Na China a economia paralela é monstruosa, principalmente fora das grandes cidades ocidentalizadas (Hong Kong, Pequim ou Xangai). Quando se anda por aquelas paragens até dá a sensação que os chineses têm um cromossoma negociador, tudo se vende, tudo se compra. Apesar de medidas como esta julgo que será muito difícil nas próximas duas décadas a China poder controlar mais do que 50% das transacções passíveis de pagar impostos. Só para terem uma ideia, em Janeiro havia DVD's à venda por todo lado de filmes novos (Mar Adentro, Alexandre o Grande, Supersize Me, etc.) a quantias da ordem dos 50, 60 cêntimos...

Mais notas da China: I'm lovin'it / Figo, Yao Ming e o fim da monarquia / Lijiang

quarta-feira, março 09, 2005

Hélas! Falhei o aniversário do Blog sobre Kleist!!

Desde puto que gosto de festas de aniversário, de me alambazar à fartazana com bolos, só os que passavam uma selecção rigorosa, nada de mousses de pacote ou bolos de bolacha feitos com margarina, despejava garrafas de Fri-sumo e de Sumol só para sacar as colecções do homem-aranha e do Tintin que saíam nas respectivas caricas e as fatias de pão com Tulicreme era vê-las a desaparecer.
Mas perdi o aniversário do
Um blog sobre Kleist. É pena deve ter sido uma daquelas festas sofisticadas, champanhe e cerejas, moelleux au chocolat servidos entre duas partidas de xadrez, concursos de arremesso das obras completas de Kleist e de anúncios inventados e galões tirados por um profissional de confeitaria da alta Lisboeta, tudo isto ao som de Smiths, claro.

sexta-feira, março 04, 2005

Mar Adentro

O que é que acontece quando se juntam no mesmo filme um dos vossos realizadores preferidos (Alejandro Amenábar) com um dos vossos actores preferidos (Javier Bardem)? No meu caso é apreensão. As expectativas são demasiado altas e a probabilidade de desilusão é alta. Não foi o caso de "Mar Adentro". Sobre Amenábar tinha escrito aqui na Klepsýdra em Maio do ano passado "Alejandro Amenábar para já está ali no fundo da minha lista, mas considero-o como uma jovem esperança, bastante promissora. Fez poucos filmes, mas de grande profundidade (...) Espero que continue na senda da qualidade". Corresponde. Sobre Bardem tinha escrito em Abril que "é um especialista em personagens de carácter bem vincado". É o caso de Rámon Sanpedro de Mar Adentro. Considero o filme muito bom, muito mais do que um filme sobre a eutanásia, é um filme também sobre as encruzilhadas da vida, as oportunidades que agarramos e as que deixamos partir.
Apesar de tudo, entre todos os filmes de Amenábar continuo a preferir "Abre los ojos", gosto daquela capacidade de fazer um filme excelente com meios da loja dos 300. Além do mais não perdoo duas coisas a "Mar Adentro". Em primeiro lugar, achei escusado a activista do direito à eutanásia ter um filho no momento em que Rámon morre. Parece-me uma resposta directa aos argumentos pró-vida de que quem defende a eutanásia é pela morte. É escusado descer tão baixo. A segunda cena que não apreciei foi a cena final, em que me pareceu haver ali um moralismo activista velado. Talvez me engane, mas o facto de Julia estar a caminhar para a morte sem a memória da existência de Rámon pareceu-me fazer apelo à justeza da decisão que Julia tinha entretanto abandonado de também cometer eutanásia. Cheirou-me a moralismo activista, mas não tenho a certeza.

Quanto à história de Rámon Sanpedro tal como é descrita no filme, apresenta-nos um homem cuja dor não é física. Rámon construiu uma imagem dele próprio que está muito perto da fronteira entre o que ele era e o que desejava ser. Rámon estava lá em cima, na torre de um palácio muito alto. O acidente destruiu quase tudo, destruiu até a modesta máxima: "si quieres viajar sin diñero: marinero"! Talvez seja injusto, mas parece-me que depois do acidente Rámon manteve a mesma relação com a sociedade, manteve as mesmas referências formatavam a sua vida antes do acidente. Rámon não tentou criar uma nova ordem na sua vida desde que ficou tetraplégico. Em certo sentido Rámon parece conformista com a forma como a sociedade interage com os deficientes físicos. Um psicólogo poderia dizer melhor do que eu se o caso de Rámon teria solução, a mim parece-me que sim, mas não tenho a certeza.

quinta-feira, março 03, 2005

Cent jours sans convaincre

Cent jours sans convaincre foi a frase mais utilizada ontem para caracterizar os primeiros 100 dias de Durão Barroso à frente da Comissão. Pois é... Quando se vai para o cargo de Presidente da Comissão sem ideias, sem motivação e sem o mínimo de Europeísmo é no que da'. Não estamos propriamente a presidir a câmara da Figueira da Foz ou a junta de freguesia da Merdaleja, em Bruxelas a mediocridade não passa em claro.

quarta-feira, março 02, 2005

O Carteiro entregou a sua ultima encomenda

Não podia deixar passar o fim da carreira de Karl Malone (foto sítio NBA), o carteiro para os amigos, sem lhe dedicar aqui duas linhas.
Malone era o carteiro porque fizesse chuva ou fizesse sol, fossem eles muitos ou fossem eles poucos, com os seus 2,06 m e o seu cabedal de armário era sempre tão fácil levar a bola ao cesto, como quem entrega uma encomenda ao destinatário, não era preciso grande espalhafato, o afundanço era executado com classe e profissionalismo. Ainda tive o privilégio de o ver em acção num jogo contra os Wizzards de Michael Jordan no MCI Center, dois deuses do basquete face a face. Andaram picados como se convinha, cotoveladas, caretas e muita provocação, foi um regalo. Malone abandona a carreira com 41 anos!

hjhkj

terça-feira, março 01, 2005

Bush e a Europa, dois ocidentes bem distintos

Este artigo da Joana Amaral Dias no Diário de Noticias faz uma síntese bastante interessante do bizarro périplo de Bush na Europa. Mas chamo especial atenção para a nota final da Joana, intitulada "Os loucos exemplares". Ali, a Joana desmonta bem o apelo de Bush à Europa para um hipotético património civilizacional comum. Percebemos bem que essa coisa a que chamamos "Ocidente" não passa de uma fantasia para políticos distraídos. Como refere e bem "basta ver como ambas as partes lidam com a religião, homossexualidade, pena de morte, direito internacional, ambiente, interrupção voluntária da gravidez e armas de fogo".

