quarta-feira, dezembro 01, 2004

A Figueira e o Monstro

Perante os últimos acontecimentos penso na Figueira, a minha pobre Figueira da Foz. É que Lisboa só teve dois anos de dose santanista e o país apenas quatro meses, mas a Figueira sofreu durante quatro anos o efeito devastador do furacão santanista. Quando Santana concluiu o seu mandato na Figueira fui uma das poucas vozes que tentou alertar para o descalabro que estava a acontecer na Figueira. Cheguei ao ponto de telefonar para o Fórum da TSF na sexta antes das últimas autárquicas onde tive oportunidade de alertar os lisboetas para o buraco monstruoso nas finanças que Santana deixou na Figueira. Mas, os meus conterrâneos figueirenses estavam embriagados. Tinham prazer em ver a sua cidade na televisão a qualquer preço. A euforia era tão grande que se Santana não fosse para Lisboa voltaria a ganhar na Figueira. Conheço muita gente do PS e PCP que votou Santana, mas conheço também pessoas do PSD que tiveram um contacto próximo com Santana na Figueira, e que nele tinham votado, mas que perceberam rapidamente o estado de caos financeiro, as constantes fugas para a frente no endividamento da câmara, o clientelismo, as obras adjudicadas à velocidade da luz sem critérios, etc. Mas a minha voz e a dessas pessoas foi abafada eficazmente. Ficou por investigar muita coisa importante: a adjudicação do Centro de Artes e Espectáculos (CAE), a legalidade das dívidas contraídas pela câmara e qual o seu real valor, a atribuição de cargos nas empresas municipais, a venda do terreno onde foi instalado o Jumbo, a anormal onda de visitas de inspectores das finanças às lojas de roupa onde o executivo camarário se ía abastecer com promessas de pagar depois e o enriquecimento súbito de vereadores que antes de ir para a câmara não tinham onde cair mortos. A eleição de seguida de Duarte Silva do PSD para a câmara não ajuda nada ao esclarecimento destas questões, durante os últimos quatro anos muitas das pistas úteis foram apagadas.

Da Figueira o que resta da passagem de Santana é um buraco financeiro profundo que dificultou muito o trabalho do executivo de Duarte Silva, são bairros de caixotes sem qualquer critério urbanístico, é a cidade a crescer selvaticamente para cima da Serra da Boa Viagem, são obras fúteis ou desajustadas à dimensão da cidade como o CAE, o pindérico arco "Figueira da Foz" à entrada da cidade, a multiplicação selvagem de hipermercados (a Figueira tem mais hipermercados que Coimbra) que teve como consequência a devastação do comércio tradicional e a ruína dos próprio espaço comercial dos hipermercados, pois a Figueira não tem capacidade para dar lucro a tanta oferta. A Figueira neste momento está incaracterística e perdida no meio de tanto erro. A Figueira está a "curtir" uma ressaca monstruosa provocada pela grande bebedeira chamada Santana Lopes.

terça-feira, novembro 30, 2004

Radicalmente pelo SIM

No referendo sobre o Tratado Constitucional da União Europeia votarei "sim", mas não será um "sim" qualquer, será um "sim radical". E o meu "sim" será radical para o distinguir do "sim" do PSD e do PS, onde excepto uma minoria de pessoas verdadeiramente interessadas pelo desenvolvimento do projecto europeu, o voto no "sim" será mais uma questão de obediência aos grupos políticos a que fazem parte no Parlamento Europeu do que propriamente algum interesse especial pela Europa. Quanto ao "sim" do PP, nem precisarei de me demarcar, julgo que é pura ficção para enganar tolos. Lá atrás do biombo de voto, a sós com o boletim de voto, a caneta não se irá enganar, aquele nacionalismo primário do PP será mais forte do que eles e votarão "não". Já os ouviram defender uma palavra que seja do tratado? Eu não.

O meu "sim" é também radical porque é o "sim" de uma esquerda que espera mudanças radicais em dois dos principais assuntos da política internacional: o respeito pelo ambiente e pelo direito internacional. Explicarei na Klepsýdra até ao referendo como estas duas questões poderão beneficiar de um "sim" ao tratado. Este "sim" é o "sim" de uma esquerda ecológica que não alinha na fraude dos "Verdes" dentro do PCP, é o "sim" do sector do BE que não alinha numa estratégia de votar "não" que apesar de poder trazer frutos eleitorais é uma estratégia que atrai mais para o campo do Bloco aqueles que preferem destruir do que os que preferem construir e mudar o estado actual do planeta e é também o "sim" da esquerda que abarca os sectores mais dinâmicos da pasmaceira do PS.

Primeiro motivo para votar "sim": a simplificação dos tratados
Quando se começou a discutir o conteúdo do tratado, ponderava votar "sim", mas era sensível a certas questões apontadas de uma forma acertada por algumas pessoas como o Miguel Portas. No entanto, nunca achei essas questões suficientemente relevantes para justificar um "não" ao tratado Constitucional. Mais tarde, o meu "sim" passou de um "sim prudente" a um "sim radical" quando me dei ao trabalho de ler o emaranhado de tratados que regem a União Europeia (UE), a saber:

1) 1952: o tratado que instituiu a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (expirou há apenas dois anos).
2) 1957: os tratado de Roma que instituíram a Comunidade Económica Europeia (CEE) e a Comunidade Europeia da Energia Atómica (EURATOM).
3) 1992: o tratado sobre a União Europeia (Maastricht).

Depois temos os tratados que introduziram alterações aos tratados:

4) 1986: o Acto Único Europeu alterou o tratado da CEE.
5) 1997: o tratado de Amesterdão alterou o tratado de Maastricht.
6) 2001: o tratado de Nice preparou a UE para a adesão dos 10 novos países.

Só o simples facto de o tratado Constitucional da UE condensar todos estes tratados num único texto já merece o meu aplauso, mas se entrarmos nos detalhes do conteúdo de cada um dos tratados, a urgência do tratado Constitucional torna-se, na minha opinião, radicalmente importante. Actualmente, estamos perante um autêntico puzzle legislativo, as peças da legislação europeia estão dispersas pelos diversos tratados e constituem um entrave importante para que os cidadãos europeus percebam a união de países a que pertencem. Esta simplificação é radicalmente importante porque tem impacto na vida do cidadão comum, visto que facilita bastante a interpretação da legislação europeia e por conseguinte a vida de todos os que tiram partido da existência do espaço comum europeu, como: empresas, investidores, emigrantes, consumidores, redes europeias de transportes, instituições internacionais de investigação científica (CERN, ESA, ESO, ESRF, etc.) ou observatórios e redes de ciências sociais e humanas.

segunda-feira, novembro 29, 2004

Apelo ao boicote ao leitão da Bairrada

Começo a ficar saturado dos barretes que vou levando na Mealhada. O leitão anda a ser muito mal tratado. Começa logo por esta mania incrível que há em Portugal de construir restaurantes à beira de estradas nacionais cheias de trânsito, como é o caso da EN1 que passa na Mealhada. Depois é cada vez mais difícil encontrar restaurantes em que as mesas não estejam umas em cima das outras em ambientes de salão que não justificam nada essa disposição. Se fossem caves ou espaços rústicos ainda se tolerava. Finalmente quando o leitão é servido percebemos que a falta de imaginação começa a alastrar até a restaurantes onde já houve um certo cuidado e uma certa qualidade, como é o caso dos "Três Pinheiros". O leitão é agora constantemente servido numa travessa de latão tipo loja dos 300 e muito frequentemente é aquecido no micro-ondas, isto quando não o servem frio sem perguntar ao cliente qual a sua preferência. Pelo menos nos restaurantes que apostam mais na qualidade acho que o leitão poderia ser servido num recipiente mais condigno, poderia ser em barro, em madeira ou até mesmo numa folha de couve. Para compor o ramalhete, lá vêm umas batatas "pala-pala" de pacote e uma salada manhosa a acompanhar o pobre do leitão. Não há imaginação para servir o leitão com uns vegetais cozidos agres, ou umas batatas cozidas com a pele, ou umas batatas a murro, ou uma salada decente que não se resuma a uma folha de alface e a um quarto de tomate. Há um sem fim de opções para dignificar o leitão da Bairrada, mas parece que há um gosto mórbido de querer nivelar a coisa por baixo.

Esta semana foi criada a confraria do leitão na Mealhada. Espero bem que seja constituída por gente com ideias e alguma imaginação, a Bairrada bem precisa. Enquanto as coisas não mudarem apelo ao boicote ao leitão!

domingo, novembro 28, 2004

Andamos a brincar aos governantes

Quatro meses após uma remodelação ministerial, faz-se uma nova remodelação...
Quatro meses após uma remodelação ministerial, cria-se um novo ministério...
Uma semana após a criação deste novo ministério, o ministro responsável demite-se!

Exmo. Sr. Presidente da República faça uso dos seus poderes, por favor!

quinta-feira, novembro 25, 2004

A desculpa sobre a pergunta é um bocado manhosa

Já começa a ser crónico nos referendos a argumentação dos mais conservadores de que o "não" se justifica porque a pergunta ou é muito complicada, ou é manipuladora, ou é muito comprida, ou é curta, ou foi escrita a tinta preta, ou o quadradinho não tem espaço para a cruz, tudo atrapalha! Foi assim com o aborto e a regionalização e volta a acontecer o mesmo com o referendo sobre o tratado constitucional da UE.

O "constrangimento constitucional existente, exclui referendos directos e genéricos sobre tratados (e o mesmo sucede aliás em relação às leis)", como lembra bem Vital Moreira. É esse constrangimento que tornaria sempre a pergunta sobre o tratado constitucional pouco ortodoxa. A pergunta não é boa, mas não é o formato da pergunta em si que vai fazer o eleitor decidir entre votar "sim" ou votar "não". Aliás o eleitor quando se interessa por um assunto não se atrapalha com a pergunta, nem os eleitores com menor formação. A prova são essas assembleias de clubes, que têm às vezes milhares de participantes em que se vota e se discute até à vírgula se o regulamento X do "Benfica" impede o tesoureiro de comprar agrafos ou pomadas para as virilhas dos atletas. Por isso, esse choradinho "estão-nos a fazer de parvos" sobre a pergunta do referendo não cola lá muito bem.

Erasmus lusófono

Em conversa com um angolano a estagiar aqui no laboratório, percebi que existe uma grande dificuldade em fixar pessoal qualificado nas universidades africanas nas áreas científicas, nomeadamente em Luanda. É difícil atrair docentes estrangeiros e os poucos angolanos que se formam ou vão para fora ou vão para a industria petrolífera.

Um Erasmus lusófono poderia dar uma ajudinha a mudar a situação. A circulação de jovens estudantes cheios de ideias, de iniciativa e de curiosidade poderia facilitar a criação de empresas, de associações científicas, de projectos e de redes de cooperação entre universidades no espaço lusófono.

quarta-feira, novembro 24, 2004

Recomeçou o anti-francesismo primário

Chegou a segunda vaga de anti-francesismo primário. A primeira vaga lançada pelos falcões do Partido Republicano, cuja propaganda teve algum eco na Europa, garantia-nos pedagogicamente que a França era a culpada de todos os males do mundo e que no Iraque tudo iria correr bem (como se está a verificar). Agora, nada melhor que um referendo europeu para descarregar todo o ódio primário sobre os franceses e para ir buscar aquela xenofobia pequenina (vulgo provincianismo) que todos nós temos arrumada lá num cantinho da bilis.

