segunda-feira, outubro 11, 2004

Desmontado o cenário apocalítico das ADM no Iraque

Durante o processo de inspecções do Iraque lideradas por Hans Blix existiu uma constante pressão da administração Bush para montar um cenário de uma suposta ameaça apocalíptica da parte do Iraque sobre o mundo ocidental, os EUA e Israel em particular. Esse cenário em que supostamente armas de destruição em massa (ADM) estariam prontas a ser disparadas em 45 minutos nunca foi verificado por qualquer observação dos inspectores no Iraque liderados por Hans Blix, nem pelos melhores especialistas mundiais de ADM (Departamento de Energia dos EUA, DE; Institute for Science and International Security, ISIS; e Agência Internacional de Energia Atómica, AIEA). Por outro lado a tentativa de montar um cenário apocalíptico por parte dos EUA e do Reino Unido não é uma simples opinião política, essa tentativa foi bem real, está documentada e registada e ironicamente acabou por obter resultados em países em que existe um défice de consciência crítica e de falta de rigor dos políticos em assuntos de carácter científico, como em Portugal.
Hans Blix no seu livro "Irak, les armes introuvables" descreve com detalhe e de uma forma muito fundamentada as ilusões que a propaganda americana e britânica impingiram ao mundo com algum sucesso. Depois do anúncio da comissão americana de inspecções de armamento no Iraque de que não existiam ADM, todos os argumentos apresentados pela administração Bush parecem hoje particularmente ridículos e falsos. No entanto convém recordar os argumentos que sustentaram a existência de ADM no Iraque, para que não caiam no esquecimento:

1- Uma ogiva para explosivos de fragmentação para mísseis de curto alcance encontrada numa sucata de uma fábrica encerrada e decadente. Supostamente serviria para espalhar agentes químicos. Não foi encontrado qualquer vestígio de agentes químicos ou biológico na ferrugem dos restos da ogiva.

2- Um drone com um raio de acção de controlo a partir do solo de 8 km, cuja capacidade de carga útil era inferior a 20 kg. Supostamente serviria para espalhar agentes químicos. Com uma carga útil de 20 kg e um raio de controlo de 8 km deveria ser para matar pássaros na periferia de Bagdad...

3- Tubos de alumínio para enriquecimento de urânio por centrifugação - Foram comprados ilegalmente, mas serviam para a construção de foguetes. O DE e AIEA declararam vezes sem conta que aqueles tubos não serviam para as centrifugadoras. Um dos inspectores americanos depois intervenção no Iraque sugeriu que fossem utilizados em canalizações...

4- "Yellow stone" ou urânio natural supostamente importados pelo Iraque ao Niger é um material cuja utilização em armas nucleares requer um tratamento industrial complexo que a caduca indústria Iraquiana nunca poderia executar. O mais engraçado, é que a suposta importação de "yellow stone" por parte do Iraque é baseada num recibo apresentado pela administração americana e que se provou ser uma falsificação. A administração Bush declarou mais tarde que "alguém" falsificou esse recibo, eles só o tinham apresentado. Nunca se soube quem era esse "alguém". É outra forma de dizer "não sei quem FUI"...

5- Os famosos camiões de armas biológicas apresentados por Powell na ONU, como se veio a confirmar no fim da guerra, eram camiões de transporte de hidrogénio utilizados em balões meteorológicos de alta altitude. Já assisti a um lançamento de um balão a hidrogénio desse tipo e posso garantir que é algo de muito corrente o facto do enchimento ser feito por camiões. Mas o pior de toda esta história é que a ISIS, os especialistas em armas biológicas dos EUA, da Rússia e do Iraque disseram que aquela acusação só revelava uma ignorância tremenda dos serviços secretos britânicos. É que todos os especialistas em armas biológicas, inclusive os Iraquianos, consideravam a opção de utilização de camiões como uma opção perigosíssima, pois basta um pequeno acidente de trânsito para provocar uma catástrofe. O calor que se faz sentir no Iraque torna impraticável a utilização de laboratórios móveis que pudessem funcionar a uma temperatura aceitável sem adulterar os agentes biológicos.

Quase todas estas informações eram conhecidas antes da intervenção, mesmo assim avançou-se para o Iraque sob o pretexto das ADM. O cúmulo do propagandismo americano foi quando Condoleza Rice algumas semanas antes da intervenção no Iraque declarou: "as pessoas só vão dar razão aos EUA quando virem um cogumelo nuclear [produzido pelo Iraque]". Isto depois da AIEA, do DE dos EUA e da ISIS terem dado como finalizadas as inspecções de armas nucleares e como encerrado o programa nuclear Iraquiano...

sábado, outubro 09, 2004

Sábado em Coimbra XVII: o enigma da Romã

Hoje de manhã no mercado ao reparar na enorme oferta de romãs, lembrei-me de uma descoberta simpática que fiz com um ex-colega libanês com quem almoçava diariamente quando trabalhei no CNRS de Estrasburgo. Para espanto nosso, o raro fruto que em francês ambos chamávamos grenadine pronunciava-se romã tanto em português como em árabe. Ao chegar do mercado decidi clarificar o enigma da origem da palavra. Tal como desconfiava, romã é uma palavra latina que foi absorvida pelos árabes. Em latim era a maçã romana ou mala romana.

Sábado em Coimbra XVI

quinta-feira, outubro 07, 2004

O "contraditório" não se aplica à RTP

O argumento do "contraditório" aplicado a uma televisão privada como a TVI é sem dúvida ridículo, mas em relação à estatal RTP a coisa deveria piar mais fino, sendo ela paga por todos nós.
Quem é que faz o contraditório desta astróloga que tem 15 min de antena por dia, 75 min por semana?


(Diariamente na RTP 1 entre as 10h e as 13h, a senhora astróloga Cristina Candeias tem 15 generosos minutos de tempo de antena)

Como "contraditório" a esta senhora bastaria um simples livro de astronomia ou de estatística do secundário para desmontar todos os seus mecanismos de charlatanice básica. Mas não, ela tem mais tempo de antena por semana numa estação pública que Marcelo Rebelo de Sousa na TVI, mais tempo de antena que outras formas de espiritualidade reconhecidas pelo estado como o Judaísmo e o Islão, mais tempo de antena do que qualquer investigador ou professor, para transmitir as suas consultas astrológicas em directo fazendo publicidade de uma forma gratuita à sua actividade profissional fora da RTP . Tudo isto sem o tal "contraditório", aldrabando e deturpando alegremente conceitos ensinados em qualquer escola secundária pública e ainda recebendo por isso. Mas pelos vistos o Prof. Marcelo é uma pior ameaça para país, a propagação da estupidez não interessa muito ao governo, aliás o primeiro-ministro até vai à bruxa e usa pulseirinha de boa-sorte.

quarta-feira, outubro 06, 2004

A propósito de Kennedy

A excelente cadeia de televisão ARTE passa hoje uma reportagem de 75 min sobre o assassinato de JFK às 19.45 h (a hora é chata, mas é melhor do que assistir a câmaras de televisão a assanharem pobres de espírito nos nossos telejornais). Esta reportagem é integrada numa série sobre assassinatos políticos (Luther King, Rabin, Gandhi etc.) a transmitir todas as quartas, a que a ARTE chama "Les mercredis de l'histoire".

Só nestas "Quartas-feiras da História", a ARTE transmite mais reportagens e debates sobre a história de Portugal que todas as televisões portuguesas juntas. As melhores reportagens que vi sobre história de Portugal eram reportagens alemãs e francesas produzidas pela ARTE.

Tudo ao contrário: auto-estradas e petróleo

1- Portugal do ponto de vista energético é dos países da União Europeia que mais depende do petróleo, que é uma matéria prima que importamos na totalidade.

2- Portugal tem uma das piores redes de auto-estradas e de estradas nacionais da UE (e já conto com os novos 10 países da UE), e possui a segunda taxa de sinistralidade mais elevada. Esta sinistralidade deve-se sobretudo aos acidentes nas estradas nacionais, pois as auto-estradas portuguesas possuem uma sinistralidade comparável à média da UE.

Perante estes dois factos seria muito mais lógico Portugal fazer um esforço de obtenção de receitas taxando mais o petróleo em vez de taxar as auto-estradas. Deste modo, penalizava-se o uso de combustíveis fósseis que não produzimos e aproveitavam-se as receitas para pagar as auto-estradas e para transformar a rede transportes públicos para operarem com energias renováveis. A longo prazo reduziríamos a dependência do petróleo, logo as importações, logo perderíamos menos dinheiro e o ambiente agradeceria.

Mas não, faz-se tudo ao contrário! Debitam-se expressões infantis como o "utilizador-pagador", como quem diz "gostas de amoras-então já namoras", que são tanto ao gosto dos populistas recém chegados ao governo. Aliás, com um novo Ministro das Obras Públicas que veio da GALP, a questão de taxar preferencialmente os combustíveis fósseis deixa automaticamente de ser ponderada. E por aqui andaremos nós mais uns anos a penar, num país com problemas de dinamismo, com o problema mais grave de centralismo da EU, a pagar as portagens mais caras da Europa em auto-estradas vazias, a beber desalmadamente petróleo importado, esquecendo que em breve temos que mudar radicalmente os nossos hábitos de consumo de energia, até ao dia em que alguém responsável perceber em que buraco nos metemos.

terça-feira, outubro 05, 2004

Já temos Nobel da Física

Três americanos com genes da europa central e de leste: David J. Gross, H. David Politzer e Frank Wilczek. Mais um nobel para o MIT, em conjunto com o CIT de Pasadena e a Universidade da Califórnia em Santa Bárbara.

segunda-feira, outubro 04, 2004

Apocalipses destes nem na Bíblia

O telescópio de raios X da ESA, o XMM-Newton, observou uma colisão frontal entre dois aglomerados de galáxias que destruiu milhares de galáxias e milhões de estrelas. A seguir ao Big Bang, este é o fenómeno cósmico capaz de libertar mais energia (gif de animação da NASA).

Os livros de que se fala

Já falei aqui várias vezes no programa "Tout Le Monde En Parle" (TV5, domingos às 23.50), aquele que eu classifico como provavelmente o melhor talk-show do mundo. A incomparável rentrée literária francesa tem um espaço especial neste programa, tal como os novos discos, os novos filmes, as novas peças de teatro. Tudo num ambiente descontraído e de aceso debate, só como em França. Em que outro talk-show do planeta podemos ver debates entre americanos (às vezes anti-franceses) e franceses (às vezes anti-americanos)?
Este domingo, mais dois livros que me parecem ser muito interessantes:

"Le Guignol et Le Magistrat", Philippe Bilger & Bruno Gaccio, Flammarion. Bruno Gaccio é um dos produtores das "guignoles" (o equivalente francês dos bonecos da Contra-Informação) e Philippe Bilger é um destacado magistrado francês. Em conjunto e em jeito de confrontação ambos produzem um texto interessantíssimo sobre a liberdade de expressão nos meios de comunicação. Como estamos longe do nosso portugaleco das TVIs a filmar os "populares" assanhados...