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

Barroso & Bush sobre Quioto

Depois da visita de Bush, Durão Barroso foi entrevistado pelo "Grand jury Bel-RTL-Le Soir", sobre o protocolo de Quioto ouvimos o seguinte:

Entrevistador: "N'a-t-on pas battu en retraite sur Kyoto pour le symbole de la réconciliation?"

Durão Barroso: "Il est préférable de souligner les points d'accord que les points de désaccord. C'est la bonne attitude. Sur le changement climatique, les Américains n'acceptent toujours pas Kyoto, mais ils font de progrès. Ils reconnaissent qu'il y a un problème. Ils veulent investir dans les nouvelles technologies. Nous pouvons travailler avec eux, sans renoncer à Kyoto."

Segundo Barroso, o encontro com Bush centrou-se nos assuntos mais importantes: o Médio Oriente e o Iraque. Por este andar, quando resolvermos tudo no Medio Oriente e no Iraque, provavelmente teremos o clima do planeta completamente desregulado e um problema da falta de agua potavel de dimensões verdadeiramente apocalipticas. E' que vai ser um descalabro tão grande que nem todos os Ben Ladens deste planeta conseguiriam provocar uma catastrofe tamanha. De Bush ja não se pode esperar nada, mas de Durão Barroso tanta passividade perante assuntos tão graves, revolta e revolta muito. Eu estou para ver para onde vai este planeta, com tantos irresponsaveis a mandar.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Mar gelado em Marte

A sonda europeia Mars Express descobriu muito provavelmente um mar de gelo coberto por uma camada de poeira (imagem sitio ESA). A certeza sobre esta descoberta ainda ainda nao e' absoluta. Em Marte o gelo e' instavel por causa da baixa pressao atmosferica, sublimando assim que fica em contacto com o ar marciano. Por isso permanece a duvida se a area que mostram as imagens ainda conserva a massa gelada desse mar por baixo dessa camada de poeira e de terra ou se o mar ja evaporou. Hoje a ESA organizara uma comunicacao sobre os resultados da Mars Express onde esta questao podera ser clarificada.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

Para onde vai o Bloco?

Alemanha?
Do ponto de vista da sua evolução, dos seus métodos e até da sua ideologia, vejo bem o Bloco como uma formação política muito próxima daquilo que são os Verdes alemães. Até acho que no Parlamento Europeu o Bloco deveria estar no grupo dos Verdes e não no grupo das Esquerdas Unidas que têm para lá muita intolerância à mistura. Se essa for a evolução do Bloco, na mesma direcção dos Verdes alemães, o Bloco pode deixar de ser um partido apenas interessante, para ser um partido interessante e interventivo, capaz de participar de uma forma construtiva na sociedade. Poderá, quando tiver uma representatividade acima dos 10% a 12% participar em coligações governamentais, ocupando ministérios determinados em que o seu contributo poderá marcar a diferença em relação às esquerdas tradicionais, nomeadamente ministérios como os do ambiente, da ciência, dos negócios estrangeiros ou do trabalho e da segurança social. Se esse for o caminho do Bloco, então estarão criadas todas as condições para que se concretizem contributos valiosos e necessários para a política das próximas décadas oriundos de uma esquerda moderna filha do Maio de 68 (pós-moderna), que aprendeu com os erros da velha esquerda, que abandonou o dogmatismo, que se questiona em contínuo e que tem poucas certezas, que é exigente, que é multiculturalista, que é europeísta como poderia ser africanista, que acredita na federação dos povos, que acredita na participação democrática a todos os níveis (bairros, freguesias, regiões, etc.), que é eco-responsável e simultaneamente tecnológica, que é integradora das diferenças e que combate todas as formas de exclusão, que procura a dose equilibrada de feminilidade na política depois de 10 mil anos de governos e de civilização com poucas mulheres, tudo isto sem baixar a fasquia da qualidade de vida dos cidadãos e elevando-a sempre que possível.

Marretas?
Se é para enveredar pelo caminho do Partido dos Dois Velhos Marretas, que só se sente à vontade na oposição, não contem comigo. Na minha opinião isso não é fazer política séria e pior que tudo é dar espaço e futuro à concretização de ideias pouco brilhantes que graçam nos tradicionais governos socialistas e conservadores.

Campo Pequeno?
Felizmente, o crescimento do Bloco tem acontecido quase exclusivamente à custa de pessoas que há muito rejeitaram ou fizeram o luto de ideologias como as que defendeu há 30 anos José Manuel Fernandes, o director do Público, nomeadamente o estalinismo e o maoismo - ideologias essas que só não conseguiram atingir as performances assassinas de Adolf Hitler porque as câmaras de gás já tinham direitos de autor. Para além do mais, grande parte do crescimento actual do BE deve-se a pessoas que nunca tiveram sequer qualquer passado de simpatia política por tais ideologias. Mas, segundo José Manuel Fernandes a direcção do Bloco seria a do Campo Pequeno e disse que até os conhecia, os tais bloquistas que gostariam de fechar uns quantos no Campo Pequeno. Realmente, não admira que José Manuel Fernandes os conheça, afinal em 30 anos conservam-se muitas das boas companhias dos velhos tempos. Só que o Bloco não é isso, nem nada que se pareça. Tal como o PP não é o partido de Adolfo Basílio Horta, nem o PSD é o partido do Marcelo Rebelo de Sousa que afirmou que "o 25 de Abril foi um golpe ilegal, sem legitimidade democrática", nem o PS é o do Mário Soares militante comunista antes da invasão da Hungria. É que se enveredamos por este tipo de argumentação, facilmente estamos a apontar a direcção de todo o espectro partidário para sítios que vão desde o Tarrafal até à Sibéria. É a análise política trauliteira, que tem pouco interesse e alcance, morre depois da traulitada. Morre assim também a teoria do Campo Pequeno...

domingo, fevereiro 20, 2005

O Compromisso Portugal II

"Trabalho por conta d`outrém há mais de 25 anos. Sou jornalista. Nunca, até hoje, algum patrão me deu a oportunidade para melhorar a minha qualificação profissional. O que faço, faço por minha conta e risco em horário pós-laboral. E que sabem eles da minha qualificação, se o que lhes interessa é apenas quantificar o investimento e o lucro? Mesmo em empresas de comunicação social só se ouve falar em produtividade. Ninguém quer saber de qualidade. Em tempos, na SIC, o patrão mandou medir o tempo que os jornalistas levavam para montar uma reportagem... os auditores eram italianos e nem percebiam uma palavra da notícia. Hoje, os jornalistas são bons enquanto forem baratos. Depois, substituem-se. Quanto mais permissivo for o código de trabalho, melhor."