O texto sem pés nem cabeça do João Miranda no Blasfémias abre as hostilidades. Leiam-no e se tiverem paciência comparem os disparates que lá estão sobre os franceses, por exemplo, com a história colonial portuguesa e seus mapas megalómanos, abusos, mercantilismo, etc.

Até ao referendo sobre a constituição vamos voltar a ouvir de tudo sobre a França e os franceses: são porcos, não lavam os pés, só comem queijo, falam francês em vez de falar inglês, pior ainda escrevem em francês, fazem péssimos filmes e ainda por cima são falados em francês sem legendas em inglês, são arrogantes, invadiram-nos e perderam no Buçaco que é bem feita, só pensam em sexo, são jacobinos, têm canais de TV gay (o enquadramento de jacobinos é propositado), por cima do Parlamento de Estrasburgo há muitas nuvens cinzentas, Malraux=Carrillho=Santana, enfim as parvoíces do costume.

terça-feira, novembro 23, 2004

Pleamar

Quiero volver a aquellos días de mi infancia junto al mar de Cádiz,
aireándome la frente con las ondas de los pinares ribereños,
sintiendo cómo se me llenan de arena los zapatos,
arena rubia de las dunas quemantes, sombreadas a trechos de retamas.

Rafael Alberti

segunda-feira, novembro 22, 2004

As minhas utopias

um "Erasmus" lusófono, alunos de Cabo Verde, Angola,
Moçambique, Portugal, Timor, S. Tomé, Brasil e Guiné,
tudo a circular...

quinta-feira, novembro 18, 2004

Urânio de Senhorim: há limites!

Talvez o pior protesto popular que assisti até hoje foi o dos representantes do movimento que pretende elevar Canas de Senhorim a concelho. Refiro-me à inqualificável manifestação em que alguns irresponsáveis tiveram a brilhante ideia de levar sacos contendo 500 kg de urânio até à entrada do palácio de Belém. O urânio é um material radioactivo presente na natureza, que ingerimos e expelimos diariamente, mas 500 kg de urânio não são propriamente quantidades comuns às quais somos expostos por simples acção da natureza. A inalação de grandes quantidades de urânio apresenta alguns riscos tanto do ponto de vista da sua radioactividade (perigosa para os rins) como da sua toxicidade. Nas imagens que vi na televisão, apareciam dois irresponsáveis a abrir os sacos e fazer escorrer entre os dedos das mãos o urânio como se fosse areia, enquanto proferiam ameaças ao Presidente Sampaio como se tivessem ali uma mini-bomba atómica. Já agora, como é que um grupo de pessoas leva 500 kg de urânio de autocarro para Lisboa e não dá contas disso a ninguém? E as regras de transporte de materiais perigosos e radioactivos não se aplicam? Pelos visto se o Ben Laden andar aqui pela lusitânia com sacos de urânio às costas ninguém o chateia.

A telenovela de Canas continua com o urânio como personagem principal, ontem foram recebidos pelo Ministério do Ambiente, o mesmo ministério que deveria ter apreendido o material da manifestação em Belém e que deveria ter no mínimo detido os irresponsáveis que andavam para ali com os sacos de urânio. Mas pelo tom dos intervenientes o crime compensa. Saíram contentes do encontro. Com sorte e uma pitada de populismo lá vamos ter nós mais uma câmara municipal para pesar no orçamento. E a avaliar pelas acções dos potenciais autarcas vai ser linda a futura câmara de Senhorim...

quarta-feira, novembro 17, 2004

A primeira órbita lunar da SMART

Ontem correu tudo bem e a SMART iniciou a sua primeira órbita à volta da Lua. O sítio da ESA inaugurou um serviço de informações multilingue. Podemos ler aqui a descrição da missão SMART em português até à sua entrada na órbita lunar e as tarefas que vai desempenhar quando atingir uma órbita estável confinada entre as altitudes de 3000 km acima do pólo norte lunar e de 300 km acima do pólo sul.

terça-feira, novembro 16, 2004

SMART na EuroNews

A rubrica Space da Euronews vai incidir esta semana sobre a missão SMART (a ligação inclui mini-filmes em português), nomeadamente a equipa de investigadores responsável pela mini-câmara instalada a bordo. Aqui fica o horário da rubrica Space:

Segunda 12:45 18:15 00:15
Terça 12:45 18:15 00:15
Quarta 12:45 18:15 00:15
Quinta 12:45 18:15 00:15
Sexta 17:45 20:45 00:15
Sábado 12:45 21:15 00:15
Domingo 12:45 18:15 00:15

Continuo sem perceber porque é que a Euronews no seu serviço normal deixou de ser traduzida para português e percebo ainda menos porque é que este verdadeiro canal de serviço público foi chutado para o canal 52 da TV cabo. Será por razões ideológicas?

Respeito por Arafat

No Almocreve das Petas podemos ler este excelente texto onde se relembra que apesar de tudo, o que se passou a semana passada foi a morte de Arafat, a morte de um homem, e não um concurso televisivo de mau gosto de atribuição de um lugar na história de herói ou de assassino. A história de Arafat será escrita e analisada durante muitos anos, independentemente do barulho das "claques" que agora se esganam.

Marek Halter, escritor judeu, que se encontrou frequentemente com Arafat desde tempo do seu retiro na Tunísia, testemunhou este fim de semana no "Tout le Monde en Parle" as suas ideias sobre o ex-líder palestino. Relatou o seu cepticismo em relação às verdadeiras intenções de Arafat, nomeadamente a dificuldade que Arafat teve em admitir o reconhecimento da existência do estado judaico e a duplicidade nos discursos que proferia em inglês e em árabe. Mas Marek desmistificou muita da propaganda maldosa que anda por aí sobre Arafat, nomeadamente sobre as contas bancárias e sobre a sua suposta actividade terrorista nos últimos três anos. Marek descreve um homem extremamente doente e com uma incapacidade física e mental bastante avançada. Segundo Marek a conta de Arafat na Suiça serviria como um fundo de reserva destinado à Palestina e não para uso pessoal, ele relembra que Arafat não andava de Rolls Royce e que a sua retrete nos últimos três anos era um buraco. Marek relembra ainda que na Palestina as instituições bancárias não funcionam como nos países normais e, segundo Marek, uma grande parte do dinheiro em nome de Arafat na Suiça foi fruto de algo bastante corrente no médio oriente, que é o pagamento de empresas petrolíferas para prevenção de ataques a oleodutos.

sábado, novembro 13, 2004

O salto "esperto" até à Lua

De 15 para 16 de Novembro a sonda europeia SMART - assim chamada por a sua propulsão ser efectuada por um motor iónico, considerada uma smart technology - vai completar o seu "salto" para a órbita da Lua. Em vez de uma trajectória directa em direcção à Lua, a SMART anda há alguns meses a ganhar balanço à volta da Terra até o seu motor "esperto", baseado no efeito de Hall, aumente a sua energia cinética até valores que permitam à SMART saltar para a órbita lunar. Vai ser como naqueles filmes em que cavaleiros a galope saltam para dentro de um comboio em andamento. No esquema abaixo representado podemos ver a cronologia da missão até a sonda SMART ganhar uma órbita estável à volta da Lua. A linha verde representa a órbita da Lua e a vermelha representa a trajectória da SMART (esquema do sítio da ESA).

Isto é terrorismo ou não?

No filme "Spy Game", baseado numa história verdadeira, o realizador Tony Scott relata abertamente um atentado brutal articulado pela CIA em Beirute durante os anos 80. Faço notar que o filme saiu antes do 11 de Setembro. Para os que andam constantemente a colar o rótulo de "terrorista" a tudo o que mexe fica a pergunta: como é que é, isto é terrorismo ou não?

(© 2001 - Universal Pictures)

sexta-feira, novembro 12, 2004

Sharon: postura de estado, postura de estorvo

Todos assistimos às mórbidas declarações de Sharon, acompanhadas de um largo sorriso, sobre o local onde autorizaria ou não o enterro Arafat. Os pecados de Arafat são conhecidos, mas por muito grande que fosse o ódio de estimação Sharon em relação a Arafat existem circunstâncias da vida em que dois adversários políticos devem um mínimo de respeito mútuo. Um desses momentos é quando um dos adversários está às portas da morte. Sendo Ariel Sharon primeiro-ministro de Israel a sua falta de postura de estado perante os últimos momentos do seu adversário é absolutamente repugnante e só ilustra o espírito com que Sharon sempre encarou o problema palestiniano, agindo frequentemenete com muita falta de respeito e humilhando quando possível os adversários. Sinceramente, perante posturas de estado deste género (que mais parecem posturas de estorvo) julgo que os chefes de estado e os governos dos países livres e democráticos deveriam reduzir ao mínimo as suas relações com um personagem deste calibre.

"Quando cair o teu inimigo, não te alegres,
nem quando tropeçar se regozije o teu coração,
para que o Senhor não o veja, e o desgoste
"
Provérbios, 24:17,18 (na Rua da Judiaria)

quinta-feira, novembro 11, 2004

Arafat: há alturas em que prefiro não ter razão

Espero sinceramente que o Aviz e o Nuno Guerreiro tenham razão. Eu não concordo com eles sobre o facto de ter sido Arafat o principal obstáculo à paz, mas desejo ardentemente estar errado. Acho que o falhanço dos acordos de paz se deve mais ao assassínio de Rabin, à eleição de Benjamin Netanyahu e de seguida à radicalização das acções do Hamas. Na minha opinião Arafat foi levado no turbilhão da escalada de violência que se seguiu, tal como muita gente no campo israelita que se esforçou para obter a paz. Para além disso, não ajudaram em nada os últimos três anos de Arafat em que este esteve muito doente e enclausurado à força por Sharon que se recusou sempre a negociar directamente com o próprio Arafat. Agora, impossibilitada que está a concretização da vendetta pessoal de Sharon em relação a Arafat, espero que o Nuno Guerreiro tenha razão, que existam outras pessoas do lado palestiniano com capacidade de dialogar e que se cumpra também o seu desejo de que "seria agora a vez de Ariel Sharon abandonar o governo israelita, de forma a permitir que o retomar das negociações de paz possa ser feito sem a presença de figuras polarizadoras". Além disso, eu gostaria de ver Sharon a ser julgado pela sua responsabilidade nos massacres ocorridos no Líbano nos anos 80, mas se for preciso abdicar disso para se obter a paz, é preferível. Sharon não merece assim tanta importância.

quarta-feira, novembro 10, 2004

Europa destrói um muro e os EUA constroem outro

Apenas um mês depois da queda do muro de Berlim ocorrida há 15 anos, na cimeira de Estrasburgo a CEE decidiu criar o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento com o intuito de ajudar os países da Europa central e de leste recentemente libertados das garras do Império Soviético. Esse foi um primeiro passo dado pela União Europeia (UE) até à integração de quase todos esses países no seu seio ocorrida no passado 1 de Maio (faltam alguns países balcânicos, a Roménia e a Bulgária). Fruto dessa política solidária, todos esses países atingiriam níveis de crescimento e de desenvolvimento notáveis, recuperando em apenas alguns anos uma boa parte do atraso que tinham em 1989 para os restantes países da UE. Por exemplo, hoje a Eslovénia é um país já com indicadores económicos superiores aos de Portugal.
Esta recuperação de um espaço geográfico extenso para o campo da democracia e do desenvolvimento foi talvez a melhor medida da história da União Europeia.


Muro entre os EUA e o México, 2001 (para os que chamam "cerca" ao muro Israelo-palestiniano, corrijo para: duplo muro entre os EUA e México).