"What We've Lost", de Graydon Carter (editor da Vanity Fair). Trata-se de uma reflexão sobre os danos causados na democracia americana pela ideologia que se implantou nos EUA a pretexto do 11 de Setembro.


sábado, outubro 02, 2004

Sábado em Coimbra XVI: no video clube Avenida

..."as Invasões Bárbaras de Denys Arcand"..."olha, o Declínio do Império Americano, outro do Arcand, ando há anos para ver este filme".
Fica na prateleira.
"Os Idiotas do Von Trier, este fica já escolhido"...
"Intimidade, já vimos", "tu viste, eu estava a escrever a tese e ia só espreitando"...
"Romance X com o Rocco também já vimos, uma bela seca".
Os Hitchcocks da prateleira de baixo também não convencem.
Olho para um Spike Lee e fico calado, não quero impor mais uma escolha.
"A Minha Mulher é uma Actriz, do Yvan Attal, o mesmo realizador de Casaram e Tiveram Muitos Filhos, aquele filme de que te falei com a Charlotte Gainsbourg", "não conheço, mas levamos, passo a conhecer!"

Sábado em Coimbra XV

sexta-feira, outubro 01, 2004

A melhor notícia para o planeta dos últimos anos

Essa notícia é que a Rússia irá ratificar o protocolo de Quioto. Ao ratificar o protocolo a Rússia dá dois contributos importantíssimos para um melhor futuro do planeta:

1 - Sendo um dos países que mais polui no mundo (responsável por cerca de 6 % de poluição equivalente CO2), a Rússia ao aceitar as condições do protocolo estará vinculada a implementar medidas importantíssimas que irão reduzir o seu volume emissões poluentes nos próximos anos. Isso é excelente para a saúde do planeta!

2- Com a adesão da Rússia o protocolo de Quioto ganha estatuto internacional. Para obter esse estatuto o protocolo precisava de um número mínimo de países aderentes, condição que já se verificava, e de uma percentagem mínima da população do mundo, com a adesão da Rússia essa percentagem mínima foi ultrapassada.

Os louros desta decisão da Rússia vão em grande parte para a União Europeia, que tem pressionado constantemente o governo russo a tomar esta decisão.
A notícia poderia ser ainda melhor se os dois países que mais poluem o planeta aderissem a este tratado: os EUA (25 % da poluição global) e a China (14%).

quarta-feira, setembro 29, 2004

No tempo em que o petróleo era inofensivo

"...di verso tramontana confina con Giorges [Geórgia]; e in questo confine è una fontana, ove surge tanto olio in tanta abbondanza, che cento navi se ne caricherebbero alla volta; ma egli non è buono da mangiare, ma sì da ardere; è buono da rogna e ad altre cose; e vengono gli uomini molto dalla lunga per questo olio, e per tutta quella contrada non s'arde altro olio"

Marco Polo, "Il Milione"

terça-feira, setembro 28, 2004

CERN: continua o "nãoooo pagaaaamos"

Eu já aqui tinha alertado para o não pagamento das quotas do CERN por parte do Ministério da Ciência. A situação de não cumprimento continua, mas desta vez ganhou visibilidade e chegou às páginas da edição em papel do Publico. Pode ser que se regularize finalmente a situação, mas a herança da equipa mais irresponsável e manhosa que passou pelo Ministério, a equipa de Pedro Lynce, continua a causar danos sérios à imagem da ciência nacional em instituições internacionais de grande prestígio como é o CERN.
Volto a chamar a atenção: a situação em relação à ESA é semelhante, temos quotas por pagar!

segunda-feira, setembro 27, 2004

Boa ciência na TV

O canal de notícias EuroNews criou recentemente uma rubrica intitulada "Space", financiada pela Agência Espacial Europeia, onde são apresentadas reportagens interessantíssimas sobre os últimos desenvolvimentos científicos e sobre o impacto da tecnologia espacial na sociedade. O EuroNews no cabo deixou de ser traduzido para português quando começou a Guerra no Iraque, terá sido coincidência ou um corte de fundos do nosso governo com objectivos ideológicos velados?...

Outra novidade é o programa Megaciência da SIC que segue um modelo de programa científico para o grande público já realizado com sucesso na Alemanha. É um programa fresco e dinâmico onde são apresentadas e explicadas muitas experiências curiosas que revelam a importância da ciência na nossa sociedade.

sábado, setembro 25, 2004

Sábado em Coimbra XV: Kid & Khan

Este Sábado começou de madrugada na Via Latina a ouvir os Kid & Khan. O som electro-punk destes rapazes era sofisticado, mas as palavras que acompanhavam o som deste duo vindo da Alemanha não me seduziram. A língua inglesa já é uma língua demasiadamente simples para o meu gosto, mas pode tornar-se inoportuna quando é recitada através de lugares comuns e de frases cuja falta de riqueza revelam a proveniência não anglo-saxónica dos autores.
Saí antes de acabar, a cheirar a fumo até à raíz dos cabelos.

Sábado em Coimbra XIV

sexta-feira, setembro 24, 2004

Mundo de Aventuras XI

Em torno da caldeira de um vulcão suficientemente grande formam-se por vezes uns mini-desertos, é o caso do vulcão que deu oriegm ao Crater Lake. A caldeira do vulcão estava nas minhas costas, aqui vemos o sopé.

(Crater Lake, Oregon, EUA, 2003)

Mundo de Aventuras X

quinta-feira, setembro 23, 2004

Livro de Blix: Armas de Desaparecimento em Massa

Estranhamente, parece que o livro onde Hans Blix relata o processo de inspecções que dirigiu no Iraque ainda não foi traduzido para português.
Li a versão francesa: "Irak, les armes introuvables", Fayard, 2004. É um livro interessantíssimo que aconselho sobretudo a todos aqueles que se fartaram de opinar sobre as armas de destruição em massa. Nem é tanto para verificarem o que erraram, é mais para tentarem escrutinar o pouco em que acertaram. A verdade é que depois de ler o livro de Blix, um livro de argumentação bem fundamentada (método que é considerado um mau hábito aqui na Lusitânia), chega-se à conclusão que bem mais de metade das coisas que se iam dizendo sobre as armas de destruição em massa eram erradas.

Ao longo de todo o livro percebe-se que Blix é uma pessoa que prima por uma honestidade extrema. Durante o processo de inspecções descrito por Blix fica claro que este não cede às pressões dos EUA e do Reino Unido, mas também não alinha na fácil tentação de se tornar num ícone do militantismo anti-guerra. Blix mostra que é um cientista a sério não se afastando nem um milímetro do pragmatismo que o trabalho de inspecções exige.

Mas por detrás desta capa de profissional duro e exigente, Blix revela no seu livro um requintado e irónico sentido de humor que polvilha deliciosamente a sua obra desde a primeira à última página. Querem exemplos? Aqui vai:

- Título do cap. XII: "Après la guerre: les armes de disparition massive".

- Título de sub-capítulo do cap. XII: "La mère de toutes les erreurs"

- "...millions de personnes dans la rue à travers le monde, États-Unis compris. À New York, le défilé passait près de mon immeuble de Manhattan, et je m'étais retrouvé au milieu de la foule en sortant acheter du lait. J'avais même craint un instant d'être reconnu et de me voir hissé sur un camion de manifestants en guise de mascotte."

- "L'ambassadeur de Suède m'offrit une affiche qu'il avait ramassé dans la rue après la manifestation. Elle portait le slogan BLIX-NOT BOMBS! Elle est toujours accroché à mon mur."

quarta-feira, setembro 22, 2004

Silêncio! Estamos a ser espiados

Aqui há dias tropecei num livro do qual não se fala, sobre o qual não se debate. É como se não existisse, mas existe. Intitula-se "Os americanos espiam a Europa? - O caso ECHELON dois anos depois", Editorial Notícias, 2004. O autor é Carlos Coelho, o eurodeputado português do PSD que foi responsável pela elaboração do relatório ECHELON. O livro fala de um assunto grave, em que empresas europeias já foram altamente prejudicadas pela espionagem norte americana como o denuncia o próprio relatório. Porque é que paira um silêncio estranho sobre este livro?

terça-feira, setembro 21, 2004

:*

En un baiser partons vers un monde inconnu
Alfred de Musset

Educação na RTP: dar voz aos piores

Apanhei a meio o debate sobre a educação no Prós e Contras da RTP. Ouvi a Prof. Fátima Bonifácio repetir as mesmas ideias erradas e sem fundamento sobre a educação. Porque é que os que erram, os que não sabem fundamentar as suas posições, é que têm tempo de antena? Porque é que, por exemplo, o Prof. Carlos Fiolhais (que na Sociedade Portuguesa de Física tem um contacto privilegiado com os professores) faz uma resenha histórica sobre a educação que deixa a um canto as opiniões avulsas da historiadora Fátima Bonifácio não é sequer convidado para programas deste tipo? Temos medíocres a comentar, propagam-se opiniões medíocres e depois tomam-se medidas políticas medíocres. Como é que uma pessoa que é paga por uma universidade pública para formar pessoas e para investigar, que não publica em revistas internacionais da especialidade e por isso não tem contacto nem crítica internacional, que é arrogante ao ponto de chamar ignorantes aos recém licenciados, que nem sequer sabe fazer uma simples análise histórica sobre a educação num simples artigo de jornal (onde demonstra que não tem o mínimo de noções sobre estatística e amostras representativas), tem a lata de ir a um programa de televisão falar em rigor, em esforço, em trabalho e em disciplina?! Poupem-me! No dia em que Fátima Bonifácio se confrontar cientificamente com os investigadores de história da sua área de outros países, aí sim, pode ter alguma autoridade para falar.

segunda-feira, setembro 20, 2004

Os filmes de que se fala

"Der Untergang" de Oliver Hirschbiegel
Um filme alemão de qualidade sobre os últimos dias de Hitler no seu bunker. Bruno Ganz é Hitler. Para quem viu Bruno Ganz em "Asas do Desejo" é estranho, Ganz passa de anjo a demónio.

"Uncovered: The War on Iraq" de Robert Greenwald
Para quem ficou incomodado com Fahrenheit 9/11 de Michael Moore e andou por aí desesperado a fazer buscas de páginas de fanáticos conservadores no Google que desmentissem o filme de Moore, tem neste filme de Greenwald ainda mais motivos para desesperar. É mais um documentário sobre as aldrabices que serviram de pretexto para atacar o Iraque, mas desta vez sem o humor de Moore, numa onda mais séria e com convidados de peso, como Hans Blix.

sábado, setembro 18, 2004

Bagão Félix empatou o país ao apostar no mito do absentismo

Ainda durante o executivo de Durão Barroso, Bagão Félix baseou uma boa parte das suas políticas sobre emprego e produtividade no mito/boato de que os trabalhadores portugueses teriam uma alta taxa de absentismo por "doença" (as aspas ilustram melhor o que Bagão pensava sobre o assunto). O estudo da revista britânica "Occupational and Environmental Medicine" desmente por completo as teorias de Bagão sobre absentismo. Quer isto dizer que durante dois anos foram praticadas políticas para combater um mal que afinal não existia. Durante os mesmos dois anos perdeu-se a oportunidade para fomentar políticas modernas de emprego e produtividade como: o aumento da contratação de mão-de-obra qualificada, a renovação tecnológica das empresas, a criação de mais parcerias entre as Universidades e as empresas, etc. Enveredou-se pela direcção errada durante dois anos por causa de um mito!