Carlos Narciso

O Compromisso Portugal I

sábado, fevereiro 19, 2005

Sábado em Coimbra XXIII: mastigar o Mondego

O Mondego pela manhã parece de prata,
de pequeno habituei-me a vê-lo na Foz, na Figueira.
Mas em Coimbra o Mondego é mais frio,
possui uma cor de prata mais austera,
o rio parece duro,
dá a sensação que se pode mastigar.

Sábado em Coimbra XXII

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Um hino às 35 horas


Os bons resultados económicos da Airbus e a liderança económica e tecnológica do mercado mundial conseguida nos últimos dois anos - apesar do programa de espionagem americano ECHELON ter servido para lesar gravemente a Airbus em favor da Boeing em vários negócios bilionários - são bem demonstrativos do potencial de sistemas em que se priviligia um trabalho com boas condições, bem remunerado, com boa cobertura social e simultaneamente compatível com a qualidade de vida do trabalhador, tudo isto dentro de um consórcio em que empresas privadas e estado trabalham conjuntamente numa rede em que coexistem várias línguas a até dois sistemas monetários diferentes (o euro e a libra). Este é o perfil típico da construção europeia dos nossos tempos e que se pretende expandir e multiplicar. Estamos bem longe do "todos contra todos" de Hobbes. E ainda mais longe do provincianismo de algumas multinacionais que funcionam em pirâmide autistas às diferenças culturais dos países onde se instalam.

Na minha opinião, o pormenor mais delicioso que a construção do Airbus 380 trouxe para a rivalidade com a Boieng é que grande parte da sua construção foi feita por trabalhadores franceses em regime de 35 horas semanais de trabalho. Só por si este pormenor já é aterrador para os gestores da concorrente Boieng, cujos mitos sobre o trabalho ficam à beira da implosão. O pior é que nos últimos anos, vários países europeus têm ultrapassado a produtividade dos EUA e entre esses países temos a França. Por exemplo em 2002, em pleno regime de 35 horas, a França teve uma produtividade de 41.85$/hora e os EUA de 38,83$/hora. Estes resultados desafiam toda a lógica da doutrina dogmática do neo-liberalismo (refiro-me a um liberalismo fundamentalista na componente económica que combina um conservadorismo em todos os outros aspectos da vida). É neste aspecto que o Airbus 380 toma uma dimensão simbólica que vai muito para além do facto de ser um avião, é também o símbolo de que algo de novo está a nascer na Europa. Lá iremos na análise do livro "European Dream" de Jeremy Rifkin, quando tiver tempo para o acabar de ler.

35 horas em Portugal?
Para já sou contra. Antes é necessário resolver graves problemas organizativos e burocráticos no nosso sector público e privado, introduzir novas tecnologias aliadas a boas metodologias de trabalho, só depois estaremos aptos a baixar para as 39, depois 37, 35...

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Os sons de Titã

Os sons gravados durante a descida da sonda Huygens estão disponíveis aqui neste sítio da ESA. Através destes sons é possível ter uma ideia sobre o comportamento da sonda durante a descida até à superfície, nomeadamente os modos de vibração e de rotação da sonda. Estes dados de origem sonora combinados com os dados recolhidos pelos outros instrumentos da sonda permitem conhecer melhor a densidade da atmosfera de Titã.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

O Compromisso Portugal...

Eu estranho um grupo de empresários, como o do Compromisso Portugal, que se apresenta como fresco, dinâmico e com ideias novas para contribuir para o debate político, e depois a cada oportunidade propõe como medidas principais:

- A diminuição de impostos
- A flexibilização dos contratos de trabalho
- A redução da cobertura social
- A moderação salarial
- O aumento das propinas nas universidades

Eu julgava que um grupo de empresários estaria mais preocupado com:

- O investimento (privado ou público) na investigação em ciência fundamental e em novas tecnologias
- Estreitar a cooperação entre empresas e universidades
- A diminuição da burocracia
- Uma aposta acima da média europeia no investimento na educação e na investigação para recuperarmos o nosso imenso atraso
- A formação dos nossos empresários, dado que os empresários nacionais são os que apresentam as qualificações mais baixas da Europa, bem longe dos países com valores mais próximos
- O melhoramento da rede de transportes e telecomunicações
- A regulação do sector da energia, para acabar com situações de cartel e monopólio, permitindo a baixa dos preços

Mas não, disto ouve-se muito pouco. Tudo tresanda a ideologia no discurso do Compromisso Portugal. Aquele verniz de independência partidária estala ao primeiro contacto. Percebe-se que a preocupação genuína não é com o país, não é um compromisso com Portugal, é mais a preocupação de que os empresários se vão safando. Aliás dentro da mesma filosofia da geração de empresários anterior, que se foi sempre safando à custa de mão de obra barata e outras habilidades que não requerem muito esforço.
É por estas e por outras que estamos na cauda.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

10000 dias das Voyager

Talvez ofuscadas pelo sucesso da sonda Huygens, foi esquecida injustamente a data em que as sondas Voyager atingiram 10000 dias de operação, os engenhos construídos pelo homem que mais se afastaram do planeta Terra, cruzando actualmente o limite do Sistema Solar. A Voyger 1 é também o veículo interplanetário construído pelo homem que atingiu maior velocidade ponta: mais de 60000 km/h. Através das câmaras instaladas nas Voyager foram captadas pela primeira vez imagens dos planetas do Sistema Solar exterior: Júpiter, Saturno (Titã também foi fotografada de perto), Urano e Neptuno. As Voyager captaram também fotografias inéditas de grupo do Sistema Solar, com todos os planetas a posarem pela primeira vez para única uma câmara. As Voyager continuam a enviar dados preciosos, magnetómetros e vários tipos de detectores continuam a funcionar, e espera-se que funcionem pelo menos até ao ano 2020.

