terça-feira, janeiro 20, 2004

Sonhos e Despertares

Li algures que no Japão estão a desenvolver uma máquina que permite escolher os sonhos que temos durante a noite. Duvido bastante deste gadget que parece saído de um "admirável mundo novo" mas acho que os nossos sonhos deveriam ser uma reserva imaginária protegida por lei. O reino do sonho é uma espécie de caos onde todos os nossos desejos (sobretudo os inconfessáveis), medos e recordações vagueiam de forma anárquica ainda que muitas vezes acabem por nos ajudar a descobrir e a organizar as nossas percepções do real.
Não sou psiquiatra mas desconfio que uma organização artificial do sonho pode acabar por desestruturar o "eu" e consequentemente acabar por desorganizar o real.

Existe no entanto algo que eu procuro controlar e que é precisamente a fronteira desse reino, ou seja, tenho tentado encontrar a melhor forma de despertar. Descobri recentemente um método que resulta comigo e que consiste em acordar com a música "Lisboa Que Amanhece" do Sérgio Godinho.
Como sou uma pessoa de instintos nocturnos, o acordar de manhã traz sempre consigo uma dose de angústia e confusão que duram normalmente até ao primeiro café do dia. Ora esta música de Sérgio Godinho retrata perfeitamente a fusão entre as sombras da noite que vão morrendo com o nascer do sol e as vítimas do quotidiano que ganham vida quando o sol entra pelas frinchas dos estores estragados (sim, Bruno, eu também). Por mais mal-disposto que acorde, encontro consolo imediato em todos os navegantes e estremunhados de que fala a canção e que partilham comigo essa terra de ninguém que é a madrugada.



LISBOA QUE AMANHECE

Cansados vão os corpos para casa
dos ritmos imitados de outra dança
a noite finge ser
ainda uma criança
de olhos na lua
com a sua
cegueira da razão e do desejo

A noite é cega e as sombras de Lisboa
são da cidade branca a escura face
Lisboa é mãe solteira
amou como se fosse
a mais indefesa
princesa
que as trevas algum dia coroaram

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece

O Tejo que reflecte o dia à solta
à noite é prisioneiro dos olhares
ao cais dos miradouros
vão chegando dos bares
os navegantes
amantes
das teias que o amor e o fumo tecem

E o Necas que julgou que era cantora
que as dádivas da noite são eternas
mal chega a madrugada
tem que rapar as pernas
para que o dia não traia
Dietrichs que não foram nem Marlenes

Não sei se dura sempre esse teu beijo ...

Em sonhos, é sabido, não se morre
aliás essa é a única vantagem
de, após o vão trabalho
o povo ir de viagem
ao sono fundo
fecundo
em glórias e terrores e venturas

E ai de quem acorda estremunhado
espreitando pela fresta a ver se é dia
a esse as ansiedades
ditam sentenças friamente ao ouvido
ruído
que a noite, a seu costume, transfigura

Não sei se dura sempre esse teu beijo ...


Sérgio Godinho

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