Portugal é fértil em mitos deste tipo
O problema é que estes mitos depois propagam-se e estimulam a implementação de políticas erradas. Para além deste belo mito que agora acabou ainda temos muitos mitos e lendas como: os beneficiários do rendimento mínimo andam de Mercedes e têm piscinas (gosto do "requinte" da piscina), os estudantes são todos uns bêbados e andam de BMW, as mulheres e as minorias étnicas agora têm benefícios a mais (vá lá ainda não lhes colaram nenhuma marca de carros de topo de gama), "a escola dantes é que era", em Portugal gasta-se dinheiro a mais na educação (este também foi ferido de morte após o último relatório da OCDE), etc., etc., etc!

sexta-feira, setembro 17, 2004

Mundo de Aventuras X


(MCI Center, Washington, Novembro de 2002)

Confesso que me surpreendeu a cerimónia do hino dos EUA no início de um jogo da NBA. O atentado ao WTC tinha sido à cerca de um ano, havia um ambiente especial no ar, parecia-me puro, ainda não se tinha borrado a escrita com a intervenção no Iraque.

Considero que a forma como se encara o desporto de alta competição nos EUA faz parte daquele conjunto de coisas que se fazem melhor do outro lado do Atlântico do que na Europa. Há um ambiente saudável à volta das equipas. Neste jogo entre os Washington Wizards e os Utah Jazz, a equipa visitante foi apresentada pelo animador da casa com muito entusiasmo à medida que ía anunciando as proezas estatísticas de cada um dos jogadores dos Jazz. Algumas semanas mais tarde quando Michael Jordan foi jogar pelos Wizards a Chicago contra a sua ex-equipa dos Bulls, o público de Chicago ao constatar que Michael Jordan estava no banco começou a gritar por ele: "We want Michael! We want Michael!". Isto contrasta com um Benfica-Porto a que assisti na Luz em que o animador ao anunciar a equipa do FC Porto se recusou a dizer o nome de Rui Águas, que entretanto se tinha mudado do Benfica para o Porto. As assobiadelas a Jardel no estádio das Antas quando este representou o Sporting também não foram nada bonitas. Na NBA a importância que se dá às estatísticas, às jogadas, às tácticas e às prestações dos jogadores contrastam com a conversa da treta do "sistema" e das culpas do árbitro que dominam o discurso desportivo em Portugal e em menor parte noutros países Europa. Mesmo o melhor campeonato organizado na Europa, a Liga dos Campeões, fica-se muito aquém da NBA na qualidade do espectáculo televisivo e sobretudo do espectáculo no próprio recinto. Já assisti a jogos da Liga dos Campeões em várias partes da Europa (o estádio mais animado que vi foi o Olímpico de Munique) e nenhum deles chega aos calcanhares do espectáculo que envolve o público de um simples jogo da NBA, onde há espectáculo mesmo nos tempos mortos do jogo.

Um ressalto de sonho


Lá do cimo do terceiro anel no meu lugar a 50 $ (a NBA é caríssima mas vale a pena) registei este ressalto de sonho onde figuram alguns dos deuses da NBA. Quando olho para esta foto em que Michael Jordan (23), Karl Malone (32) e Andrei Kirilenko (de frente, camisola escura) estão prestes a disputar o ressalto que vai resultar do lançamento livre de John Stockton não consigo resistir a cometer um pequeno pecado de pensamento. Imagino-me ali do lado direito de Kirilenko, a entalá-lo, e a disputar o ressalto com o Carteiro Malone e o Deus Jordan, que andavam já picados um com o outro! E se o ressalto na tabela fosse favorável era tipo para o ganhar, afinal só tenho menos 4 cm que o Deus Jordan. Ok, eu sei que só ousar pensar nisso é pecado, quanto mais...

Mundo de Aventuras IX

quarta-feira, setembro 15, 2004

Barreto: velhas opiniões erradas sobre a educação

Os dois artigos de Barreto sobre a educação publicados no Publico são mais um contributo para as velhas e cansadas opiniões que fazem a apologia do ensino no passado (ler artigo I e artigo II). Se olharmos para trás encontramos sempre este tipo de opiniões. Foi assim há 20 anos, foi assim há 40 anos, há 60, há 80, etc. O JPT do Ma-Schamba num dos comentários aos meus textos sobre este tipo de visão sobre a educação desabafa : "envelhecer custa imenso". Parece-me que o JPT anda muito próximo da verdade.

Confesso que os dois artigos de António Barreto são muito mais bem fundamentados do que o normal deste tipo de artigos (basta comparar com o medíocre artigo de Fátima Bonifácio). Barreto contextualiza historicamente os seus pontos de vista de uma forma muito interessante, mas na ânsia de passar um atestado de incompetência às novas gerações erra, e erra bastante!

Por agora, fico-me pela crítica a esta afirmação de Barreto: "Os progressos reais na educação, nas taxas de aproveitamento, nos níveis de conhecimento, nos graus de formação científica, cultural e profissional, não parecem proporcionais a tão relevante aumento da despesa nacional pública".

De facto os progressos não parecem proporcionais, porque nalguns domínios não são proporcionais são exponenciais, o que é bastante melhor. Na formação científica isso é mais do que óbvio (quase todos os gráficos de produção científica dos últimos anos são exponenciais). Na formação profissional, a mão-de-obra qualificada e o número de empresas contratadas por grandes empresas e instituições internacionais de renome (ESA, CERN, NASA, etc.) tem crescido a um ritmo impressionante e exponencial (consultar sítio da FCT). Nos níveis de conhecimento e de formação cultural Barreto também se engana (ler Jorge Paulinhos do BdE). Quanto às taxas de aproveitamento, considero um erro Barreto misturar este indicador com os restantes. Uma baixa taxa de aproveitamento tanto pode indiciar um grande grau de exigência de ensino como uma pobre formação dos alunos na preparação das provas. Se esta última conclusão é negativa, a primeira pode ser bastante positiva.

Como já tinha referido em textos anteriores sobre o ensino em Portugal, o nosso problema não é o investimento a mais, é sim o investimento a menos e sempre feito com algum atraso em relação aos outros países da Europa. O artigo de Carlos Fiolhais "O atraso português" publicado no Primeiro de Janeiro e no livro "A coisa mais preciosa que temos" não deixa dúvidas em relação ao problema do investimento no ensino. O que é pior no artigo de Barreto é este transmitir a ideia errada de que Portugal nos últimos anos investe acima dos valores investidos pelos países mais desenvolvidos. Essa ideia é desmentida pelos dados da "Education at Glance - 2004", apresentados pela OCDE, como relembra o próprio Jorge Paulinhos.

segunda-feira, setembro 13, 2004

Nebulosa do Olho de Gato em maior detalhe

O telescópio espacial Hubble brindou-nos com uma nova imagem da nebulosa planetária do Olho de Gato com um detalhe nunca antes conseguido. Esta imagem vem reforçar a ideia que os anéis são muito mais comuns neste tipo nebulosas do que o anteriormente previsto.

(Imagem do sítio da ESA. Aqui imagem de alta resolução)

sábado, setembro 11, 2004

Sábado em Coimbra XIV: o meu Rocinante estava doente

Fui buscar a minha montada à oficina. O meu Rocinante azul estava doente, constipou-se, vêm as primeiras chuvas e já se sabe. Juntos percorremos mais de 100 mil quilómetros pelos trilhos da Europa. Vimos as praias de Zandvort, subimos aos Tatras, levámos uma multa injusta em Trenčin, espreitámos o Carnaval de Mainz, quisemos imitar Michele Vaillant no Grande Prémio de Paris e fizemos a caótica rotunda do Arco do Triunfo, fizemos Estrasburgo-Figueira três vezes, a última vez com a casa às costas, Praga, Bratislava, Munique, Estugarda, Eindhoven, Bruxelas, Bordéus, Gasteiz, Donostia, Salamanca, Vaduz, Zurique, Basileia, Freiburg e Viena viram-nos passar. Nunca me traiu. O seu coração alemão, o seu corpo catalão e a sua alma ibérica funcionaram sempre como um relógio, ele só me pedia palha e de vez em quando umas ferraduras novas. Ele hoje olhou-me com aqueles faróis tristes, como se estivesse adivinhar que em breve o irei trocar por outra montada mais jovem e fresca. Eu não quero pensar nisso.

Sábado em Coimbra XIII

sexta-feira, setembro 10, 2004

Mundo de Aventuras IX

É engraçado, na RTP passa o filme "Rudy: The Rudolf Giuliani Story". Na altura em que andava a ser rodado o filme cruzei-me com a equipa de filmagens e com os actores em pleno Central Park. Tirei este bonequinho do actor James Woods (Rudolf Giuliani).

(Central Park, Nova Iorque, 2002)

Rudolf Giuliani é uma personagem que não me inspira qualquer simpatia. As suas posições conservadoras e radicais provocam-me um profundo repúdio. Entre muitas das suas medidas doentias, a que revela melhor a sua pobreza de espírito é a proibição de dançar sem uma autorização especial nos bares, nos clubes e nas discotecas de Nova Iorque. Actualmente, há apenas cerca de 90 estabelecimentos que têm essa autorização em toda a cidade, mais ou menos o mesmo número de estabelecimentos onde se pode dançar aqui em Coimbra, que são todos os estabelecimentos da cidade. Nova Iorque tem cerca de 100 vezes mais habitantes...
Na Albânia também havia umas medidas deste nível, uns barbeiros no aeroporto para cortar o cabelo aos homens de cabelo comprido que entravam no país. Giuliani iria gostar.

Mundo de Aventuras VIII

Treinos de futebol nos telejornais

Numa das últimas entradas declarei-me indignado por em Portugal existir o mau gosto da televisão pública apresentar nos telejornais como notícia de interesse os banais treinos de futebol diários das equipas de futebol. Neste artigo do Publico, Eduardo Cintra Torres (ECT) faz uma excelente análise a um telejornal da TVI. ECT tece uma crítica impiedosa sobre os incontornáveis treinos das equipas de futebol que fazem parte do leque de pérolas do Jornal Nacional da TVI. Vale a pena ler.

Ranking mundial de universidades

O João do Aba de Heisenberg chamou a atenção para um ranking mundial das 500 melhores universidades elaborado pela Universidade de Shangai Jiao Tong. Nessa lista de 500 universidades encontramos apenas uma universidade portuguesa. A honra cabe à Universidade de Lisboa muito por causa da pontuação relativa ao coeficiente Nobel. Egas Moniz, que curiosamente se formou aqui em Coimbra, ganhou o prémio Nobel quando trabalhava na Universidade de Lisboa.
Aqui no laboratório pedimos as classificações das universidades portuguesas que não apareciam nas 500 primeiras e recebemos o seguinte top 5:

Porto- 27,1
Coimbra- 25,5
Aveiro- 24,7
Lisboa (IST ?)- 22,7
Nova Lisboa- 20,8

É claro que estas classificações são discutíveis, mas são apesar de tudo um bom indicador. Este ranking é demolidor para a nossa auto-estima. Resta-me a magra consolação pessoal de ter passado por duas universidades que estão entre as 200 primeiras: a Universidade de Pádua onde fiz um Erasmus e a Universidade Louis Pasteur onde me doutorei.

quinta-feira, setembro 09, 2004

Mais um mau artigo sobre o ensino

Assim que tiver tempo explicarei porque acho maus os artigos de Barreto no Público sobre a educação. Aproveitarei para pegar nalguns pontos de vista lançados pelos leitores da Klepsýdra no debate gerado em recentes entradas sobre o ensino e a Universidade.