Contraste com a vizinhança dos EUA
A relação dos EUA com o seu espaço geográfico vizinho contrasta brutalmente com a atitude da União Europeia. Mais ou menos na mesma altura que a Europa acabou com o muro de Berlim, os EUA começaram a construir um gigantesco muro de 3000 km com o vizinho México.
As políticas dos EUA de ajuda ao desenvolvimento dos estados vizinhos da América central têm sido um fracasso absoluto. Alguns desses países vivem em sistemas democráticos há muito mais tempo do que qualquer país da Europa de leste, no entanto, a convergência do PIB per capita desses países em relação ao PIB dos EUA tem sido irrelevante ou negativa, ao contrário do que se passou entre os países do leste da Europa e a UE. A Letónia, o país mais pobre da UE, passou de um PIB per capita de 29,8% da média da UE em 1995 para 45,7% em 2003. Na América central a generalidade dos países têm um PIB per capita a menos de 10 % do valor dos EUA e apenas alguns se aproximam dos 20 % (México 17 %). A razão deste falhanço é em parte devido a factores culturais, estruturais e políticos desses países da América Central, mas também devido à ideologia que os EUA praticam nas suas relações com países mais frágeis. É a ideologia de um liberalismo praticamente selvagem, aliado a um conservadorismo de catequese e de perseguição a todas as políticas de âmbito social. Exceptuando Cuba, quantos comunistas e socialistas é que há na América Central, do México ao Panamá? E sindicatos? Certamente não são muitos. E o pior é que alguns desses países ainda estão pior que a miserável Cuba. Pois é, não há mesmo desculpa para o desastre da política americana na América Central. O melhor é mesmo aprender com a Europa.

Mais sobre o Muro entre EUA e México

terça-feira, novembro 09, 2004

Mundo de Aventuras XIV

A primeira vez que o vi foi num livro intitulado "As Maravilhas do Mundo", oferta do meu pai. E fiquei realmente maravilhado! Sonhei com o dia em que subiria lá cima e veria as ruas, os carros e as pessoas, lá em baixo pequeninas. Na altura, estava convicto que seria sempre apenas um sonho, dado o nível de vida da minha família. Afinal vinte e tal anos depois desse momento subi mesmo até lá cima para ver as ruas, as pessoas e os carros pequeninos. Foi um momento mágico, porque foi o cumprir de um sonho de infância, daqueles momentos em que nos dizemos a nós próprios "pronto, agora podemos passar a uma nova etapa do sonho".
Houve outra coisa que blindou a nossa relação. Fazemos anos no mesmo dia.


(Empire State Building, Nova Iorque, EUA, Novembro 2002)

Mundo de Aventuras XIII

segunda-feira, novembro 08, 2004

O esquecido trabalhador-estudante

Numa das minhas "fricções" sadias com o Alexandre Monteiro do Empatia, ele chamou a atenção e bem para o problema do trabalhador-estudante no ensino superior. É um problema reiteradamente esquecido pelo Ministério, pelas universidades e pelas associações de estudantes. Um dos inconvenientes da luta contra as propinas (que eu apoio) é que tem subalternizado outros problemas gravíssimos da universidade, como este do trabalhador-estudante. Hoje em dia um estudante que queira ganhar independência dos pais e trabalhar enfrenta uma missão praticamente impossível se quiser tirar um curso universitário num intervalo de tempo minimamente razoável. As nossas universidades ignoram completamente esta classe de estudantes. Basta ver os horários das aulas, dos serviços académicos e até das cantinas para perceber que está tudo formatado para o aluno que depende dos pais. Numa altura em que as propinas estão a atingir valores incomportáveis para uma boa parte dos alunos da classe média baixa (aqueles cujo o rendimento familiar os excluem da acção social, mas cujos custos de estudante deslocado estão no limite de sobrevivência familiar), as condições do aluno trabalhador-estudante deveriam ser seriamente encaradas, pois para muita gente não vai restar outra alternativa ao abandono dos estudos senão a de estudar e trabalhar simultaneamente.

O assassinato de Theo Van Gogh

O assassinato de Theo Van Gogh foi acto infame, um verdadeiro acto de terrorismo religioso. O assassino de Van Gogh é um exemplar dessa extrema direita financiada pela Arábia Saudita para converter a Europa (à força) a um Islão distorcido e doentio.

Alguns países da Europa (entre os quais Portugal) vendem material militar aos Sauditas em troca de brindes na compra de petróleo. Essa hedionda ditadura Saudita agradece, sorri-nos e dá-nos umas palmadinhas nas costas, quando olhamos para o lado dá-nos uma facada! A última facada nas costas foi a de Van Gogh...

domingo, novembro 07, 2004

Boa análise das eleições americanas

Escreveu-se muito sobre os resultados das eleições americanas, mas muito pouco do que se escreveu passou do simples ajuste de contas, do alimentar de rancores e de alguma chacota palermita (falam, falam, falam, falam...e não dizem nada). Mas vale a pena ler a análise do resultado das eleições americanas do Nuno Guerreiro na Rua da Judiaria. Ele está lá no meio da "confusão", em Los Angeles, e sabe bem do que fala. Parece-me que o Nuno é capaz de ter toda a razão.

sábado, novembro 06, 2004

Sábado em Coimbra XIX: O Choupal vestido de Outono

Olho pela janela e vejo o Choupal já todo vestidinho de Outono.
Uns amarelos claros, outros torrados e ainda muito verde...
Recordo os Outonos de outras paragens,
onde a natureza no Outono se veste de cores mais vivaces.
Recordo as cores garridas das florestas da Virginia
e as ribeiras enfeitadas de mil cores entre Belfort e Limoges.
O Choupal não. É discreto, e faz da discrição a sua beleza.

Sábado em Coimbra XVIII

quinta-feira, novembro 04, 2004

Para que fique ainda mais claro II: o mito apocalíptico

Os últimos textos de Pacheco Pereira que justificam a ofensiva contra o terrorismo islâmico, e por tabela contra o Iraque, apoiam-se em parte no carácter apocalíptico do terrorismo (ler no Abrupto: "para que fique claro").

1- Em relação ao Iraque, depois dos resultados anunciados há um mês pela Comissão Americana de Inspecções de Armamento no Iraque, se alguém ainda tinha dúvidas sobre a falsidade das alegações de posse de armamento de carácter apocalíptico, elas ficaram desfeitas. Nada que já não tivesse sido concluído pelos maiores especialistas mundiais deste tipo de assuntos, como Hans Blix.

2- Se o objectivo é eliminar as fontes mais prováveis de fornecimento de material que possa ser usado num terrorismo apocalíptico, então há que intervir no Paquistão e na Arábia Saudita e não no Iraque. No caso do Paquistão deveria haver um esforço para conduzir o país a iniciar um processo de desarmamento do seu arsenal nuclear em conjunto com a Índia. Este tipo de processos não é novidade nenhuma, recentemente a Ucrânia e a África do Sul desmantelaram o seu programa de armas nucleares. Seria muito mais eficaz e simples desarmar o Paquistão que ir excitar a população muçulmana com a intervenção no Iraque. Quanto à Arábia Saudita, as cidades de Medina e Meca, onde não podem entrar infiéis (não-muçulmanos), são um paraíso que permite a um grupo de cientistas montar em toda a tranquilidade uma bomba atómica que facilmente poderá ser lançada para o quintal do lado (Israel). Mas, em relação à Arábia Saudita vergonha na cara é o que falta aos responsáveis políticos americanos e a alguns europeus, como é o caso de Portugal, que não se privam de manter relações promíscuas com a pior ditadura do mundo.

3- Se queremos falar em problemas realmente apocalípticos, temos é que discutir o efeito de estufa e a falta de água potável no planeta. É que por muitos atentados que façam os terroristas nunca conseguirão chegar aos calcanhares dos efeitos, estes sim apocalípticos, que cada um destes problemas ambientais poderão causar ao planeta e à vida humana. Sobre estes assuntos, até hoje, não vi nem uma linha escrita no Abrupto.

quarta-feira, novembro 03, 2004

Para que fique ainda mais claro: o mito do Baas

Já não é a primeira vez que lemos no Abrupto que os ataques no Iraque são da responsabilidade de ex-elementos do Baas (ler:"para que fique claro"). Este argumento de culpabilizar os ataques iniciais às forças americanas como sendo da exclusiva responsabilidade de meia dúzia de ex-quadros do partido, foi um argumento puramente propagandístico de vida curta lançado pela administração norte americana. Pelos vistos continua a circular por cá, mas há muito que foi desmontado de uma forma clara nos EUA como nos explica Richard Clarke:

"In Saddam Hussein's Iraq, one had to join the Baath Party to gain promotion to managerial positions throughout the economy. [The US authority] By dismissing them all (and canceling their retirement), there were suddenly no experience managers. Russians and others who suffered under the Communist Party would be familiar with the party membership requirement."

Estranho que uma pessoa como Pacheco Pereira, um excelente estudioso do fenómeno comunista, passe ao lado desta conhecida obrigatoriedade de pertença ao "partido" que retira qualquer significado à argumentação dos "assassinos do Baas". Todos eram do Baas, os que eram contra e a favor de Saddam.
Como descreve Clarke, esta argumentação puramente propagandística - pois a administração não queria admitir que a maior parte dos ataques eram da responsabilidade de Iraquianos que nunca apoiaram o regime - só teve como efeito o piorar ainda mais a situação no Iraque:

"After protests, riots, and attacks, the US occupation authority sait it would pay Iraqi army officers' retirement (...) by then, no doubt, some Iraqi army officers were plotting attacks on US forces."

"Against All Enemies", Richard Clarke, Free Press, 2004, pag. 272.

É a América que temos


(Manhattan desfocada, vista de Ellis Island, EUA, Novembro, 2002)

terça-feira, novembro 02, 2004

Aborto: será que a juíza foi "polticamente correcta"?

Será que a nossa legião de talibãs vai já começar a gritar que a decisão de hoje da juíza de absolver a jovem julgada por aborto clandestino se trata de uma decisão do "politicamente correcto"?

A campanha americana é um circo!

Se fosse americano só poderia ser dos Verdes, em nome da minha sanidade mental. Mas nestas eleições não teria qualquer dúvida em votar útil e votaria em Kerry, numa tentativa desesperada de prolongar a esperança de vida do planeta Terra.

No início desta campanha eleitoral confesso que ainda segui os primeiros momentos da Convenção Democrática, mas este vosso amigo ia tendo uma crise de paralisia cerebral a assistir a tão hediondo espectáculo. De política ouvi muito pouco, ouvi a mulher de Kerry, ouvi o filho da mulher de Kerry, ouvi as filhas de Kerry, ouvi um primo de Kerry, só me faltou ouvir o periquito e o cão de Kerry. Todos falaram de Kerry como quem fala de um deus. Mas o momento mais marcante foi quando uma das filhas de Kerry descreveu um momento demonstrativo da magnificência de Kerry. Tratava-se de um episódio em que o seu hamster (que por acaso não falou na convenção) tinha caído ao rio e foi salvo miraculosamente pelo corajoso Kerry que não hesitou em saltar de cabeça para a água. Confesso que não me lembro se Kerry o salvou por respiração boca-a-boca ou por massagem cardíaca, o que é certo é que o roedor se safou. Eram umas três da manhã e por momentos tive a sensação que estava na Coreia do Norte a ouvir as heróicas histórias de almanaques do partido dos grandes líderes Kim Il-Sung ou Kim Jong-Il. Obviamente que depois disto nem sequer me passou pela cabeça assistir à Convenção Republicana, não sou assim tão masoquista!