sábado, fevereiro 12, 2005

Cientista e burocrata

Começo a dar razão ao João Magueijo, um investigador em Portugal a partir de uma certa altura começa a transformar-se num burocrata. São resmas de papel, horas e horas em frente a formulários (e agora é tudo muito mais simples com a internet), escrevo o meu nome dezenas de vezes, o nº de BI, a minha morada, a da instituição e a privada, nº de telefone, fax, email, a cidade, o país, o nº de telemóvel (que raramente ligo). Pergunto-me para quê tanta informação? A maior parte dos casos sabemos que basta o nº de BI para ser identificado e o curriculum para ser avaliado. Mas não, parece vício que herdamos do tempo da catalogação política da PIDE. Só falta a côr das cuecas. Mas essa até seria uma informação que daria com bastante gosto, ao menos quebraria a monotonia cinzentona da burocracia. Venha a porra do cartão do cidadão com uma banda magnética (a única medida anunciada pelo Sócrates que não me faz soltar um bocejo)!
É nestas alturas em que tenho saudades do tempo em que era estudante, quando podia estar livremente até às tantas da manhã a estudar assuntos que me davam gozo, a resolver problemas até o galo cantar, a derreter muita massa cinzenta cheio de satisfação.
Hoje, depois de mais uma candidatura-mais uma viagem a um projecto sinto-me um Joseph K. da ciência, infernizado pela papelada e condenado a não sei muito bem o quê.

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Mundo de Aventuras XXII


(Carnaval de Mainz, Renânia-Palatinado, Alemanha, 2002)

Mundo de Aventuras XXI

Miséria ambiental II

"Cresci por essas bandas, a menos de 10 km da fábrica. Quando era puto, espantava-me sempre com os telhados cinzentos que circundavam a fábrica, e com algumas ruas feitas em cimento, ao invés do alcatrão. Memórias com 20 anos..."

Blitzkrieg (O quarto segredo da Fátima)

Nesse tempo as partículas emitidas pelas chaminés da fábrica polvilhavam Maceira sem qualquer controlo. Há alguns anos foram instalados filtros de manga, que pelo menos impedem a emissão de partículas, sendo emitidos apenas os gases produzidos pelos fornos.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Miséria ambiental

Durante um encontro com trabalhadores da fábrica de cimento de Maceira, perto de Leiria, é com um aperto no coração que oiço as descrições sobre as condições de trabalho na empresa. Para além dos combustíveis convencionais, nos fornos de Maceira queima-se lixo, muito lixo, lixo esse que supostamente deveria ser proveniente de resíduos urbano banais, não deveriam ser queimados ali resíduos tóxicos perigosos. As descrições deixam uma grande dúvida sobre a natureza dos resíduos.
Em Maceira e em pleno sec. XXI, quando os fornos da cimenteira são periodicamente desligados e limpos, o fato que os trabalhadores utilizam para entrar nesses fornos são exactamente os mesmos que os fatos utilizados num dia normal de trabalho. Não há botas, nem roupa, nem equipamento para respiração especial. As queixas de problemas de pele e de respiração após a limpeza dos fornos são frequentes. É o terceiro mundo em plena Europa.

No aterro de Taveiro, perto de Coimbra, existe uma unidade de triagem de lixo para reciclagem. A unidade de reciclagem parece uma casa de um nómada. Vai tudo para o chão, não há separação para contentores estanques, está tudo muito sujo, as trabalhadoras (imigrantes) que separam parte do lixo à mão não têm fatos especiais e duvido muito que tenham tomado as vacinas adequadas àquele tipo de trabalho. Os cães e os gatos andam à vontade lá dentro, sinal de desleixo dos responsáveis. Miguel Almeida, o Rei das nomeações e pau para toda a obra de Santana Lopes, é o administrador desta miséria. É uma empresa à sua imagem.

domingo, fevereiro 06, 2005

Chico Buarque no Tout Le Monde en Parle

Não me canso de escrever isto, o programa "Tout Le Monde en Parle" é provavelmente o melhor talk-show do planeta. Hoje, lá para as 23.45, na TV5 (canal 43), Chico Buarque será entrevistado por Thierry Ardison.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Titã: Água não! Metano!

Na China enquanto seguia o aparecimento das primeiras imagens enviadas pela Huygens (pronuncia-se aijenss, com o som do jota espanhol) com os meus colaboradores, exclamámos "Água!" quase simultaneamente quando vimos esta imagem. E corrigimos logo imediatamente: "Água não! Metano!"


(Foto Huygens, sítio ESA)

Passo a explicar a razão pela qual exclamámos água e depois corrigimos para metano. Inicialmente exclamámos água porque a forma das "pedras" que apareciam na imagem (não são pedras são formações de gelo) fazem lembrar a forma das pedras que encontramos no leito dos rios, com formas arredondadas, sem arestas afiadas. Isso é uma evidência de actividade fluvial, o que nos sugeriu a exclamação primária de "Água!". Mas após um momento de reflexão lembrámo-nos que naquela zona do sistema solar um planeta não pode ter água líquida à superfície, as temperaturas são muito baixas. Os corpos que estão a distâncias do Sol semelhantes à distância entre Saturno e o Sol, têm uma forte probabilidade de possuir metano no estado líquido à superfície. E foi por isso que corrigimos para metano. De facto, apesar de ainda existirem muitos dados por analisar a primeira teoria sobre a morfologia do solo de Titã, é a teoria dos rios de metano.


Estados da água e do metano no sistema solar em função da distância ao Sol
(esquema do livro "Cometa", Carl Sagan, Gradiva)

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Um gráfico espectacular, cheio de rigor...



Este gráfico vem deste blogue. No eixo das ordenadas ficamos sem saber se as unidades correspondem a batatas, peras, eucaliptos, percentagem de votos ou quilos de sabão. Quando olhamos para as abcissas, percebemos logo que o homem é um ás e trata a matemática e a geometria por tu: "há um mês" e "hoje" representados por dois pontos centrados em dois intervalos da mesma dimensão, que se supõe temporal...está bem. A união dos dois pontos por uma recta dão-lhe um toque naif, digna de uma criança da escola primária que acabou de descobrir a magia da representação gráfica. O segmento de recta empoleirado na linha 2 a bater com a cabeçorra na linha 6 demonstram a perícia do autor nas artes do Excel.