Começa logo pelo título, colando etiquetas políticas ao ensino (direita e esquerda) é logo meio caminho andado para se perder a objectividade na análise. Eu sou daqueles que acha que o ensino (e a investigação) e a sua análise devem ser mais ou menos como a justiça: cegos. Por isso no que escreverei evitarei ao máximo falar em esquerda e direita. Até já!

quarta-feira, setembro 08, 2004

Poeira solar

Este é o sítio onde podemos seguir dentro de algumas horas a espectacular captura da Genesis, a missão que recolheu amostras da poeira que constitui o vento solar. Se correr tudo bem, resta depois esperar pela análise dessas partículas. Será que ficaremos a conhecer melhor o Sol? Um dos grandes mistérios do Sol é o de saber como é o interior do Sol para lá de cerca de 10% do seu raio.

Ajudar a Ossetia

A cruz vermelha criou uma conta para envio de donativos às vítimas do ataque à escola de Beslan.

terça-feira, setembro 07, 2004

De volta à dura realidade

Após alguns dias na Rep. Checa e na Eslováquia regresso a este país; este país em que os treinos das equipas de futebol são notícia de telejornal da televisão pública; este país que cultiva um fundamentalismo religioso em pleno século XXI, uma inquisição orgulhosa de ser vista com pena e com gozo pelo resto da Europa; este país que deixa passivamente ano após ano a floresta arder. A Rep. Checa tem 86% da população com o ensino secundário completo, a Eslováquia tem 85% e Portugal tem 21%. Estes números devem explicar muita coisa, eu pelo menos sinto essa diferença no simples contacto com as pessoas, no nível das conversas, no que lêem, no que vêem na televisão e no cinema.

quarta-feira, setembro 01, 2004

Um castelo e uma cerveja

A cerca de 40 km de Praga podemos visitar o castelo de Konopište. Lá dentro podemos apreciar uma soberba coleccao de armas, a terceira maior da Europa. O castelo pertenceu a Francisco Fernando, o arquiduque austríaco cujo assassinato em Sarajevo esteve na origem da Primeira Guerra Mundial. O castelo fica no cimo de uma colina. No fim da visita, depois de se descer a colina a pé sabe bem beber uma Ferdinand, a cerveja local de Konopište. No país da cerveja nao se devem perder estas ocasioes.

sábado, agosto 28, 2004

O ensino em Portugal nos últimos 200 anos

Carlos Fiolhais no seu livro "A coisa mais preciosa que temos", Gradiva, 2002, dedica um seccao ao "Atraso Português". É um texto brilhante onde é feito o retrato do ensino em Portugal nos últimos 200 anos. Esse texto vem acompanhado de significativos dados estatísticos que explicam inequivocamente a origem do nosso atraso. A comparacao entre a percentagem de pessoas de todas as idades que frequentavam a escola entre 1840 e 1928 dá-nos uma ideia muito clara da origem do nosso atraso:

País: % de pessoas na escola em
1840,1850,1887,1928

EUA: 15, 18, 22, 24
Inglaterra: ?, 12, 16, 16
Holanda: 12, 13, 14, 19
Rússia/URSS: ?, 2, 3, 12
Alemanha: 17, 16, 18, 17
França: 7, 10, 15, 11
Hungria: ?, ?, 12, 16
Espanha: 4, ?, 11, 11
Grécia: ?, 5, 6, 12
Portugal: ?, 1, 5, 6

Outro dado importante é o ano em que se atingiu a alfabetizacao de metade da populacao nas diferentes regioes da Europa. Eis o gráfico respectivo tirado do livro "A sociedade da confianca" publicado pelo Instituto Piaget:



A introducao tardia da escola primária em Portugal explica em parte este atraso. Apenas em 1894 se decretou que que o Ensino Primário Elementar era obrigatório para todas as criancas dos seis aos doze anos. Os 48 de ditadura salazarista acabaram por consolidar o atraso que já vinha do passado.

O JPT do Ma-Schamba tem razao quando diz que eu nao devo personalizar a discussao deste assunto atacando em demasia Fátima Bonifácio. A minha ideia era pegar no artigo de Fátima Bonifácio como um exemplo de uma opiniao típica bastante errada e arrogante sobre o ensino em Portugal. Do ponto de vista qualitativo o artigo de Fátima Bonifácio é muito semelhante `a opiniao do caixeiro viajante que telefona para o Forum da TSF e comeca todas as frases por "é assim". Refiro-me `a tradicional opiniao de que agora os jovens sao todos uns burros (versao Fátima é ignorantes) e que "dantes é que o ensino era bom".
O que eu esperava de uma especialista em história contemporânea era uma opiniao bem fundamentada, independentemente de ser certa ou errada. Acaba por ser irónico que um físico como Carlos Fiolhais escreva um artigo (também publicado no Primeiro de Janeiro) com muito mais qualidade e muito mais certeiro do que o artigo de Fátima Bonifácio. Por exemplo, quando Fátima Bonifácio critica que o investimento na educação é "uma promessa que em Portugal tem sido feita, com intermitências, de há perto de duzentos anos a esta parte" condenando a injeccao de dinheiro no sistema, perante os dados que Fiolhais nos fornece nao percebemos muito bem onde é que Portugal andou a investir a mais. O grande problema de Portugal é que investiu sempre a menos e demasiado tarde! Um indivíduo que nao conhecesse os autores dos dois artigos era capaz de se enganar e atribuir o artigo de Fiolhais a um especialista de história contemporânea!

JPT eu concordo contigo mas quando as pessoas usam e abusam da arrogância há que aplicar um valente puxao de orelhas como "dantes, quando o ensino era bom".

quarta-feira, agosto 25, 2004

Transpor a fasquia saltando por baixo

Para um fisico uma das modalidades mais interessantes do atletismo e' o salto em altura. E' um exemplo de como se pode transpor um obstaculo passando por baixo. O segredo esta na colocacao do corpo em relacao 'a fasquia, de modo a fazer passar o corpo por cima enquanto o centro de massa do atleta se mantem sempre abaixo da fasquia. A tecnica que mais se aproxima deste conceito - que e' mais de natureza teorica - foi implementada por Dick Fosbury, um saltador americano que espantou toda a concorrencia nos Jogos Olimpicos de 1968 do Mexico. Nessa epoca a tecnica mais em voga era o rolamento ventral. Fosbury ganhou a medalha de ouro no salto em altura com a marca de 2,24 m. Os espectadores maravilhados com a tecnica original de Fosbury acompanhavam cada salto gritando "Ole'".

(Foto do sítio do COI)

terça-feira, agosto 24, 2004

"A Universidade dantes é que era": ponto da situação

Queria agradecer os comentários dos leitores da Klepsýdra sobre o tema "A Universidade dantes é que era". O debate está a ser interessante, peço desculpa por não ter tido muita disponibilidade para responder com mais prontidão a alguns comentários. Entre esses comentários surgem duas questões me parecem importantes:

- Deve uma especialista de História Contemporânea publicar em revistas referenciadas pelo ISI ou não?

- Os novos métodos de ensino são melhores ou piores que os antigos métodos? Será que estes novos métodos são aplicados em todo o território nacional ou estamos a falar apenas de meia dúzia de escolas da capital e eventualmente do Porto ou do litoral?

Existem aspectos mais graves sobre o artigo de Fátima Bonifácio sobre os quais me exprimirei e que são resumidos neste extracto do seu artigo:

"Uma promessa [investimento na educação] que em Portugal tem sido feita, com intermitências, de há perto de duzentos anos a esta parte"

sábado, agosto 21, 2004

"A Universidade dantes é que era"...então não era!

O artigo de Fátima Bonifácio publicado no passado domingo no Publico é mais um daqueles artigos de opinião sobre a Universidade Portuguesa sem consistência estatística e baseada numa experiência pessoal de 25 anos de docência em que a autora invoca o mito de um passado glorioso do ensino em Portugal (do qual não consegue dar nenhum exemplo palpável) e inevitavelmente descreve um ensino actual em que "quase todos os que chegam ao fim saem da Universidade tão ignorantes como lá entraram" (pois claro!).

O primeiro problema do artigo de Fátima Bonifácio é que reduz a Universidade à docência. A Universidade é uma instituição de troca de conhecimento, não é uma simples escola. A Universidade deve formar alunos, mas para além dessa função deve investigar, deve interagir com a sociedade (empresas, autarquias, ministérios, etc.) e deve divulgar o que faz ao grande público numa linguagem que ele entenda. Entre todas estas obrigações da Universidade a que mais falha em Portugal é a interacção com a sociedade. O fraco número de patentes nacionais e o baixo investimento na investigação financiada por empresas privadas são dois indicadores bastante significativos dessa falha.

O segundo problema deste artigo resulta de Fátima Bonifácio - tanto quanto pude investigar na base de dados do ISI (é falível) - não ter nenhum artigo publicado numa revista científica internacional com arbitragem, outra das obrigações da Universidade. Curiosamente a publicação de artigos em revistas internacionais de referência com arbitragem é um indicador que desmonta completamente a teoria de Fátima Bonifácio através de números demolidores. Em Portugal é rara a área de investigação em que o número de publicações científicas não tenha crescido exponencialmente nos últimos 25 anos, mesmo quando olhamos para o número de artigos por investigador. Ora nos últimos 25 anos os que saíram "da Universidade tão ignorantes como lá entraram" (entre os quais se inclui este vosso ignorante) publicaram muito mais artigos científicos em revistas internacionais com arbitragem do que todos os que foram publicados até há 25 anos atrás. Aliás, há 25 anos havia departamentos inteiros das nossas universidades que não tinha um único artigo publicado. Imaginem só que muitos desses "ignorantes" são hoje convidados para apresentar palestras nas mais conceituadas universidades do mundo, outros foram mesmo convidados ou seleccionados para trabalhar em grandes instituições internacionais como o CERN, a ESA, o ESO, etc. E mesmo naquele que é o calcanhar de Aquiles da Universidade, a relação com a sociedade, existem muitos desses "ignorantes" que criaram empresas de tecnologia de ponta de impacto mundial (a Critical Software é uma das mais recentes, portanto com mais "ignorantes") e "ignorantes" numa proporção bastante superior à da época de ouro de Fátima Bonifácio estão hoje a trabalhar em grandes multinacionais.

Substituindo neste texto "ignorantes" por "geração rasca" quase todas as comparações que faço entre o passado e o presente ganhariam ainda mais validade. Hoje, 11 anos depois, à luz das declarações de Vicente Jorge Silva plenas de irreflexão e de arrogância que colavam o rótulo de "rascas" a todos nós alunos universitários em 1993, não deixa de ser irónica a análise entre o passado e o presente da Universidade Portuguesa...

Noite cigana

Estava eu deliciado a ouvir o Vicente Amigo na Figueira da Foz a dedilhar magistralmente a sua guitarra flamenca e mal sabia eu que em Coimbra Ricardo Quaresma "dedilhava" magistralemente uma bola Adidas (a da segunda parte) oferecendo o 26º título (record do mundo) a Vítor Baía.

quinta-feira, agosto 19, 2004

Portugal no céu: Cruzeiro do Sul

O Cruzeiro do Sul é uma das heranças mais importantes que Portugal deixou na nomenclatura astronómica. A identificação desta constelação deve-se aos navegadores portugueses que começaram a desbravar a costa africana para lá do equador. O eixo maior do Cruzeiro do Sul aponta para o Pólo Sul. À falta de uma estrela polar no Hemisfério Sul, o Cruzeiro do Sul serviu de constelação de referência na navegação de alto mar a sul do equador.
Algumas das bandeiras de países do Hemisfério Sul representam essa constelação identificada pelos navegadores portugueses: Austrália, Brasil, Nova Zelândia, Papua Nova-Guiné e Samoa Ocidental.

quarta-feira, agosto 18, 2004

"A Universidade dantes é que era"...era, era!