Salvaram-se apenas alguns momentos dos debates. Mas para quem está a falar da maior potência mundial o nível geral dos debates foi mau. Não ouvi nenhuma ideia nova. Era tudo velho e repetido. E repetir foi o verbo dos debates. Repetir as mesmas frases e as mesmas ideias 5, 10 vezes. Nisso eles eram realmente bons. Tal como eram bons em não falar de coisas minimamente complexas. Só política para estúpidos. Quanto ao Bush dos debates realmente nota-se que tinha uns pais capazes de lhe pagar as propinas de Yale. Se tivesse nascido noutro berço não estaria ali certamente.

O sistema político americano é um sistema sem plasticidade nenhuma, completamente blindado por dois partidos que se alternam no poder, onde não há espaço para vozes alternativas, estamos quase no grau zero da democracia. A palhaçada da campanha americana é apenas um sintoma evidente da doença que graça no sistema político americano. Realmente estamos bastante longe do cenário europeu, onde nas últimas eleições concorreram várias centenas de partidos que preencheram lugares no Parlamento Europeu que cobrem um espectro que vai desde o maoismo até aos extremistas do partido da independência britânica. E o mais engraçado é que ambas as eleições têm mesmo nível de abstenção apesar das americanas serem muito disputadas no terreno e as europeias serem bastante discretas.

É talvez também por isto que não reconhecemos hoje a américa, aquela américa da liberdade e da esperança.

domingo, outubro 31, 2004

Voto em Portugal para as eleições ucranianas

É notável a forma como os Ucranianos presentes em Portugal se mobilizaram para votar nas suas eleições legislativas. Tudo estava muito bem organizado, mas...mas eis que o Ministério dos Negócios Estrangeiros Português tinha que dar uma simples autorização para que pudessem abrir mesas de voto fora de Lisboa, e o Ministério atrasou-se e os Ucranianos de todo o país tiveram que rumar a Lisboa para votar. Para quem esteve no estrangeiro estas misérias lusitanas ligadas ao voto de pessoas deslocadas são familiares. Durante os quatro anos que vivi em Estrasburgo só me deixaram votar uma vez, para o Presidente da República, e foi uma verdadeira odisseia que acabou com o meu boletim de voto num envelope lacrado com cera vermelha!

As eleições nos blogues
Uma das vantagens de ler blogues é que escapamos à visão ciclópica dos meios de comunicação tradicionais. Na última semana, graças aos portugueses que vivem no estrangeiro, nos blogues fala-se das eleições na Finlândia, em Moçambique, na Ucrânia e nos EUA. Nos meios de comunicação tradicionais dá a sensação que só nos EUA é que há eleições.

sexta-feira, outubro 29, 2004

O caso Buttiglione é revelador do nosso atraso

Lendo alguns autores de blogues e colunistas de jornais sobre o caso Buttiglione, alguns deles que até se dizem liberais, deu-me um calafrio na espinha. Percebi fria e definitivamente o quanto este país é javardo, retrógrado e terceiro-mundista. Há ainda um trabalho muito grande a fazer sobre a educação e o mais básico respeito entre os cidadãos. Digam o que disserem, as opiniões políticas do Sr. Buttiglione são indefensáveis em pleno sec. XXI. No sec. XIX ainda poderíamos admitir que pessoas livres, educadas e bem na vida pensassem assim. Mas em 2004, pessoas livres a viver em democracia, com um acesso privilegiado e planetário à cultura, à educação, e à informação defenderem as posições absolutamente medievais do sr. Buttiglione só transmitem uma imagem terceiro-mundista de um radicalismo extremo. Eu gostaria de ver um texto com as opiniões do José Manuel Fernandes do Publico a defender o sr. Buttiglione publicado num jornal da direita Sueca, Britânica ou Holandesa só para ver o que aconteceria. Seria "comido vivo" no mínimo!

Logo a seguir à decisão de Barroso de quarta-feira escrevi aqui um texto sobre o vício argumentativo que anda agora na moda em Portugal de se ser contra o "politicamente correcto". Curiosamente, todos os blogues e artigos de jornais que li onde se defende Buttiglione invocam o sacro-santo argumento de que o Parlamento Europeu foi "politicamente correcto" ao chumbar o sr. Buttiglione (só falta agora dizer que a democracia é "politicamente correcta"). Vão ler esses blogues e artigos e vejam se não tenho razão. Fica assim bem patente a vacuidade da treta de ser contra o "politicamente correcto", é uma espécie de chave universal da argumentação política, serve para tudo e para todos, dos fascistas aos maoistas, um autêntico vício tal como começar todas as frases por "é assim".

Chamo a atenção ainda para dois textos (1, 2) do Filipe Nunes Vicente do Mar Salgado sobre as mães solteiras que são bem reveladores da hipocrisia reinante entre os fundamentalistas do catolicismo romano que representa o sr. Buttiglione e os que o defendem.

quarta-feira, outubro 27, 2004

Eclipse da Lua esta madrugada

Imagens em tempo real aqui.

(Imagem da Universidad Complutense de Madrid)

Horário aproximado
C1 - Primeiro contacto com a penumbra: 01h 06min
C2 – Primeiro contacto com a umbra: 02h 14min
C3 – Eclipse total: 03h 23min
C4 – Fim do eclipse total: 04h 44min
C5 – Último contacto com a umbra: 05h 54min
C6 – Último contacto com a penumbra: 07h 03min

Buttiglione, Durão e o "politicamente (in)correcto"

Para Durão Barroso é melhor mesmo sair de fininho adiando a votação dos comissários. O Parlamento Europeu de facto não é o Parlamento Português onde passa qualquer lixo retrógrado sob pretextos tão edificantes como ser contra o "politicamente correcto", que é agora o argumento da moda em Portugal. Ser contra o "politicamente correcto" é a mãe e o pai de toda a fundamentação política, é o equivalente na política à praga que graça na expressão oral portuguesa de começar todas as frases por "é assim". É um puro vício de argumentação.

Em Portugal nas questões mais modernas, nós somos "politicamente incorrectos" em quase tudo, depois fazemos tudo mal, andamos sempre a correr atrás da Europa, repetimos os erros que foram corrigidos noutros países há 30 ou 40 anos. Mas agora andam aí uns comentadores de peito feito que à falta de melhor argumentação política fazem uso da mais profunda esperteza saloia portuguesa e com desprezo sacam frequentemente do argumento: "ah, isso é o politicamente correcto". É uma espécie de rajada de vento argumentativa, uma mão cheia de nada, mas que vai resultando em Portugal. O problema é que em ambientes internacionais como o Parlamento Europeu, que é constituído por países onde o nível educacional das pessoas é bem acima do português, a retórica duvidosa do xico-esperto Portuga ou latino, como é o caso do sr. Buttiglione, não pega. E ainda bem que não pega.

É por isso é que a direita do sul da Europa é tão diferente da direita do norte da Europa. No norte da Europa a direita é ecologista, dá valor à cultura, à ciência, à liberdade religiosa, etc. No sul da Europa, a nossa direita que se diverte numa cruzada contra o fantasma do "politicamente correcto" faz tudo ao contrário: está-se nas tintas para a ecologia, para a cultura, não separam a igreja do estado, consideram secundários a higiene, a saúde e a segurança no trabalho, etc.

Por isso considero que o passo atrás de hoje de Durão Barroso foi uma victória do norte da Europa sobre o sul. Uma vitória do rigor e da educação sobre a balda, a ignorância e as vacuidades contra o "políticamente correcto". Muito mais isto do que uma vitória da esquerda sobre a direita. É que na Europa do norte a direita não manda a mulher para a cozinha!

Nova Europa: la liberté ça se pratique

Depois da geometria descritiva, do sistema métrico, das férias pagas, do minitel, do foguetão Ariane, eis mais um avanço civilizacional made in France: a PINK TV. É esta a Nova Europa no seu melhor. Quanto à Velha Europa de Buttiglione, autêntica fotocópia da Velha América de Rumsfeld, esperemos que chumbe e chumbe bem.

terça-feira, outubro 26, 2004

V pondelok doma nebudem

V pondelok doma nebudem, a v stredu v utorok na jarmok pôjdem,
z jarmoku, v štvrtok s chlapcami do šenku.

A v piatok, Anička moja, ty budeš ženička moja,
v sobotu rúčku dáš, v nedeľu pôjdeme na sobáš.

Čia si, Anička čia? Otcova či materina?
Čia som, tvoja som, otcova i materina som.

segunda-feira, outubro 25, 2004

Universidade Católica Moralista e um bocadinho Cábula

De Coimbra, para variar, dou razão ao texto "Proibições e paternalismo" do Francisco do Aviz sobre o reitor da Universidade Católica que anda muito preocupado com a influência das discotecas nas prestações dos alunos.

Outra questão interessante a analisar é a de saber se a Católica é uma universidade exemplar no cumprimento das suas obrigações. Não basta apontar o dedo apenas aos alunos, devemos ser igualmente exigentes com os alunos e com a instituição. Qual é que tem sido o contributo de docentes, de investigadores e da direcção da Católica para o desenvolvimento da Universidade Portuguesa?
Tem sido fraco. Basta olhar para os resultados da recente classificação de universidades elaborada pela Universidade de Shangai Jiao Tong. A Católica sendo uma das universidades portuguesas mais antigas não aparece entre as cinco primeiras nacionais e é largamente ultrapassada por novas universidades públicas como a Universidade de Aveiro ou a Nova de Lisboa. Ao contrário das universidades privadas americanas que aparecem no topo da tabela, as privadas portuguesas têm uma produção científica paupérrima (refiro-me também às ciências humanas). O problema é que em geral as universidades privadas portuguesas estão mais preocupadas em rapar o máximo de dinheiro possível aos alunos do que produzir ciência, do que criar parcerias com empresas (nisto as públicas também são más) e de divulgar conhecimento à sociedade. Apesar da Universidade Católica ser um bocadinho melhor do que as outras privadas, os resultados mostram que a Católica é uma universidade um bocadinho cábula. Será que a direcção da Católica e os docentes que deveriam produzir ciência andam distraídos nas discotecas e andam com medo de encontrar por lá os alunos? Ou será que vão demasiado à missa? Ou será ainda que ficam em casa mas passam o tempo a ver o lixo transmitido pela TVI, a televisão criada pelos mesmos mentores da Católica, um verdadeiro mimo de cultura, disciplina e rigor?