Aqui no laboratório já chorámos a rir a olhar para este gráfico, mas infelizmente o caso não é tanto para rir. O que é grave é que o autor, Paulo Portas, é um candidato a primeiro ministro e foi director de uma empresa de sondagens. O gráfico demonstra uma pobreza franciscana no que toca aos seus conhecimentos de matemática e demonstra também que nem sequer sabe trabalhar com um simples programa como é o Excel. E o pior é que este candidato, e o partido deste candidato, são especialistas em passar atestados de incompetência às gerações mais jovens, acusando-os de já não saberem escrever, de já não saberem matemática, etc., fazendo a apologia da autoridade na escola, como ouvimos a semana passada no debate sobre a educação na RTP. Ora, o melhor seria recambiar o candidato Paulo Portas para o liceu repetir as cadeiras de matemática e as de estatística, para junto dos jovens "que não sabem nada". Talvez ele aprendesse alguma coisa com os seus jovens colegas e se habituasse a fazer cadeiras com mais de 10 valores.

Mundo de Aventuras XXI


(Norfolk, Virginia, EUA, Novembro de 2002)

Mundo de Aventuras XX

segunda-feira, janeiro 31, 2005

A má luta contra as propinas

"existe uma minoria silenciosa de estudantes que não se manifesta e que sofre sérias dificuldades económicas na prosecussão dos estudos. Os protestos estudantis são liderados, regra geral, pelos filhos de famílias com mais posses e sem necessidades de apoio."

Three-Of-Five (Borgsphere)

Concordo plenamente com este comentário ao meu texto "O flagelo das propinas nos EUA" publicado no Grande Loja do Queijo Limiano. Apesar de a condição de estudante filho de pais ricos não excluir o mesmo estudante de legitimamente protestar contra situações injustas de que sejam vítimas os seus colegas menos abastados, o que está a acontecer neste momento em Portugal é que os protestos estudantis estão a ser conduzidos por estudantes que não conhecem carências económicas e sociais e cuja natureza dos próprios protestos reflectem isso mesmo, são protestos burgueses e narcisistas, alimentados por puras ambições pessoais. Isso aqui em Coimbra é claro como a água. Aqui em Coimbra a situação é tão triste que muita gente que conhece de perto a realidade do flagelo das propinas se recusa a alinhar com acções vindas de tiranetes que proclamam uma puritanismo de esquerda absolutamente doentio e que de esquerda têm realmente muito pouco. Trata-se de uma ultrapassada esquerda que guardou muito dos tiques do jesuitismo há muito abandonados pela esquerda do pós-modernismo que dobrou o cabo do Maio de 68. É pena, os estudantes mais carenciados mereciam melhor sorte. São necessários dirigentes estudantis que sejam realmente sensíveis aos graves problemas que excluem muitos jovens do meio universitário, independentemente desses dirigentes serem ricos ou pobres.

PS- Em breve escreverei mais umas linhas sobre essa esquerda que eu qualifico como a esquerda-jesuita.

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Notas da China: I'm lovin'it

Mal aterrei no aeroporto de Pequim e saí da manga do avião quem é que me esperava logo ali à saída? Não era uma fotografia do camarada Mao, nem tão pouco de Deng Xiao Ping, o homem do "um país dois sistemas", nem murais a evocar a épica Longa Marcha. Esperava-me sim esta descomunal lata de Coca-cola num painel publicitário. Pensei cá para mim: "estamos conversados". Um país dois sistemas: um sistema por fora (vermelho), outro sistema por dentro (neo-liberal). Tárá-tá-tá-tá, I'm lovin'it!


(Aeroporto de Pequim, Janeiro 2005)

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Prioridade política: combater o absentismo e a aversão à escola

Já posso dizer que conheço um bocadinho a Europa e a grande diferença que noto entre Portugal e os restantes países é o nível educacional: literário e científico. Essa diferença é abissal e é o resultado de termos tido o pior ensino da Europa até meados dos anos 70 (bem pior que a Albânia, que a Grécia ou que a Irlanda). Apenas 21% de portugueses terminaram o ensino secundário. Na Europa, os piores a seguir a nós têm mais de 40% da população com o ensino secundário concluído, mas nos países de leste essas taxas são superiores a 80%. Isto nota-se em todo lado. Nota-se na irracionalidade de grande parte dos nossos empresários que desconfiam das novas tecnologias e que não acreditam na contratação de pessoal qualificado. Nota-se nas universidades onde temos muitos e muitos docentes que ocupam lugares há 20, 30 anos que nunca publicaram um artigo, que nunca confrontaram o seu trabalho com os seus pares internacionais, que passeiam ano após ano a mesma resma de acetatos que despejam aos seus alunos entre dois bocejos, são os mesmos do "dantes é que era bom". Nos serviços mais básicos encontramos pessoal ainda menos qualificado, como é natural. Mas o que não é tão natural é que nesses serviços (restaurantes, cabeleireiros, lojas de electrodomésticos, livrarias, supermercados, etc.) encontramos recorrentemente empregados e gerentes que muito pouco sabem da história, das características ou do processo de produção do produto que nos estão a vender. Por exemplo, em serviços tão simples como os restaurantes esses profissionais em vez de apresentarem bons conhecimentos de gastronomia brindam-nos com bons conhecimentos de futebol ou do big brother do momento. É sempre isto em todo lado, a conversa do portuga pouco passa do futebol, o "meu Benfica", como oiço tantas vezes. Agora saber quantos Watt consome o frigorífico, ou de que casta é o vinho tinto, ou se o shampoo pode ser usado todos os dias, ou se determinado livro já foi traduzido, isso...
As consequências desta catástrofe é que trabalhamos mais do que os outros, mas trabalhamos pior. Somos desorganizadíssimos o que se reflecte em atrasos e lentidão que custam muito dinheiro. E para completar o ramalhete, sublimamos a nossa mediocridade através da arrogância. Depois fazemos tudo ao contrário.

Os 45% de alunos que abandonam o ensino secundário vão contribuir para este pelotão de mediocridade. Esse abandono acontece em muitos meios do nosso país onde estudar ainda é visto como um acto de malandrice, onde a escola ainda é vista de soslaio, onde a referência para os jovens é o Tó Zé da 125 que saca uns cavalos e que trabalha nas obras há 10 anos. Noutros meios, muito típicos do Cavaquistão, a Universidade e os livros são vistos como coisa de comunas. "A minha filha na Universidade misturada com os comunas? Nem pó!". O esforço para impedir que esses 45% de alunos abandonem a escola secundária tem que ser um desígnio nacional, e deveremos fazê-lo sem o miserável esquema das passagens administrativas até ao 9º ano implementadas por Couto dos Santos.