Numa edição da Fundação Bissaya Barreto intitulada "Bissaya Barreto - O Homem e a Obra" podemos ler na biografia que serve de introdução a esta publicação:
"...entrou para a Universidade, matriculando-se em Filosofia, Matemática e Medicina. Viria a concluir as três licenciaturas com a máxima classificação possível: 20 valores." Ainda durante a licenciatura Bissaya Barreto fez greve aos exames de 1907, mas "no ano seguinte, fez todos os exames dos dois anos das três faculdades..."

Após lermos estes extraordinários (ou seriam extra-terrestres?) feitos de Bissaya Barreto percebemos que o facilitismo na universidade portuguesa tem barbas e bengala, não é coisa de hoje. Vem isto a propósito de uma série de emails de leitores do Abrupto sobre a qualidade das universidades portuguesas. Como sempre nestas discussões sobre a qualidade do ensino, as opiniões são más e sem consistência estatística. Normalmente baseiam-se numa experiência pessoal do narrador em que este é um herói da sabedoria e os seus colegas, ou alunos, ou professores (depende de quem se quer atingir) são todos uns ignorantes e vai daí generaliza-se a todas as universidades. Vão lá ler as experiências pessoais para ver se não é assim. Como sempre lá vem o facilitismo outra vez como causa de uma suposta baixa de qualidade da universidade. O texto que acima transcrevi é só um "aperitivo" sobre este tema, ao qual voltarei nas próximas entradas da Klepsýdra. Penso que é uma boa ilustração sobre a treta que se vai lendo sobre um suposto passado de rigor do ensino universitário em Portugal e um suposto facilitismo do presente.

terça-feira, agosto 17, 2004

Portugal no céu: Nuvem de Magalhães

Ainda a propósito da nomenclatura portuguesa no relevo de Marte venho aqui relembrar que Portugal deixou algumas marcas no céu. A Nuvem de Magalhães é o objecto celeste mais importante ao qual foi atribuído o nome de um ilustre português. Fernão de Magalhães observou a Grande e a Pequena Nuvem de Magalhães no céu do hemisfério sul durante a sua viagem de circum-navegação. Ambas são pequenas galáxias satélite da nossa Via Láctea que se encontram a uma distância de cerca de 180 mil anos-luz. Na verdade, ambas já tinham sido identificadas em 964 por Abd Al-Rahman Al Sufi, um astrónomo Persa.


(Grande Nuvem de Magalhães, imagem do sítio da NASA)

domingo, agosto 15, 2004

Ólympos IV: o evangelista olímpico

Os Jogos Olímpicos de Londres em 1908 foram os primeiros a serem realizados num estádio de concepção moderna com uma pista de 400 m e relvado central. No entanto a piscina e a pista de ciclismo estavam também integradas no mesmo espaço. Uma das curiosidades destes jogos foi a victória de Forrest Smithson dos EUA nos 110 m barreiras. Smithson correu com uma bíblia na mão. Não sei se Zeus lá no alto do Olímpo gostou da provocação, o que é certo é que o deixou vencer. Zeus é tolerante!


(Foto do sítio do COI)

Ólimpos III: desportos bizarros em St. Louis

sábado, agosto 14, 2004

Sábado em Coimbra XIII: entrada mediterrânica

Depois de passar quatro anos em França aprendi a apreciar e a valorizar a cozinha mediterrânica. Por vezes em Portugal nem percebemos a sorte de possuir um clima temperado que nos permite obter da natureza variados e apetecíveis sabores e odores muito típicos da cozinha mediterrânica. Perdemo-nos muitas vezes nesses pratos de grandes nacos de carne banhados em refogados a ferver, que também podem ser bons mas que são pouco apropriados ao calor da primavera e do verão. Hoje preparei uma entrada mediterrânica muito simples: um requeijão, azeitonas pretas e quatro folhas arrancadas a um manjericão (basílico) que me foi oferecido pelo nosso Nuno.

Sábado em Coimbra XII

sexta-feira, agosto 13, 2004

Portugal entra na letra pi (π)

A ordem de entrada dos atletas no novo Estádio Olímpico de Atenas vai seguir obviamente a ordem do alfabeto grego. Portugal entra na letra pi (π) de Portogalia, ou seja Πoρτoγαλια.

Crateras e vales marcianos com nomes portugueses

No Abrupto levantou-se a questão da atribuição de nomes a crateras marcianas.
No hemisfério norte de Marte existem três crateras com o nome de cidades portuguesas: Aveiro, Funchal e Lisboa. Aveiro foi sugerida por um filho de emigrantes portugueses da zona de Aveiro ao seu amigo e director do United States Geological Survey (USGS). É esta instituição que recebe as propostas de nomes para o relevo marciano. Mas quem aprova os nomes é a International Astronomical Union.
No hemisfério sul marciano existem ainda três vales com o nome de três rios portugueses: "Durius", "Munda" (Mondego) e "Tagus".

quinta-feira, agosto 12, 2004

Os meus 30 filmes preferidos

Mais ou menos por ordem de preferência:

As Asas do Desejo (Wim Wenders, 1987)
Underground (Emir Kusturica, 1995)
La Dolce Vita (Federico Fellini, 1960)
Dr. Strangelove (Stanley Kubrick, 1964)
La Vita è Bella (Roberto Benigni, 1997)
Sol Enganador (Nikita Mikhalkov, 1994)
No Man's Land (Danis Tanovic, 2001)
Central do Brasil (Walter Salles, 1998)
Irreversível (Gaspar Noé, 2002)
Karakter (Mike Van Diem, 1997)
Funny Games (Michael Haneke, 1997)
Abre los Ojos (Alejandro Amenábar, 1997)
Une Liaison Pornographique (Frédéric Fonteyne, 1999)
La Pianiste (Michael Haneke, 2001)
Barton Fink (Joel e Ethan Coen, 1991)
Mulholland Drive (David Lynch, 2001)
Eyes Wide Shut (Stanley Kubrick, 1999)
Em Carne Viva (Pedro Almodóvar, 1997)
Festen (Thomas Vinterberg, 1998)
Gato Preto, Gato Branco (Emir Kusturica, 1998)
O Testa de Ferro (Woody Allen e Martin Ritt, 1976)
Morango e Chocolate (Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabío, 1994)
Delicatessen (Caro e Jeunet 1991)
Exotica (Atom Egoyan, 1994)
Blow Up (Michelangelo Antonioni, 1966)
Belle de Jour (Luis Buñuel, 1967)
Querelle (Werner Rainer Fassbinder, 1982)
Ice Storm (Ang Lee, 1997)
Contacto (Robert Zemeckis, 1997)
Cidade de Deus (Kátia Lund e Fernando Meirelles, 2002)

Sobre as Asas do Desejo convido o leitor a espreitar este texto do Bruno do Avatares onde ele faz uma pequena análise sobre a escolha entre o imutável e eterno universo do divino e o transformável mas mortal mundo terreno. Em breve escreverei sobre este que é o meu filme preferido alguns furos acima de todos os outros que indiquei.
Underground é uma bela parábola e auto-crítica ao que foi o projecto da República Federal Jugoslava no século XX. Essa parábola torna-se ainda mais deliciosa com a música de Bregovic e com a qualidade do conjunto de actores escolhidos por Kusturica, como é habitual nos seus filmes.
Há vários aspectos que adoro em La Dolce Vita. A crítica mordaz e atrevida à igreja (relembro que o filme é de 1960) expressa através de cenas como a imagem inicial de Cristo sobrevoando Roma...suspenso por um cabo a um helicóptero ou a paródia à história da Nossa Senhora de Fátima. Outro aspecto é a crítica à decadente instituição do casal tradicional, ao homem chefe de família que gere as amantes perante uma mulher dependente e obediente. Depois há Fellini, há a deriva, as noitadas que se transformam em manhãs em ambientes bizarros e a vertigem de se estar olhos nos olhos perante relações sem rede.
(continua)

Os meus 20 realizadores preferidos
Os meus 10 actores preferidos
As minhas 10 actrizes preferidas

A olímpica Ute Lemper

If sex were an Olympic sport we'd have won the gold

"The Case Continues", Ute Lemper

terça-feira, agosto 10, 2004

Ólympos III: desportos bizarros em St. Louis

Os Jogos Olímpicos que se realizaram em 1904 em St. Louis, tal como os de 1900 de Paris, foram integrados numa Exposição Universal. Numa das faces das medalhas lia-se "Universal Exhibition", na outra "Olympiad". Do programa deste Jogos faziam ainda parte alguns desportos que hoje seriam considerados bizarros, como: salto em altura sem balanço, salto em comprimento sem balanço, triplo salto sem balanço, lançamento do pavé (25,4 kg), tracção à corda (duas equipas a puxar a extremidade de uma corda), levantamento do peso com um braço, saltos para a água de cabeça, roque (parecido com o críquete), lacrosse (um desporto dos índios americanos que parece misturar regras de basquete, futebol e hóquei).
Mas uma das fotografias que mais impressiona desses jogos, é esta foto do salto à vara. Reparem que não há colchão. O vencedor, Charles Dvorak americano de origem checa, saltou 3,5 m!


(salto à vara, St. Louis, 1904, foto do sítio do COI)

Ólimpos II, os Jogos no Bosque de Bolonha

É isto a filosofia liberal

O pequeno texto do Luís da Natureza do Mal sobre o Paraguai ilustra bem o que é a filosofia liberal, o utilizador-pagador e afins. O Paraguai não é caso único, na Birmânia morrem pessoas porque não há dinheiro para pagar o serviço hospitalar que entrou numa onda fundamentalista de liberalizações, naquele que é um dos mais pobres países do mundo. A filosofia neo-liberal (não confundir com os liberais americanos, anglo-saxónicos e franceses), encabeçada por pessoas como Fukuyama e a linha dura do partido Republicano, é uma das ideologias que mata mais no mundo e em muitos casos consegue ser tão burocrática como os antigos sistemas soviéticos. Os telefones e os serviços hospitalares são dos piores exemplos desta filosofia. Experimentem telefonar nos EUA!
Mas o caso do Paraguai fez-me lembrar (com as devidas diferenças) a vez em que fiquei retido três horas entre a última entrada de acesso à auto-estrada e a barreira de recolha de título no Porto, por causa de obras que a própria Brisa estava aí a efectuar. Perante aquele caos, ninguém da Brisa se decidiu a anular a barreira de títulos, tivemos que gramar mais tempo porque a Brisa não queria perder um cêntimo. Claro, no fim reclamei o que paguei de portagem. A Brisa não aceitou a minha reclamação dando justificações falsas, mas conseguiram comprar-me com um excelente mapa de estradas de Portugal que me enviaram para casa no Natal, diga-se de passagem de maior valor do que o que paguei de portagem.

segunda-feira, agosto 09, 2004

Mundo de Aventuras VIII

A bandeira é a da China comunista, mas estamos na China Town, o bairro nova-iorquino onde o nome das ruas aparece inscrito em chinês e em inglês, onde o comércio e os habitantes são quase exclusivamente chineses ou americanos de origem chinesa ou asiática.