Acabar o curso no tempo regulamentar
Aqui também dou razão ao Francisco. Apesar de estarmos longe do clima de há 30 ou 40 anos em que havia numerosos avôs a frequentar as universidades, filhos de boas famílias e que se podiam permitir esse luxo, hoje ainda encontramos aqui e ali umas lendas desculpabilizantes para abrandar o esforço de estudo. No entanto, advirto que não sou um adepto de uma universidade com um formato rígido de escola primária, em que os meninos andam em "fila indiana" do primeiro ao último ano, acho que a universidade deve estar preparada para ser uma instituição flexível e o mais aberta possível à sociedade (empresas, trabalhadores e pessoas licenciadas em reciclagem de conhecimento), mas sendo uma instituição de todos defendo que deve haver regras (ex: número limite de chumbos a cada disciplina) em nome do respeito que merecem todos aqueles que ficam de fora e dos contribuintes que financiam a universidade. Infelizmente, constatei que existe uma lenda que circula com sucesso entre um certo meio estudantil com tiques estalinistas que confunde comportamentos ociosos burgueses com o livre pensamento produtivo e dinâmico. Essa lenda é a de um estudante muito inteligente e esclarecido (imaginem assim uma aura dourada à volta da cabeça) que é tão bom tão bom que só tira notas altíssimas, mas como se interessa por outras coisas nobres da vida só faz uma ou duas cadeiras por ano. Portanto é um modelo a seguir, porque não estuda muito mas quando estuda só tira 19. O problema é que o modelo só é invocado para desculpar o número de cadeiras que se fazem por ano, a parte relativa às boas notas é esquecida porque dá muito trabalho. Este mítico Super-Estudante que inspira muitas cabeças cheias de mofo merecia sem dúvida uma revista da Marvel, se possível desenhada pelo Stan Lee!

quinta-feira, outubro 21, 2004

Nuclear Science Symposium na Europa

Numa altura em que a Europa ultrapassou vertiginosamente a produção científica dos EUA, a realização do Nuclear Science Symposium (NSS) do IEEE pela segunda vez na Europa, em Roma (a primeira foi em Lyon em 2000), tem um significado especial. O NSS é a conferência científica internacional de maior prestígio nas áreas da física nuclear, da astrofísica e da medicina. O grande desenvolvimento que teve a física nuclear a partir dos anos 30 serviu de motor para o desenvolvimento da medicina nuclear e da instrumentação para astrofísica. Os princípios que são utilizados na física nuclear são os mesmos princípios que são utilizados no desenvolvimento de muita da instrumentação hospitalar de ponta e na concepção de telescópios espaciais utilizados para detectar radiação e partículas de altas energias, como os raios X, os raios gama, protões, etc. É por este motivo que a instrumentação médica e a instrumentação para astronomia e astrofísica ganham cada vez um espaço mais importante numa conferência que começou por ser apenas dedicada à física nuclear.

O Grupo de Instrumentação Atómica e Nuclear, onde trabalho em Coimbra, é um participante habitual do NSS há cerca de 20 anos. Este ano participo com dois trabalhos numa sessão intitulada "Imaging Systems for Medical, Astrophysics and Cargo Monitoring Applications". Na sala dos computadores tive um encontro bloguístico do terceiro grau com o Nuno da Aba de Heisenberg que participa nas sessões dedicadas à medicina nuclear.

O avanço da ciência vive muito deste tipo de conferências internacionais em que os investigadores apresentam aos seus pares de outros países o fruto de um ou mais anos de trabalho. A discussão, a crítica e a troca de ideias geradas pelos trabalhos apresentados contribuem para a melhoria do trabalho futuro de investigação de cada investigador. Depois da conferência os trabalhos com melhor qualidade são propostos a publicação numa revista científica internacional, onde um júri composto por investigadores experientes avalia e autoriza a publicação dos trabalhos com qualidade. Hoje em dia, a ciência moderna avança deste modo, através do somatório de pequenas contribuições de muitos cientistas espalhados por todo o globo.

Depois de organizarmos um evento como o campeonato da Europa de futebol ficaria bem Portugal organizar um NSS, que é uma espécie de campeonato do mundo de física nuclear. Os meios necessários são ínfimos comparados com o Euro2004, bastaria um grande e moderno espaço de exposições ligado ou próximo de um hotel de grande capacidade. Gostaria muito de ver um dia um NSS organizado em Coimbra, mas é um sonho distante.

Foi voce que pediu para dar porrada nos estudantes?

Foi, foi uma carga de porrada a pedido. Lembram-se dos artigos de opiniao do ano passado sobre as propinas? Este ano os bastoes ja estavam a abanar, à espera do inicio do ano lectivo. E' pena nao terem pedido tambem uma carga de porrada para o Ministro Pedro Lynce quando este se "esqueceu" de pagar as propinas/quotas do CERN, da ESA e do ESO. E' que apesar de alguns excessos dos estudantes nunca ninguem me impediu de entrar na Universidade de Coimbra para trabalhar. Pelo contrario o senhor Pedro Lynce destruiu uma boa parte do pouco que os investigadores nacionais conseguiram construir nos ultimos anos, cortando-nos as pernas em muitas areas e mandando a nossa reputacao de volta para a sarjeta. Entao e Pedro Lynce nao merece porrada? Nao! Porque os estudantes de Coimbra (75% dos quais deslocados) é que sao uns "priviligiados"! Eu tambem era um desses "priviligiados" cujos pais se viram aflitos para me pagar os estudos. Se tivesse tido que pagar propinas a 200 contos se calhar nao estaria hoje aqui a escrever-vos de Roma do Nuclear Science Symposium onde vim apresentar dois trabalhos. Estaria talvez inscrito num centro de desemprego qualquer. Este pais é miseravel, é atrasado, é retrogado e ha quem tenha o rei na barriga e nao perceba um cu do pais onde vive!

quarta-feira, outubro 20, 2004

Panteao de Roma - descapotavel mesmo quando chove

O Panteao de Roma, apesar de ter quase 1900 anos, é ainda hoje uma obra de engenharia notavel. Continua a ser a cupula de maior diametro do mundo (43m, a Catedral de S. Pedro tem 42m), mas essa nao é a sua caracteristica mais notavel. A cupula do Panteao é aberta no topo, tem um buraco de 9 metros que é a unica fonte de iluminacao do Panteao, e o mais impressionante é que nao chove dentro do Panteao! O truque é deixar a porta aberta. Como a porta é enorme produz-se uma corrente de ar suficientemente forte através da abertura no topo da cupula para desviar as gotas da chuva para longe da abertura do Panteao! Outro aspecto impressionante é que os Romanos tinham uma matematica pouco desenvolvida por causa do seu sistema de numeracao. Era complicado fazer operacoes matematicas, havia apenas algumas pessoas capazes de fazer operacoes de multiplicacao muito simples. O metodo alternativo ao calculo era a construcao de maquetes à escala de um salao. Se tudo corresse bem com a maquete entao construiam o edificio. Como todas as operacoes com areas funcionam com potencias de dois e com volumes com potencias de tres, muitas frequentemente as coisas corriam mal. Mas esse nao é o caso do Panteao.

segunda-feira, outubro 18, 2004

ESA para professores

A Agência Espacial Europeia criou uma página para professores, cobrindo quase todos os níveis de ensino. Vale a pena passar por lá. São anunciadas actividades para professores de todos os países membros, há muitas imagens e pequenos filmes, modelos interactivos e para montar de todos os satélites da ESA, exercícios para as aulas, pequenas publicações para crianças, dicas para professores, etc. Para já a página está apenas em inglês, com alguns itens nas outras línguas dos países membros.

domingo, outubro 17, 2004

Rvdericvs dixit

Sinto-me ligado a esta cidade, quiçá geneticamente. "Em Roma faz como os Romanos". Vou mais longe, vou ser Romano. Adopto o meu nome latino e tudo, assino Rvdericvs

Rvdericvs, Roma, MMIV

sábado, outubro 16, 2004

Sábado em Coimbra XVIII: Coimbra->Roma

Olho pela janela, um nevoeiro matinal paira sobre o Choupal e o Mondego corre fresco. Daqui a algumas horas verei Roma pela primeira vez, a capital do Império no tempo em que os impérios eram cruéis e os imperadores não se armavam em virgens salvadoras do mundo. A distância que vou percorrer em algumas horas foi outrora percorrida durante semanas pela Sétima Legião. Quando aqui chegaram, a Aeminium e a Conimbriga, como terão visto o Mondego e o Choupal?

Sábado em Coimbra XVII

sexta-feira, outubro 15, 2004

Week-end à Rome

Week-end à Rome, tous les deux sans personne
Florence, Milan, s'il y a le temps
Week-end rital, en bagnole de fortune
Variété mélo à la radio

Week-end rital, Paris est sous la pluie
Bonheur, soupirs, chanson pour rire
Chanson ritale, humm, chanson ritale pour une escale
Week-end à Rome

Afin de coincer la bulle dans ta bulle
D'poser mon coeur bancal dans ton bocal, ton aquarium
Une escapade à deux, la pluie m'assomme
L'gris m'empoisonne, week-end à Rome

Pour la douceur de vivre, et pour le fun
Puisqu'on est jeunes, week-end rital
Retrouver le sourire, j'préfère te dire
J'ai failli perdre mon sang froid
Humm, j'ai failli perdre mon sang froid

Oh j'voudrais, j'voudrais
J'voudrais coincer la bulle dans ta bulle
Poser mon coeur bancal dans ton bocal, ton aquarium
Humm, chanson ritale pour une escale

Oh, j'voudrais tant
J'voudrais tant coincer la bulle dans ta bulle
Et traîner avec toi qui ne ressemble à personne

Etienne Daho

quarta-feira, outubro 13, 2004

Os livros de que se fala

No "Tout le Monde en Parle" deste domingo foram apresentados pelos seus autores dois novos livros que prometem:

"La télévision au pouvoir" é um livro de Dominique Wolton um investigador do CNRS especialista em comunicação social que apresenta uma perspectiva da televisão fora do comum, sendo essa perspectiva mais optimista do que a crítica geralmente feita às televisões. Objecto de algumas reservas de Pedro Caeiro do Mar Salgado, uma das vantagens da televisão segundo Wolton é que uma mentira não pode ser proferida indefinidamente na televisão. O assunto da minha entrada anterior é disso um exemplo, o problema é que a mentira só se tornou evidente tarde demais.

"Nous existons encore" é o testemunho de Annick Kayitesi, uma tutsi Ruandesa que descreve os dias infernais em que a sua família e os seus amigos foram torturados e mortos à sua frente, a forma como conseguiu sobreviver ao massacre organizado pelos Utus e a sua fuga para França onde começou a reorganizar a sua vida a partir do zero.


Por cá, a Sofia Vilarigues do blogue Fénix venceu o Prémio Literário Horácio Bento de Gouveia de 2003 com o seu livro "A conspiração dos Espelhos". Parabéns ;)

segunda-feira, outubro 11, 2004

Desmontado o cenário apocalítico das ADM no Iraque

Durante o processo de inspecções do Iraque lideradas por Hans Blix existiu uma constante pressão da administração Bush para montar um cenário de uma suposta ameaça apocalíptica da parte do Iraque sobre o mundo ocidental, os EUA e Israel em particular. Esse cenário em que supostamente armas de destruição em massa (ADM) estariam prontas a ser disparadas em 45 minutos nunca foi verificado por qualquer observação dos inspectores no Iraque liderados por Hans Blix, nem pelos melhores especialistas mundiais de ADM (Departamento de Energia dos EUA, DE; Institute for Science and International Security, ISIS; e Agência Internacional de Energia Atómica, AIEA). Por outro lado a tentativa de montar um cenário apocalíptico por parte dos EUA e do Reino Unido não é uma simples opinião política, essa tentativa foi bem real, está documentada e registada e ironicamente acabou por obter resultados em países em que existe um défice de consciência crítica e de falta de rigor dos políticos em assuntos de carácter científico, como em Portugal.
Hans Blix no seu livro "Irak, les armes introuvables" descreve com detalhe e de uma forma muito fundamentada as ilusões que a propaganda americana e britânica impingiram ao mundo com algum sucesso. Depois do anúncio da comissão americana de inspecções de armamento no Iraque de que não existiam ADM, todos os argumentos apresentados pela administração Bush parecem hoje particularmente ridículos e falsos. No entanto convém recordar os argumentos que sustentaram a existência de ADM no Iraque, para que não caiam no esquecimento:

1- Uma ogiva para explosivos de fragmentação para mísseis de curto alcance encontrada numa sucata de uma fábrica encerrada e decadente. Supostamente serviria para espalhar agentes químicos. Não foi encontrado qualquer vestígio de agentes químicos ou biológico na ferrugem dos restos da ogiva.