Os nossos políticos que ficaram tão excitados com o Iraque ao ponto de defenderem um esforço quase suicida do ponto de vista financeiro na participação na loucura empreendida pelos EUA, deveriam pensar que o nosso Iraque, a nossa Al-Qaeda, é o absentismo e a aversão à escola. Portugal deveria fazer um esforço gigantesco, diria mesmo megalómano, para recuperarmos num período de 5 a 10 anos o nosso atraso colossal na educação. Deveria ser um de esforço equivalente a realizar um grande evento, como uns Jogos Olímpicos ou um Campeonato do Mundo.
Tudo o resto na política portuguesa é secundário.

terça-feira, janeiro 25, 2005

O flagelo das propinas nos EUA

O que está actualmente a acontecer no ensino universitário americano dá toda a razão a todos aqueles que se insurgiram contra a aplicação indiscriminada de propinas no sistema universitário, especialmente num país com graves carências educacionais como é caso português. Para que se possa ter uma ideia do verdadeiro flagelo que está a acontecer no ensino universitário americano, vamos aos números:

- Nos últimos 10 anos as despesas de inscrição nos estabelecimentos públicos universitários subiram 47%, nos privados subiram 42%.

- 600 mil estudantes por ano abandonam os estudos antes de obter o diploma final por causa de dívidas incomportáveis contraídas para pagar os estudos.

- A dívida média de um aluno que acaba o curso de direito: 80 000$ (36 000$/ano salário de um emprego de início de carreira)

-17,9 milhões de americanos com idades compreendidas entre os 18 e os 34 anos não possuem qualquer cobertura médica de base.

Resulta deste tipo de políticas um sistema de ensino universitário orientado para alunos de famílias ricas e para uma reduzida minoria de alunos que conseguem obter bolsas por mérito estudantil atribuídas por algumas empresas privadas e pelos ministérios da educação e da ciência de países europeus e asiáticos. Não estranha pois que os EUA tenham o Presidente que têm, um indivíduo que era um exemplo de insucesso escolar transformado num licenciado em Yale. Um medíocre rico pode ser o que quiser, um bom aluno pobre arrisca-se a ter que abdicar dos mais altos graus do ensino.
Quem defende o regime de propinas (há até quem diga que são baratas em Portugal) deveria reflectir seriamente sobre este exemplo. Porque este é um exemplo claro como a água. Adoptou-se um determinado tipo de política e os resultados são o que são.
É certo que os EUA continuam a ter as melhores universidades do mundo, mas é do conhecimento geral que a Europa ultrapassou vertiginosamente a produção científica dos EUA há cerca de dois anos e estudos recentes indicam que as empresas de países europeus como a Alemanha e a França - que não adoptaram esta política de propinas - são neste momento em média mais produtivas que as empresas americanas.

Subtil é o senhor

"Subtil é o senhor" de Abraham Pais é provavelmente a melhor biografia da vida e obra de Albert Einstein. Abraham Pais, um matemático e físico teórico, trabalhou com grandes nomes da física como Oppenheimer, Dirac, Feynman e o próprio Einstein. Com Einstein teve uma relação muito próxima, o que faz desta biografia um documento bastante completo não só sobre o trabalho científico de Einstein, mas também sobre importantes aspectos da sua vida privada.
Sendo uma biografia muito completa, é uma obra que requer vários níveis de leitura consoante a formação do leitor. Existem extensas páginas de equações onde Pais descreve com algum detalhe o trabalho de Einstein. Para os leitores mais leigos estas passagens são impossíveis de acompanhar. Para uma leitura integral do texto é necessário que o leitor tenha uma boa formação em física, nomeadamente em física estatística. Na altura em que comecei a ler este livro tinha acabado de fazer o exame de Física Estatística pelo que me foi mais fácil acompanhar muitas das passagens mais técnicas. Mesmo assim, algumas vezes tive que interromper a leitura para ir espreitar os meus manuais de física estatística. No entanto os leitores mais leigos podem desfrutar do prazer proporcionado pela leitura de grande parte desta biografia, sendo necessário apenas saltar as páginas que nos mergulham num mar intrincado de equações.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

A angústia do Taikonauta antes do lançamento

Este livro deveria ser traduzido para português, sobretudo porque gostaria muito de ser capaz de o ler. Apesar de tudo, contêm bastantes figuras, esquemas técnicos e fotografias que o tornam parcialmente compreensível para quem não lê chinês. Foi-me oferecido pelo meu querido amigo Prof. Pan, que é um dos autores. O Prof. Pan foi um dos principais responsáveis pela logística da missão que enviou com sucesso o primeiro taikonauta chinês (cosmonauta para os russos, astronauta para os americanos e os europeus) para o espaço e foi também uma das muitas vítimas da revolução cultural, altura em que as universidades foram encerradas e os professores foram enviados em massa para o campo trabalhar.
Este livro conta a história de todo projecto que levou o primeiro chinês ao espaço: os aspectos físicos e mecânicos do voo, o desenho e desenvolvimento dos vários componentes, o processo de selecção dos taikonautas, a fase de montagem do foguetão na plataforma de lançamento e finalmente o voo de Yang Liwei, o felizardo taikonauta. O livro foi lançado no dia 17 de Outubro de 2003, o dia seguinte à chegada da Shenzhou 5 à Terra em segurança. Yang Liwei só foi escolhido 16 horas antes do voo entre um grupo de três taikonautas, por isso a capa do livro esteve até ao último momento à espera da escolha definitiva. Este último processo de selecção a tão pouco tempo do lançamento, teve como objectivo escolher o taikonauta que melhor descansou e que possuía a melhor condição física após a última noite de sono antes do lançamento. Para os outros taikonautas o desgosto deve ter sido grande, estar ali tão perto do foguetão e não voar. Em princípio serão escolhidos para as próximas missões.

domingo, janeiro 23, 2005

Notas da China: Figo, Yao Ming e o fim da monarquia

Há 8 anos, a primeira vez que fui à China, para explicar o país de onde vinha, dizia que era do país de Macau - os Chineses têm alguma dificuldade em identificar os países mais pequenos da Europa. Mas desta vez, quando dizia que era de Portugal, os Chineses exclamavam logo "Figuuu! Figu!" e gesticulavam com a perna o movimento de um remate.
O Figo dos Chineses é Yao Ming, o gigante dos Houston Rockets que joga na NBA. Como tenho uma estatura elevada em comparação com o chinês médio, alguns rapazitos metiam-se comigo na rua e chamavam-me Yao Ming, apesar do Yao Ming só ter mais 35 cm que eu...
O Figo e o Yao Ming são os verdadeiros representantes populares do nosso tempo, aqueles com quem o cidadão mais básico se identifica, a quem recorre para ilustrar a sua nacionalidade com orgulho. Esta mudança que surgiu com o poder crescente dos meios de comunicação, especialmente da televisão, tornou obsoleta a principal função da instituição monárquica. Esta perdeu o exclusivo de representante da nação e na maior parte dos casos só consegue ter esse papel em cerimónias estritamente oficiais. Quem é que conhece o Rei da Bélgica ou a família real da Suécia? Com quem é que se identificam mais os britânicos, com Beckham, com Stephen Hawking, com os Beatles ou com a Rainha?
Para muitos Chineses, Yao Ming é agora o novo Imperador que tomou o lugar deixado vago por Pu Yi, o último Imperador.