(Chinatown, Nova Iorque, EUA, 2002)

Vasco Graça Moura treparia pelas paredes
Na Europa, isto não é nada de novo. As judiarias são um dos exemplos de bairros criados por imigrantes onde a sua cultura prevalece sobre a cultura do país de acolhimento. No entanto, essa tradição perdeu-se um pouco, reflexo talvez da onda nacionalista que dominou o nosso continente nos últimos séculos. Mas agora ressurgem na Europa esses bairros em que é dominante a cultura dos imigrantes, temos novos bairros: magrebinos, indianos, paquistaneses, arménios, filipinos, chineses, etc. Esta nova realidade (que de facto é muito velha) incomoda muitos conservadores. Incomodam-se com os mercados onde se fala árabe, hindu ou chinês. Incomodam-se porque "eles nem sequer aprendem a língua do país". Um dos arautos dessa xenofobia escondida com o rabo de fora é Vasco Graça Moura. O nosso eurodeputado tem andado muito chocado com o que tem visto em França e na Bélgica. Mas o mais engraçado é que refere sempre os EUA como o "melting pot" perfeito da imigração. Ora, o que Graça Moura deveria perceber, é que tal como nos EUA, se calhar um dia teremos bairros na Europa onde só se falará árabe, hindu ou chinês e provavelmente teremos por lá a flutuar a bandeira da Índia, da China, do Paquistão, da Argélia ou de Marrocos.
Na passada quarta-feira Vasco Graça Moura voltou à carga, mas desta vez de uma forma mais moderada. Longe de artigos anteriores onde roçava a xenofobia. Mesmo assim Graça Moura conclui que "a identidade europeia poderá vir a tornar-se cada vez mais problemática". O mais certo é a identidade europeia tornar-se mais rica, como Nova Iorque e como o Portugal do renascimento, o Portugal do brilhante judeu Pedro Nunes. Mas será que Graça Moura não tem um espelho lá em casa? Será que ele não topa o seu tom de pele e o seu nariz mediterrânico? Ninguém é capaz de lhe dizer que, apesar das suas ideias, Portugal ganhou em ter absorvido os seus antepassados do Norte de África (ou do Médio Oriente), os tais da "graça moura"?!

Mundo de Aventuras VII

sábado, agosto 07, 2004

Uma solucao para o Estadio Nacional

Ha quem esteja muito empenhado neste pais em fazer mais um estado novo no Jamor, sob o pretexto da renovacao desse magnifico monumento nacional que e' o Estadio Nacional(sao resmas e resmas de turistas que vem a Portugal de proposito so' para ir ver o Estadio Nacional). Entretanto o Mosteiro da Batalha ganha musgo misturado com diesel queimado da EN1, o que lhe da' um colorido especial, mas isso que interessa, o que interessa esses castelos com mais de 7 seculos a cair aos bocados. Interessa e' apostar no Jamor. Eu por mim sugeria isto para o Jamor:

(Radiotelescopio de Arecibo, Porto Rico, Imagem do Observatorio de Arecibo)

Um radiotelescopio ali no lugar daquele monolito e' que era!

sexta-feira, agosto 06, 2004

Saudade

En ce mai de fous messages
J'ai un rendez-vous dans l'air
Inattendu et clair
Déjà je pars à ta découverte
Ville bonne et offerte
C'est l'attrait du danger
Qui me mène à ce lieu
C'est d'instinct
Qu'tu me cherches et approches
Je sens que c'est toi

C'est à l'aube que se ferment
Tes prunelles marina
Sous quel meridien se caresser
Dans mes bras te cacher
Dans ces ruelles fantômes
Ou sur cette terrasse
Où s'écrase un soleil
Tu m'enseignes
Le langage des yeux
Je reste sans voix

Les nuits au loin tu cherches l'ombre
Comment ris-tu avec les autres
Parfois aussi je m'abandonne
Mais au matin les dauphins se meurent
De saudade...

Où mène ce tourbillon
Cette valse d'avions
Aller au bout de toi et de moi
Vaincre la peur du vide
Les ruptures d'équilibre
Si tes larmes se mèlent
Aux pluies de novembre
Et que je dois en périr
Je sombrerai avec joie

De saudade...


"Saudade", Etienne Daho

quarta-feira, agosto 04, 2004

Dominique de Villepin tinha razão sobre o Iraque

O discurso de Dominique de Villepin, Ministro dos Negócios Estrangeiros francês, perante a ONU na altura em que os EUA estavam na iminência de intervir no Iraque:

"Make no mistake about it: the choice is indeed between two visions of the world. To those who choose to use force and think they can resolve the world's complexity through swift and preventive action, we offer in contrast determined action over time. For today, to ensure our security, all the dimensions of the problem must be taken into account: both manifold crises and their many facets, including cultural and religious. Nothing lasting in international relations can be built therefore without dialogue and respect for the other, without exigency and abiding by principles, especially for the democracies that must set the example. To ignore this is to run the risk of misunderstanding, radicalization and spiraling violence. This is even more true in the Middle East, an area of fractures and ancient conflicts where stability must be a major objective for us."

Agora, um ano e meio depois, a situação é muito mais clara, Villepin tinha razão.
A negrito destaco a frase que considero mais certeira e que rima com a opinião de Richard Clarke sobre o erro da intervenção no Iraque que já aqui transcrevi nesta entrada, onde destaco também a negrito a frase onde Clarke confirma Villepin.

terça-feira, agosto 03, 2004

Ólympos II: Os Jogos no Bosque de Bolonha

Os II Jogos Olímpicos da era moderna ocorreram curiosamente sem estádio olímpico. Realizaram-se no Bosque de Bolonha (hoje um dos antros de prostituição parisiense) a par da Exposição Mundial de Paris de 1900. Pela primeira vez participaram mulheres nas competições olímpicas. Estes jogos realizaram-se em Paris contra a vontade da Grécia que pretendia ser o organizador permanente dos Jogos.

Ólympos I: o triunfo do carteiro!

segunda-feira, agosto 02, 2004

Velocidades da época

É tempo de férias, em geral é tempo de maior contacto com a natureza. Proponho um exercício de Verão aos leitores da Klepsýdra (que poderão ser realizados na praia, no campo, nas montanhas, em grutas, debaixo de um limoeiro, etc.), a verificação experimental das seguintes velocidades:

Velocidade média de crescimento de uma estalagmite: 0,3 pm/s
Velocidade de deslocação dos continentes: 0,3 nm/s
Velocidade média de crescimento de um cabelo humano: 5 nm/s
Velocidade de crescimento de uma árvore: até 30 nm/s
Velocidade de um espermatozóide: 60 a 160 µm/s
Velocidade média de um caracol: 5 mm/s
Velocidade de um serviço em Badmington: 70 m/s
Velocidade média de uma molécula de oxigénio à temperatura ambiente (25ºC): 280 m/s

sábado, julho 31, 2004

O equívoco do Iraque explicado por Richard Clarke

"Instead of addressing that threat with all necessary attention it required, we went off on a tangent, off after Iraq, off on a path that weakened us and strengthened the next generation of Al-Qaedas. For even as we have been attriting the core Al-Qaeda organization, it has metastasized. It was like a Hydra, growing new heads. There have been far more major terrorist attacks by Al-Qaeda and its regional clones in the thirty months since September 11 than there were in the thirty months prior to that momentous event. I wonder if Bin Laden and his deputies actually planned for September 11 to be like smashing a pod of seeds that spread around the world, allowing them to step back out of the picture and have the regional organizations they created take their generation-long struggle to the next level"

"Against All Enemies", Richard Clarke, Free Press, 2004, pag. 286.

sexta-feira, julho 30, 2004

Richard Clarke contra toda a ignorância

O Nuno do Aba de Heisenberg começou a ler a recente tradução do livro de Richard Clarke "Contra todos os inimigos", diz o Nuno "isto promete". Pois é, como é diferente ler o relato de quem andou anos atrás da Al-Qaeda - em tempos em que a organização era desvalorizada pelos Democratas e ignorada por Republicanos - e ler depois os nossos cronistas a repetirem a propaganda de Rumsfeld, a errarem e até inventando factos sobre os quais nunca se debruçaram a sério. O desmantelamentos do atentado de Estrasburgo pelas polícias alemã e francesa e do atentado do Milénio nos EUA pela equipa de Clarke são constantemente omitidos, o problema é que na ansiedade do comentário nem se informam devidamente. Sobre as armas de destruição em massa houve quem visse as armas daqui de Portugal, mesmo com o relatório de Blix à frente do nariz, viram o que Blix e os outros inspectores não viram! Depois de ler o livro de Clarke e o de Blix ("Irak: les armes introuvables") fico com a sensação que os nossos comentadores de política internacional ou são maus ou são mal intencionados.

quinta-feira, julho 29, 2004

Mundo de Aventuras VII

Na minha primeira noite em Pequim acordei com um ruído em crescendo, típico de uma multidão agitada que se multiplica rapidamente, olhei para o relógio eram 6 da manhã. Ouviam-se vozes desgarradas e sentia que havia uma circulação intensa de pessoas e de veículos. Levantei-me de cama e pensei para mim próprio: "É hoje a revolução!". Fui a correr para a janela, abri os cortinados e...não via absolutamente nada, estava completamente ofuscado pela luz do dia. Nessa altura pensei que se fosse de facto a revolução que a China tanto espera, seria uma oportunidade fantástica para assistir a um acontecimento histórico importantíssimo. Mas também temi pela minha pele. Assim que recuperei a visão, voltei a pôr os pés na Terra, afinal toda aquela agitação era um simples mercado de rua! A China tem um único fuso horário para todo o seu extenso território (GMT+8), como Pequim fica num extremo da China, os seus horários são muito particulares. Daí a estranheza inicial que me causou toda aquela agitação às 6 da manhã.

(Pequim, China, 1997)

Mundo de Aventuras VI

quarta-feira, julho 28, 2004

O Sudão esquecido recordado por Lévy em 2001

Pouco depois do 11 de Setembro Bernard-Henri Lévy (BHL) lançou "Réflexions sur la Guerre, le Mal et la Fin de l´Histoire" que continha uma parte intitulada "les damnés de la guerre" dedicada ao que ele chamava os esquecidos da história. Entre os esquecidos da história estavam os Angolanos, os Sri-lanqueses, os Colombianos, os Ruandeses e os Sudaneses. Fiquei chocado com o que li na altura sobre o Sudão, com o esquecimento. Quando se começou a debater a urgência de intervir no Iraque em 2002 ouvi em Portugal não raras vezes pessoas informadas e com cargos políticos destacados a pintar o cenário no Iraque como se fosse o único problema humanitário do mundo, ignorando completamente as situações gravíssimas que BHL denunciou. A alguns destes políticos enviei pelos canais possíveis algumas notas em que referia esta situação do Sudão como uma situação muito mais urgente do que a do Iraque. Transcrevi parágrafos como estes do livro de BHL:

"...cette guerre, la plus ancienne du monde, qui a déjà fait deux millions de morts (davantage que la Bosnie, le Kosovo, le Rwanda réunis), quatre millions et demi de déplacés (trois Sud-Soudanais sur quatre)..."