2- Um drone com um raio de acção de controlo a partir do solo de 8 km, cuja capacidade de carga útil era inferior a 20 kg. Supostamente serviria para espalhar agentes químicos. Com uma carga útil de 20 kg e um raio de controlo de 8 km deveria ser para matar pássaros na periferia de Bagdad...

3- Tubos de alumínio para enriquecimento de urânio por centrifugação - Foram comprados ilegalmente, mas serviam para a construção de foguetes. O DE e AIEA declararam vezes sem conta que aqueles tubos não serviam para as centrifugadoras. Um dos inspectores americanos depois intervenção no Iraque sugeriu que fossem utilizados em canalizações...

4- "Yellow stone" ou urânio natural supostamente importados pelo Iraque ao Niger é um material cuja utilização em armas nucleares requer um tratamento industrial complexo que a caduca indústria Iraquiana nunca poderia executar. O mais engraçado, é que a suposta importação de "yellow stone" por parte do Iraque é baseada num recibo apresentado pela administração americana e que se provou ser uma falsificação. A administração Bush declarou mais tarde que "alguém" falsificou esse recibo, eles só o tinham apresentado. Nunca se soube quem era esse "alguém". É outra forma de dizer "não sei quem FUI"...

5- Os famosos camiões de armas biológicas apresentados por Powell na ONU, como se veio a confirmar no fim da guerra, eram camiões de transporte de hidrogénio utilizados em balões meteorológicos de alta altitude. Já assisti a um lançamento de um balão a hidrogénio desse tipo e posso garantir que é algo de muito corrente o facto do enchimento ser feito por camiões. Mas o pior de toda esta história é que a ISIS, os especialistas em armas biológicas dos EUA, da Rússia e do Iraque disseram que aquela acusação só revelava uma ignorância tremenda dos serviços secretos britânicos. É que todos os especialistas em armas biológicas, inclusive os Iraquianos, consideravam a opção de utilização de camiões como uma opção perigosíssima, pois basta um pequeno acidente de trânsito para provocar uma catástrofe. O calor que se faz sentir no Iraque torna impraticável a utilização de laboratórios móveis que pudessem funcionar a uma temperatura aceitável sem adulterar os agentes biológicos.

Quase todas estas informações eram conhecidas antes da intervenção, mesmo assim avançou-se para o Iraque sob o pretexto das ADM. O cúmulo do propagandismo americano foi quando Condoleza Rice algumas semanas antes da intervenção no Iraque declarou: "as pessoas só vão dar razão aos EUA quando virem um cogumelo nuclear [produzido pelo Iraque]". Isto depois da AIEA, do DE dos EUA e da ISIS terem dado como finalizadas as inspecções de armas nucleares e como encerrado o programa nuclear Iraquiano...

sábado, outubro 09, 2004

Sábado em Coimbra XVII: o enigma da Romã

Hoje de manhã no mercado ao reparar na enorme oferta de romãs, lembrei-me de uma descoberta simpática que fiz com um ex-colega libanês com quem almoçava diariamente quando trabalhei no CNRS de Estrasburgo. Para espanto nosso, o raro fruto que em francês ambos chamávamos grenadine pronunciava-se romã tanto em português como em árabe. Ao chegar do mercado decidi clarificar o enigma da origem da palavra. Tal como desconfiava, romã é uma palavra latina que foi absorvida pelos árabes. Em latim era a maçã romana ou mala romana.

Sábado em Coimbra XVI

quinta-feira, outubro 07, 2004

O "contraditório" não se aplica à RTP

O argumento do "contraditório" aplicado a uma televisão privada como a TVI é sem dúvida ridículo, mas em relação à estatal RTP a coisa deveria piar mais fino, sendo ela paga por todos nós.
Quem é que faz o contraditório desta astróloga que tem 15 min de antena por dia, 75 min por semana?


(Diariamente na RTP 1 entre as 10h e as 13h, a senhora astróloga Cristina Candeias tem 15 generosos minutos de tempo de antena)

Como "contraditório" a esta senhora bastaria um simples livro de astronomia ou de estatística do secundário para desmontar todos os seus mecanismos de charlatanice básica. Mas não, ela tem mais tempo de antena por semana numa estação pública que Marcelo Rebelo de Sousa na TVI, mais tempo de antena que outras formas de espiritualidade reconhecidas pelo estado como o Judaísmo e o Islão, mais tempo de antena do que qualquer investigador ou professor, para transmitir as suas consultas astrológicas em directo fazendo publicidade de uma forma gratuita à sua actividade profissional fora da RTP . Tudo isto sem o tal "contraditório", aldrabando e deturpando alegremente conceitos ensinados em qualquer escola secundária pública e ainda recebendo por isso. Mas pelos vistos o Prof. Marcelo é uma pior ameaça para país, a propagação da estupidez não interessa muito ao governo, aliás o primeiro-ministro até vai à bruxa e usa pulseirinha de boa-sorte.

quarta-feira, outubro 06, 2004

A propósito de Kennedy

A excelente cadeia de televisão ARTE passa hoje uma reportagem de 75 min sobre o assassinato de JFK às 19.45 h (a hora é chata, mas é melhor do que assistir a câmaras de televisão a assanharem pobres de espírito nos nossos telejornais). Esta reportagem é integrada numa série sobre assassinatos políticos (Luther King, Rabin, Gandhi etc.) a transmitir todas as quartas, a que a ARTE chama "Les mercredis de l'histoire".

Só nestas "Quartas-feiras da História", a ARTE transmite mais reportagens e debates sobre a história de Portugal que todas as televisões portuguesas juntas. As melhores reportagens que vi sobre história de Portugal eram reportagens alemãs e francesas produzidas pela ARTE.

Tudo ao contrário: auto-estradas e petróleo

1- Portugal do ponto de vista energético é dos países da União Europeia que mais depende do petróleo, que é uma matéria prima que importamos na totalidade.

2- Portugal tem uma das piores redes de auto-estradas e de estradas nacionais da UE (e já conto com os novos 10 países da UE), e possui a segunda taxa de sinistralidade mais elevada. Esta sinistralidade deve-se sobretudo aos acidentes nas estradas nacionais, pois as auto-estradas portuguesas possuem uma sinistralidade comparável à média da UE.

Perante estes dois factos seria muito mais lógico Portugal fazer um esforço de obtenção de receitas taxando mais o petróleo em vez de taxar as auto-estradas. Deste modo, penalizava-se o uso de combustíveis fósseis que não produzimos e aproveitavam-se as receitas para pagar as auto-estradas e para transformar a rede transportes públicos para operarem com energias renováveis. A longo prazo reduziríamos a dependência do petróleo, logo as importações, logo perderíamos menos dinheiro e o ambiente agradeceria.

Mas não, faz-se tudo ao contrário! Debitam-se expressões infantis como o "utilizador-pagador", como quem diz "gostas de amoras-então já namoras", que são tanto ao gosto dos populistas recém chegados ao governo. Aliás, com um novo Ministro das Obras Públicas que veio da GALP, a questão de taxar preferencialmente os combustíveis fósseis deixa automaticamente de ser ponderada. E por aqui andaremos nós mais uns anos a penar, num país com problemas de dinamismo, com o problema mais grave de centralismo da EU, a pagar as portagens mais caras da Europa em auto-estradas vazias, a beber desalmadamente petróleo importado, esquecendo que em breve temos que mudar radicalmente os nossos hábitos de consumo de energia, até ao dia em que alguém responsável perceber em que buraco nos metemos.

terça-feira, outubro 05, 2004

Já temos Nobel da Física

Três americanos com genes da europa central e de leste: David J. Gross, H. David Politzer e Frank Wilczek. Mais um nobel para o MIT, em conjunto com o CIT de Pasadena e a Universidade da Califórnia em Santa Bárbara.

segunda-feira, outubro 04, 2004

Apocalipses destes nem na Bíblia

O telescópio de raios X da ESA, o XMM-Newton, observou uma colisão frontal entre dois aglomerados de galáxias que destruiu milhares de galáxias e milhões de estrelas. A seguir ao Big Bang, este é o fenómeno cósmico capaz de libertar mais energia (gif de animação da NASA).

Os livros de que se fala

Já falei aqui várias vezes no programa "Tout Le Monde En Parle" (TV5, domingos às 23.50), aquele que eu classifico como provavelmente o melhor talk-show do mundo. A incomparável rentrée literária francesa tem um espaço especial neste programa, tal como os novos discos, os novos filmes, as novas peças de teatro. Tudo num ambiente descontraído e de aceso debate, só como em França. Em que outro talk-show do planeta podemos ver debates entre americanos (às vezes anti-franceses) e franceses (às vezes anti-americanos)?
Este domingo, mais dois livros que me parecem ser muito interessantes:

"Le Guignol et Le Magistrat", Philippe Bilger & Bruno Gaccio, Flammarion. Bruno Gaccio é um dos produtores das "guignoles" (o equivalente francês dos bonecos da Contra-Informação) e Philippe Bilger é um destacado magistrado francês. Em conjunto e em jeito de confrontação ambos produzem um texto interessantíssimo sobre a liberdade de expressão nos meios de comunicação. Como estamos longe do nosso portugaleco das TVIs a filmar os "populares" assanhados...

"What We've Lost", de Graydon Carter (editor da Vanity Fair). Trata-se de uma reflexão sobre os danos causados na democracia americana pela ideologia que se implantou nos EUA a pretexto do 11 de Setembro.


sábado, outubro 02, 2004

Sábado em Coimbra XVI: no video clube Avenida

..."as Invasões Bárbaras de Denys Arcand"..."olha, o Declínio do Império Americano, outro do Arcand, ando há anos para ver este filme".
Fica na prateleira.
"Os Idiotas do Von Trier, este fica já escolhido"...
"Intimidade, já vimos", "tu viste, eu estava a escrever a tese e ia só espreitando"...
"Romance X com o Rocco também já vimos, uma bela seca".
Os Hitchcocks da prateleira de baixo também não convencem.
Olho para um Spike Lee e fico calado, não quero impor mais uma escolha.
"A Minha Mulher é uma Actriz, do Yvan Attal, o mesmo realizador de Casaram e Tiveram Muitos Filhos, aquele filme de que te falei com a Charlotte Gainsbourg", "não conheço, mas levamos, passo a conhecer!"

Sábado em Coimbra XV

sexta-feira, outubro 01, 2004

A melhor notícia para o planeta dos últimos anos

Essa notícia é que a Rússia irá ratificar o protocolo de Quioto. Ao ratificar o protocolo a Rússia dá dois contributos importantíssimos para um melhor futuro do planeta:

1 - Sendo um dos países que mais polui no mundo (responsável por cerca de 6 % de poluição equivalente CO2), a Rússia ao aceitar as condições do protocolo estará vinculada a implementar medidas importantíssimas que irão reduzir o seu volume emissões poluentes nos próximos anos. Isso é excelente para a saúde do planeta!

2- Com a adesão da Rússia o protocolo de Quioto ganha estatuto internacional. Para obter esse estatuto o protocolo precisava de um número mínimo de países aderentes, condição que já se verificava, e de uma percentagem mínima da população do mundo, com a adesão da Rússia essa percentagem mínima foi ultrapassada.