sábado, janeiro 22, 2005

Sábado em Coimbra XXII: o Euro não engana

Quando frequentamos locais mais turísticos ou aeroportos, o nosso porta-moedas corresponde, revelando-nos um padrão de euros de vários países da Europa. Hoje, quando fui ao mercado levava uma variedade de euros portugueses, espanhóis, franceses e alemães. Depois das compras, ao sair reparei que todos os euros que tinha no porta-moedas eram portugueses, foi uma limpeza! De facto, nas aldeias dos arredores de Coimbra não há turistas...

Sábado em Coimbra XXI

sexta-feira, janeiro 21, 2005

China: armas, direitos humanos e liberalismo selvagem

Este texto da Ana Gomes sobre a venda de armas à China e os direitos humanos é muito certeiro, tira-me as palavras dos dedos. Será vergonhoso para a Europa o levantamento do embargo de armas à China. Será tão grave como a venda de material militar à Arábia Saudita que tanto aqui tenho criticado.

O problema da China não é apenas os direitos humanos
O problema da China é também o problema da aplicação de metodologias neo-liberais selvagens no mundo do trabalho. Neste momento empresas chinesas e estrangeiras implantadas na China com margens de lucro bastante generosas prosperam à custa da exploração do trabalho de milhões de chineses oriundos do meio rural. Estes chineses estão dispostos a trabalhar 16 horas por dia por salários inferiores a 5 contos/mês, obrigados a viver em caves e construções improvisadas existentes dentro dos complexos fabris, em camaratas sem o mínimo de condições onde convivem 40 ou mais pessoas sem o mínimo de intimidade, higiene e segurança, muitas delas acompanhadas de crianças. Na China não há sindicatos que lhes valham. É o liberalismo económico sem regras, Fukuyama em prática.
Este é também o sonho de um grupelho de empresários portugueses que anda para aí a ver se aumenta o horário de trabalho para umas 10 horas por dia que é para não terem muito trabalho com coisas chatas como: modernizar as empresas, cooperar com laboratórios e universidades, contratar pessoal qualificado, melhorar a organização interna e externa das empresas. É mais fácil explorar o mexilhão.

Notas da China: Lijiang

Depois da minha viagem à China, a minha tabela de cidades com canais teve uma nova entrada directamente para o segundo lugar. É Lijiang, esse pequeno e delicioso labirinto de ruelas e canais, capital da etnia Nachi, que combina ambientes confucianos e budistas da grande China com um aroma muito forte do Tibete, mesmo ali à porta.

1- Veneza (I)
2- Lijiang (CN) *Nova entrada*
3- Freiburg (D)
4- Amesterdão (NL)
5- Bruges (B)

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Portugal até parecia bonito

Ontem, no meu regresso da China, quando estava já a sobrevoar Portugal, ao olhar pela janela do avião dei por mim a apreciar a paisagem e achar bonitas as aldeias e as casas dispersas pelas colinas e pelos vales. Alguma coisa não estava a bater certo. Quando regresso de outras viagens à Europa central arrepio-me com o desordenamento do nosso território, olho para aquele caos de casas e estradas nos arredores de Lisboa e assusto-me, mas desta vez isso não aconteceu.
Há dois dias estive numa das cidades mais caóticas da China: Kunming. Kunming são três milhões de habitantes distribuídos por prédios de construção em série, sujos, muito sujos, encostados uns aos outros, avenidas grandes sempre congestionadas apesar de haver poucos carros particulares, mas as carroças puxadas por burros e por bicicletas, misturam-se com carrinhas, camionetas, carros dos estado, numa amalgama de veículos que entope todos os cruzamentos, que estão à pinha de bicicletas. Vi casas onde as janelas estavam a um metro de uma faixa de circulação de um viaduto, cinco motas a andar em sentido contrário na auto-estrada, todas as regras de trânsito a serem violadas, uma mãe que atravessa a auto-estrada com um menino às costas, outros jogavam às cartas na faixa de segurança de um viaduto e outros ainda vendiam frutas e legumes. Uma paisagem caótica, enfeitada com publicidade bastante ocidental e kitsch, que cobre fachadas inteiras de prédios com 30 andares.
Foi por isso que Portugal me pareceu bonito...Isto já me passa.

Notas da China: Na rota de Shangri-La

...Às tantas, estava eu a percorrer um daqueles lugares que faziam parte do limbo do meu imaginário, aqueles lugares que não temos a certeza se existem ou não, se existem para lá do acordar de uma noite de sonho, a estrada de Shangri-La.

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Orgulho europeu

Hoje no avião, desde a Mongólia interior, passando pelos Urais, até São Petersburgo não se falava de outra coisa: no A380. Havia um invulgar sentimento de orgulho entre os passageiros europeus que vinham de Pequim, sorrisos invulgares e emoções de cidadãos de um continente por vezes exageradamente contido, austero e avesso a grandes comemorações. "E a Huygens?! A Huygens!" exclamava o alemão que ocupava o lugar ao lado do meu.

Comungo plenamente deste orgulho, não o acho lamechas nem lírico, penso que é deste tipo de realizações que devemos ter orgulho, são fruto de um trabalho arduo, rigoroso de pessoas altamente qualificadas. Além do mais, o A380 é um projecto arriscado, pensado inicialmente para ter sucesso comercial num prazo de cerca de 30 anos, mas que poderá começar já a ter saldo positivo dentro de três anos se tudo correr bem.


(fotografia do sítio da Airbus)

segunda-feira, janeiro 17, 2005

Ecos do oriente

"Caros leitores da Klepsydra,

Devido a problemas...digamos...chamemos-lhe assim, de
ordem "técnico-táctica" é-me impossível aceder a
partir aqui da China aos sites do blogger. Por isso a
Klepsydra tem estado seca, sequinha. Tinha muitas
coisas interessantes para relatar, ficam para quando
voltar a Portugal.
Um obrigado ao Paulo Querido por me ter deixado melgar
as suas caixas de comentários.