"...la Greater Nile Petroleum Operating Company, le consortium regroupe la firme canadienne Talisman Energy, des intérêts chinois et malais ainsi que la compagnie nationale Sudapet. Et nous avons eu la confirmation de ce que les ONG, Amnesty International, le gouvernement canadien lui-même, soupçonnent depuis des années mais que nient farouchement les compagnies pétrolières et l'Etat. A savoir que le gouvernement "nettoie" systématiquement le terrain, dans un périmètre de 30, 50, parfois 100 km, autour des puits de pétrole; que la moindre concession pétrolière signifie des villages harcelés, bombardés, rasés, et des colonnes de pauvres gens chassés de chez eux..."

"Guerre oubliée ou cachée? (...) l'Occident des pétroliers ne porte-t-il pas, pour un coup, une responsabilité écrasante? (...) que l'on agisse avec ce pétrole-ci comme on l'a fait avec celui de Saddam Hussein, que l'on montre aussi déterminé..."

Os nossos políticos continuaram para bingo em relação a Saddam repetindo a propaganda de Rumsfeld e companhia - que hoje se sabe ser falsa - até ao dia da invasão do Iraque, ficando assim o Sudão no esquecimento absoluto em Portugal. Em França BHL bateu recordes de vendas com este livro contribuindo para uma maior maturidade da opinião pública francesa que mais tarde rejeitou e bem a intervenção no Iraque.

terça-feira, julho 27, 2004

O fogo é a nossa Al-Qaeda

Desde os resquícios dos devaneios do Verão Quente, Portugal não sofreu qualquer atentado terrorista, e mesmo esses eram atentados bastante rudimentares. Mas todos os anos o nosso território é devastado por incêndios que são muito mais destrutivos do ponto de vista material do que qualquer atentado terrorista jamais efectuado. Só o ano passado ardeu uma área equivalente à área do Luxemburgo!!!
No entanto a resposta do governo português aos incêndios foi muito menos empenhada do que a resposta dada ao terrorismo islâmico. No último ano, gastaram-se milhões na segurança do Euro2004 e dos aeroportos para impedir um atentado terrorista em Portugal, cuja probabilidade de acontecer é baixa. Pelo menos muito mais baixa do que a probabilidade de acontecerem incêndios de grandes proporções, esses sim muito mais destrutivos do que qualquer atentado que algum grupo terrorista possa executar em Portugal. As incoerências são gritantes:

- Enviámos soldados para o Iraque onde não existiam terroristas da Al-Qaeda e contribuímos para atrair a Al-Qaeda para o Iraque, numa missão de elevadíssimo custo financeiro. E quantos novos guardas florestais e funcionários da prevenção mandámos para a nossa área florestal? O investimento em material sofisticado que adquirimos para o Iraque teve equivalente na luta contra os fogos?

- Mandámos aviõezinhos sobrevoar os estádios para garantir a segurança dos jogos do Euro2004 (nem escaparam os jogos-treino) e quantos aviões temos a sobrevoar as nossas florestas?


- Controlámos a identidade de milhares de cidadãos estrangeiros que entraram no nosso país e quantas propriedades florestais fiscalizámos no último ano? Quantas cumprem as normas básicas de segurança?

- Inspeccionámos milhares de malas de viagem de cidadãos que atravessaram as nossas fronteiras e quantos dos nossos parques naturais e florestas foram atravessados por camiões e pessoas na posse de material e compostos perigosos para a nossa floresta sem que nenhuma inspecção fosse efectuada?

A descontracção, a pasmaceira e a falta de interesse deste governo (e dos anteriores) chocam-me perante a gravidade do problema. O que se passa em Portugal é pior do que todos os anos chocar um avião contra um arranha-céus. E nós deixamos que todos os anos isso aconteça, já nos habituámos. No terceiro mundo também é assim, as pessoas habituam-se aos problemas graves, ninguém se incomoda e estes eternizam-se.

O exemplo da Europa central
No Verão o clima da Europa central é menos propício a incêndios do que em Portugal, no entanto o trabalho feito na prevenção é muito mais sério do que no nosso país. Quando vivi em Estrasburgo, durante os meus passeios pela Alemanha reparei que qualquer propriedade onde houvesse uma pilha de toros de madeira, essa pilha de toros estava a ser constantemente regada. Em Portugal vejo o contrário: pilhas de toros de madeira seca prontinhas a pegar fogo. O ano passado na Eslováquia (um país verde e fresco no Verão) houve um incêndio numa das florestas. O governo eslovaco lançou de imediato a interdição de circulação de pessoas nas florestas em que não houvesse um controlo apertado das autoridades florestais. São estes pequenos detalhes que distinguem os países atrasados e abandalhados como Portugal dos países da Europa central.

Relacionado: ler na Aba de Heisenberg.

segunda-feira, julho 26, 2004

Hej, slniečko horúce

Hej, slniečko horúce, nech mi neuhorí
hej tá moja biela tvár.

Hej, a ked' mi uhorí, hlávka ma zanolí,
hej, čo mi ju zahojí.

sexta-feira, julho 23, 2004

O programa nuclear iraquiano vs. alarmismo

As quantidades mínimas de material consideradas pela Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) como significativas para serem utilizadas em armas nucleares são: 8 kg de plutónio e 25 kg de urânio 235. Durante o curso das primeiras inspecções no Iraque em 1991, descobriu-se que o regime iraquiano tinha intenção de produzir armas nucleares, mas graças à sua fraca capacidade industrial tudo o que conseguiu produzir foram:

- ~ 2,5 g de plutónio
- 0,5 kg de urânio (Dados da AIEA)

Enriquecidos a uma taxa média de 4%. Para se fazer uma bomba, a taxa de material enriquecido deverá ser pelo menos de 80%.

Estamos muito longe das perspectivas alarmistas que intoxicaram a opinião pública mundial antes da intervenção americana no Iraque. Até porque depois desta descoberta, que foi feita em 1991, o Iraque perdeu ainda mais alguma da sua fraca capacidade industrial. Para ilustrar o clima alarmismo criado não resisto a transcrever esta passagem de 3 de Abril de 2003 de um artigo publicado no Publico por Pacheco Pereira:

"...regimes como o iraquiano, que, de há 20 anos a esta parte, não faz outra coisa senão armar-se com armas cada vez mais poderosas..."

Ao contrário do que diz Pacheco Pereira, desde 1991 o regime iraquiano não se armou com armas cada vez mais poderosas. Mas curiosamente foi há 20 anos que o regime iraquiano comprou as armas mais poderosas que alguma vez deteve. Há cerca de 20 anos, o Iraque comprou armas químicas a empresas americanas e o governo americano forneceu imagens de satélite ao regime iraquiano do norte do Iraque e do Irão. As imagens de satélite do Irão foram úteis para gazear as tropas iranianas e as imagens de satélite do norte do Iraque serviram para gazear as aldeias curdas...

quinta-feira, julho 22, 2004

A política ambiental Santanista

Na Figueira foi o que se vê nestas fotografias. A Serra da Boa Viagem está completamente escavacada e vendida à especulação imobiliária para pagar as dívidas da Câmara deixadas por Santana Lopes (tal como em Lisboa). Nem os incendiários, que tentaram por diversas vezes incenerar a Serra para construir à vontade, conseguiram ser tão eficazes. Como já foi muitas vezes repetido, Santana não precisa de um ministro do ambiente com competências técnicas, precisa sim de um ministro capaz de tomar decisões políticas. Ou seja, Nobre Guedes só tem que dizer que sim a atentados ambientais como os que mostro aqui nestas fotos.


O delapidar da Serra da Boa Viagem. Nesta zona existia antes um pinhal cerrado. Para os que conhecem a Figueira, este terreno fica em frente ao Psidónio.

quarta-feira, julho 21, 2004

Um ano! (em actualização)

Este relógio de água virtual assinala um ano de existência. Obrigado a todos os nossos leitores.

Uma das coisas que mais me agrada após um ano de Klepsýdra é que recebemos cerca de 14% de visitas originárias do estrangeiro. Por isso aqui vai uma saudação especial aos nossos leitores que andam lá fora a lutar pela vida.
O Brasil esse país que nunca visitei e onde tenho família é o que nos oferece o maior número de visitantes. Falo pouco do Brasil. Já ando há meses para falar sobre os filmes "Central do Brasil" e "Cidade de Deus", são excelentes.
Nos EUA temos muitos leitores fieis, entre os quais esse simpático conimbricense que tem um chapéu de chuva com a bandeira da União Europeia. ;)
Pusinky para a nossa leitora diária na Bélgica.
Obrigado aos leitores mais ou menos diários em Espanha, em França, na Suiça, no Luxemburgo, em Moçambique (este anda armado em grevista, deveria era voltar à blogosfera), na Polónia, na Formosa, na Finlândia e no Reino Unido.

Maratona
Quando a Klepsýdra foi criada sabia que estava a iniciar uma longa maratona e por isso convinha não começar a sprintar para não desistir depois da primeira curva. E cá estamos um ano depois. O Nuno e o Gregor por razões diferentes, mas importantes, fizeram uma pausa. Tal como há um ano continuo a ter muitos assuntos para escrever na Klepsýdra, o grande problema é ter tempo para escrever tudo o que quero partilhar com a blogosfera, e sobretudo escrevê-lo bem. Dá-me um grande prazer escrever longos textos de reflexão, daqueles que demoram muito tempo a escrever e a corrigir, e que depois muito poucos lêem.

Agradecimentos
Antes de agradecer aos vários blogues que nos enviaram simpáticas mensagens de felicitações, tenho a dizer que aprendi muito durante o último ano com um conjunto de blogues que fui lendo com alguma regularidade, alguns deles até muito pouco lidos.
Empatia, Ideias Soltas, Hora Absurda II, Rua da Judiaria, Olho do Girino, Welcome to Elsinore, Ma-Schamba, Sob a Estrela do Norte, A Aba de Heisenberg, Local e Blogal, 137, O Quarto Segredo da Fátima, Pecola, Jaquinzinhos, Fénix, Daedalus, Vila Dianteira, Adufe...

terça-feira, julho 20, 2004

Stephen Hawking dá novos horizontes aos buracos negros

Amanhã em Dublin, Stephen Hawking apresentará a sua nova teoria sobre buracos negros, onde Hawking irá fundamentar a hipótese de os buracos negros afinal deixarem escapar alguma informação para o exterior, em vez daquele objecto que destrói tudo o que é atraído para o seu interior. A comunidade científica espera com ansiedade o dia de amanhã.

Baía no Olimpo


O melhor guarda-redes da Europa e Jorge Costa, o jogador a quem Octávio Machado tinha passado uma certidão de óbito há três anos atrás. (Foto do sítio da UEFA)

O título de melhor guarda-redes da Europa atribuído pela UEFA a Vítor Baía não me espanta. O prémio de melhor guarda-redes da Liga dos Campeões atribuído pela Gazzeta dello Sport era já um prenúncio de grandes prémios internacionais para o Vítor lá para o final de 2004. Afinal nem foi preciso esperar tanto. Ele merece porque foi de facto o melhor no velho continente em 2004. Foi de longe o menos batido no campeonato português (que tem pouca relevância) e não sofreu qualquer golo nos dois jogos das meias-finais e na final da liga dos campeões, tendo tido um papel activo e decisivo para a vitória do FC Porto. Ao ganhar a terceira taça europeia diferente Baía increveu o seu terceiro record na Associação de História e de Estatística de Futebol, que é um record inédito entre guarda-redes. Os outros dois são o record de tempo sem sofrer golos no campeonato português e em fases finais de campeonatos da europa em 2000 (onde o seu record comporta um penalty defendido contra a Turquia). Este feito não passou despercebido a quem gosta e a quem percebe de futebol na Europa. Em Portugal é o normal, destila-se ódio.
O título deste texto tem um duplo sentido. Espero que José Romão amanhã não se engane na convocatória. Os deuses do Olimpo querem ver Baía a jogar ali junto à sua morada, a abrilhantar os Jogos Olímpicos do país dos filhos de Helena.