Os louros desta decisão da Rússia vão em grande parte para a União Europeia, que tem pressionado constantemente o governo russo a tomar esta decisão.
A notícia poderia ser ainda melhor se os dois países que mais poluem o planeta aderissem a este tratado: os EUA (25 % da poluição global) e a China (14%).

quarta-feira, setembro 29, 2004

No tempo em que o petróleo era inofensivo

"...di verso tramontana confina con Giorges [Geórgia]; e in questo confine è una fontana, ove surge tanto olio in tanta abbondanza, che cento navi se ne caricherebbero alla volta; ma egli non è buono da mangiare, ma sì da ardere; è buono da rogna e ad altre cose; e vengono gli uomini molto dalla lunga per questo olio, e per tutta quella contrada non s'arde altro olio"

Marco Polo, "Il Milione"

terça-feira, setembro 28, 2004

CERN: continua o "nãoooo pagaaaamos"

Eu já aqui tinha alertado para o não pagamento das quotas do CERN por parte do Ministério da Ciência. A situação de não cumprimento continua, mas desta vez ganhou visibilidade e chegou às páginas da edição em papel do Publico. Pode ser que se regularize finalmente a situação, mas a herança da equipa mais irresponsável e manhosa que passou pelo Ministério, a equipa de Pedro Lynce, continua a causar danos sérios à imagem da ciência nacional em instituições internacionais de grande prestígio como é o CERN.
Volto a chamar a atenção: a situação em relação à ESA é semelhante, temos quotas por pagar!

segunda-feira, setembro 27, 2004

Boa ciência na TV

O canal de notícias EuroNews criou recentemente uma rubrica intitulada "Space", financiada pela Agência Espacial Europeia, onde são apresentadas reportagens interessantíssimas sobre os últimos desenvolvimentos científicos e sobre o impacto da tecnologia espacial na sociedade. O EuroNews no cabo deixou de ser traduzido para português quando começou a Guerra no Iraque, terá sido coincidência ou um corte de fundos do nosso governo com objectivos ideológicos velados?...

Outra novidade é o programa Megaciência da SIC que segue um modelo de programa científico para o grande público já realizado com sucesso na Alemanha. É um programa fresco e dinâmico onde são apresentadas e explicadas muitas experiências curiosas que revelam a importância da ciência na nossa sociedade.

sábado, setembro 25, 2004

Sábado em Coimbra XV: Kid & Khan

Este Sábado começou de madrugada na Via Latina a ouvir os Kid & Khan. O som electro-punk destes rapazes era sofisticado, mas as palavras que acompanhavam o som deste duo vindo da Alemanha não me seduziram. A língua inglesa já é uma língua demasiadamente simples para o meu gosto, mas pode tornar-se inoportuna quando é recitada através de lugares comuns e de frases cuja falta de riqueza revelam a proveniência não anglo-saxónica dos autores.
Saí antes de acabar, a cheirar a fumo até à raíz dos cabelos.

Sábado em Coimbra XIV

sexta-feira, setembro 24, 2004

Mundo de Aventuras XI

Em torno da caldeira de um vulcão suficientemente grande formam-se por vezes uns mini-desertos, é o caso do vulcão que deu oriegm ao Crater Lake. A caldeira do vulcão estava nas minhas costas, aqui vemos o sopé.

(Crater Lake, Oregon, EUA, 2003)

Mundo de Aventuras X

quinta-feira, setembro 23, 2004

Livro de Blix: Armas de Desaparecimento em Massa

Estranhamente, parece que o livro onde Hans Blix relata o processo de inspecções que dirigiu no Iraque ainda não foi traduzido para português.
Li a versão francesa: "Irak, les armes introuvables", Fayard, 2004. É um livro interessantíssimo que aconselho sobretudo a todos aqueles que se fartaram de opinar sobre as armas de destruição em massa. Nem é tanto para verificarem o que erraram, é mais para tentarem escrutinar o pouco em que acertaram. A verdade é que depois de ler o livro de Blix, um livro de argumentação bem fundamentada (método que é considerado um mau hábito aqui na Lusitânia), chega-se à conclusão que bem mais de metade das coisas que se iam dizendo sobre as armas de destruição em massa eram erradas.

Ao longo de todo o livro percebe-se que Blix é uma pessoa que prima por uma honestidade extrema. Durante o processo de inspecções descrito por Blix fica claro que este não cede às pressões dos EUA e do Reino Unido, mas também não alinha na fácil tentação de se tornar num ícone do militantismo anti-guerra. Blix mostra que é um cientista a sério não se afastando nem um milímetro do pragmatismo que o trabalho de inspecções exige.

Mas por detrás desta capa de profissional duro e exigente, Blix revela no seu livro um requintado e irónico sentido de humor que polvilha deliciosamente a sua obra desde a primeira à última página. Querem exemplos? Aqui vai:

- Título do cap. XII: "Après la guerre: les armes de disparition massive".

- Título de sub-capítulo do cap. XII: "La mère de toutes les erreurs"

- "...millions de personnes dans la rue à travers le monde, États-Unis compris. À New York, le défilé passait près de mon immeuble de Manhattan, et je m'étais retrouvé au milieu de la foule en sortant acheter du lait. J'avais même craint un instant d'être reconnu et de me voir hissé sur un camion de manifestants en guise de mascotte."

- "L'ambassadeur de Suède m'offrit une affiche qu'il avait ramassé dans la rue après la manifestation. Elle portait le slogan BLIX-NOT BOMBS! Elle est toujours accroché à mon mur."

quarta-feira, setembro 22, 2004

Silêncio! Estamos a ser espiados

Aqui há dias tropecei num livro do qual não se fala, sobre o qual não se debate. É como se não existisse, mas existe. Intitula-se "Os americanos espiam a Europa? - O caso ECHELON dois anos depois", Editorial Notícias, 2004. O autor é Carlos Coelho, o eurodeputado português do PSD que foi responsável pela elaboração do relatório ECHELON. O livro fala de um assunto grave, em que empresas europeias já foram altamente prejudicadas pela espionagem norte americana como o denuncia o próprio relatório. Porque é que paira um silêncio estranho sobre este livro?

terça-feira, setembro 21, 2004

:*

En un baiser partons vers un monde inconnu
Alfred de Musset

Educação na RTP: dar voz aos piores

Apanhei a meio o debate sobre a educação no Prós e Contras da RTP. Ouvi a Prof. Fátima Bonifácio repetir as mesmas ideias erradas e sem fundamento sobre a educação. Porque é que os que erram, os que não sabem fundamentar as suas posições, é que têm tempo de antena? Porque é que, por exemplo, o Prof. Carlos Fiolhais (que na Sociedade Portuguesa de Física tem um contacto privilegiado com os professores) faz uma resenha histórica sobre a educação que deixa a um canto as opiniões avulsas da historiadora Fátima Bonifácio não é sequer convidado para programas deste tipo? Temos medíocres a comentar, propagam-se opiniões medíocres e depois tomam-se medidas políticas medíocres. Como é que uma pessoa que é paga por uma universidade pública para formar pessoas e para investigar, que não publica em revistas internacionais da especialidade e por isso não tem contacto nem crítica internacional, que é arrogante ao ponto de chamar ignorantes aos recém licenciados, que nem sequer sabe fazer uma simples análise histórica sobre a educação num simples artigo de jornal (onde demonstra que não tem o mínimo de noções sobre estatística e amostras representativas), tem a lata de ir a um programa de televisão falar em rigor, em esforço, em trabalho e em disciplina?! Poupem-me! No dia em que Fátima Bonifácio se confrontar cientificamente com os investigadores de história da sua área de outros países, aí sim, pode ter alguma autoridade para falar.

segunda-feira, setembro 20, 2004

Os filmes de que se fala

"Der Untergang" de Oliver Hirschbiegel
Um filme alemão de qualidade sobre os últimos dias de Hitler no seu bunker. Bruno Ganz é Hitler. Para quem viu Bruno Ganz em "Asas do Desejo" é estranho, Ganz passa de anjo a demónio.

"Uncovered: The War on Iraq" de Robert Greenwald
Para quem ficou incomodado com Fahrenheit 9/11 de Michael Moore e andou por aí desesperado a fazer buscas de páginas de fanáticos conservadores no Google que desmentissem o filme de Moore, tem neste filme de Greenwald ainda mais motivos para desesperar. É mais um documentário sobre as aldrabices que serviram de pretexto para atacar o Iraque, mas desta vez sem o humor de Moore, numa onda mais séria e com convidados de peso, como Hans Blix.

sábado, setembro 18, 2004

Bagão Félix empatou o país ao apostar no mito do absentismo

Ainda durante o executivo de Durão Barroso, Bagão Félix baseou uma boa parte das suas políticas sobre emprego e produtividade no mito/boato de que os trabalhadores portugueses teriam uma alta taxa de absentismo por "doença" (as aspas ilustram melhor o que Bagão pensava sobre o assunto). O estudo da revista britânica "Occupational and Environmental Medicine" desmente por completo as teorias de Bagão sobre absentismo. Quer isto dizer que durante dois anos foram praticadas políticas para combater um mal que afinal não existia. Durante os mesmos dois anos perdeu-se a oportunidade para fomentar políticas modernas de emprego e produtividade como: o aumento da contratação de mão-de-obra qualificada, a renovação tecnológica das empresas, a criação de mais parcerias entre as Universidades e as empresas, etc. Enveredou-se pela direcção errada durante dois anos por causa de um mito!

Portugal é fértil em mitos deste tipo
O problema é que estes mitos depois propagam-se e estimulam a implementação de políticas erradas. Para além deste belo mito que agora acabou ainda temos muitos mitos e lendas como: os beneficiários do rendimento mínimo andam de Mercedes e têm piscinas (gosto do "requinte" da piscina), os estudantes são todos uns bêbados e andam de BMW, as mulheres e as minorias étnicas agora têm benefícios a mais (vá lá ainda não lhes colaram nenhuma marca de carros de topo de gama), "a escola dantes é que era", em Portugal gasta-se dinheiro a mais na educação (este também foi ferido de morte após o último relatório da OCDE), etc., etc., etc!

sexta-feira, setembro 17, 2004

Mundo de Aventuras X


(MCI Center, Washington, Novembro de 2002)

Confesso que me surpreendeu a cerimónia do hino dos EUA no início de um jogo da NBA. O atentado ao WTC tinha sido à cerca de um ano, havia um ambiente especial no ar, parecia-me puro, ainda não se tinha borrado a escrita com a intervenção no Iraque.

Considero que a forma como se encara o desporto de alta competição nos EUA faz parte daquele conjunto de coisas que se fazem melhor do outro lado do Atlântico do que na Europa. Há um ambiente saudável à volta das equipas. Neste jogo entre os Washington Wizards e os Utah Jazz, a equipa visitante foi apresentada pelo animador da casa com muito entusiasmo à medida que ía anunciando as proezas estatísticas de cada um dos jogadores dos Jazz. Algumas semanas mais tarde quando Michael Jordan foi jogar pelos Wizards a Chicago contra a sua ex-equipa dos Bulls, o público de Chicago ao constatar que Michael Jordan estava no banco começou a gritar por ele: "We want Michael! We want Michael!". Isto contrasta com um Benfica-Porto a que assisti na Luz em que o animador ao anunciar a equipa do FC Porto se recusou a dizer o nome de Rui Águas, que entretanto se tinha mudado do Benfica para o Porto. As assobiadelas a Jardel no estádio das Antas quando este representou o Sporting também não foram nada bonitas. Na NBA a importância que se dá às estatísticas, às jogadas, às tácticas e às prestações dos jogadores contrastam com a conversa da treta do "sistema" e das culpas do árbitro que dominam o discurso desportivo em Portugal e em menor parte noutros países Europa. Mesmo o melhor campeonato organizado na Europa, a Liga dos Campeões, fica-se muito aquém da NBA na qualidade do espectáculo televisivo e sobretudo do espectáculo no próprio recinto. Já assisti a jogos da Liga dos Campeões em várias partes da Europa (o estádio mais animado que vi foi o Olímpico de Munique) e nenhum deles chega aos calcanhares do espectáculo que envolve o público de um simples jogo da NBA, onde há espectáculo mesmo nos tempos mortos do jogo.