A bientot,

Rui"

sábado, janeiro 08, 2005

Sábado em Coimbra XXI: madrugada Marco Polo

A mala está fechada, só falta arrumar esta maquineta na mala de mão.
O autocarro, aquela câmara de tortura para as minhas pernas e pescoço espera-me sadicamente. Apesar de tudo vou. Vou ver Marco Polo lá de cima, da janela do meu Airbus, a cavalgar pela estepe, escoltado pelos homens do Grande Khan. Espera-me o País do Meio, esse país que inventou o papel moeda, 8 anos depois estou curioso para ver como tudo mudou. Lá encontrar-me-ei com Marco Polo. Ele vai-me contar todas as cidades que viu e todos os povos que conheceu pelo caminho.

Sábado em Coimbra XX

quinta-feira, janeiro 06, 2005

1905 o ano milagroso de Einstein

Há 100 anos Einstein escreveu três artigos que deram um contributo importante para abrir novos horizontes no estudo da física: um sobre os quanta de luz, outro sobre o movimento Browniano e outro sobre a relatividade restrita. Este último apesar de ter sido o trabalho mais revolucionário de Einstein, não foi o trabalho pelo qual Albert Einstein viria a ser laureado com o Nobel da Física. Na verdade a teoria da relatividade foi olhada com bastante cepticismo por parte comunidade científica durante bastante tempo. O trabalho que lhe viria a dar o Nobel em 1921 seria a descoberta do efeito fotoeléctrico, apesar de haver uma menção na declaração da academia relativa ao seu contributo para o desenvolvimento da física teórica.

TV Mirones

Por cá (Finlândia) os telejornais demoram os religiosos 15-20 minutos (o desporto vai à parte).. mesmo com os 200 mortos.
Homem das Neves (Sob a Estrela do Norte)

quarta-feira, janeiro 05, 2005

Sobreviventes do muro: Škoda

O construtor de automóveis Škoda (pronuncia-se shkoda e não skoda) é talvez o exemplo mais conhecido entre as empresas do leste da Europa que sobreviveram à entrada na economia de mercado. É certo que a Škoda foi comprada pela VW, mas a Chrysler também foi comprada pela alemã Daimler-Benz e não é por isso que os americanos deixaram de considerar os Chrysler como carros americanos. O mesmo acontece com os checos. A palavra Škoda em checo tem um significado curioso, mais ou menos equivalente às nossas expressões: "é pena" ou "que azar". O francês tem uma palavra mais adequada: "domage". Apesar do nome, quem compra um Škoda está a comprar uma viatura realmente de qualidade, a mesma dos automóveis do grupo VW. Eu tenho um VW Catalão (SEAT) e garanto-vos que aquilo é só meter gasolina e mudar pneus. A vantagem na compra dos SEAT e dos Škoda é que não se paga a marca VW e ficam mais baratos. A Škoda possui também uma divisão industrial de capital checo que produz maquinaria industrial para o sector da energia e dos transportes, construindo nomeadamente locomotivas, carruagens de metro e eléctricos.
Apesar de todas as misérias resultantes do regime comunista que durou até 1989, a Checoslováquia foi sempre um país tecnologicamente bem mais avançado que alguns países ocidentais, como Portugal por exemplo. Em Portugal só em sonhos é que produziríamos a nossa própria marca de automóveis ou os nossos transportes ferroviários.

terça-feira, janeiro 04, 2005

A energia do tsunami

A energia libertada pelo deslocamento das placas continentais que deu origem ao maremoto no Oceano Índico é equivalente à explosão de cerca de 32000 Mt (megatoneladas) de TNT. Só para se ter uma ideia do que significa este valor, a bomba nuclear mais potente, a Tsar Bomba produzida pela URSS, tinha uma potência de 50 Mt. Estamos perante um fenómeno que libertou uma quantidade energia cerca 640 vezes superior ao engenho mais mortífero jamais produzido pelo homem. De um ponto de vista mais doméstico, a energia transmitida ao tsunami corresponde à energia despendida se todos os habitantes da Terra aquecessem 10000 litros de água até ao seu ponto de ebulição.

A energia dos mirones
Cheguei ontem da Eslováquia, onde se vê também a televisão Checa. A Rep. Checa perdeu algumas dezenas de cidadãos no maremoto asiático e tem muitos cidadãos ainda desaparecidos, não são apenas oito como no caso português. Nos telejornais checos das TVs privadas e públicas, o tempo de antena do maremoto é no máximo de 15 minutos. Ontem, ao assistir ao primeiro telejornal português depois do meu regresso contei cerca de 40 minutos de chinfrim, de jornalistas mirones cheios de energia que filmam tudo, até entrevistam as palmeiras! F......!

Ainda sobre a TV Mirones no BdE

domingo, janeiro 02, 2005

Mundo de Aventuras XIX

O Sonho Americano esta esgotado,
chegou ao fim da sua historia,
Fukuyama afinal tinha razao.
O sonho americano precisa de ser reinventado.
Cabe 'as novas geracoes...
Bom 2005!


(Washington DC, EUA, Outubro de 2002)

Mundo de Aventuras XVIII

2005 Ano Internacional da Fisica

Ha cerca de 100 anos Albert Einstein fez as suas primeiras descobertas sobre a teoria da relatividade. O Ano Internacional da Fisica esta ai para comemorar o feito de Einstein e para divulgar a Fisica ao cidadao comum. A Klepsydra tambem vai dar uma ajuda.

Sobreviventes do muro: a coca-cola checa

Durante o tempo da guerra fria a "agua suja do ocidente", vulgo coca-cola, era proibida nos paises de leste. No entanto, existia um refrigerante que lhe servia de substituto no leste, era a Kofola. A Kofola e' um refrigerante checo com um ligeiro sabor a cereja e a caramelo, o que lhe da' um sabor relativamente proximo ao sabor das colas ocidentais. Para quem esta habituado 'as Pepsis e 'as Coca-colas talvez a Kofola nao tenha um sabor tao atractivo, mas a Kofola e' mais barata e possui aromas de algumas ervas que fazem parte da sua formula secreta que lhe dao um sabor alternativo. Por isso sobreviveu com sucesso 'a invasao dos produtos ocidentais ate' aos dias de hoje.