segunda-feira, outubro 20, 2003

País de cagões

"Tou-me cagando para o segredo de justiça" estas são as já tristemente famosas palavras proferidas por Ferro Rodrigues. Digo tristemente famosas porque em primeiro lugar nunca deveriam ter sido divulgadas pela comunicação social, em segundo lugar porque é grave que o presidente de um partido tenha esta opinião, por último, é triste que Ferro rodrigues utilize esta linguagem dizendo "tou-me" em vez de "estou-me" e dizendo "cagando" em vez se "estou-me a cagar" que é bem menos abrasileirado. O engraçado é que a opinião pública ficou mais impressionada com o vernáculo desta frase do que com as pressões que parecem ter sido feitas sobre o poder judicial. A reacção que tenho ouvido na rua é algo do género "Então um deputado com aquela linguagem? devia ter vergonha", pois é, até há quem quem tenha descoberto que os políticos são pessoas como as outras (mas com mais fatos).

De resto, não deixa de ser irónico que a comunicação social que condena Ferro Rodrigues por esta declaração tenha "cagado" (com ou sem aspas que quer dizer o mesmo) no mesmo segredo de justiça ao divulgar o teor das escutas.

A verdade é que se Ferro Rodrigues caga, vem cagando ou já cagou no segredo de justiça, não faz mais do que a grande maioria das pessoas deste país que têm responsabilidades nessa área, assim: Cagam no segredo de justiça os advogados que contam todos os pormenores dos processos nos telejornais, cagam os políticos que os comentam, caga o Procurador Geral quando lhes responde, cagam os media que publicam todos os pormenores sórdidos que conseguem apanhar e por último cagamos todos os portugueses que achamos tudo muito natural e não nos perguntamos por que raio é que estas coisas saem cá para fora e não ficam limitadas às pessoas que têm por dever apurar a verdade.

Acabo com o extracto de um poema do Padre Braz da Costa de Mendonça que poderia ter sido escrito pelos envolvidos no caso da pedofilia dirigindo-se à Justiça:


Por ora tenho cagado,
Mas fico em desconfiança
Que esta contínua cagança
Mate teu rigor cansado.
Mas se o que até aqui hei cagado
Nenhum abalo em ti faz,
As tripas cagar verás,
Cagar a alma, e o teu amor,
A ver se, por tal fedor,
Compaixão de mim terás.

Padre Braz da Costa de Mendonça

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