Um ressalto de sonho


Lá do cimo do terceiro anel no meu lugar a 50 $ (a NBA é caríssima mas vale a pena) registei este ressalto de sonho onde figuram alguns dos deuses da NBA. Quando olho para esta foto em que Michael Jordan (23), Karl Malone (32) e Andrei Kirilenko (de frente, camisola escura) estão prestes a disputar o ressalto que vai resultar do lançamento livre de John Stockton não consigo resistir a cometer um pequeno pecado de pensamento. Imagino-me ali do lado direito de Kirilenko, a entalá-lo, e a disputar o ressalto com o Carteiro Malone e o Deus Jordan, que andavam já picados um com o outro! E se o ressalto na tabela fosse favorável era tipo para o ganhar, afinal só tenho menos 4 cm que o Deus Jordan. Ok, eu sei que só ousar pensar nisso é pecado, quanto mais...

Mundo de Aventuras IX

quarta-feira, setembro 15, 2004

Barreto: velhas opiniões erradas sobre a educação

Os dois artigos de Barreto sobre a educação publicados no Publico são mais um contributo para as velhas e cansadas opiniões que fazem a apologia do ensino no passado (ler artigo I e artigo II). Se olharmos para trás encontramos sempre este tipo de opiniões. Foi assim há 20 anos, foi assim há 40 anos, há 60, há 80, etc. O JPT do Ma-Schamba num dos comentários aos meus textos sobre este tipo de visão sobre a educação desabafa : "envelhecer custa imenso". Parece-me que o JPT anda muito próximo da verdade.

Confesso que os dois artigos de António Barreto são muito mais bem fundamentados do que o normal deste tipo de artigos (basta comparar com o medíocre artigo de Fátima Bonifácio). Barreto contextualiza historicamente os seus pontos de vista de uma forma muito interessante, mas na ânsia de passar um atestado de incompetência às novas gerações erra, e erra bastante!

Por agora, fico-me pela crítica a esta afirmação de Barreto: "Os progressos reais na educação, nas taxas de aproveitamento, nos níveis de conhecimento, nos graus de formação científica, cultural e profissional, não parecem proporcionais a tão relevante aumento da despesa nacional pública".

De facto os progressos não parecem proporcionais, porque nalguns domínios não são proporcionais são exponenciais, o que é bastante melhor. Na formação científica isso é mais do que óbvio (quase todos os gráficos de produção científica dos últimos anos são exponenciais). Na formação profissional, a mão-de-obra qualificada e o número de empresas contratadas por grandes empresas e instituições internacionais de renome (ESA, CERN, NASA, etc.) tem crescido a um ritmo impressionante e exponencial (consultar sítio da FCT). Nos níveis de conhecimento e de formação cultural Barreto também se engana (ler Jorge Paulinhos do BdE). Quanto às taxas de aproveitamento, considero um erro Barreto misturar este indicador com os restantes. Uma baixa taxa de aproveitamento tanto pode indiciar um grande grau de exigência de ensino como uma pobre formação dos alunos na preparação das provas. Se esta última conclusão é negativa, a primeira pode ser bastante positiva.

Como já tinha referido em textos anteriores sobre o ensino em Portugal, o nosso problema não é o investimento a mais, é sim o investimento a menos e sempre feito com algum atraso em relação aos outros países da Europa. O artigo de Carlos Fiolhais "O atraso português" publicado no Primeiro de Janeiro e no livro "A coisa mais preciosa que temos" não deixa dúvidas em relação ao problema do investimento no ensino. O que é pior no artigo de Barreto é este transmitir a ideia errada de que Portugal nos últimos anos investe acima dos valores investidos pelos países mais desenvolvidos. Essa ideia é desmentida pelos dados da "Education at Glance - 2004", apresentados pela OCDE, como relembra o próprio Jorge Paulinhos.

segunda-feira, setembro 13, 2004

Nebulosa do Olho de Gato em maior detalhe

O telescópio espacial Hubble brindou-nos com uma nova imagem da nebulosa planetária do Olho de Gato com um detalhe nunca antes conseguido. Esta imagem vem reforçar a ideia que os anéis são muito mais comuns neste tipo nebulosas do que o anteriormente previsto.

(Imagem do sítio da ESA. Aqui imagem de alta resolução)

sábado, setembro 11, 2004

Sábado em Coimbra XIV: o meu Rocinante estava doente

Fui buscar a minha montada à oficina. O meu Rocinante azul estava doente, constipou-se, vêm as primeiras chuvas e já se sabe. Juntos percorremos mais de 100 mil quilómetros pelos trilhos da Europa. Vimos as praias de Zandvort, subimos aos Tatras, levámos uma multa injusta em Trenčin, espreitámos o Carnaval de Mainz, quisemos imitar Michele Vaillant no Grande Prémio de Paris e fizemos a caótica rotunda do Arco do Triunfo, fizemos Estrasburgo-Figueira três vezes, a última vez com a casa às costas, Praga, Bratislava, Munique, Estugarda, Eindhoven, Bruxelas, Bordéus, Gasteiz, Donostia, Salamanca, Vaduz, Zurique, Basileia, Freiburg e Viena viram-nos passar. Nunca me traiu. O seu coração alemão, o seu corpo catalão e a sua alma ibérica funcionaram sempre como um relógio, ele só me pedia palha e de vez em quando umas ferraduras novas. Ele hoje olhou-me com aqueles faróis tristes, como se estivesse adivinhar que em breve o irei trocar por outra montada mais jovem e fresca. Eu não quero pensar nisso.

Sábado em Coimbra XIII

sexta-feira, setembro 10, 2004

Mundo de Aventuras IX

É engraçado, na RTP passa o filme "Rudy: The Rudolf Giuliani Story". Na altura em que andava a ser rodado o filme cruzei-me com a equipa de filmagens e com os actores em pleno Central Park. Tirei este bonequinho do actor James Woods (Rudolf Giuliani).

(Central Park, Nova Iorque, 2002)

Rudolf Giuliani é uma personagem que não me inspira qualquer simpatia. As suas posições conservadoras e radicais provocam-me um profundo repúdio. Entre muitas das suas medidas doentias, a que revela melhor a sua pobreza de espírito é a proibição de dançar sem uma autorização especial nos bares, nos clubes e nas discotecas de Nova Iorque. Actualmente, há apenas cerca de 90 estabelecimentos que têm essa autorização em toda a cidade, mais ou menos o mesmo número de estabelecimentos onde se pode dançar aqui em Coimbra, que são todos os estabelecimentos da cidade. Nova Iorque tem cerca de 100 vezes mais habitantes...
Na Albânia também havia umas medidas deste nível, uns barbeiros no aeroporto para cortar o cabelo aos homens de cabelo comprido que entravam no país. Giuliani iria gostar.

Mundo de Aventuras VIII

Treinos de futebol nos telejornais

Numa das últimas entradas declarei-me indignado por em Portugal existir o mau gosto da televisão pública apresentar nos telejornais como notícia de interesse os banais treinos de futebol diários das equipas de futebol. Neste artigo do Publico, Eduardo Cintra Torres (ECT) faz uma excelente análise a um telejornal da TVI. ECT tece uma crítica impiedosa sobre os incontornáveis treinos das equipas de futebol que fazem parte do leque de pérolas do Jornal Nacional da TVI. Vale a pena ler.

Ranking mundial de universidades

O João do Aba de Heisenberg chamou a atenção para um ranking mundial das 500 melhores universidades elaborado pela Universidade de Shangai Jiao Tong. Nessa lista de 500 universidades encontramos apenas uma universidade portuguesa. A honra cabe à Universidade de Lisboa muito por causa da pontuação relativa ao coeficiente Nobel. Egas Moniz, que curiosamente se formou aqui em Coimbra, ganhou o prémio Nobel quando trabalhava na Universidade de Lisboa.
Aqui no laboratório pedimos as classificações das universidades portuguesas que não apareciam nas 500 primeiras e recebemos o seguinte top 5:

Porto- 27,1
Coimbra- 25,5
Aveiro- 24,7
Lisboa (IST ?)- 22,7
Nova Lisboa- 20,8

É claro que estas classificações são discutíveis, mas são apesar de tudo um bom indicador. Este ranking é demolidor para a nossa auto-estima. Resta-me a magra consolação pessoal de ter passado por duas universidades que estão entre as 200 primeiras: a Universidade de Pádua onde fiz um Erasmus e a Universidade Louis Pasteur onde me doutorei.

quinta-feira, setembro 09, 2004

Mais um mau artigo sobre o ensino

Assim que tiver tempo explicarei porque acho maus os artigos de Barreto no Público sobre a educação. Aproveitarei para pegar nalguns pontos de vista lançados pelos leitores da Klepsýdra no debate gerado em recentes entradas sobre o ensino e a Universidade.

Começa logo pelo título, colando etiquetas políticas ao ensino (direita e esquerda) é logo meio caminho andado para se perder a objectividade na análise. Eu sou daqueles que acha que o ensino (e a investigação) e a sua análise devem ser mais ou menos como a justiça: cegos. Por isso no que escreverei evitarei ao máximo falar em esquerda e direita. Até já!

quarta-feira, setembro 08, 2004

Poeira solar

Este é o sítio onde podemos seguir dentro de algumas horas a espectacular captura da Genesis, a missão que recolheu amostras da poeira que constitui o vento solar. Se correr tudo bem, resta depois esperar pela análise dessas partículas. Será que ficaremos a conhecer melhor o Sol? Um dos grandes mistérios do Sol é o de saber como é o interior do Sol para lá de cerca de 10% do seu raio.

Ajudar a Ossetia

A cruz vermelha criou uma conta para envio de donativos às vítimas do ataque à escola de Beslan.

terça-feira, setembro 07, 2004

De volta à dura realidade

Após alguns dias na Rep. Checa e na Eslováquia regresso a este país; este país em que os treinos das equipas de futebol são notícia de telejornal da televisão pública; este país que cultiva um fundamentalismo religioso em pleno século XXI, uma inquisição orgulhosa de ser vista com pena e com gozo pelo resto da Europa; este país que deixa passivamente ano após ano a floresta arder. A Rep. Checa tem 86% da população com o ensino secundário completo, a Eslováquia tem 85% e Portugal tem 21%. Estes números devem explicar muita coisa, eu pelo menos sinto essa diferença no simples contacto com as pessoas, no nível das conversas, no que lêem, no que vêem na televisão e no cinema.

quarta-feira, setembro 01, 2004

Um castelo e uma cerveja

A cerca de 40 km de Praga podemos visitar o castelo de Konopište. Lá dentro podemos apreciar uma soberba coleccao de armas, a terceira maior da Europa. O castelo pertenceu a Francisco Fernando, o arquiduque austríaco cujo assassinato em Sarajevo esteve na origem da Primeira Guerra Mundial. O castelo fica no cimo de uma colina. No fim da visita, depois de se descer a colina a pé sabe bem beber uma Ferdinand, a cerveja local de Konopište. No país da cerveja nao se devem perder estas ocasioes.