Passei muitas horas no banco
Como diz o Bruno do Avatares, Ricardo é uma pessoa muito simples, o que o torna muito vulnerável a más companhias que são autênticos destiladores de ódio anti-Porto. Para sacar mais algum à custa da ingenuidade do Ricardo, essas companhias escreveram um livro em nome do mesmo Ricardo, onde este considera «lamentável» que Vítor Baía declarasse que aqueles «mereciam ter jogado no Mundial deviam ter provado isso nos treinos». Vítor Baía não poderia ter dito mais nada. Em todos os desportos é assim. Os treinos servem para trabalhar e escolher as equipas que vão jogar no fim de semana. Eu passei muitas e muitas horas no banco de suplentes quando joguei basquete. E porquê? Porque era poste e durante grande parte da minha carreira tive colegas que faziam a posição de poste melhor do que eu. E como devem jogar os melhores, eu ficava no banco. Não é agradável estar no banco, mas eu sempre o aceitei sem nunca me chatear com os colegas que me tiravam o lugar. Ricardo em vez de ficar feliz por nos ter oferecido aquele momento bonito em que marcou um penalty (e esquecer o pesadelo dos cruzamentos para a pequena área, onde esteve mal), optou por abandonar o seu perfil de bebé chorão injustiçado para se transformar numa figura arrogante. Depois deste prémio atribuído a Baía pela UEFA, Ricardo faz figura de triste escusadamente.

segunda-feira, julho 19, 2004

Vila Dianteira

19 ministros e 17 são de Lisboa, um do Porto e outro dos Açores. Está certo...
 
A Klepsýdra tem um ministro da Vila Dianteira, e a Vila Dianteira faz um ano!

Portugalistão

19 ministros e 17 são homens. Só faltam os bigodes para sermos uma república islâmica. Graças às nossas excelentes relações com o regime islâmico wahabita da Arábia Saudita - a quem vendemos material militar e títulos de dívida pública - acho que até conseguiríamos facilmente entrar na União de países que apoiam a Al-Qaeda e simultaneamente combatem o terrorismo no Iraque: Paquistão, Arábia Saudita, Yemen, etc.

sexta-feira, julho 16, 2004

Nobre Guedes? Belisquem-me! Estou a ter um pesadelo!

Belisquem-me, devo estar a sonhar! Nobre Guedes Ministro do Ambiente é anedota não é?
Uma das áreas que deveria ser prioritária em Portugal, o ambiente, vai ser gerida por uma pessoa que não tem qualquer sensibilidade por questões ambientais, que se está a borrifar para o ambiente, que nunca reflectiu nem elaborou qualquer documento sobre questões ambientais, que não tem qualquer formação nestes assuntos e que muito provavelmente é uma pessoa avessa às medidas ambientais modernas que Portugal necessita de implementar urgentemente. Isto é de uma irresponsabilidade a toda a linha. Eu gostava de ver a reacção do nosso país de juristas e advogados se um dia fosse nomeado para ministro da justiça um químico industrial ou um físico teórico. De certeza que começavam a trepar às paredes, é o que me está a apetecer fazer...  

Nota histórica sobre inspecções e proibições de armamento

1899- A Declaração de Haia proibia a utilização de balas dum-dum (que se espalmavam dentro do corpo humano, provocando feridas extremamente dolorosas), gás asfixiante e o "lançamento de projécteis ou explosivos do alto de balões ou por outros modos análogos inovadores". Esta última interdição só teve a validade de cinco anos.

1925- O Protocolo de Geneva proibia o emprego de gás e de "meios de guerra bacteriológica".

Nenhum dos acordos de 1899 e de 1925 previa inspecções ou acções de verificação de cumprimento dos tratados. O receio de represálias foi suficiente para que estes acordos fossem minimamente respeitados.

1959- O Tratado do Antárctico foi o primeiro tratado sobre o controlo de armamento que previa inspecções internacionais. Este tratado tinha como objectivo a proibição da utilização do território da Antárctida para fins militares. Eram proibidas bases e manobras militares, ensaios de armas e explosões nucleares. Todas as regiões do Antárctico e instalações deveriam estar abertas em permanência a inspectores e observadores internacionais.

quarta-feira, julho 14, 2004

Aplausos para Fahrenheit 9/11

Vi ontem em Bruxelas "Fahrenheit 9/11", o filme vencedor da Palma de Ouro deste ano do Festival de Cannes (júri presidido pelo realizador americano Quentin Tarentino). A sala estava cheia e o público era verdadeiramente internacional a avaliar pelas diferentes línguas que se ouviam na sala antes do filme começar. No final, o filme de Michael Moore mereceu um estrondoso aplauso de toda a sala.

O mérito de Moore é a denúncia e o relembrar de factos importantes que foram abafados pela propaganda da Casa Branca. Aqui vão alguns dos meus momentos preferidos do filme.

- Moore passa o mítico aperto de mão entre Rumsfeld e Saddam Hussein.
- Moore mostra uma série de apertos de mão e palmadinhas nas costas entre o pai de George W. Bush e a família real saudita mostrando de seguida uma das muitas decapitações públicas que ocorreram na Arábia Saudita durante o período dos referidos apertos de mão.
- Moore mostra a visita de uma delegação de talibãs ao Texas em 2001 para negociar com empresas ligadas à família de Bush (esta cena é linda!).

O filme de Moore transpõe para imagens boa parte do seu último livro "Dude, where’s my country?". Para quem leu os últimos livros de Bernard-Henry Lévy, de Hans Blix ou de Richard Clarke que abordam o mesmo tema, o filme de Moore convida-nos a rir (para não chorar) com as mesmas indignações que angustiaram estes autores a escrever o que lhes ía na alma sobre as opções da administração Bush. Passa pela tela muito do livro de Clarke, que analisaremos em breve em mais pormenor. Moore consegue fazer rir e ao mesmo tempo consegue acordar o espectador, libertando-o do sonífero propagandístico da ameaça iraquiana e mostra-nos muito daquilo que realmente interessa analisar sobre as opções da administração Bush. A não perder!

segunda-feira, julho 12, 2004

Quando tenho vergonha de Portugal

Nao encontrar jornais portugueses à venda no estrangeiro em cidades onde existem muitos portugueses a viver ou a passar ferias é algo que me envergonha profundamente. Por exemplo, em França onde a comunidade portuguesa é das mais numerosas entre as comunidades estrangeiras, geralmente é mais facil encontrar um jornal italiano, polaco, turco, russo ou de um pais do magrebe do que jornais portugueses. Uma vez, em pleno Agosto passei por Benidorm que estava apinhada de portugueses de férias. Corri os quiosques todos. Havia todo o tipo de jornais britanicos à venda, os jornais principais da França à Turquia mas de Portugal nada! Lembro-me de um quiosque suiço onde encontrei jornais portugueses: a Bola e o Crime... Hoje, no centro de Bruxelas depois de penar por uma série de quiosques de jornais estrangeiros encontro um jornal portugues: o 24 Horas...o jornal espelho do atraso portugues. Pronto, la vim eu para a internet para ficar ao corrente do que se passa na lusitania.

Quando comecei a ler o que se passou nos ultimos dias percebo melhor o SMS que o Gregor Samsa me enviou enquanto andava por Veneza: "pa, tu fica por ai, nao voltes!". Santana Primeiro Ministro, Paulo Portas Ministro da da Defesa, Madail Presidente da FPF e Scolari treinador das selecçoes, de facto o pesadelo nao poderia ser pior. Ou se calhar podia: Santana Primeiro Ministro acumulando com o cargo de Presidente da FPF, assim seriamos a primeira republica nao laica e de confissao futebolistica!

Pax tibi Marce, evangelista mevs

No Palacio dos Doges descubro uma inscriçao do seculo XIX que anuncia a aprovaçao, por mais de 600 mil votos a favor e 69 votos contra, da inclusao da Serenissima Republica no entao reino de Italia. Se eu la estivesse votaria contra. Mas isto sou eu a delirar um século e meio depois. Veneza encerra em si mais historia e mais historias que maior parte dos paises do mundo. Se temos Monaco, Liechtenstein, Sao Marino e Andorra porque nao poderiamos ter a Serenissima Republica de Veneza? Ja agora, sem se tornar um paraiso fiscal. Seria apenas um paraiso cultural e cientifico, uma cidade de troca de conhecimento onde este nao pagasse imposto.

sexta-feira, julho 09, 2004

Geraçao de ouro, treinadores de latao

Começou ha 11 anos. Vi-os em Milao a darem espectaculo. Precisavamos de ganhar. Perdemos, mas saiu dali uma grande equipa, eram jovens. Desde entao so lhes calhou na rifa treinadores mediocres. A sorte continua. O Otto com os nossos rapazes dava uma coça à Grècia de uns 4 ou 5 a zero. 'A distancia fico com os cabelos em pée com as afirmaçoes de desilusao e cansaço de Figo e Rui Costa. O lixo continua a ser valorizado em Portugal

quinta-feira, julho 01, 2004

CERN: Não pagaaaamos, não pagaaaamos!

A situação de não pagamento de quotas já aqui descrita em relação ao European Southern Observatory (ESO) repete-se no caso do CERN. Enquanto o país anda anestesiado pelo futebol e pela novela Santana Lopes, a credibilidade científica de Portugal está a ir vertiginosamente pelo cano de esgoto abaixo. Todo o capital de confiança que os investigadores portugueses conquistaram a pulso, resultado após resultado, artigo após artigo, está neste momento a ser completamente desbaratado junto das grandes instituições internacionais científicas. Não é difícil imaginar um alemão do ESO ou um suíço do CERN a troçar das nossas proezas futebolísticas: "para isto é que eles têm jeito, agora fazer ciência a sério é para esquecer".

Quando fiz o meu doutoramento em Estrasburgo rapidamente percebi que os portugueses têm uma péssima reputação nos domínios da ciência e da tecnologia. Cheguei à conclusão que a melhor estratégia era apresentar resultados sempre acima das expectativas das pessoas que supervisionavam o meu trabalho de investigação para não ter problemas originados por ideias pré-concebidas sobre os portugueses. Fiz um esforço suplementar para tentar dar outra imagem dos portugueses. E correu bem. Durante a discussão da minha tese houve inclusivamente elogios ao esforço que Portugal estava a fazer para recuperar o atraso na produção científica (mal sabiam eles...). Como eu, muitos investigadores portugueses saíram do país e fizeram um esforço semelhante para mudar a imagem do país no estrangeiro. Muitos de nós regressámos a Portugal entusiasmados com a possibilidade de dar o nosso contributo para mudar a imagem do país. Neste momento eu e muitos colegas sentimos um desânimo profundo. O que está a acontecer é um pesadelo para quem fez um esforço suplementar para mudar as coisas. E há que referir que estávamos a conseguir, basta consultar as estatísticas de produção científica dos últimos anos. Agora fica a sensação que voltámos à estaca zero.

O pesadelo do não pagamento de quotas tem uma parte III, é a Agência Espacial Europeia. Neste caso temo que as sanções possam ser mais severas que o caso do ESO.