quinta-feira, outubro 23, 2003

Para fugir ao (nosso) tempo...

A clepsidra

Não de água, mas de mel será a gota
Última da clepsidra. Iremos vê-la
Resplandescer e fundir-se nas trevas,
Mas estarão aí as beatitudes
Que ao rubro Adão Alguém ou Algo deu:
O recíproco amor e o teu aroma,
O acto de entender o universo
Mesmo enganosamente, aquele instante
Em que Vergílio dá com o seu hexâmetro,
O pão da fome e a água da sede,
A delicada neve na atmosfera,
O tacto do volume procurado
Na indolência que há nas prateleiras,
O prazer de uma espada na batalha,
O mar arroteado pla Inglaterra,
O alívio de escutar o esperado acorde
Logo após o silêncio, uma memória
Preciosa e esquecida, esse cansaço,
O instante em que o sono nos dissolve.


Jorge Luis Borges

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